Resenha: Poesia experimental, org. Jeferson Barbosa


A antologia Poesia Experimental, publicada pela editora Mondru em 2023, sob a organização de Jeferson Barbosa, apresenta-se não apenas como um livro, mas como um artefato de resistência estética e provocação visual. Concebida a partir de uma oficina de criação, a obra reúne a produção de sete artistas que se propuseram a tensionar as fronteiras tradicionais entre a literatura e as artes plásticas. O projeto gráfico, assinado pelo próprio organizador, já anuncia em sua capa — marcada por sobreposições tipográficas e linhas verticais — que o leitor não encontrará um fluxo linear de leitura, mas sim um campo de forças onde a palavra é tratada como matéria plástica e sonora. A introdução da obra evoca o pensamento de Décio Pignatari, sublinhando que a poesia deve estar alinhada à música e às artes visuais, afastando-se do mero suporte literário convencional. Essa premissa fundamenta toda a curadoria, que selecionou de três a cinco trabalhos de cada poeta, abrangendo desde poemas-constelação e colagens até sonetos visuais e poemas semióticos.

A estrutura do livro é dividida de forma a destacar tanto a coletividade quanto as vozes individuais. A primeira seção é dedicada aos "Poemas Constelação", um exercício formal onde o espaço da página branca é encarado como um firmamento, e as palavras ou letras funcionam como astros que o leitor deve conectar para gerar sentidos múltiplos. Esse método exige uma participação ativa de quem lê, transformando o ato da leitura em uma performance de montagem e descoberta. Além disso, a antologia presta uma homenagem significativa ao poeta Al-Chaer, reconhecido por sua vasta contribuição ao cenário da poesia visual brasileira. A presença de Al-Chaer, ao lado de artistas emergentes, cria um diálogo geracional que reafirma a vitalidade da poesia experimental contemporânea, mostrando que a desconstrução da linguagem continua sendo um terreno fértil para a expressão das angústias e belezas do século XXI.

O tom da obra é definido pelo lema da Editora Mondru: "Menos formas e flores, mais fomes e fatos". Essa diretriz reflete-se na crueza de muitas composições, que utilizam o preto e branco e a fragmentação para abordar temas como a ansiedade, a rotina urbana, o erotismo e as tensões sociais. Artistas como Marcela Albanesi e Izabel da Rosa exploram, respectivamente, o cruzamento entre psicanálise e desejo, e o "Femartírio", uma denúncia visual da violência contra a mulher. A obra de Guto Rocha, por sua vez, traz uma sensibilidade que acumula emoções "letra a letra", comparando a construção poética a estalagmites. Rafael Martins utiliza elementos digitais e códigos léxicos para mapear a existência, enquanto Fernando Augusto e Lilian Schmeil brincam com a semântica e a colagem de textos publicitários para subverter o consumo de informação.

Em suma, esta antologia é um compêndio de experimentos que desafiam a passividade do olhar. Ao reunir talentos tão diversos sob a égide da experimentação, Jeferson Barbosa entrega ao público um documento vibrante sobre as possibilidades da escrita para além do código verbal. É uma obra que não se encerra em uma leitura única, mas que convida ao retorno constante, onde cada visualização da página pode revelar uma nova constelação de significados.  O livro reafirma que a poesia, em seu estado experimental, é o lugar onde a palavra recupera seu poder de choque e sua capacidade de inventar novos mundos.

A segunda parte desta análise mergulha na estrutura interna da obra e nos desafios pedagógicos que deram origem às composições. A antologia é o resultado material de uma oficina promovida pela Mondru, facilitada por Jeferson Barbosa, onde poetas foram incentivados a tensionar a fronteira entre as artes plásticas e a literatura. Um dos pilares fundamentais dessa jornada foi a exploração do "Poema Constelação", um exercício que propõe ao leitor o papel de astrônomo do texto: as partículas (letras ou palavras) são dispostas de modo que as conexões e os caminhos de leitura sejam múltiplos e não lineares. Esse método de composição, detalhado nas diretrizes da oficina, exigia que o artista escolhesse uma "partícula estelar" e trabalhasse o arranjo visual como um signo representativo da ideia poética.

A seção dedicada a esses poemas exemplifica a diversidade de abordagens:

Marcela Albanesi, em "Constelação Engolida", utiliza linhas orgânicas que conectam termos como "goli", "bca" e "queimando", sugerindo um fluxo digestivo ou destrutivo da palavra.

Izabel da Rosa apresenta "Constelação Memórias", onde as letras de termos como "chama" e "tempo" se dispersam e se enlaçam em redemoinhos, mimetizando a natureza fragmentada da lembrança.

Guto Rocha contribui com "Constelação Poeme-se", uma estrutura geométrica de linhas retas que conectam letras isoladas, forçando o olhar a saltar entre os pontos para reconstruir o verbo.

Rafael Martins expande a técnica em "Constelação Constelei Minhas Palavras", incorporando símbolos como "$", "Я" e "@", integrando a linguagem digital e econômica ao cosmos poético.

Além das constelações, a oficina explorou o "paideuma" e o legado do grupo Noigandres, referências essenciais para a poesia concreta brasileira. Essa herança é visível na preocupação com a espacialização e na economia verbal. O trabalho de Lilian Schmeil, por exemplo, utiliza uma organização quase matemática em sua "Constelação Inelegível", onde parênteses isolam e agrupam sílabas, criando uma partitura visual que desafia a legibilidade imediata. Já Fernando Augusto apresenta a "Constelação .teufel", que utiliza palavras distribuídas de forma a criar um diálogo silencioso e pontuado no espaço da página.

A curadoria cuidadosa, que selecionou entre três a cinco trabalhos de cada artista, garante que a antologia não seja apenas um amontoado de exercícios, mas uma exposição coesa da "voz potente e criativa" de seus sete integrantes. A inclusão de elementos como poemas semióticos, colagens e sonetos visuais demonstra um esforço coletivo para desbravar o "paideuma" contemporâneo, onde a comunicação poética busca atingir o leitor através do impacto visual imediato, antes mesmo da decodificação intelectual. Esta parte da obra reafirma a premissa de Pignatari de que a poesia está, muitas vezes, mais próxima do design e da música do que da narrativa tradicional. A análise volta-se para as individualidades que compõem o corpo da antologia, focando na poética de Fernando Augusto, Guto Rocha e Izabel da Rosa. O trabalho de Fernando Augusto abre este segmento com uma irreverência que flerta com o absurdo e a desconstrução técnica. Em "TO DO LIST", o poeta utiliza uma estética de montagem para sugerir a contratação de um profissional em Lego para remontar o que parece ser a própria raça ou identidade, fragmentando as letras em uma queda livre vertical que termina em caracteres não latinos. Essa brincadeira com a forma prossegue em "Sem Esperança", onde a palavra "semântica" é isolada e esvaziada entre colchetes, sugerindo que o sentido é algo que se perde nos espaços vazios da página.

Guto Rocha traz uma abordagem que une a rigidez mineral à fluidez do sentimento. Em seu poema "Estalagmite", a disposição das palavras mimetiza a formação geológica mencionada no título: o texto cresce de cima para baixo, acumulando a emoção "letra a letra" como calcário depositado, evocando a permanência de uma dor que "ecoa e acumula-se" após o término de um amor. Já em "Fragmentos", Rocha explora a dispersão causada pelo pensamento, onde as palavras "ninho", "página" e "letras" são compactas, desafiando a leitura linear e transformando o texto em um ruído visual que evoca uma "ventania" que derruba o quase-ninho da razão.

A contribuição de Izabel da Rosa é, talvez, uma das mais densas em termos de carga social e emocional dentro da coletânea. Sua produção é marcada pela observação do cotidiano, mas transmutada em experimentação visual radical. O poema "Femartírio" destaca-se como uma peça central de denúncia. Nele, a poeta utiliza a repetição exaustiva das palavras "nada", "noite" e "luta", entrecortadas por acusações como "Tua Culpa" e "MachMonstro", criando uma massa textual sufocante que termina no desaparecimento gradual das vogais da palavra "calada". É uma representação visual do silenciamento e do luto feminino.

Izabel também explora a compressão do tempo em "Rotina", um poema composto quase inteiramente por horários precisos dispostos em listas, que simbolizam a mecanização da vida moderna. Em contraste, "Pressa" utiliza a palavra "asa" repetida em arcos, sugerindo o movimento frenético de um voo que se desintegra em "faltempo" e "pres". Esses três autores demonstram como a poesia experimental da Mondru consegue transitar entre o humor cínico, a melancolia geológica e o ativismo visual, mantendo sempre o rigor formal proposto na oficina de Jeferson Barbosa.

As contribuições de Julia Pantin, Lilian Schmeil, Marcela Albanesi e Rafael Martins, encerrando com a homenagem ao mestre da poesia visual, Al-Chaer. Julia Pantin utiliza a temática das baleias-jubarte para criar uma série de poemas que flertam com a música e o nonsense, utilizando pautas musicais e diagramas de fluxo para representar os cantos desses animais como indícios de transmissão cultural. Suas páginas são verdadeiros mapas de conexões, onde nomes de autores como Rimbaud e Mia Couto flutuam em oceanos de linhas sinuosas. Lilian Schmeil, por sua vez, traz uma estética de colagem em "Usos da lingua" e "Burnout", onde recortes de jornais com termos como "magia negra", "corpo" e "grito" cercam a imagem da estátua de David, sugerindo um bombardeio hipnótico de informações e desejos. Em "(F)Halo da Fome", ela utiliza caracteres especiais e símbolos econômicos em um emaranhado denso que evoca a precariedade digital.

Marcela Albanesi explora a interseção entre a psicanálise e o erotismo em "Freud com Sade", onde o texto se fragmenta em repetições de "qual" e "mas", simulando a hesitação do desejo e a ação que substitui a lembrança. Suas composições visuais, como "Soneto-Transa", utilizam imagens de cordas que se entrelaçam e se rompem, mimetizando a tensão e o clímax do ato sexual. Rafael Martins encerra o ciclo de novos artistas com uma abordagem tecnológica e lúdica. Em "Soneto da Insônia", ele utiliza faixas pretas e fotos de olhos que se abrem e fecham sob o efeito do "hemifumarato de quetiapina", enquanto em "Pés Poesia" ele mapeia o ato de andar como uma partitura poética mapeada por sons e tons.

A antologia culmina na homenagem a Al-Chaer, cujo trabalho "JAZZ" utiliza as formas de um saxofone para criar uma silhueta que é, ao mesmo tempo, imagem e melodia. Seus "poemas-partitura" e a obra "mar", que transforma a palavra em ondas fluidas, reafirmam sua maestria em alinhar a poesia às artes plásticas. A trajetória de Al-Chaer, com participações em bienais internacionais, serve de farol para os demais integrantes desta edição.

Conclui-se que a Antologia de Poesia Experimental da Mondru é um documento fundamental da produção contemporânea brasileira. Ao abraçar o lema de "menos formas e flores, mais fomes e fatos", Jeferson Barbosa organizou um compêndio que não se limita a enfeitar a página, mas que a utiliza como campo de batalha para a linguagem. Esta obra, lançada na FLIP 2023, prova que a poesia experimental continua sendo um dispositivo potente para desbravar as fissuras da língua e as complexidades do mundo moderno.

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