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A noite em que Copacabana voltará a parar: Shakira, o espetáculo gratuito e a estratégia que transforma o Rio em palco do mundo

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Quando a Prefeitura do Rio anunciou que a estrela colombiana Shakira seria a atração principal do projeto “Todo Mundo no Rio” em 2026, a notícia se espalhou com a velocidade de um refrão pop. Não se tratava apenas de mais um show gratuito em Copacabana, mas de um capítulo estratégico de um projeto cultural e econômico que vem redesenhando a relação entre a cidade, o turismo e os grandes espetáculos internacionais. Depois de Madonna em 2024 e Lady Gaga em 2025, agora é a vez da cantora de “Hips Don’t Lie” ocupar o mesmo palco natural: a praia mais famosa do Brasil.

O show está previsto para o dia 2 de maio, com início na noite, e deve reunir uma multidão que pode chegar à casa de milhões de pessoas, repetindo a fórmula que transformou as últimas edições em fenômenos globais de audiência.

O projeto “Todo Mundo no Rio” nasceu com a ambição de consolidar a capital fluminense como sede anual de apresentações gratuitas de escala histórica. A ideia ganhou força após o sucesso da apresentação de Madonna, em maio de 2024, que reuniu cerca de 1,6 milhão de pessoas e gerou aproximadamente R$ 300 milhões para a economia local.

No ano seguinte, Lady Gaga elevou a marca para mais de dois milhões de espectadores e um impacto estimado em R$ 600 milhões, consolidando o evento como um dos maiores espetáculos musicais do planeta.

É nesse contexto que a escolha de Shakira se encaixa. O show da artista colombiana não é apenas uma atração musical, mas parte de um projeto político, econômico e cultural que pretende transformar o calendário da cidade, especialmente durante a chamada “baixa temporada” do turismo.

A presença da cantora no evento também marca um momento específico de sua carreira. Shakira vive um dos períodos comerciais mais fortes de sua trajetória recente. Sua turnê mundial “Las Mujeres Ya No Lloran” reuniu mais de 3,3 milhões de espectadores e arrecadou mais de US$ 421 milhões, tornando-se a mais lucrativa da história entre artistas latinos.

A relação da artista com o Brasil não é nova. Foi no Rio de Janeiro que ela abriu oficialmente essa mesma turnê, em fevereiro de 2025, diante de um estádio lotado.

Essa conexão histórica ajuda a explicar por que o anúncio do show em Copacabana foi recebido com entusiasmo tanto pelos fãs quanto pelo setor turístico. A expectativa é de que a apresentação gratuita funcione como um poderoso atrativo internacional, impulsionando reservas de hotéis e a circulação de visitantes.

Nos bastidores, o projeto é tratado como um dos maiores investimentos de marketing urbano do país. A lógica é simples: transformar um show em um grande cartão-postal global. Imagens aéreas de milhões de pessoas na areia, transmitidas para o mundo, funcionam como propaganda turística instantânea.

Esse modelo já mostrou resultados concretos. O show de Lady Gaga, por exemplo, foi associado a um impacto econômico de centenas de milhões de reais, segundo estimativas das autoridades locais.

O impacto não se resume aos números. Há também uma dimensão simbólica. Copacabana, que já recebeu espetáculos históricos ao longo das décadas, volta a se afirmar como um palco mundial. O projeto da prefeitura pretende repetir o modelo anualmente até pelo menos 2028, institucionalizando a ideia de grandes shows gratuitos como parte do calendário oficial da cidade.

Dentro desse plano, a escolha de Shakira segue uma lógica clara: artistas de alcance global, com repertório conhecido em diferentes gerações e culturas. A cantora colombiana se encaixa nesse perfil com facilidade. Seus sucessos atravessam idiomas, mercados e décadas, indo do pop latino ao mainstream internacional.

Além disso, a artista atravessa uma fase de intensa exposição midiática. Após um período de turbulências pessoais e separação amplamente comentada na imprensa, ela transformou as próprias experiências em material artístico, impulsionando músicas que dominaram rankings e redes sociais.

Esse contexto cria um cenário ideal para um show de forte apelo emocional. A expectativa é de um repertório que misture hits históricos, como “Whenever, Wherever”, “Waka Waka” e “Hips Don’t Lie”, com músicas mais recentes do álbum “Las Mujeres Ya No Lloran”.

A combinação entre nostalgia e atualidade costuma ser a fórmula dos grandes espetáculos em Copacabana. Madonna revisitou sua carreira em um show retrospectivo. Lady Gaga apostou em uma narrativa visual grandiosa. Agora, Shakira deve levar ao palco um espetáculo de dança, coreografias e referências latinas, marca registrada de sua trajetória.

Mas o show não é apenas uma celebração pop. Ele faz parte de uma estratégia de reposicionamento do Rio como destino cultural global. O objetivo é disputar atenção internacional com cidades que sediam grandes eventos, como Nova York, Londres ou Paris.

A lógica é que, ao oferecer espetáculos gratuitos com artistas de primeira linha, a cidade cria uma experiência única, capaz de atrair turistas de diferentes países e movimentar toda a cadeia econômica — de hotéis e restaurantes a transportes e comércio informal.

Essa estratégia também dialoga com a identidade histórica do Rio como palco de grandes aglomerações festivas. O réveillon de Copacabana, o Carnaval de rua e os megaeventos musicais compartilham a mesma imagem: multidões reunidas diante do mar, sob luzes e som.

No caso de Shakira, há ainda um elemento latino-americano que reforça o simbolismo do evento. Diferentemente das duas primeiras atrações do projeto, ambas norte-americanas, a escolha de uma artista colombiana aproxima o espetáculo da cultura regional e do público do continente.

Isso se reflete no próprio histórico da cantora, que sempre manteve forte presença na América Latina, mesmo após alcançar sucesso mundial em inglês. Seu repertório inclui músicas em espanhol, inglês e até português em apresentações especiais, reforçando a conexão com diferentes audiências.

Especialistas do setor turístico avaliam que o impacto do show pode seguir o padrão das edições anteriores, especialmente se a cidade conseguir repetir a marca de milhões de espectadores na praia.

Embora as estimativas de público ainda variem, a expectativa é de que o número ultrapasse facilmente a casa de um milhão de pessoas, com possibilidade de alcançar cifras semelhantes às de Gaga e Madonna.

A mobilização para o evento deve começar semanas antes. Hotéis, companhias aéreas e o comércio local já se preparam para a demanda, enquanto fãs de diferentes partes do Brasil e da América Latina planejam viagens para o feriado.

Para a prefeitura, o desafio será repetir a logística de grandes multidões: segurança, transporte, limpeza e estrutura de som e iluminação para um público que ocupa quilômetros de areia.

Os organizadores apostam no histórico recente para justificar a confiança. O modelo de shows gratuitos de grande escala, testado nos últimos anos, mostrou-se viável e altamente lucrativo para a economia local.

Para o público, porém, o evento tem outro significado. É a chance de assistir a uma artista de alcance global sem pagar ingresso, em um dos cenários mais icônicos do planeta.

Esse tipo de experiência cria uma sensação coletiva difícil de replicar em estádios ou arenas fechadas. A praia transforma o espetáculo em um ritual urbano, onde o público não é apenas plateia, mas parte da própria imagem transmitida ao mundo.

Se as previsões se confirmarem, o show de Shakira em Copacabana não será apenas mais uma apresentação gratuita. Será a consolidação de um projeto que pretende transformar o Rio em capital mundial dos megaespetáculos a céu aberto.

E, como aconteceu nas edições anteriores, a noite deve entrar para a memória coletiva da cidade — aquela em que milhões de pessoas cantaram juntas, com os pés na areia, diante de um palco montado entre o mar e a cidade.

No fim, é esse tipo de imagem que o projeto “Todo Mundo no Rio” pretende eternizar: a música como símbolo de encontro, turismo e espetáculo, transformando um show pop em um acontecimento histórico.

Se tudo sair como planejado, o Rio não apenas receberá Shakira. O Rio, mais uma vez, será o próprio espetáculo.

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