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Não existe neutralidade nas redes sociais — e fingir que existe só favorece quem já tem poder

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Foto:Tracy Le Blanc

Há alguns anos, tornou-se comum ouvir que as redes sociais são apenas “plataformas neutras”, espaços onde as pessoas se expressam livremente e os conteúdos circulam conforme o interesse do público. A ideia é confortável, simples e, principalmente, conveniente para quem controla essas plataformas. Mas, depois de acompanhar de perto como debates são manipulados, como discursos são amplificados ou silenciados, eu já não consigo aceitar essa narrativa. A neutralidade digital, para mim, é um mito — e um mito perigoso.

Não cheguei a essa conclusão por teoria conspiratória ou paranoia ideológica. Cheguei observando o cotidiano. Uma postagem crítica some do alcance. Um tema sério é soterrado por memes. Um discurso agressivo viraliza sem esforço. Enquanto isso, conteúdos densos, investigativos ou que exigem reflexão parecem falar com um vazio. A explicação oficial costuma ser a mesma: “é o algoritmo”.

Mas o algoritmo não é uma entidade natural, como a gravidade. Ele é criado por pessoas, com objetivos claros. E, na maioria das vezes, esses objetivos não têm nada a ver com o interesse público. O objetivo é tempo de tela. É retenção. É lucro.

Isso significa que as redes não amplificam o que é mais verdadeiro, mais útil ou mais importante. Elas amplificam o que gera reação. O que irrita, o que divide, o que choca. A lógica é simples: quanto mais emoção, mais engajamento. Quanto mais engajamento, mais anúncios. Quanto mais anúncios, mais dinheiro.

Nesse cenário, a ideia de neutralidade se desfaz. Porque escolher o que será impulsionado e o que será invisibilizado já é, por si só, uma decisão política. Mesmo que a empresa não se declare de esquerda ou de direita, a lógica que ela impõe molda o debate público.

E é aqui que a questão se torna sensível.

Quando uma plataforma decide priorizar conteúdos curtos, agressivos e polarizados, ela não está apenas alterando a forma como consumimos informação. Ela está moldando o próprio tecido social. Ela está incentivando uma sociedade mais impaciente, mais ansiosa, mais raivosa.

Eu vejo isso nas conversas cotidianas. As pessoas não debatem mais ideias; elas repetem slogans. Não há nuance, não há dúvida, não há espaço para o “talvez”. Tudo precisa ser absoluto, definitivo, indignado. É como se o algoritmo tivesse transformado a complexidade humana em uma disputa de torcida organizada.

E o mais inquietante é que ninguém parece assumir responsabilidade por isso.

As plataformas dizem que apenas refletem o comportamento das pessoas. Os usuários dizem que apenas respondem ao que aparece no feed. Os criadores dizem que precisam se adaptar para sobreviver. No fim, todos se sentem vítimas de um sistema que ninguém controla — mesmo sendo um sistema criado por empresas específicas, com nomes, CEOs e metas de lucro.

A neutralidade, nesse contexto, funciona como uma espécie de escudo moral. Se a plataforma é neutra, ela não é responsável pelo que acontece dentro dela. Se o algoritmo é neutro, não há intenção por trás da amplificação de certos conteúdos. Tudo vira um processo automático, inevitável, quase natural.

Mas não é.

Escolher o que aparece primeiro na tela de bilhões de pessoas é um ato de poder. E poder sem responsabilidade nunca termina bem.

Quando penso nisso, não consigo evitar uma comparação com a televisão do século passado. Durante décadas, discutiu-se o papel das emissoras na formação da opinião pública. Falava-se em concessões públicas, responsabilidade social, limites éticos. Ninguém dizia que a TV era neutra. Pelo contrário: sempre se soube que a programação influenciava comportamentos, valores e visões de mundo.

Com as redes sociais, parece que decidimos esquecer essa lição. Aceitamos a ideia de que são apenas ferramentas. Como se um martelo fosse comparável a uma máquina capaz de moldar o pensamento de bilhões de pessoas ao mesmo tempo.

O problema é que essa crença na neutralidade não apenas desresponsabiliza as plataformas. Ela também desarma o público. Se acreditamos que tudo é natural, orgânico e inevitável, deixamos de questionar as regras do jogo.

E as regras, hoje, são desenhadas para manter as pessoas presas à tela, não para torná-las mais informadas ou mais críticas.

Isso não significa que as redes sociais sejam apenas vilãs. Eu mesmo uso essas plataformas todos os dias. Elas democratizaram vozes, abriram espaço para autores independentes, artistas, jornalistas e criadores que jamais teriam espaço na mídia tradicional. Há potência, há beleza e há transformação ali.

Mas é justamente por isso que o debate precisa ser honesto.

Não dá mais para fingir que o ambiente digital é neutro quando sabemos que ele privilegia certos discursos, certos formatos e certos comportamentos. Não dá para tratar o algoritmo como se fosse uma força da natureza, quando ele é, na verdade, uma decisão corporativa.

A questão central, para mim, não é censura nem liberdade irrestrita. É transparência.

Quem decide o que aparece no meu feed?
Com base em quais critérios?
Por que certos temas somem enquanto outros dominam a tela?
Quem ganha com isso?

Essas perguntas são desconfortáveis, porque revelam que a arena digital não é tão livre quanto parece. Ela tem donos, regras e interesses.

E talvez o maior perigo seja exatamente esse: a sensação de liberdade dentro de um sistema invisível de controle.

Quando tudo parece espontâneo, ninguém questiona. Quando ninguém questiona, o poder se consolida em silêncio.

Eu não acredito em soluções simples para esse problema. Regular demais pode sufocar a inovação. Regular de menos pode sufocar a democracia. Mas acredito que o primeiro passo é abandonar a fantasia da neutralidade.

As redes sociais não são neutras. Nunca foram. E quanto antes aceitarmos isso, mais cedo poderemos discutir o que realmente importa: que tipo de espaço público digital queremos construir.

Porque, no fim das contas, o algoritmo não é apenas uma linha de código. Ele é uma escolha sobre o tipo de sociedade que estamos ajudando a criar.

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