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Marty Supreme: a biografia de um sonho obsessivo que transforma talento em campo de batalha

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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“Marty Supreme”, dirigido por Josh Safdie, se apresenta, desde os primeiros minutos, como uma biografia que não pretende suavizar o seu protagonista nem transformá-lo em herói tradicional. O filme acompanha Marty Mauser, um jovem movido por um sonho que ninguém respeita, alguém que atravessa sucessivas quedas e humilhações na busca por grandeza, num percurso descrito como uma verdadeira ida “ao inferno e de volta” em nome da ambição. A narrativa se organiza de forma linear, acompanhando o personagem desde sua origem modesta até os momentos de maior exposição e pressão, construindo um retrato de obsessão que se confunde com a própria identidade do protagonista. O filme, embora estruturado como uma biografia esportiva, subverte o formato clássico ao tratar o esporte — o tênis de mesa — menos como cenário de superação e mais como arena psicológica, onde cada vitória cobra um preço emocional e cada derrota revela o abismo entre a imagem pública e a fragilidade privada. Desde o início, a construção de Marty é marcada por um sentimento de inadequação. Ele é apresentado como alguém que sonha alto em um ambiente que não reconhece o valor de suas aspirações, um jovem que precisa justificar constantemente o próprio desejo de grandeza. Esse primeiro movimento da narrativa estabelece o conflito central: não se trata apenas de vencer partidas, mas de convencer o mundo — e a si mesmo — de que seu sonho merece existir. A trajetória inicial é moldada por pequenos torneios, treinamentos exaustivos e tentativas frustradas de reconhecimento. O filme evita a romantização desse processo. Não há uma sequência tradicional de “montagem de treinamento” que leve diretamente ao sucesso; em vez disso, a câmera acompanha o desgaste físico, o cansaço e as escolhas moralmente duvidosas que surgem no caminho. É nesse ponto que o personagem começa a revelar a sua face mais incômoda: a ambição tóxica. O conflito moral é o motor dramático da primeira metade do filme. Marty não é apenas um jovem esforçado; ele é alguém disposto a ultrapassar limites éticos para alcançar o topo. Suas relações pessoais começam a sofrer com isso. Amigos e aliados se tornam peças em um tabuleiro estratégico, enquanto a vida emocional do personagem passa a girar exclusivamente em torno do desempenho competitivo. A narrativa deixa claro que a ambição não é apenas um traço de personalidade, mas uma força corrosiva que consome tudo ao redor.

O segundo ato se constrói a partir da ascensão. Marty começa a ganhar visibilidade, vitórias importantes e reconhecimento. O que poderia ser o momento de triunfo, no entanto, é tratado pelo filme como o início de uma nova forma de pressão. A cada vitória, a expectativa aumenta, e o personagem passa a viver sob o peso de uma imagem pública que precisa ser mantida a qualquer custo. A construção dramática nesse trecho lembra uma odisséia instável, marcada por reviravoltas e movimentos rápidos, como uma partida de tênis de mesa em ritmo acelerado. O esporte funciona como metáfora da própria vida de Marty: um jogo veloz, imprevisível e cheio de mudanças bruscas de direção. O protagonista não tem tempo para respirar. A cada ponto, a cada competição, a tensão aumenta. O sucesso não traz paz; traz mais exigências. É nesse trecho que o filme aprofunda o retrato psicológico do personagem. Marty começa a perceber que a grandeza que buscava não vem acompanhada da satisfação que imaginava. O reconhecimento externo não preenche o vazio interno. A ambição, que antes era combustível, passa a ser um fardo. O público, que antes o ignorava, agora o observa com expectativa e julgamento constante. A pressão se intensifica, e a narrativa assume um tom cada vez mais nervoso, característico do estilo dos Safdie, conhecido por construir histórias como espirais de ansiedade. As decisões de Marty se tornam mais impulsivas, e suas relações pessoais se deterioram. Ele se distancia de pessoas que tentam ajudá-lo, enquanto se aproxima de figuras que reforçam sua obsessão pelo sucesso. O filme evita transformá-lo em vítima. Ao contrário, deixa claro que muitas de suas quedas são resultado direto de suas escolhas. Essa abordagem reforça a ideia central da obra: a ambição pode ser tão destrutiva quanto libertadora.

O terceiro ato funciona como o mergulho final no conflito interno do protagonista. O auge da carreira coincide com o ponto de maior desgaste psicológico. O filme constrói a ideia de que a grandeza, para Marty, não é um destino, mas um estado de tensão permanente. O personagem passa a enfrentar não apenas adversários, mas o peso das próprias expectativas. O sonho que o impulsionava se transforma em prisão. A narrativa se encaminha para as competições decisivas, onde o esporte deixa de ser apenas uma atividade e se torna a síntese de toda a trajetória do personagem. Cada partida carrega o peso de anos de sacrifício, escolhas erradas e relações destruídas. O filme enfatiza o caráter ambíguo do protagonista: alguém admirável e desagradável ao mesmo tempo, carismático e egoísta, determinado e autodestrutivo. O clímax não é tratado como uma vitória simples. Em vez de oferecer uma resolução limpa, o filme sugere que a grandeza alcançada por Marty tem um custo alto demais. O triunfo esportivo não apaga as cicatrizes emocionais nem restaura as relações perdidas. A narrativa, ao final, parece menos interessada em celebrar o sucesso do protagonista e mais em questionar o preço que ele pagou por ele. O epílogo funciona como uma reflexão silenciosa sobre o sentido da ambição. Marty finalmente atinge o reconhecimento que sempre buscou, mas a sensação não é de plenitude. O filme encerra a jornada com uma nota ambígua, sugerindo que o sucesso, quando conquistado a qualquer custo, pode se tornar uma forma de derrota pessoal. O retrato final do personagem é o de alguém que conseguiu tudo o que queria, mas não sabe mais o que fazer com isso. A estrutura linear da narrativa reforça essa leitura: ao acompanhar o personagem desde o início até o auge, o filme permite perceber a transformação gradual da ambição em obsessão, e da obsessão em isolamento. “Marty Supreme” se distancia, assim, da biografia esportiva tradicional. Em vez de celebrar a superação, examina o lado sombrio do sucesso e transforma o esporte em metáfora para o desejo humano de reconhecimento e pertencimento. No fim, a trajetória de Marty não é apenas sobre vencer partidas, mas sobre a tentativa desesperada de provar que sua existência tem valor — e o preço que se paga quando essa prova se torna a única razão para viver.

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