Resenha: Viagem na Coreografia da Mente, org. Gabriela Queiroz


A antologia Viagem na Coreografia da Mente: A Experiência Simbólica no Fluxo de Consciência, organizada por Gabriela Queiroz e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece-se como um marco de experimentação literária derivado de oficinas imersivas do portal EducaMondru. A obra propõe uma incursão profunda pelos recantos da mente, utilizando o fluxo de consciência não apenas como estilo, mas como ferramenta poética para desbravar vertentes psicológicas e dimensões existenciais. Ao reunir autores como Arthur Petrola, Gabriele Gomes, Juliana Dias, Lincoln de Barros e Patrícia Najjar, o volume constrói uma narrativa polifônica que desafia a organização lógica tradicional em favor de uma apresentação subjetiva e ininterrupta das impressões humanas. O projeto gráfico, pontuado por colagens em tom de stippling, reforça visualmente essa fragmentação do eu, sugerindo que a identidade é uma composição constante de memórias, traumas e percepções imediatas.

A técnica central explorada na coletânea busca mimetizar o funcionamento real da mente humana, capturando pensamentos e sensações no exato momento em que emergem, muitas vezes de forma caótica. Essa abordagem modernista permite que o leitor mergulhe na intimidade dos personagens, onde as fronteiras entre o cósmico e o íntimo, ou entre o onírico e o real, tornam-se propositalmente borradas. A organizadora destaca que a função emotiva do texto e as sobreposições de ideias foram eixos fundamentais durante a criação das histórias, resultando em textos que utilizam a linguagem para pintar quadros internos de grande densidade. Cada conto funciona como um fragmento de uma jornada maior, convidando o público a reconhecer partes de sua própria experiência nos caminhos traçados por vozes singulares que navegam por águas muitas vezes turbulentas.

Neste cenário de "coreografia", a mente não é estática; ela se move entre o peso da finitude e a leveza da memória sensorial. A obra aborda temas universais como a angústia, a busca por aprovação e a resiliência diante da desilusão, transformando a rotina comum em uma metáfora para a própria vida. A transição de uma consciência primordial em busca de um hospedeiro, no conto de Juliana Dias, para a crueza de um depoimento de sobrevivência de uma travesti, no texto de Arthur Petrola, demonstra a amplitude do espectro emocional coberto pela antologia. É nesse contraste entre a vastidão do cosmos e a brutalidade do asfalto que a obra encontra seu equilíbrio, tratando a experiência humana como um fluxo contínuo onde o "real" é apenas uma das muitas camadas da percepção.

A estrutura desta resenha seguirá a proposta de analisar como essa multiplicidade de vozes se harmoniza sob o conceito de fluxo de consciência. Veremos como o simbolismo se manifesta em objetos cotidianos e como a técnica narrativa serve para expor a vulnerabilidade dos personagens diante do tempo e do espaço. O convite inicial feito por Gabriela Queiroz é para uma jornada que vai além da mente, atingindo a essência do ser através da palavra. Assim, a antologia não é apenas uma leitura passiva, mas um processo de reconhecimento mútuo entre autor e leitor, mediado pela técnica literária que ousa transcrever o que é, por natureza, indizível: o movimento constante do pensar. Esta análise se aprofundará na contribuição de cada autor para o mosaico simbólico que define a obra como um todo.

A técnica narrativa do fluxo de consciência, pilar central da antologia, é explorada com maestria para desvelar a fragilidade das conexões humanas e o peso da memória. No conto "Rio Machado", de Lincoln de Barros, o leitor é transportado para o interior de um ônibus em movimento, onde a paisagem verde e as cidades em transformação servem de gatilho para uma reflexão sobre a passagem do tempo e a solidão. O autor utiliza o deslocamento físico como metáfora para o deslocamento interno; a pressa de voltar para casa entra em conflito com a percepção de que, ao chegar, restará apenas o silêncio dos livros. Essa melancolia é acentuada pelo contraste entre as lembranças de viagens passadas, repletas de histórias para contar aos filhos, e o presente "seco por dentro", onde a consultoria técnica em lugares ermos endureceu a antiga suavidade do ser. A escrita de Barros mimetiza o sacolejo do ônibus, saltando entre a indignação política contra a especulação imobiliária e a poesia visual de colonos atravessando um rio em canoas.

Em contrapartida, Patrícia Najjar, no conto "Jaleco Branco", investiga a vulnerabilidade sob a perspectiva de quem está acostumado a deter o controle: um médico de setenta e cinco anos que se torna paciente no próprio hospital onde chefiou plantões. O fluxo de consciência aqui captura o pânico da finitude, onde o jaleco, antes uma armadura de "super-herói", dá lugar a um avental aberto nas costas e a uma "fratura exposta" de impotência. A narrativa mergulha no arrependimento de uma vida pautada por escolhas que privilegiaram a carreira em detrimento do convívio familiar, resultando em "abraços constrangidos" e um divórcio que ecoa o distanciamento emocional. O "cheiro de hospital" e o barulho das macas tornam-se elementos opressores, evidenciando que a mortalidade, antes alheia, agora bate à sua porta. A redenção surge apenas no despertar de uma crise de ansiedade, quando o personagem percebe a "segunda chance" de construir pontes com os netos e filhos.

Já no conto "O Peso da Hipérbole", Gabriela Queiroz utiliza a técnica para expor a crueza de um rompimento amoroso. A frase "Você não presta e eu não te amo mais" atua como uma combustão que esmaga o tórax da protagonista, desencadeando um fluxo de pensamentos que mistura o presente hostil com memórias de traições e encontros clandestinos. A autora trabalha com a sobreposição de dois tempos e dois homens: o toque explosivo de Joaquim e as palavras demolidoras de Fernando. O ambiente de uma loja de roupas, com dondocas observadoras e blazers de linho, serve de cenário para um processo de "indigestão" emocional, onde a personagem se vê como "inescrupulosamente sórdida" e fragmentada. A hipérbole do título não é apenas uma figura de linguagem, mas a medida do excesso que o peito pulsante não consegue mais conter, culminando em uma retórica de vingança onde ela assume a crueldade que antes a vitimava.

Essas três narrativas demonstram a versatilidade da antologia ao tratar a mente como um espaço geográfico acidentado, cheio de "picos de inquietação" e "vales de angústia". Seja na estrada poeirenta de Rondônia, no quarto gelado de um hospital ou no calor de uma tarde de desamor, os autores utilizam o fluxo de consciência para mapear o que Lincoln de Barros chama de "mapa da angústia". A experiência simbólica reside justamente nessa capacidade de transformar o fluxo de pensamentos em uma matéria tátil, onde cada autor oferece ao leitor a oportunidade de navegar por águas turbulentas sem a necessidade de uma narração lógica tradicional. A coletânea prova que, na coreografia da mente, o movimento mais importante é aquele que nos leva ao encontro da nossa própria verdade, por mais fragmentada que ela se apresente.

A dimensão social e a busca incessante por pertencimento emergem com vigor na escrita de Arthur Petrola e Gabriele Gomes, que utilizam o fluxo de consciência para dar voz a sujeitos muitas vezes marginalizados ou perdidos em suas próprias trajetórias. No conto "Depoimento", Petrola constrói a figura de Rochelle Jenna Rock, uma travesti que reivindica sua identidade e história em um monólogo que transita entre o orgulho de ser "fluorescente feito lâmpada" e a dor de ser amada apenas no escuro. A narrativa é um fluxo de indignação e resistência, onde a personagem discute a dualidade de seus nomes — o do "morto" no RG e o da "viva" retirado da televisão — enquanto reflete sobre o ódio que recebe e a capacidade de amar que mantém guardada. Através de frases curtas e incisivas, o autor revela uma consciência que se "esvaziou" e "secou", mas que ainda sonha em criar filhos para protegê-los de um mundo que não entende a diversidade.

Gabriele Gomes, em "Voy a Vivir Más", transporta o leitor para uma festa na piscina nos arredores de Madrid, onde a protagonista se sente alienada e "perdida em sua história". O fluxo de pensamento captura a angústia de quem tateia o futuro sem saber para onde ir, contrastando sua preocupação interna com a leveza quase patética do amigo Luis, que decide "beber mais" em vez de "viver mais". A vida é descrita como um tsunami que avança e toma conta de tudo, uma força que espreme o indivíduo "igual um gaspacho". Essa sensação de inadequação ressurge no conto "Carambolas", também de Gomes, onde a narradora relata a "maldita aprovação" que buscou dos pais durante toda a existência. Através do fluxo de memórias, ela revisita fracassos esportivos e êxitos artísticos ignorados pela família, concluindo que sua única superação real foi o ato infantil de amarrar os cadarços, enquanto o resto de sua produção cultural permaneceu irrelevante para aqueles que deveriam validá-la.

A antologia também explora a consciência animal e o misticismo cotidiano para expandir os limites da percepção. Juliana Dias, em "O Giro do Vaga-lume", propõe um exercício de alteridade ao narrar as múltiplas vidas de um gato chamado Hotaru. O fluxo de consciência animal revela uma compreensão instintiva da morte e do retorno, onde o felino reconhece sua humana através de uma "luz cálida" e do toque que faz sua "dor desenrolar". A narrativa aborda o abandono e o reencontro, sugerindo que existir não é algo perene, mas um ciclo de retornos, culminando na aceitação da vida derradeira ao lado de quem se ama. Essa fluidez temporal é ecoada em "Graça de Bruxa", de Gabriela Queiroz, onde a personagem Anabel transita entre seus 81 anos e as lembranças de sua juventude na Toscana. A "bruxa" temida pelas crianças da rua é, na verdade, uma mulher habitada por histórias e saudades efervescentes, cujo único poder real é a comunicação telepática com seu gato Otávio.

O fechamento da obra com contos como "Sete e Dez" e "Alcachofra" reafirma a temática da fragmentação e do recomeço. Arthur Petrola descreve o nascimento de um filho como uma escolha feita sob luzes brancas que não permitem sombras, onde o pai precisa aprender a respirar e a funcionar em meio à urgência do parto. Já Queiroz encerra o volume com uma metáfora sobre a espera e a procrastinação na fila do pão, onde a protagonista se vê como uma "alcachofra gigante e pesada", carregando a decisão de ser uma "fuga rasgada" em vez de enfrentar as injustiças ou reconectar-se com amigos do passado. Assim, a antologia cumpre sua promessa de ser uma viagem simbólica, onde a coreografia da mente revela que, apesar do caos e da solidão, o fluxo da consciência é o que nos mantém vibrantes e, acima de tudo, humanos.

A culminação desta antologia reside na capacidade de seus autores em transformar a vulnerabilidade em uma força motriz narrativa. No conto "A Cor dos Lagostins", Lincoln de Barros utiliza a música e a memória sensorial para explorar a inquietude mental. O narrador reflete sobre como certas melodias funcionam como um playback sorrateiro, enquanto recorda a transição cromática de lagostins sendo cozinhados na praia — de um verde-oliva militar para um laranja luminoso. Essa "coreografia" mental revela que a consciência está em constante vigília, tentando resgatar o sonhador de imagens surrealistas e oníricas. A conclusão do autor ecoa a necessidade de manter a "mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", sugerindo que a paz só é alcançada quando aceitamos o fluxo incessante de nossos próprios pensamentos.

Essa busca por equilíbrio é duramente contrastada em "Querida Isabela", de Juliana Dias, onde o fluxo de consciência assume a forma de uma carta amarga escrita por Roberto. O texto expõe um colapso doméstico, onde a obsessão da esposa por seu projeto literário e pela cultura japonesa é vista como um ato de egoísmo puro. O simbolismo da caveira com a inscrição memento mori sobre a mesa de Isabela serve como um lembrete constante da finitude que corrói a relação. Roberto sente-se invisível, comparando seu coração a um tambor rasgado, evidenciando como o fluxo de consciência pode ser utilizado para manifestar o ressentimento acumulado e a incapacidade de comunicação entre dois seres que compartilham o mesmo espaço, mas habitam mundos mentais distintos.

A antologia encerra-se com uma reflexão sobre a verdade e a libertação. Patrícia Najjar, em "Astromélias Brancas", descreve o café da manhã como um teatro de protocolos e silêncios constrangedores. O cheiro das flores, que remete a cemitério, e a mesa bamba são metáforas potentes para um casamento que já se desfez, restando apenas a averbação formal do divórcio. No entanto, ao colocar "tudo para fora", a protagonista atinge um estado de graça e lucidez. Da mesma forma, Gabriela Queiroz em "Alcachofra" apresenta a vida como uma lenta ontogenia na fila do pão, onde o indivíduo é uma "alcachofra gigante e pesada" repleta de camadas de memórias e decisões de fuga.

Viagem na Coreografia da Mente é, portanto, uma obra que não oferece respostas fáceis, mas sim um espelho para a fragmentação humana. Através das biografias dos autores, percebemos que suas experiências como psicólogos, advogados, artistas e filósofos alimentam a densidade de cada página. A antologia prova que, embora cada mente execute sua própria dança solitária, a literatura é o palco onde essas coreografias se encontram e ganham significado. Ao final da leitura, o que resta não é o caos, mas a compreensão de que cada fragmento, por mais doloroso que seja, compõe a totalidade do ser em seu eterno fluxo de existir.

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