Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, org. Kellen Dias e Leila Mendes


A publicação de Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, organizada por Kellen Dias e Leila Mendes e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece um marco fundamental na cartografia literária contemporânea brasileira ao deslocar o eixo da produção intelectual do rigor asséptico dos gabinetes para a vibração orgânica do verso. Esta antologia não se propõe apenas como uma reunião de textos, mas como um manifesto de ocupação. Ao questionarem onde reside o fenômeno poético, as organizadoras evocam a tradição de Adélia Prado para sentenciar que, entre aquelas cujas auras vibram fêmea, não cabe a passividade do gauche. A obra apresenta-se como um emaranhado poético que ressoa como bandeiras em meio a um campo de guerra simbólico, oferecendo rumo e esperança através de vozes que, embora transitem pela Academia, recusam-se a ser domesticadas por ela. O livro é um organismo vivo que abriga o som de mulheres que se refazem incorpóreas em corpos de poesia, desafiando a premissa histórica de que a morada do verso não se pressupõe em boca de mulher. A poética feminina se agiganta aqui, desafiando qualquer limitação imposta por padrões rígidos.

A estrutura da obra reflete a multiplicidade de suas colaboradoras, unindo graduandas, mestras e doutoras de diversas instituições brasileiras, como UFRJ, USP, UERJ e UFBA, em um diálogo que subverte a hierarquia acadêmica tradicional. A poesia aqui é o instrumento de ruptura das barragens impostas pela tradição, honrando o legado de figuras como Conceição Evaristo ao trazer a primeira pessoa para o centro da tese e do poema. Na apresentação, Dias e Mendes provocam o leitor ao indagar se a poesia se demora ou faz morada, ou se flui nômade e errante. A resposta desdobra-se ao longo das páginas: a poesia insiste e se faz presente onde menos se imagina, como a plantinha que brota na rachadura do asfalto, conferindo vida ao impossível. O projeto gráfico, enriquecido pelas colagens de Gabriele Oliveira, reforça essa atmosfera de fragmentação e reconstrução, onde o visual e o verbal se fundem para traduzir a experiência de ser mulher em um ambiente que, historicamente, privilegiou a voz masculina como detentora da razão e da estética.

A análise da obra revela uma tensão constante entre o teto todo seu, desejado por Virgínia Woolf, e as obrigações cotidianas que cercam a mulher contemporânea. A antologia é povoada por bruxas, santas e silenciadas que encontram abrigo nas vozes de autoras como Maria de Jesus, Larissa e Janaína. Há uma consciência profunda de que a escrita feminina é um ato de sobrevivência, um som que se perpetua no grito do parto ou na ausência de poeira da casa. Este primeiro contato com a obra estabelece a base para uma compreensão de que a poética na universidade não é um subproduto do estudo teórico, mas uma força ancestral que utiliza o papiro e a tela que brilha para conjurar novas realidades. A antologia convida o público a partilhar o prazer desse achado, transformando o espaço acadêmico em um seio que nutre novas forças e afaga feridas antigas através do vibrar permanente da palavra.

Neste volume de 112 páginas, a escrita torna-se o caminho para histórias presas que finalmente escapam, onde as emoções transbordam e as sensações preenchem o vazio da "cruel realidade". A obra não ignora a dor; pelo contrário, expõe fraquezas sem medo, revelando a necessidade de dizer de forma clara o que dói. É uma literatura que transita entre o silêncio e a voz, entre a terra, a linha e o canto, buscando edificar a emancipação mental e abolir qualquer tipo de escravidão simbólica. O leitor encontrará aqui um fôlego novo, onde o labor acadêmico e poético se fundem para revelar a força da subversão. É o início de uma jornada onde a poética feminina na universidade é o grito que se faz suporte para romper as barreiras impostas até a morte.

Dando continuidade à análise de Onde mora a poesia, este segmento mergulha na visceralidade dos versos que compõem o corpo da antologia, revelando uma escrita que se recusa ao adorno inútil para abraçar o que há de mais humano e, por vezes, abjeto. A seção inaugural dos poemas, aberta por Duda Piliçari, estabelece um tom de urgência e crueza que desafia a lírica tradicionalmente associada ao feminino. Em poemas como "insaciável", a autora utiliza imagens de sangue metálico, vísceras e o uso de alicates enferrujados para descrever um amor que sufoca e não sacia, transformando o corpo em um campo de exploração anatômica e sensorial que beira o horror gótico. Essa estética do excesso é imediatamente contrastada pela crítica social urbana em "Cachorros Magros", onde a "fauna urbana cosmopolita" é observada sob a ótica da desigualdade, diferenciando o luxo do pedigree da revolta daqueles que se alimentam de destroços. É uma poesia que não teme o chão da cidade nem a ferida aberta.

A obra avança para uma dimensão onde a subjetividade se constrói no espelho do outro e da própria ancestralidade. Alê Magalhães evoca o rio que a corta e o entendimento que advém das nuvens e do tarô, enquanto Janaína Cabello expande esse "eu" para uma defesa coletiva e política. O poema de Cabello é um inventário de resistências: defende-se a educação pública, os Correios, as mulheres trans, indígenas e lésbicas, e até o quiabo e a cerveja gelada, em um manifesto contra a "pasqualização" do português e a favor de uma vida que não seja feita de plástico. Essa busca por autenticidade ecoa em Amanda Castro, que se descreve como "partes de mim mesma", um mosaico de retalhos que costura a rotina afiada com o sonho de cavalgar nas horas mortas como uma amazona selvagem.

A genealogia feminina ganha contornos nítidos em Cristyane Leal, que se define como descendente de terra, linha e canto. Ao listar as tias que a vestiram de noiva, de cena, de força e de mulher, Leal revela que sua arte é, fundamentalmente, um arremate de silêncios e vozes herdadas de "duas peles negras". Essa honestidade brutal sobre as origens e as dores é o que permite a Estela Abreu expor suas fraquezas sem medo, reafirmando-se como uma "estrela de carne e osso" que prefere a paz à guerra, mas que não hesita em dizer claramente quando algo dói. A antologia, portanto, não apenas abriga a poesia, mas dá voz a um "sujeito que fala" e que respira o grito represado por anos contra as chibatas do racismo e do machismo.

A força desta antologia reside na capacidade das autoras de converter o cotidiano doméstico e as pressões da maternidade em matéria-prima para a subversão estética. Iamni Reche personifica essa tensão em seu texto, onde o ato de escrever ocorre no "auge do desespero", enquanto crianças precisam ser buscadas na escola e a comida queima no fogo. Há uma ironia cortante na comparação com o filósofo homem que exige silêncio absoluto e recebe o almoço por debaixo da porta, enquanto a mulher escritora "dá à luz a um texto" em meio ao som de bombeiros e interrupções constantes. Essa "escrevivência" não é um adorno, mas uma estratégia de sobrevivência que permeia os versos de Karlana Souza, cujo arsenal poético se acumula junto à poeira da casa e às louças encardidas, reafirmando que a produção intelectual feminina não pode ser separada das "inquietações das Virgínias" e do dia a dia das Carolinas.

O volume também se debruça sobre a experiência do corpo negro e a resistência às estruturas coloniais que ainda ecoam na universidade. Doris Barros entra na Academia "burlando leis" e sistemas burgueses, carregando autores célebres sob braços cansados nos vagões lotados da Supervia, enquanto recusa ter sua identidade diluída por uma "cor dissimulada". Essa consciência de ocupação é levada ao ápice por Maria Luiza Hastenreiter, que celebra o ato de "aquilombar-se" e "aldear-se" como resposta a séculos de negação de vida e afeto. A escrita, nesse contexto, torna-se um mar ou uma cachoeira que renasce para transbordar a liberdade que o sistema tenta conter.

A multiplicidade de formas de ser mulher é explorada através de metáforas anatômicas e geográficas. Luísa Monteiro propõe uma "antologia cardíaca", catalogando corações que variam do "couraça" de Benedetti ao "de galinha" que satisfaz paladares sádicos, culminando no coração desmetaforizado — o músculo puro que todos possuem. Já Elisa Santana, em sua "Biografia", revela a crueza de ter trinta anos, dois filhos e uma "vontade constante de chorar" enquanto tenta pular sete gerações e recuperar um tempo que lhe foi arrancado pela herança de uma culpa religiosa opressora. Cada poema funciona como um ponto de ancoragem para mentes inquietas que, como sugere Juliana Alvernaz, ficam à deriva entre a precariedade da vida e o rigor da ciência, culminando sempre na necessidade vital da defesa do pensamento próprio.

A conclusão desta análise debruça-se sobre o papel da universidade não apenas como cenário, mas como interlocutora crítica dessa produção. Matile Facó resume o "labor acadêmico" como um espaço onde a palavra atua como fio condutor para quebrar as amarras do padrão, desafiando um ambiente muitas vezes engessado. A poética feminina, ao se manifestar nos corredores das instituições, refina o olhar para a realidade e transforma a informação bruta em "detalhe versado", como propõe Patrícia de Campos Occhiucci. Não se trata de uma escrita isolada, mas de uma produção que busca a "comum ação" e a emancipação mental, conforme a voz marginal e desobediente de Larissa Artiaga. A universidade é, portanto, o território onde essas mulheres deixam de ser "estrangeiras" para povoar o saber com suas próprias escrevivências e perspectivas ancestrais.

Os textos finais da antologia reforçam a ideia de que a poesia é um ato de coragem contra o medo que paralisa. Rai Soares clama para que não se dê ao medo um lugar à mesa, incentivando o riso como um ato ancestral de resistência. Essa coragem manifesta-se também na superação da timidez descrita por Maria de Jesus Santos, que encontra nos versos um jeito de falar sem que ouçam sua voz física, transformando o silêncio em ousadia. A obra encerra-se com o peso da "Certidão de Nascimento" e da "Natureza Morta" de Juliana Pavão, que revisita os rótulos de "menina boa" e "menina cuida" para confrontar um passado doente e a solidão das ruas, onde muitas vezes ninguém estende a mão.

Onde mora a poesia é, em última análise, um inventário de existências que não se dobram à linearidade da história oficial. Das colagens procedurais que ilustram o miolo às biografias que revelam atrizes, psicólogas, palhaças e pesquisadoras, o livro prova que a poética feminina na universidade é o "grito que se faz suporte". É um convite para reconhecer que o conhecimento legítimo também nasce do suor, do sangue menstrual e do cotidiano interrompido. Ao fechar este volume, compreende-se que a morada da poesia é, simultaneamente, o corpo, a casa e a Academia — locais onde essas mulheres insistem em escrever com liberdade e coragem até a morte.

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