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Todas as Sextas, de Paola Carosella: a cozinha como memória, refúgio e linguagem de sobrevivência

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Em todas as sextas, livro de Paola Carosella, a cozinha não aparece como um território de receitas, técnicas ou segredos culinários, mas como o eixo emocional de uma vida marcada por deslocamentos, ausências, descobertas e reinvenções. Desde o prólogo, a autora deixa claro que o livro não nasce da necessidade de ensinar a fazer pratos, mas da vontade de contar uma história que se construiu dentro das cozinhas pelas quais passou. Ela própria afirma que não tem um estilo inovador nem receitas inéditas, e que o que pode oferecer é a narrativa de uma existência costurada pelo ato de cozinhar, onde as receitas fazem sentido apenas como consequência de vivências, afetos e trajetórias pessoais. Essa declaração inicial já define o tom do livro: trata-se menos de um manual gastronômico e mais de um relato íntimo sobre pertencimento, identidade e memória, onde a comida funciona como linguagem emocional.

A narrativa começa com a afirmação de uma identidade simples e direta: a de cozinheira. Paola descreve a cozinha como refúgio, abrigo e proteção, um lugar onde sempre se sentiu segura, acolhida e pertencente, independentemente do país ou das circunstâncias. Essa ideia percorre toda a obra: a cozinha não é apenas o espaço físico onde se preparam alimentos, mas o único território constante em uma vida marcada por instabilidades familiares, dificuldades financeiras e mudanças de rumo.

A infância da autora é construída a partir das figuras femininas de sua família, sobretudo as avós, que representam duas formas diferentes de relação com o trabalho, o silêncio e a comida. De um lado, a avó María, dura, silenciosa, quase sempre em pé, trabalhando sem parar, sem tempo para sentar à mesa, sempre cuidando dos homens da família. De outro, a avó Mimina, que aparece como símbolo de uma cozinha cheia de vida, horta, animais, aromas e conversas. A casa de Mimina é descrita como um espaço amplo, verdadeiro e natural, onde tudo brota da terra e tudo gira em torno da mesa central, lugar de trabalho, aprendizado e convivência.

A infância de Paola se divide entre a solidão do apartamento pequeno onde vive com a mãe e o calor dessa casa rural, onde a comida é parte do cotidiano e não uma atividade extraordinária. A história familiar também é marcada por ausências e fragilidades. O pai, descrito como um homem bonito, sensível e doente, é uma figura distante, internada diversas vezes em instituições psiquiátricas. A mãe, por sua vez, trabalha em dois empregos e estuda à noite, deixando a filha sozinha durante longos períodos. Esse cenário de silêncio e espera se torna um dos pontos mais marcantes da narrativa.

A menina chega da escola e passa horas sozinha, aguardando a mãe voltar. É nesse contexto que a televisão e os programas culinários passam a preencher o vazio. Ela assiste a programas de receitas, anota tudo em cadernos e, mesmo sem ter os ingredientes, improvisa pratos, falando sozinha como se estivesse apresentando um programa de cozinha. A cozinha, nesse momento, surge como companhia, como forma de construir uma vida imaginária, como estratégia de sobrevivência emocional.

O gesto de arrumar a mesa para duas pessoas, mesmo estando sozinha, com flores colhidas na rua e cardápios desenhados à mão, revela a dimensão simbólica da comida na vida da autora: cozinhar é criar presença onde há ausência, é inventar companhia onde há silêncio. Essa solidão também revela um traço importante de sua personalidade: a capacidade de transformar o medo e a ansiedade em ação.

Enquanto espera a mãe, ela limpa a casa, arruma a cama, organiza a cozinha, faz promessas silenciosas para que nada aconteça com ela. A comida e a organização do espaço se tornam rituais de controle diante do caos emocional.

A adolescência marca a transição para o mundo exterior. Paola se descreve como uma jovem punk, rebelde, distante do modelo de estudante exemplar. Ao abandonar a escola e começar a trabalhar como secretária, ela ainda não sabe exatamente o que quer fazer, mas o destino a empurra para a cozinha. Quando o chefe do escritório decide contratar um cozinheiro para preparar almoços, ela se oferece para o trabalho, mesmo sem experiência profissional. Esse episódio funciona como o primeiro ponto de virada da narrativa.

O que antes era apenas uma forma de lidar com a solidão passa a se tornar uma profissão. A partir desse momento, a cozinha deixa de ser apenas refúgio e se transforma em projeto de vida. O relato desse período é marcado por improvisação, esforço e entusiasmo. Ela trabalha como secretária durante o dia e, à noite, cozinha em casa para os almoços do escritório, carregando caixas de comida no ônibus, montando cardápios pretensiosos e preparando tudo em uma cozinha minúscula.

Há uma ingenuidade e uma paixão evidentes nesse momento: ela faz arranjos de flores, prepara canapés extras, cria nomes sofisticados para os pratos, tudo como se estivesse encenando um sonho. Esse período representa a descoberta do prazer de cozinhar para outras pessoas, de oferecer hospitalidade, de transformar a comida em linguagem de afeto.

O encontro com chefs profissionais marca a entrada definitiva no mundo da gastronomia. Primeiro, com Bernard, que a introduz em restaurantes sofisticados e a apresenta à disciplina e ao rigor das cozinhas profissionais. Depois, com Alfonso, em uma cozinha formada apenas por mulheres, onde o trabalho é duro e repetitivo, mas também acolhedor. Nesse momento, a autora descreve a cozinha como um lugar que acolhe pessoas perdidas, solitárias ou carentes.

O calor, o esforço físico e a repetição das tarefas funcionam como uma espécie de abrigo emocional. O trabalho é exaustivo, mas também sedutor, porque oferece um sentido claro, uma função, uma identidade.

O período no restaurante La Créole, sob a orientação do chef Paul Azema, representa um momento de descoberta intelectual e estética. O restaurante é descrito como um espaço caótico, boêmio e criativo, frequentado por artistas, músicos e figuras excêntricas. A cozinha é pequena, improvisada, cheia de temperos e frascos sem nome, mas também cheia de curiosidade e experimentação.

Paul surge como um mestre excêntrico, que ensina não apenas técnicas culinárias, mas também curiosidade, leitura, música e pensamento crítico. A brincadeira com o Larousse Gastronomique, em que o chef faz perguntas e a aprendiz precisa estudar para respondê-las, mostra a cozinha como espaço de aprendizado intelectual, não apenas técnico.

Esse período é descrito como uma escola de vida, onde as conversas se estendem madrugada adentro, sem respostas imediatas, em uma época sem internet, em que as dúvidas geravam discussões longas e férteis.

O fechamento do restaurante marca outra mudança de rumo. A mãe, sempre presente como figura de apoio, incentiva a filha a ir para Paris, para trabalhar nos grandes restaurantes. A viagem para a França representa um choque cultural e profissional. Lá, Paola descobre a disciplina rigorosa das cozinhas estreladas, o machismo estrutural, a hierarquia rígida e as divisões sociais dentro da profissão.

O trabalho é duro, silencioso e muitas vezes humilhante, mas também libertador. Ela vive sozinha pela primeira vez, caminha pelas ruas de Paris à noite, experimenta comidas de diferentes culturas e descobre a própria liberdade. A experiência francesa marca a compreensão de que o mundo é maior do que imaginava e de que a profissão de cozinheira exige disciplina, técnica e resistência.

De volta a Buenos Aires, a autora passa por diferentes experiências profissionais, trabalhando em cozinhas improvisadas para músicos internacionais e, depois, em bistrôs franceses, onde enfrenta chefs arrogantes, cozinhas apertadas e jornadas intensas. A descrição das rotinas de cozinha nesse período revela um dos temas centrais do livro: a beleza da repetição.

Para Paola, a cozinha é uma dança silenciosa, uma coreografia precisa, em que cada gesto tem seu tempo e sua função. A tensão do serviço, a organização das bancadas, a sincronia entre os cozinheiros e o momento em que os pratos saem para o salão são descritos como um espetáculo, uma peça de teatro. A cozinha aparece, assim, como um espaço de disciplina, concentração e beleza, onde o silêncio e o ritmo substituem o caos do mundo exterior.

Ao longo de toda a narrativa, a comida nunca aparece isolada da vida. Cada prato, cada receita e cada técnica estão ligados a pessoas, lugares e memórias. A cozinha da avó, o apartamento silencioso, os restaurantes boêmios, as cozinhas estreladas de Paris e os bistrôs de Buenos Aires formam uma espécie de mapa emocional da autora.

O título “Todas as sextas” remete a um ritual de encontros e refeições, mas também a uma ideia de continuidade: a repetição dos gestos, dos sabores e das memórias que constroem a identidade de alguém. O livro, portanto, não é apenas a história de uma cozinheira que se torna chef. É a história de uma mulher que encontra na cozinha um idioma para falar de amor, perda, solidão, liberdade e pertencimento.

A comida surge como ferramenta de construção de vínculos, de sobrevivência emocional e de criação de sentido. Cada cozinha em que ela entra representa uma nova família, uma nova forma de existir no mundo. O que se constrói ao longo da narrativa é a ideia de que cozinhar é um ato profundamente humano, uma forma de cuidado, de comunicação e de resistência.

No fim, a trajetória de Paola não é apresentada como uma escalada de sucesso profissional, mas como um percurso afetivo, feito de encontros, despedidas, mestres, fracassos e descobertas. A cozinha é o fio condutor que une todas essas experiências, o lugar onde a autora encontra abrigo e identidade.

Mais do que um livro de receitas, Todas as sextas se revela como um livro sobre memória, pertencimento e transformação, em que cada prato carrega a história de quem o preparou e de quem o compartilhou. Se a autora diz, no início, que não tinha receitas novas para ensinar, o livro prova que a verdadeira novidade está na forma como ela conta a própria vida: como uma sequência de cozinhas, aromas e mesas que, juntas, constroem a história de uma mulher que encontrou no ato de cozinhar a sua maneira de existir no mundo.

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