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| Foto: Jimmy Liao |
Quando a guerra na Ucrânia entrou em seu quarto ano completo, o mundo já não acompanhava cada ataque com a mesma atenção dos primeiros meses. O conflito, que começou com a invasão em larga escala da Rússia em fevereiro de 2022, deixou de ser uma emergência global constante para se tornar uma guerra crônica, integrada ao cotidiano das manchetes internacionais. Nesse processo, uma instituição criada para evitar conflitos entre nações passou a ser vista por muitos como um observador impotente: a Organização das Nações Unidas.
A ONU, fundada em 1945 com o objetivo de preservar a paz mundial, tem enfrentado um de seus maiores testes desde o fim da Guerra Fria. A guerra na Ucrânia expôs, de forma clara, os limites do sistema internacional baseado em consenso entre grandes potências. No centro dessa paralisia está o Conselho de Segurança, o principal órgão da organização, onde um dos países envolvidos no conflito — a Rússia — possui poder de veto.
O resultado é um paradoxo: a instituição responsável por impedir guerras globais se vê incapaz de tomar decisões efetivas justamente quando uma das maiores guerras europeias do século XXI se arrasta sem solução.
O Conselho de Segurança da ONU foi estruturado após a Segunda Guerra Mundial com cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia (então União Soviética), China, França e Reino Unido. Esses países receberam o poder de veto como forma de garantir que nenhuma decisão internacional fosse tomada contra seus interesses fundamentais.
Durante a Guerra Fria, esse sistema produziu impasses frequentes, mas também evitou confrontos diretos entre superpotências. O problema, no entanto, é que o modelo continua praticamente o mesmo, apesar das transformações políticas, econômicas e militares das últimas décadas.
No caso da Ucrânia, a presença da Rússia como membro permanente impede qualquer resolução mais dura do Conselho de Segurança. Ao longo da guerra, diversas propostas foram bloqueadas, o que levou a ONU a atuar principalmente em frentes humanitárias e diplomáticas, sem capacidade de impor soluções políticas ou militares.
Mesmo quando resoluções conseguem ser aprovadas, elas tendem a ser genéricas. Em fevereiro de 2025, por exemplo, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 2774, considerada a primeira resolução substantiva sobre o conflito, mas criticada por países europeus por não condenar explicitamente a Rússia nem defender com clareza a integridade territorial da Ucrânia.
A dificuldade de adotar medidas mais firmes revela o principal dilema da ONU: ela depende justamente dos países que, em certos momentos, são parte do problema.
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| Foto: Mathias Reding |
A Assembleia Geral e o poder simbólico
Diante da paralisia no Conselho de Segurança, a Assembleia Geral — onde todos os países têm direito a voto — tornou-se o principal espaço de manifestação política sobre a guerra.
Em fevereiro de 2025, a Assembleia aprovou resoluções pedindo uma paz “justa e duradoura” e um caminho diplomático para o fim do conflito. A votação, no entanto, expôs divisões profundas: apenas 93 países votaram a favor, enquanto dezenas se abstiveram ou votaram contra.
Esses números revelam uma realidade incômoda para o Ocidente: o mundo não está totalmente alinhado em relação à guerra. Muitos países da África, Ásia e América Latina adotaram posições neutras, refletindo interesses econômicos, dependência energética ou simplesmente desconfiança em relação à narrativa das potências ocidentais.
Na prática, as resoluções da Assembleia Geral têm peso político e simbólico, mas não são obrigatórias. Elas não impõem sanções, não autorizam intervenções militares e não obrigam as partes a negociar. Funcionam, sobretudo, como termômetro da opinião internacional.
Se a organização encontra dificuldades para influenciar o rumo político da guerra, o mesmo não se pode dizer de sua atuação humanitária. Diversas agências da ONU operam dentro da Ucrânia e em países vizinhos, oferecendo ajuda a milhões de civis afetados pelo conflito.
Segundo dados humanitários das Nações Unidas, milhões de pessoas continuam dependentes de assistência, com o conflito entrando em seu quinto ano e afetando profundamente a infraestrutura e a saúde mental da população.
Em 2025, o trabalho humanitário se tornou ainda mais perigoso. Oito trabalhadores de ajuda morreram, quatro deles em serviço, enquanto dezenas ficaram feridos ou foram sequestrados.
Apesar dessas dificuldades, a ONU continua fornecendo alimentos, abrigo, assistência médica e apoio psicológico. O Alto Comissariado para Refugiados, por exemplo, estimou a necessidade de centenas de milhões de dólares para atender refugiados e deslocados.
Esse esforço, no entanto, ocorre em meio a um cenário de financiamento insuficiente e ataques contínuos a infraestruturas civis.
Além da ajuda humanitária, a ONU também atua na documentação de crimes de guerra. Uma comissão internacional criada pelo Conselho de Direitos Humanos investigou violações cometidas durante o conflito.
Relatórios divulgados em 2025 apontaram que forças russas cometeram crimes de guerra, incluindo ataques indiscriminados contra civis, tortura, execuções, deportações e violência sexual.
A comissão também concluiu que alguns desses atos podem configurar crimes contra a humanidade, devido à natureza sistemática das ações.
Essas investigações têm impacto jurídico e político, mas enfrentam uma limitação fundamental: a ONU não possui um sistema próprio de aplicação de justiça criminal. Para que os responsáveis sejam julgados, é necessário recorrer a tribunais internacionais ou sistemas judiciais nacionais.
Na prática, isso significa que muitas acusações permanecem sem consequências imediatas, alimentando a percepção de impunidade.
Enquanto a guerra se prolonga, a diplomacia internacional tenta encontrar caminhos para um acordo. Nos bastidores, potências como Estados Unidos, China e países europeus buscam alternativas para um cessar-fogo ou negociação de paz.
Em fevereiro de 2026, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia declarou que a China poderia desempenhar um papel importante no fim da guerra, destacando o reconhecimento chinês da integridade territorial ucraniana e a possibilidade de mediação.
Ao mesmo tempo, divergências entre aliados ocidentais indicam que a unidade internacional não é absoluta. Reuniões estratégicas sobre o conflito têm sido marcadas por tensões, ausência de líderes e debates sobre o futuro da ajuda militar.
Esse cenário de negociações fragmentadas contribui para a sensação de silêncio institucional. A ONU, dependente da cooperação entre potências, acaba refletindo o mesmo impasse político que domina o sistema internacional.
A guerra que continua, mesmo quando o mundo olha para outro lado
Apesar da redução da atenção midiática em certos momentos, a guerra continua intensa. Em 2026, ataques russos contra a infraestrutura energética ucraniana voltaram a causar apagões em pleno inverno, levando a ONU a pedir o fim das ofensivas contra civis.
Cerca de 20% do território ucraniano permanece sob controle russo, e as linhas de frente continuam relativamente estáticas, com combates regulares e ataques aéreos.
Especialistas afirmam que o conflito tende a se arrastar por anos, dada a quantidade de variáveis militares, econômicas e políticas envolvidas.
Nesse contexto, a ONU se mantém como uma espécie de guardiã institucional: incapaz de parar a guerra, mas fundamental para evitar uma escalada ainda maior.
A crise ucraniana não é apenas uma guerra regional. Ela expõe as fragilidades do sistema internacional criado após 1945.
Analistas apontam que o futuro da ONU pode ser o de uma instituição de resistência, mantendo o que ainda funciona enquanto aguarda mudanças nas condições políticas globais.
Esse diagnóstico reflete um consenso crescente: a ONU não está necessariamente falhando por incompetência, mas por limitações estruturais.
O sistema de veto, por exemplo, impede ações decisivas quando os interesses de grandes potências estão em jogo. Ao mesmo tempo, reformas profundas parecem improváveis, já que exigiriam o consentimento dos próprios países que se beneficiam do modelo atual.
Entre a relevância e a impotência
A guerra na Ucrânia ilustra a dualidade da ONU no século XXI. De um lado, a organização continua sendo o principal fórum de diálogo entre países, responsável por operações humanitárias gigantescas e investigações de crimes internacionais.
De outro, ela demonstra pouca capacidade de impedir conflitos entre grandes potências.
Essa contradição não é nova, mas se tornou mais visível. A ONU não possui exército próprio, não controla sanções globais de forma automática e depende da vontade política dos Estados.
Em conflitos assimétricos ou regionais, a organização consegue atuar com mais eficácia. Mas em guerras envolvendo potências nucleares, seu papel tende a ser limitado.
O maior perigo, segundo diplomatas e analistas, não é apenas a continuidade da guerra, mas a normalização do conflito.
À medida que a guerra se arrasta, o risco é que ela deixe de ser tratada como uma emergência internacional e passe a ser vista como uma realidade permanente, como aconteceu em conflitos prolongados do Oriente Médio.
Nesse cenário, a ONU corre o risco de se transformar em uma instituição voltada apenas para administrar crises humanitárias, sem capacidade de resolver suas causas.
O futuro da ONU diante da guerra
O conflito na Ucrânia deve continuar sendo um dos principais desafios para a ONU nos próximos anos. O resultado da guerra — seja por negociação, desgaste militar ou mudança política — terá impacto direto na credibilidade da organização.
Se a ONU conseguir participar de um eventual acordo de paz, seu papel poderá ser reforçado. Caso contrário, a percepção de impotência institucional tende a crescer.
Enquanto isso, a organização segue atuando onde pode: ajudando civis, investigando crimes e oferecendo um espaço de diálogo entre países que, fora dali, dificilmente se sentariam à mesma mesa.
A guerra na Ucrânia não é apenas um conflito territorial. Ela é também um teste para o sistema internacional construído após a Segunda Guerra Mundial.
A ONU, criada para impedir guerras globais, se vê diante de um conflito prolongado entre potências, com capacidade limitada de intervenção. O silêncio institucional, muitas vezes interpretado como omissão, é, na verdade, o reflexo de um sistema que depende do consenso entre países que não conseguem concordar.
Em meio a discursos, resoluções e negociações, a guerra continua. Civis seguem sendo atingidos, cidades continuam sob risco e o mapa político europeu permanece em transformação.
A ONU, por sua vez, permanece no centro desse cenário: não como a força capaz de encerrar a guerra, mas como a última estrutura global onde a ideia de paz ainda é discutida, mesmo quando o mundo parece ter se acostumado com o som distante dos combates.

