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O intervalo que virou manifesto: como Bad Bunny transformou o Super Bowl em um espetáculo latino e político

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Foto: Mike Blake/Reuters

O Super Bowl sempre foi muito mais do que uma final de futebol americano. É um ritual cultural, um show de marketing global e, acima de tudo, um palco simbólico para artistas que atingiram o auge da indústria musical. Em 2026, porém, o espetáculo do intervalo ganhou um significado diferente. Quando Bad Bunny subiu ao palco do Super Bowl LX, em Santa Clara, na Califórnia, não entregou apenas uma sequência de hits. Ele transformou os cerca de 13 minutos de apresentação em um gesto cultural, político e histórico para a música latina.

O artista porto-riquenho, um dos nomes mais ouvidos do planeta, protagonizou um dos shows de intervalo mais comentados dos últimos anos. Vestido de branco, com uma camisa estampando o sobrenome “Ocasio”, Bad Bunny levou ao palco não apenas coreografias e batidas urbanas, mas uma narrativa carregada de referências pessoais e culturais.

A peça usada durante o show era, segundo o próprio artista, uma homenagem ao tio que o introduziu ao futebol americano ainda na infância. O número na camisa remetia ao ano de nascimento do familiar, transformando um detalhe estético em memória afetiva.

Mas o impacto da apresentação foi muito além da roupa ou do repertório.

Bad Bunny se tornou o primeiro artista a comandar um show de intervalo do Super Bowl predominantemente em espanhol, uma escolha que gerou aplausos, debates e críticas em igual intensidade.

O gesto não foi casual. Em um dos momentos mais comentados da apresentação, o cantor disse “God bless America” e, em seguida, começou a citar países de todo o continente. A frase, que em inglês costuma se referir apenas aos Estados Unidos, ganhou um novo significado ao incluir toda a América Latina, numa declaração simbólica de pertencimento continental.

Para muitos espectadores latino-americanos, o momento foi recebido como um gesto de inclusão cultural e reconhecimento. Em cidades como San Juan, em Porto Rico, o show chegou a ser tratado como o verdadeiro centro da noite, ofuscando o próprio jogo.

Essa abordagem marcou uma mudança importante no perfil do espetáculo. Historicamente, o show do intervalo sempre privilegiou artistas de língua inglesa e repertório alinhado ao mainstream norte-americano. Ao ocupar o palco com músicas em espanhol e estética latina, Bad Bunny não apenas performou: ele redefiniu o tom do evento.

Audiência massiva e impacto global

Foto: Mike Blake/Reuters

Os números confirmam o peso do momento. A apresentação alcançou cerca de 128 milhões de telespectadores nos Estados Unidos, superando a média do próprio jogo e ficando próxima de recordes históricos do evento.

Em picos de audiência, a performance chegou a números ainda maiores, consolidando-se como um dos shows de intervalo mais assistidos da história recente.

O impacto se refletiu imediatamente fora do estádio. Após a apresentação, músicas do artista subiram nas paradas internacionais, e o álbum mais recente voltou a ganhar força comercial. No Reino Unido, por exemplo, ele conquistou seus primeiros hits solo no Top 10, impulsionados pela exposição do Super Bowl.

O efeito também se estendeu ao turismo. Pesquisas por viagens para Porto Rico cresceram mais de 200% após o show, evidenciando o poder de exposição global do evento.

Esses números ajudam a explicar por que artistas aceitam se apresentar no intervalo do Super Bowl sem cachê direto. O retorno vem na forma de visibilidade mundial e aumento de consumo de músicas, turnês e produtos associados.

Um espetáculo cercado de debates

Foto: Mike Blake/Reuters

Se o impacto cultural foi imediato, a repercussão política não demorou a surgir. O show gerou críticas de figuras conservadoras e debates sobre o uso do espanhol no evento, além de questionamentos sobre o conteúdo e a mensagem da apresentação.

Alguns comentaristas chegaram a classificar o espetáculo como “político” ou “divisivo”, enquanto outros defenderam o direito do artista de representar sua cultura em um palco global.

O contraste de opiniões revelou uma tensão cultural presente nos Estados Unidos contemporâneos: a disputa simbólica por identidade, linguagem e representatividade em espaços de grande visibilidade.

Ao mesmo tempo, analistas apontaram que a escolha de Bad Bunny fazia parte de uma estratégia clara da NFL: ampliar a conexão com o público latino e fortalecer a presença internacional da liga.

Com o esporte se expandindo para novos mercados, a escolha de um dos artistas mais populares do mundo em países de língua espanhola foi vista como um movimento estratégico e calculado.

O espetáculo também chamou atenção pela estética. Elementos visuais ligados à cultura porto-riquenha, referências à história do país e figurinos simbólicos foram incorporados ao show, criando uma narrativa visual que ia além do entretenimento puro.

O resultado foi descrito por críticos como uma apresentação “histórica” e “revolucionária”, justamente por levar ao palco do evento mais assistido dos Estados Unidos uma identidade cultural muitas vezes marginalizada.

Para parte do público latino, o show representou um marco semelhante ao “boom latino” dos anos 1990, mas com uma diferença fundamental: desta vez, o artista não precisou adaptar sua linguagem para o mercado anglófono.

Bad Bunny não cruzou a fronteira cultural. Ele levou sua cultura ao centro do palco.

A apresentação veio em um momento de auge para o artista. Dias antes do Super Bowl, ele havia conquistado o Grammy de Álbum do Ano, consolidando-se como uma das maiores estrelas globais da música.

O show reforçou esse status. Além da repercussão nas paradas musicais, o artista dominou as redes sociais e se tornou um dos nomes mais comentados do mundo após o evento.

A combinação de prêmios, audiência massiva e exposição global transformou o intervalo do Super Bowl em mais um capítulo de consolidação de sua carreira.

Historicamente, o show do intervalo do Super Bowl sempre funcionou como uma espécie de “termômetro cultural” dos Estados Unidos. Cada escolha de artista reflete tendências, estratégias de mercado e debates sociais.

A apresentação de Bad Bunny se insere nessa tradição, mas também marca uma ruptura. Ao priorizar o espanhol, a estética latina e referências culturais específicas, o espetáculo deixou de ser apenas um show pop universal para se tornar um statement identitário.

Para alguns, foi um símbolo de diversidade e globalização cultural. Para outros, um gesto político em um evento esportivo tradicionalmente associado ao nacionalismo norte-americano.

Independentemente das interpretações, os números e a repercussão indicam que o show cumpriu seu principal papel: dominar a conversa pública.

Se há uma conclusão possível após o Super Bowl LX, é que o show do intervalo deixou de ser apenas entretenimento. Tornou-se um espaço de disputa simbólica, identidade cultural e estratégia global.

Bad Bunny não foi apenas o artista escolhido para animar o intervalo. Ele representou uma mudança de eixo na indústria do entretenimento: o reconhecimento de que a cultura latina não é mais um nicho, mas uma força central no mercado global.

E, ao ocupar o palco mais assistido da televisão norte-americana cantando em espanhol, ele transformou o intervalo em algo maior que um espetáculo.

Transformou-o em manifesto.


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