Em Candura, publicado pela editora TAUP (Toma Aí Um Poema), a escritora Alice Puterman, de 23 anos, transforma seis anos de produção literária em um livro de poesia que articula experiência pessoal e denúncia social. A obra se insere em um contexto alarmante: o crescimento contínuo dos índices de violência sexual no Brasil. Longe de se limitar ao relato autobiográfico, o livro se constrói como um testemunho lírico sobre trauma, saúde mental e a complexa reconstrução do corpo feminino como território de resistência.
Há livros que nascem do desejo de narrar; outros emergem como uma necessidade vital. Candura pertence a esta segunda categoria. Escrito entre a adolescência e o início da vida adulta da autora, o livro apresenta uma escrita que não busca amenizar a dor, mas nomeá-la. Já no prefácio, Puterman estabelece o tom da obra ao afirmar: “Não sei dizer onde a violência começa em minha vida, mas a violência que eu cometo a mim mesma termina com estas páginas”. A frase delimita o eixo central do livro: a tentativa de interromper ciclos de autoviolência por meio da palavra.
O processo de criação da obra teve início quando a autora tinha 17 anos, após sobreviver a um estupro coletivo. Em seguida, o isolamento imposto pela pandemia de Covid-19 intensificou a escrita, que passou a funcionar como ferramenta de elaboração psíquica diante do trauma. Diagnosticada com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Puterman afirma que não escrevia com o objetivo de publicação, mas como forma de criar um espaço possível para a dor. “Estupro é um assunto sobre o qual não se pode falar. Então, eu espero que meu livro seja esse lugar onde a dor de todas nós pode existir”, declara. O lançamento da obra está previsto para ocorrer na Casa Gueto, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026, no final de julho.
Nos poemas que compõem Candura, o corpo feminino é apresentado sob múltiplas camadas simbólicas. Inicialmente marcado pela invasão e pela violência, ele também se reconfigura como espaço de resistência e disputa. Em um dos textos mais contundentes, a autora escreve: “O primeiro homem que viu meu corpo nu / não disse que ele parecia uma obra de arte / não o tocou com amor / mas, em vez disso / ele se sentiu em casa / trouxe convidados / e deram uma festa”. A imagem da casa — recorrente ao longo do livro — sintetiza o corpo violado, posteriormente submetido a um processo de reconstrução que não apaga as marcas da violência. “A partir do momento que eu redecorar as paredes, a casa será outra / mas não é / é a mesma que eles arrombaram e depredaram”, escreve, evidenciando a dificuldade de reabitá-lo.
A poesia de Puterman recusa tanto a simplificação quanto a romantização da dor. Seus versos transitam entre a crueza do trauma e momentos de delicadeza que tensionam a ideia de fragilidade. Ao rejeitar o lugar passivo da vítima, a autora propõe outra perspectiva sobre força e vulnerabilidade. “A força masculina de nada me interessa — violência. Quero falar de mulheres que levantam carros para salvar suas crias, as que por amor, dão e ganham vida”, afirma no prefácio, reposicionando o feminino como potência, ainda que atravessado pela dor.
O título da obra também opera como chave interpretativa. “Candura”, tradicionalmente associada à ingenuidade e pureza, é ressignificada ao longo do livro. Puterman observa que mulheres são historicamente ensinadas a cultivar essa característica, muitas vezes percebida como fraqueza. Ao se declarar uma mulher autista — grupo estatisticamente mais vulnerável à violência —, a autora confronta essa leitura. “Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé”, escreve, convertendo o que seria fragilidade em elemento de permanência.
A saúde mental constitui outro eixo estruturante da obra. A autora aborda episódios de internação, tentativas de suicídio e tratamentos psiquiátricos, incluindo o uso de eletroconvulsoterapia. Em um dos poemas finais, sintetiza esse percurso: “Tentei / me matar / dez vezes / mas / tentei / viver / tão mais / e assim descobri / que estes ossos / brilham / como porcelana chinesa”. A imagem aponta para uma noção de cura que não implica apagamento, mas incorporação das fissuras. Nesse sentido, a escrita surge como prática de sobrevivência: não como fechamento de feridas, mas como possibilidade de nomeá-las — condição essencial para enfrentá-las.
Nascida em Petrópolis (RJ), em 2002, Alice Monteiro Puterman vive atualmente no Rio de Janeiro. Graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), dedica-se também à área de inclusão. Autista, com histórico de mutismo seletivo na infância, encontrou na escrita sua primeira forma de expressão. Alfabetizada precocemente, aos três anos, fez da palavra seu principal instrumento de elaboração subjetiva e resistência diante das múltiplas violências e desafios de saúde que atravessam sua trajetória.
Candura, seu livro de estreia, encerra, segundo a autora, um ciclo marcado pelo medo e inaugura uma nova forma de se reconhecer: “Eu finalmente me vejo sobrevivente, e não mais vítima”. Atualmente, Puterman trabalha em um novo projeto literário, também no campo da poesia, dando continuidade a uma escrita que se consolida como espaço de memória, denúncia e reinvenção.
Ficha técnica
Título: Candura: uma história de sobrevivência feminina
Autora: Alice Puterman
Gênero: Poesia
Editora: TAUP (Toma Aí Um Poema)
Ano de publicação: 2025
Número de páginas: 94
Em Candura, publicado pela editora TAUP (Toma Aí Um Poema), a escritora Alice Puterman, de 23 anos, transforma seis anos de produção literária em um livro de poesia que articula experiência pessoal e denúncia social. A obra se insere em um contexto alarmante: o crescimento contínuo dos índices de violência sexual no Brasil. Longe de se limitar ao relato autobiográfico, o livro se constrói como um testemunho lírico sobre trauma, saúde mental e a complexa reconstrução do corpo feminino como território de resistência.
Há livros que nascem do desejo de narrar; outros emergem como uma necessidade vital. Candura pertence a esta segunda categoria. Escrito entre a adolescência e o início da vida adulta da autora, o livro apresenta uma escrita que não busca amenizar a dor, mas nomeá-la. Já no prefácio, Puterman estabelece o tom da obra ao afirmar: “Não sei dizer onde a violência começa em minha vida, mas a violência que eu cometo a mim mesma termina com estas páginas”. A frase delimita o eixo central do livro: a tentativa de interromper ciclos de autoviolência por meio da palavra.
O processo de criação da obra teve início quando a autora tinha 17 anos, após sobreviver a um estupro coletivo. Em seguida, o isolamento imposto pela pandemia de Covid-19 intensificou a escrita, que passou a funcionar como ferramenta de elaboração psíquica diante do trauma. Diagnosticada com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Puterman afirma que não escrevia com o objetivo de publicação, mas como forma de criar um espaço possível para a dor. “Estupro é um assunto sobre o qual não se pode falar. Então, eu espero que meu livro seja esse lugar onde a dor de todas nós pode existir”, declara. O lançamento da obra está previsto para ocorrer na Casa Gueto, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026, no final de julho.
Nos poemas que compõem Candura, o corpo feminino é apresentado sob múltiplas camadas simbólicas. Inicialmente marcado pela invasão e pela violência, ele também se reconfigura como espaço de resistência e disputa. Em um dos textos mais contundentes, a autora escreve: “O primeiro homem que viu meu corpo nu / não disse que ele parecia uma obra de arte / não o tocou com amor / mas, em vez disso / ele se sentiu em casa / trouxe convidados / e deram uma festa”. A imagem da casa — recorrente ao longo do livro — sintetiza o corpo violado, posteriormente submetido a um processo de reconstrução que não apaga as marcas da violência. “A partir do momento que eu redecorar as paredes, a casa será outra / mas não é / é a mesma que eles arrombaram e depredaram”, escreve, evidenciando a dificuldade de reabitá-lo.
A poesia de Puterman recusa tanto a simplificação quanto a romantização da dor. Seus versos transitam entre a crueza do trauma e momentos de delicadeza que tensionam a ideia de fragilidade. Ao rejeitar o lugar passivo da vítima, a autora propõe outra perspectiva sobre força e vulnerabilidade. “A força masculina de nada me interessa — violência. Quero falar de mulheres que levantam carros para salvar suas crias, as que por amor, dão e ganham vida”, afirma no prefácio, reposicionando o feminino como potência, ainda que atravessado pela dor.
O título da obra também opera como chave interpretativa. “Candura”, tradicionalmente associada à ingenuidade e pureza, é ressignificada ao longo do livro. Puterman observa que mulheres são historicamente ensinadas a cultivar essa característica, muitas vezes percebida como fraqueza. Ao se declarar uma mulher autista — grupo estatisticamente mais vulnerável à violência —, a autora confronta essa leitura. “Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé”, escreve, convertendo o que seria fragilidade em elemento de permanência.
A saúde mental constitui outro eixo estruturante da obra. A autora aborda episódios de internação, tentativas de suicídio e tratamentos psiquiátricos, incluindo o uso de eletroconvulsoterapia. Em um dos poemas finais, sintetiza esse percurso: “Tentei / me matar / dez vezes / mas / tentei / viver / tão mais / e assim descobri / que estes ossos / brilham / como porcelana chinesa”. A imagem aponta para uma noção de cura que não implica apagamento, mas incorporação das fissuras. Nesse sentido, a escrita surge como prática de sobrevivência: não como fechamento de feridas, mas como possibilidade de nomeá-las — condição essencial para enfrentá-las.
Nascida em Petrópolis (RJ), em 2002, Alice Monteiro Puterman vive atualmente no Rio de Janeiro. Graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), dedica-se também à área de inclusão. Autista, com histórico de mutismo seletivo na infância, encontrou na escrita sua primeira forma de expressão. Alfabetizada precocemente, aos três anos, fez da palavra seu principal instrumento de elaboração subjetiva e resistência diante das múltiplas violências e desafios de saúde que atravessam sua trajetória.
Candura, seu livro de estreia, encerra, segundo a autora, um ciclo marcado pelo medo e inaugura uma nova forma de se reconhecer: “Eu finalmente me vejo sobrevivente, e não mais vítima”. Atualmente, Puterman trabalha em um novo projeto literário, também no campo da poesia, dando continuidade a uma escrita que se consolida como espaço de memória, denúncia e reinvenção.
Ficha técnica
Título: Candura: uma história de sobrevivência feminina
Autora: Alice Puterman
Gênero: Poesia
Editora: TAUP (Toma Aí Um Poema)
Ano de publicação: 2025
Número de páginas: 94
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