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Resenha: Viagem na Coreografia da Mente, org. Gabriela Queiroz

A antologia Viagem na Coreografia da Mente: A Experiência Simbólica no Fluxo de Consciência, organizada por Gabriela Queiroz e lançada pela ...

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Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, org. Kellen Dias e Leila Mendes

A publicação de Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, organizada por Kellen Dias e Leila Mendes e lançada pela Mondru Edit...

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Resenha: Eu, eu mesmo e o outro, org. Luigi Ricciardi

A antologia "Eu, eu mesmo e o outro", sob a batuta organizacional de Luigi Ricciardi e o selo da Mondru Editora, estabelece-se com...

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Resenha: Realidade estilhaçadas, org. Carlos Freitas

A antologia Realidades Estilhaçadas, organizada por Carlos Freitas e publicada pela Mondru Editora em 2023, apresenta-se como um mosaico lit...

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Resenha: Poesia experimental, org. Jeferson Barbosa

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Resenha: Cartografia poética da ausência, org. Jeferson Barbosa

A antologia Cartografias Poéticas da Ausência, organizada por Jeferson Barbosa e publicada pela Mondru Editora em 2025, apresenta-se como um...

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Academia Mineira de Letras convoca escritores para IV Lançamento Coletivo: inscrições abertas até 5 de abril

Imagem: Lançamento São elegíveis obras publicadas em 2025 e 2026. O evento acontece em julho e a inscrição é gratuita O IV Lançamento Coleti...

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Daniel Renattini confirma presença na FliFantasy com sua tetralogia recém finalizada

Imagem: Divulgação O autor  Daniel Renattini  participa d o Festival  Literário de Fantasia ( FliFantasy ), no Marte Hall (Vila Mariana, São...

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Estreia de Alice Puterman expõe violência sexual e saúde mental em livro que denuncia violência contra mulheres

Imagem: Divulgação Em Candura , publicado pela editora TAUP (Toma Aí Um Poema), a escritora Alice Puterman, de 23 anos, transforma seis anos...

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Resenha: Viagem na Coreografia da Mente, org. Gabriela Queiroz


A antologia Viagem na Coreografia da Mente: A Experiência Simbólica no Fluxo de Consciência, organizada por Gabriela Queiroz e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece-se como um marco de experimentação literária derivado de oficinas imersivas do portal EducaMondru. A obra propõe uma incursão profunda pelos recantos da mente, utilizando o fluxo de consciência não apenas como estilo, mas como ferramenta poética para desbravar vertentes psicológicas e dimensões existenciais. Ao reunir autores como Arthur Petrola, Gabriele Gomes, Juliana Dias, Lincoln de Barros e Patrícia Najjar, o volume constrói uma narrativa polifônica que desafia a organização lógica tradicional em favor de uma apresentação subjetiva e ininterrupta das impressões humanas. O projeto gráfico, pontuado por colagens em tom de stippling, reforça visualmente essa fragmentação do eu, sugerindo que a identidade é uma composição constante de memórias, traumas e percepções imediatas.

A técnica central explorada na coletânea busca mimetizar o funcionamento real da mente humana, capturando pensamentos e sensações no exato momento em que emergem, muitas vezes de forma caótica. Essa abordagem modernista permite que o leitor mergulhe na intimidade dos personagens, onde as fronteiras entre o cósmico e o íntimo, ou entre o onírico e o real, tornam-se propositalmente borradas. A organizadora destaca que a função emotiva do texto e as sobreposições de ideias foram eixos fundamentais durante a criação das histórias, resultando em textos que utilizam a linguagem para pintar quadros internos de grande densidade. Cada conto funciona como um fragmento de uma jornada maior, convidando o público a reconhecer partes de sua própria experiência nos caminhos traçados por vozes singulares que navegam por águas muitas vezes turbulentas.

Neste cenário de "coreografia", a mente não é estática; ela se move entre o peso da finitude e a leveza da memória sensorial. A obra aborda temas universais como a angústia, a busca por aprovação e a resiliência diante da desilusão, transformando a rotina comum em uma metáfora para a própria vida. A transição de uma consciência primordial em busca de um hospedeiro, no conto de Juliana Dias, para a crueza de um depoimento de sobrevivência de uma travesti, no texto de Arthur Petrola, demonstra a amplitude do espectro emocional coberto pela antologia. É nesse contraste entre a vastidão do cosmos e a brutalidade do asfalto que a obra encontra seu equilíbrio, tratando a experiência humana como um fluxo contínuo onde o "real" é apenas uma das muitas camadas da percepção.

A estrutura desta resenha seguirá a proposta de analisar como essa multiplicidade de vozes se harmoniza sob o conceito de fluxo de consciência. Veremos como o simbolismo se manifesta em objetos cotidianos e como a técnica narrativa serve para expor a vulnerabilidade dos personagens diante do tempo e do espaço. O convite inicial feito por Gabriela Queiroz é para uma jornada que vai além da mente, atingindo a essência do ser através da palavra. Assim, a antologia não é apenas uma leitura passiva, mas um processo de reconhecimento mútuo entre autor e leitor, mediado pela técnica literária que ousa transcrever o que é, por natureza, indizível: o movimento constante do pensar. Esta análise se aprofundará na contribuição de cada autor para o mosaico simbólico que define a obra como um todo.

A técnica narrativa do fluxo de consciência, pilar central da antologia, é explorada com maestria para desvelar a fragilidade das conexões humanas e o peso da memória. No conto "Rio Machado", de Lincoln de Barros, o leitor é transportado para o interior de um ônibus em movimento, onde a paisagem verde e as cidades em transformação servem de gatilho para uma reflexão sobre a passagem do tempo e a solidão. O autor utiliza o deslocamento físico como metáfora para o deslocamento interno; a pressa de voltar para casa entra em conflito com a percepção de que, ao chegar, restará apenas o silêncio dos livros. Essa melancolia é acentuada pelo contraste entre as lembranças de viagens passadas, repletas de histórias para contar aos filhos, e o presente "seco por dentro", onde a consultoria técnica em lugares ermos endureceu a antiga suavidade do ser. A escrita de Barros mimetiza o sacolejo do ônibus, saltando entre a indignação política contra a especulação imobiliária e a poesia visual de colonos atravessando um rio em canoas.

Em contrapartida, Patrícia Najjar, no conto "Jaleco Branco", investiga a vulnerabilidade sob a perspectiva de quem está acostumado a deter o controle: um médico de setenta e cinco anos que se torna paciente no próprio hospital onde chefiou plantões. O fluxo de consciência aqui captura o pânico da finitude, onde o jaleco, antes uma armadura de "super-herói", dá lugar a um avental aberto nas costas e a uma "fratura exposta" de impotência. A narrativa mergulha no arrependimento de uma vida pautada por escolhas que privilegiaram a carreira em detrimento do convívio familiar, resultando em "abraços constrangidos" e um divórcio que ecoa o distanciamento emocional. O "cheiro de hospital" e o barulho das macas tornam-se elementos opressores, evidenciando que a mortalidade, antes alheia, agora bate à sua porta. A redenção surge apenas no despertar de uma crise de ansiedade, quando o personagem percebe a "segunda chance" de construir pontes com os netos e filhos.

Já no conto "O Peso da Hipérbole", Gabriela Queiroz utiliza a técnica para expor a crueza de um rompimento amoroso. A frase "Você não presta e eu não te amo mais" atua como uma combustão que esmaga o tórax da protagonista, desencadeando um fluxo de pensamentos que mistura o presente hostil com memórias de traições e encontros clandestinos. A autora trabalha com a sobreposição de dois tempos e dois homens: o toque explosivo de Joaquim e as palavras demolidoras de Fernando. O ambiente de uma loja de roupas, com dondocas observadoras e blazers de linho, serve de cenário para um processo de "indigestão" emocional, onde a personagem se vê como "inescrupulosamente sórdida" e fragmentada. A hipérbole do título não é apenas uma figura de linguagem, mas a medida do excesso que o peito pulsante não consegue mais conter, culminando em uma retórica de vingança onde ela assume a crueldade que antes a vitimava.

Essas três narrativas demonstram a versatilidade da antologia ao tratar a mente como um espaço geográfico acidentado, cheio de "picos de inquietação" e "vales de angústia". Seja na estrada poeirenta de Rondônia, no quarto gelado de um hospital ou no calor de uma tarde de desamor, os autores utilizam o fluxo de consciência para mapear o que Lincoln de Barros chama de "mapa da angústia". A experiência simbólica reside justamente nessa capacidade de transformar o fluxo de pensamentos em uma matéria tátil, onde cada autor oferece ao leitor a oportunidade de navegar por águas turbulentas sem a necessidade de uma narração lógica tradicional. A coletânea prova que, na coreografia da mente, o movimento mais importante é aquele que nos leva ao encontro da nossa própria verdade, por mais fragmentada que ela se apresente.

A dimensão social e a busca incessante por pertencimento emergem com vigor na escrita de Arthur Petrola e Gabriele Gomes, que utilizam o fluxo de consciência para dar voz a sujeitos muitas vezes marginalizados ou perdidos em suas próprias trajetórias. No conto "Depoimento", Petrola constrói a figura de Rochelle Jenna Rock, uma travesti que reivindica sua identidade e história em um monólogo que transita entre o orgulho de ser "fluorescente feito lâmpada" e a dor de ser amada apenas no escuro. A narrativa é um fluxo de indignação e resistência, onde a personagem discute a dualidade de seus nomes — o do "morto" no RG e o da "viva" retirado da televisão — enquanto reflete sobre o ódio que recebe e a capacidade de amar que mantém guardada. Através de frases curtas e incisivas, o autor revela uma consciência que se "esvaziou" e "secou", mas que ainda sonha em criar filhos para protegê-los de um mundo que não entende a diversidade.

Gabriele Gomes, em "Voy a Vivir Más", transporta o leitor para uma festa na piscina nos arredores de Madrid, onde a protagonista se sente alienada e "perdida em sua história". O fluxo de pensamento captura a angústia de quem tateia o futuro sem saber para onde ir, contrastando sua preocupação interna com a leveza quase patética do amigo Luis, que decide "beber mais" em vez de "viver mais". A vida é descrita como um tsunami que avança e toma conta de tudo, uma força que espreme o indivíduo "igual um gaspacho". Essa sensação de inadequação ressurge no conto "Carambolas", também de Gomes, onde a narradora relata a "maldita aprovação" que buscou dos pais durante toda a existência. Através do fluxo de memórias, ela revisita fracassos esportivos e êxitos artísticos ignorados pela família, concluindo que sua única superação real foi o ato infantil de amarrar os cadarços, enquanto o resto de sua produção cultural permaneceu irrelevante para aqueles que deveriam validá-la.

A antologia também explora a consciência animal e o misticismo cotidiano para expandir os limites da percepção. Juliana Dias, em "O Giro do Vaga-lume", propõe um exercício de alteridade ao narrar as múltiplas vidas de um gato chamado Hotaru. O fluxo de consciência animal revela uma compreensão instintiva da morte e do retorno, onde o felino reconhece sua humana através de uma "luz cálida" e do toque que faz sua "dor desenrolar". A narrativa aborda o abandono e o reencontro, sugerindo que existir não é algo perene, mas um ciclo de retornos, culminando na aceitação da vida derradeira ao lado de quem se ama. Essa fluidez temporal é ecoada em "Graça de Bruxa", de Gabriela Queiroz, onde a personagem Anabel transita entre seus 81 anos e as lembranças de sua juventude na Toscana. A "bruxa" temida pelas crianças da rua é, na verdade, uma mulher habitada por histórias e saudades efervescentes, cujo único poder real é a comunicação telepática com seu gato Otávio.

O fechamento da obra com contos como "Sete e Dez" e "Alcachofra" reafirma a temática da fragmentação e do recomeço. Arthur Petrola descreve o nascimento de um filho como uma escolha feita sob luzes brancas que não permitem sombras, onde o pai precisa aprender a respirar e a funcionar em meio à urgência do parto. Já Queiroz encerra o volume com uma metáfora sobre a espera e a procrastinação na fila do pão, onde a protagonista se vê como uma "alcachofra gigante e pesada", carregando a decisão de ser uma "fuga rasgada" em vez de enfrentar as injustiças ou reconectar-se com amigos do passado. Assim, a antologia cumpre sua promessa de ser uma viagem simbólica, onde a coreografia da mente revela que, apesar do caos e da solidão, o fluxo da consciência é o que nos mantém vibrantes e, acima de tudo, humanos.

A culminação desta antologia reside na capacidade de seus autores em transformar a vulnerabilidade em uma força motriz narrativa. No conto "A Cor dos Lagostins", Lincoln de Barros utiliza a música e a memória sensorial para explorar a inquietude mental. O narrador reflete sobre como certas melodias funcionam como um playback sorrateiro, enquanto recorda a transição cromática de lagostins sendo cozinhados na praia — de um verde-oliva militar para um laranja luminoso. Essa "coreografia" mental revela que a consciência está em constante vigília, tentando resgatar o sonhador de imagens surrealistas e oníricas. A conclusão do autor ecoa a necessidade de manter a "mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", sugerindo que a paz só é alcançada quando aceitamos o fluxo incessante de nossos próprios pensamentos.

Essa busca por equilíbrio é duramente contrastada em "Querida Isabela", de Juliana Dias, onde o fluxo de consciência assume a forma de uma carta amarga escrita por Roberto. O texto expõe um colapso doméstico, onde a obsessão da esposa por seu projeto literário e pela cultura japonesa é vista como um ato de egoísmo puro. O simbolismo da caveira com a inscrição memento mori sobre a mesa de Isabela serve como um lembrete constante da finitude que corrói a relação. Roberto sente-se invisível, comparando seu coração a um tambor rasgado, evidenciando como o fluxo de consciência pode ser utilizado para manifestar o ressentimento acumulado e a incapacidade de comunicação entre dois seres que compartilham o mesmo espaço, mas habitam mundos mentais distintos.

A antologia encerra-se com uma reflexão sobre a verdade e a libertação. Patrícia Najjar, em "Astromélias Brancas", descreve o café da manhã como um teatro de protocolos e silêncios constrangedores. O cheiro das flores, que remete a cemitério, e a mesa bamba são metáforas potentes para um casamento que já se desfez, restando apenas a averbação formal do divórcio. No entanto, ao colocar "tudo para fora", a protagonista atinge um estado de graça e lucidez. Da mesma forma, Gabriela Queiroz em "Alcachofra" apresenta a vida como uma lenta ontogenia na fila do pão, onde o indivíduo é uma "alcachofra gigante e pesada" repleta de camadas de memórias e decisões de fuga.

Viagem na Coreografia da Mente é, portanto, uma obra que não oferece respostas fáceis, mas sim um espelho para a fragmentação humana. Através das biografias dos autores, percebemos que suas experiências como psicólogos, advogados, artistas e filósofos alimentam a densidade de cada página. A antologia prova que, embora cada mente execute sua própria dança solitária, a literatura é o palco onde essas coreografias se encontram e ganham significado. Ao final da leitura, o que resta não é o caos, mas a compreensão de que cada fragmento, por mais doloroso que seja, compõe a totalidade do ser em seu eterno fluxo de existir.

Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, org. Kellen Dias e Leila Mendes


A publicação de Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, organizada por Kellen Dias e Leila Mendes e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece um marco fundamental na cartografia literária contemporânea brasileira ao deslocar o eixo da produção intelectual do rigor asséptico dos gabinetes para a vibração orgânica do verso. Esta antologia não se propõe apenas como uma reunião de textos, mas como um manifesto de ocupação. Ao questionarem onde reside o fenômeno poético, as organizadoras evocam a tradição de Adélia Prado para sentenciar que, entre aquelas cujas auras vibram fêmea, não cabe a passividade do gauche. A obra apresenta-se como um emaranhado poético que ressoa como bandeiras em meio a um campo de guerra simbólico, oferecendo rumo e esperança através de vozes que, embora transitem pela Academia, recusam-se a ser domesticadas por ela. O livro é um organismo vivo que abriga o som de mulheres que se refazem incorpóreas em corpos de poesia, desafiando a premissa histórica de que a morada do verso não se pressupõe em boca de mulher. A poética feminina se agiganta aqui, desafiando qualquer limitação imposta por padrões rígidos.

A estrutura da obra reflete a multiplicidade de suas colaboradoras, unindo graduandas, mestras e doutoras de diversas instituições brasileiras, como UFRJ, USP, UERJ e UFBA, em um diálogo que subverte a hierarquia acadêmica tradicional. A poesia aqui é o instrumento de ruptura das barragens impostas pela tradição, honrando o legado de figuras como Conceição Evaristo ao trazer a primeira pessoa para o centro da tese e do poema. Na apresentação, Dias e Mendes provocam o leitor ao indagar se a poesia se demora ou faz morada, ou se flui nômade e errante. A resposta desdobra-se ao longo das páginas: a poesia insiste e se faz presente onde menos se imagina, como a plantinha que brota na rachadura do asfalto, conferindo vida ao impossível. O projeto gráfico, enriquecido pelas colagens de Gabriele Oliveira, reforça essa atmosfera de fragmentação e reconstrução, onde o visual e o verbal se fundem para traduzir a experiência de ser mulher em um ambiente que, historicamente, privilegiou a voz masculina como detentora da razão e da estética.

A análise da obra revela uma tensão constante entre o teto todo seu, desejado por Virgínia Woolf, e as obrigações cotidianas que cercam a mulher contemporânea. A antologia é povoada por bruxas, santas e silenciadas que encontram abrigo nas vozes de autoras como Maria de Jesus, Larissa e Janaína. Há uma consciência profunda de que a escrita feminina é um ato de sobrevivência, um som que se perpetua no grito do parto ou na ausência de poeira da casa. Este primeiro contato com a obra estabelece a base para uma compreensão de que a poética na universidade não é um subproduto do estudo teórico, mas uma força ancestral que utiliza o papiro e a tela que brilha para conjurar novas realidades. A antologia convida o público a partilhar o prazer desse achado, transformando o espaço acadêmico em um seio que nutre novas forças e afaga feridas antigas através do vibrar permanente da palavra.

Neste volume de 112 páginas, a escrita torna-se o caminho para histórias presas que finalmente escapam, onde as emoções transbordam e as sensações preenchem o vazio da "cruel realidade". A obra não ignora a dor; pelo contrário, expõe fraquezas sem medo, revelando a necessidade de dizer de forma clara o que dói. É uma literatura que transita entre o silêncio e a voz, entre a terra, a linha e o canto, buscando edificar a emancipação mental e abolir qualquer tipo de escravidão simbólica. O leitor encontrará aqui um fôlego novo, onde o labor acadêmico e poético se fundem para revelar a força da subversão. É o início de uma jornada onde a poética feminina na universidade é o grito que se faz suporte para romper as barreiras impostas até a morte.

Dando continuidade à análise de Onde mora a poesia, este segmento mergulha na visceralidade dos versos que compõem o corpo da antologia, revelando uma escrita que se recusa ao adorno inútil para abraçar o que há de mais humano e, por vezes, abjeto. A seção inaugural dos poemas, aberta por Duda Piliçari, estabelece um tom de urgência e crueza que desafia a lírica tradicionalmente associada ao feminino. Em poemas como "insaciável", a autora utiliza imagens de sangue metálico, vísceras e o uso de alicates enferrujados para descrever um amor que sufoca e não sacia, transformando o corpo em um campo de exploração anatômica e sensorial que beira o horror gótico. Essa estética do excesso é imediatamente contrastada pela crítica social urbana em "Cachorros Magros", onde a "fauna urbana cosmopolita" é observada sob a ótica da desigualdade, diferenciando o luxo do pedigree da revolta daqueles que se alimentam de destroços. É uma poesia que não teme o chão da cidade nem a ferida aberta.

A obra avança para uma dimensão onde a subjetividade se constrói no espelho do outro e da própria ancestralidade. Alê Magalhães evoca o rio que a corta e o entendimento que advém das nuvens e do tarô, enquanto Janaína Cabello expande esse "eu" para uma defesa coletiva e política. O poema de Cabello é um inventário de resistências: defende-se a educação pública, os Correios, as mulheres trans, indígenas e lésbicas, e até o quiabo e a cerveja gelada, em um manifesto contra a "pasqualização" do português e a favor de uma vida que não seja feita de plástico. Essa busca por autenticidade ecoa em Amanda Castro, que se descreve como "partes de mim mesma", um mosaico de retalhos que costura a rotina afiada com o sonho de cavalgar nas horas mortas como uma amazona selvagem.

A genealogia feminina ganha contornos nítidos em Cristyane Leal, que se define como descendente de terra, linha e canto. Ao listar as tias que a vestiram de noiva, de cena, de força e de mulher, Leal revela que sua arte é, fundamentalmente, um arremate de silêncios e vozes herdadas de "duas peles negras". Essa honestidade brutal sobre as origens e as dores é o que permite a Estela Abreu expor suas fraquezas sem medo, reafirmando-se como uma "estrela de carne e osso" que prefere a paz à guerra, mas que não hesita em dizer claramente quando algo dói. A antologia, portanto, não apenas abriga a poesia, mas dá voz a um "sujeito que fala" e que respira o grito represado por anos contra as chibatas do racismo e do machismo.

A força desta antologia reside na capacidade das autoras de converter o cotidiano doméstico e as pressões da maternidade em matéria-prima para a subversão estética. Iamni Reche personifica essa tensão em seu texto, onde o ato de escrever ocorre no "auge do desespero", enquanto crianças precisam ser buscadas na escola e a comida queima no fogo. Há uma ironia cortante na comparação com o filósofo homem que exige silêncio absoluto e recebe o almoço por debaixo da porta, enquanto a mulher escritora "dá à luz a um texto" em meio ao som de bombeiros e interrupções constantes. Essa "escrevivência" não é um adorno, mas uma estratégia de sobrevivência que permeia os versos de Karlana Souza, cujo arsenal poético se acumula junto à poeira da casa e às louças encardidas, reafirmando que a produção intelectual feminina não pode ser separada das "inquietações das Virgínias" e do dia a dia das Carolinas.

O volume também se debruça sobre a experiência do corpo negro e a resistência às estruturas coloniais que ainda ecoam na universidade. Doris Barros entra na Academia "burlando leis" e sistemas burgueses, carregando autores célebres sob braços cansados nos vagões lotados da Supervia, enquanto recusa ter sua identidade diluída por uma "cor dissimulada". Essa consciência de ocupação é levada ao ápice por Maria Luiza Hastenreiter, que celebra o ato de "aquilombar-se" e "aldear-se" como resposta a séculos de negação de vida e afeto. A escrita, nesse contexto, torna-se um mar ou uma cachoeira que renasce para transbordar a liberdade que o sistema tenta conter.

A multiplicidade de formas de ser mulher é explorada através de metáforas anatômicas e geográficas. Luísa Monteiro propõe uma "antologia cardíaca", catalogando corações que variam do "couraça" de Benedetti ao "de galinha" que satisfaz paladares sádicos, culminando no coração desmetaforizado — o músculo puro que todos possuem. Já Elisa Santana, em sua "Biografia", revela a crueza de ter trinta anos, dois filhos e uma "vontade constante de chorar" enquanto tenta pular sete gerações e recuperar um tempo que lhe foi arrancado pela herança de uma culpa religiosa opressora. Cada poema funciona como um ponto de ancoragem para mentes inquietas que, como sugere Juliana Alvernaz, ficam à deriva entre a precariedade da vida e o rigor da ciência, culminando sempre na necessidade vital da defesa do pensamento próprio.

A conclusão desta análise debruça-se sobre o papel da universidade não apenas como cenário, mas como interlocutora crítica dessa produção. Matile Facó resume o "labor acadêmico" como um espaço onde a palavra atua como fio condutor para quebrar as amarras do padrão, desafiando um ambiente muitas vezes engessado. A poética feminina, ao se manifestar nos corredores das instituições, refina o olhar para a realidade e transforma a informação bruta em "detalhe versado", como propõe Patrícia de Campos Occhiucci. Não se trata de uma escrita isolada, mas de uma produção que busca a "comum ação" e a emancipação mental, conforme a voz marginal e desobediente de Larissa Artiaga. A universidade é, portanto, o território onde essas mulheres deixam de ser "estrangeiras" para povoar o saber com suas próprias escrevivências e perspectivas ancestrais.

Os textos finais da antologia reforçam a ideia de que a poesia é um ato de coragem contra o medo que paralisa. Rai Soares clama para que não se dê ao medo um lugar à mesa, incentivando o riso como um ato ancestral de resistência. Essa coragem manifesta-se também na superação da timidez descrita por Maria de Jesus Santos, que encontra nos versos um jeito de falar sem que ouçam sua voz física, transformando o silêncio em ousadia. A obra encerra-se com o peso da "Certidão de Nascimento" e da "Natureza Morta" de Juliana Pavão, que revisita os rótulos de "menina boa" e "menina cuida" para confrontar um passado doente e a solidão das ruas, onde muitas vezes ninguém estende a mão.

Onde mora a poesia é, em última análise, um inventário de existências que não se dobram à linearidade da história oficial. Das colagens procedurais que ilustram o miolo às biografias que revelam atrizes, psicólogas, palhaças e pesquisadoras, o livro prova que a poética feminina na universidade é o "grito que se faz suporte". É um convite para reconhecer que o conhecimento legítimo também nasce do suor, do sangue menstrual e do cotidiano interrompido. Ao fechar este volume, compreende-se que a morada da poesia é, simultaneamente, o corpo, a casa e a Academia — locais onde essas mulheres insistem em escrever com liberdade e coragem até a morte.

Resenha: Eu, eu mesmo e o outro, org. Luigi Ricciardi


A antologia "Eu, eu mesmo e o outro", sob a batuta organizacional de Luigi Ricciardi e o selo da Mondru Editora, estabelece-se como um campo de experimentação radical onde o biográfico é transmutado em substância narrativa. O livro é o subproduto de uma oficina de escrita autoficcional que reuniu vozes de diferentes gerações e experiências em um exercício de escuta corajosa. Para Ricciardi, escrever sobre si exige um desprendimento que vai além do confessional, exigindo que o autor se mova por um território onde o real e o imaginado se confundem de forma deliberada. Esta obra não se propõe a ser um repositório de verdades absolutas, mas um "registro de travessia", onde cada texto busca organizar o caos da memória e devolvê-lo ao mundo como algo digno de partilha. A diversidade de estilos — que oscila entre o lírico, o ensaístico e o testemunhal — é a força motriz que sustenta a coletânea, revelando que a autoficção é, acima de tudo, um gesto de invenção política e afetiva. Ao fugir dos moldes tradicionais do conto, os autores aqui reunidos preferiram "torcer o gênero" e escavar linguagens que permitissem o florescimento de singularidades em trânsito.

Iniciando o percurso das narrativas, Lindjane Pereira, em "A máquina de costurar o tempo", utiliza a materialidade de uma fotografia amarelada para investigar a fragmentação do eu. A imagem de uma criança sentada sobre a caixa de uma máquina de costura floral torna-se o ponto de partida para uma reflexão sobre a impermanência e a distância intransponível entre a infância e a maturidade. Jane, a protagonista, depara-se com esse registro do passado em uma cômoda, sem saber como ele ali chegou, o que desencadeia um processo de estranhamento diante do espelho. Ao tocar as rugas e a pele flácida, ela busca os vestígios daquela menina que rezava sob o mosquiteiro pela cura da mãe. A narrativa de Pereira captura a melancolia do tempo que "evapora feito a vida", simbolizada pelo chiado da panela de pressão e pelo vapor que se perde no ar. O ato de trancar a gaveta e depois decidir colocar a foto em um porta-retratos simboliza a reconciliação necessária com as múltiplas versões que habitamos, sugerindo que o passado, embora destrancado, precisa de um lugar definido para não devorar o presente.

Anna Mota, em sua contribuição "Pele-poema, Eu-poesia", eleva a discussão sobre a identidade ao patamar da metalinguagem, definindo-se não através de traços físicos, mas como uma construção textual. Para a autora, o espelho é insuficiente; o verdadeiro reconhecimento ocorre no papel, onde ela se percebe feita de sílabas e rascunhos em constante reescrita. Mota brinca com a própria estrutura do nome "Anna", um palíndromo que carrega em si a dúvida e a repetição, servindo como metáfora para as "vinte e seis Annas" que se reúnem em seu sindicato interno de opiniões. A vida é narrada como um processo de (re)conhecimento através das Letras, onde a literatura do outro serve como espelho para preencher os "não ditos" da própria existência. Ao tatuar a poesia na pele e decidir escrever o desenvolvimento de sua história a lápis, Mota abraça a efemeridade e o erro como partes essenciais da subjetividade. Seu texto é uma celebração da "eterna-questão-não-resolvida", reafirmando que o Verbo se faz carne e que a palavra é o único território onde ela pode, de fato, habitar plenamente.

Por fim, a crônica familiar de Mota em "Café da tarde" ancora essas reflexões no cotidiano ordinário, transformando uma mesa de cozinha no alicerce das relações humanas. A autora descreve o ritual diário das 18:15h, onde a família se reúne ao redor de café coado e bolos, mantendo vivas as tradições que significam "casa". A cozinha, com seus eletrodomésticos batizados e toalhas de macramê, torna-se o palco para discussões que vão da política nacional às pequenas zoações domésticas. Através da observação dos tios, da mãe e do pai, Anna compreende que o amor é "pouso, não gaiola", e que a identidade é moldada pelos afetos que transbordam da mesa posta. A narrativa conclui que a resposta para a pergunta "quem sou eu" é sempre incompleta, mas que, certamente, o sujeito é composto por todos os livros lidos, textos escritos e, fundamentalmente, pelos cafés da tarde que funcionam como o "banquete da memória". Este bloco encerra a primeira fase da análise, destacando como a antologia utiliza o íntimo para tocar o universal, transformando a memória afetiva em uma poderosa ferramenta de ficcionalização e autoconhecimento.

A obra prossegue em sua investigação das feridas abertas e da reconstrução da memória com o texto "O que fica depois da chuva?", de Michele Fogaça, que introduz uma nota de realismo trágico à antologia. A narrativa utiliza a casa como uma metáfora do luto: as rachaduras que desfiguram a pintura e o cheiro de mofo que se infiltra com a água suja do teto espelham a desintegração de uma família após uma perda violenta. Durante um jantar ritualístico de polenta com carne moída, a ausência de um dos quatro filhos é palpável; a cadeira vazia e as mãos trêmulas do pai, Adão, sinalizam um silêncio que ninguém consegue consertar. A protagonista, Ana Paula, é assombrada pela imagem do irmão no caixão, onde uma gravata bonita tentava esconder, sem sucesso, o buraco em seu pescoço. O sangue de um dedo cortado acidentalmente funciona como um gatilho sensorial que a transporta de volta à cena do crime, onde o corpo do irmão jazia no chão da cozinha cercado por marcas de batom em copos vazios e o brilho de uma faca de cabo branco sob a luz de velas.

Fogaça explora a crueza da violência doméstica e o destino das vítimas colaterais através do relato de que a esposa do irmão desferiu sete facadas nele enquanto ele dormia. O trauma é amplificado pela imagem da criança, o sobrinho recém-nascido, que foi entregue à família materna para ser amamentado na prisão pela própria assassina. O texto encerra-se com uma melancolia profunda, onde a chuva que cai após o enterro é interpretada como um sinal de salvação da alma, embora o som das sirenes e das algemas permaneça cravado nos ouvidos de Ana. Essa transição da dor individual para o destino trágico demonstra como a autoficção na obra não se furta a lidar com o abjeto e o irremediável, transformando o trauma em uma narrativa que, se não cura, ao menos dá forma ao sofrimento.

Em contrapartida, Luigi Ricciardi introduz um elemento de fabulação especulativa em "Fósseis autoficcionais no interior paulista", deslocando o debate para um futuro distante onde a autoficção é tratada como uma descoberta arqueológica. A narrativa descreve o impacto de uma tese acadêmica — a "Zara Trust" — descoberta em Araraquara, que revela a "irrealidade" do mundo e sugere que a existência humana não passa de uma criação zombeteira de um ser entediado. Ricciardi utiliza o humor ácido para criticar a natureza ficcional do ego, afirmando que somos todos "autoficção", criações de um "deus caprichoso" que decidiu se colocar na própria história para evitar o vazio. A revelação de que o planeta Terra é uma espécie de Matrix literária causa um colapso social, levando os governos a doutrinarem recém-nascidos com kits contendo espelhos, cadernos e pseudônimos para protegê-los do real.

Esta abordagem metaficcional de Ricciardi serve como uma moldura para toda a antologia, reforçando a ideia de que a escrita de si é um gesto de invenção necessário para habitar um mundo que, por si só, carece de sentido intrínseco. O autor brinca com a própria identidade ao mencionar um documento onde apenas fragmentos de seu nome aparecem, sugerindo um "autoapagamento" deliberado. Ao transformar a teoria literária em um evento apocalíptico, o texto sublinha a premissa da oficina: a de que a realidade é um território movediço e que a única verdade possível reside na construção narrativa que fazemos de nós mesmos. Assim, o bloco encerra-se consolidando a visão de que a autoficção é tanto um refúgio íntimo quanto uma estrutura que sustenta a percepção coletiva da existência

O mergulho nas subjetividades familiares e geográficas continua com "Despertar", de Tascira Santonastaso, que narra o retorno da protagonista à casa dos pais após uma separação dolorosa. A viagem, iniciada em um sonho interrompido pelo procedimento de pouso, simboliza o trânsito entre o colapso do cotidiano pessoal e o reencontro com as raízes. O reencontro com o irmão no aeroporto — um homem que "exala liberdade e inconsequência" e dirige um carro repleto de bitucas e areia — introduz um ambiente de caos acolhedor que a personagem reconhece como seu. A cena em que ambos sentam à beira de um píer para molhar os pés revela o contraste entre a aparente segurança do irmão e o "nó na garganta" de quem ainda não processou o desmoronamento de suas projeções de futuro.

A narrativa de Santonastaso dedica atenção especial à figura materna, descrita como uma mulher que "fala como quem respira", cujas palavras se atropelam como os fios de seus artesanatos. A mãe é retratada em um processo de redescoberta tardia, buscando-se em trilhas de montanha e na restauração de móveis velhos, tentando remendar o espírito após anos de silenciamento no papel de esposa. Esse "despertar" materno espelha a própria busca da narradora, que, ao retornar ao quarto da infância, aceita a dúvida e a incerteza como estados serenos. A casa, com sua porta amarela e marcas de altura na parede da cozinha, funciona como um útero geográfico onde a personagem busca forças para reorganizar o caos que deixou para trás.

Já Alan dos Santos, em "À beira do grito", explora as sombras da dependência e a vulnerabilidade emocional vinculada ao desejo de ser ouvido. O autor relata o período de três anos em que foi usuário de cocaína, experiência iniciada no último ano da faculdade por sentir-se vulnerável após um amor não correspondido. A droga é apresentada como uma fuga da introspecção temerosa que a maconha lhe causava, permitindo-lhe uma ilusão de fluidez. Dos Santos descreve as consultas frustrantes com uma psiquiatra do SUS que, embora o elogiasse pela inteligência, falhava em compreender a raiz de sua dor: a incapacidade de falar e de se colocar no mundo através das palavras.

O texto conecta a trajetória pessoal de Santos às manifestações de 2013 no Brasil, onde o autor encontrou nas ruas uma ressonância para seu clamor interno. Ao ser entrevistado por uma repórter sobre as motivações dos manifestantes, sua resposta é desarmante em sua simplicidade: "Da minha parte, eu só quero falar. Acho que todos queremos falar". Esta busca pela "comunidade de falantes" permeia toda a obra de Santos, que utiliza a autoficção para expor as fraturas de um professor de filosofia que, apesar de dominar a teoria, luta diariamente contra os bloqueios que o impedem de pertencer plenamente ao campo da linguagem e da comunicação social.

A densidade emocional da antologia atinge um de seus pontos mais altos com as contribuições de Gianou Viana, que em "Como o brilho da Via Láctea no céu noturno" e "Olhem os cataventos de lata", transporta o leitor para as paisagens áridas e socialmente complexas do sertão baiano. Viana utiliza o olhar de um menino, Geja, para narrar o horror e a beleza que coexistem em comunidades isoladas. No primeiro texto, a chegada de Déia, uma menina de doze anos grávida após um estupro cometido por um homem casado ou um tio da casa, introduz a temática da violência silenciada. A cena do parto solitário no quintal, onde a menina tenta enterrar a própria dor e o fruto de uma violência em uma cova improvisada, é descrita com uma crueza poética avassaladora. O reflexo das estrelas nos olhos do recém-nascido morto, observado por Geja na manhã seguinte, torna-se uma metáfora sobre a vastidão do universo diante da miudeza e da crueldade das tragédias humanas.

Em seu segundo texto, Viana explora a chegada da família de Heleno e Jefferson a um povoado onde o sotaque e as roupas "menos puídas" denunciam a origem forasteira. A admiração de Geja pela letra cursiva e colorida de Jefferson na escola contrasta com a realidade da fome que assola o lugar. A construção dos cataventos de lata, que "riscam o silêncio da paisagem como uma voz de fantasma", revela-se não como um passatempo lúdico, mas como um gesto desesperado de quem tenta "caçar água" e sobrevivência em meio à secura. A obra de Viana destaca-se pela habilidade de converter a precariedade social em imagens de grande impacto visual, onde o metal das latas cortadas canta um "jardim de flores cortantes" contra o peso do destino.

Tascira Santonastaso retorna com "Elogio à tartaruguidade", oferecendo uma reflexão contemporânea sobre o cansaço da vida adulta e a pressão por produtividade. Através da rotina de uma professora e doutoranda que vive entre aulas online e boletos, a autora utiliza um documentário sobre a natureza para encontrar uma nova filosofia de vida. Ao observar uma tartaruga escapar de um crocodilo apenas pela rigidez de seu casco e pela paciência, a narradora questiona a necessidade de "morder o mundo" com agressividade. Ser tartaruga, no contexto da obra, significa ter um abrigo em si mesma e confiar que o tempo resolve o que a força bruta não pode. Esse movimento de introspecção encerra a coletânea reforçando a ideia de que a escrita autoficcional permite ao sujeito encontrar um "passo firme" e seguro em meio ao caos da modernidade.

Finalmente, Luigi Ricciardi encerra a antologia em "No meio do mundo tinha um concurso", onde utiliza o humor e a metalinguagem para narrar sua própria jornada como concurseiro em Macapá. O texto brinca com as referências literárias a Drummond e as dificuldades geográficas de quem atravessa o país em busca de estabilidade profissional. Ricciardi admite escrever o conto "a contragosto" em um domingo frio, fechando o ciclo da oficina que ele mesmo ministrou. A obra "Eu, eu mesmo e o outro" consolida-se, portanto, como uma celebração do que Ricciardi chama de "registro de travessia": um espaço onde o biográfico deixa de ser apenas memória pessoal para se tornar matéria de ficção universal, capaz de provocar deslocamentos, ampliar escutas e dar voz a narrativas que não cabem nos moldes tradicionais.

Resenha: Realidade estilhaçadas, org. Carlos Freitas


A antologia Realidades Estilhaçadas, organizada por Carlos Freitas e publicada pela Mondru Editora em 2023, apresenta-se como um mosaico literário vibrante, fruto de uma oficina de escrita criativa que reuniu autores de diversas origens e trajetórias profissionais. A obra é composta por narrativas curtas que exploram o terreno instável do absurdo, do bizarro e do fantástico, gravitando em torno de um sistema que o organizador descreve como kafkiano. O título do livro é uma metáfora precisa para a experiência de leitura: cada conto atua como um fragmento de vidro que, embora parte de um todo, reflete uma perspectiva única e muitas vezes desconfortável da condição humana, rompendo com a linearidade da normalidade cotidiana para revelar as fendas sob o solo que julgamos firme. Através de vozes que variam entre o lirismo e a crueza, a coletânea propõe uma investigação íntima da alma, carregada de críticas sociais e inquietações que desafiam o leitor a questionar as fronteiras entre o real e o imaginário.

A introdução, assinada por Carlos Freitas, estabelece o tom da obra ao citar Adolfo Bioy Casares, relembrando que as ficções fantásticas são tão antigas quanto o medo. Esse vínculo com o ancestral e o mitológico permeia diversos textos, conectando a modernidade tecnológica — representada por teclados de plástico e telas de silício — aos impulsos primitivos de contar histórias ao redor de fogueiras. A antologia é apresentada não apenas como uma seleção de contos, mas como o resultado de um processo coletivo de trocas e transgressões literárias, onde os autores foram incentivados a ir além das propostas iniciais, resultando em textos instigantes que utilizam o elemento bizarro não apenas como artifício narrativo, mas como ferramenta de argumentação filosófica. Ao mergulhar nesta leitura, percebe-se que o "estilhaçamento" mencionado no título não é apenas temático, mas estrutural, oferecendo uma degustação de estilos variados que orbitam temas como a perda da memória, a brutalidade urbana e as metamorfoses da identidade.

O primeiro grande eixo temático da obra reside na exploração da identidade e da animalidade, onde a linha entre o ser humano e a fera se torna turva. No conto "O que restou da mulher-bicho", de Amanda Pickler, a protagonista vive um despertar doloroso ao morder uma maçã e recordar sua humanidade, confrontando a indiferença de uma sociedade que a tratava como um objeto inconveniente. A narrativa utiliza o asco e o detestável como catalisadores da memória, sugerindo que a consciência humana é, muitas vezes, um fardo de infelicidade e obrigações sociais que sufocam os instintos. Essa mesma tensão entre o homem e o animal é levada a um extremo grotesco em "Rabada", de Alessandro Araujo, onde a obsessão gastronômica por carne canina evolui para uma metamorfose física do próprio narrador. O surgimento de um rabo robusto no corpo do protagonista não é apenas uma punição simbólica, mas uma "obra-prima" que confere um novo equilíbrio e uma nova forma de comunicação, evidenciando como a violência e o desejo podem desfigurar a essência do sujeito até que ele se torne a própria "iguaria" que consumia.

A obra também se destaca pela forma como aborda a violência urbana e a desumanização sob o olhar da infância e da vulnerabilidade. Em "Cinco ou seis", também de Alessandro Araujo, o leitor é colocado no chão de uma quadra escolar durante um tiroteio, sob a perspectiva de uma criança que tenta contar os disparos enquanto segura a mão de uma colega. A banalização do horror é palpável: o sangue que escorre é confundido com chocolate ou gosma quente, e a morte é filtrada por uma inocência que ainda tenta resolver problemas de matemática em meio ao caos. Esta crueza é ecoada em "Sorrir no inferno", de Wilson Stavarengo, onde a figura de um diretor de negócios enfurecido pela perda financeira canaliza sua frustração em um ato de violência gratuita contra pessoas em situação de rua. O contraste entre o sucesso corporativo e a "escória" que consegue sorrir em meio à miséria serve como um comentário ácido sobre a falência da empatia em ambientes regidos pelo medo e pela ganância.

Dando continuidade à análise das fatias que compõem esta obra, o segundo grande pilar de sustentação da antologia reside na fragilidade da memória e na dissolução do tempo, temas que atravessam as narrativas como um vento que apaga pegadas na areia. Em "Espuma do mar", de Larissa Santos, a desintegração física de uma avó é narrada como uma extensão direta do seu esquecimento. A neta observa, em um misto de horror e impotência, como o corpo da idosa desbota e torna-se translúcido à medida que as lembranças de uma vida inteira na Bahia e os laços familiares se esvaem. A metamorfose em "ausência" transforma a personagem em algo impalpável, sugerindo que a existência humana não é definida pela biologia, mas pela capacidade de reter e ser retido na memória do outro. Essa "existência líquida" é um conceito que ecoa em outros contos, onde o solo da realidade se revela instável e as certezas se rasgam diante da inevitabilidade do fim.

A relação com o tempo também se manifesta através da repetição e do automatismo, características marcantes do sistema kafkiano mencionado por Carlos Freitas. No conto "Gotas", de Wilson Stavarengo, a vida é reduzida a uma contagem obsessiva de medicamentos e horários.  O tempo aqui não é um fluxo, mas uma sucessão de embalagens coloridas e copos d'água, onde eventos significativos, como o aniversário da mãe, perdem-se na névoa da rotina medicada. Esse sufocamento pelo cotidiano é compartilhado por Dominique, protagonista de "Os limites borrados da desmemória ao toque do despertador", de Úrsula Antunes. Dominique personifica o "autômato angustiado" do capitalismo moderno, uma alma sugada pelo burnout que esquece a própria identidade em um ciclo vicioso de trabalho e solidão. A revelação final, que conecta seu sonho à realidade de Gabriel, borra definitivamente as fronteiras entre quem sonha e quem é sonhado, estilhaçando a noção de indivíduo isolado.

A presença do bizarro como reflexo do trauma é outra faceta explorada com maestria, especialmente no conto "As moscas só se limpam com as patas da frente", de Carla Ruiz. Através do olhar de uma mosca, testemunhamos a tentativa desesperada de uma mulher de se limpar de lembranças não digeridas, que o texto compara a "alimentos podres" dentro do ser. A sujeira, neste contexto, não é física, mas metafísica — são marcas feitas pelo tempo que nenhum banho pode lavar. O desfecho grotesco, onde a mosca é esmagada contra o lábio da mulher, serve como uma imagem potente da impossibilidade de escapar da própria história ou das partes de si que consideramos "restos". Essa busca por purificação ou redenção também aparece em "O Anjo do Senhor", de Gisela Maria Bester, onde Glória, uma órfã criada em um convento e marcada por sinais de nascença peculiares, tenta encontrar sua voz através do canto sacro. A opressão da reclusão e o medo da própria natureza física culminam em um ato de fuga literal: ao sentir-se ameaçada pela descoberta de sua verdadeira forma, ela "bate asas", transformando o estigma em libertação.

Por fim, a antologia dedica um espaço significativo às relações familiares e às heranças ancestrais, vistas não como porto seguro, mas como espelhos quebrados que refletem distorções. Em "Eu quero escrever minha sorte com cacos de espelho quebrado", Carla Ruiz traça uma genealogia de mulheres cujas vidas foram marcadas pelo trabalho braçal, pela perda de filhos e pelo silêncio. Cada caco de espelho no chão reflete uma característica de uma antepassada — o cabelo da avó, os olhos da mãe —, reforçando a ideia de que a identidade feminina é uma colagem de sobrevivências e dores compartilhadas. Essa mesma temática de despedida e reconhecimento é central em "A menor distância do adeus", de Amanda Pickler, onde uma criança encara o corpo do pai em um caixão e o percebe como uma réplica de cera. O conto realiza um salto temporal impressionante, onde o trajeto de milímetros para um beijo de despedida abarca toda a vida futura da protagonista — seus fracassos, amores e sua própria velhice —, até que o tempo se fecha em um ciclo perfeito de encontro entre pai e filho na morte.

Resenha: Poesia experimental, org. Jeferson Barbosa


A antologia Poesia Experimental, publicada pela editora Mondru em 2023, sob a organização de Jeferson Barbosa, apresenta-se não apenas como um livro, mas como um artefato de resistência estética e provocação visual. Concebida a partir de uma oficina de criação, a obra reúne a produção de sete artistas que se propuseram a tensionar as fronteiras tradicionais entre a literatura e as artes plásticas. O projeto gráfico, assinado pelo próprio organizador, já anuncia em sua capa — marcada por sobreposições tipográficas e linhas verticais — que o leitor não encontrará um fluxo linear de leitura, mas sim um campo de forças onde a palavra é tratada como matéria plástica e sonora. A introdução da obra evoca o pensamento de Décio Pignatari, sublinhando que a poesia deve estar alinhada à música e às artes visuais, afastando-se do mero suporte literário convencional. Essa premissa fundamenta toda a curadoria, que selecionou de três a cinco trabalhos de cada poeta, abrangendo desde poemas-constelação e colagens até sonetos visuais e poemas semióticos.

A estrutura do livro é dividida de forma a destacar tanto a coletividade quanto as vozes individuais. A primeira seção é dedicada aos "Poemas Constelação", um exercício formal onde o espaço da página branca é encarado como um firmamento, e as palavras ou letras funcionam como astros que o leitor deve conectar para gerar sentidos múltiplos. Esse método exige uma participação ativa de quem lê, transformando o ato da leitura em uma performance de montagem e descoberta. Além disso, a antologia presta uma homenagem significativa ao poeta Al-Chaer, reconhecido por sua vasta contribuição ao cenário da poesia visual brasileira. A presença de Al-Chaer, ao lado de artistas emergentes, cria um diálogo geracional que reafirma a vitalidade da poesia experimental contemporânea, mostrando que a desconstrução da linguagem continua sendo um terreno fértil para a expressão das angústias e belezas do século XXI.

O tom da obra é definido pelo lema da Editora Mondru: "Menos formas e flores, mais fomes e fatos". Essa diretriz reflete-se na crueza de muitas composições, que utilizam o preto e branco e a fragmentação para abordar temas como a ansiedade, a rotina urbana, o erotismo e as tensões sociais. Artistas como Marcela Albanesi e Izabel da Rosa exploram, respectivamente, o cruzamento entre psicanálise e desejo, e o "Femartírio", uma denúncia visual da violência contra a mulher. A obra de Guto Rocha, por sua vez, traz uma sensibilidade que acumula emoções "letra a letra", comparando a construção poética a estalagmites. Rafael Martins utiliza elementos digitais e códigos léxicos para mapear a existência, enquanto Fernando Augusto e Lilian Schmeil brincam com a semântica e a colagem de textos publicitários para subverter o consumo de informação.

Em suma, esta antologia é um compêndio de experimentos que desafiam a passividade do olhar. Ao reunir talentos tão diversos sob a égide da experimentação, Jeferson Barbosa entrega ao público um documento vibrante sobre as possibilidades da escrita para além do código verbal. É uma obra que não se encerra em uma leitura única, mas que convida ao retorno constante, onde cada visualização da página pode revelar uma nova constelação de significados.  O livro reafirma que a poesia, em seu estado experimental, é o lugar onde a palavra recupera seu poder de choque e sua capacidade de inventar novos mundos.

A segunda parte desta análise mergulha na estrutura interna da obra e nos desafios pedagógicos que deram origem às composições. A antologia é o resultado material de uma oficina promovida pela Mondru, facilitada por Jeferson Barbosa, onde poetas foram incentivados a tensionar a fronteira entre as artes plásticas e a literatura. Um dos pilares fundamentais dessa jornada foi a exploração do "Poema Constelação", um exercício que propõe ao leitor o papel de astrônomo do texto: as partículas (letras ou palavras) são dispostas de modo que as conexões e os caminhos de leitura sejam múltiplos e não lineares. Esse método de composição, detalhado nas diretrizes da oficina, exigia que o artista escolhesse uma "partícula estelar" e trabalhasse o arranjo visual como um signo representativo da ideia poética.

A seção dedicada a esses poemas exemplifica a diversidade de abordagens:

Marcela Albanesi, em "Constelação Engolida", utiliza linhas orgânicas que conectam termos como "goli", "bca" e "queimando", sugerindo um fluxo digestivo ou destrutivo da palavra.

Izabel da Rosa apresenta "Constelação Memórias", onde as letras de termos como "chama" e "tempo" se dispersam e se enlaçam em redemoinhos, mimetizando a natureza fragmentada da lembrança.

Guto Rocha contribui com "Constelação Poeme-se", uma estrutura geométrica de linhas retas que conectam letras isoladas, forçando o olhar a saltar entre os pontos para reconstruir o verbo.

Rafael Martins expande a técnica em "Constelação Constelei Minhas Palavras", incorporando símbolos como "$", "Я" e "@", integrando a linguagem digital e econômica ao cosmos poético.

Além das constelações, a oficina explorou o "paideuma" e o legado do grupo Noigandres, referências essenciais para a poesia concreta brasileira. Essa herança é visível na preocupação com a espacialização e na economia verbal. O trabalho de Lilian Schmeil, por exemplo, utiliza uma organização quase matemática em sua "Constelação Inelegível", onde parênteses isolam e agrupam sílabas, criando uma partitura visual que desafia a legibilidade imediata. Já Fernando Augusto apresenta a "Constelação .teufel", que utiliza palavras distribuídas de forma a criar um diálogo silencioso e pontuado no espaço da página.

A curadoria cuidadosa, que selecionou entre três a cinco trabalhos de cada artista, garante que a antologia não seja apenas um amontoado de exercícios, mas uma exposição coesa da "voz potente e criativa" de seus sete integrantes. A inclusão de elementos como poemas semióticos, colagens e sonetos visuais demonstra um esforço coletivo para desbravar o "paideuma" contemporâneo, onde a comunicação poética busca atingir o leitor através do impacto visual imediato, antes mesmo da decodificação intelectual. Esta parte da obra reafirma a premissa de Pignatari de que a poesia está, muitas vezes, mais próxima do design e da música do que da narrativa tradicional. A análise volta-se para as individualidades que compõem o corpo da antologia, focando na poética de Fernando Augusto, Guto Rocha e Izabel da Rosa. O trabalho de Fernando Augusto abre este segmento com uma irreverência que flerta com o absurdo e a desconstrução técnica. Em "TO DO LIST", o poeta utiliza uma estética de montagem para sugerir a contratação de um profissional em Lego para remontar o que parece ser a própria raça ou identidade, fragmentando as letras em uma queda livre vertical que termina em caracteres não latinos. Essa brincadeira com a forma prossegue em "Sem Esperança", onde a palavra "semântica" é isolada e esvaziada entre colchetes, sugerindo que o sentido é algo que se perde nos espaços vazios da página.

Guto Rocha traz uma abordagem que une a rigidez mineral à fluidez do sentimento. Em seu poema "Estalagmite", a disposição das palavras mimetiza a formação geológica mencionada no título: o texto cresce de cima para baixo, acumulando a emoção "letra a letra" como calcário depositado, evocando a permanência de uma dor que "ecoa e acumula-se" após o término de um amor. Já em "Fragmentos", Rocha explora a dispersão causada pelo pensamento, onde as palavras "ninho", "página" e "letras" são compactas, desafiando a leitura linear e transformando o texto em um ruído visual que evoca uma "ventania" que derruba o quase-ninho da razão.

A contribuição de Izabel da Rosa é, talvez, uma das mais densas em termos de carga social e emocional dentro da coletânea. Sua produção é marcada pela observação do cotidiano, mas transmutada em experimentação visual radical. O poema "Femartírio" destaca-se como uma peça central de denúncia. Nele, a poeta utiliza a repetição exaustiva das palavras "nada", "noite" e "luta", entrecortadas por acusações como "Tua Culpa" e "MachMonstro", criando uma massa textual sufocante que termina no desaparecimento gradual das vogais da palavra "calada". É uma representação visual do silenciamento e do luto feminino.

Izabel também explora a compressão do tempo em "Rotina", um poema composto quase inteiramente por horários precisos dispostos em listas, que simbolizam a mecanização da vida moderna. Em contraste, "Pressa" utiliza a palavra "asa" repetida em arcos, sugerindo o movimento frenético de um voo que se desintegra em "faltempo" e "pres". Esses três autores demonstram como a poesia experimental da Mondru consegue transitar entre o humor cínico, a melancolia geológica e o ativismo visual, mantendo sempre o rigor formal proposto na oficina de Jeferson Barbosa.

As contribuições de Julia Pantin, Lilian Schmeil, Marcela Albanesi e Rafael Martins, encerrando com a homenagem ao mestre da poesia visual, Al-Chaer. Julia Pantin utiliza a temática das baleias-jubarte para criar uma série de poemas que flertam com a música e o nonsense, utilizando pautas musicais e diagramas de fluxo para representar os cantos desses animais como indícios de transmissão cultural. Suas páginas são verdadeiros mapas de conexões, onde nomes de autores como Rimbaud e Mia Couto flutuam em oceanos de linhas sinuosas. Lilian Schmeil, por sua vez, traz uma estética de colagem em "Usos da lingua" e "Burnout", onde recortes de jornais com termos como "magia negra", "corpo" e "grito" cercam a imagem da estátua de David, sugerindo um bombardeio hipnótico de informações e desejos. Em "(F)Halo da Fome", ela utiliza caracteres especiais e símbolos econômicos em um emaranhado denso que evoca a precariedade digital.

Marcela Albanesi explora a interseção entre a psicanálise e o erotismo em "Freud com Sade", onde o texto se fragmenta em repetições de "qual" e "mas", simulando a hesitação do desejo e a ação que substitui a lembrança. Suas composições visuais, como "Soneto-Transa", utilizam imagens de cordas que se entrelaçam e se rompem, mimetizando a tensão e o clímax do ato sexual. Rafael Martins encerra o ciclo de novos artistas com uma abordagem tecnológica e lúdica. Em "Soneto da Insônia", ele utiliza faixas pretas e fotos de olhos que se abrem e fecham sob o efeito do "hemifumarato de quetiapina", enquanto em "Pés Poesia" ele mapeia o ato de andar como uma partitura poética mapeada por sons e tons.

A antologia culmina na homenagem a Al-Chaer, cujo trabalho "JAZZ" utiliza as formas de um saxofone para criar uma silhueta que é, ao mesmo tempo, imagem e melodia. Seus "poemas-partitura" e a obra "mar", que transforma a palavra em ondas fluidas, reafirmam sua maestria em alinhar a poesia às artes plásticas. A trajetória de Al-Chaer, com participações em bienais internacionais, serve de farol para os demais integrantes desta edição.

Conclui-se que a Antologia de Poesia Experimental da Mondru é um documento fundamental da produção contemporânea brasileira. Ao abraçar o lema de "menos formas e flores, mais fomes e fatos", Jeferson Barbosa organizou um compêndio que não se limita a enfeitar a página, mas que a utiliza como campo de batalha para a linguagem. Esta obra, lançada na FLIP 2023, prova que a poesia experimental continua sendo um dispositivo potente para desbravar as fissuras da língua e as complexidades do mundo moderno.

Resenha: Cartografia poética da ausência, org. Jeferson Barbosa


A antologia Cartografias Poéticas da Ausência, organizada por Jeferson Barbosa e publicada pela Mondru Editora em 2025, apresenta-se como um inventário sensível das lacunas que compõem a experiência humana contemporânea. A obra é o resultado tangível de uma oficina de poesia narrativa, na qual um grupo diverso de escritores brasileiros foi desafiado a explorar a materialidade da palavra como agente de narração. O título não é meramente ilustrativo; ele reflete a constatação de que o tema da falta — seja ela de um amor, de um lar, da memória ou da justiça social — serviu como o eixo gravitacional que uniu as produções dos autores envolvidos. Ao navegar por estas páginas, o leitor é convidado a percorrer mapas de uma geografia do sentir, onde a poesia não apenas narra fatos, mas dá corpo e contorno ao que não está mais lá, mas insiste em habitar os silêncios.

O livro está estruturado de forma a destacar as vozes individuais dos participantes, apresentando seleções de poemas de autores como Alan dos Santos, Aloisio Romanelli, Andreia Dacoregio, entre outros, antes de culminar na seção especial intitulada Poema-Notícia. Esta organização permite que a pluralidade de estilos e origens — que vão do Rio de Janeiro a Santa Catarina e Goiás — enriqueça a temática central. A apresentação de Jeferson Barbosa estabelece que a poesia narrativa aqui praticada não é apenas o contar de uma história em versos, mas a busca pela tensão entre o "contar e o cantar", utilizando ritmos e aliterações para condensar o tempo e transformar o enredo em uma vivência respirada.

Um dos pilares da obra é a investigação das invisibilidades sociais e dos traumas coletivos. Através do rigor poético, os autores dão voz ao trabalhador massacrado pela rotina, ao luto impregnado nas paredes e à memória que teima em assombrar. Essa abordagem insere a antologia no vibrante cenário da poesia contemporânea brasileira, que cada vez mais abraça formas híbridas para tratar de questões críticas da sociedade. A obra se propõe, portanto, como um testemunho da potência da poesia em transformar o vazio em algo palpável e significativo.

As colagens que ilustram o miolo e a capa, também de autoria de Jeferson Barbosa, complementam visualmente a proposta cartográfica, sugerindo relevos e territórios que ecoam as "geografias da falta" exploradas nos textos. Esta integração entre o visual e o textual reforça a ideia de que o livro é um objeto de imersão, concebido para mapear a presença fantasmagórica do que foi perdido. A seguir, analisaremos como os primeiros autores da coletânea articulam essas ausências através de suas narrativas particulares.

A primeira parte da antologia mergulha em realidades urbanas cruas, onde a ausência se manifesta como uma privação de dignidade e segurança. Alan dos Santos, abrindo a sucessão de vozes, apresenta poemas que tencionam a experiência do vício e a consciência de classe. Em "Minha Sina", o autor narra o encontro com o "corpo negro" em um galpão sinistro da Rua Augusta, em São Paulo, transformando a busca pela droga em uma reflexão sobre a utilidade humana e o abandono social. A narrativa poética de Santos é marcada por uma autoconsciência afiada, especialmente em "Corrida", onde ele reconhece o "pacto da branquitude" que o protege da repressão policial no morro São Bento, enquanto outros correm pelo perigo real. A ausência aqui é a da justiça equânime, substituída por um mecanismo de compensação biológica e social.

Dando continuidade a essa exploração dos espaços, Aloisio Romanelli, psiquiatra e poeta mineiro, traz uma perspectiva mais íntima e geracional. Em "A Grande Mudança [Em Três Tempos]", ele cartografa a transição do interior para o litoral, revelando como o deslocamento geográfico não apaga as necessidades do corpo e do afeto. A figura da avó surge como o ponto de ancoragem e cura para o filho doente, evidenciando que a ausência do "corpo materno" pode ser fatal, enquanto sua presença é o único remédio eficaz contra a angústia do desconhecido. Romanelli utiliza a quebra de versos para mimetizar o definhamento e a recuperação, integrando a forma poética ao sofrimento narrado.

A voz de Andreia Dacoregio introduz um elemento mais onírico e ancestral à coletânea. Em "Sobre Raízes e Asas", ela explora a linhagem feminina — avó, mãe e neta — como uma trama que atravessa o tempo. Para a autora, a história é "futuríssima", e a ausência é combatida através da germinação constante de novas identidades. No entanto, em "Extinção", Dacoregio confronta o leitor com a desintegração do eu: a perda do nome, da memória e da capacidade de decifrar o mundo ao redor. É uma cartografia do apagamento, onde o ser se torna "impreciso" e a cidade se transforma em um "caldo grosso" e ininteligível.

Esses autores iniciais estabelecem o tom da antologia ao demonstrar que a poesia narrativa é um campo de batalha entre a memória e o esquecimento. Seja nas biqueiras de São Paulo, nos morros de Santos ou nos interiores mineiros, a palavra atua como uma bússola que tenta situar o sujeito em meio ao vazio. A organização de Jeferson Barbosa garante que cada poema funcione como uma coordenada específica nesse mapa da falta, preparando o terreno para as investigações sobre a finitude e o cotidiano que seguem nas seções posteriores.

A metade da antologia aprofunda-se em como o tempo e o esquecimento corroem as estruturas do cotidiano. Carmo Antonio utiliza versos curtos e ritmados para descrever o "Fluxo", uma metáfora para a "grande babel" das ruas onde o indivíduo é sugado por becos fétidos e multidões que somem. Em "Espelho", o autor aborda a ausência de autorreconhecimento, retratando o tempo como algo "inexorável" que torna o reflexo diário um estranho desorientado. Essa desconstrução da imagem pessoal é ecoada por Celia Ribeiro, que foca nos "Descompassos Cotidianos" e na invisibilidade social. Ribeiro narra a crueza de quem não tem "direito nem de morar embaixo de um viaduto", expondo como a existência dos marginalizados incomoda mais a sociedade do que "carro velho abandonado".

A obra prossegue com a voz de Gisela Maria Bester, que traz uma densidade quase antropológica ao falar de "Alfenim". Ela resgata a memória da cana e dos engenhos de Pirenópolis e Vila Boa para denunciar uma "morta história" de corpos negros açoitados como gado, simbolizada pela figura de Chico, o "ausente". Bester mapeia a ganância humana em seu "Poemário da Descida", lamentando a "murcha civilização" que sacrifica a natureza e os animais sob a "monstruosidade do olho capital". A ausência, para ela, é a perda da conexão ética com a vida em todas as suas formas.

Guto Rocha e João Roberto exploram a melancolia dos encontros perdidos e da rotina desfeita. Rocha, em "A Salada de Alface", utiliza memórias de infância e o cheiro de encrenca para desenhar a "cratera enorme" deixada por uma figura paterna autoritária. Já João Roberto trabalha com a fragmentação silábica em "Volta.", onde os espasmos das pernas e a arritmia dos sentimentos traduzem o luto e a busca por um rosto que não se pode nomear. O gato Agripina, em seus poemas, torna-se a única testemunha de uma dor que "venceu a si".

Encerrando este bloco, Karolliny Diniz apresenta uma narrativa visceral sobre a finitude em "Rascunho". Ela personifica a Morte como uma "artesã em ato" que lapida o corpo caído entre paredes cobertas de piche. Diniz inverte a perspectiva tradicional: a ausência não é apenas o que falta aos vivos, mas a observação do mundo por quem já não faz parte dele, "eternizada como rascunho". Essa sucessão de vozes reforça que a cartografia proposta por Jeferson Barbosa é um mapeamento de ruínas — físicas, sociais e emocionais — que sustentam a arquitetura da memória brasileira.







O encerramento de Cartografias Poéticas da Ausência consolida a obra como um exercício de alteridade e denúncia. Miguel Rosa introduz a figura do "bicho prosaico", equiparando pombos e homens em sua luta para compreender a inutilidade de viver em cidades cinzas e protocolares. Sua poesia mapeia o Glicério, onde enxurradas levam "mesas, roupas, filhas", deixando apenas uma esperança corroída para as crianças. Essa mesma fragilidade física é explorada por Patricia Najjar em "A Bailarina", onde a beleza da dança esconde uma "calosidade profunda" e uma coluna que arria, revelando que o preço do propósito é, muitas vezes, a solidão e o desgaste do próprio corpo.

A inovação gráfica e estrutural atinge seu ápice com Rafael Martins e Wilson Stavarengo. Martins utiliza recursos visuais — como bips de monitor cardíaco e arame farpado — para narrar o fim de Serafim Pimenta, cujas lembranças são "bichos que dormem embaixo da língua". Ele questiona a "Gravidade do Nome" e o não-pertencimento de quem é tratado como um animal estranho, transformando o poema em um corpo que vaza pelas brechas. Stavarengo, por sua vez, dá voz a José Basílio, um maltrapilho que carrega o mundo em uma sacola, onde o viaduto é o céu e a cachaça cura a dor. Suas estatísticas poéticas sobre o feminicídio de Marias e Sandras transformam números frios em "sentimentos azuis que não poderão mais ser devolvidos".

A seção final, Poema-Notícia, é o ponto de convergência onde a objetividade jornalística é atravessada pelo olhar da poesia. Os autores realizam uma "escavação poética", encontrando humanidade em manchetes sobre tragédias ambientais ou sociais. Aloisio Romanelli transmutou um alerta meteorológico em uma cena de desabamento sem melodia; Celia Ribeiro transformou a condenação de um humorista em uma tragédia sobre o bullying escolar ; e Miguel Rosa usou a invasão de um macaco-prego a um escritório para sugerir que o homem "não precisava viver daquele jeito".

Em suma, a antologia organizada por Jeferson Barbosa não apenas cataloga ausências, mas as torna instrumentos de crítica e reflexão. Ao dar voz a personagens silenciados pelo relato factual — desde o Papa Francisco até a "Mulher Abacaxi" presa em um elevador —, a obra cumpre sua promessa de ser uma geografia do sentir. O livro termina onde a consciência do leitor começa: na percepção de que, por trás de cada vazio mapeado, existe uma história que insiste em ser contada para não ser esquecida.

Academia Mineira de Letras convoca escritores para IV Lançamento Coletivo: inscrições abertas até 5 de abril

Imagem: Lançamento


São elegíveis obras publicadas em 2025 e 2026. O evento acontece em julho e a inscrição é gratuita

O IV Lançamento Coletivo da Academia Mineira de Letras acontece no dia 04 de julho, sábado, das 10h às 13h30. A instituição convida autores interessados a inscreverem suas obras do dia 1º ao dia 5 de abril de 2026, por meio de formulário online. Na ocasião do lançamento, além de sessão de autógrafos e venda dos livros, um representante de cada obra selecionada terá até 15 minutos de fala, para apresentar seu livro – seja por meio de leitura de trecho, comentário, conversa. Assim, o autor ou um representante do livro deve estar presente no dia do lançamento coletivo, para participar desse momento de fala.

Link para inscrições online: https://forms.gle/NQpkUDM8D3d6ii7o9

Após a inscrição online, um exemplar do livro deve ser enviado à instituição para apreciação, com data de postagem até o dia 05 de abril. A obra deve ser postada em nome de “AML – Lançamento coletivo 2026 – A/C: Tiago Portilho”, para o endereço da AML (R. da Bahia, 1466 – Centro, Belo Horizonte – MG, 30160-011). Dentre as regras para inscrição, estão: só são elegíveis livros publicados em 2025 ou 2026; cada autor só poderá inscrever uma única obra; e, no caso de obra coletiva, a inscrição deverá ser feita pelo organizador principal.

As obras inscritas serão apreciadas por uma comissão indicada pelo presidente da Academia Mineira de Letras, a fim de que sejam selecionadas as 10 (dez) que participarão do lançamento coletivo. A participação é gratuita, sendo de responsabilidade do autor a organização dos livros no dia e horário indicados acima. A AML se encarregará da divulgação e da disponibilização do local, compreendendo foyer e auditório. Tudo relativo à comercialização das obras fica a cargo dos autores e editoras. Quaisquer dúvidas podem ser esclarecidas no e-mail: contato@academiamineiradeletras.org.br.

Este projeto acontece no âmbito do “Plano Anual Academia Mineira de Letras – AML (PRONAC 256536)”, previsto na Lei Federal de Incentivo à Cultura. E tem patrocínio do Instituto Unimed-BH – por meio do incentivo fiscal de mais de cinco mil e novecentos médicos cooperados e colaboradores. A AML tem o apoio da Minasmáquinas.


INSTITUTO UNIMED-BH

O Instituto Unimed-BH completa 23 anos em 2026 e conta com o apoio de mais de 5,9 mil médicos cooperados e colaboradores da Unimed-BH. A associação sem fins lucrativos foi criada em 2003 e, desde então, desenvolve projetos socioculturais e socioambientais visando à formação da cidadania, estimulando o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas, fomentando a economia criativa, gerando trabalho e renda para diversas famílias, valorizando espaços públicos e o meio ambiente, através de projetos patrocinados, apoiados e realizados em cinco linhas de atuação: Comunidade, Voluntariado, Meio Ambiente, Adoção de Espaços Públicos e Cultura, que estão alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.


Acesse www.institutounimedbh.com.br e saiba mais.

SERVIÇO 

Inscrições abertas para o IV Lançamento Coletivo da AML

Prazo: 01 a 05 de abril

Link de inscrição: https://forms.gle/NQpkUDM8D3d6ii7o9

Inscrições gratuitas.




Daniel Renattini confirma presença na FliFantasy com sua tetralogia recém finalizada

Imagem: Divulgação


O autor Daniel Renattini participa do Festival Literário de Fantasia (FliFantasy), no Marte Hall (Vila Mariana, São Paulo), que acontece no dia 26 de abril, de 10h às 19h. O evento  contará com programação voltada à literatura fantástica, reunindo autores e leitores em um espaço dedicado ao gênero. O escritor, que finalizou recentemente (2025) sua tetralogia jovem "Herdeiros das Estrelas", levará suas obras e terá momentos de troca com o público.

Durante a feira, Daniel Renattini estará disponível para sessão de autógrafos, conversa com leitores e venda de seus livros. A participação no evento reforça a proximidade do autor com seu público e a importância do contato direto com leitores em espaços literários independentes.“Cada evento que vou é sempre motivo de empolgação, porque sei que vou reencontrar leitores e conhecer novos. Ter esse contato direto com o público, ainda mais em uma feira focada em literatura de fantasia, torna o trabalho de autor ainda mais prazeroso”, afirma o escritor.

Além dos livros, o público também poderá adquirir produtos relacionados à obra, como broches metalizados, marcadores holográficos e outros itens voltados aos fãs da série. Para quem deseja mergulhar completamente no universo criado pelo autor, haverá ainda opções de combos especiais com a tetralogia completa.

Os interessados podem saber mais pelo perfil oficial do autor em suas redes sociais. 

Participação também na feira Up!ABC

Daniel Renattini também estará na feira Up!ABC que acontece na Universidade de São Caetano do Sul (USCS) nos dias 18 e 19 de abril, das 11h às 19h.”Sou apaixonado por feiras como essa, que trazem no corredor dos artistas, quase que inteiramente ilustradores. Sendo escritor, é sempre uma oportunidade de conhecer o trabalho dos outros e também apresentar o meu. Tanto para o público quanto para os vizinhos de mesa”, afirma o autor.

Sobre o autor

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(Foto/Divulgação- Proibido o uso de IA)

Daniel Renattini é escritor, UX designer e apaixonado por dublagem e artes manuais. De forma independente, realizou quatro campanhas bem-sucedidas pelo Catarse com a tetralogia Herdeiros das Estrelas. Também é autor do conto infantojuvenil de fantasmas Quem deixou esse hóspede entrar?, publicado na Amazon KDP. Mora em São Paulo e tem como marca registrada o uso de um gorro de nariz durante o frio.

Estreia de Alice Puterman expõe violência sexual e saúde mental em livro que denuncia violência contra mulheres

Imagem: Divulgação

Em Candura, publicado pela editora TAUP (Toma Aí Um Poema), a escritora Alice Puterman, de 23 anos, transforma seis anos de produção literária em um livro de poesia que articula experiência pessoal e denúncia social. A obra se insere em um contexto alarmante: o crescimento contínuo dos índices de violência sexual no Brasil. Longe de se limitar ao relato autobiográfico, o livro se constrói como um testemunho lírico sobre trauma, saúde mental e a complexa reconstrução do corpo feminino como território de resistência.

Há livros que nascem do desejo de narrar; outros emergem como uma necessidade vital. Candura pertence a esta segunda categoria. Escrito entre a adolescência e o início da vida adulta da autora, o livro apresenta uma escrita que não busca amenizar a dor, mas nomeá-la. Já no prefácio, Puterman estabelece o tom da obra ao afirmar: “Não sei dizer onde a violência começa em minha vida, mas a violência que eu cometo a mim mesma termina com estas páginas”. A frase delimita o eixo central do livro: a tentativa de interromper ciclos de autoviolência por meio da palavra.

O processo de criação da obra teve início quando a autora tinha 17 anos, após sobreviver a um estupro coletivo. Em seguida, o isolamento imposto pela pandemia de Covid-19 intensificou a escrita, que passou a funcionar como ferramenta de elaboração psíquica diante do trauma. Diagnosticada com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Puterman afirma que não escrevia com o objetivo de publicação, mas como forma de criar um espaço possível para a dor. “Estupro é um assunto sobre o qual não se pode falar. Então, eu espero que meu livro seja esse lugar onde a dor de todas nós pode existir”, declara. O lançamento da obra está previsto para ocorrer na Casa Gueto, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026, no final de julho.

Nos poemas que compõem Candura, o corpo feminino é apresentado sob múltiplas camadas simbólicas. Inicialmente marcado pela invasão e pela violência, ele também se reconfigura como espaço de resistência e disputa. Em um dos textos mais contundentes, a autora escreve: “O primeiro homem que viu meu corpo nu / não disse que ele parecia uma obra de arte / não o tocou com amor / mas, em vez disso / ele se sentiu em casa / trouxe convidados / e deram uma festa”. A imagem da casa — recorrente ao longo do livro — sintetiza o corpo violado, posteriormente submetido a um processo de reconstrução que não apaga as marcas da violência. “A partir do momento que eu redecorar as paredes, a casa será outra / mas não é / é a mesma que eles arrombaram e depredaram”, escreve, evidenciando a dificuldade de reabitá-lo.

A poesia de Puterman recusa tanto a simplificação quanto a romantização da dor. Seus versos transitam entre a crueza do trauma e momentos de delicadeza que tensionam a ideia de fragilidade. Ao rejeitar o lugar passivo da vítima, a autora propõe outra perspectiva sobre força e vulnerabilidade. “A força masculina de nada me interessa — violência. Quero falar de mulheres que levantam carros para salvar suas crias, as que por amor, dão e ganham vida”, afirma no prefácio, reposicionando o feminino como potência, ainda que atravessado pela dor.

O título da obra também opera como chave interpretativa. “Candura”, tradicionalmente associada à ingenuidade e pureza, é ressignificada ao longo do livro. Puterman observa que mulheres são historicamente ensinadas a cultivar essa característica, muitas vezes percebida como fraqueza. Ao se declarar uma mulher autista — grupo estatisticamente mais vulnerável à violência —, a autora confronta essa leitura. “Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé”, escreve, convertendo o que seria fragilidade em elemento de permanência.

A saúde mental constitui outro eixo estruturante da obra. A autora aborda episódios de internação, tentativas de suicídio e tratamentos psiquiátricos, incluindo o uso de eletroconvulsoterapia. Em um dos poemas finais, sintetiza esse percurso: “Tentei / me matar / dez vezes / mas / tentei / viver / tão mais / e assim descobri / que estes ossos / brilham / como porcelana chinesa”. A imagem aponta para uma noção de cura que não implica apagamento, mas incorporação das fissuras. Nesse sentido, a escrita surge como prática de sobrevivência: não como fechamento de feridas, mas como possibilidade de nomeá-las — condição essencial para enfrentá-las.

Nascida em Petrópolis (RJ), em 2002, Alice Monteiro Puterman vive atualmente no Rio de Janeiro. Graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), dedica-se também à área de inclusão. Autista, com histórico de mutismo seletivo na infância, encontrou na escrita sua primeira forma de expressão. Alfabetizada precocemente, aos três anos, fez da palavra seu principal instrumento de elaboração subjetiva e resistência diante das múltiplas violências e desafios de saúde que atravessam sua trajetória.

Candura, seu livro de estreia, encerra, segundo a autora, um ciclo marcado pelo medo e inaugura uma nova forma de se reconhecer: “Eu finalmente me vejo sobrevivente, e não mais vítima”. Atualmente, Puterman trabalha em um novo projeto literário, também no campo da poesia, dando continuidade a uma escrita que se consolida como espaço de memória, denúncia e reinvenção.



Ficha técnica
Título: Candura: uma história de sobrevivência feminina
Autora: Alice Puterman
Gênero: Poesia
Editora: TAUP (Toma Aí Um Poema)
Ano de publicação: 2025
Número de páginas: 94

Resenha: Viagem na Coreografia da Mente, org. Gabriela Queiroz


A antologia Viagem na Coreografia da Mente: A Experiência Simbólica no Fluxo de Consciência, organizada por Gabriela Queiroz e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece-se como um marco de experimentação literária derivado de oficinas imersivas do portal EducaMondru. A obra propõe uma incursão profunda pelos recantos da mente, utilizando o fluxo de consciência não apenas como estilo, mas como ferramenta poética para desbravar vertentes psicológicas e dimensões existenciais. Ao reunir autores como Arthur Petrola, Gabriele Gomes, Juliana Dias, Lincoln de Barros e Patrícia Najjar, o volume constrói uma narrativa polifônica que desafia a organização lógica tradicional em favor de uma apresentação subjetiva e ininterrupta das impressões humanas. O projeto gráfico, pontuado por colagens em tom de stippling, reforça visualmente essa fragmentação do eu, sugerindo que a identidade é uma composição constante de memórias, traumas e percepções imediatas.

A técnica central explorada na coletânea busca mimetizar o funcionamento real da mente humana, capturando pensamentos e sensações no exato momento em que emergem, muitas vezes de forma caótica. Essa abordagem modernista permite que o leitor mergulhe na intimidade dos personagens, onde as fronteiras entre o cósmico e o íntimo, ou entre o onírico e o real, tornam-se propositalmente borradas. A organizadora destaca que a função emotiva do texto e as sobreposições de ideias foram eixos fundamentais durante a criação das histórias, resultando em textos que utilizam a linguagem para pintar quadros internos de grande densidade. Cada conto funciona como um fragmento de uma jornada maior, convidando o público a reconhecer partes de sua própria experiência nos caminhos traçados por vozes singulares que navegam por águas muitas vezes turbulentas.

Neste cenário de "coreografia", a mente não é estática; ela se move entre o peso da finitude e a leveza da memória sensorial. A obra aborda temas universais como a angústia, a busca por aprovação e a resiliência diante da desilusão, transformando a rotina comum em uma metáfora para a própria vida. A transição de uma consciência primordial em busca de um hospedeiro, no conto de Juliana Dias, para a crueza de um depoimento de sobrevivência de uma travesti, no texto de Arthur Petrola, demonstra a amplitude do espectro emocional coberto pela antologia. É nesse contraste entre a vastidão do cosmos e a brutalidade do asfalto que a obra encontra seu equilíbrio, tratando a experiência humana como um fluxo contínuo onde o "real" é apenas uma das muitas camadas da percepção.

A estrutura desta resenha seguirá a proposta de analisar como essa multiplicidade de vozes se harmoniza sob o conceito de fluxo de consciência. Veremos como o simbolismo se manifesta em objetos cotidianos e como a técnica narrativa serve para expor a vulnerabilidade dos personagens diante do tempo e do espaço. O convite inicial feito por Gabriela Queiroz é para uma jornada que vai além da mente, atingindo a essência do ser através da palavra. Assim, a antologia não é apenas uma leitura passiva, mas um processo de reconhecimento mútuo entre autor e leitor, mediado pela técnica literária que ousa transcrever o que é, por natureza, indizível: o movimento constante do pensar. Esta análise se aprofundará na contribuição de cada autor para o mosaico simbólico que define a obra como um todo.

A técnica narrativa do fluxo de consciência, pilar central da antologia, é explorada com maestria para desvelar a fragilidade das conexões humanas e o peso da memória. No conto "Rio Machado", de Lincoln de Barros, o leitor é transportado para o interior de um ônibus em movimento, onde a paisagem verde e as cidades em transformação servem de gatilho para uma reflexão sobre a passagem do tempo e a solidão. O autor utiliza o deslocamento físico como metáfora para o deslocamento interno; a pressa de voltar para casa entra em conflito com a percepção de que, ao chegar, restará apenas o silêncio dos livros. Essa melancolia é acentuada pelo contraste entre as lembranças de viagens passadas, repletas de histórias para contar aos filhos, e o presente "seco por dentro", onde a consultoria técnica em lugares ermos endureceu a antiga suavidade do ser. A escrita de Barros mimetiza o sacolejo do ônibus, saltando entre a indignação política contra a especulação imobiliária e a poesia visual de colonos atravessando um rio em canoas.

Em contrapartida, Patrícia Najjar, no conto "Jaleco Branco", investiga a vulnerabilidade sob a perspectiva de quem está acostumado a deter o controle: um médico de setenta e cinco anos que se torna paciente no próprio hospital onde chefiou plantões. O fluxo de consciência aqui captura o pânico da finitude, onde o jaleco, antes uma armadura de "super-herói", dá lugar a um avental aberto nas costas e a uma "fratura exposta" de impotência. A narrativa mergulha no arrependimento de uma vida pautada por escolhas que privilegiaram a carreira em detrimento do convívio familiar, resultando em "abraços constrangidos" e um divórcio que ecoa o distanciamento emocional. O "cheiro de hospital" e o barulho das macas tornam-se elementos opressores, evidenciando que a mortalidade, antes alheia, agora bate à sua porta. A redenção surge apenas no despertar de uma crise de ansiedade, quando o personagem percebe a "segunda chance" de construir pontes com os netos e filhos.

Já no conto "O Peso da Hipérbole", Gabriela Queiroz utiliza a técnica para expor a crueza de um rompimento amoroso. A frase "Você não presta e eu não te amo mais" atua como uma combustão que esmaga o tórax da protagonista, desencadeando um fluxo de pensamentos que mistura o presente hostil com memórias de traições e encontros clandestinos. A autora trabalha com a sobreposição de dois tempos e dois homens: o toque explosivo de Joaquim e as palavras demolidoras de Fernando. O ambiente de uma loja de roupas, com dondocas observadoras e blazers de linho, serve de cenário para um processo de "indigestão" emocional, onde a personagem se vê como "inescrupulosamente sórdida" e fragmentada. A hipérbole do título não é apenas uma figura de linguagem, mas a medida do excesso que o peito pulsante não consegue mais conter, culminando em uma retórica de vingança onde ela assume a crueldade que antes a vitimava.

Essas três narrativas demonstram a versatilidade da antologia ao tratar a mente como um espaço geográfico acidentado, cheio de "picos de inquietação" e "vales de angústia". Seja na estrada poeirenta de Rondônia, no quarto gelado de um hospital ou no calor de uma tarde de desamor, os autores utilizam o fluxo de consciência para mapear o que Lincoln de Barros chama de "mapa da angústia". A experiência simbólica reside justamente nessa capacidade de transformar o fluxo de pensamentos em uma matéria tátil, onde cada autor oferece ao leitor a oportunidade de navegar por águas turbulentas sem a necessidade de uma narração lógica tradicional. A coletânea prova que, na coreografia da mente, o movimento mais importante é aquele que nos leva ao encontro da nossa própria verdade, por mais fragmentada que ela se apresente.

A dimensão social e a busca incessante por pertencimento emergem com vigor na escrita de Arthur Petrola e Gabriele Gomes, que utilizam o fluxo de consciência para dar voz a sujeitos muitas vezes marginalizados ou perdidos em suas próprias trajetórias. No conto "Depoimento", Petrola constrói a figura de Rochelle Jenna Rock, uma travesti que reivindica sua identidade e história em um monólogo que transita entre o orgulho de ser "fluorescente feito lâmpada" e a dor de ser amada apenas no escuro. A narrativa é um fluxo de indignação e resistência, onde a personagem discute a dualidade de seus nomes — o do "morto" no RG e o da "viva" retirado da televisão — enquanto reflete sobre o ódio que recebe e a capacidade de amar que mantém guardada. Através de frases curtas e incisivas, o autor revela uma consciência que se "esvaziou" e "secou", mas que ainda sonha em criar filhos para protegê-los de um mundo que não entende a diversidade.

Gabriele Gomes, em "Voy a Vivir Más", transporta o leitor para uma festa na piscina nos arredores de Madrid, onde a protagonista se sente alienada e "perdida em sua história". O fluxo de pensamento captura a angústia de quem tateia o futuro sem saber para onde ir, contrastando sua preocupação interna com a leveza quase patética do amigo Luis, que decide "beber mais" em vez de "viver mais". A vida é descrita como um tsunami que avança e toma conta de tudo, uma força que espreme o indivíduo "igual um gaspacho". Essa sensação de inadequação ressurge no conto "Carambolas", também de Gomes, onde a narradora relata a "maldita aprovação" que buscou dos pais durante toda a existência. Através do fluxo de memórias, ela revisita fracassos esportivos e êxitos artísticos ignorados pela família, concluindo que sua única superação real foi o ato infantil de amarrar os cadarços, enquanto o resto de sua produção cultural permaneceu irrelevante para aqueles que deveriam validá-la.

A antologia também explora a consciência animal e o misticismo cotidiano para expandir os limites da percepção. Juliana Dias, em "O Giro do Vaga-lume", propõe um exercício de alteridade ao narrar as múltiplas vidas de um gato chamado Hotaru. O fluxo de consciência animal revela uma compreensão instintiva da morte e do retorno, onde o felino reconhece sua humana através de uma "luz cálida" e do toque que faz sua "dor desenrolar". A narrativa aborda o abandono e o reencontro, sugerindo que existir não é algo perene, mas um ciclo de retornos, culminando na aceitação da vida derradeira ao lado de quem se ama. Essa fluidez temporal é ecoada em "Graça de Bruxa", de Gabriela Queiroz, onde a personagem Anabel transita entre seus 81 anos e as lembranças de sua juventude na Toscana. A "bruxa" temida pelas crianças da rua é, na verdade, uma mulher habitada por histórias e saudades efervescentes, cujo único poder real é a comunicação telepática com seu gato Otávio.

O fechamento da obra com contos como "Sete e Dez" e "Alcachofra" reafirma a temática da fragmentação e do recomeço. Arthur Petrola descreve o nascimento de um filho como uma escolha feita sob luzes brancas que não permitem sombras, onde o pai precisa aprender a respirar e a funcionar em meio à urgência do parto. Já Queiroz encerra o volume com uma metáfora sobre a espera e a procrastinação na fila do pão, onde a protagonista se vê como uma "alcachofra gigante e pesada", carregando a decisão de ser uma "fuga rasgada" em vez de enfrentar as injustiças ou reconectar-se com amigos do passado. Assim, a antologia cumpre sua promessa de ser uma viagem simbólica, onde a coreografia da mente revela que, apesar do caos e da solidão, o fluxo da consciência é o que nos mantém vibrantes e, acima de tudo, humanos.

A culminação desta antologia reside na capacidade de seus autores em transformar a vulnerabilidade em uma força motriz narrativa. No conto "A Cor dos Lagostins", Lincoln de Barros utiliza a música e a memória sensorial para explorar a inquietude mental. O narrador reflete sobre como certas melodias funcionam como um playback sorrateiro, enquanto recorda a transição cromática de lagostins sendo cozinhados na praia — de um verde-oliva militar para um laranja luminoso. Essa "coreografia" mental revela que a consciência está em constante vigília, tentando resgatar o sonhador de imagens surrealistas e oníricas. A conclusão do autor ecoa a necessidade de manter a "mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", sugerindo que a paz só é alcançada quando aceitamos o fluxo incessante de nossos próprios pensamentos.

Essa busca por equilíbrio é duramente contrastada em "Querida Isabela", de Juliana Dias, onde o fluxo de consciência assume a forma de uma carta amarga escrita por Roberto. O texto expõe um colapso doméstico, onde a obsessão da esposa por seu projeto literário e pela cultura japonesa é vista como um ato de egoísmo puro. O simbolismo da caveira com a inscrição memento mori sobre a mesa de Isabela serve como um lembrete constante da finitude que corrói a relação. Roberto sente-se invisível, comparando seu coração a um tambor rasgado, evidenciando como o fluxo de consciência pode ser utilizado para manifestar o ressentimento acumulado e a incapacidade de comunicação entre dois seres que compartilham o mesmo espaço, mas habitam mundos mentais distintos.

A antologia encerra-se com uma reflexão sobre a verdade e a libertação. Patrícia Najjar, em "Astromélias Brancas", descreve o café da manhã como um teatro de protocolos e silêncios constrangedores. O cheiro das flores, que remete a cemitério, e a mesa bamba são metáforas potentes para um casamento que já se desfez, restando apenas a averbação formal do divórcio. No entanto, ao colocar "tudo para fora", a protagonista atinge um estado de graça e lucidez. Da mesma forma, Gabriela Queiroz em "Alcachofra" apresenta a vida como uma lenta ontogenia na fila do pão, onde o indivíduo é uma "alcachofra gigante e pesada" repleta de camadas de memórias e decisões de fuga.

Viagem na Coreografia da Mente é, portanto, uma obra que não oferece respostas fáceis, mas sim um espelho para a fragmentação humana. Através das biografias dos autores, percebemos que suas experiências como psicólogos, advogados, artistas e filósofos alimentam a densidade de cada página. A antologia prova que, embora cada mente execute sua própria dança solitária, a literatura é o palco onde essas coreografias se encontram e ganham significado. Ao final da leitura, o que resta não é o caos, mas a compreensão de que cada fragmento, por mais doloroso que seja, compõe a totalidade do ser em seu eterno fluxo de existir.

Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, org. Kellen Dias e Leila Mendes


A publicação de Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, organizada por Kellen Dias e Leila Mendes e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece um marco fundamental na cartografia literária contemporânea brasileira ao deslocar o eixo da produção intelectual do rigor asséptico dos gabinetes para a vibração orgânica do verso. Esta antologia não se propõe apenas como uma reunião de textos, mas como um manifesto de ocupação. Ao questionarem onde reside o fenômeno poético, as organizadoras evocam a tradição de Adélia Prado para sentenciar que, entre aquelas cujas auras vibram fêmea, não cabe a passividade do gauche. A obra apresenta-se como um emaranhado poético que ressoa como bandeiras em meio a um campo de guerra simbólico, oferecendo rumo e esperança através de vozes que, embora transitem pela Academia, recusam-se a ser domesticadas por ela. O livro é um organismo vivo que abriga o som de mulheres que se refazem incorpóreas em corpos de poesia, desafiando a premissa histórica de que a morada do verso não se pressupõe em boca de mulher. A poética feminina se agiganta aqui, desafiando qualquer limitação imposta por padrões rígidos.

A estrutura da obra reflete a multiplicidade de suas colaboradoras, unindo graduandas, mestras e doutoras de diversas instituições brasileiras, como UFRJ, USP, UERJ e UFBA, em um diálogo que subverte a hierarquia acadêmica tradicional. A poesia aqui é o instrumento de ruptura das barragens impostas pela tradição, honrando o legado de figuras como Conceição Evaristo ao trazer a primeira pessoa para o centro da tese e do poema. Na apresentação, Dias e Mendes provocam o leitor ao indagar se a poesia se demora ou faz morada, ou se flui nômade e errante. A resposta desdobra-se ao longo das páginas: a poesia insiste e se faz presente onde menos se imagina, como a plantinha que brota na rachadura do asfalto, conferindo vida ao impossível. O projeto gráfico, enriquecido pelas colagens de Gabriele Oliveira, reforça essa atmosfera de fragmentação e reconstrução, onde o visual e o verbal se fundem para traduzir a experiência de ser mulher em um ambiente que, historicamente, privilegiou a voz masculina como detentora da razão e da estética.

A análise da obra revela uma tensão constante entre o teto todo seu, desejado por Virgínia Woolf, e as obrigações cotidianas que cercam a mulher contemporânea. A antologia é povoada por bruxas, santas e silenciadas que encontram abrigo nas vozes de autoras como Maria de Jesus, Larissa e Janaína. Há uma consciência profunda de que a escrita feminina é um ato de sobrevivência, um som que se perpetua no grito do parto ou na ausência de poeira da casa. Este primeiro contato com a obra estabelece a base para uma compreensão de que a poética na universidade não é um subproduto do estudo teórico, mas uma força ancestral que utiliza o papiro e a tela que brilha para conjurar novas realidades. A antologia convida o público a partilhar o prazer desse achado, transformando o espaço acadêmico em um seio que nutre novas forças e afaga feridas antigas através do vibrar permanente da palavra.

Neste volume de 112 páginas, a escrita torna-se o caminho para histórias presas que finalmente escapam, onde as emoções transbordam e as sensações preenchem o vazio da "cruel realidade". A obra não ignora a dor; pelo contrário, expõe fraquezas sem medo, revelando a necessidade de dizer de forma clara o que dói. É uma literatura que transita entre o silêncio e a voz, entre a terra, a linha e o canto, buscando edificar a emancipação mental e abolir qualquer tipo de escravidão simbólica. O leitor encontrará aqui um fôlego novo, onde o labor acadêmico e poético se fundem para revelar a força da subversão. É o início de uma jornada onde a poética feminina na universidade é o grito que se faz suporte para romper as barreiras impostas até a morte.

Dando continuidade à análise de Onde mora a poesia, este segmento mergulha na visceralidade dos versos que compõem o corpo da antologia, revelando uma escrita que se recusa ao adorno inútil para abraçar o que há de mais humano e, por vezes, abjeto. A seção inaugural dos poemas, aberta por Duda Piliçari, estabelece um tom de urgência e crueza que desafia a lírica tradicionalmente associada ao feminino. Em poemas como "insaciável", a autora utiliza imagens de sangue metálico, vísceras e o uso de alicates enferrujados para descrever um amor que sufoca e não sacia, transformando o corpo em um campo de exploração anatômica e sensorial que beira o horror gótico. Essa estética do excesso é imediatamente contrastada pela crítica social urbana em "Cachorros Magros", onde a "fauna urbana cosmopolita" é observada sob a ótica da desigualdade, diferenciando o luxo do pedigree da revolta daqueles que se alimentam de destroços. É uma poesia que não teme o chão da cidade nem a ferida aberta.

A obra avança para uma dimensão onde a subjetividade se constrói no espelho do outro e da própria ancestralidade. Alê Magalhães evoca o rio que a corta e o entendimento que advém das nuvens e do tarô, enquanto Janaína Cabello expande esse "eu" para uma defesa coletiva e política. O poema de Cabello é um inventário de resistências: defende-se a educação pública, os Correios, as mulheres trans, indígenas e lésbicas, e até o quiabo e a cerveja gelada, em um manifesto contra a "pasqualização" do português e a favor de uma vida que não seja feita de plástico. Essa busca por autenticidade ecoa em Amanda Castro, que se descreve como "partes de mim mesma", um mosaico de retalhos que costura a rotina afiada com o sonho de cavalgar nas horas mortas como uma amazona selvagem.

A genealogia feminina ganha contornos nítidos em Cristyane Leal, que se define como descendente de terra, linha e canto. Ao listar as tias que a vestiram de noiva, de cena, de força e de mulher, Leal revela que sua arte é, fundamentalmente, um arremate de silêncios e vozes herdadas de "duas peles negras". Essa honestidade brutal sobre as origens e as dores é o que permite a Estela Abreu expor suas fraquezas sem medo, reafirmando-se como uma "estrela de carne e osso" que prefere a paz à guerra, mas que não hesita em dizer claramente quando algo dói. A antologia, portanto, não apenas abriga a poesia, mas dá voz a um "sujeito que fala" e que respira o grito represado por anos contra as chibatas do racismo e do machismo.

A força desta antologia reside na capacidade das autoras de converter o cotidiano doméstico e as pressões da maternidade em matéria-prima para a subversão estética. Iamni Reche personifica essa tensão em seu texto, onde o ato de escrever ocorre no "auge do desespero", enquanto crianças precisam ser buscadas na escola e a comida queima no fogo. Há uma ironia cortante na comparação com o filósofo homem que exige silêncio absoluto e recebe o almoço por debaixo da porta, enquanto a mulher escritora "dá à luz a um texto" em meio ao som de bombeiros e interrupções constantes. Essa "escrevivência" não é um adorno, mas uma estratégia de sobrevivência que permeia os versos de Karlana Souza, cujo arsenal poético se acumula junto à poeira da casa e às louças encardidas, reafirmando que a produção intelectual feminina não pode ser separada das "inquietações das Virgínias" e do dia a dia das Carolinas.

O volume também se debruça sobre a experiência do corpo negro e a resistência às estruturas coloniais que ainda ecoam na universidade. Doris Barros entra na Academia "burlando leis" e sistemas burgueses, carregando autores célebres sob braços cansados nos vagões lotados da Supervia, enquanto recusa ter sua identidade diluída por uma "cor dissimulada". Essa consciência de ocupação é levada ao ápice por Maria Luiza Hastenreiter, que celebra o ato de "aquilombar-se" e "aldear-se" como resposta a séculos de negação de vida e afeto. A escrita, nesse contexto, torna-se um mar ou uma cachoeira que renasce para transbordar a liberdade que o sistema tenta conter.

A multiplicidade de formas de ser mulher é explorada através de metáforas anatômicas e geográficas. Luísa Monteiro propõe uma "antologia cardíaca", catalogando corações que variam do "couraça" de Benedetti ao "de galinha" que satisfaz paladares sádicos, culminando no coração desmetaforizado — o músculo puro que todos possuem. Já Elisa Santana, em sua "Biografia", revela a crueza de ter trinta anos, dois filhos e uma "vontade constante de chorar" enquanto tenta pular sete gerações e recuperar um tempo que lhe foi arrancado pela herança de uma culpa religiosa opressora. Cada poema funciona como um ponto de ancoragem para mentes inquietas que, como sugere Juliana Alvernaz, ficam à deriva entre a precariedade da vida e o rigor da ciência, culminando sempre na necessidade vital da defesa do pensamento próprio.

A conclusão desta análise debruça-se sobre o papel da universidade não apenas como cenário, mas como interlocutora crítica dessa produção. Matile Facó resume o "labor acadêmico" como um espaço onde a palavra atua como fio condutor para quebrar as amarras do padrão, desafiando um ambiente muitas vezes engessado. A poética feminina, ao se manifestar nos corredores das instituições, refina o olhar para a realidade e transforma a informação bruta em "detalhe versado", como propõe Patrícia de Campos Occhiucci. Não se trata de uma escrita isolada, mas de uma produção que busca a "comum ação" e a emancipação mental, conforme a voz marginal e desobediente de Larissa Artiaga. A universidade é, portanto, o território onde essas mulheres deixam de ser "estrangeiras" para povoar o saber com suas próprias escrevivências e perspectivas ancestrais.

Os textos finais da antologia reforçam a ideia de que a poesia é um ato de coragem contra o medo que paralisa. Rai Soares clama para que não se dê ao medo um lugar à mesa, incentivando o riso como um ato ancestral de resistência. Essa coragem manifesta-se também na superação da timidez descrita por Maria de Jesus Santos, que encontra nos versos um jeito de falar sem que ouçam sua voz física, transformando o silêncio em ousadia. A obra encerra-se com o peso da "Certidão de Nascimento" e da "Natureza Morta" de Juliana Pavão, que revisita os rótulos de "menina boa" e "menina cuida" para confrontar um passado doente e a solidão das ruas, onde muitas vezes ninguém estende a mão.

Onde mora a poesia é, em última análise, um inventário de existências que não se dobram à linearidade da história oficial. Das colagens procedurais que ilustram o miolo às biografias que revelam atrizes, psicólogas, palhaças e pesquisadoras, o livro prova que a poética feminina na universidade é o "grito que se faz suporte". É um convite para reconhecer que o conhecimento legítimo também nasce do suor, do sangue menstrual e do cotidiano interrompido. Ao fechar este volume, compreende-se que a morada da poesia é, simultaneamente, o corpo, a casa e a Academia — locais onde essas mulheres insistem em escrever com liberdade e coragem até a morte.

Resenha: Eu, eu mesmo e o outro, org. Luigi Ricciardi


A antologia "Eu, eu mesmo e o outro", sob a batuta organizacional de Luigi Ricciardi e o selo da Mondru Editora, estabelece-se como um campo de experimentação radical onde o biográfico é transmutado em substância narrativa. O livro é o subproduto de uma oficina de escrita autoficcional que reuniu vozes de diferentes gerações e experiências em um exercício de escuta corajosa. Para Ricciardi, escrever sobre si exige um desprendimento que vai além do confessional, exigindo que o autor se mova por um território onde o real e o imaginado se confundem de forma deliberada. Esta obra não se propõe a ser um repositório de verdades absolutas, mas um "registro de travessia", onde cada texto busca organizar o caos da memória e devolvê-lo ao mundo como algo digno de partilha. A diversidade de estilos — que oscila entre o lírico, o ensaístico e o testemunhal — é a força motriz que sustenta a coletânea, revelando que a autoficção é, acima de tudo, um gesto de invenção política e afetiva. Ao fugir dos moldes tradicionais do conto, os autores aqui reunidos preferiram "torcer o gênero" e escavar linguagens que permitissem o florescimento de singularidades em trânsito.

Iniciando o percurso das narrativas, Lindjane Pereira, em "A máquina de costurar o tempo", utiliza a materialidade de uma fotografia amarelada para investigar a fragmentação do eu. A imagem de uma criança sentada sobre a caixa de uma máquina de costura floral torna-se o ponto de partida para uma reflexão sobre a impermanência e a distância intransponível entre a infância e a maturidade. Jane, a protagonista, depara-se com esse registro do passado em uma cômoda, sem saber como ele ali chegou, o que desencadeia um processo de estranhamento diante do espelho. Ao tocar as rugas e a pele flácida, ela busca os vestígios daquela menina que rezava sob o mosquiteiro pela cura da mãe. A narrativa de Pereira captura a melancolia do tempo que "evapora feito a vida", simbolizada pelo chiado da panela de pressão e pelo vapor que se perde no ar. O ato de trancar a gaveta e depois decidir colocar a foto em um porta-retratos simboliza a reconciliação necessária com as múltiplas versões que habitamos, sugerindo que o passado, embora destrancado, precisa de um lugar definido para não devorar o presente.

Anna Mota, em sua contribuição "Pele-poema, Eu-poesia", eleva a discussão sobre a identidade ao patamar da metalinguagem, definindo-se não através de traços físicos, mas como uma construção textual. Para a autora, o espelho é insuficiente; o verdadeiro reconhecimento ocorre no papel, onde ela se percebe feita de sílabas e rascunhos em constante reescrita. Mota brinca com a própria estrutura do nome "Anna", um palíndromo que carrega em si a dúvida e a repetição, servindo como metáfora para as "vinte e seis Annas" que se reúnem em seu sindicato interno de opiniões. A vida é narrada como um processo de (re)conhecimento através das Letras, onde a literatura do outro serve como espelho para preencher os "não ditos" da própria existência. Ao tatuar a poesia na pele e decidir escrever o desenvolvimento de sua história a lápis, Mota abraça a efemeridade e o erro como partes essenciais da subjetividade. Seu texto é uma celebração da "eterna-questão-não-resolvida", reafirmando que o Verbo se faz carne e que a palavra é o único território onde ela pode, de fato, habitar plenamente.

Por fim, a crônica familiar de Mota em "Café da tarde" ancora essas reflexões no cotidiano ordinário, transformando uma mesa de cozinha no alicerce das relações humanas. A autora descreve o ritual diário das 18:15h, onde a família se reúne ao redor de café coado e bolos, mantendo vivas as tradições que significam "casa". A cozinha, com seus eletrodomésticos batizados e toalhas de macramê, torna-se o palco para discussões que vão da política nacional às pequenas zoações domésticas. Através da observação dos tios, da mãe e do pai, Anna compreende que o amor é "pouso, não gaiola", e que a identidade é moldada pelos afetos que transbordam da mesa posta. A narrativa conclui que a resposta para a pergunta "quem sou eu" é sempre incompleta, mas que, certamente, o sujeito é composto por todos os livros lidos, textos escritos e, fundamentalmente, pelos cafés da tarde que funcionam como o "banquete da memória". Este bloco encerra a primeira fase da análise, destacando como a antologia utiliza o íntimo para tocar o universal, transformando a memória afetiva em uma poderosa ferramenta de ficcionalização e autoconhecimento.

A obra prossegue em sua investigação das feridas abertas e da reconstrução da memória com o texto "O que fica depois da chuva?", de Michele Fogaça, que introduz uma nota de realismo trágico à antologia. A narrativa utiliza a casa como uma metáfora do luto: as rachaduras que desfiguram a pintura e o cheiro de mofo que se infiltra com a água suja do teto espelham a desintegração de uma família após uma perda violenta. Durante um jantar ritualístico de polenta com carne moída, a ausência de um dos quatro filhos é palpável; a cadeira vazia e as mãos trêmulas do pai, Adão, sinalizam um silêncio que ninguém consegue consertar. A protagonista, Ana Paula, é assombrada pela imagem do irmão no caixão, onde uma gravata bonita tentava esconder, sem sucesso, o buraco em seu pescoço. O sangue de um dedo cortado acidentalmente funciona como um gatilho sensorial que a transporta de volta à cena do crime, onde o corpo do irmão jazia no chão da cozinha cercado por marcas de batom em copos vazios e o brilho de uma faca de cabo branco sob a luz de velas.

Fogaça explora a crueza da violência doméstica e o destino das vítimas colaterais através do relato de que a esposa do irmão desferiu sete facadas nele enquanto ele dormia. O trauma é amplificado pela imagem da criança, o sobrinho recém-nascido, que foi entregue à família materna para ser amamentado na prisão pela própria assassina. O texto encerra-se com uma melancolia profunda, onde a chuva que cai após o enterro é interpretada como um sinal de salvação da alma, embora o som das sirenes e das algemas permaneça cravado nos ouvidos de Ana. Essa transição da dor individual para o destino trágico demonstra como a autoficção na obra não se furta a lidar com o abjeto e o irremediável, transformando o trauma em uma narrativa que, se não cura, ao menos dá forma ao sofrimento.

Em contrapartida, Luigi Ricciardi introduz um elemento de fabulação especulativa em "Fósseis autoficcionais no interior paulista", deslocando o debate para um futuro distante onde a autoficção é tratada como uma descoberta arqueológica. A narrativa descreve o impacto de uma tese acadêmica — a "Zara Trust" — descoberta em Araraquara, que revela a "irrealidade" do mundo e sugere que a existência humana não passa de uma criação zombeteira de um ser entediado. Ricciardi utiliza o humor ácido para criticar a natureza ficcional do ego, afirmando que somos todos "autoficção", criações de um "deus caprichoso" que decidiu se colocar na própria história para evitar o vazio. A revelação de que o planeta Terra é uma espécie de Matrix literária causa um colapso social, levando os governos a doutrinarem recém-nascidos com kits contendo espelhos, cadernos e pseudônimos para protegê-los do real.

Esta abordagem metaficcional de Ricciardi serve como uma moldura para toda a antologia, reforçando a ideia de que a escrita de si é um gesto de invenção necessário para habitar um mundo que, por si só, carece de sentido intrínseco. O autor brinca com a própria identidade ao mencionar um documento onde apenas fragmentos de seu nome aparecem, sugerindo um "autoapagamento" deliberado. Ao transformar a teoria literária em um evento apocalíptico, o texto sublinha a premissa da oficina: a de que a realidade é um território movediço e que a única verdade possível reside na construção narrativa que fazemos de nós mesmos. Assim, o bloco encerra-se consolidando a visão de que a autoficção é tanto um refúgio íntimo quanto uma estrutura que sustenta a percepção coletiva da existência

O mergulho nas subjetividades familiares e geográficas continua com "Despertar", de Tascira Santonastaso, que narra o retorno da protagonista à casa dos pais após uma separação dolorosa. A viagem, iniciada em um sonho interrompido pelo procedimento de pouso, simboliza o trânsito entre o colapso do cotidiano pessoal e o reencontro com as raízes. O reencontro com o irmão no aeroporto — um homem que "exala liberdade e inconsequência" e dirige um carro repleto de bitucas e areia — introduz um ambiente de caos acolhedor que a personagem reconhece como seu. A cena em que ambos sentam à beira de um píer para molhar os pés revela o contraste entre a aparente segurança do irmão e o "nó na garganta" de quem ainda não processou o desmoronamento de suas projeções de futuro.

A narrativa de Santonastaso dedica atenção especial à figura materna, descrita como uma mulher que "fala como quem respira", cujas palavras se atropelam como os fios de seus artesanatos. A mãe é retratada em um processo de redescoberta tardia, buscando-se em trilhas de montanha e na restauração de móveis velhos, tentando remendar o espírito após anos de silenciamento no papel de esposa. Esse "despertar" materno espelha a própria busca da narradora, que, ao retornar ao quarto da infância, aceita a dúvida e a incerteza como estados serenos. A casa, com sua porta amarela e marcas de altura na parede da cozinha, funciona como um útero geográfico onde a personagem busca forças para reorganizar o caos que deixou para trás.

Já Alan dos Santos, em "À beira do grito", explora as sombras da dependência e a vulnerabilidade emocional vinculada ao desejo de ser ouvido. O autor relata o período de três anos em que foi usuário de cocaína, experiência iniciada no último ano da faculdade por sentir-se vulnerável após um amor não correspondido. A droga é apresentada como uma fuga da introspecção temerosa que a maconha lhe causava, permitindo-lhe uma ilusão de fluidez. Dos Santos descreve as consultas frustrantes com uma psiquiatra do SUS que, embora o elogiasse pela inteligência, falhava em compreender a raiz de sua dor: a incapacidade de falar e de se colocar no mundo através das palavras.

O texto conecta a trajetória pessoal de Santos às manifestações de 2013 no Brasil, onde o autor encontrou nas ruas uma ressonância para seu clamor interno. Ao ser entrevistado por uma repórter sobre as motivações dos manifestantes, sua resposta é desarmante em sua simplicidade: "Da minha parte, eu só quero falar. Acho que todos queremos falar". Esta busca pela "comunidade de falantes" permeia toda a obra de Santos, que utiliza a autoficção para expor as fraturas de um professor de filosofia que, apesar de dominar a teoria, luta diariamente contra os bloqueios que o impedem de pertencer plenamente ao campo da linguagem e da comunicação social.

A densidade emocional da antologia atinge um de seus pontos mais altos com as contribuições de Gianou Viana, que em "Como o brilho da Via Láctea no céu noturno" e "Olhem os cataventos de lata", transporta o leitor para as paisagens áridas e socialmente complexas do sertão baiano. Viana utiliza o olhar de um menino, Geja, para narrar o horror e a beleza que coexistem em comunidades isoladas. No primeiro texto, a chegada de Déia, uma menina de doze anos grávida após um estupro cometido por um homem casado ou um tio da casa, introduz a temática da violência silenciada. A cena do parto solitário no quintal, onde a menina tenta enterrar a própria dor e o fruto de uma violência em uma cova improvisada, é descrita com uma crueza poética avassaladora. O reflexo das estrelas nos olhos do recém-nascido morto, observado por Geja na manhã seguinte, torna-se uma metáfora sobre a vastidão do universo diante da miudeza e da crueldade das tragédias humanas.

Em seu segundo texto, Viana explora a chegada da família de Heleno e Jefferson a um povoado onde o sotaque e as roupas "menos puídas" denunciam a origem forasteira. A admiração de Geja pela letra cursiva e colorida de Jefferson na escola contrasta com a realidade da fome que assola o lugar. A construção dos cataventos de lata, que "riscam o silêncio da paisagem como uma voz de fantasma", revela-se não como um passatempo lúdico, mas como um gesto desesperado de quem tenta "caçar água" e sobrevivência em meio à secura. A obra de Viana destaca-se pela habilidade de converter a precariedade social em imagens de grande impacto visual, onde o metal das latas cortadas canta um "jardim de flores cortantes" contra o peso do destino.

Tascira Santonastaso retorna com "Elogio à tartaruguidade", oferecendo uma reflexão contemporânea sobre o cansaço da vida adulta e a pressão por produtividade. Através da rotina de uma professora e doutoranda que vive entre aulas online e boletos, a autora utiliza um documentário sobre a natureza para encontrar uma nova filosofia de vida. Ao observar uma tartaruga escapar de um crocodilo apenas pela rigidez de seu casco e pela paciência, a narradora questiona a necessidade de "morder o mundo" com agressividade. Ser tartaruga, no contexto da obra, significa ter um abrigo em si mesma e confiar que o tempo resolve o que a força bruta não pode. Esse movimento de introspecção encerra a coletânea reforçando a ideia de que a escrita autoficcional permite ao sujeito encontrar um "passo firme" e seguro em meio ao caos da modernidade.

Finalmente, Luigi Ricciardi encerra a antologia em "No meio do mundo tinha um concurso", onde utiliza o humor e a metalinguagem para narrar sua própria jornada como concurseiro em Macapá. O texto brinca com as referências literárias a Drummond e as dificuldades geográficas de quem atravessa o país em busca de estabilidade profissional. Ricciardi admite escrever o conto "a contragosto" em um domingo frio, fechando o ciclo da oficina que ele mesmo ministrou. A obra "Eu, eu mesmo e o outro" consolida-se, portanto, como uma celebração do que Ricciardi chama de "registro de travessia": um espaço onde o biográfico deixa de ser apenas memória pessoal para se tornar matéria de ficção universal, capaz de provocar deslocamentos, ampliar escutas e dar voz a narrativas que não cabem nos moldes tradicionais.

Resenha: Realidade estilhaçadas, org. Carlos Freitas


A antologia Realidades Estilhaçadas, organizada por Carlos Freitas e publicada pela Mondru Editora em 2023, apresenta-se como um mosaico literário vibrante, fruto de uma oficina de escrita criativa que reuniu autores de diversas origens e trajetórias profissionais. A obra é composta por narrativas curtas que exploram o terreno instável do absurdo, do bizarro e do fantástico, gravitando em torno de um sistema que o organizador descreve como kafkiano. O título do livro é uma metáfora precisa para a experiência de leitura: cada conto atua como um fragmento de vidro que, embora parte de um todo, reflete uma perspectiva única e muitas vezes desconfortável da condição humana, rompendo com a linearidade da normalidade cotidiana para revelar as fendas sob o solo que julgamos firme. Através de vozes que variam entre o lirismo e a crueza, a coletânea propõe uma investigação íntima da alma, carregada de críticas sociais e inquietações que desafiam o leitor a questionar as fronteiras entre o real e o imaginário.

A introdução, assinada por Carlos Freitas, estabelece o tom da obra ao citar Adolfo Bioy Casares, relembrando que as ficções fantásticas são tão antigas quanto o medo. Esse vínculo com o ancestral e o mitológico permeia diversos textos, conectando a modernidade tecnológica — representada por teclados de plástico e telas de silício — aos impulsos primitivos de contar histórias ao redor de fogueiras. A antologia é apresentada não apenas como uma seleção de contos, mas como o resultado de um processo coletivo de trocas e transgressões literárias, onde os autores foram incentivados a ir além das propostas iniciais, resultando em textos instigantes que utilizam o elemento bizarro não apenas como artifício narrativo, mas como ferramenta de argumentação filosófica. Ao mergulhar nesta leitura, percebe-se que o "estilhaçamento" mencionado no título não é apenas temático, mas estrutural, oferecendo uma degustação de estilos variados que orbitam temas como a perda da memória, a brutalidade urbana e as metamorfoses da identidade.

O primeiro grande eixo temático da obra reside na exploração da identidade e da animalidade, onde a linha entre o ser humano e a fera se torna turva. No conto "O que restou da mulher-bicho", de Amanda Pickler, a protagonista vive um despertar doloroso ao morder uma maçã e recordar sua humanidade, confrontando a indiferença de uma sociedade que a tratava como um objeto inconveniente. A narrativa utiliza o asco e o detestável como catalisadores da memória, sugerindo que a consciência humana é, muitas vezes, um fardo de infelicidade e obrigações sociais que sufocam os instintos. Essa mesma tensão entre o homem e o animal é levada a um extremo grotesco em "Rabada", de Alessandro Araujo, onde a obsessão gastronômica por carne canina evolui para uma metamorfose física do próprio narrador. O surgimento de um rabo robusto no corpo do protagonista não é apenas uma punição simbólica, mas uma "obra-prima" que confere um novo equilíbrio e uma nova forma de comunicação, evidenciando como a violência e o desejo podem desfigurar a essência do sujeito até que ele se torne a própria "iguaria" que consumia.

A obra também se destaca pela forma como aborda a violência urbana e a desumanização sob o olhar da infância e da vulnerabilidade. Em "Cinco ou seis", também de Alessandro Araujo, o leitor é colocado no chão de uma quadra escolar durante um tiroteio, sob a perspectiva de uma criança que tenta contar os disparos enquanto segura a mão de uma colega. A banalização do horror é palpável: o sangue que escorre é confundido com chocolate ou gosma quente, e a morte é filtrada por uma inocência que ainda tenta resolver problemas de matemática em meio ao caos. Esta crueza é ecoada em "Sorrir no inferno", de Wilson Stavarengo, onde a figura de um diretor de negócios enfurecido pela perda financeira canaliza sua frustração em um ato de violência gratuita contra pessoas em situação de rua. O contraste entre o sucesso corporativo e a "escória" que consegue sorrir em meio à miséria serve como um comentário ácido sobre a falência da empatia em ambientes regidos pelo medo e pela ganância.

Dando continuidade à análise das fatias que compõem esta obra, o segundo grande pilar de sustentação da antologia reside na fragilidade da memória e na dissolução do tempo, temas que atravessam as narrativas como um vento que apaga pegadas na areia. Em "Espuma do mar", de Larissa Santos, a desintegração física de uma avó é narrada como uma extensão direta do seu esquecimento. A neta observa, em um misto de horror e impotência, como o corpo da idosa desbota e torna-se translúcido à medida que as lembranças de uma vida inteira na Bahia e os laços familiares se esvaem. A metamorfose em "ausência" transforma a personagem em algo impalpável, sugerindo que a existência humana não é definida pela biologia, mas pela capacidade de reter e ser retido na memória do outro. Essa "existência líquida" é um conceito que ecoa em outros contos, onde o solo da realidade se revela instável e as certezas se rasgam diante da inevitabilidade do fim.

A relação com o tempo também se manifesta através da repetição e do automatismo, características marcantes do sistema kafkiano mencionado por Carlos Freitas. No conto "Gotas", de Wilson Stavarengo, a vida é reduzida a uma contagem obsessiva de medicamentos e horários.  O tempo aqui não é um fluxo, mas uma sucessão de embalagens coloridas e copos d'água, onde eventos significativos, como o aniversário da mãe, perdem-se na névoa da rotina medicada. Esse sufocamento pelo cotidiano é compartilhado por Dominique, protagonista de "Os limites borrados da desmemória ao toque do despertador", de Úrsula Antunes. Dominique personifica o "autômato angustiado" do capitalismo moderno, uma alma sugada pelo burnout que esquece a própria identidade em um ciclo vicioso de trabalho e solidão. A revelação final, que conecta seu sonho à realidade de Gabriel, borra definitivamente as fronteiras entre quem sonha e quem é sonhado, estilhaçando a noção de indivíduo isolado.

A presença do bizarro como reflexo do trauma é outra faceta explorada com maestria, especialmente no conto "As moscas só se limpam com as patas da frente", de Carla Ruiz. Através do olhar de uma mosca, testemunhamos a tentativa desesperada de uma mulher de se limpar de lembranças não digeridas, que o texto compara a "alimentos podres" dentro do ser. A sujeira, neste contexto, não é física, mas metafísica — são marcas feitas pelo tempo que nenhum banho pode lavar. O desfecho grotesco, onde a mosca é esmagada contra o lábio da mulher, serve como uma imagem potente da impossibilidade de escapar da própria história ou das partes de si que consideramos "restos". Essa busca por purificação ou redenção também aparece em "O Anjo do Senhor", de Gisela Maria Bester, onde Glória, uma órfã criada em um convento e marcada por sinais de nascença peculiares, tenta encontrar sua voz através do canto sacro. A opressão da reclusão e o medo da própria natureza física culminam em um ato de fuga literal: ao sentir-se ameaçada pela descoberta de sua verdadeira forma, ela "bate asas", transformando o estigma em libertação.

Por fim, a antologia dedica um espaço significativo às relações familiares e às heranças ancestrais, vistas não como porto seguro, mas como espelhos quebrados que refletem distorções. Em "Eu quero escrever minha sorte com cacos de espelho quebrado", Carla Ruiz traça uma genealogia de mulheres cujas vidas foram marcadas pelo trabalho braçal, pela perda de filhos e pelo silêncio. Cada caco de espelho no chão reflete uma característica de uma antepassada — o cabelo da avó, os olhos da mãe —, reforçando a ideia de que a identidade feminina é uma colagem de sobrevivências e dores compartilhadas. Essa mesma temática de despedida e reconhecimento é central em "A menor distância do adeus", de Amanda Pickler, onde uma criança encara o corpo do pai em um caixão e o percebe como uma réplica de cera. O conto realiza um salto temporal impressionante, onde o trajeto de milímetros para um beijo de despedida abarca toda a vida futura da protagonista — seus fracassos, amores e sua própria velhice —, até que o tempo se fecha em um ciclo perfeito de encontro entre pai e filho na morte.

Resenha: Poesia experimental, org. Jeferson Barbosa


A antologia Poesia Experimental, publicada pela editora Mondru em 2023, sob a organização de Jeferson Barbosa, apresenta-se não apenas como um livro, mas como um artefato de resistência estética e provocação visual. Concebida a partir de uma oficina de criação, a obra reúne a produção de sete artistas que se propuseram a tensionar as fronteiras tradicionais entre a literatura e as artes plásticas. O projeto gráfico, assinado pelo próprio organizador, já anuncia em sua capa — marcada por sobreposições tipográficas e linhas verticais — que o leitor não encontrará um fluxo linear de leitura, mas sim um campo de forças onde a palavra é tratada como matéria plástica e sonora. A introdução da obra evoca o pensamento de Décio Pignatari, sublinhando que a poesia deve estar alinhada à música e às artes visuais, afastando-se do mero suporte literário convencional. Essa premissa fundamenta toda a curadoria, que selecionou de três a cinco trabalhos de cada poeta, abrangendo desde poemas-constelação e colagens até sonetos visuais e poemas semióticos.

A estrutura do livro é dividida de forma a destacar tanto a coletividade quanto as vozes individuais. A primeira seção é dedicada aos "Poemas Constelação", um exercício formal onde o espaço da página branca é encarado como um firmamento, e as palavras ou letras funcionam como astros que o leitor deve conectar para gerar sentidos múltiplos. Esse método exige uma participação ativa de quem lê, transformando o ato da leitura em uma performance de montagem e descoberta. Além disso, a antologia presta uma homenagem significativa ao poeta Al-Chaer, reconhecido por sua vasta contribuição ao cenário da poesia visual brasileira. A presença de Al-Chaer, ao lado de artistas emergentes, cria um diálogo geracional que reafirma a vitalidade da poesia experimental contemporânea, mostrando que a desconstrução da linguagem continua sendo um terreno fértil para a expressão das angústias e belezas do século XXI.

O tom da obra é definido pelo lema da Editora Mondru: "Menos formas e flores, mais fomes e fatos". Essa diretriz reflete-se na crueza de muitas composições, que utilizam o preto e branco e a fragmentação para abordar temas como a ansiedade, a rotina urbana, o erotismo e as tensões sociais. Artistas como Marcela Albanesi e Izabel da Rosa exploram, respectivamente, o cruzamento entre psicanálise e desejo, e o "Femartírio", uma denúncia visual da violência contra a mulher. A obra de Guto Rocha, por sua vez, traz uma sensibilidade que acumula emoções "letra a letra", comparando a construção poética a estalagmites. Rafael Martins utiliza elementos digitais e códigos léxicos para mapear a existência, enquanto Fernando Augusto e Lilian Schmeil brincam com a semântica e a colagem de textos publicitários para subverter o consumo de informação.

Em suma, esta antologia é um compêndio de experimentos que desafiam a passividade do olhar. Ao reunir talentos tão diversos sob a égide da experimentação, Jeferson Barbosa entrega ao público um documento vibrante sobre as possibilidades da escrita para além do código verbal. É uma obra que não se encerra em uma leitura única, mas que convida ao retorno constante, onde cada visualização da página pode revelar uma nova constelação de significados.  O livro reafirma que a poesia, em seu estado experimental, é o lugar onde a palavra recupera seu poder de choque e sua capacidade de inventar novos mundos.

A segunda parte desta análise mergulha na estrutura interna da obra e nos desafios pedagógicos que deram origem às composições. A antologia é o resultado material de uma oficina promovida pela Mondru, facilitada por Jeferson Barbosa, onde poetas foram incentivados a tensionar a fronteira entre as artes plásticas e a literatura. Um dos pilares fundamentais dessa jornada foi a exploração do "Poema Constelação", um exercício que propõe ao leitor o papel de astrônomo do texto: as partículas (letras ou palavras) são dispostas de modo que as conexões e os caminhos de leitura sejam múltiplos e não lineares. Esse método de composição, detalhado nas diretrizes da oficina, exigia que o artista escolhesse uma "partícula estelar" e trabalhasse o arranjo visual como um signo representativo da ideia poética.

A seção dedicada a esses poemas exemplifica a diversidade de abordagens:

Marcela Albanesi, em "Constelação Engolida", utiliza linhas orgânicas que conectam termos como "goli", "bca" e "queimando", sugerindo um fluxo digestivo ou destrutivo da palavra.

Izabel da Rosa apresenta "Constelação Memórias", onde as letras de termos como "chama" e "tempo" se dispersam e se enlaçam em redemoinhos, mimetizando a natureza fragmentada da lembrança.

Guto Rocha contribui com "Constelação Poeme-se", uma estrutura geométrica de linhas retas que conectam letras isoladas, forçando o olhar a saltar entre os pontos para reconstruir o verbo.

Rafael Martins expande a técnica em "Constelação Constelei Minhas Palavras", incorporando símbolos como "$", "Я" e "@", integrando a linguagem digital e econômica ao cosmos poético.

Além das constelações, a oficina explorou o "paideuma" e o legado do grupo Noigandres, referências essenciais para a poesia concreta brasileira. Essa herança é visível na preocupação com a espacialização e na economia verbal. O trabalho de Lilian Schmeil, por exemplo, utiliza uma organização quase matemática em sua "Constelação Inelegível", onde parênteses isolam e agrupam sílabas, criando uma partitura visual que desafia a legibilidade imediata. Já Fernando Augusto apresenta a "Constelação .teufel", que utiliza palavras distribuídas de forma a criar um diálogo silencioso e pontuado no espaço da página.

A curadoria cuidadosa, que selecionou entre três a cinco trabalhos de cada artista, garante que a antologia não seja apenas um amontoado de exercícios, mas uma exposição coesa da "voz potente e criativa" de seus sete integrantes. A inclusão de elementos como poemas semióticos, colagens e sonetos visuais demonstra um esforço coletivo para desbravar o "paideuma" contemporâneo, onde a comunicação poética busca atingir o leitor através do impacto visual imediato, antes mesmo da decodificação intelectual. Esta parte da obra reafirma a premissa de Pignatari de que a poesia está, muitas vezes, mais próxima do design e da música do que da narrativa tradicional. A análise volta-se para as individualidades que compõem o corpo da antologia, focando na poética de Fernando Augusto, Guto Rocha e Izabel da Rosa. O trabalho de Fernando Augusto abre este segmento com uma irreverência que flerta com o absurdo e a desconstrução técnica. Em "TO DO LIST", o poeta utiliza uma estética de montagem para sugerir a contratação de um profissional em Lego para remontar o que parece ser a própria raça ou identidade, fragmentando as letras em uma queda livre vertical que termina em caracteres não latinos. Essa brincadeira com a forma prossegue em "Sem Esperança", onde a palavra "semântica" é isolada e esvaziada entre colchetes, sugerindo que o sentido é algo que se perde nos espaços vazios da página.

Guto Rocha traz uma abordagem que une a rigidez mineral à fluidez do sentimento. Em seu poema "Estalagmite", a disposição das palavras mimetiza a formação geológica mencionada no título: o texto cresce de cima para baixo, acumulando a emoção "letra a letra" como calcário depositado, evocando a permanência de uma dor que "ecoa e acumula-se" após o término de um amor. Já em "Fragmentos", Rocha explora a dispersão causada pelo pensamento, onde as palavras "ninho", "página" e "letras" são compactas, desafiando a leitura linear e transformando o texto em um ruído visual que evoca uma "ventania" que derruba o quase-ninho da razão.

A contribuição de Izabel da Rosa é, talvez, uma das mais densas em termos de carga social e emocional dentro da coletânea. Sua produção é marcada pela observação do cotidiano, mas transmutada em experimentação visual radical. O poema "Femartírio" destaca-se como uma peça central de denúncia. Nele, a poeta utiliza a repetição exaustiva das palavras "nada", "noite" e "luta", entrecortadas por acusações como "Tua Culpa" e "MachMonstro", criando uma massa textual sufocante que termina no desaparecimento gradual das vogais da palavra "calada". É uma representação visual do silenciamento e do luto feminino.

Izabel também explora a compressão do tempo em "Rotina", um poema composto quase inteiramente por horários precisos dispostos em listas, que simbolizam a mecanização da vida moderna. Em contraste, "Pressa" utiliza a palavra "asa" repetida em arcos, sugerindo o movimento frenético de um voo que se desintegra em "faltempo" e "pres". Esses três autores demonstram como a poesia experimental da Mondru consegue transitar entre o humor cínico, a melancolia geológica e o ativismo visual, mantendo sempre o rigor formal proposto na oficina de Jeferson Barbosa.

As contribuições de Julia Pantin, Lilian Schmeil, Marcela Albanesi e Rafael Martins, encerrando com a homenagem ao mestre da poesia visual, Al-Chaer. Julia Pantin utiliza a temática das baleias-jubarte para criar uma série de poemas que flertam com a música e o nonsense, utilizando pautas musicais e diagramas de fluxo para representar os cantos desses animais como indícios de transmissão cultural. Suas páginas são verdadeiros mapas de conexões, onde nomes de autores como Rimbaud e Mia Couto flutuam em oceanos de linhas sinuosas. Lilian Schmeil, por sua vez, traz uma estética de colagem em "Usos da lingua" e "Burnout", onde recortes de jornais com termos como "magia negra", "corpo" e "grito" cercam a imagem da estátua de David, sugerindo um bombardeio hipnótico de informações e desejos. Em "(F)Halo da Fome", ela utiliza caracteres especiais e símbolos econômicos em um emaranhado denso que evoca a precariedade digital.

Marcela Albanesi explora a interseção entre a psicanálise e o erotismo em "Freud com Sade", onde o texto se fragmenta em repetições de "qual" e "mas", simulando a hesitação do desejo e a ação que substitui a lembrança. Suas composições visuais, como "Soneto-Transa", utilizam imagens de cordas que se entrelaçam e se rompem, mimetizando a tensão e o clímax do ato sexual. Rafael Martins encerra o ciclo de novos artistas com uma abordagem tecnológica e lúdica. Em "Soneto da Insônia", ele utiliza faixas pretas e fotos de olhos que se abrem e fecham sob o efeito do "hemifumarato de quetiapina", enquanto em "Pés Poesia" ele mapeia o ato de andar como uma partitura poética mapeada por sons e tons.

A antologia culmina na homenagem a Al-Chaer, cujo trabalho "JAZZ" utiliza as formas de um saxofone para criar uma silhueta que é, ao mesmo tempo, imagem e melodia. Seus "poemas-partitura" e a obra "mar", que transforma a palavra em ondas fluidas, reafirmam sua maestria em alinhar a poesia às artes plásticas. A trajetória de Al-Chaer, com participações em bienais internacionais, serve de farol para os demais integrantes desta edição.

Conclui-se que a Antologia de Poesia Experimental da Mondru é um documento fundamental da produção contemporânea brasileira. Ao abraçar o lema de "menos formas e flores, mais fomes e fatos", Jeferson Barbosa organizou um compêndio que não se limita a enfeitar a página, mas que a utiliza como campo de batalha para a linguagem. Esta obra, lançada na FLIP 2023, prova que a poesia experimental continua sendo um dispositivo potente para desbravar as fissuras da língua e as complexidades do mundo moderno.

Resenha: Cartografia poética da ausência, org. Jeferson Barbosa


A antologia Cartografias Poéticas da Ausência, organizada por Jeferson Barbosa e publicada pela Mondru Editora em 2025, apresenta-se como um inventário sensível das lacunas que compõem a experiência humana contemporânea. A obra é o resultado tangível de uma oficina de poesia narrativa, na qual um grupo diverso de escritores brasileiros foi desafiado a explorar a materialidade da palavra como agente de narração. O título não é meramente ilustrativo; ele reflete a constatação de que o tema da falta — seja ela de um amor, de um lar, da memória ou da justiça social — serviu como o eixo gravitacional que uniu as produções dos autores envolvidos. Ao navegar por estas páginas, o leitor é convidado a percorrer mapas de uma geografia do sentir, onde a poesia não apenas narra fatos, mas dá corpo e contorno ao que não está mais lá, mas insiste em habitar os silêncios.

O livro está estruturado de forma a destacar as vozes individuais dos participantes, apresentando seleções de poemas de autores como Alan dos Santos, Aloisio Romanelli, Andreia Dacoregio, entre outros, antes de culminar na seção especial intitulada Poema-Notícia. Esta organização permite que a pluralidade de estilos e origens — que vão do Rio de Janeiro a Santa Catarina e Goiás — enriqueça a temática central. A apresentação de Jeferson Barbosa estabelece que a poesia narrativa aqui praticada não é apenas o contar de uma história em versos, mas a busca pela tensão entre o "contar e o cantar", utilizando ritmos e aliterações para condensar o tempo e transformar o enredo em uma vivência respirada.

Um dos pilares da obra é a investigação das invisibilidades sociais e dos traumas coletivos. Através do rigor poético, os autores dão voz ao trabalhador massacrado pela rotina, ao luto impregnado nas paredes e à memória que teima em assombrar. Essa abordagem insere a antologia no vibrante cenário da poesia contemporânea brasileira, que cada vez mais abraça formas híbridas para tratar de questões críticas da sociedade. A obra se propõe, portanto, como um testemunho da potência da poesia em transformar o vazio em algo palpável e significativo.

As colagens que ilustram o miolo e a capa, também de autoria de Jeferson Barbosa, complementam visualmente a proposta cartográfica, sugerindo relevos e territórios que ecoam as "geografias da falta" exploradas nos textos. Esta integração entre o visual e o textual reforça a ideia de que o livro é um objeto de imersão, concebido para mapear a presença fantasmagórica do que foi perdido. A seguir, analisaremos como os primeiros autores da coletânea articulam essas ausências através de suas narrativas particulares.

A primeira parte da antologia mergulha em realidades urbanas cruas, onde a ausência se manifesta como uma privação de dignidade e segurança. Alan dos Santos, abrindo a sucessão de vozes, apresenta poemas que tencionam a experiência do vício e a consciência de classe. Em "Minha Sina", o autor narra o encontro com o "corpo negro" em um galpão sinistro da Rua Augusta, em São Paulo, transformando a busca pela droga em uma reflexão sobre a utilidade humana e o abandono social. A narrativa poética de Santos é marcada por uma autoconsciência afiada, especialmente em "Corrida", onde ele reconhece o "pacto da branquitude" que o protege da repressão policial no morro São Bento, enquanto outros correm pelo perigo real. A ausência aqui é a da justiça equânime, substituída por um mecanismo de compensação biológica e social.

Dando continuidade a essa exploração dos espaços, Aloisio Romanelli, psiquiatra e poeta mineiro, traz uma perspectiva mais íntima e geracional. Em "A Grande Mudança [Em Três Tempos]", ele cartografa a transição do interior para o litoral, revelando como o deslocamento geográfico não apaga as necessidades do corpo e do afeto. A figura da avó surge como o ponto de ancoragem e cura para o filho doente, evidenciando que a ausência do "corpo materno" pode ser fatal, enquanto sua presença é o único remédio eficaz contra a angústia do desconhecido. Romanelli utiliza a quebra de versos para mimetizar o definhamento e a recuperação, integrando a forma poética ao sofrimento narrado.

A voz de Andreia Dacoregio introduz um elemento mais onírico e ancestral à coletânea. Em "Sobre Raízes e Asas", ela explora a linhagem feminina — avó, mãe e neta — como uma trama que atravessa o tempo. Para a autora, a história é "futuríssima", e a ausência é combatida através da germinação constante de novas identidades. No entanto, em "Extinção", Dacoregio confronta o leitor com a desintegração do eu: a perda do nome, da memória e da capacidade de decifrar o mundo ao redor. É uma cartografia do apagamento, onde o ser se torna "impreciso" e a cidade se transforma em um "caldo grosso" e ininteligível.

Esses autores iniciais estabelecem o tom da antologia ao demonstrar que a poesia narrativa é um campo de batalha entre a memória e o esquecimento. Seja nas biqueiras de São Paulo, nos morros de Santos ou nos interiores mineiros, a palavra atua como uma bússola que tenta situar o sujeito em meio ao vazio. A organização de Jeferson Barbosa garante que cada poema funcione como uma coordenada específica nesse mapa da falta, preparando o terreno para as investigações sobre a finitude e o cotidiano que seguem nas seções posteriores.

A metade da antologia aprofunda-se em como o tempo e o esquecimento corroem as estruturas do cotidiano. Carmo Antonio utiliza versos curtos e ritmados para descrever o "Fluxo", uma metáfora para a "grande babel" das ruas onde o indivíduo é sugado por becos fétidos e multidões que somem. Em "Espelho", o autor aborda a ausência de autorreconhecimento, retratando o tempo como algo "inexorável" que torna o reflexo diário um estranho desorientado. Essa desconstrução da imagem pessoal é ecoada por Celia Ribeiro, que foca nos "Descompassos Cotidianos" e na invisibilidade social. Ribeiro narra a crueza de quem não tem "direito nem de morar embaixo de um viaduto", expondo como a existência dos marginalizados incomoda mais a sociedade do que "carro velho abandonado".

A obra prossegue com a voz de Gisela Maria Bester, que traz uma densidade quase antropológica ao falar de "Alfenim". Ela resgata a memória da cana e dos engenhos de Pirenópolis e Vila Boa para denunciar uma "morta história" de corpos negros açoitados como gado, simbolizada pela figura de Chico, o "ausente". Bester mapeia a ganância humana em seu "Poemário da Descida", lamentando a "murcha civilização" que sacrifica a natureza e os animais sob a "monstruosidade do olho capital". A ausência, para ela, é a perda da conexão ética com a vida em todas as suas formas.

Guto Rocha e João Roberto exploram a melancolia dos encontros perdidos e da rotina desfeita. Rocha, em "A Salada de Alface", utiliza memórias de infância e o cheiro de encrenca para desenhar a "cratera enorme" deixada por uma figura paterna autoritária. Já João Roberto trabalha com a fragmentação silábica em "Volta.", onde os espasmos das pernas e a arritmia dos sentimentos traduzem o luto e a busca por um rosto que não se pode nomear. O gato Agripina, em seus poemas, torna-se a única testemunha de uma dor que "venceu a si".

Encerrando este bloco, Karolliny Diniz apresenta uma narrativa visceral sobre a finitude em "Rascunho". Ela personifica a Morte como uma "artesã em ato" que lapida o corpo caído entre paredes cobertas de piche. Diniz inverte a perspectiva tradicional: a ausência não é apenas o que falta aos vivos, mas a observação do mundo por quem já não faz parte dele, "eternizada como rascunho". Essa sucessão de vozes reforça que a cartografia proposta por Jeferson Barbosa é um mapeamento de ruínas — físicas, sociais e emocionais — que sustentam a arquitetura da memória brasileira.







O encerramento de Cartografias Poéticas da Ausência consolida a obra como um exercício de alteridade e denúncia. Miguel Rosa introduz a figura do "bicho prosaico", equiparando pombos e homens em sua luta para compreender a inutilidade de viver em cidades cinzas e protocolares. Sua poesia mapeia o Glicério, onde enxurradas levam "mesas, roupas, filhas", deixando apenas uma esperança corroída para as crianças. Essa mesma fragilidade física é explorada por Patricia Najjar em "A Bailarina", onde a beleza da dança esconde uma "calosidade profunda" e uma coluna que arria, revelando que o preço do propósito é, muitas vezes, a solidão e o desgaste do próprio corpo.

A inovação gráfica e estrutural atinge seu ápice com Rafael Martins e Wilson Stavarengo. Martins utiliza recursos visuais — como bips de monitor cardíaco e arame farpado — para narrar o fim de Serafim Pimenta, cujas lembranças são "bichos que dormem embaixo da língua". Ele questiona a "Gravidade do Nome" e o não-pertencimento de quem é tratado como um animal estranho, transformando o poema em um corpo que vaza pelas brechas. Stavarengo, por sua vez, dá voz a José Basílio, um maltrapilho que carrega o mundo em uma sacola, onde o viaduto é o céu e a cachaça cura a dor. Suas estatísticas poéticas sobre o feminicídio de Marias e Sandras transformam números frios em "sentimentos azuis que não poderão mais ser devolvidos".

A seção final, Poema-Notícia, é o ponto de convergência onde a objetividade jornalística é atravessada pelo olhar da poesia. Os autores realizam uma "escavação poética", encontrando humanidade em manchetes sobre tragédias ambientais ou sociais. Aloisio Romanelli transmutou um alerta meteorológico em uma cena de desabamento sem melodia; Celia Ribeiro transformou a condenação de um humorista em uma tragédia sobre o bullying escolar ; e Miguel Rosa usou a invasão de um macaco-prego a um escritório para sugerir que o homem "não precisava viver daquele jeito".

Em suma, a antologia organizada por Jeferson Barbosa não apenas cataloga ausências, mas as torna instrumentos de crítica e reflexão. Ao dar voz a personagens silenciados pelo relato factual — desde o Papa Francisco até a "Mulher Abacaxi" presa em um elevador —, a obra cumpre sua promessa de ser uma geografia do sentir. O livro termina onde a consciência do leitor começa: na percepção de que, por trás de cada vazio mapeado, existe uma história que insiste em ser contada para não ser esquecida.

Academia Mineira de Letras convoca escritores para IV Lançamento Coletivo: inscrições abertas até 5 de abril

Imagem: Lançamento


São elegíveis obras publicadas em 2025 e 2026. O evento acontece em julho e a inscrição é gratuita

O IV Lançamento Coletivo da Academia Mineira de Letras acontece no dia 04 de julho, sábado, das 10h às 13h30. A instituição convida autores interessados a inscreverem suas obras do dia 1º ao dia 5 de abril de 2026, por meio de formulário online. Na ocasião do lançamento, além de sessão de autógrafos e venda dos livros, um representante de cada obra selecionada terá até 15 minutos de fala, para apresentar seu livro – seja por meio de leitura de trecho, comentário, conversa. Assim, o autor ou um representante do livro deve estar presente no dia do lançamento coletivo, para participar desse momento de fala.

Link para inscrições online: https://forms.gle/NQpkUDM8D3d6ii7o9

Após a inscrição online, um exemplar do livro deve ser enviado à instituição para apreciação, com data de postagem até o dia 05 de abril. A obra deve ser postada em nome de “AML – Lançamento coletivo 2026 – A/C: Tiago Portilho”, para o endereço da AML (R. da Bahia, 1466 – Centro, Belo Horizonte – MG, 30160-011). Dentre as regras para inscrição, estão: só são elegíveis livros publicados em 2025 ou 2026; cada autor só poderá inscrever uma única obra; e, no caso de obra coletiva, a inscrição deverá ser feita pelo organizador principal.

As obras inscritas serão apreciadas por uma comissão indicada pelo presidente da Academia Mineira de Letras, a fim de que sejam selecionadas as 10 (dez) que participarão do lançamento coletivo. A participação é gratuita, sendo de responsabilidade do autor a organização dos livros no dia e horário indicados acima. A AML se encarregará da divulgação e da disponibilização do local, compreendendo foyer e auditório. Tudo relativo à comercialização das obras fica a cargo dos autores e editoras. Quaisquer dúvidas podem ser esclarecidas no e-mail: contato@academiamineiradeletras.org.br.

Este projeto acontece no âmbito do “Plano Anual Academia Mineira de Letras – AML (PRONAC 256536)”, previsto na Lei Federal de Incentivo à Cultura. E tem patrocínio do Instituto Unimed-BH – por meio do incentivo fiscal de mais de cinco mil e novecentos médicos cooperados e colaboradores. A AML tem o apoio da Minasmáquinas.


INSTITUTO UNIMED-BH

O Instituto Unimed-BH completa 23 anos em 2026 e conta com o apoio de mais de 5,9 mil médicos cooperados e colaboradores da Unimed-BH. A associação sem fins lucrativos foi criada em 2003 e, desde então, desenvolve projetos socioculturais e socioambientais visando à formação da cidadania, estimulando o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas, fomentando a economia criativa, gerando trabalho e renda para diversas famílias, valorizando espaços públicos e o meio ambiente, através de projetos patrocinados, apoiados e realizados em cinco linhas de atuação: Comunidade, Voluntariado, Meio Ambiente, Adoção de Espaços Públicos e Cultura, que estão alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.


Acesse www.institutounimedbh.com.br e saiba mais.

SERVIÇO 

Inscrições abertas para o IV Lançamento Coletivo da AML

Prazo: 01 a 05 de abril

Link de inscrição: https://forms.gle/NQpkUDM8D3d6ii7o9

Inscrições gratuitas.




Daniel Renattini confirma presença na FliFantasy com sua tetralogia recém finalizada

Imagem: Divulgação


O autor Daniel Renattini participa do Festival Literário de Fantasia (FliFantasy), no Marte Hall (Vila Mariana, São Paulo), que acontece no dia 26 de abril, de 10h às 19h. O evento  contará com programação voltada à literatura fantástica, reunindo autores e leitores em um espaço dedicado ao gênero. O escritor, que finalizou recentemente (2025) sua tetralogia jovem "Herdeiros das Estrelas", levará suas obras e terá momentos de troca com o público.

Durante a feira, Daniel Renattini estará disponível para sessão de autógrafos, conversa com leitores e venda de seus livros. A participação no evento reforça a proximidade do autor com seu público e a importância do contato direto com leitores em espaços literários independentes.“Cada evento que vou é sempre motivo de empolgação, porque sei que vou reencontrar leitores e conhecer novos. Ter esse contato direto com o público, ainda mais em uma feira focada em literatura de fantasia, torna o trabalho de autor ainda mais prazeroso”, afirma o escritor.

Além dos livros, o público também poderá adquirir produtos relacionados à obra, como broches metalizados, marcadores holográficos e outros itens voltados aos fãs da série. Para quem deseja mergulhar completamente no universo criado pelo autor, haverá ainda opções de combos especiais com a tetralogia completa.

Os interessados podem saber mais pelo perfil oficial do autor em suas redes sociais. 

Participação também na feira Up!ABC

Daniel Renattini também estará na feira Up!ABC que acontece na Universidade de São Caetano do Sul (USCS) nos dias 18 e 19 de abril, das 11h às 19h.”Sou apaixonado por feiras como essa, que trazem no corredor dos artistas, quase que inteiramente ilustradores. Sendo escritor, é sempre uma oportunidade de conhecer o trabalho dos outros e também apresentar o meu. Tanto para o público quanto para os vizinhos de mesa”, afirma o autor.

Sobre o autor

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(Foto/Divulgação- Proibido o uso de IA)

Daniel Renattini é escritor, UX designer e apaixonado por dublagem e artes manuais. De forma independente, realizou quatro campanhas bem-sucedidas pelo Catarse com a tetralogia Herdeiros das Estrelas. Também é autor do conto infantojuvenil de fantasmas Quem deixou esse hóspede entrar?, publicado na Amazon KDP. Mora em São Paulo e tem como marca registrada o uso de um gorro de nariz durante o frio.

Estreia de Alice Puterman expõe violência sexual e saúde mental em livro que denuncia violência contra mulheres

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Em Candura, publicado pela editora TAUP (Toma Aí Um Poema), a escritora Alice Puterman, de 23 anos, transforma seis anos de produção literária em um livro de poesia que articula experiência pessoal e denúncia social. A obra se insere em um contexto alarmante: o crescimento contínuo dos índices de violência sexual no Brasil. Longe de se limitar ao relato autobiográfico, o livro se constrói como um testemunho lírico sobre trauma, saúde mental e a complexa reconstrução do corpo feminino como território de resistência.

Há livros que nascem do desejo de narrar; outros emergem como uma necessidade vital. Candura pertence a esta segunda categoria. Escrito entre a adolescência e o início da vida adulta da autora, o livro apresenta uma escrita que não busca amenizar a dor, mas nomeá-la. Já no prefácio, Puterman estabelece o tom da obra ao afirmar: “Não sei dizer onde a violência começa em minha vida, mas a violência que eu cometo a mim mesma termina com estas páginas”. A frase delimita o eixo central do livro: a tentativa de interromper ciclos de autoviolência por meio da palavra.

O processo de criação da obra teve início quando a autora tinha 17 anos, após sobreviver a um estupro coletivo. Em seguida, o isolamento imposto pela pandemia de Covid-19 intensificou a escrita, que passou a funcionar como ferramenta de elaboração psíquica diante do trauma. Diagnosticada com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Puterman afirma que não escrevia com o objetivo de publicação, mas como forma de criar um espaço possível para a dor. “Estupro é um assunto sobre o qual não se pode falar. Então, eu espero que meu livro seja esse lugar onde a dor de todas nós pode existir”, declara. O lançamento da obra está previsto para ocorrer na Casa Gueto, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026, no final de julho.

Nos poemas que compõem Candura, o corpo feminino é apresentado sob múltiplas camadas simbólicas. Inicialmente marcado pela invasão e pela violência, ele também se reconfigura como espaço de resistência e disputa. Em um dos textos mais contundentes, a autora escreve: “O primeiro homem que viu meu corpo nu / não disse que ele parecia uma obra de arte / não o tocou com amor / mas, em vez disso / ele se sentiu em casa / trouxe convidados / e deram uma festa”. A imagem da casa — recorrente ao longo do livro — sintetiza o corpo violado, posteriormente submetido a um processo de reconstrução que não apaga as marcas da violência. “A partir do momento que eu redecorar as paredes, a casa será outra / mas não é / é a mesma que eles arrombaram e depredaram”, escreve, evidenciando a dificuldade de reabitá-lo.

A poesia de Puterman recusa tanto a simplificação quanto a romantização da dor. Seus versos transitam entre a crueza do trauma e momentos de delicadeza que tensionam a ideia de fragilidade. Ao rejeitar o lugar passivo da vítima, a autora propõe outra perspectiva sobre força e vulnerabilidade. “A força masculina de nada me interessa — violência. Quero falar de mulheres que levantam carros para salvar suas crias, as que por amor, dão e ganham vida”, afirma no prefácio, reposicionando o feminino como potência, ainda que atravessado pela dor.

O título da obra também opera como chave interpretativa. “Candura”, tradicionalmente associada à ingenuidade e pureza, é ressignificada ao longo do livro. Puterman observa que mulheres são historicamente ensinadas a cultivar essa característica, muitas vezes percebida como fraqueza. Ao se declarar uma mulher autista — grupo estatisticamente mais vulnerável à violência —, a autora confronta essa leitura. “Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé”, escreve, convertendo o que seria fragilidade em elemento de permanência.

A saúde mental constitui outro eixo estruturante da obra. A autora aborda episódios de internação, tentativas de suicídio e tratamentos psiquiátricos, incluindo o uso de eletroconvulsoterapia. Em um dos poemas finais, sintetiza esse percurso: “Tentei / me matar / dez vezes / mas / tentei / viver / tão mais / e assim descobri / que estes ossos / brilham / como porcelana chinesa”. A imagem aponta para uma noção de cura que não implica apagamento, mas incorporação das fissuras. Nesse sentido, a escrita surge como prática de sobrevivência: não como fechamento de feridas, mas como possibilidade de nomeá-las — condição essencial para enfrentá-las.

Nascida em Petrópolis (RJ), em 2002, Alice Monteiro Puterman vive atualmente no Rio de Janeiro. Graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), dedica-se também à área de inclusão. Autista, com histórico de mutismo seletivo na infância, encontrou na escrita sua primeira forma de expressão. Alfabetizada precocemente, aos três anos, fez da palavra seu principal instrumento de elaboração subjetiva e resistência diante das múltiplas violências e desafios de saúde que atravessam sua trajetória.

Candura, seu livro de estreia, encerra, segundo a autora, um ciclo marcado pelo medo e inaugura uma nova forma de se reconhecer: “Eu finalmente me vejo sobrevivente, e não mais vítima”. Atualmente, Puterman trabalha em um novo projeto literário, também no campo da poesia, dando continuidade a uma escrita que se consolida como espaço de memória, denúncia e reinvenção.



Ficha técnica
Título: Candura: uma história de sobrevivência feminina
Autora: Alice Puterman
Gênero: Poesia
Editora: TAUP (Toma Aí Um Poema)
Ano de publicação: 2025
Número de páginas: 94

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