Nunca fui um homem de crenças vãs ou de sobressaltos infantis perante o escuro. Minha mente, forjada na precisão matemática do esquadro e do compasso, sempre buscou a ordem na disposição das pedras e do aço. No entanto, sinto que a sanidade é uma fachada tão frágil quanto o reboco de um cortiço vitoriano, pronta para ruir ao primeiro sinal de uma infiltração invisível. Moro no trigésimo segundo andar do Edifício Vane, uma estrutura de brutalismo tardio que se ergue sobre o centro da metrópole como um monólito de indiferença. Minha aflição, que os médicos insistem em rotular como uma mera exacerbação sensorial — uma hiperacusia nervosa —, é, na verdade, uma maldição de clareza. Eu não apenas ouço o mundo; eu o disseco através do som. Ouço o lamento do metal sofrendo com a dilatação térmica, o murmúrio elétrico das lâmpadas de neon que agonizam nas ruas lá embaixo e, mais perturbadoramente, o silêncio que não é silêncio. Foi em uma terça-feira de novembro, sob um céu da cor de um cadáver...
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Vitor Zindacta
O NECROTÉRIO VERTICALA
A cidade de Nova Arcádia não dormia; ela apodrecia em um estado de vigília febril. Sob o céu de chumbo, que parecia pairar a poucos metros dos telhados pontiagudos, a fumaça das fábricas de sebo desenhava arabescos de um cinza doentio. Eu, um observador das sombras por profissão e um hipocondríaco da alma por natureza, encontrava-me diante do Edifício Malakoff — uma estrutura de ferro e tijolos enegrecidos que se erguia como um dedo acusador contra o firmamento. Dizer que o prédio era sinistro seria um eufemismo que insultaria a própria natureza do horror. Suas janelas eram como olhos leitosos de um cadáver, e o som que emanava de suas profundezas... ah, aquele som. Era um sussurro metálico, uma fricção rítmica que lembrava o amolar de facas em couro curtido, ecoando pelo beco úmido. Minha missão era simples em sua descrição, mas vil em sua essência. O Sr. Valdemar, um colecionador de raridades anatômicas cujo rosto era uma máscara de pergaminho esticado sobre ossos frágeis, havia me c...
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Vitor Zindacta
A MAQUINA DE OSSOS QUEBRADOS
O convite chegou em um envelope sem remetente, o papel de um branco fúnebre e a caligrafia tão precisa que parecia impressa. Dentro, uma única frase: "A perfeição aguarda." Não havia endereço, apenas a menção de um ateliê no distrito industrial, um lugar esquecido onde o cheiro de metal enferrujado e sonhos desfeitos impregnava o ar. Eu era uma artesã de porcelanas, e a busca pela perfeição era a minha própria maldição silenciosa. Meu trabalho era de uma delicadeza quase doentia, cada curva, cada esmalte, uma tentativa de capturar a efemeridade da beleza antes que ela se desintegrasse. Mas eu sentia que faltava algo, um toque final, uma alma que eu nunca conseguia infundir em minhas peças. No dia marcado, o táxi me deixou em frente a um galpão de tijolos escuros, sem janelas, a única indicação de vida uma porta de aço pesado com um interfone quase invisível. A voz que respondeu era masculina, rouca, mas com uma estranha melodia. "Bem-vinda. A perfeição aguarda." A p...
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