Continue Lendo

Menu


Institucional

Carregando Destaques...
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
filmes series

Entre o verão eterno e o silêncio de Hollywood: por que a continuação de Me Chame Pelo Seu Nome segue incerta

Imagem: Reprodução Quando Me Chame Pelo Seu Nome chegou aos cinemas em 2017, o filme não foi apenas mais um romance independente elogiado p...

Redação
livros paola carosella resenhas

Todas as Sextas, de Paola Carosella: a cozinha como memória, refúgio e linguagem de sobrevivência

Em todas as sextas, livro de Paola Carosella, a cozinha não aparece como um território de receitas, técnicas ou segredos culinários, mas com...

Redação
analises cinema filmes

Marty Supreme: a biografia de um sonho obsessivo que transforma talento em campo de batalha

“Marty Supreme”, dirigido por Josh Safdie, se apresenta, desde os primeiros minutos, como uma biografia que não pretende suavizar o seu prot...

Redação
opiniao

Não existe neutralidade nas redes sociais — e fingir que existe só favorece quem já tem poder

Foto:Tracy Le Blanc Há alguns anos, tornou-se comum ouvir que as redes sociais são apenas “plataformas neutras”, espaços onde as pessoas se ...

Redação
musica

O intervalo que virou manifesto: como Bad Bunny transformou o Super Bowl em um espetáculo latino e político

Foto: Mike Blake/Reuters O Super Bowl sempre foi muito mais do que uma final de futebol americano. É um ritual cultural, um show de marketin...

Redação
musica

A noite em que Copacabana voltará a parar: Shakira, o espetáculo gratuito e a estratégia que transforma o Rio em palco do mundo

Quando a Prefeitura do Rio anunciou que a estrela colombiana Shakira seria a atração principal do projeto “Todo Mundo no Rio” em 2026, a not...

Redação
politica

Mundo em conflito, vozes contidas: a ONU, a guerra na Ucrânia e o silêncio entre as potências

  Foto: Jimmy Liao Quando a guerra na Ucrânia entrou em seu quarto ano completo, o mundo já não acompanhava cada ataque com a mesma atenção ...

Redação

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Tecnologia do Blogger.

Political News

Sport

Pesquisar este blog

Archive

Follow by Email

If you like Articles on this blog, Please subscribe for free via email.

About

Your Ads Here
Your Ads Here
Your Ads Here

Economy

Recent in Sports

3/Sports/post-list

Random Posts

3/random/post-list

Business

Travel

Hot Widget

recent/hot-posts

Label

Colaboradores

Label

Formulir Kontak

Nome

E-mail *

Mensagem *

Entre o verão eterno e o silêncio de Hollywood: por que a continuação de Me Chame Pelo Seu Nome segue incerta

Imagem: Reprodução

Quando Me Chame Pelo Seu Nome chegou aos cinemas em 2017, o filme não foi apenas mais um romance independente elogiado pela crítica. Ele se tornou um fenômeno cultural, uma obra que atravessou o cinema, a literatura e a própria percepção do amor queer nas telas. Dirigido por Luca Guadagnino e baseado no romance de André Aciman, o longa transformou Timothée Chalamet em um astro internacional, consolidou Armie Hammer como um galã sensível e elevou a narrativa de um verão italiano a um status quase mítico no imaginário contemporâneo.

Desde então, a pergunta que ecoa entre fãs e imprensa é a mesma: haverá uma continuação? A resposta, ao longo dos anos, mudou diversas vezes — e hoje parece mais incerta do que nunca. Entre projetos anunciados, declarações contraditórias e um dos maiores escândalos recentes de Hollywood, o destino de uma sequência permanece envolto em silêncio.

Para entender por que a continuação é tão difícil de acontecer, é preciso revisitar a história original, o caminho literário proposto por André Aciman em Find Me e, inevitavelmente, o colapso público da carreira de Armie Hammer.


O verão que mudou tudo: o enredo de Me Chame Pelo Seu Nome

Imagem: Reprodução

O filme acompanha Elio Perlman, um adolescente de 17 anos que passa o verão de 1983 com a família em uma casa de campo no norte da Itália. Filho de um professor universitário especializado em arqueologia, Elio vive cercado por música, livros e uma rotina tranquila que mistura erudição e lazer.

Esse equilíbrio muda com a chegada de Oliver, um estudante americano que vem passar algumas semanas como assistente do pai de Elio. Alto, confiante e carismático, Oliver parece o oposto de Elio: mais velho, seguro e emocionalmente distante.

No início, a relação entre os dois é marcada por tensão e curiosidade. Elio oscila entre fascínio e irritação. Oliver, por sua vez, mantém uma postura aparentemente indiferente. Aos poucos, porém, o verão se transforma em um território de descobertas.

A relação evolui de forma lenta e delicada: olhares prolongados, toques sutis, passeios de bicicleta e conversas sobre música e literatura. O romance, quando finalmente se concretiza, não é tratado como escândalo, mas como um processo íntimo de autodescoberta.

O filme se destaca por sua abordagem sensorial. O calor do verão, os pomares, a água dos rios e a textura da paisagem italiana funcionam como extensão das emoções dos personagens. O amor entre Elio e Oliver é vivido como algo efêmero, quase inevitavelmente destinado a desaparecer com o fim da estação.

O clímax emocional acontece após a despedida de Oliver. No inverno, Elio recebe um telefonema no qual Oliver revela que vai se casar. O pai de Elio, em uma das cenas mais celebradas do cinema recente, faz um discurso sobre a importância de viver o amor plenamente, sem endurecer o coração para evitar a dor.

A cena final mostra Elio sozinho diante da lareira, chorando silenciosamente enquanto os créditos sobem. É uma conclusão aberta, melancólica e profundamente humana.


O autor por trás da história: André Aciman

Imagem: Reprodução

O romance original, Call Me by Your Name, foi publicado em 2007 por André Aciman, escritor egípcio-americano e professor de literatura. A obra já era cultuada antes do filme, mas a adaptação de Guadagnino transformou o livro em best-seller global.

Aciman sempre afirmou que a história não era apenas sobre sexualidade, mas sobre memória, desejo e o impacto duradouro de um amor vivido na juventude. O romance é narrado por Elio já adulto, recordando o verão que mudou sua vida.

Durante anos, o escritor resistiu à ideia de uma continuação. Mas o sucesso do filme reacendeu o interesse pelo universo dos personagens. Em 2019, ele publicou Find Me, sequência literária que acompanha a vida de Elio e Oliver décadas após aquele verão.


Find Me: o enredo do segundo livro

Imagem: Reprodução

Diferente do primeiro romance, que se concentra quase inteiramente no ponto de vista de Elio, Find Me é estruturado em quatro partes, cada uma com foco em personagens diferentes.

A história se passa anos depois dos acontecimentos de 1983.

Parte 1: o pai de Elio

A primeira seção acompanha Samuel, o pai de Elio, já idoso. Ele conhece Miranda, uma jovem fotógrafa, em um trem rumo a Roma. Apesar da grande diferença de idade, os dois iniciam um relacionamento intenso.

Esse segmento trata de temas como envelhecimento, desejo tardio e a possibilidade de recomeçar. Samuel e Miranda constroem uma vida juntos, e ela acaba engravidando, criando um novo capítulo na história da família.

Parte 2: Elio adulto

Anos depois, Elio é um pianista consagrado que vive em Paris. Ele inicia um relacionamento com Michel, um homem mais velho, refinado e apaixonado por música.

A relação é marcada por carinho e estabilidade, mas Elio permanece emocionalmente ligado ao passado. Oliver continua sendo uma presença fantasmática em sua memória.

Parte 3: Oliver nos Estados Unidos

O terceiro segmento acompanha Oliver, agora professor universitário nos Estados Unidos, casado e com filhos. Ele vive uma vida aparentemente convencional, mas nunca esqueceu o verão com Elio.

Durante uma viagem, Oliver revisita mentalmente suas escolhas e reconhece que o amor por Elio nunca desapareceu.

Parte 4: o reencontro

Na última parte, décadas depois, Elio e Oliver finalmente se reencontram. Ambos já viveram outras vidas, outros relacionamentos e outras perdas.

O romance termina com a sugestão de que, após anos de distância, eles finalmente podem ficar juntos.

O tom do livro é mais contemplativo, focado na passagem do tempo, na memória e na ideia de que certos amores nunca desaparecem completamente.


O entusiasmo inicial com a sequência

Imagem: Reprodução

Após o sucesso do filme, a ideia de uma continuação parecia inevitável. O próprio diretor Luca Guadagnino afirmou que estava pensando em uma sequência ambientada alguns anos depois dos eventos originais.

Segundo ele, a história seria desenvolvida junto com André Aciman e teria um tom diferente, mostrando os personagens viajando pelo mundo e vivendo novos capítulos de suas vidas.

Em 2020, o diretor chegou a confirmar que Timothée Chalamet e Armie Hammer retornariam para reprisar seus papéis.

Na época, o lançamento do livro Find Me parecia fornecer o material perfeito para a adaptação. A expectativa era alta entre fãs e críticos.


A virada: o escândalo de Armie Hammer

Imagem: Reprodução

Em 2021, tudo mudou.

O ator Armie Hammer, que interpretou Oliver, tornou-se alvo de uma série de acusações públicas. Mensagens privadas atribuídas a ele começaram a circular online, contendo supostas fantasias sexuais violentas e até referências a canibalismo.

Em seguida, várias mulheres vieram a público acusando o ator de abuso emocional, comportamento manipulador e, em alguns casos, agressão sexual.

As acusações desencadearam uma reação imediata da indústria:

  • Hammer foi retirado de diversos projetos.

  • Foi dispensado por sua agência.

  • Sua carreira praticamente colapsou.

O caso ganhou proporções ainda maiores com a repercussão de um documentário sobre sua família e as denúncias.

O ator negou ter cometido crimes e afirmou que todos os relacionamentos foram consensuais.
Uma investigação policial não resultou em acusações formais por falta de provas suficientes.

Mesmo assim, o impacto público foi devastador.

Até então, a continuação de Me Chame Pelo Seu Nome era tratada como questão de tempo. Depois do escândalo, tornou-se um problema.

O diretor Luca Guadagnino indicou que estava se afastando da ideia de uma sequência, e a controvérsia envolvendo Hammer foi apontada como um dos fatores decisivos.

A adaptação de Find Me, que antes parecia natural, tornou-se complicada por vários motivos:

  1. A centralidade de Oliver
    A história de Find Me depende diretamente do personagem de Hammer.

  2. O impacto público do escândalo
    O nome do ator passou a ser associado a acusações graves, o que afetaria qualquer projeto ligado a ele.

  3. A imagem do filme original
    O primeiro longa é visto como uma obra sensível e delicada. Uma continuação ligada a escândalos poderia manchar esse legado.

Relatos indicam que a sequência foi engavetada após as acusações virem a público.

Apesar do impacto do escândalo, as falas dos envolvidos nunca foram totalmente definitivas.

Em entrevistas ao longo dos anos:

  • Guadagnino já afirmou estar trabalhando na sequência.

  • Confirmou o retorno do elenco em 2020.

  • Depois indicou que estava se afastando da ideia.

  • Em 2022, chegou a dizer que ainda tinha esperança de realizar o filme.

Essa inconsistência contribuiu para a sensação de incerteza.

Ao mesmo tempo, o próprio Hammer afirmou em 2018 que não havia contratos, estúdio ou roteiro para a sequência.

Ou seja: o projeto sempre existiu mais como ideia do que como produção concreta.


Assista maiores detalhes deste escândalo:


O peso cultural do primeiro filme

Imagem: Reprodução

Outro fator importante é o impacto simbólico de Me Chame Pelo Seu Nome.

O filme não é apenas um romance. Ele representa:

  • Um retrato sensível da juventude queer.

  • Uma obra de estética refinada e emocionalmente poderosa.

  • Um final considerado perfeito por muitos críticos.

Para parte do público, a história funciona melhor como experiência única e autônoma. O próprio debate sobre a necessidade de uma continuação sempre dividiu opiniões.

Nos anos seguintes ao escândalo, Hammer começou a reaparecer gradualmente.

Ele afirmou ter passado por terapia e reabilitação, dizendo que o período foi transformador em sua vida pessoal.

O ator reconheceu comportamentos manipuladores e emocionalmente abusivos em relações passadas, mas insistiu que não cometeu crimes.

Mesmo sem acusações formais, sua reputação na indústria permanece profundamente abalada.

Em 2025, reportagens apontavam que ele tentava reconstruir a carreira em projetos independentes.


Por que a continuação é tão incerta

Imagem: Reprodução

A dificuldade em realizar a sequência pode ser entendida como resultado de vários fatores combinados.

1. O escândalo central

O personagem Oliver é essencial para qualquer continuação. Sem ele, a história perde o eixo emocional.

Mas com o nome de Armie Hammer associado a denúncias graves, o projeto se torna arriscado para estúdios e distribuidores.

2. O caráter quase perfeito do primeiro filme

O final aberto, melancólico e contemplativo é considerado por muitos como uma conclusão ideal.

Uma sequência corre o risco de:

  • Desagradar fãs.

  • Diluir o impacto emocional.

  • Parecer desnecessária.

3. A própria estrutura de Find Me

O segundo livro não segue a mesma lógica narrativa do primeiro. Ele se dispersa em múltiplos personagens e períodos, o que exigiria uma adaptação bastante diferente do filme original.

Mesmo antes do escândalo, o projeto não tinha:

  • Estúdio confirmado.

  • Roteiro finalizado.

  • Cronograma definido.

Ou seja, não era uma continuação já em produção.


O futuro: impossível ou apenas improvável?

Imagem: Reprodução

Apesar de tudo, a sequência nunca foi oficialmente anunciada como cancelada de forma definitiva.

Em diferentes momentos, o diretor demonstrou interesse em voltar ao universo dos personagens.

E o próprio livro Find Me abre possibilidades narrativas que poderiam ser exploradas de outras formas:

  • Um filme focado apenas em Elio.

  • Uma história ambientada décadas depois.

  • Uma adaptação livre, não fiel ao livro.

Mas, na prática, o peso do escândalo e o silêncio dos estúdios mantêm o projeto em um limbo.

Talvez a maior ironia seja que Me Chame Pelo Seu Nome sempre foi sobre o tempo: o verão que passa, o amor que termina, a memória que permanece.

O filme termina com Elio sozinho, olhando o fogo, absorvendo a dor de um sentimento que não pôde durar.

De certa forma, a própria continuação parece viver a mesma lógica: uma promessa que existiu, mas que talvez nunca se concretize.

Entre a delicadeza do original, o enredo contemplativo de Find Me e o colapso público de um de seus protagonistas, a sequência se tornou uma ideia suspensa — um amor cinematográfico que talvez permaneça para sempre no campo da memória, e não da realização.

E, como no próprio filme, talvez seja justamente essa incompletude que preserve sua beleza.

Todas as Sextas, de Paola Carosella: a cozinha como memória, refúgio e linguagem de sobrevivência


Em todas as sextas, livro de Paola Carosella, a cozinha não aparece como um território de receitas, técnicas ou segredos culinários, mas como o eixo emocional de uma vida marcada por deslocamentos, ausências, descobertas e reinvenções. Desde o prólogo, a autora deixa claro que o livro não nasce da necessidade de ensinar a fazer pratos, mas da vontade de contar uma história que se construiu dentro das cozinhas pelas quais passou. Ela própria afirma que não tem um estilo inovador nem receitas inéditas, e que o que pode oferecer é a narrativa de uma existência costurada pelo ato de cozinhar, onde as receitas fazem sentido apenas como consequência de vivências, afetos e trajetórias pessoais. Essa declaração inicial já define o tom do livro: trata-se menos de um manual gastronômico e mais de um relato íntimo sobre pertencimento, identidade e memória, onde a comida funciona como linguagem emocional.

A narrativa começa com a afirmação de uma identidade simples e direta: a de cozinheira. Paola descreve a cozinha como refúgio, abrigo e proteção, um lugar onde sempre se sentiu segura, acolhida e pertencente, independentemente do país ou das circunstâncias. Essa ideia percorre toda a obra: a cozinha não é apenas o espaço físico onde se preparam alimentos, mas o único território constante em uma vida marcada por instabilidades familiares, dificuldades financeiras e mudanças de rumo.

A infância da autora é construída a partir das figuras femininas de sua família, sobretudo as avós, que representam duas formas diferentes de relação com o trabalho, o silêncio e a comida. De um lado, a avó María, dura, silenciosa, quase sempre em pé, trabalhando sem parar, sem tempo para sentar à mesa, sempre cuidando dos homens da família. De outro, a avó Mimina, que aparece como símbolo de uma cozinha cheia de vida, horta, animais, aromas e conversas. A casa de Mimina é descrita como um espaço amplo, verdadeiro e natural, onde tudo brota da terra e tudo gira em torno da mesa central, lugar de trabalho, aprendizado e convivência.

A infância de Paola se divide entre a solidão do apartamento pequeno onde vive com a mãe e o calor dessa casa rural, onde a comida é parte do cotidiano e não uma atividade extraordinária. A história familiar também é marcada por ausências e fragilidades. O pai, descrito como um homem bonito, sensível e doente, é uma figura distante, internada diversas vezes em instituições psiquiátricas. A mãe, por sua vez, trabalha em dois empregos e estuda à noite, deixando a filha sozinha durante longos períodos. Esse cenário de silêncio e espera se torna um dos pontos mais marcantes da narrativa.

A menina chega da escola e passa horas sozinha, aguardando a mãe voltar. É nesse contexto que a televisão e os programas culinários passam a preencher o vazio. Ela assiste a programas de receitas, anota tudo em cadernos e, mesmo sem ter os ingredientes, improvisa pratos, falando sozinha como se estivesse apresentando um programa de cozinha. A cozinha, nesse momento, surge como companhia, como forma de construir uma vida imaginária, como estratégia de sobrevivência emocional.

O gesto de arrumar a mesa para duas pessoas, mesmo estando sozinha, com flores colhidas na rua e cardápios desenhados à mão, revela a dimensão simbólica da comida na vida da autora: cozinhar é criar presença onde há ausência, é inventar companhia onde há silêncio. Essa solidão também revela um traço importante de sua personalidade: a capacidade de transformar o medo e a ansiedade em ação.

Enquanto espera a mãe, ela limpa a casa, arruma a cama, organiza a cozinha, faz promessas silenciosas para que nada aconteça com ela. A comida e a organização do espaço se tornam rituais de controle diante do caos emocional.

A adolescência marca a transição para o mundo exterior. Paola se descreve como uma jovem punk, rebelde, distante do modelo de estudante exemplar. Ao abandonar a escola e começar a trabalhar como secretária, ela ainda não sabe exatamente o que quer fazer, mas o destino a empurra para a cozinha. Quando o chefe do escritório decide contratar um cozinheiro para preparar almoços, ela se oferece para o trabalho, mesmo sem experiência profissional. Esse episódio funciona como o primeiro ponto de virada da narrativa.

O que antes era apenas uma forma de lidar com a solidão passa a se tornar uma profissão. A partir desse momento, a cozinha deixa de ser apenas refúgio e se transforma em projeto de vida. O relato desse período é marcado por improvisação, esforço e entusiasmo. Ela trabalha como secretária durante o dia e, à noite, cozinha em casa para os almoços do escritório, carregando caixas de comida no ônibus, montando cardápios pretensiosos e preparando tudo em uma cozinha minúscula.

Há uma ingenuidade e uma paixão evidentes nesse momento: ela faz arranjos de flores, prepara canapés extras, cria nomes sofisticados para os pratos, tudo como se estivesse encenando um sonho. Esse período representa a descoberta do prazer de cozinhar para outras pessoas, de oferecer hospitalidade, de transformar a comida em linguagem de afeto.

O encontro com chefs profissionais marca a entrada definitiva no mundo da gastronomia. Primeiro, com Bernard, que a introduz em restaurantes sofisticados e a apresenta à disciplina e ao rigor das cozinhas profissionais. Depois, com Alfonso, em uma cozinha formada apenas por mulheres, onde o trabalho é duro e repetitivo, mas também acolhedor. Nesse momento, a autora descreve a cozinha como um lugar que acolhe pessoas perdidas, solitárias ou carentes.

O calor, o esforço físico e a repetição das tarefas funcionam como uma espécie de abrigo emocional. O trabalho é exaustivo, mas também sedutor, porque oferece um sentido claro, uma função, uma identidade.

O período no restaurante La Créole, sob a orientação do chef Paul Azema, representa um momento de descoberta intelectual e estética. O restaurante é descrito como um espaço caótico, boêmio e criativo, frequentado por artistas, músicos e figuras excêntricas. A cozinha é pequena, improvisada, cheia de temperos e frascos sem nome, mas também cheia de curiosidade e experimentação.

Paul surge como um mestre excêntrico, que ensina não apenas técnicas culinárias, mas também curiosidade, leitura, música e pensamento crítico. A brincadeira com o Larousse Gastronomique, em que o chef faz perguntas e a aprendiz precisa estudar para respondê-las, mostra a cozinha como espaço de aprendizado intelectual, não apenas técnico.

Esse período é descrito como uma escola de vida, onde as conversas se estendem madrugada adentro, sem respostas imediatas, em uma época sem internet, em que as dúvidas geravam discussões longas e férteis.

O fechamento do restaurante marca outra mudança de rumo. A mãe, sempre presente como figura de apoio, incentiva a filha a ir para Paris, para trabalhar nos grandes restaurantes. A viagem para a França representa um choque cultural e profissional. Lá, Paola descobre a disciplina rigorosa das cozinhas estreladas, o machismo estrutural, a hierarquia rígida e as divisões sociais dentro da profissão.

O trabalho é duro, silencioso e muitas vezes humilhante, mas também libertador. Ela vive sozinha pela primeira vez, caminha pelas ruas de Paris à noite, experimenta comidas de diferentes culturas e descobre a própria liberdade. A experiência francesa marca a compreensão de que o mundo é maior do que imaginava e de que a profissão de cozinheira exige disciplina, técnica e resistência.

De volta a Buenos Aires, a autora passa por diferentes experiências profissionais, trabalhando em cozinhas improvisadas para músicos internacionais e, depois, em bistrôs franceses, onde enfrenta chefs arrogantes, cozinhas apertadas e jornadas intensas. A descrição das rotinas de cozinha nesse período revela um dos temas centrais do livro: a beleza da repetição.

Para Paola, a cozinha é uma dança silenciosa, uma coreografia precisa, em que cada gesto tem seu tempo e sua função. A tensão do serviço, a organização das bancadas, a sincronia entre os cozinheiros e o momento em que os pratos saem para o salão são descritos como um espetáculo, uma peça de teatro. A cozinha aparece, assim, como um espaço de disciplina, concentração e beleza, onde o silêncio e o ritmo substituem o caos do mundo exterior.

Ao longo de toda a narrativa, a comida nunca aparece isolada da vida. Cada prato, cada receita e cada técnica estão ligados a pessoas, lugares e memórias. A cozinha da avó, o apartamento silencioso, os restaurantes boêmios, as cozinhas estreladas de Paris e os bistrôs de Buenos Aires formam uma espécie de mapa emocional da autora.

O título “Todas as sextas” remete a um ritual de encontros e refeições, mas também a uma ideia de continuidade: a repetição dos gestos, dos sabores e das memórias que constroem a identidade de alguém. O livro, portanto, não é apenas a história de uma cozinheira que se torna chef. É a história de uma mulher que encontra na cozinha um idioma para falar de amor, perda, solidão, liberdade e pertencimento.

A comida surge como ferramenta de construção de vínculos, de sobrevivência emocional e de criação de sentido. Cada cozinha em que ela entra representa uma nova família, uma nova forma de existir no mundo. O que se constrói ao longo da narrativa é a ideia de que cozinhar é um ato profundamente humano, uma forma de cuidado, de comunicação e de resistência.

No fim, a trajetória de Paola não é apresentada como uma escalada de sucesso profissional, mas como um percurso afetivo, feito de encontros, despedidas, mestres, fracassos e descobertas. A cozinha é o fio condutor que une todas essas experiências, o lugar onde a autora encontra abrigo e identidade.

Mais do que um livro de receitas, Todas as sextas se revela como um livro sobre memória, pertencimento e transformação, em que cada prato carrega a história de quem o preparou e de quem o compartilhou. Se a autora diz, no início, que não tinha receitas novas para ensinar, o livro prova que a verdadeira novidade está na forma como ela conta a própria vida: como uma sequência de cozinhas, aromas e mesas que, juntas, constroem a história de uma mulher que encontrou no ato de cozinhar a sua maneira de existir no mundo.

Marty Supreme: a biografia de um sonho obsessivo que transforma talento em campo de batalha

“Marty Supreme”, dirigido por Josh Safdie, se apresenta, desde os primeiros minutos, como uma biografia que não pretende suavizar o seu protagonista nem transformá-lo em herói tradicional. O filme acompanha Marty Mauser, um jovem movido por um sonho que ninguém respeita, alguém que atravessa sucessivas quedas e humilhações na busca por grandeza, num percurso descrito como uma verdadeira ida “ao inferno e de volta” em nome da ambição. A narrativa se organiza de forma linear, acompanhando o personagem desde sua origem modesta até os momentos de maior exposição e pressão, construindo um retrato de obsessão que se confunde com a própria identidade do protagonista. O filme, embora estruturado como uma biografia esportiva, subverte o formato clássico ao tratar o esporte — o tênis de mesa — menos como cenário de superação e mais como arena psicológica, onde cada vitória cobra um preço emocional e cada derrota revela o abismo entre a imagem pública e a fragilidade privada. Desde o início, a construção de Marty é marcada por um sentimento de inadequação. Ele é apresentado como alguém que sonha alto em um ambiente que não reconhece o valor de suas aspirações, um jovem que precisa justificar constantemente o próprio desejo de grandeza. Esse primeiro movimento da narrativa estabelece o conflito central: não se trata apenas de vencer partidas, mas de convencer o mundo — e a si mesmo — de que seu sonho merece existir. A trajetória inicial é moldada por pequenos torneios, treinamentos exaustivos e tentativas frustradas de reconhecimento. O filme evita a romantização desse processo. Não há uma sequência tradicional de “montagem de treinamento” que leve diretamente ao sucesso; em vez disso, a câmera acompanha o desgaste físico, o cansaço e as escolhas moralmente duvidosas que surgem no caminho. É nesse ponto que o personagem começa a revelar a sua face mais incômoda: a ambição tóxica. O conflito moral é o motor dramático da primeira metade do filme. Marty não é apenas um jovem esforçado; ele é alguém disposto a ultrapassar limites éticos para alcançar o topo. Suas relações pessoais começam a sofrer com isso. Amigos e aliados se tornam peças em um tabuleiro estratégico, enquanto a vida emocional do personagem passa a girar exclusivamente em torno do desempenho competitivo. A narrativa deixa claro que a ambição não é apenas um traço de personalidade, mas uma força corrosiva que consome tudo ao redor.

O segundo ato se constrói a partir da ascensão. Marty começa a ganhar visibilidade, vitórias importantes e reconhecimento. O que poderia ser o momento de triunfo, no entanto, é tratado pelo filme como o início de uma nova forma de pressão. A cada vitória, a expectativa aumenta, e o personagem passa a viver sob o peso de uma imagem pública que precisa ser mantida a qualquer custo. A construção dramática nesse trecho lembra uma odisséia instável, marcada por reviravoltas e movimentos rápidos, como uma partida de tênis de mesa em ritmo acelerado. O esporte funciona como metáfora da própria vida de Marty: um jogo veloz, imprevisível e cheio de mudanças bruscas de direção. O protagonista não tem tempo para respirar. A cada ponto, a cada competição, a tensão aumenta. O sucesso não traz paz; traz mais exigências. É nesse trecho que o filme aprofunda o retrato psicológico do personagem. Marty começa a perceber que a grandeza que buscava não vem acompanhada da satisfação que imaginava. O reconhecimento externo não preenche o vazio interno. A ambição, que antes era combustível, passa a ser um fardo. O público, que antes o ignorava, agora o observa com expectativa e julgamento constante. A pressão se intensifica, e a narrativa assume um tom cada vez mais nervoso, característico do estilo dos Safdie, conhecido por construir histórias como espirais de ansiedade. As decisões de Marty se tornam mais impulsivas, e suas relações pessoais se deterioram. Ele se distancia de pessoas que tentam ajudá-lo, enquanto se aproxima de figuras que reforçam sua obsessão pelo sucesso. O filme evita transformá-lo em vítima. Ao contrário, deixa claro que muitas de suas quedas são resultado direto de suas escolhas. Essa abordagem reforça a ideia central da obra: a ambição pode ser tão destrutiva quanto libertadora.

O terceiro ato funciona como o mergulho final no conflito interno do protagonista. O auge da carreira coincide com o ponto de maior desgaste psicológico. O filme constrói a ideia de que a grandeza, para Marty, não é um destino, mas um estado de tensão permanente. O personagem passa a enfrentar não apenas adversários, mas o peso das próprias expectativas. O sonho que o impulsionava se transforma em prisão. A narrativa se encaminha para as competições decisivas, onde o esporte deixa de ser apenas uma atividade e se torna a síntese de toda a trajetória do personagem. Cada partida carrega o peso de anos de sacrifício, escolhas erradas e relações destruídas. O filme enfatiza o caráter ambíguo do protagonista: alguém admirável e desagradável ao mesmo tempo, carismático e egoísta, determinado e autodestrutivo. O clímax não é tratado como uma vitória simples. Em vez de oferecer uma resolução limpa, o filme sugere que a grandeza alcançada por Marty tem um custo alto demais. O triunfo esportivo não apaga as cicatrizes emocionais nem restaura as relações perdidas. A narrativa, ao final, parece menos interessada em celebrar o sucesso do protagonista e mais em questionar o preço que ele pagou por ele. O epílogo funciona como uma reflexão silenciosa sobre o sentido da ambição. Marty finalmente atinge o reconhecimento que sempre buscou, mas a sensação não é de plenitude. O filme encerra a jornada com uma nota ambígua, sugerindo que o sucesso, quando conquistado a qualquer custo, pode se tornar uma forma de derrota pessoal. O retrato final do personagem é o de alguém que conseguiu tudo o que queria, mas não sabe mais o que fazer com isso. A estrutura linear da narrativa reforça essa leitura: ao acompanhar o personagem desde o início até o auge, o filme permite perceber a transformação gradual da ambição em obsessão, e da obsessão em isolamento. “Marty Supreme” se distancia, assim, da biografia esportiva tradicional. Em vez de celebrar a superação, examina o lado sombrio do sucesso e transforma o esporte em metáfora para o desejo humano de reconhecimento e pertencimento. No fim, a trajetória de Marty não é apenas sobre vencer partidas, mas sobre a tentativa desesperada de provar que sua existência tem valor — e o preço que se paga quando essa prova se torna a única razão para viver.

Não existe neutralidade nas redes sociais — e fingir que existe só favorece quem já tem poder

Foto:Tracy Le Blanc

Há alguns anos, tornou-se comum ouvir que as redes sociais são apenas “plataformas neutras”, espaços onde as pessoas se expressam livremente e os conteúdos circulam conforme o interesse do público. A ideia é confortável, simples e, principalmente, conveniente para quem controla essas plataformas. Mas, depois de acompanhar de perto como debates são manipulados, como discursos são amplificados ou silenciados, eu já não consigo aceitar essa narrativa. A neutralidade digital, para mim, é um mito — e um mito perigoso.

Não cheguei a essa conclusão por teoria conspiratória ou paranoia ideológica. Cheguei observando o cotidiano. Uma postagem crítica some do alcance. Um tema sério é soterrado por memes. Um discurso agressivo viraliza sem esforço. Enquanto isso, conteúdos densos, investigativos ou que exigem reflexão parecem falar com um vazio. A explicação oficial costuma ser a mesma: “é o algoritmo”.

Mas o algoritmo não é uma entidade natural, como a gravidade. Ele é criado por pessoas, com objetivos claros. E, na maioria das vezes, esses objetivos não têm nada a ver com o interesse público. O objetivo é tempo de tela. É retenção. É lucro.

Isso significa que as redes não amplificam o que é mais verdadeiro, mais útil ou mais importante. Elas amplificam o que gera reação. O que irrita, o que divide, o que choca. A lógica é simples: quanto mais emoção, mais engajamento. Quanto mais engajamento, mais anúncios. Quanto mais anúncios, mais dinheiro.

Nesse cenário, a ideia de neutralidade se desfaz. Porque escolher o que será impulsionado e o que será invisibilizado já é, por si só, uma decisão política. Mesmo que a empresa não se declare de esquerda ou de direita, a lógica que ela impõe molda o debate público.

E é aqui que a questão se torna sensível.

Quando uma plataforma decide priorizar conteúdos curtos, agressivos e polarizados, ela não está apenas alterando a forma como consumimos informação. Ela está moldando o próprio tecido social. Ela está incentivando uma sociedade mais impaciente, mais ansiosa, mais raivosa.

Eu vejo isso nas conversas cotidianas. As pessoas não debatem mais ideias; elas repetem slogans. Não há nuance, não há dúvida, não há espaço para o “talvez”. Tudo precisa ser absoluto, definitivo, indignado. É como se o algoritmo tivesse transformado a complexidade humana em uma disputa de torcida organizada.

E o mais inquietante é que ninguém parece assumir responsabilidade por isso.

As plataformas dizem que apenas refletem o comportamento das pessoas. Os usuários dizem que apenas respondem ao que aparece no feed. Os criadores dizem que precisam se adaptar para sobreviver. No fim, todos se sentem vítimas de um sistema que ninguém controla — mesmo sendo um sistema criado por empresas específicas, com nomes, CEOs e metas de lucro.

A neutralidade, nesse contexto, funciona como uma espécie de escudo moral. Se a plataforma é neutra, ela não é responsável pelo que acontece dentro dela. Se o algoritmo é neutro, não há intenção por trás da amplificação de certos conteúdos. Tudo vira um processo automático, inevitável, quase natural.

Mas não é.

Escolher o que aparece primeiro na tela de bilhões de pessoas é um ato de poder. E poder sem responsabilidade nunca termina bem.

Quando penso nisso, não consigo evitar uma comparação com a televisão do século passado. Durante décadas, discutiu-se o papel das emissoras na formação da opinião pública. Falava-se em concessões públicas, responsabilidade social, limites éticos. Ninguém dizia que a TV era neutra. Pelo contrário: sempre se soube que a programação influenciava comportamentos, valores e visões de mundo.

Com as redes sociais, parece que decidimos esquecer essa lição. Aceitamos a ideia de que são apenas ferramentas. Como se um martelo fosse comparável a uma máquina capaz de moldar o pensamento de bilhões de pessoas ao mesmo tempo.

O problema é que essa crença na neutralidade não apenas desresponsabiliza as plataformas. Ela também desarma o público. Se acreditamos que tudo é natural, orgânico e inevitável, deixamos de questionar as regras do jogo.

E as regras, hoje, são desenhadas para manter as pessoas presas à tela, não para torná-las mais informadas ou mais críticas.

Isso não significa que as redes sociais sejam apenas vilãs. Eu mesmo uso essas plataformas todos os dias. Elas democratizaram vozes, abriram espaço para autores independentes, artistas, jornalistas e criadores que jamais teriam espaço na mídia tradicional. Há potência, há beleza e há transformação ali.

Mas é justamente por isso que o debate precisa ser honesto.

Não dá mais para fingir que o ambiente digital é neutro quando sabemos que ele privilegia certos discursos, certos formatos e certos comportamentos. Não dá para tratar o algoritmo como se fosse uma força da natureza, quando ele é, na verdade, uma decisão corporativa.

A questão central, para mim, não é censura nem liberdade irrestrita. É transparência.

Quem decide o que aparece no meu feed?
Com base em quais critérios?
Por que certos temas somem enquanto outros dominam a tela?
Quem ganha com isso?

Essas perguntas são desconfortáveis, porque revelam que a arena digital não é tão livre quanto parece. Ela tem donos, regras e interesses.

E talvez o maior perigo seja exatamente esse: a sensação de liberdade dentro de um sistema invisível de controle.

Quando tudo parece espontâneo, ninguém questiona. Quando ninguém questiona, o poder se consolida em silêncio.

Eu não acredito em soluções simples para esse problema. Regular demais pode sufocar a inovação. Regular de menos pode sufocar a democracia. Mas acredito que o primeiro passo é abandonar a fantasia da neutralidade.

As redes sociais não são neutras. Nunca foram. E quanto antes aceitarmos isso, mais cedo poderemos discutir o que realmente importa: que tipo de espaço público digital queremos construir.

Porque, no fim das contas, o algoritmo não é apenas uma linha de código. Ele é uma escolha sobre o tipo de sociedade que estamos ajudando a criar.

O intervalo que virou manifesto: como Bad Bunny transformou o Super Bowl em um espetáculo latino e político

Foto: Mike Blake/Reuters

O Super Bowl sempre foi muito mais do que uma final de futebol americano. É um ritual cultural, um show de marketing global e, acima de tudo, um palco simbólico para artistas que atingiram o auge da indústria musical. Em 2026, porém, o espetáculo do intervalo ganhou um significado diferente. Quando Bad Bunny subiu ao palco do Super Bowl LX, em Santa Clara, na Califórnia, não entregou apenas uma sequência de hits. Ele transformou os cerca de 13 minutos de apresentação em um gesto cultural, político e histórico para a música latina.

O artista porto-riquenho, um dos nomes mais ouvidos do planeta, protagonizou um dos shows de intervalo mais comentados dos últimos anos. Vestido de branco, com uma camisa estampando o sobrenome “Ocasio”, Bad Bunny levou ao palco não apenas coreografias e batidas urbanas, mas uma narrativa carregada de referências pessoais e culturais.

A peça usada durante o show era, segundo o próprio artista, uma homenagem ao tio que o introduziu ao futebol americano ainda na infância. O número na camisa remetia ao ano de nascimento do familiar, transformando um detalhe estético em memória afetiva.

Mas o impacto da apresentação foi muito além da roupa ou do repertório.

Bad Bunny se tornou o primeiro artista a comandar um show de intervalo do Super Bowl predominantemente em espanhol, uma escolha que gerou aplausos, debates e críticas em igual intensidade.

O gesto não foi casual. Em um dos momentos mais comentados da apresentação, o cantor disse “God bless America” e, em seguida, começou a citar países de todo o continente. A frase, que em inglês costuma se referir apenas aos Estados Unidos, ganhou um novo significado ao incluir toda a América Latina, numa declaração simbólica de pertencimento continental.

Para muitos espectadores latino-americanos, o momento foi recebido como um gesto de inclusão cultural e reconhecimento. Em cidades como San Juan, em Porto Rico, o show chegou a ser tratado como o verdadeiro centro da noite, ofuscando o próprio jogo.

Essa abordagem marcou uma mudança importante no perfil do espetáculo. Historicamente, o show do intervalo sempre privilegiou artistas de língua inglesa e repertório alinhado ao mainstream norte-americano. Ao ocupar o palco com músicas em espanhol e estética latina, Bad Bunny não apenas performou: ele redefiniu o tom do evento.

Audiência massiva e impacto global

Foto: Mike Blake/Reuters

Os números confirmam o peso do momento. A apresentação alcançou cerca de 128 milhões de telespectadores nos Estados Unidos, superando a média do próprio jogo e ficando próxima de recordes históricos do evento.

Em picos de audiência, a performance chegou a números ainda maiores, consolidando-se como um dos shows de intervalo mais assistidos da história recente.

O impacto se refletiu imediatamente fora do estádio. Após a apresentação, músicas do artista subiram nas paradas internacionais, e o álbum mais recente voltou a ganhar força comercial. No Reino Unido, por exemplo, ele conquistou seus primeiros hits solo no Top 10, impulsionados pela exposição do Super Bowl.

O efeito também se estendeu ao turismo. Pesquisas por viagens para Porto Rico cresceram mais de 200% após o show, evidenciando o poder de exposição global do evento.

Esses números ajudam a explicar por que artistas aceitam se apresentar no intervalo do Super Bowl sem cachê direto. O retorno vem na forma de visibilidade mundial e aumento de consumo de músicas, turnês e produtos associados.

Um espetáculo cercado de debates

Foto: Mike Blake/Reuters

Se o impacto cultural foi imediato, a repercussão política não demorou a surgir. O show gerou críticas de figuras conservadoras e debates sobre o uso do espanhol no evento, além de questionamentos sobre o conteúdo e a mensagem da apresentação.

Alguns comentaristas chegaram a classificar o espetáculo como “político” ou “divisivo”, enquanto outros defenderam o direito do artista de representar sua cultura em um palco global.

O contraste de opiniões revelou uma tensão cultural presente nos Estados Unidos contemporâneos: a disputa simbólica por identidade, linguagem e representatividade em espaços de grande visibilidade.

Ao mesmo tempo, analistas apontaram que a escolha de Bad Bunny fazia parte de uma estratégia clara da NFL: ampliar a conexão com o público latino e fortalecer a presença internacional da liga.

Com o esporte se expandindo para novos mercados, a escolha de um dos artistas mais populares do mundo em países de língua espanhola foi vista como um movimento estratégico e calculado.

O espetáculo também chamou atenção pela estética. Elementos visuais ligados à cultura porto-riquenha, referências à história do país e figurinos simbólicos foram incorporados ao show, criando uma narrativa visual que ia além do entretenimento puro.

O resultado foi descrito por críticos como uma apresentação “histórica” e “revolucionária”, justamente por levar ao palco do evento mais assistido dos Estados Unidos uma identidade cultural muitas vezes marginalizada.

Para parte do público latino, o show representou um marco semelhante ao “boom latino” dos anos 1990, mas com uma diferença fundamental: desta vez, o artista não precisou adaptar sua linguagem para o mercado anglófono.

Bad Bunny não cruzou a fronteira cultural. Ele levou sua cultura ao centro do palco.

A apresentação veio em um momento de auge para o artista. Dias antes do Super Bowl, ele havia conquistado o Grammy de Álbum do Ano, consolidando-se como uma das maiores estrelas globais da música.

O show reforçou esse status. Além da repercussão nas paradas musicais, o artista dominou as redes sociais e se tornou um dos nomes mais comentados do mundo após o evento.

A combinação de prêmios, audiência massiva e exposição global transformou o intervalo do Super Bowl em mais um capítulo de consolidação de sua carreira.

Historicamente, o show do intervalo do Super Bowl sempre funcionou como uma espécie de “termômetro cultural” dos Estados Unidos. Cada escolha de artista reflete tendências, estratégias de mercado e debates sociais.

A apresentação de Bad Bunny se insere nessa tradição, mas também marca uma ruptura. Ao priorizar o espanhol, a estética latina e referências culturais específicas, o espetáculo deixou de ser apenas um show pop universal para se tornar um statement identitário.

Para alguns, foi um símbolo de diversidade e globalização cultural. Para outros, um gesto político em um evento esportivo tradicionalmente associado ao nacionalismo norte-americano.

Independentemente das interpretações, os números e a repercussão indicam que o show cumpriu seu principal papel: dominar a conversa pública.

Se há uma conclusão possível após o Super Bowl LX, é que o show do intervalo deixou de ser apenas entretenimento. Tornou-se um espaço de disputa simbólica, identidade cultural e estratégia global.

Bad Bunny não foi apenas o artista escolhido para animar o intervalo. Ele representou uma mudança de eixo na indústria do entretenimento: o reconhecimento de que a cultura latina não é mais um nicho, mas uma força central no mercado global.

E, ao ocupar o palco mais assistido da televisão norte-americana cantando em espanhol, ele transformou o intervalo em algo maior que um espetáculo.

Transformou-o em manifesto.


A noite em que Copacabana voltará a parar: Shakira, o espetáculo gratuito e a estratégia que transforma o Rio em palco do mundo


Quando a Prefeitura do Rio anunciou que a estrela colombiana Shakira seria a atração principal do projeto “Todo Mundo no Rio” em 2026, a notícia se espalhou com a velocidade de um refrão pop. Não se tratava apenas de mais um show gratuito em Copacabana, mas de um capítulo estratégico de um projeto cultural e econômico que vem redesenhando a relação entre a cidade, o turismo e os grandes espetáculos internacionais. Depois de Madonna em 2024 e Lady Gaga em 2025, agora é a vez da cantora de “Hips Don’t Lie” ocupar o mesmo palco natural: a praia mais famosa do Brasil.

O show está previsto para o dia 2 de maio, com início na noite, e deve reunir uma multidão que pode chegar à casa de milhões de pessoas, repetindo a fórmula que transformou as últimas edições em fenômenos globais de audiência.

O projeto “Todo Mundo no Rio” nasceu com a ambição de consolidar a capital fluminense como sede anual de apresentações gratuitas de escala histórica. A ideia ganhou força após o sucesso da apresentação de Madonna, em maio de 2024, que reuniu cerca de 1,6 milhão de pessoas e gerou aproximadamente R$ 300 milhões para a economia local.

No ano seguinte, Lady Gaga elevou a marca para mais de dois milhões de espectadores e um impacto estimado em R$ 600 milhões, consolidando o evento como um dos maiores espetáculos musicais do planeta.

É nesse contexto que a escolha de Shakira se encaixa. O show da artista colombiana não é apenas uma atração musical, mas parte de um projeto político, econômico e cultural que pretende transformar o calendário da cidade, especialmente durante a chamada “baixa temporada” do turismo.

A presença da cantora no evento também marca um momento específico de sua carreira. Shakira vive um dos períodos comerciais mais fortes de sua trajetória recente. Sua turnê mundial “Las Mujeres Ya No Lloran” reuniu mais de 3,3 milhões de espectadores e arrecadou mais de US$ 421 milhões, tornando-se a mais lucrativa da história entre artistas latinos.

A relação da artista com o Brasil não é nova. Foi no Rio de Janeiro que ela abriu oficialmente essa mesma turnê, em fevereiro de 2025, diante de um estádio lotado.

Essa conexão histórica ajuda a explicar por que o anúncio do show em Copacabana foi recebido com entusiasmo tanto pelos fãs quanto pelo setor turístico. A expectativa é de que a apresentação gratuita funcione como um poderoso atrativo internacional, impulsionando reservas de hotéis e a circulação de visitantes.

Nos bastidores, o projeto é tratado como um dos maiores investimentos de marketing urbano do país. A lógica é simples: transformar um show em um grande cartão-postal global. Imagens aéreas de milhões de pessoas na areia, transmitidas para o mundo, funcionam como propaganda turística instantânea.

Esse modelo já mostrou resultados concretos. O show de Lady Gaga, por exemplo, foi associado a um impacto econômico de centenas de milhões de reais, segundo estimativas das autoridades locais.

O impacto não se resume aos números. Há também uma dimensão simbólica. Copacabana, que já recebeu espetáculos históricos ao longo das décadas, volta a se afirmar como um palco mundial. O projeto da prefeitura pretende repetir o modelo anualmente até pelo menos 2028, institucionalizando a ideia de grandes shows gratuitos como parte do calendário oficial da cidade.

Dentro desse plano, a escolha de Shakira segue uma lógica clara: artistas de alcance global, com repertório conhecido em diferentes gerações e culturas. A cantora colombiana se encaixa nesse perfil com facilidade. Seus sucessos atravessam idiomas, mercados e décadas, indo do pop latino ao mainstream internacional.

Além disso, a artista atravessa uma fase de intensa exposição midiática. Após um período de turbulências pessoais e separação amplamente comentada na imprensa, ela transformou as próprias experiências em material artístico, impulsionando músicas que dominaram rankings e redes sociais.

Esse contexto cria um cenário ideal para um show de forte apelo emocional. A expectativa é de um repertório que misture hits históricos, como “Whenever, Wherever”, “Waka Waka” e “Hips Don’t Lie”, com músicas mais recentes do álbum “Las Mujeres Ya No Lloran”.

A combinação entre nostalgia e atualidade costuma ser a fórmula dos grandes espetáculos em Copacabana. Madonna revisitou sua carreira em um show retrospectivo. Lady Gaga apostou em uma narrativa visual grandiosa. Agora, Shakira deve levar ao palco um espetáculo de dança, coreografias e referências latinas, marca registrada de sua trajetória.

Mas o show não é apenas uma celebração pop. Ele faz parte de uma estratégia de reposicionamento do Rio como destino cultural global. O objetivo é disputar atenção internacional com cidades que sediam grandes eventos, como Nova York, Londres ou Paris.

A lógica é que, ao oferecer espetáculos gratuitos com artistas de primeira linha, a cidade cria uma experiência única, capaz de atrair turistas de diferentes países e movimentar toda a cadeia econômica — de hotéis e restaurantes a transportes e comércio informal.

Essa estratégia também dialoga com a identidade histórica do Rio como palco de grandes aglomerações festivas. O réveillon de Copacabana, o Carnaval de rua e os megaeventos musicais compartilham a mesma imagem: multidões reunidas diante do mar, sob luzes e som.

No caso de Shakira, há ainda um elemento latino-americano que reforça o simbolismo do evento. Diferentemente das duas primeiras atrações do projeto, ambas norte-americanas, a escolha de uma artista colombiana aproxima o espetáculo da cultura regional e do público do continente.

Isso se reflete no próprio histórico da cantora, que sempre manteve forte presença na América Latina, mesmo após alcançar sucesso mundial em inglês. Seu repertório inclui músicas em espanhol, inglês e até português em apresentações especiais, reforçando a conexão com diferentes audiências.

Especialistas do setor turístico avaliam que o impacto do show pode seguir o padrão das edições anteriores, especialmente se a cidade conseguir repetir a marca de milhões de espectadores na praia.

Embora as estimativas de público ainda variem, a expectativa é de que o número ultrapasse facilmente a casa de um milhão de pessoas, com possibilidade de alcançar cifras semelhantes às de Gaga e Madonna.

A mobilização para o evento deve começar semanas antes. Hotéis, companhias aéreas e o comércio local já se preparam para a demanda, enquanto fãs de diferentes partes do Brasil e da América Latina planejam viagens para o feriado.

Para a prefeitura, o desafio será repetir a logística de grandes multidões: segurança, transporte, limpeza e estrutura de som e iluminação para um público que ocupa quilômetros de areia.

Os organizadores apostam no histórico recente para justificar a confiança. O modelo de shows gratuitos de grande escala, testado nos últimos anos, mostrou-se viável e altamente lucrativo para a economia local.

Para o público, porém, o evento tem outro significado. É a chance de assistir a uma artista de alcance global sem pagar ingresso, em um dos cenários mais icônicos do planeta.

Esse tipo de experiência cria uma sensação coletiva difícil de replicar em estádios ou arenas fechadas. A praia transforma o espetáculo em um ritual urbano, onde o público não é apenas plateia, mas parte da própria imagem transmitida ao mundo.

Se as previsões se confirmarem, o show de Shakira em Copacabana não será apenas mais uma apresentação gratuita. Será a consolidação de um projeto que pretende transformar o Rio em capital mundial dos megaespetáculos a céu aberto.

E, como aconteceu nas edições anteriores, a noite deve entrar para a memória coletiva da cidade — aquela em que milhões de pessoas cantaram juntas, com os pés na areia, diante de um palco montado entre o mar e a cidade.

No fim, é esse tipo de imagem que o projeto “Todo Mundo no Rio” pretende eternizar: a música como símbolo de encontro, turismo e espetáculo, transformando um show pop em um acontecimento histórico.

Se tudo sair como planejado, o Rio não apenas receberá Shakira. O Rio, mais uma vez, será o próprio espetáculo.

Mundo em conflito, vozes contidas: a ONU, a guerra na Ucrânia e o silêncio entre as potências

 

Foto: Jimmy Liao

Quando a guerra na Ucrânia entrou em seu quarto ano completo, o mundo já não acompanhava cada ataque com a mesma atenção dos primeiros meses. O conflito, que começou com a invasão em larga escala da Rússia em fevereiro de 2022, deixou de ser uma emergência global constante para se tornar uma guerra crônica, integrada ao cotidiano das manchetes internacionais. Nesse processo, uma instituição criada para evitar conflitos entre nações passou a ser vista por muitos como um observador impotente: a Organização das Nações Unidas.

A ONU, fundada em 1945 com o objetivo de preservar a paz mundial, tem enfrentado um de seus maiores testes desde o fim da Guerra Fria. A guerra na Ucrânia expôs, de forma clara, os limites do sistema internacional baseado em consenso entre grandes potências. No centro dessa paralisia está o Conselho de Segurança, o principal órgão da organização, onde um dos países envolvidos no conflito — a Rússia — possui poder de veto.

O resultado é um paradoxo: a instituição responsável por impedir guerras globais se vê incapaz de tomar decisões efetivas justamente quando uma das maiores guerras europeias do século XXI se arrasta sem solução.

O Conselho de Segurança da ONU foi estruturado após a Segunda Guerra Mundial com cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia (então União Soviética), China, França e Reino Unido. Esses países receberam o poder de veto como forma de garantir que nenhuma decisão internacional fosse tomada contra seus interesses fundamentais.

Durante a Guerra Fria, esse sistema produziu impasses frequentes, mas também evitou confrontos diretos entre superpotências. O problema, no entanto, é que o modelo continua praticamente o mesmo, apesar das transformações políticas, econômicas e militares das últimas décadas.

No caso da Ucrânia, a presença da Rússia como membro permanente impede qualquer resolução mais dura do Conselho de Segurança. Ao longo da guerra, diversas propostas foram bloqueadas, o que levou a ONU a atuar principalmente em frentes humanitárias e diplomáticas, sem capacidade de impor soluções políticas ou militares.

Mesmo quando resoluções conseguem ser aprovadas, elas tendem a ser genéricas. Em fevereiro de 2025, por exemplo, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 2774, considerada a primeira resolução substantiva sobre o conflito, mas criticada por países europeus por não condenar explicitamente a Rússia nem defender com clareza a integridade territorial da Ucrânia.

A dificuldade de adotar medidas mais firmes revela o principal dilema da ONU: ela depende justamente dos países que, em certos momentos, são parte do problema.


Foto: Mathias Reding

A Assembleia Geral e o poder simbólico

Diante da paralisia no Conselho de Segurança, a Assembleia Geral — onde todos os países têm direito a voto — tornou-se o principal espaço de manifestação política sobre a guerra.

Em fevereiro de 2025, a Assembleia aprovou resoluções pedindo uma paz “justa e duradoura” e um caminho diplomático para o fim do conflito. A votação, no entanto, expôs divisões profundas: apenas 93 países votaram a favor, enquanto dezenas se abstiveram ou votaram contra.

Esses números revelam uma realidade incômoda para o Ocidente: o mundo não está totalmente alinhado em relação à guerra. Muitos países da África, Ásia e América Latina adotaram posições neutras, refletindo interesses econômicos, dependência energética ou simplesmente desconfiança em relação à narrativa das potências ocidentais.

Na prática, as resoluções da Assembleia Geral têm peso político e simbólico, mas não são obrigatórias. Elas não impõem sanções, não autorizam intervenções militares e não obrigam as partes a negociar. Funcionam, sobretudo, como termômetro da opinião internacional.

Se a organização encontra dificuldades para influenciar o rumo político da guerra, o mesmo não se pode dizer de sua atuação humanitária. Diversas agências da ONU operam dentro da Ucrânia e em países vizinhos, oferecendo ajuda a milhões de civis afetados pelo conflito.

Segundo dados humanitários das Nações Unidas, milhões de pessoas continuam dependentes de assistência, com o conflito entrando em seu quinto ano e afetando profundamente a infraestrutura e a saúde mental da população.

Em 2025, o trabalho humanitário se tornou ainda mais perigoso. Oito trabalhadores de ajuda morreram, quatro deles em serviço, enquanto dezenas ficaram feridos ou foram sequestrados.

Apesar dessas dificuldades, a ONU continua fornecendo alimentos, abrigo, assistência médica e apoio psicológico. O Alto Comissariado para Refugiados, por exemplo, estimou a necessidade de centenas de milhões de dólares para atender refugiados e deslocados.

Esse esforço, no entanto, ocorre em meio a um cenário de financiamento insuficiente e ataques contínuos a infraestruturas civis.

Além da ajuda humanitária, a ONU também atua na documentação de crimes de guerra. Uma comissão internacional criada pelo Conselho de Direitos Humanos investigou violações cometidas durante o conflito.

Relatórios divulgados em 2025 apontaram que forças russas cometeram crimes de guerra, incluindo ataques indiscriminados contra civis, tortura, execuções, deportações e violência sexual.

A comissão também concluiu que alguns desses atos podem configurar crimes contra a humanidade, devido à natureza sistemática das ações.

Essas investigações têm impacto jurídico e político, mas enfrentam uma limitação fundamental: a ONU não possui um sistema próprio de aplicação de justiça criminal. Para que os responsáveis sejam julgados, é necessário recorrer a tribunais internacionais ou sistemas judiciais nacionais.

Na prática, isso significa que muitas acusações permanecem sem consequências imediatas, alimentando a percepção de impunidade.

Enquanto a guerra se prolonga, a diplomacia internacional tenta encontrar caminhos para um acordo. Nos bastidores, potências como Estados Unidos, China e países europeus buscam alternativas para um cessar-fogo ou negociação de paz.

Em fevereiro de 2026, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia declarou que a China poderia desempenhar um papel importante no fim da guerra, destacando o reconhecimento chinês da integridade territorial ucraniana e a possibilidade de mediação.

Ao mesmo tempo, divergências entre aliados ocidentais indicam que a unidade internacional não é absoluta. Reuniões estratégicas sobre o conflito têm sido marcadas por tensões, ausência de líderes e debates sobre o futuro da ajuda militar.

Esse cenário de negociações fragmentadas contribui para a sensação de silêncio institucional. A ONU, dependente da cooperação entre potências, acaba refletindo o mesmo impasse político que domina o sistema internacional.


A guerra que continua, mesmo quando o mundo olha para outro lado

Apesar da redução da atenção midiática em certos momentos, a guerra continua intensa. Em 2026, ataques russos contra a infraestrutura energética ucraniana voltaram a causar apagões em pleno inverno, levando a ONU a pedir o fim das ofensivas contra civis.

Cerca de 20% do território ucraniano permanece sob controle russo, e as linhas de frente continuam relativamente estáticas, com combates regulares e ataques aéreos.

Especialistas afirmam que o conflito tende a se arrastar por anos, dada a quantidade de variáveis militares, econômicas e políticas envolvidas.

Nesse contexto, a ONU se mantém como uma espécie de guardiã institucional: incapaz de parar a guerra, mas fundamental para evitar uma escalada ainda maior.

A crise ucraniana não é apenas uma guerra regional. Ela expõe as fragilidades do sistema internacional criado após 1945.

Analistas apontam que o futuro da ONU pode ser o de uma instituição de resistência, mantendo o que ainda funciona enquanto aguarda mudanças nas condições políticas globais.

Esse diagnóstico reflete um consenso crescente: a ONU não está necessariamente falhando por incompetência, mas por limitações estruturais.

O sistema de veto, por exemplo, impede ações decisivas quando os interesses de grandes potências estão em jogo. Ao mesmo tempo, reformas profundas parecem improváveis, já que exigiriam o consentimento dos próprios países que se beneficiam do modelo atual.


Entre a relevância e a impotência

A guerra na Ucrânia ilustra a dualidade da ONU no século XXI. De um lado, a organização continua sendo o principal fórum de diálogo entre países, responsável por operações humanitárias gigantescas e investigações de crimes internacionais.

De outro, ela demonstra pouca capacidade de impedir conflitos entre grandes potências.

Essa contradição não é nova, mas se tornou mais visível. A ONU não possui exército próprio, não controla sanções globais de forma automática e depende da vontade política dos Estados.

Em conflitos assimétricos ou regionais, a organização consegue atuar com mais eficácia. Mas em guerras envolvendo potências nucleares, seu papel tende a ser limitado.

O maior perigo, segundo diplomatas e analistas, não é apenas a continuidade da guerra, mas a normalização do conflito.

À medida que a guerra se arrasta, o risco é que ela deixe de ser tratada como uma emergência internacional e passe a ser vista como uma realidade permanente, como aconteceu em conflitos prolongados do Oriente Médio.

Nesse cenário, a ONU corre o risco de se transformar em uma instituição voltada apenas para administrar crises humanitárias, sem capacidade de resolver suas causas.


O futuro da ONU diante da guerra

O conflito na Ucrânia deve continuar sendo um dos principais desafios para a ONU nos próximos anos. O resultado da guerra — seja por negociação, desgaste militar ou mudança política — terá impacto direto na credibilidade da organização.

Se a ONU conseguir participar de um eventual acordo de paz, seu papel poderá ser reforçado. Caso contrário, a percepção de impotência institucional tende a crescer.

Enquanto isso, a organização segue atuando onde pode: ajudando civis, investigando crimes e oferecendo um espaço de diálogo entre países que, fora dali, dificilmente se sentariam à mesma mesa.

A guerra na Ucrânia não é apenas um conflito territorial. Ela é também um teste para o sistema internacional construído após a Segunda Guerra Mundial.

A ONU, criada para impedir guerras globais, se vê diante de um conflito prolongado entre potências, com capacidade limitada de intervenção. O silêncio institucional, muitas vezes interpretado como omissão, é, na verdade, o reflexo de um sistema que depende do consenso entre países que não conseguem concordar.

Em meio a discursos, resoluções e negociações, a guerra continua. Civis seguem sendo atingidos, cidades continuam sob risco e o mapa político europeu permanece em transformação.

A ONU, por sua vez, permanece no centro desse cenário: não como a força capaz de encerrar a guerra, mas como a última estrutura global onde a ideia de paz ainda é discutida, mesmo quando o mundo parece ter se acostumado com o som distante dos combates.

Entre o verão eterno e o silêncio de Hollywood: por que a continuação de Me Chame Pelo Seu Nome segue incerta

Imagem: Reprodução

Quando Me Chame Pelo Seu Nome chegou aos cinemas em 2017, o filme não foi apenas mais um romance independente elogiado pela crítica. Ele se tornou um fenômeno cultural, uma obra que atravessou o cinema, a literatura e a própria percepção do amor queer nas telas. Dirigido por Luca Guadagnino e baseado no romance de André Aciman, o longa transformou Timothée Chalamet em um astro internacional, consolidou Armie Hammer como um galã sensível e elevou a narrativa de um verão italiano a um status quase mítico no imaginário contemporâneo.

Desde então, a pergunta que ecoa entre fãs e imprensa é a mesma: haverá uma continuação? A resposta, ao longo dos anos, mudou diversas vezes — e hoje parece mais incerta do que nunca. Entre projetos anunciados, declarações contraditórias e um dos maiores escândalos recentes de Hollywood, o destino de uma sequência permanece envolto em silêncio.

Para entender por que a continuação é tão difícil de acontecer, é preciso revisitar a história original, o caminho literário proposto por André Aciman em Find Me e, inevitavelmente, o colapso público da carreira de Armie Hammer.


O verão que mudou tudo: o enredo de Me Chame Pelo Seu Nome

Imagem: Reprodução

O filme acompanha Elio Perlman, um adolescente de 17 anos que passa o verão de 1983 com a família em uma casa de campo no norte da Itália. Filho de um professor universitário especializado em arqueologia, Elio vive cercado por música, livros e uma rotina tranquila que mistura erudição e lazer.

Esse equilíbrio muda com a chegada de Oliver, um estudante americano que vem passar algumas semanas como assistente do pai de Elio. Alto, confiante e carismático, Oliver parece o oposto de Elio: mais velho, seguro e emocionalmente distante.

No início, a relação entre os dois é marcada por tensão e curiosidade. Elio oscila entre fascínio e irritação. Oliver, por sua vez, mantém uma postura aparentemente indiferente. Aos poucos, porém, o verão se transforma em um território de descobertas.

A relação evolui de forma lenta e delicada: olhares prolongados, toques sutis, passeios de bicicleta e conversas sobre música e literatura. O romance, quando finalmente se concretiza, não é tratado como escândalo, mas como um processo íntimo de autodescoberta.

O filme se destaca por sua abordagem sensorial. O calor do verão, os pomares, a água dos rios e a textura da paisagem italiana funcionam como extensão das emoções dos personagens. O amor entre Elio e Oliver é vivido como algo efêmero, quase inevitavelmente destinado a desaparecer com o fim da estação.

O clímax emocional acontece após a despedida de Oliver. No inverno, Elio recebe um telefonema no qual Oliver revela que vai se casar. O pai de Elio, em uma das cenas mais celebradas do cinema recente, faz um discurso sobre a importância de viver o amor plenamente, sem endurecer o coração para evitar a dor.

A cena final mostra Elio sozinho diante da lareira, chorando silenciosamente enquanto os créditos sobem. É uma conclusão aberta, melancólica e profundamente humana.


O autor por trás da história: André Aciman

Imagem: Reprodução

O romance original, Call Me by Your Name, foi publicado em 2007 por André Aciman, escritor egípcio-americano e professor de literatura. A obra já era cultuada antes do filme, mas a adaptação de Guadagnino transformou o livro em best-seller global.

Aciman sempre afirmou que a história não era apenas sobre sexualidade, mas sobre memória, desejo e o impacto duradouro de um amor vivido na juventude. O romance é narrado por Elio já adulto, recordando o verão que mudou sua vida.

Durante anos, o escritor resistiu à ideia de uma continuação. Mas o sucesso do filme reacendeu o interesse pelo universo dos personagens. Em 2019, ele publicou Find Me, sequência literária que acompanha a vida de Elio e Oliver décadas após aquele verão.


Find Me: o enredo do segundo livro

Imagem: Reprodução

Diferente do primeiro romance, que se concentra quase inteiramente no ponto de vista de Elio, Find Me é estruturado em quatro partes, cada uma com foco em personagens diferentes.

A história se passa anos depois dos acontecimentos de 1983.

Parte 1: o pai de Elio

A primeira seção acompanha Samuel, o pai de Elio, já idoso. Ele conhece Miranda, uma jovem fotógrafa, em um trem rumo a Roma. Apesar da grande diferença de idade, os dois iniciam um relacionamento intenso.

Esse segmento trata de temas como envelhecimento, desejo tardio e a possibilidade de recomeçar. Samuel e Miranda constroem uma vida juntos, e ela acaba engravidando, criando um novo capítulo na história da família.

Parte 2: Elio adulto

Anos depois, Elio é um pianista consagrado que vive em Paris. Ele inicia um relacionamento com Michel, um homem mais velho, refinado e apaixonado por música.

A relação é marcada por carinho e estabilidade, mas Elio permanece emocionalmente ligado ao passado. Oliver continua sendo uma presença fantasmática em sua memória.

Parte 3: Oliver nos Estados Unidos

O terceiro segmento acompanha Oliver, agora professor universitário nos Estados Unidos, casado e com filhos. Ele vive uma vida aparentemente convencional, mas nunca esqueceu o verão com Elio.

Durante uma viagem, Oliver revisita mentalmente suas escolhas e reconhece que o amor por Elio nunca desapareceu.

Parte 4: o reencontro

Na última parte, décadas depois, Elio e Oliver finalmente se reencontram. Ambos já viveram outras vidas, outros relacionamentos e outras perdas.

O romance termina com a sugestão de que, após anos de distância, eles finalmente podem ficar juntos.

O tom do livro é mais contemplativo, focado na passagem do tempo, na memória e na ideia de que certos amores nunca desaparecem completamente.


O entusiasmo inicial com a sequência

Imagem: Reprodução

Após o sucesso do filme, a ideia de uma continuação parecia inevitável. O próprio diretor Luca Guadagnino afirmou que estava pensando em uma sequência ambientada alguns anos depois dos eventos originais.

Segundo ele, a história seria desenvolvida junto com André Aciman e teria um tom diferente, mostrando os personagens viajando pelo mundo e vivendo novos capítulos de suas vidas.

Em 2020, o diretor chegou a confirmar que Timothée Chalamet e Armie Hammer retornariam para reprisar seus papéis.

Na época, o lançamento do livro Find Me parecia fornecer o material perfeito para a adaptação. A expectativa era alta entre fãs e críticos.


A virada: o escândalo de Armie Hammer

Imagem: Reprodução

Em 2021, tudo mudou.

O ator Armie Hammer, que interpretou Oliver, tornou-se alvo de uma série de acusações públicas. Mensagens privadas atribuídas a ele começaram a circular online, contendo supostas fantasias sexuais violentas e até referências a canibalismo.

Em seguida, várias mulheres vieram a público acusando o ator de abuso emocional, comportamento manipulador e, em alguns casos, agressão sexual.

As acusações desencadearam uma reação imediata da indústria:

  • Hammer foi retirado de diversos projetos.

  • Foi dispensado por sua agência.

  • Sua carreira praticamente colapsou.

O caso ganhou proporções ainda maiores com a repercussão de um documentário sobre sua família e as denúncias.

O ator negou ter cometido crimes e afirmou que todos os relacionamentos foram consensuais.
Uma investigação policial não resultou em acusações formais por falta de provas suficientes.

Mesmo assim, o impacto público foi devastador.

Até então, a continuação de Me Chame Pelo Seu Nome era tratada como questão de tempo. Depois do escândalo, tornou-se um problema.

O diretor Luca Guadagnino indicou que estava se afastando da ideia de uma sequência, e a controvérsia envolvendo Hammer foi apontada como um dos fatores decisivos.

A adaptação de Find Me, que antes parecia natural, tornou-se complicada por vários motivos:

  1. A centralidade de Oliver
    A história de Find Me depende diretamente do personagem de Hammer.

  2. O impacto público do escândalo
    O nome do ator passou a ser associado a acusações graves, o que afetaria qualquer projeto ligado a ele.

  3. A imagem do filme original
    O primeiro longa é visto como uma obra sensível e delicada. Uma continuação ligada a escândalos poderia manchar esse legado.

Relatos indicam que a sequência foi engavetada após as acusações virem a público.

Apesar do impacto do escândalo, as falas dos envolvidos nunca foram totalmente definitivas.

Em entrevistas ao longo dos anos:

  • Guadagnino já afirmou estar trabalhando na sequência.

  • Confirmou o retorno do elenco em 2020.

  • Depois indicou que estava se afastando da ideia.

  • Em 2022, chegou a dizer que ainda tinha esperança de realizar o filme.

Essa inconsistência contribuiu para a sensação de incerteza.

Ao mesmo tempo, o próprio Hammer afirmou em 2018 que não havia contratos, estúdio ou roteiro para a sequência.

Ou seja: o projeto sempre existiu mais como ideia do que como produção concreta.


Assista maiores detalhes deste escândalo:


O peso cultural do primeiro filme

Imagem: Reprodução

Outro fator importante é o impacto simbólico de Me Chame Pelo Seu Nome.

O filme não é apenas um romance. Ele representa:

  • Um retrato sensível da juventude queer.

  • Uma obra de estética refinada e emocionalmente poderosa.

  • Um final considerado perfeito por muitos críticos.

Para parte do público, a história funciona melhor como experiência única e autônoma. O próprio debate sobre a necessidade de uma continuação sempre dividiu opiniões.

Nos anos seguintes ao escândalo, Hammer começou a reaparecer gradualmente.

Ele afirmou ter passado por terapia e reabilitação, dizendo que o período foi transformador em sua vida pessoal.

O ator reconheceu comportamentos manipuladores e emocionalmente abusivos em relações passadas, mas insistiu que não cometeu crimes.

Mesmo sem acusações formais, sua reputação na indústria permanece profundamente abalada.

Em 2025, reportagens apontavam que ele tentava reconstruir a carreira em projetos independentes.


Por que a continuação é tão incerta

Imagem: Reprodução

A dificuldade em realizar a sequência pode ser entendida como resultado de vários fatores combinados.

1. O escândalo central

O personagem Oliver é essencial para qualquer continuação. Sem ele, a história perde o eixo emocional.

Mas com o nome de Armie Hammer associado a denúncias graves, o projeto se torna arriscado para estúdios e distribuidores.

2. O caráter quase perfeito do primeiro filme

O final aberto, melancólico e contemplativo é considerado por muitos como uma conclusão ideal.

Uma sequência corre o risco de:

  • Desagradar fãs.

  • Diluir o impacto emocional.

  • Parecer desnecessária.

3. A própria estrutura de Find Me

O segundo livro não segue a mesma lógica narrativa do primeiro. Ele se dispersa em múltiplos personagens e períodos, o que exigiria uma adaptação bastante diferente do filme original.

Mesmo antes do escândalo, o projeto não tinha:

  • Estúdio confirmado.

  • Roteiro finalizado.

  • Cronograma definido.

Ou seja, não era uma continuação já em produção.


O futuro: impossível ou apenas improvável?

Imagem: Reprodução

Apesar de tudo, a sequência nunca foi oficialmente anunciada como cancelada de forma definitiva.

Em diferentes momentos, o diretor demonstrou interesse em voltar ao universo dos personagens.

E o próprio livro Find Me abre possibilidades narrativas que poderiam ser exploradas de outras formas:

  • Um filme focado apenas em Elio.

  • Uma história ambientada décadas depois.

  • Uma adaptação livre, não fiel ao livro.

Mas, na prática, o peso do escândalo e o silêncio dos estúdios mantêm o projeto em um limbo.

Talvez a maior ironia seja que Me Chame Pelo Seu Nome sempre foi sobre o tempo: o verão que passa, o amor que termina, a memória que permanece.

O filme termina com Elio sozinho, olhando o fogo, absorvendo a dor de um sentimento que não pôde durar.

De certa forma, a própria continuação parece viver a mesma lógica: uma promessa que existiu, mas que talvez nunca se concretize.

Entre a delicadeza do original, o enredo contemplativo de Find Me e o colapso público de um de seus protagonistas, a sequência se tornou uma ideia suspensa — um amor cinematográfico que talvez permaneça para sempre no campo da memória, e não da realização.

E, como no próprio filme, talvez seja justamente essa incompletude que preserve sua beleza.

Todas as Sextas, de Paola Carosella: a cozinha como memória, refúgio e linguagem de sobrevivência


Em todas as sextas, livro de Paola Carosella, a cozinha não aparece como um território de receitas, técnicas ou segredos culinários, mas como o eixo emocional de uma vida marcada por deslocamentos, ausências, descobertas e reinvenções. Desde o prólogo, a autora deixa claro que o livro não nasce da necessidade de ensinar a fazer pratos, mas da vontade de contar uma história que se construiu dentro das cozinhas pelas quais passou. Ela própria afirma que não tem um estilo inovador nem receitas inéditas, e que o que pode oferecer é a narrativa de uma existência costurada pelo ato de cozinhar, onde as receitas fazem sentido apenas como consequência de vivências, afetos e trajetórias pessoais. Essa declaração inicial já define o tom do livro: trata-se menos de um manual gastronômico e mais de um relato íntimo sobre pertencimento, identidade e memória, onde a comida funciona como linguagem emocional.

A narrativa começa com a afirmação de uma identidade simples e direta: a de cozinheira. Paola descreve a cozinha como refúgio, abrigo e proteção, um lugar onde sempre se sentiu segura, acolhida e pertencente, independentemente do país ou das circunstâncias. Essa ideia percorre toda a obra: a cozinha não é apenas o espaço físico onde se preparam alimentos, mas o único território constante em uma vida marcada por instabilidades familiares, dificuldades financeiras e mudanças de rumo.

A infância da autora é construída a partir das figuras femininas de sua família, sobretudo as avós, que representam duas formas diferentes de relação com o trabalho, o silêncio e a comida. De um lado, a avó María, dura, silenciosa, quase sempre em pé, trabalhando sem parar, sem tempo para sentar à mesa, sempre cuidando dos homens da família. De outro, a avó Mimina, que aparece como símbolo de uma cozinha cheia de vida, horta, animais, aromas e conversas. A casa de Mimina é descrita como um espaço amplo, verdadeiro e natural, onde tudo brota da terra e tudo gira em torno da mesa central, lugar de trabalho, aprendizado e convivência.

A infância de Paola se divide entre a solidão do apartamento pequeno onde vive com a mãe e o calor dessa casa rural, onde a comida é parte do cotidiano e não uma atividade extraordinária. A história familiar também é marcada por ausências e fragilidades. O pai, descrito como um homem bonito, sensível e doente, é uma figura distante, internada diversas vezes em instituições psiquiátricas. A mãe, por sua vez, trabalha em dois empregos e estuda à noite, deixando a filha sozinha durante longos períodos. Esse cenário de silêncio e espera se torna um dos pontos mais marcantes da narrativa.

A menina chega da escola e passa horas sozinha, aguardando a mãe voltar. É nesse contexto que a televisão e os programas culinários passam a preencher o vazio. Ela assiste a programas de receitas, anota tudo em cadernos e, mesmo sem ter os ingredientes, improvisa pratos, falando sozinha como se estivesse apresentando um programa de cozinha. A cozinha, nesse momento, surge como companhia, como forma de construir uma vida imaginária, como estratégia de sobrevivência emocional.

O gesto de arrumar a mesa para duas pessoas, mesmo estando sozinha, com flores colhidas na rua e cardápios desenhados à mão, revela a dimensão simbólica da comida na vida da autora: cozinhar é criar presença onde há ausência, é inventar companhia onde há silêncio. Essa solidão também revela um traço importante de sua personalidade: a capacidade de transformar o medo e a ansiedade em ação.

Enquanto espera a mãe, ela limpa a casa, arruma a cama, organiza a cozinha, faz promessas silenciosas para que nada aconteça com ela. A comida e a organização do espaço se tornam rituais de controle diante do caos emocional.

A adolescência marca a transição para o mundo exterior. Paola se descreve como uma jovem punk, rebelde, distante do modelo de estudante exemplar. Ao abandonar a escola e começar a trabalhar como secretária, ela ainda não sabe exatamente o que quer fazer, mas o destino a empurra para a cozinha. Quando o chefe do escritório decide contratar um cozinheiro para preparar almoços, ela se oferece para o trabalho, mesmo sem experiência profissional. Esse episódio funciona como o primeiro ponto de virada da narrativa.

O que antes era apenas uma forma de lidar com a solidão passa a se tornar uma profissão. A partir desse momento, a cozinha deixa de ser apenas refúgio e se transforma em projeto de vida. O relato desse período é marcado por improvisação, esforço e entusiasmo. Ela trabalha como secretária durante o dia e, à noite, cozinha em casa para os almoços do escritório, carregando caixas de comida no ônibus, montando cardápios pretensiosos e preparando tudo em uma cozinha minúscula.

Há uma ingenuidade e uma paixão evidentes nesse momento: ela faz arranjos de flores, prepara canapés extras, cria nomes sofisticados para os pratos, tudo como se estivesse encenando um sonho. Esse período representa a descoberta do prazer de cozinhar para outras pessoas, de oferecer hospitalidade, de transformar a comida em linguagem de afeto.

O encontro com chefs profissionais marca a entrada definitiva no mundo da gastronomia. Primeiro, com Bernard, que a introduz em restaurantes sofisticados e a apresenta à disciplina e ao rigor das cozinhas profissionais. Depois, com Alfonso, em uma cozinha formada apenas por mulheres, onde o trabalho é duro e repetitivo, mas também acolhedor. Nesse momento, a autora descreve a cozinha como um lugar que acolhe pessoas perdidas, solitárias ou carentes.

O calor, o esforço físico e a repetição das tarefas funcionam como uma espécie de abrigo emocional. O trabalho é exaustivo, mas também sedutor, porque oferece um sentido claro, uma função, uma identidade.

O período no restaurante La Créole, sob a orientação do chef Paul Azema, representa um momento de descoberta intelectual e estética. O restaurante é descrito como um espaço caótico, boêmio e criativo, frequentado por artistas, músicos e figuras excêntricas. A cozinha é pequena, improvisada, cheia de temperos e frascos sem nome, mas também cheia de curiosidade e experimentação.

Paul surge como um mestre excêntrico, que ensina não apenas técnicas culinárias, mas também curiosidade, leitura, música e pensamento crítico. A brincadeira com o Larousse Gastronomique, em que o chef faz perguntas e a aprendiz precisa estudar para respondê-las, mostra a cozinha como espaço de aprendizado intelectual, não apenas técnico.

Esse período é descrito como uma escola de vida, onde as conversas se estendem madrugada adentro, sem respostas imediatas, em uma época sem internet, em que as dúvidas geravam discussões longas e férteis.

O fechamento do restaurante marca outra mudança de rumo. A mãe, sempre presente como figura de apoio, incentiva a filha a ir para Paris, para trabalhar nos grandes restaurantes. A viagem para a França representa um choque cultural e profissional. Lá, Paola descobre a disciplina rigorosa das cozinhas estreladas, o machismo estrutural, a hierarquia rígida e as divisões sociais dentro da profissão.

O trabalho é duro, silencioso e muitas vezes humilhante, mas também libertador. Ela vive sozinha pela primeira vez, caminha pelas ruas de Paris à noite, experimenta comidas de diferentes culturas e descobre a própria liberdade. A experiência francesa marca a compreensão de que o mundo é maior do que imaginava e de que a profissão de cozinheira exige disciplina, técnica e resistência.

De volta a Buenos Aires, a autora passa por diferentes experiências profissionais, trabalhando em cozinhas improvisadas para músicos internacionais e, depois, em bistrôs franceses, onde enfrenta chefs arrogantes, cozinhas apertadas e jornadas intensas. A descrição das rotinas de cozinha nesse período revela um dos temas centrais do livro: a beleza da repetição.

Para Paola, a cozinha é uma dança silenciosa, uma coreografia precisa, em que cada gesto tem seu tempo e sua função. A tensão do serviço, a organização das bancadas, a sincronia entre os cozinheiros e o momento em que os pratos saem para o salão são descritos como um espetáculo, uma peça de teatro. A cozinha aparece, assim, como um espaço de disciplina, concentração e beleza, onde o silêncio e o ritmo substituem o caos do mundo exterior.

Ao longo de toda a narrativa, a comida nunca aparece isolada da vida. Cada prato, cada receita e cada técnica estão ligados a pessoas, lugares e memórias. A cozinha da avó, o apartamento silencioso, os restaurantes boêmios, as cozinhas estreladas de Paris e os bistrôs de Buenos Aires formam uma espécie de mapa emocional da autora.

O título “Todas as sextas” remete a um ritual de encontros e refeições, mas também a uma ideia de continuidade: a repetição dos gestos, dos sabores e das memórias que constroem a identidade de alguém. O livro, portanto, não é apenas a história de uma cozinheira que se torna chef. É a história de uma mulher que encontra na cozinha um idioma para falar de amor, perda, solidão, liberdade e pertencimento.

A comida surge como ferramenta de construção de vínculos, de sobrevivência emocional e de criação de sentido. Cada cozinha em que ela entra representa uma nova família, uma nova forma de existir no mundo. O que se constrói ao longo da narrativa é a ideia de que cozinhar é um ato profundamente humano, uma forma de cuidado, de comunicação e de resistência.

No fim, a trajetória de Paola não é apresentada como uma escalada de sucesso profissional, mas como um percurso afetivo, feito de encontros, despedidas, mestres, fracassos e descobertas. A cozinha é o fio condutor que une todas essas experiências, o lugar onde a autora encontra abrigo e identidade.

Mais do que um livro de receitas, Todas as sextas se revela como um livro sobre memória, pertencimento e transformação, em que cada prato carrega a história de quem o preparou e de quem o compartilhou. Se a autora diz, no início, que não tinha receitas novas para ensinar, o livro prova que a verdadeira novidade está na forma como ela conta a própria vida: como uma sequência de cozinhas, aromas e mesas que, juntas, constroem a história de uma mulher que encontrou no ato de cozinhar a sua maneira de existir no mundo.

Marty Supreme: a biografia de um sonho obsessivo que transforma talento em campo de batalha

“Marty Supreme”, dirigido por Josh Safdie, se apresenta, desde os primeiros minutos, como uma biografia que não pretende suavizar o seu protagonista nem transformá-lo em herói tradicional. O filme acompanha Marty Mauser, um jovem movido por um sonho que ninguém respeita, alguém que atravessa sucessivas quedas e humilhações na busca por grandeza, num percurso descrito como uma verdadeira ida “ao inferno e de volta” em nome da ambição. A narrativa se organiza de forma linear, acompanhando o personagem desde sua origem modesta até os momentos de maior exposição e pressão, construindo um retrato de obsessão que se confunde com a própria identidade do protagonista. O filme, embora estruturado como uma biografia esportiva, subverte o formato clássico ao tratar o esporte — o tênis de mesa — menos como cenário de superação e mais como arena psicológica, onde cada vitória cobra um preço emocional e cada derrota revela o abismo entre a imagem pública e a fragilidade privada. Desde o início, a construção de Marty é marcada por um sentimento de inadequação. Ele é apresentado como alguém que sonha alto em um ambiente que não reconhece o valor de suas aspirações, um jovem que precisa justificar constantemente o próprio desejo de grandeza. Esse primeiro movimento da narrativa estabelece o conflito central: não se trata apenas de vencer partidas, mas de convencer o mundo — e a si mesmo — de que seu sonho merece existir. A trajetória inicial é moldada por pequenos torneios, treinamentos exaustivos e tentativas frustradas de reconhecimento. O filme evita a romantização desse processo. Não há uma sequência tradicional de “montagem de treinamento” que leve diretamente ao sucesso; em vez disso, a câmera acompanha o desgaste físico, o cansaço e as escolhas moralmente duvidosas que surgem no caminho. É nesse ponto que o personagem começa a revelar a sua face mais incômoda: a ambição tóxica. O conflito moral é o motor dramático da primeira metade do filme. Marty não é apenas um jovem esforçado; ele é alguém disposto a ultrapassar limites éticos para alcançar o topo. Suas relações pessoais começam a sofrer com isso. Amigos e aliados se tornam peças em um tabuleiro estratégico, enquanto a vida emocional do personagem passa a girar exclusivamente em torno do desempenho competitivo. A narrativa deixa claro que a ambição não é apenas um traço de personalidade, mas uma força corrosiva que consome tudo ao redor.

O segundo ato se constrói a partir da ascensão. Marty começa a ganhar visibilidade, vitórias importantes e reconhecimento. O que poderia ser o momento de triunfo, no entanto, é tratado pelo filme como o início de uma nova forma de pressão. A cada vitória, a expectativa aumenta, e o personagem passa a viver sob o peso de uma imagem pública que precisa ser mantida a qualquer custo. A construção dramática nesse trecho lembra uma odisséia instável, marcada por reviravoltas e movimentos rápidos, como uma partida de tênis de mesa em ritmo acelerado. O esporte funciona como metáfora da própria vida de Marty: um jogo veloz, imprevisível e cheio de mudanças bruscas de direção. O protagonista não tem tempo para respirar. A cada ponto, a cada competição, a tensão aumenta. O sucesso não traz paz; traz mais exigências. É nesse trecho que o filme aprofunda o retrato psicológico do personagem. Marty começa a perceber que a grandeza que buscava não vem acompanhada da satisfação que imaginava. O reconhecimento externo não preenche o vazio interno. A ambição, que antes era combustível, passa a ser um fardo. O público, que antes o ignorava, agora o observa com expectativa e julgamento constante. A pressão se intensifica, e a narrativa assume um tom cada vez mais nervoso, característico do estilo dos Safdie, conhecido por construir histórias como espirais de ansiedade. As decisões de Marty se tornam mais impulsivas, e suas relações pessoais se deterioram. Ele se distancia de pessoas que tentam ajudá-lo, enquanto se aproxima de figuras que reforçam sua obsessão pelo sucesso. O filme evita transformá-lo em vítima. Ao contrário, deixa claro que muitas de suas quedas são resultado direto de suas escolhas. Essa abordagem reforça a ideia central da obra: a ambição pode ser tão destrutiva quanto libertadora.

O terceiro ato funciona como o mergulho final no conflito interno do protagonista. O auge da carreira coincide com o ponto de maior desgaste psicológico. O filme constrói a ideia de que a grandeza, para Marty, não é um destino, mas um estado de tensão permanente. O personagem passa a enfrentar não apenas adversários, mas o peso das próprias expectativas. O sonho que o impulsionava se transforma em prisão. A narrativa se encaminha para as competições decisivas, onde o esporte deixa de ser apenas uma atividade e se torna a síntese de toda a trajetória do personagem. Cada partida carrega o peso de anos de sacrifício, escolhas erradas e relações destruídas. O filme enfatiza o caráter ambíguo do protagonista: alguém admirável e desagradável ao mesmo tempo, carismático e egoísta, determinado e autodestrutivo. O clímax não é tratado como uma vitória simples. Em vez de oferecer uma resolução limpa, o filme sugere que a grandeza alcançada por Marty tem um custo alto demais. O triunfo esportivo não apaga as cicatrizes emocionais nem restaura as relações perdidas. A narrativa, ao final, parece menos interessada em celebrar o sucesso do protagonista e mais em questionar o preço que ele pagou por ele. O epílogo funciona como uma reflexão silenciosa sobre o sentido da ambição. Marty finalmente atinge o reconhecimento que sempre buscou, mas a sensação não é de plenitude. O filme encerra a jornada com uma nota ambígua, sugerindo que o sucesso, quando conquistado a qualquer custo, pode se tornar uma forma de derrota pessoal. O retrato final do personagem é o de alguém que conseguiu tudo o que queria, mas não sabe mais o que fazer com isso. A estrutura linear da narrativa reforça essa leitura: ao acompanhar o personagem desde o início até o auge, o filme permite perceber a transformação gradual da ambição em obsessão, e da obsessão em isolamento. “Marty Supreme” se distancia, assim, da biografia esportiva tradicional. Em vez de celebrar a superação, examina o lado sombrio do sucesso e transforma o esporte em metáfora para o desejo humano de reconhecimento e pertencimento. No fim, a trajetória de Marty não é apenas sobre vencer partidas, mas sobre a tentativa desesperada de provar que sua existência tem valor — e o preço que se paga quando essa prova se torna a única razão para viver.

Não existe neutralidade nas redes sociais — e fingir que existe só favorece quem já tem poder

Foto:Tracy Le Blanc

Há alguns anos, tornou-se comum ouvir que as redes sociais são apenas “plataformas neutras”, espaços onde as pessoas se expressam livremente e os conteúdos circulam conforme o interesse do público. A ideia é confortável, simples e, principalmente, conveniente para quem controla essas plataformas. Mas, depois de acompanhar de perto como debates são manipulados, como discursos são amplificados ou silenciados, eu já não consigo aceitar essa narrativa. A neutralidade digital, para mim, é um mito — e um mito perigoso.

Não cheguei a essa conclusão por teoria conspiratória ou paranoia ideológica. Cheguei observando o cotidiano. Uma postagem crítica some do alcance. Um tema sério é soterrado por memes. Um discurso agressivo viraliza sem esforço. Enquanto isso, conteúdos densos, investigativos ou que exigem reflexão parecem falar com um vazio. A explicação oficial costuma ser a mesma: “é o algoritmo”.

Mas o algoritmo não é uma entidade natural, como a gravidade. Ele é criado por pessoas, com objetivos claros. E, na maioria das vezes, esses objetivos não têm nada a ver com o interesse público. O objetivo é tempo de tela. É retenção. É lucro.

Isso significa que as redes não amplificam o que é mais verdadeiro, mais útil ou mais importante. Elas amplificam o que gera reação. O que irrita, o que divide, o que choca. A lógica é simples: quanto mais emoção, mais engajamento. Quanto mais engajamento, mais anúncios. Quanto mais anúncios, mais dinheiro.

Nesse cenário, a ideia de neutralidade se desfaz. Porque escolher o que será impulsionado e o que será invisibilizado já é, por si só, uma decisão política. Mesmo que a empresa não se declare de esquerda ou de direita, a lógica que ela impõe molda o debate público.

E é aqui que a questão se torna sensível.

Quando uma plataforma decide priorizar conteúdos curtos, agressivos e polarizados, ela não está apenas alterando a forma como consumimos informação. Ela está moldando o próprio tecido social. Ela está incentivando uma sociedade mais impaciente, mais ansiosa, mais raivosa.

Eu vejo isso nas conversas cotidianas. As pessoas não debatem mais ideias; elas repetem slogans. Não há nuance, não há dúvida, não há espaço para o “talvez”. Tudo precisa ser absoluto, definitivo, indignado. É como se o algoritmo tivesse transformado a complexidade humana em uma disputa de torcida organizada.

E o mais inquietante é que ninguém parece assumir responsabilidade por isso.

As plataformas dizem que apenas refletem o comportamento das pessoas. Os usuários dizem que apenas respondem ao que aparece no feed. Os criadores dizem que precisam se adaptar para sobreviver. No fim, todos se sentem vítimas de um sistema que ninguém controla — mesmo sendo um sistema criado por empresas específicas, com nomes, CEOs e metas de lucro.

A neutralidade, nesse contexto, funciona como uma espécie de escudo moral. Se a plataforma é neutra, ela não é responsável pelo que acontece dentro dela. Se o algoritmo é neutro, não há intenção por trás da amplificação de certos conteúdos. Tudo vira um processo automático, inevitável, quase natural.

Mas não é.

Escolher o que aparece primeiro na tela de bilhões de pessoas é um ato de poder. E poder sem responsabilidade nunca termina bem.

Quando penso nisso, não consigo evitar uma comparação com a televisão do século passado. Durante décadas, discutiu-se o papel das emissoras na formação da opinião pública. Falava-se em concessões públicas, responsabilidade social, limites éticos. Ninguém dizia que a TV era neutra. Pelo contrário: sempre se soube que a programação influenciava comportamentos, valores e visões de mundo.

Com as redes sociais, parece que decidimos esquecer essa lição. Aceitamos a ideia de que são apenas ferramentas. Como se um martelo fosse comparável a uma máquina capaz de moldar o pensamento de bilhões de pessoas ao mesmo tempo.

O problema é que essa crença na neutralidade não apenas desresponsabiliza as plataformas. Ela também desarma o público. Se acreditamos que tudo é natural, orgânico e inevitável, deixamos de questionar as regras do jogo.

E as regras, hoje, são desenhadas para manter as pessoas presas à tela, não para torná-las mais informadas ou mais críticas.

Isso não significa que as redes sociais sejam apenas vilãs. Eu mesmo uso essas plataformas todos os dias. Elas democratizaram vozes, abriram espaço para autores independentes, artistas, jornalistas e criadores que jamais teriam espaço na mídia tradicional. Há potência, há beleza e há transformação ali.

Mas é justamente por isso que o debate precisa ser honesto.

Não dá mais para fingir que o ambiente digital é neutro quando sabemos que ele privilegia certos discursos, certos formatos e certos comportamentos. Não dá para tratar o algoritmo como se fosse uma força da natureza, quando ele é, na verdade, uma decisão corporativa.

A questão central, para mim, não é censura nem liberdade irrestrita. É transparência.

Quem decide o que aparece no meu feed?
Com base em quais critérios?
Por que certos temas somem enquanto outros dominam a tela?
Quem ganha com isso?

Essas perguntas são desconfortáveis, porque revelam que a arena digital não é tão livre quanto parece. Ela tem donos, regras e interesses.

E talvez o maior perigo seja exatamente esse: a sensação de liberdade dentro de um sistema invisível de controle.

Quando tudo parece espontâneo, ninguém questiona. Quando ninguém questiona, o poder se consolida em silêncio.

Eu não acredito em soluções simples para esse problema. Regular demais pode sufocar a inovação. Regular de menos pode sufocar a democracia. Mas acredito que o primeiro passo é abandonar a fantasia da neutralidade.

As redes sociais não são neutras. Nunca foram. E quanto antes aceitarmos isso, mais cedo poderemos discutir o que realmente importa: que tipo de espaço público digital queremos construir.

Porque, no fim das contas, o algoritmo não é apenas uma linha de código. Ele é uma escolha sobre o tipo de sociedade que estamos ajudando a criar.

O intervalo que virou manifesto: como Bad Bunny transformou o Super Bowl em um espetáculo latino e político

Foto: Mike Blake/Reuters

O Super Bowl sempre foi muito mais do que uma final de futebol americano. É um ritual cultural, um show de marketing global e, acima de tudo, um palco simbólico para artistas que atingiram o auge da indústria musical. Em 2026, porém, o espetáculo do intervalo ganhou um significado diferente. Quando Bad Bunny subiu ao palco do Super Bowl LX, em Santa Clara, na Califórnia, não entregou apenas uma sequência de hits. Ele transformou os cerca de 13 minutos de apresentação em um gesto cultural, político e histórico para a música latina.

O artista porto-riquenho, um dos nomes mais ouvidos do planeta, protagonizou um dos shows de intervalo mais comentados dos últimos anos. Vestido de branco, com uma camisa estampando o sobrenome “Ocasio”, Bad Bunny levou ao palco não apenas coreografias e batidas urbanas, mas uma narrativa carregada de referências pessoais e culturais.

A peça usada durante o show era, segundo o próprio artista, uma homenagem ao tio que o introduziu ao futebol americano ainda na infância. O número na camisa remetia ao ano de nascimento do familiar, transformando um detalhe estético em memória afetiva.

Mas o impacto da apresentação foi muito além da roupa ou do repertório.

Bad Bunny se tornou o primeiro artista a comandar um show de intervalo do Super Bowl predominantemente em espanhol, uma escolha que gerou aplausos, debates e críticas em igual intensidade.

O gesto não foi casual. Em um dos momentos mais comentados da apresentação, o cantor disse “God bless America” e, em seguida, começou a citar países de todo o continente. A frase, que em inglês costuma se referir apenas aos Estados Unidos, ganhou um novo significado ao incluir toda a América Latina, numa declaração simbólica de pertencimento continental.

Para muitos espectadores latino-americanos, o momento foi recebido como um gesto de inclusão cultural e reconhecimento. Em cidades como San Juan, em Porto Rico, o show chegou a ser tratado como o verdadeiro centro da noite, ofuscando o próprio jogo.

Essa abordagem marcou uma mudança importante no perfil do espetáculo. Historicamente, o show do intervalo sempre privilegiou artistas de língua inglesa e repertório alinhado ao mainstream norte-americano. Ao ocupar o palco com músicas em espanhol e estética latina, Bad Bunny não apenas performou: ele redefiniu o tom do evento.

Audiência massiva e impacto global

Foto: Mike Blake/Reuters

Os números confirmam o peso do momento. A apresentação alcançou cerca de 128 milhões de telespectadores nos Estados Unidos, superando a média do próprio jogo e ficando próxima de recordes históricos do evento.

Em picos de audiência, a performance chegou a números ainda maiores, consolidando-se como um dos shows de intervalo mais assistidos da história recente.

O impacto se refletiu imediatamente fora do estádio. Após a apresentação, músicas do artista subiram nas paradas internacionais, e o álbum mais recente voltou a ganhar força comercial. No Reino Unido, por exemplo, ele conquistou seus primeiros hits solo no Top 10, impulsionados pela exposição do Super Bowl.

O efeito também se estendeu ao turismo. Pesquisas por viagens para Porto Rico cresceram mais de 200% após o show, evidenciando o poder de exposição global do evento.

Esses números ajudam a explicar por que artistas aceitam se apresentar no intervalo do Super Bowl sem cachê direto. O retorno vem na forma de visibilidade mundial e aumento de consumo de músicas, turnês e produtos associados.

Um espetáculo cercado de debates

Foto: Mike Blake/Reuters

Se o impacto cultural foi imediato, a repercussão política não demorou a surgir. O show gerou críticas de figuras conservadoras e debates sobre o uso do espanhol no evento, além de questionamentos sobre o conteúdo e a mensagem da apresentação.

Alguns comentaristas chegaram a classificar o espetáculo como “político” ou “divisivo”, enquanto outros defenderam o direito do artista de representar sua cultura em um palco global.

O contraste de opiniões revelou uma tensão cultural presente nos Estados Unidos contemporâneos: a disputa simbólica por identidade, linguagem e representatividade em espaços de grande visibilidade.

Ao mesmo tempo, analistas apontaram que a escolha de Bad Bunny fazia parte de uma estratégia clara da NFL: ampliar a conexão com o público latino e fortalecer a presença internacional da liga.

Com o esporte se expandindo para novos mercados, a escolha de um dos artistas mais populares do mundo em países de língua espanhola foi vista como um movimento estratégico e calculado.

O espetáculo também chamou atenção pela estética. Elementos visuais ligados à cultura porto-riquenha, referências à história do país e figurinos simbólicos foram incorporados ao show, criando uma narrativa visual que ia além do entretenimento puro.

O resultado foi descrito por críticos como uma apresentação “histórica” e “revolucionária”, justamente por levar ao palco do evento mais assistido dos Estados Unidos uma identidade cultural muitas vezes marginalizada.

Para parte do público latino, o show representou um marco semelhante ao “boom latino” dos anos 1990, mas com uma diferença fundamental: desta vez, o artista não precisou adaptar sua linguagem para o mercado anglófono.

Bad Bunny não cruzou a fronteira cultural. Ele levou sua cultura ao centro do palco.

A apresentação veio em um momento de auge para o artista. Dias antes do Super Bowl, ele havia conquistado o Grammy de Álbum do Ano, consolidando-se como uma das maiores estrelas globais da música.

O show reforçou esse status. Além da repercussão nas paradas musicais, o artista dominou as redes sociais e se tornou um dos nomes mais comentados do mundo após o evento.

A combinação de prêmios, audiência massiva e exposição global transformou o intervalo do Super Bowl em mais um capítulo de consolidação de sua carreira.

Historicamente, o show do intervalo do Super Bowl sempre funcionou como uma espécie de “termômetro cultural” dos Estados Unidos. Cada escolha de artista reflete tendências, estratégias de mercado e debates sociais.

A apresentação de Bad Bunny se insere nessa tradição, mas também marca uma ruptura. Ao priorizar o espanhol, a estética latina e referências culturais específicas, o espetáculo deixou de ser apenas um show pop universal para se tornar um statement identitário.

Para alguns, foi um símbolo de diversidade e globalização cultural. Para outros, um gesto político em um evento esportivo tradicionalmente associado ao nacionalismo norte-americano.

Independentemente das interpretações, os números e a repercussão indicam que o show cumpriu seu principal papel: dominar a conversa pública.

Se há uma conclusão possível após o Super Bowl LX, é que o show do intervalo deixou de ser apenas entretenimento. Tornou-se um espaço de disputa simbólica, identidade cultural e estratégia global.

Bad Bunny não foi apenas o artista escolhido para animar o intervalo. Ele representou uma mudança de eixo na indústria do entretenimento: o reconhecimento de que a cultura latina não é mais um nicho, mas uma força central no mercado global.

E, ao ocupar o palco mais assistido da televisão norte-americana cantando em espanhol, ele transformou o intervalo em algo maior que um espetáculo.

Transformou-o em manifesto.


A noite em que Copacabana voltará a parar: Shakira, o espetáculo gratuito e a estratégia que transforma o Rio em palco do mundo


Quando a Prefeitura do Rio anunciou que a estrela colombiana Shakira seria a atração principal do projeto “Todo Mundo no Rio” em 2026, a notícia se espalhou com a velocidade de um refrão pop. Não se tratava apenas de mais um show gratuito em Copacabana, mas de um capítulo estratégico de um projeto cultural e econômico que vem redesenhando a relação entre a cidade, o turismo e os grandes espetáculos internacionais. Depois de Madonna em 2024 e Lady Gaga em 2025, agora é a vez da cantora de “Hips Don’t Lie” ocupar o mesmo palco natural: a praia mais famosa do Brasil.

O show está previsto para o dia 2 de maio, com início na noite, e deve reunir uma multidão que pode chegar à casa de milhões de pessoas, repetindo a fórmula que transformou as últimas edições em fenômenos globais de audiência.

O projeto “Todo Mundo no Rio” nasceu com a ambição de consolidar a capital fluminense como sede anual de apresentações gratuitas de escala histórica. A ideia ganhou força após o sucesso da apresentação de Madonna, em maio de 2024, que reuniu cerca de 1,6 milhão de pessoas e gerou aproximadamente R$ 300 milhões para a economia local.

No ano seguinte, Lady Gaga elevou a marca para mais de dois milhões de espectadores e um impacto estimado em R$ 600 milhões, consolidando o evento como um dos maiores espetáculos musicais do planeta.

É nesse contexto que a escolha de Shakira se encaixa. O show da artista colombiana não é apenas uma atração musical, mas parte de um projeto político, econômico e cultural que pretende transformar o calendário da cidade, especialmente durante a chamada “baixa temporada” do turismo.

A presença da cantora no evento também marca um momento específico de sua carreira. Shakira vive um dos períodos comerciais mais fortes de sua trajetória recente. Sua turnê mundial “Las Mujeres Ya No Lloran” reuniu mais de 3,3 milhões de espectadores e arrecadou mais de US$ 421 milhões, tornando-se a mais lucrativa da história entre artistas latinos.

A relação da artista com o Brasil não é nova. Foi no Rio de Janeiro que ela abriu oficialmente essa mesma turnê, em fevereiro de 2025, diante de um estádio lotado.

Essa conexão histórica ajuda a explicar por que o anúncio do show em Copacabana foi recebido com entusiasmo tanto pelos fãs quanto pelo setor turístico. A expectativa é de que a apresentação gratuita funcione como um poderoso atrativo internacional, impulsionando reservas de hotéis e a circulação de visitantes.

Nos bastidores, o projeto é tratado como um dos maiores investimentos de marketing urbano do país. A lógica é simples: transformar um show em um grande cartão-postal global. Imagens aéreas de milhões de pessoas na areia, transmitidas para o mundo, funcionam como propaganda turística instantânea.

Esse modelo já mostrou resultados concretos. O show de Lady Gaga, por exemplo, foi associado a um impacto econômico de centenas de milhões de reais, segundo estimativas das autoridades locais.

O impacto não se resume aos números. Há também uma dimensão simbólica. Copacabana, que já recebeu espetáculos históricos ao longo das décadas, volta a se afirmar como um palco mundial. O projeto da prefeitura pretende repetir o modelo anualmente até pelo menos 2028, institucionalizando a ideia de grandes shows gratuitos como parte do calendário oficial da cidade.

Dentro desse plano, a escolha de Shakira segue uma lógica clara: artistas de alcance global, com repertório conhecido em diferentes gerações e culturas. A cantora colombiana se encaixa nesse perfil com facilidade. Seus sucessos atravessam idiomas, mercados e décadas, indo do pop latino ao mainstream internacional.

Além disso, a artista atravessa uma fase de intensa exposição midiática. Após um período de turbulências pessoais e separação amplamente comentada na imprensa, ela transformou as próprias experiências em material artístico, impulsionando músicas que dominaram rankings e redes sociais.

Esse contexto cria um cenário ideal para um show de forte apelo emocional. A expectativa é de um repertório que misture hits históricos, como “Whenever, Wherever”, “Waka Waka” e “Hips Don’t Lie”, com músicas mais recentes do álbum “Las Mujeres Ya No Lloran”.

A combinação entre nostalgia e atualidade costuma ser a fórmula dos grandes espetáculos em Copacabana. Madonna revisitou sua carreira em um show retrospectivo. Lady Gaga apostou em uma narrativa visual grandiosa. Agora, Shakira deve levar ao palco um espetáculo de dança, coreografias e referências latinas, marca registrada de sua trajetória.

Mas o show não é apenas uma celebração pop. Ele faz parte de uma estratégia de reposicionamento do Rio como destino cultural global. O objetivo é disputar atenção internacional com cidades que sediam grandes eventos, como Nova York, Londres ou Paris.

A lógica é que, ao oferecer espetáculos gratuitos com artistas de primeira linha, a cidade cria uma experiência única, capaz de atrair turistas de diferentes países e movimentar toda a cadeia econômica — de hotéis e restaurantes a transportes e comércio informal.

Essa estratégia também dialoga com a identidade histórica do Rio como palco de grandes aglomerações festivas. O réveillon de Copacabana, o Carnaval de rua e os megaeventos musicais compartilham a mesma imagem: multidões reunidas diante do mar, sob luzes e som.

No caso de Shakira, há ainda um elemento latino-americano que reforça o simbolismo do evento. Diferentemente das duas primeiras atrações do projeto, ambas norte-americanas, a escolha de uma artista colombiana aproxima o espetáculo da cultura regional e do público do continente.

Isso se reflete no próprio histórico da cantora, que sempre manteve forte presença na América Latina, mesmo após alcançar sucesso mundial em inglês. Seu repertório inclui músicas em espanhol, inglês e até português em apresentações especiais, reforçando a conexão com diferentes audiências.

Especialistas do setor turístico avaliam que o impacto do show pode seguir o padrão das edições anteriores, especialmente se a cidade conseguir repetir a marca de milhões de espectadores na praia.

Embora as estimativas de público ainda variem, a expectativa é de que o número ultrapasse facilmente a casa de um milhão de pessoas, com possibilidade de alcançar cifras semelhantes às de Gaga e Madonna.

A mobilização para o evento deve começar semanas antes. Hotéis, companhias aéreas e o comércio local já se preparam para a demanda, enquanto fãs de diferentes partes do Brasil e da América Latina planejam viagens para o feriado.

Para a prefeitura, o desafio será repetir a logística de grandes multidões: segurança, transporte, limpeza e estrutura de som e iluminação para um público que ocupa quilômetros de areia.

Os organizadores apostam no histórico recente para justificar a confiança. O modelo de shows gratuitos de grande escala, testado nos últimos anos, mostrou-se viável e altamente lucrativo para a economia local.

Para o público, porém, o evento tem outro significado. É a chance de assistir a uma artista de alcance global sem pagar ingresso, em um dos cenários mais icônicos do planeta.

Esse tipo de experiência cria uma sensação coletiva difícil de replicar em estádios ou arenas fechadas. A praia transforma o espetáculo em um ritual urbano, onde o público não é apenas plateia, mas parte da própria imagem transmitida ao mundo.

Se as previsões se confirmarem, o show de Shakira em Copacabana não será apenas mais uma apresentação gratuita. Será a consolidação de um projeto que pretende transformar o Rio em capital mundial dos megaespetáculos a céu aberto.

E, como aconteceu nas edições anteriores, a noite deve entrar para a memória coletiva da cidade — aquela em que milhões de pessoas cantaram juntas, com os pés na areia, diante de um palco montado entre o mar e a cidade.

No fim, é esse tipo de imagem que o projeto “Todo Mundo no Rio” pretende eternizar: a música como símbolo de encontro, turismo e espetáculo, transformando um show pop em um acontecimento histórico.

Se tudo sair como planejado, o Rio não apenas receberá Shakira. O Rio, mais uma vez, será o próprio espetáculo.

Mundo em conflito, vozes contidas: a ONU, a guerra na Ucrânia e o silêncio entre as potências

 

Foto: Jimmy Liao

Quando a guerra na Ucrânia entrou em seu quarto ano completo, o mundo já não acompanhava cada ataque com a mesma atenção dos primeiros meses. O conflito, que começou com a invasão em larga escala da Rússia em fevereiro de 2022, deixou de ser uma emergência global constante para se tornar uma guerra crônica, integrada ao cotidiano das manchetes internacionais. Nesse processo, uma instituição criada para evitar conflitos entre nações passou a ser vista por muitos como um observador impotente: a Organização das Nações Unidas.

A ONU, fundada em 1945 com o objetivo de preservar a paz mundial, tem enfrentado um de seus maiores testes desde o fim da Guerra Fria. A guerra na Ucrânia expôs, de forma clara, os limites do sistema internacional baseado em consenso entre grandes potências. No centro dessa paralisia está o Conselho de Segurança, o principal órgão da organização, onde um dos países envolvidos no conflito — a Rússia — possui poder de veto.

O resultado é um paradoxo: a instituição responsável por impedir guerras globais se vê incapaz de tomar decisões efetivas justamente quando uma das maiores guerras europeias do século XXI se arrasta sem solução.

O Conselho de Segurança da ONU foi estruturado após a Segunda Guerra Mundial com cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia (então União Soviética), China, França e Reino Unido. Esses países receberam o poder de veto como forma de garantir que nenhuma decisão internacional fosse tomada contra seus interesses fundamentais.

Durante a Guerra Fria, esse sistema produziu impasses frequentes, mas também evitou confrontos diretos entre superpotências. O problema, no entanto, é que o modelo continua praticamente o mesmo, apesar das transformações políticas, econômicas e militares das últimas décadas.

No caso da Ucrânia, a presença da Rússia como membro permanente impede qualquer resolução mais dura do Conselho de Segurança. Ao longo da guerra, diversas propostas foram bloqueadas, o que levou a ONU a atuar principalmente em frentes humanitárias e diplomáticas, sem capacidade de impor soluções políticas ou militares.

Mesmo quando resoluções conseguem ser aprovadas, elas tendem a ser genéricas. Em fevereiro de 2025, por exemplo, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 2774, considerada a primeira resolução substantiva sobre o conflito, mas criticada por países europeus por não condenar explicitamente a Rússia nem defender com clareza a integridade territorial da Ucrânia.

A dificuldade de adotar medidas mais firmes revela o principal dilema da ONU: ela depende justamente dos países que, em certos momentos, são parte do problema.


Foto: Mathias Reding

A Assembleia Geral e o poder simbólico

Diante da paralisia no Conselho de Segurança, a Assembleia Geral — onde todos os países têm direito a voto — tornou-se o principal espaço de manifestação política sobre a guerra.

Em fevereiro de 2025, a Assembleia aprovou resoluções pedindo uma paz “justa e duradoura” e um caminho diplomático para o fim do conflito. A votação, no entanto, expôs divisões profundas: apenas 93 países votaram a favor, enquanto dezenas se abstiveram ou votaram contra.

Esses números revelam uma realidade incômoda para o Ocidente: o mundo não está totalmente alinhado em relação à guerra. Muitos países da África, Ásia e América Latina adotaram posições neutras, refletindo interesses econômicos, dependência energética ou simplesmente desconfiança em relação à narrativa das potências ocidentais.

Na prática, as resoluções da Assembleia Geral têm peso político e simbólico, mas não são obrigatórias. Elas não impõem sanções, não autorizam intervenções militares e não obrigam as partes a negociar. Funcionam, sobretudo, como termômetro da opinião internacional.

Se a organização encontra dificuldades para influenciar o rumo político da guerra, o mesmo não se pode dizer de sua atuação humanitária. Diversas agências da ONU operam dentro da Ucrânia e em países vizinhos, oferecendo ajuda a milhões de civis afetados pelo conflito.

Segundo dados humanitários das Nações Unidas, milhões de pessoas continuam dependentes de assistência, com o conflito entrando em seu quinto ano e afetando profundamente a infraestrutura e a saúde mental da população.

Em 2025, o trabalho humanitário se tornou ainda mais perigoso. Oito trabalhadores de ajuda morreram, quatro deles em serviço, enquanto dezenas ficaram feridos ou foram sequestrados.

Apesar dessas dificuldades, a ONU continua fornecendo alimentos, abrigo, assistência médica e apoio psicológico. O Alto Comissariado para Refugiados, por exemplo, estimou a necessidade de centenas de milhões de dólares para atender refugiados e deslocados.

Esse esforço, no entanto, ocorre em meio a um cenário de financiamento insuficiente e ataques contínuos a infraestruturas civis.

Além da ajuda humanitária, a ONU também atua na documentação de crimes de guerra. Uma comissão internacional criada pelo Conselho de Direitos Humanos investigou violações cometidas durante o conflito.

Relatórios divulgados em 2025 apontaram que forças russas cometeram crimes de guerra, incluindo ataques indiscriminados contra civis, tortura, execuções, deportações e violência sexual.

A comissão também concluiu que alguns desses atos podem configurar crimes contra a humanidade, devido à natureza sistemática das ações.

Essas investigações têm impacto jurídico e político, mas enfrentam uma limitação fundamental: a ONU não possui um sistema próprio de aplicação de justiça criminal. Para que os responsáveis sejam julgados, é necessário recorrer a tribunais internacionais ou sistemas judiciais nacionais.

Na prática, isso significa que muitas acusações permanecem sem consequências imediatas, alimentando a percepção de impunidade.

Enquanto a guerra se prolonga, a diplomacia internacional tenta encontrar caminhos para um acordo. Nos bastidores, potências como Estados Unidos, China e países europeus buscam alternativas para um cessar-fogo ou negociação de paz.

Em fevereiro de 2026, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia declarou que a China poderia desempenhar um papel importante no fim da guerra, destacando o reconhecimento chinês da integridade territorial ucraniana e a possibilidade de mediação.

Ao mesmo tempo, divergências entre aliados ocidentais indicam que a unidade internacional não é absoluta. Reuniões estratégicas sobre o conflito têm sido marcadas por tensões, ausência de líderes e debates sobre o futuro da ajuda militar.

Esse cenário de negociações fragmentadas contribui para a sensação de silêncio institucional. A ONU, dependente da cooperação entre potências, acaba refletindo o mesmo impasse político que domina o sistema internacional.


A guerra que continua, mesmo quando o mundo olha para outro lado

Apesar da redução da atenção midiática em certos momentos, a guerra continua intensa. Em 2026, ataques russos contra a infraestrutura energética ucraniana voltaram a causar apagões em pleno inverno, levando a ONU a pedir o fim das ofensivas contra civis.

Cerca de 20% do território ucraniano permanece sob controle russo, e as linhas de frente continuam relativamente estáticas, com combates regulares e ataques aéreos.

Especialistas afirmam que o conflito tende a se arrastar por anos, dada a quantidade de variáveis militares, econômicas e políticas envolvidas.

Nesse contexto, a ONU se mantém como uma espécie de guardiã institucional: incapaz de parar a guerra, mas fundamental para evitar uma escalada ainda maior.

A crise ucraniana não é apenas uma guerra regional. Ela expõe as fragilidades do sistema internacional criado após 1945.

Analistas apontam que o futuro da ONU pode ser o de uma instituição de resistência, mantendo o que ainda funciona enquanto aguarda mudanças nas condições políticas globais.

Esse diagnóstico reflete um consenso crescente: a ONU não está necessariamente falhando por incompetência, mas por limitações estruturais.

O sistema de veto, por exemplo, impede ações decisivas quando os interesses de grandes potências estão em jogo. Ao mesmo tempo, reformas profundas parecem improváveis, já que exigiriam o consentimento dos próprios países que se beneficiam do modelo atual.


Entre a relevância e a impotência

A guerra na Ucrânia ilustra a dualidade da ONU no século XXI. De um lado, a organização continua sendo o principal fórum de diálogo entre países, responsável por operações humanitárias gigantescas e investigações de crimes internacionais.

De outro, ela demonstra pouca capacidade de impedir conflitos entre grandes potências.

Essa contradição não é nova, mas se tornou mais visível. A ONU não possui exército próprio, não controla sanções globais de forma automática e depende da vontade política dos Estados.

Em conflitos assimétricos ou regionais, a organização consegue atuar com mais eficácia. Mas em guerras envolvendo potências nucleares, seu papel tende a ser limitado.

O maior perigo, segundo diplomatas e analistas, não é apenas a continuidade da guerra, mas a normalização do conflito.

À medida que a guerra se arrasta, o risco é que ela deixe de ser tratada como uma emergência internacional e passe a ser vista como uma realidade permanente, como aconteceu em conflitos prolongados do Oriente Médio.

Nesse cenário, a ONU corre o risco de se transformar em uma instituição voltada apenas para administrar crises humanitárias, sem capacidade de resolver suas causas.


O futuro da ONU diante da guerra

O conflito na Ucrânia deve continuar sendo um dos principais desafios para a ONU nos próximos anos. O resultado da guerra — seja por negociação, desgaste militar ou mudança política — terá impacto direto na credibilidade da organização.

Se a ONU conseguir participar de um eventual acordo de paz, seu papel poderá ser reforçado. Caso contrário, a percepção de impotência institucional tende a crescer.

Enquanto isso, a organização segue atuando onde pode: ajudando civis, investigando crimes e oferecendo um espaço de diálogo entre países que, fora dali, dificilmente se sentariam à mesma mesa.

A guerra na Ucrânia não é apenas um conflito territorial. Ela é também um teste para o sistema internacional construído após a Segunda Guerra Mundial.

A ONU, criada para impedir guerras globais, se vê diante de um conflito prolongado entre potências, com capacidade limitada de intervenção. O silêncio institucional, muitas vezes interpretado como omissão, é, na verdade, o reflexo de um sistema que depende do consenso entre países que não conseguem concordar.

Em meio a discursos, resoluções e negociações, a guerra continua. Civis seguem sendo atingidos, cidades continuam sob risco e o mapa político europeu permanece em transformação.

A ONU, por sua vez, permanece no centro desse cenário: não como a força capaz de encerrar a guerra, mas como a última estrutura global onde a ideia de paz ainda é discutida, mesmo quando o mundo parece ter se acostumado com o som distante dos combates.

Mobile Logo Settings

Mobile Logo Settings
image

Labels

Ad Space

Responsive Advertisement

Upload Image

Upload Image
"Upload image from computer" > Save > Edit Again > Get URL

Fashion

Labels

Categories

Business

Recent Post

Ticker

6/recent/ticker-posts

Politic

Feature Label Area

Word

#Advertisement


300x250 AD TOP

Whats Hot This Week

Navigation Pages [Footer]

Blogroll


Navigation Pages [Vertical]

Blogger templates

Responsive Advertisement

Blogger news

Follow on FaceBook


Trending video


Popular Posts

Popular Posts

Icone Newsletter

Assine nossa newsletter

e receba conteúdo incrível