A antologia Cartografias Poéticas da Ausência, organizada por Jeferson Barbosa e publicada pela Mondru Editora em 2025, apresenta-se como um inventário sensível das lacunas que compõem a experiência humana contemporânea. A obra é o resultado tangível de uma oficina de poesia narrativa, na qual um grupo diverso de escritores brasileiros foi desafiado a explorar a materialidade da palavra como agente de narração. O título não é meramente ilustrativo; ele reflete a constatação de que o tema da falta — seja ela de um amor, de um lar, da memória ou da justiça social — serviu como o eixo gravitacional que uniu as produções dos autores envolvidos. Ao navegar por estas páginas, o leitor é convidado a percorrer mapas de uma geografia do sentir, onde a poesia não apenas narra fatos, mas dá corpo e contorno ao que não está mais lá, mas insiste em habitar os silêncios.
O livro está estruturado de forma a destacar as vozes individuais dos participantes, apresentando seleções de poemas de autores como Alan dos Santos, Aloisio Romanelli, Andreia Dacoregio, entre outros, antes de culminar na seção especial intitulada Poema-Notícia. Esta organização permite que a pluralidade de estilos e origens — que vão do Rio de Janeiro a Santa Catarina e Goiás — enriqueça a temática central. A apresentação de Jeferson Barbosa estabelece que a poesia narrativa aqui praticada não é apenas o contar de uma história em versos, mas a busca pela tensão entre o "contar e o cantar", utilizando ritmos e aliterações para condensar o tempo e transformar o enredo em uma vivência respirada.
Um dos pilares da obra é a investigação das invisibilidades sociais e dos traumas coletivos. Através do rigor poético, os autores dão voz ao trabalhador massacrado pela rotina, ao luto impregnado nas paredes e à memória que teima em assombrar. Essa abordagem insere a antologia no vibrante cenário da poesia contemporânea brasileira, que cada vez mais abraça formas híbridas para tratar de questões críticas da sociedade. A obra se propõe, portanto, como um testemunho da potência da poesia em transformar o vazio em algo palpável e significativo.
As colagens que ilustram o miolo e a capa, também de autoria de Jeferson Barbosa, complementam visualmente a proposta cartográfica, sugerindo relevos e territórios que ecoam as "geografias da falta" exploradas nos textos. Esta integração entre o visual e o textual reforça a ideia de que o livro é um objeto de imersão, concebido para mapear a presença fantasmagórica do que foi perdido. A seguir, analisaremos como os primeiros autores da coletânea articulam essas ausências através de suas narrativas particulares.
A primeira parte da antologia mergulha em realidades urbanas cruas, onde a ausência se manifesta como uma privação de dignidade e segurança. Alan dos Santos, abrindo a sucessão de vozes, apresenta poemas que tencionam a experiência do vício e a consciência de classe. Em "Minha Sina", o autor narra o encontro com o "corpo negro" em um galpão sinistro da Rua Augusta, em São Paulo, transformando a busca pela droga em uma reflexão sobre a utilidade humana e o abandono social. A narrativa poética de Santos é marcada por uma autoconsciência afiada, especialmente em "Corrida", onde ele reconhece o "pacto da branquitude" que o protege da repressão policial no morro São Bento, enquanto outros correm pelo perigo real. A ausência aqui é a da justiça equânime, substituída por um mecanismo de compensação biológica e social.
Dando continuidade a essa exploração dos espaços, Aloisio Romanelli, psiquiatra e poeta mineiro, traz uma perspectiva mais íntima e geracional. Em "A Grande Mudança [Em Três Tempos]", ele cartografa a transição do interior para o litoral, revelando como o deslocamento geográfico não apaga as necessidades do corpo e do afeto. A figura da avó surge como o ponto de ancoragem e cura para o filho doente, evidenciando que a ausência do "corpo materno" pode ser fatal, enquanto sua presença é o único remédio eficaz contra a angústia do desconhecido. Romanelli utiliza a quebra de versos para mimetizar o definhamento e a recuperação, integrando a forma poética ao sofrimento narrado.
A voz de Andreia Dacoregio introduz um elemento mais onírico e ancestral à coletânea. Em "Sobre Raízes e Asas", ela explora a linhagem feminina — avó, mãe e neta — como uma trama que atravessa o tempo. Para a autora, a história é "futuríssima", e a ausência é combatida através da germinação constante de novas identidades. No entanto, em "Extinção", Dacoregio confronta o leitor com a desintegração do eu: a perda do nome, da memória e da capacidade de decifrar o mundo ao redor. É uma cartografia do apagamento, onde o ser se torna "impreciso" e a cidade se transforma em um "caldo grosso" e ininteligível.
Esses autores iniciais estabelecem o tom da antologia ao demonstrar que a poesia narrativa é um campo de batalha entre a memória e o esquecimento. Seja nas biqueiras de São Paulo, nos morros de Santos ou nos interiores mineiros, a palavra atua como uma bússola que tenta situar o sujeito em meio ao vazio. A organização de Jeferson Barbosa garante que cada poema funcione como uma coordenada específica nesse mapa da falta, preparando o terreno para as investigações sobre a finitude e o cotidiano que seguem nas seções posteriores.
A metade da antologia aprofunda-se em como o tempo e o esquecimento corroem as estruturas do cotidiano. Carmo Antonio utiliza versos curtos e ritmados para descrever o "Fluxo", uma metáfora para a "grande babel" das ruas onde o indivíduo é sugado por becos fétidos e multidões que somem. Em "Espelho", o autor aborda a ausência de autorreconhecimento, retratando o tempo como algo "inexorável" que torna o reflexo diário um estranho desorientado. Essa desconstrução da imagem pessoal é ecoada por Celia Ribeiro, que foca nos "Descompassos Cotidianos" e na invisibilidade social. Ribeiro narra a crueza de quem não tem "direito nem de morar embaixo de um viaduto", expondo como a existência dos marginalizados incomoda mais a sociedade do que "carro velho abandonado".
A obra prossegue com a voz de Gisela Maria Bester, que traz uma densidade quase antropológica ao falar de "Alfenim". Ela resgata a memória da cana e dos engenhos de Pirenópolis e Vila Boa para denunciar uma "morta história" de corpos negros açoitados como gado, simbolizada pela figura de Chico, o "ausente". Bester mapeia a ganância humana em seu "Poemário da Descida", lamentando a "murcha civilização" que sacrifica a natureza e os animais sob a "monstruosidade do olho capital". A ausência, para ela, é a perda da conexão ética com a vida em todas as suas formas.
Guto Rocha e João Roberto exploram a melancolia dos encontros perdidos e da rotina desfeita. Rocha, em "A Salada de Alface", utiliza memórias de infância e o cheiro de encrenca para desenhar a "cratera enorme" deixada por uma figura paterna autoritária. Já João Roberto trabalha com a fragmentação silábica em "Volta.", onde os espasmos das pernas e a arritmia dos sentimentos traduzem o luto e a busca por um rosto que não se pode nomear. O gato Agripina, em seus poemas, torna-se a única testemunha de uma dor que "venceu a si".
Encerrando este bloco, Karolliny Diniz apresenta uma narrativa visceral sobre a finitude em "Rascunho". Ela personifica a Morte como uma "artesã em ato" que lapida o corpo caído entre paredes cobertas de piche. Diniz inverte a perspectiva tradicional: a ausência não é apenas o que falta aos vivos, mas a observação do mundo por quem já não faz parte dele, "eternizada como rascunho". Essa sucessão de vozes reforça que a cartografia proposta por Jeferson Barbosa é um mapeamento de ruínas — físicas, sociais e emocionais — que sustentam a arquitetura da memória brasileira.
O encerramento de Cartografias Poéticas da Ausência consolida a obra como um exercício de alteridade e denúncia. Miguel Rosa introduz a figura do "bicho prosaico", equiparando pombos e homens em sua luta para compreender a inutilidade de viver em cidades cinzas e protocolares. Sua poesia mapeia o Glicério, onde enxurradas levam "mesas, roupas, filhas", deixando apenas uma esperança corroída para as crianças. Essa mesma fragilidade física é explorada por Patricia Najjar em "A Bailarina", onde a beleza da dança esconde uma "calosidade profunda" e uma coluna que arria, revelando que o preço do propósito é, muitas vezes, a solidão e o desgaste do próprio corpo.
A inovação gráfica e estrutural atinge seu ápice com Rafael Martins e Wilson Stavarengo. Martins utiliza recursos visuais — como bips de monitor cardíaco e arame farpado — para narrar o fim de Serafim Pimenta, cujas lembranças são "bichos que dormem embaixo da língua". Ele questiona a "Gravidade do Nome" e o não-pertencimento de quem é tratado como um animal estranho, transformando o poema em um corpo que vaza pelas brechas. Stavarengo, por sua vez, dá voz a José Basílio, um maltrapilho que carrega o mundo em uma sacola, onde o viaduto é o céu e a cachaça cura a dor. Suas estatísticas poéticas sobre o feminicídio de Marias e Sandras transformam números frios em "sentimentos azuis que não poderão mais ser devolvidos".
A seção final, Poema-Notícia, é o ponto de convergência onde a objetividade jornalística é atravessada pelo olhar da poesia. Os autores realizam uma "escavação poética", encontrando humanidade em manchetes sobre tragédias ambientais ou sociais. Aloisio Romanelli transmutou um alerta meteorológico em uma cena de desabamento sem melodia; Celia Ribeiro transformou a condenação de um humorista em uma tragédia sobre o bullying escolar ; e Miguel Rosa usou a invasão de um macaco-prego a um escritório para sugerir que o homem "não precisava viver daquele jeito".
Em suma, a antologia organizada por Jeferson Barbosa não apenas cataloga ausências, mas as torna instrumentos de crítica e reflexão. Ao dar voz a personagens silenciados pelo relato factual — desde o Papa Francisco até a "Mulher Abacaxi" presa em um elevador —, a obra cumpre sua promessa de ser uma geografia do sentir. O livro termina onde a consciência do leitor começa: na percepção de que, por trás de cada vazio mapeado, existe uma história que insiste em ser contada para não ser esquecida.
A antologia Cartografias Poéticas da Ausência, organizada por Jeferson Barbosa e publicada pela Mondru Editora em 2025, apresenta-se como um inventário sensível das lacunas que compõem a experiência humana contemporânea. A obra é o resultado tangível de uma oficina de poesia narrativa, na qual um grupo diverso de escritores brasileiros foi desafiado a explorar a materialidade da palavra como agente de narração. O título não é meramente ilustrativo; ele reflete a constatação de que o tema da falta — seja ela de um amor, de um lar, da memória ou da justiça social — serviu como o eixo gravitacional que uniu as produções dos autores envolvidos. Ao navegar por estas páginas, o leitor é convidado a percorrer mapas de uma geografia do sentir, onde a poesia não apenas narra fatos, mas dá corpo e contorno ao que não está mais lá, mas insiste em habitar os silêncios.
O livro está estruturado de forma a destacar as vozes individuais dos participantes, apresentando seleções de poemas de autores como Alan dos Santos, Aloisio Romanelli, Andreia Dacoregio, entre outros, antes de culminar na seção especial intitulada Poema-Notícia. Esta organização permite que a pluralidade de estilos e origens — que vão do Rio de Janeiro a Santa Catarina e Goiás — enriqueça a temática central. A apresentação de Jeferson Barbosa estabelece que a poesia narrativa aqui praticada não é apenas o contar de uma história em versos, mas a busca pela tensão entre o "contar e o cantar", utilizando ritmos e aliterações para condensar o tempo e transformar o enredo em uma vivência respirada.
Um dos pilares da obra é a investigação das invisibilidades sociais e dos traumas coletivos. Através do rigor poético, os autores dão voz ao trabalhador massacrado pela rotina, ao luto impregnado nas paredes e à memória que teima em assombrar. Essa abordagem insere a antologia no vibrante cenário da poesia contemporânea brasileira, que cada vez mais abraça formas híbridas para tratar de questões críticas da sociedade. A obra se propõe, portanto, como um testemunho da potência da poesia em transformar o vazio em algo palpável e significativo.
As colagens que ilustram o miolo e a capa, também de autoria de Jeferson Barbosa, complementam visualmente a proposta cartográfica, sugerindo relevos e territórios que ecoam as "geografias da falta" exploradas nos textos. Esta integração entre o visual e o textual reforça a ideia de que o livro é um objeto de imersão, concebido para mapear a presença fantasmagórica do que foi perdido. A seguir, analisaremos como os primeiros autores da coletânea articulam essas ausências através de suas narrativas particulares.
A primeira parte da antologia mergulha em realidades urbanas cruas, onde a ausência se manifesta como uma privação de dignidade e segurança. Alan dos Santos, abrindo a sucessão de vozes, apresenta poemas que tencionam a experiência do vício e a consciência de classe. Em "Minha Sina", o autor narra o encontro com o "corpo negro" em um galpão sinistro da Rua Augusta, em São Paulo, transformando a busca pela droga em uma reflexão sobre a utilidade humana e o abandono social. A narrativa poética de Santos é marcada por uma autoconsciência afiada, especialmente em "Corrida", onde ele reconhece o "pacto da branquitude" que o protege da repressão policial no morro São Bento, enquanto outros correm pelo perigo real. A ausência aqui é a da justiça equânime, substituída por um mecanismo de compensação biológica e social.
Dando continuidade a essa exploração dos espaços, Aloisio Romanelli, psiquiatra e poeta mineiro, traz uma perspectiva mais íntima e geracional. Em "A Grande Mudança [Em Três Tempos]", ele cartografa a transição do interior para o litoral, revelando como o deslocamento geográfico não apaga as necessidades do corpo e do afeto. A figura da avó surge como o ponto de ancoragem e cura para o filho doente, evidenciando que a ausência do "corpo materno" pode ser fatal, enquanto sua presença é o único remédio eficaz contra a angústia do desconhecido. Romanelli utiliza a quebra de versos para mimetizar o definhamento e a recuperação, integrando a forma poética ao sofrimento narrado.
A voz de Andreia Dacoregio introduz um elemento mais onírico e ancestral à coletânea. Em "Sobre Raízes e Asas", ela explora a linhagem feminina — avó, mãe e neta — como uma trama que atravessa o tempo. Para a autora, a história é "futuríssima", e a ausência é combatida através da germinação constante de novas identidades. No entanto, em "Extinção", Dacoregio confronta o leitor com a desintegração do eu: a perda do nome, da memória e da capacidade de decifrar o mundo ao redor. É uma cartografia do apagamento, onde o ser se torna "impreciso" e a cidade se transforma em um "caldo grosso" e ininteligível.
Esses autores iniciais estabelecem o tom da antologia ao demonstrar que a poesia narrativa é um campo de batalha entre a memória e o esquecimento. Seja nas biqueiras de São Paulo, nos morros de Santos ou nos interiores mineiros, a palavra atua como uma bússola que tenta situar o sujeito em meio ao vazio. A organização de Jeferson Barbosa garante que cada poema funcione como uma coordenada específica nesse mapa da falta, preparando o terreno para as investigações sobre a finitude e o cotidiano que seguem nas seções posteriores.
A metade da antologia aprofunda-se em como o tempo e o esquecimento corroem as estruturas do cotidiano. Carmo Antonio utiliza versos curtos e ritmados para descrever o "Fluxo", uma metáfora para a "grande babel" das ruas onde o indivíduo é sugado por becos fétidos e multidões que somem. Em "Espelho", o autor aborda a ausência de autorreconhecimento, retratando o tempo como algo "inexorável" que torna o reflexo diário um estranho desorientado. Essa desconstrução da imagem pessoal é ecoada por Celia Ribeiro, que foca nos "Descompassos Cotidianos" e na invisibilidade social. Ribeiro narra a crueza de quem não tem "direito nem de morar embaixo de um viaduto", expondo como a existência dos marginalizados incomoda mais a sociedade do que "carro velho abandonado".
A obra prossegue com a voz de Gisela Maria Bester, que traz uma densidade quase antropológica ao falar de "Alfenim". Ela resgata a memória da cana e dos engenhos de Pirenópolis e Vila Boa para denunciar uma "morta história" de corpos negros açoitados como gado, simbolizada pela figura de Chico, o "ausente". Bester mapeia a ganância humana em seu "Poemário da Descida", lamentando a "murcha civilização" que sacrifica a natureza e os animais sob a "monstruosidade do olho capital". A ausência, para ela, é a perda da conexão ética com a vida em todas as suas formas.
Guto Rocha e João Roberto exploram a melancolia dos encontros perdidos e da rotina desfeita. Rocha, em "A Salada de Alface", utiliza memórias de infância e o cheiro de encrenca para desenhar a "cratera enorme" deixada por uma figura paterna autoritária. Já João Roberto trabalha com a fragmentação silábica em "Volta.", onde os espasmos das pernas e a arritmia dos sentimentos traduzem o luto e a busca por um rosto que não se pode nomear. O gato Agripina, em seus poemas, torna-se a única testemunha de uma dor que "venceu a si".
Encerrando este bloco, Karolliny Diniz apresenta uma narrativa visceral sobre a finitude em "Rascunho". Ela personifica a Morte como uma "artesã em ato" que lapida o corpo caído entre paredes cobertas de piche. Diniz inverte a perspectiva tradicional: a ausência não é apenas o que falta aos vivos, mas a observação do mundo por quem já não faz parte dele, "eternizada como rascunho". Essa sucessão de vozes reforça que a cartografia proposta por Jeferson Barbosa é um mapeamento de ruínas — físicas, sociais e emocionais — que sustentam a arquitetura da memória brasileira.
O encerramento de Cartografias Poéticas da Ausência consolida a obra como um exercício de alteridade e denúncia. Miguel Rosa introduz a figura do "bicho prosaico", equiparando pombos e homens em sua luta para compreender a inutilidade de viver em cidades cinzas e protocolares. Sua poesia mapeia o Glicério, onde enxurradas levam "mesas, roupas, filhas", deixando apenas uma esperança corroída para as crianças. Essa mesma fragilidade física é explorada por Patricia Najjar em "A Bailarina", onde a beleza da dança esconde uma "calosidade profunda" e uma coluna que arria, revelando que o preço do propósito é, muitas vezes, a solidão e o desgaste do próprio corpo.
A inovação gráfica e estrutural atinge seu ápice com Rafael Martins e Wilson Stavarengo. Martins utiliza recursos visuais — como bips de monitor cardíaco e arame farpado — para narrar o fim de Serafim Pimenta, cujas lembranças são "bichos que dormem embaixo da língua". Ele questiona a "Gravidade do Nome" e o não-pertencimento de quem é tratado como um animal estranho, transformando o poema em um corpo que vaza pelas brechas. Stavarengo, por sua vez, dá voz a José Basílio, um maltrapilho que carrega o mundo em uma sacola, onde o viaduto é o céu e a cachaça cura a dor. Suas estatísticas poéticas sobre o feminicídio de Marias e Sandras transformam números frios em "sentimentos azuis que não poderão mais ser devolvidos".
A seção final, Poema-Notícia, é o ponto de convergência onde a objetividade jornalística é atravessada pelo olhar da poesia. Os autores realizam uma "escavação poética", encontrando humanidade em manchetes sobre tragédias ambientais ou sociais. Aloisio Romanelli transmutou um alerta meteorológico em uma cena de desabamento sem melodia; Celia Ribeiro transformou a condenação de um humorista em uma tragédia sobre o bullying escolar ; e Miguel Rosa usou a invasão de um macaco-prego a um escritório para sugerir que o homem "não precisava viver daquele jeito".
Em suma, a antologia organizada por Jeferson Barbosa não apenas cataloga ausências, mas as torna instrumentos de crítica e reflexão. Ao dar voz a personagens silenciados pelo relato factual — desde o Papa Francisco até a "Mulher Abacaxi" presa em um elevador —, a obra cumpre sua promessa de ser uma geografia do sentir. O livro termina onde a consciência do leitor começa: na percepção de que, por trás de cada vazio mapeado, existe uma história que insiste em ser contada para não ser esquecida.
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