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Apagando o Lampião: a investigação histórica que revela a queda do maior mito do cangaço brasileiro

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Apagando o Lampião: a investigação histórica que revela a queda do maior mito do cangaço brasileiro


A obra Apagando o Lampião: vida e morte do Rei do Cangaço, do historiador Frederico Pernambucano de Mello, é uma das pesquisas mais detalhadas já realizadas sobre o fenômeno do cangaço e, especialmente, sobre o episódio que culminou na morte de Virgulino Ferreira da Silva, o célebre Lampião. Mais do que uma simples biografia, o livro se apresenta como uma investigação histórica profunda que combina depoimentos, análise documental, memória oral e perícia científica para compreender um dos acontecimentos mais emblemáticos da história do Nordeste.

Desde as primeiras páginas, o autor contextualiza a dimensão mítica que Lampião assumiu ainda em vida. O cangaceiro, que durante décadas dominou vastas áreas do Nordeste por meio da violência e da astúcia estratégica, havia ultrapassado a condição de criminoso para tornar-se personagem de cantorias, jornais e narrativas populares. Como observa o historiador, já na década de 1930 sua figura era maior do que o próprio fato criminal:

“Depois de dominar pelo terror porções relevantes de sete estados da Federação, Lampião estava mais para mito do que para personagem de crônica policial.” (p. 5) 

Essa transformação simbólica explica por que sua morte, ocorrida em 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, ultrapassou o âmbito policial e assumiu dimensão histórica. O episódio representou, segundo o autor, uma espécie de marco simbólico do fim do ciclo do cangaço e da consolidação do poder estatal no sertão nordestino.

A narrativa demonstra como a cultura popular ajudou a perpetuar a figura do cangaceiro. A literatura de cordel, as cantorias e a memória oral do sertão transformaram Lampião em uma espécie de herói trágico, mesmo entre aqueles que sofreram com suas ações. Um exemplo dessa construção simbólica aparece na cantoria reproduzida pelo autor sobre sua morte:

“De muitos anos atrás / Que o nosso sertão sofria / De uma fera bravia… / Com vinte anos de luta, / Apagaram o Lampião.” (p. 6) 

Essa fusão entre realidade e mito é um dos pontos centrais da obra. Frederico Pernambucano de Mello demonstra que o cangaço não pode ser compreendido apenas como banditismo, mas como fenômeno social ligado às condições históricas do sertão — desigualdade, coronelismo, ausência do Estado e cultura da violência.

Ao longo do livro, o autor também desmonta simplificações comuns sobre o tema. Ele argumenta que o cangaço se organizou de forma complexa, quase empresarial, sobretudo sob o comando de Lampião. O líder do bando mantinha subgrupos espalhados pelo Nordeste e estabelecia redes de proteção política e logística, o que explica sua longa sobrevivência frente às forças policiais.

“Ao morrer, em 1938, Lampião supervisionava dez subgrupos de cangaço espalhados pela caatinga… mobilizando capitais altíssimos por meio do assalto direto e da extorsão.” (p. 26) 

Outro aspecto fundamental da obra é o método historiográfico adotado pelo autor. Mello recorre a entrevistas com ex-cangaceiros, policiais, moradores da região e testemunhas indiretas do episódio de Angico. O cruzamento dessas fontes é apresentado como um recurso indispensável para separar memória, exagero e fato histórico.

“Não recebemos os depoimentos de testemunhas como dogma… submetemos cada prova ao crivo do cruzamento de fontes.” (p. 18) 

Esse rigor metodológico se reflete na tentativa de esclarecer um dos debates mais controversos da história do cangaço: quem realmente matou Lampião. A investigação conduzida pelo autor inclui análise balística e reconstituição dos acontecimentos na Grota do Angico, sugerindo hipóteses plausíveis sobre a autoria do disparo fatal.

Mais do que reconstruir um evento histórico, o livro também analisa o significado cultural do cangaço. O autor demonstra que o sertão preservou durante séculos uma ética própria, marcada pela valorização da coragem, da vingança privada e da honra armada. Nesse contexto, o cangaceiro podia ser simultaneamente criminoso e figura admirada.

“A sociedade do interior abonava o cangaço de forma platônica… com as populações indo ao extremo de torcer pela vitória dos grupos.” (p. 30) 

Com escrita envolvente e pesquisa extensa, Apagando o Lampião consolida-se como uma das obras mais importantes sobre o tema. Frederico Pernambucucano de Mello consegue equilibrar narrativa histórica e análise sociológica, mostrando que o fenômeno do cangaço não pode ser reduzido a mero banditismo. Ele foi, antes de tudo, resultado de um contexto histórico complexo e profundamente enraizado na formação social do Nordeste.

Ao final da leitura, fica claro que Lampião permanece como um dos personagens mais paradoxais da história brasileira: ao mesmo tempo símbolo de violência, mito popular e reflexo das tensões sociais do sertão. A obra, portanto, não apenas investiga a morte do “Rei do Cangaço”, mas ilumina todo um universo cultural que marcou profundamente a identidade nordestina.

Aspectos do Folclore Brasileiro: a obra de Mário de Andrade que revela a alma cultural do Brasil


A obra Aspectos do folclore brasileiro, de Mário de Andrade, é um dos textos fundamentais para compreender a formação cultural do Brasil. Escrita a partir de pesquisas, conferências e reflexões produzidas ao longo de décadas, a obra examina o folclore não apenas como curiosidade popular, mas como campo científico capaz de revelar estruturas sociais, raciais e culturais profundas do país.

Publicada postumamente como parte das Obras Completas do autor, a obra reúne ensaios e anotações que investigam a tradição oral, a cultura popular, as manifestações afro-brasileiras e o papel da pesquisa etnográfica. O livro também denuncia problemas metodológicos e intelectuais que marcaram os primeiros estudos sobre o folclore no Brasil.


Um manifesto contra o amadorismo no estudo do folclore

Logo no início do ensaio “O folclore no Brasil”, Mário de Andrade faz uma crítica contundente à falta de rigor científico nos estudos da cultura popular. Segundo ele, o folclore brasileiro era frequentemente tratado como entretenimento ou curiosidade literária, e não como objeto sério de investigação.

Ele afirma:

“A situação dos estudos do Folclore no Brasil ainda não é boa.” (p. 19) 

O autor identifica três grandes obstáculos ao desenvolvimento do campo:

  1. a indiferença institucional;

  2. a ausência de financiamento cultural;

  3. o predomínio do amadorismo.

Em tom irônico e crítico, ele observa que, no Brasil, muitos artistas e cantores se autodenominavam folcloristas apenas por reinterpretarem canções populares:

“É geral entre os cantores improvisados de rádio, disco e mesmo concerto, se intitularem ‘folcloristas’ só porque usam e abusam da canção popular.” (p. 20) 

Essa crítica revela o projeto intelectual de Mário de Andrade: transformar o folclore em disciplina científica, com métodos rigorosos de coleta, registro e análise.

Outro aspecto central da obra é a análise da cultura popular como reflexo das tensões sociais do país. Mário de Andrade observa que muitas interpretações do folclore eram distorcidas porque buscavam apenas elementos esteticamente agradáveis.

Segundo ele:

“O folclore no Brasil ainda não é verdadeiramente concebido como um processo de conhecimento.” (p. 22) 

Para o autor, essa abordagem seletiva criava uma visão romantizada do povo brasileiro. Ao privilegiar apenas cantigas engraçadas ou curiosidades pitorescas, os pesquisadores ignoravam aspectos fundamentais da vida social e cultural.

O resultado, segundo o autor, era uma compreensão superficial da cultura popular.


A crítica à manipulação dos documentos folclóricos

Um dos trechos mais marcantes do livro é a denúncia de práticas pouco rigorosas na coleta de material folclórico. Mário de Andrade critica diretamente o escritor Afrânio Peixoto por incluir versos inventados em uma coletânea de trovas populares.

Ele relata:

“Das mil quadrinhas recolhidas nas Trovas populares, duzentas e cinquenta eram falsas, inventadas pelo próprio antologista.” (p. 20) 

Para o autor, esse tipo de prática compromete o valor científico do material coletado e evidencia a necessidade de métodos rigorosos na pesquisa etnográfica.

Essa discussão revela a preocupação metodológica que permeia toda a obra.


O papel das instituições e das pesquisas de campo

Mário de Andrade também destaca a importância da institucionalização do estudo do folclore no Brasil. Ele celebra iniciativas como o Departamento de Cultura de São Paulo e a criação da Sociedade de Etnografia e Folclore, que buscavam formar pesquisadores especializados.

O autor defende que o estudo da cultura popular precisa ir além do gabinete e envolver trabalho de campo sistemático.

Nesse contexto, ele afirma que os estudos deveriam entrar numa fase monográfica, baseada em pesquisas específicas e aprofundadas sobre manifestações culturais particulares.

Um dos grandes méritos da obra é reconhecer o papel da diversidade cultural na formação do Brasil. Mário de Andrade enfatiza a contribuição de diferentes grupos — indígenas, africanos e europeus — para a construção do imaginário popular brasileiro.

Ele observa que muitos elementos da cultura nacional surgem da interação entre essas tradições, como mitos, cantigas, danças e práticas religiosas.

Essa perspectiva multicultural foi extremamente inovadora para a época e antecipa debates que hoje são centrais nas ciências sociais.

Aspectos do folclore brasileiro é um livro essencial para compreender tanto o pensamento de Mário de Andrade quanto a evolução dos estudos culturais no Brasil.

A obra combina:

  • crítica intelectual contundente

  • erudição histórica

  • reflexão metodológica

  • compromisso com a cultura popular

Mais do que registrar tradições, Mário de Andrade propõe uma nova forma de olhar o Brasil. Para ele, o folclore não é apenas um conjunto de curiosidades pitorescas, mas uma chave interpretativa da identidade nacional.

Ao transformar o folclore em objeto de investigação científica e crítica cultural, Mário de Andrade inaugura uma nova etapa nos estudos brasileiros. Sua obra revela que as manifestações populares — cantigas, lendas, costumes e rituais — são documentos fundamentais da história social do país.

Aspectos do folclore brasileiro permanece, assim, como uma leitura indispensável para quem deseja compreender as raízes culturais do Brasil e a complexidade da formação de sua identidade.

Homo Modernus: Como Denise Ferreira da Silva desmonta a ideia moderna de raça e revela a engrenagem invisível do poder global


Publicado originalmente no início dos anos 2000 e relançado em português pela editora Cobogó, Homo Modernus — Para uma ideia global de raça, da filósofa brasileira Denise Ferreira da Silva, é uma obra densa e profundamente provocadora. Mais do que discutir racismo como fenômeno social ou histórico, o livro se propõe a investigar algo ainda mais radical: a própria estrutura do pensamento moderno que tornou possível a existência do conceito de raça.

A autora parte de uma hipótese contundente: o racial não é um desvio da modernidade, mas um de seus fundamentos constitutivos. Em outras palavras, a modernidade ocidental — sustentada por ciência, filosofia e história — produziu o sujeito moderno ao mesmo tempo em que produziu seus “outros”, aqueles que seriam considerados exteriormente determinados, inferiores ou incapazes de autodeterminação.

Logo nas primeiras páginas, Denise Ferreira da Silva deixa claro o escopo de sua investigação. O livro busca compreender “o papel produtivo que o racial cumpre no cenário pós-iluminista” e demonstrar como as ferramentas da ciência e da história contribuíram para criar uma estrutura global de subjugação racial.

Segundo a autora, o pensamento moderno construiu o ideal do sujeito autodeterminado — racional, livre e universal — como centro da ética e da política. Porém, esse sujeito só poderia existir ao produzir simultaneamente aqueles que estariam fora desse ideal. Assim, a modernidade criou uma divisão fundamental entre o sujeito e seus “outros”.

Essa lógica aparece de forma explícita quando a autora explica como as ciências humanas do século XIX passaram a utilizar a diferença racial como elemento constitutivo do próprio conceito de humanidade. Nesse processo, emergiu um enunciado central da subjugação racial: a ideia de que certos grupos humanos seriam autodeterminados, enquanto outros seriam determinados pelas condições externas ou naturais.

Esse mecanismo não foi apenas teórico. Ele sustentou sistemas políticos, jurídicos e econômicos que estruturaram o mundo moderno. Ao analisar esse processo, a autora mostra como o racial tornou-se uma ferramenta epistemológica capaz de justificar a dominação colonial, a exploração econômica e a exclusão social.

Um dos pontos mais interessantes da obra é a crítica que Denise Ferreira da Silva dirige às explicações tradicionais do racismo. Para ela, abordagens sociológicas que tratam o racismo apenas como exclusão social ou cultural são insuficientes. Essas análises, embora críticas, ainda reproduzem o mesmo quadro conceitual da modernidade que produziu o racial.

A autora afirma que o problema está justamente na forma como a modernidade concebe o humano. As categorias de universalidade e historicidade — fundamentais para o pensamento moderno — são também as ferramentas que permitiram a criação de hierarquias raciais.

Por isso, o livro propõe uma crítica radical da representação moderna. O objetivo não é apenas denunciar o racismo, mas compreender como a própria estrutura do conhecimento moderno continua reproduzindo desigualdades globais.

A análise ganha ainda mais força quando a autora conecta o racial à configuração contemporânea do mundo. Para ela, mesmo após o declínio das teorias raciais explícitas do século XIX, os efeitos dessa lógica permanecem profundamente enraizados nas estruturas globais.

Como observa Denise Ferreira da Silva, o racial continua a operar porque está ligado à própria ontologia moderna — à maneira como a modernidade definiu o que significa ser humano.

Nesse sentido, Homo Modernus também é um livro sobre o presente. Ao examinar fenômenos como desigualdade global, violência racial e políticas de identidade, a autora demonstra que as categorias criadas pela modernidade continuam organizando a realidade contemporânea.

A força do livro reside justamente nessa abordagem interdisciplinar. Denise Ferreira da Silva transita entre filosofia, sociologia, teoria crítica e estudos pós-coloniais para construir um argumento complexo e rigoroso. O texto dialoga com pensadores como Foucault, Hegel, Nietzsche e Stuart Hall, ao mesmo tempo em que desenvolve conceitos próprios, como a chamada “analítica da racialidade”.

Apesar de sua densidade teórica, Homo Modernus oferece uma contribuição essencial para debates contemporâneos sobre raça, colonialismo e globalização. Ao deslocar o problema do racismo do campo moral para o campo ontológico e epistemológico, o livro amplia radicalmente o horizonte da crítica.

Mais do que denunciar injustiças históricas, Denise Ferreira da Silva convida o leitor a questionar os próprios fundamentos do mundo moderno. A pergunta que ecoa ao longo da obra é simples e perturbadora: se a modernidade produziu o sujeito moderno ao criar seus “outros”, seria possível imaginar um mundo além dessa lógica?

Homo Modernus — Para uma ideia global de raça é, portanto, uma obra fundamental para quem deseja compreender não apenas o racismo, mas as bases filosóficas e científicas que moldaram a modernidade e continuam estruturando o mundo contemporâneo.

Poder Global e Religião Universal: a denúncia de uma nova ordem cultural contra o cristianismo


A obra Poder Global e Religião Universal, do sacerdote e pesquisador argentino Juan Cláudio Sanahuja, é um ensaio contundente sobre aquilo que o autor considera ser um processo global de transformação cultural e moral. Publicado no Brasil em 2012, o livro se insere no campo das análises críticas do globalismo, propondo que instituições internacionais, organismos multilaterais e movimentos ideológicos estariam articulando uma profunda “reengenharia social” destinada a redefinir valores tradicionais — sobretudo aqueles enraizados na ética judaico-cristã. 

Desde as primeiras páginas, Sanahuja estabelece o tom da obra: trata-se menos de uma narrativa acadêmica neutra e mais de uma denúncia ideológica e espiritual. Segundo ele, a cultura contemporânea estaria sendo moldada por um projeto político e cultural que busca consolidar um “poder global”, acompanhado pela construção de uma religião universal relativista e sincrética.

“Estamos em tempos de perseguição […] e a fidelidade a Jesus Cristo nos exige defender, promover, ensinar, transmitir as verdades imutáveis — os princípios inegociáveis.” (p. 8) 

A tese central do livro afirma que esse projeto global não opera apenas por meio de políticas públicas ou acordos internacionais, mas sobretudo através de mudanças culturais profundas. O autor argumenta que conceitos como direitos humanos, família, saúde e liberdade religiosa estariam sendo reinterpretados em escala internacional, especialmente dentro de organismos como a ONU.

Nesse contexto, Sanahuja sugere que novas agendas culturais — incluindo debates sobre sexualidade, aborto, ideologia de gênero e políticas populacionais — seriam parte de um movimento mais amplo de transformação ética. Para ele, a estratégia central seria uma mudança gradual de linguagem e significado.

“Mudar o significado e o conteúdo das palavras é uma estratégia para que a reengenharia social seja aceita por todos, sem protestar.” (p. 11) 

Um dos pontos mais recorrentes da obra é a crítica ao relativismo moral. Sanahuja sustenta que a cultura contemporânea estaria substituindo princípios morais considerados universais por uma ética baseada no consenso político e na utilidade social. Em sua análise, esse processo criaria uma nova ordem cultural marcada pelo sincretismo religioso, pela ética planetária e pelo ecologismo espiritualizado, elementos que ele entende como componentes de uma nova religiosidade global.

O autor também dedica parte significativa do livro à análise das próprias tensões internas da Igreja Católica. Segundo ele, uma parcela do cristianismo teria cedido às pressões culturais do mundo moderno, adotando posições que diluiriam a doutrina tradicional.

“A crise da Igreja é grave […] o cataclismo social que afeta o respeito à vida humana e à família tem essa triste situação como causa.” (p. 22) 

Apesar do tom crítico e, por vezes, alarmista, Poder Global e Religião Universal não se limita à denúncia. Nos capítulos finais, Sanahuja propõe uma resposta que passa pelo fortalecimento da identidade cristã, pelo testemunho público da fé e pela resistência cultural ao que ele identifica como imposições ideológicas.

Assim, o livro termina assumindo um caráter quase pastoral, convocando os leitores a uma postura ativa diante das transformações contemporâneas.

“Num mundo onde a mentira é poderosa, paga-se a verdade com sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento mantém longe a própria vida e sua grandeza.” (p. 24) 

No conjunto, Poder Global e Religião Universal é uma obra polêmica e fortemente posicionada. Sua leitura interessa especialmente a quem deseja compreender uma vertente do pensamento católico contemporâneo que interpreta a globalização cultural como um campo de disputa espiritual e moral.

Independentemente de concordar ou não com suas conclusões, o livro oferece um panorama revelador sobre como setores religiosos percebem as mudanças sociais do século XXI — e sobre a tensão crescente entre tradição, modernidade e poder global.

Uma teoria do poder global: a tese provocadora de José Luís Fiori sobre guerras, poder e a origem do capitalismo



A obra Uma teoria do poder global (2024), do cientista político brasileiro José Luís Fiori, apresenta uma interpretação ambiciosa da história do capitalismo e da política internacional. Publicado pela Editora Vozes, o livro reúne mais de quatro décadas de pesquisa do autor e propõe uma tese central: o poder político — e não o mercado — é o verdadeiro motor da formação do sistema mundial moderno.

A partir de ensaios escritos ao longo de sua trajetória acadêmica, Fiori constrói uma narrativa que conecta guerras, formação de Estados, economia e hegemonia internacional. O resultado é uma obra densa, provocativa e profundamente interdisciplinar, que dialoga com história, economia política e geopolítica.

Logo na apresentação, o autor explica o eixo de sua investigação:

“Esta obra reúne vários artigos e ensaios que fazem parte de uma longa pesquisa histórica e de uma reflexão teórica […] a respeito da dinâmica expansiva do ‘poder global’.” (p. 34) 

Essa reflexão parte de um princípio radical: o poder tende sempre a se expandir, criando estruturas hierárquicas e conflitos constantes entre Estados.

A teoria central: o poder como força expansiva

O argumento mais original do livro está na formulação de uma teoria segundo a qual o poder funciona como um fluxo permanente de expansão e competição. Para Fiori, não existe equilíbrio duradouro no sistema internacional, pois cada unidade política busca ampliar continuamente sua própria capacidade de dominação.

O autor resume essa ideia de maneira quase axiológica:

“O poder é movimento, é fluxo permanente, muito mais do que um estoque de equipamentos […] o poder só existe enquanto é exercido e acumulado.” (p. 43) 

Essa visão aproxima a política internacional de uma lógica dinâmica e conflitiva, em que hegemonias surgem, se expandem e eventualmente entram em crise. Assim, a história global não seria uma trajetória linear rumo à cooperação, mas um sistema permanente de competição entre Estados.

Guerra, riqueza e nascimento do capitalismo

Um dos pontos mais controversos da obra é a inversão de uma ideia clássica da economia política. Para pensadores como Adam Smith ou Karl Marx, a acumulação de riqueza está associada ao desenvolvimento das trocas e da produção. Fiori, porém, sugere que o poder precede o excedente econômico.

Segundo ele:

“A verdadeira origem do ‘excedente’ foi o poder dos soberanos e sua capacidade de definir e cobrar tributos.” (p. 45) 

Essa hipótese implica uma releitura da origem do capitalismo. Em vez de surgir apenas do comércio ou da inovação produtiva, a riqueza teria sido impulsionada pela conquista territorial, pela tributação e pela guerra.

O historiador Charles Tilly é citado como referência para reforçar essa perspectiva histórica:

“Foi a guerra que teceu a rede europeia de Estados nacionais.” (p. 44) 

Assim, guerras, impostos, moeda e dívida pública aparecem como pilares da formação do sistema capitalista moderno.

Hegemonia global e a ascensão dos Estados Unidos

Outra parte relevante da obra analisa a formação do poder global dos Estados Unidos. Fiori discute episódios decisivos da política internacional — como a Guerra do Vietnã, a crise do sistema Bretton Woods e a Guerra do Golfo — para mostrar como Washington consolidou sua posição hegemônica.

Sobre o impacto dessas transformações na década de 1970, o autor escreve:

“Entre 1970 e 1973, foi como se tudo tivesse vindo abaixo […] muitos analistas anunciaram o fim da supremacia mundial norte-americana.” (p. 35) 

Contudo, segundo sua interpretação, os Estados Unidos reagiram redefinindo sua estratégia econômica e geopolítica, consolidando um poder militar e financeiro sem precedentes.

Essa leitura desafia teses recorrentes sobre o “declínio inevitável” da hegemonia americana e sugere que o sistema internacional funciona como um campo de expansão permanente de poder, em que novos polos emergem sem necessariamente substituir totalmente os anteriores.

Uma teoria do poder global é uma obra de grande ambição intelectual. Seu principal mérito está na tentativa de integrar economia, história e geopolítica em uma única estrutura teórica. Ao colocar o poder — e não o mercado — no centro da análise, Fiori oferece uma interpretação que dialoga tanto com a tradição realista das relações internacionais quanto com a economia política crítica.

Por outro lado, essa amplitude também é um dos desafios do livro. A densidade conceitual e o grande número de referências históricas exigem do leitor familiaridade prévia com debates acadêmicos complexos.

Ainda assim, o livro se destaca por propor uma pergunta fundamental para compreender o mundo contemporâneo: o que realmente move a história — o comércio ou a disputa pelo poder?

Ao responder que a política e a guerra são forças estruturantes do capitalismo global, Fiori provoca o leitor a reconsiderar muitos dos pressupostos da teoria econômica tradicional.

Uma teoria do poder global é uma obra essencial para quem deseja compreender as engrenagens profundas da política internacional. Com uma tese ousada e um vasto aparato histórico, José Luís Fiori propõe uma interpretação inquietante do mundo moderno: o capitalismo não nasceu apenas do mercado, mas da expansão incessante do poder.

“Vanessa Halen: Tudo o que Não Quis, Mas Já É” — Mistério, memória e desejo em um romance sobre identidades que insistem em emergir


O romance “Vanessa Halen: Tudo o que não quis, mas já é”, de Patricia Tischler, apresenta uma narrativa híbrida que mistura romance psicológico, investigação familiar e drama existencial. A obra acompanha a jornalista investigativa Vanessa de Melo Halen, que retorna a São Paulo após a morte da tia-avó Leila — a única figura afetiva estável de sua vida. O que começa como um simples processo de organizar um apartamento herdado se transforma em uma jornada de descoberta sobre o passado, o amor clandestino e os limites entre identidade e memória.

Logo no prólogo, a protagonista estabelece o tom ácido e irônico que permeia a narrativa. Ao chegar em São Paulo, ela descreve a cidade com uma mistura de irritação e pertencimento:

“Vivo pensando que existem tantos lugares melhores para ir, mas sempre acabo voltando. A cidade faz parte de mim na composição dos meus ossos.” (p. 4)

Essa frase resume um dos grandes temas do livro: a impossibilidade de escapar completamente das próprias origens.


Uma narradora marcada pelo deslocamento

Vanessa é uma personagem complexa e profundamente marcada por experiências de abandono e deslocamento. Filha de uma mãe ausente e criada em grande parte fora do Brasil, ela construiu uma carreira de sucesso no jornalismo investigativo. No entanto, sua identidade parece sempre fragmentada entre países, relações e versões de si mesma.

O retorno ao apartamento da tia Leila funciona como gatilho narrativo e psicológico. Ao reorganizar os objetos da casa, Vanessa não apenas revisita memórias da infância, mas começa a suspeitar que a morte da tia pode não ter sido tão simples quanto parecia.

Essa inquietação aparece logo no início da obra:

“Mas eles não sabem de algumas coisas que eu sei… Apesar de seus 86 anos, ela estava em perfeita forma física. (…) Um infarto fulminante não me soa correto.” (p. 5)

Aqui a autora insere discretamente um elemento de suspense investigativo, que atravessa o romance sem transformá-lo em thriller tradicional.


Amor, acaso e tensão emocional

Um dos eixos centrais da narrativa é o encontro inesperado entre Vanessa e Eric Clapton Guimarães e Souza — funcionário público e aspirante a artista. O encontro acontece de forma quase banal, na fila de um órgão público, mas rapidamente ganha uma dimensão emocional intensa.

O diálogo entre os dois revela a habilidade de Patricia Tischler para criar conversas naturais, irônicas e carregadas de subtexto. Um exemplo marcante ocorre quando Eric comenta sobre a postura reservada de Vanessa:

“Eu nunca tive muito com quem conversar, daí me acostumei a fazer um monte de perguntas para quem conhecia.” (p. 17)

A relação entre os dois evolui de maneira gradual, marcada por hesitações e curiosidade mútua. O erotismo da narrativa, quando surge, é tratado com sensibilidade e introspecção, como na cena em que Vanessa descreve o primeiro contato físico entre eles:

“É legal ouvir as batidas do coração alheio. Dá para pegar em que pé está a adrenalina da pessoa.” (p. 27)

Esses momentos revelam um dos pontos fortes da obra: a capacidade de explorar intimidade emocional sem recorrer a clichês românticos.


O armário secreto: o coração simbólico do romance

O ponto de virada da história ocorre quando Vanessa encontra um armário trancado no antigo quarto de empregada do apartamento. Dentro dele estão ternos masculinos, objetos elegantes e caixas cheias de cartas antigas.

A descoberta provoca uma ruptura na imagem idealizada que Vanessa tinha da tia Leila. O armário revela um passado oculto: um relacionamento amoroso secreto com um homem casado, mantido durante décadas.

Ao ler as cartas trocadas entre os dois amantes, Vanessa percebe a profundidade da relação. Em uma delas, o homem escreve:

“Meu amor, que cada indivíduo na face dessa terra de Deus tenha o privilégio de encontrar aquela por quem distâncias se unem.” (p. 47)

Esse momento transforma o romance em algo maior que uma história individual. O livro passa a discutir a natureza dos amores impossíveis e das vidas vividas à margem das convenções sociais.


Memória, segredo e herança emocional

O romance também apresenta uma crítica sutil às estruturas familiares tradicionais. A conversa com a tia Maria Eleonora revela preconceitos e tensões que atravessam gerações. Ao falar sobre Leila, ela afirma com desprezo:

“Leila morreu tão virgem como quando veio ao mundo.” (p. 53)

A afirmação contrasta com o universo apaixonado das cartas escondidas no armário, reforçando um dos temas mais fortes da obra: o abismo entre a vida pública e a vida secreta das pessoas.

Patricia Tischler opta por uma narrativa em primeira pessoa, que aproxima o leitor da consciência da protagonista. O texto mistura humor ácido, introspecção psicológica e observação social, criando uma voz narrativa contemporânea e muito reconhecível.

Outro recurso importante é o uso de objetos como gatilhos narrativos — cartas, roupas, fotografias e móveis funcionam como portas para diferentes camadas da história.

Essa técnica aproxima o romance de tradições literárias que exploram memória material e história íntima, lembrando em certos momentos autores que trabalham com arquivos pessoais e segredos familiares.

“Vanessa Halen: Tudo o que não quis, mas já é” é um romance que funciona em múltiplos níveis:

  • como história de amor imperfeito

  • como investigação de um passado escondido

  • e como reflexão sobre identidade e pertencimento

A obra se destaca principalmente pela profundidade psicológica da protagonista e pela forma como o passado se revela através de fragmentos — cartas, objetos e lembranças.

O romance mostra que algumas heranças não são materiais. Elas são histórias.

E às vezes elas ficam escondidas em um armário.

Estreia literária do escritor recifense Rafael Godoy expõe feridas da marginalização em contos viscerais



A estreia literária do escritor recifense Rafael Godoy surge como um mergulho contundente nas fissuras sociais e emocionais da vida urbana contemporânea. Em Bichos Cegos Tateiam Feridas (Mondru, 62 páginas), o autor apresenta uma coletânea de contos que expõe, com intensidade e lirismo áspero, as experiências de personagens atravessados por abandono, violência, desejo e marginalização.

O livro reúne 20 narrativas organizadas em três partes — Os bichos, A cegueira e As feridas — que, juntas, compõem um retrato cru de existências situadas nos limites da cidade, do corpo e da própria linguagem. O prefácio de contracapa é assinado pelo escritor Marcelino Freire, referência da literatura brasileira contemporânea, que reconhece na obra a potência de uma escrita que golpeia o leitor com a força de um conto bem executado.

“Todos os contos deste livro tipo: aquele ensinamento de Júlio Cortázar. Porrada! Eu me sinto particularmente neste livro. É como se eu tivesse encontrado uma companhia. Para eu não ficar, na esquina de um parágrafo, sangrando abandonado. Eis um autor parceiro do meu trabalho. Um cúmplice de ofício. Sempre ligado ao que acontece na rua. De olho em tantos olhos mortos de fome. O pão que o Diabo amassou é o que mais se come. O lodo do lodo do lodo do homem. Dói constatar que não temos mesmo salvação. Literatura nunca foi o terreno da boa intenção. Ai, ai. Bate. Mas também apanha, coração.”

— Marcelino Freire, em texto de contracapa da obra

Nas páginas de Bichos Cegos Tateiam Feridas, brutalidade, sexualidade, afetos interrompidos, renúncias e violações atravessam histórias que revelam a luta cotidiana pela sobrevivência. Os personagens — frequentemente situados à margem das estruturas sociais — vivem em constante confronto com a precariedade material e simbólica que molda suas existências. Ao explorar as semelhanças e tensões entre o humano e o animal, Godoy constrói narrativas que revelam, com inquietante clareza, os mecanismos de exclusão e violência presentes nas cidades brasileiras.

A oralidade desempenha papel central na construção das histórias. O ritmo das frases, os diálogos e os registros linguísticos evocam vozes da rua, criando uma cadência que oscila entre o sarcasmo, a dor e a crueza. Essa linguagem direta e pulsante aproxima o leitor da experiência das personagens, evidenciando as contradições de um mundo marcado por desigualdades profundas.

Como afirma o próprio autor, “maltratar, pisar, ignorar, tratar como bicho, só vai fazer com que mais ódio cresça, se espalhe e acabe matando a gente de ignorância”. Em seu livro de estreia, não há espaço para amenizações: a narrativa se constrói justamente na ausência de respiro, obrigando o leitor a encarar as feridas abertas que estruturam aquelas vidas.

Literatura que emerge das feridas

Narrados alternadamente em primeira e terceira pessoa, os contos parecem habitar um mesmo território simbólico — um espaço onde miséria material, solidão e violência coexistem com lampejos de memória, desejo e humanidade. A autenticidade da escrita se revela tanto na composição das cenas quanto na maneira como as personagens se expressam, com seus gestos, vícios de linguagem e modos de existir.

Mesmo quando descreve situações extremas, a prosa de Godoy preserva uma dimensão poética. A cadência das frases, marcada por repetições e sonoridades, confere lirismo a episódios de brutalidade, ampliando o impacto emocional das narrativas. Ao recusar qualquer tentativa de suavizar a realidade retratada, o autor opta por uma escrita frontal, que não busca conforto nem redenção.

Nesse sentido, Bichos Cegos Tateiam Feridas se posiciona como uma literatura que se recusa a estetizar a miséria. Ao contrário, lança o leitor diretamente no barro, no sangue e nos conflitos humanos que atravessam aquelas histórias. É justamente nessa franqueza narrativa que reside a força da obra.

Entre a história, o design e a literatura

Rafael Cabral Godoy nasceu em Recife (PE) e cresceu entre a capital pernambucana e o município de Camaragibe. Atualmente com 29 anos, é formado em História pela Universidade de Pernambuco (2016–2021), período em que atuou como professor na Zona da Mata por meio do Programa de Residência Pedagógica. Em 2023 concluiu também a graduação em Design Gráfico.

No ano seguinte, fundou ao lado da esposa e sócia, Rafaela Maria, o Estúdio PUYA!, onde atua como diretor de arte. Paralelamente ao trabalho no campo do design, Godoy cultiva a escrita desde a adolescência. Iniciou sua trajetória literária com crônicas, até encontrar no conto o formato ideal para sua expressão narrativa.

Depois de mais de uma década de experimentações, rascunhos e tentativas, o autor considera que encontrou sua voz literária. Para ele, a publicação do livro representa não apenas a concretização de um projeto antigo, mas também o reconhecimento de um percurso de persistência.

Bichos Cegos Tateiam Feridas não é só um sonho realizado, é um ensinamento de persistência e um convite ao pertencimento. Agora eu consigo me chamar de escritor”, afirma.

Trecho da obra (p. 57)

“Fiquei alguns anos pela casa, perambulando, mexendo nas gavetas, procurando rumo dentro da bolha. Quando pegou fogo, eu soube por um vizinho que me ligou. Corre, o fogo tá comendo tudo, tua casa agora é só cinza. Entrei contrariando os bombeiros, procurei a carta no meio do inferno e a achei no canto do que era uma estante com fotos antigas. Li uma última vez, a centésima trigésima terceira, e só então minha mãe tinha morrido, meu pai tinha sumido, e eu nem conheci esse fodido.”

A obra pode ser adquirida diretamente no site da editora Mondru:
https://mondru.com/produto/bichos-cegos-tateiam-feridas/

Entre cartas e fragmentos, escritora carioca Luciana Palhares transforma vivências afetivas em narrativa de autoconhecimento


A escritora e artista multidisciplinar Luciana Palhares estreia na literatura com a autoficção Para entender uma história de amor, obra que reúne fragmentos narrativos, cartas, reflexões e passagens poéticas para investigar as complexidades das relações afetivas e o processo de retorno ao próprio eu. Lançado de forma independente, o livro apresenta uma escrita sensível e introspectiva que percorre memórias, emoções e experiências pessoais, compondo um mosaico literário sobre amor, vulnerabilidade e transformação interior.

Construída em uma estrutura fragmentada, a obra mescla narrativas breves, ensaios autobiográficos e momentos de lirismo, refletindo a natureza fluida e muitas vezes contraditória dos sentimentos humanos. Ao longo das páginas, a autora propõe uma reflexão sobre os vínculos afetivos e sobre como as experiências moldam – ou podem deixar de moldar – a identidade individual. “Nossas experiências só nos definem se permitimos que isso aconteça. Independentemente do que nos ocorre, sempre existe a possibilidade de buscar outras formas de viver e de ser”, afirma Luciana.

O livro nasceu de uma necessidade íntima de compreender episódios marcantes da própria trajetória emocional. Segundo a autora, o processo de escrita funcionou como um exercício de investigação pessoal e também de reconstrução subjetiva. “Cresci em um ambiente emocionalmente árido, algo bastante distante da minha natureza curiosa e espontânea. Durante muito tempo procurei atenção e afeto em relacionamentos com homens, até perceber que precisava fazer o caminho de volta para mim mesma”, revela. Ao revisitar essas vivências, a escritora encontrou na literatura uma ferramenta de elaboração e mudança. “A Luciana que escreveu esse livro já não existe mais. Hoje sou outra pessoa, mas devo muito àquela versão anterior que teve coragem de olhar para si.”

A narrativa dialoga com tradições da autoficção contemporânea e assume um tom confessional que aproxima o leitor de um diário aberto. Entre memórias, questionamentos e observações sobre o amor e o desejo, Luciana constrói uma prosa sincopada que revela influências literárias diversas. Autores como Milan Kundera, Henry Miller e Anaïs Nin aparecem como referências importantes na construção de sua escrita, marcada pela franqueza emocional e pela exploração das fronteiras entre experiência vivida e criação literária. “A autoficção, para mim, surge quase como um mecanismo natural. É uma forma de organizar a experiência e, ao mesmo tempo, um instrumento de sobrevivência psíquica”, explica.

A dimensão autobiográfica do livro também se manifesta visualmente na capa, que traz uma fotografia da autora em seus vinte anos. A escolha da imagem representa, segundo ela, uma reconciliação com diferentes fases de sua história pessoal. “Publicar meus livros é uma forma de afirmar minha existência. Passei muitos anos me escondendo; agora quero ser vista, lida e ouvida.”

Além da literatura, Luciana Palhares construiu uma trajetória artística e profissional diversificada. Formada em artes cênicas pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, atuou no teatro, no cinema e na produção cultural antes de ampliar seu campo de atuação para terapias holísticas e práticas de autoconhecimento. Em Barcelona, cidade onde vive atualmente, também trabalhou como modelo vivo em escolas de arte, experiência que contribuiu para aprofundar sua relação com o corpo, a expressão e a criação.

A autora já foi finalista de concursos literários como o Prêmio Marie Claire de Contos Eróticos, em 2012, e o Prêmio Microconto de Ouro, em 2023. Paralelamente à divulgação de seu livro de estreia, Luciana desenvolve novos projetos literários, entre eles dois volumes de poesia — um em português e outro em inglês — além de iniciativas voltadas à escrita terapêutica, área na qual pretende oferecer mentorias e oficinas.

Com Para entender uma história de amor, Luciana Palhares apresenta ao público um trabalho que transita entre literatura e experiência pessoal, propondo uma reflexão sensível sobre os caminhos do amor, da memória e da reconstrução de si. Em uma narrativa que alterna delicadeza e franqueza emocional, a autora transforma vivências íntimas em matéria literária, convidando o leitor a revisitar suas próprias histórias e afetos.

Sobre a autora

Luciana Palhares nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Atriz formada pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), construiu uma carreira que atravessa teatro, cinema, produção cultural, terapias holísticas e escrita. Finalista de concursos literários como o Prêmio Marie Claire de Contos Eróticos (2012) e o Prêmio Microconto de Ouro (2023), atualmente vive entre projetos artísticos na Europa e sua produção literária. Para entender uma história de amor marca sua estreia editorial.

Educação para transformar: nova edição de obra sobre sustentabilidade no ensino superior reforça papel estratégico da formação docente


Em um cenário global marcado por crises ambientais, desigualdades sociais e desafios educacionais cada vez mais complexos, a terceira edição do livro “Sustentabilidade no ensino superior: uma prática transdisciplinar na formação de professores”, da pesquisadora Carla Conti, chega ao público pela Editora Scotti como uma contribuição relevante ao debate sobre o papel transformador da educação. A obra, cuja primeira edição foi publicada há cerca de quinze anos, retorna atualizada e reafirma a necessidade de repensar os processos formativos no ensino superior a partir de uma perspectiva que articule sustentabilidade, cidadania e responsabilidade social.

O lançamento da nova edição ocorreu em importantes eventos literários e acadêmicos do país, incluindo a Bienal do Livro do Rio de Janeiro e a Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). A autora também apresentará o trabalho no I Encontro Interdisciplinar em Ciência da Informação: Comunicação, Tecnologia e Educação, programado para o dia 2 de outubro, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.

A publicação reúne reflexões teóricas e relatos de práticas pedagógicas desenvolvidas no curso de Letras, nas quais a sustentabilidade da vida foi adotada como eixo central para a elaboração de trabalhos de conclusão de curso. Ao longo da obra, Carla Conti apresenta experiências formativas que integram ensino, pesquisa e prática docente, demonstrando como futuros professores de língua portuguesa, literatura e língua inglesa podem incorporar em suas atividades temas como preservação ambiental, cultura de paz, direitos humanos, valores éticos e responsabilidade coletiva.

Entre os materiais analisados estão relatórios de estágio supervisionado, planos de aula e projetos pedagógicos transdisciplinares, que evidenciam caminhos possíveis para a construção de práticas educacionais comprometidas com a formação de cidadãos críticos e socialmente engajados. A proposta central do livro é que a sustentabilidade não seja tratada apenas como conteúdo curricular isolado, mas como princípio orientador das práticas educativas e da formação docente.

Para a autora, a formação de professores precisa ultrapassar os limites de uma abordagem estritamente técnica e incorporar uma visão mais ampla do conhecimento, capaz de dialogar com diferentes áreas do saber e com os desafios contemporâneos da sociedade. Em um dos trechos da obra, Carla Conti destaca: “Pensar dessa forma é um exercício que pode ser aprendido na vivência e na experiência com o mundo. Significa abrir-se ao desconhecido, aceitar desafios, respeitar as diferenças e colocar o conhecimento a serviço do coletivo”.

A obra estabelece diálogo com importantes documentos internacionais que orientam reflexões sobre educação e sustentabilidade, como a Carta da Terra, a Carta da Ecopedagogia e a Carta da Transdisciplinaridade. Esses referenciais reforçam a ideia de que a educação deve contribuir para a formação de sujeitos capazes de compreender sua inserção no mundo de maneira responsável, desenvolvendo aquilo que a autora denomina de “consciência local e planetária”.

A edição conta ainda com apresentação da professora Anabela Simões, da Universidade de Aveiro, em Portugal, que destaca o potencial transformador da proposta apresentada no livro. Segundo ela, “a obra inspira educadores a acreditarem que a educação pode efetivamente contribuir para transformar o mundo, incentivando práticas que fortaleçam uma sociedade mais consciente, solidária e sustentável”.

O prefácio é assinado pela professora Andrea Kochhann, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que ressalta a relevância da temática abordada. Para ela, discutir sustentabilidade como dimensão da vida cotidiana e da prática pedagógica é um processo contínuo que precisa ser incorporado às rotinas acadêmicas e educativas.

Voltado a professores, gestores educacionais, pesquisadores e estudantes da área de educação, o livro se apresenta como um instrumento de reflexão e inspiração para aqueles que buscam desenvolver práticas pedagógicas inovadoras e alinhadas aos desafios do século XXI.

Sobre a autora

Carla Conti é doutora em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e realizou estágio pós-doutoral em Gestão da Informação na Universidade do Porto, em Portugal. Atua como professora na graduação e no mestrado em Educação da Universidade Estadual de Goiás (UEG), onde desenvolve pesquisas nas áreas de educação em direitos humanos, gênero e tecnologias digitais.

Natural de Passos, em Minas Gerais, a autora reside atualmente em Inhumas (GO) e dedica-se também à produção literária, explorando em seus livros temas relacionados ao desenvolvimento humano, à reflexão social e ao papel transformador da educação.

O livro está disponível para compra em plataformas digitais.

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Wallace Armani lança “Por uma administração socialista” e propõe uma crítica marxista à lógica capitalista nas organizações


O doutorando em Sociologia Política e professor Wallace Armani acaba de lançar o livro Por uma administração socialista, publicado pela Editora Diálogo Freiriano. A obra apresenta uma análise crítica da Administração a partir da tradição marxista, propondo uma reflexão sobre esse campo do conhecimento à luz da crítica da economia política e do materialismo histórico.

Distanciando-se de manuais tradicionais da área, o livro se apresenta como um ensaio político e teórico que busca problematizar a forma como a Administração se consolidou como um dos principais instrumentos de organização e legitimação das relações capitalistas. Para Armani, a chamada “administração científica” — frequentemente apresentada como um conjunto de técnicas neutras de gestão — atua, na prática, como uma linguagem estruturante do neoliberalismo contemporâneo.

Segundo o autor, essa racionalidade administrativa ultrapassa os limites do mundo empresarial e passa a orientar o funcionamento de diversas instituições sociais. “A Administração tornou-se a gramática dominante do neoliberalismo, reproduzida em espaços tão diversos quanto empresas privadas, organizações não governamentais, partidos políticos, sindicatos, igrejas e até estruturas governamentais”, argumenta.

Nesse contexto, Por uma administração socialista busca revelar como os métodos administrativos influenciam diretamente a organização do trabalho e a vida cotidiana dos trabalhadores. A obra questiona a ideia de neutralidade técnica que frequentemente sustenta os discursos gerenciais e propõe uma crítica sistemática às formas de dominação produzidas pela lógica do capital.

O livro também se posiciona de forma explícita no debate político e ideológico contemporâneo. Armani rejeita interpretações da realidade fundamentadas em perspectivas positivistas, neoliberais ou pós-estruturalistas, que, em sua avaliação, acabam por reforçar a permanência das estruturas existentes. Em contraposição, o autor sustenta que a superação das desigualdades estruturais do capitalismo depende de uma transformação social profunda.

“Apresento o socialismo como condição necessária para a emancipação humana e para a construção de uma sociedade orientada em direção ao comunismo. Não acredito em reformas capazes de humanizar o capitalismo ou em um suposto ‘capitalismo com rosto social’”, afirma.

A motivação para a escrita do livro surgiu da experiência de Armani como professor da disciplina Ciências Sociais e Humanas para estudantes dos cursos de Administração e Ciências Contábeis, aliada às pesquisas desenvolvidas em seu doutorado. De acordo com o autor, os debates acadêmicos e pedagógicos acumulados ao longo dessas atividades forneceram as bases teóricas e analíticas que estruturam a obra.

Grande parte da escrita foi realizada durante o primeiro semestre de 2025, período em que Armani reuniu reflexões provenientes de suas leituras e investigações acadêmicas. O resultado é um texto de caráter ensaístico, concebido deliberadamente em linguagem acessível, com o objetivo de dialogar não apenas com especialistas, mas também com leitores interessados em compreender criticamente as estruturas de poder presentes nas organizações.

O autor afirma que o processo de elaboração do livro também representou um momento de síntese intelectual. “A escrita permitiu organizar diversas reflexões que já vinham sendo construídas ao longo dos anos, mas que ainda não haviam encontrado as condições materiais necessárias para se transformar em obra”, explica.

A publicação reflete igualmente a trajetória acadêmica e profissional de Armani, que combina pesquisa teórica com experiências práticas no campo da gestão. Além da atuação como pesquisador, ele dirige sua própria escola de idiomas e participa de conselhos fiscais sindicais, experiências que, segundo o autor, contribuíram para aprofundar sua percepção crítica sobre as dinâmicas do trabalho e da organização produtiva no capitalismo contemporâneo.

Para discutir os principais temas abordados no livro, será realizado um encontro on-line com o autor no dia 25 de setembro, às 19h30, no canal Nepólis (@nepolis.uemg) no Instagram. O debate contará também com a participação de Caio Marçal e Joana Syrio. O link para a transmissão será disponibilizado na biografia do perfil no dia do evento.


Sobre o autor

Wallace Armani, 48 anos, nasceu em Belo Horizonte e atualmente reside no Rio de Janeiro. É mestre e doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ-UCAM. Possui graduação em Secretariado Executivo, Empreendedorismo, Ciências Humanas, Ciência Política e Gestão de Partidos Políticos, além de três pós-graduações em áreas correlatas.

Atua como diretor-geral do Wallace Armani – Centro de Idiomas e Outros Estudos (CIOE) e como editor-geral da Editora Simulacro. Reconhecido como hiperpoliglota pela HYPIA (The International Association of Hyperpolyglots), também é autor do livro Impeachment: Sinal de Crise da Democracia (Diálogo Freiriano, 2024), além de obras de ficção científica e ensaios sociológicos publicados pela Editora Simulacro.


Encontro on-line sobre a obra

Data: 25 de setembro
Horário: 19h30
Local: Canal Nepólis no Instagram (@nepolis.uemg)
Participantes: Wallace Armani, Caio Marçal e Joana Syrio

“A Torre”, estreia poética de Thaís Alcoforado, utiliza o tarot como arquitetura simbólica para narrar ruínas, travessias e renascimentos


Publicada pela Editora Primata, a obra marca o início da trajetória literária da recifense Thaís Alcoforado. Em A Torre, a autora constrói uma poética que dialoga com os arcanos maiores do tarot e com referências da literatura e do pensamento contemporâneo para elaborar uma cartografia sensível sobre trauma, perda, autoconhecimento e transformação. O livro propõe ao leitor uma travessia simbólica pelos escombros da experiência humana, sugerindo que todo colapso pode também ser ponto de partida para novas fundações.

Com 116 páginas, a publicação se organiza a partir da imagem central da carta A Torre, um dos arcanos mais emblemáticos do tarot, tradicionalmente associado à ruptura de estruturas, revelações abruptas e mudanças inevitáveis. A partir desse símbolo, Alcoforado desenvolve uma sequência de poemas que dialogam também com outros seis arcanos do baralho, transformando o tarot em linguagem poética e dispositivo de reflexão existencial.

O livro conta com prefácio da psicanalista, jornalista e escritora Gabrielle Estevans, que descreve a obra como um espaço de reconstrução simbólica. Segundo ela, o gesto de escrita da autora reproduz o próprio movimento da carta que inspira o título da obra: o colapso necessário para que algo novo possa surgir.

“Ao escrever, Thaís deixa, pela segunda vez, a própria Torre ruir. No vazio que se abre, escuta a linguagem dos sonhos, do corpo e das cartas. Ao fim, a lalangue é solo fértil. A queda, uma nova fundação. E o livro, uma catedral portátil para todos aqueles que, de algum modo, também foram expulsos de seus territórios.”

Nesse contexto, A Torre apresenta-se como um verdadeiro livro-ritual, em que os poemas funcionam simultaneamente como confissão íntima, exercício de elaboração psíquica e espécie de oráculo literário. Os versos investigam aquilo que ocorre antes, durante e depois das rupturas — sejam elas emocionais, afetivas ou simbólicas. Mais do que narrar o desmoronamento, a autora se interessa pelas brechas que surgem entre os escombros: os momentos de lucidez, libertação e reconfiguração que se tornam possíveis após a queda.

Para Gabrielle Estevans, o tarot, na obra, não é apenas tema, mas também estrutura narrativa e linguagem simbólica. Os arcanos funcionam como eixos interpretativos que organizam a experiência poética, permitindo à autora explorar diferentes dimensões do colapso — desde o fim de relações até o questionamento de estruturas familiares, identidades e desejos.

Poesia como oráculo

A própria autora descreve o livro como um experimento de poesia oracular, no qual tarot e escrita se aproximam como ferramentas de introspecção e autoconhecimento. Segundo Alcoforado, os poemas surgiram inicialmente como uma forma de sobrevivência emocional e gesto de fé na continuidade da vida. A unidade do projeto, porém, tornou-se mais clara durante sua participação nas oficinas de Escriterapia, conduzidas por Gabrielle Estevans, quando percebeu que os textos possuíam conexões internas e poderiam dialogar diretamente com os arcanos do tarot.

Para a poeta, tanto a poesia quanto o tarot são práticas de escuta e interpretação do mundo.

“O tempo todo seguimos pistas, recebemos indícios. Estar presente é não ignorar essas pistas. Essa é a verdadeira magia, e tanto o tarot quanto a poesia podem nos ajudar nessa missão”, afirma.

Entre territórios, fronteiras e silêncios

A trajetória de Thaís Alcoforado atravessa múltiplos territórios e experiências culturais. Nascida no Recife, a autora é advogada, mestre em Direito Internacional e especialista em estudos de paz e conflito. Ao longo de sua carreira como trabalhadora humanitária, viveu em países como Senegal, Irã e República Dominicana.

Atualmente residente no Panamá, a escritora passou o último ano na província de Darién, região rural próxima à fronteira com a Colômbia. Foi nesse ambiente de natureza intensa e relativa reclusão que a escrita e o tarot ganharam novo espaço em sua rotina, tornando-se práticas essenciais de reflexão e criação.

O isolamento, a convivência com a paisagem selvática e o contato cotidiano com animais e comunidades locais contribuíram para moldar o ambiente sensível em que A Torre foi concebido.

“Percebi que quanto mais se escreve, mais se torna urgente escrever. Agora, minha meta é manter esse canal aberto, criando espaços intencionais para que a escrita exista dentro da vida cotidiana”, afirma.

Referências literárias e simbólicas

No campo da poesia brasileira contemporânea, Alcoforado aponta como referências autoras como Bruna Beber, Ana Estaregui, Prisca Agustoni, Sofia Mariutti, Mar Becker e Júlia Carvalho Hansen.

No universo simbólico do tarot, destaca-se a influência de Alejandro Jodorowsky e da obra O Caminho do Tarot, escrita em parceria com Marianne Costa.

Entre as leituras que dialogam diretamente com o projeto literário do livro estão também os diários de Susan Sontag, o ensaio poético Eros, o Amargo-Doce, de Anne Carson, e o clássico Mulheres que Correm com os Lobos, da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés.

Essas referências alimentam a busca da autora por uma escrita que combine experiência cotidiana, imaginação simbólica e espiritualidade, criando uma poesia sensorial que transita entre diferentes dimensões da experiência humana.

Poema

Trecho do poema “Hefesto”, presente no livro (pág. 19):

Como a construção

A catástrofe também demanda paciência

Ainda assim, o momento exato do desabamento

Parece sempre repentino

Os acontecimentos teriam sido devastadores

Se eu não tivesse começado a me preparar

Sem suspeita

Justo a tempo

Para todo tipo de emergências

Tudo que veio antes, um ensaio

Tudo o que vier depois, uma réplica

Do choque primordial


Ficha técnica

Título: A Torre
Autora: Thaís Alcoforado
Editora: Editora Primata
Ano: 2025
Páginas: 116
ISBN: 978-65-5269-041-8
Gênero: Poesia

Instagram da autora:
https://www.instagram.com/alcoforado.thais/

Apagando o Lampião: a investigação histórica que revela a queda do maior mito do cangaço brasileiro


A obra Apagando o Lampião: vida e morte do Rei do Cangaço, do historiador Frederico Pernambucano de Mello, é uma das pesquisas mais detalhadas já realizadas sobre o fenômeno do cangaço e, especialmente, sobre o episódio que culminou na morte de Virgulino Ferreira da Silva, o célebre Lampião. Mais do que uma simples biografia, o livro se apresenta como uma investigação histórica profunda que combina depoimentos, análise documental, memória oral e perícia científica para compreender um dos acontecimentos mais emblemáticos da história do Nordeste.

Desde as primeiras páginas, o autor contextualiza a dimensão mítica que Lampião assumiu ainda em vida. O cangaceiro, que durante décadas dominou vastas áreas do Nordeste por meio da violência e da astúcia estratégica, havia ultrapassado a condição de criminoso para tornar-se personagem de cantorias, jornais e narrativas populares. Como observa o historiador, já na década de 1930 sua figura era maior do que o próprio fato criminal:

“Depois de dominar pelo terror porções relevantes de sete estados da Federação, Lampião estava mais para mito do que para personagem de crônica policial.” (p. 5) 

Essa transformação simbólica explica por que sua morte, ocorrida em 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, ultrapassou o âmbito policial e assumiu dimensão histórica. O episódio representou, segundo o autor, uma espécie de marco simbólico do fim do ciclo do cangaço e da consolidação do poder estatal no sertão nordestino.

A narrativa demonstra como a cultura popular ajudou a perpetuar a figura do cangaceiro. A literatura de cordel, as cantorias e a memória oral do sertão transformaram Lampião em uma espécie de herói trágico, mesmo entre aqueles que sofreram com suas ações. Um exemplo dessa construção simbólica aparece na cantoria reproduzida pelo autor sobre sua morte:

“De muitos anos atrás / Que o nosso sertão sofria / De uma fera bravia… / Com vinte anos de luta, / Apagaram o Lampião.” (p. 6) 

Essa fusão entre realidade e mito é um dos pontos centrais da obra. Frederico Pernambucano de Mello demonstra que o cangaço não pode ser compreendido apenas como banditismo, mas como fenômeno social ligado às condições históricas do sertão — desigualdade, coronelismo, ausência do Estado e cultura da violência.

Ao longo do livro, o autor também desmonta simplificações comuns sobre o tema. Ele argumenta que o cangaço se organizou de forma complexa, quase empresarial, sobretudo sob o comando de Lampião. O líder do bando mantinha subgrupos espalhados pelo Nordeste e estabelecia redes de proteção política e logística, o que explica sua longa sobrevivência frente às forças policiais.

“Ao morrer, em 1938, Lampião supervisionava dez subgrupos de cangaço espalhados pela caatinga… mobilizando capitais altíssimos por meio do assalto direto e da extorsão.” (p. 26) 

Outro aspecto fundamental da obra é o método historiográfico adotado pelo autor. Mello recorre a entrevistas com ex-cangaceiros, policiais, moradores da região e testemunhas indiretas do episódio de Angico. O cruzamento dessas fontes é apresentado como um recurso indispensável para separar memória, exagero e fato histórico.

“Não recebemos os depoimentos de testemunhas como dogma… submetemos cada prova ao crivo do cruzamento de fontes.” (p. 18) 

Esse rigor metodológico se reflete na tentativa de esclarecer um dos debates mais controversos da história do cangaço: quem realmente matou Lampião. A investigação conduzida pelo autor inclui análise balística e reconstituição dos acontecimentos na Grota do Angico, sugerindo hipóteses plausíveis sobre a autoria do disparo fatal.

Mais do que reconstruir um evento histórico, o livro também analisa o significado cultural do cangaço. O autor demonstra que o sertão preservou durante séculos uma ética própria, marcada pela valorização da coragem, da vingança privada e da honra armada. Nesse contexto, o cangaceiro podia ser simultaneamente criminoso e figura admirada.

“A sociedade do interior abonava o cangaço de forma platônica… com as populações indo ao extremo de torcer pela vitória dos grupos.” (p. 30) 

Com escrita envolvente e pesquisa extensa, Apagando o Lampião consolida-se como uma das obras mais importantes sobre o tema. Frederico Pernambucucano de Mello consegue equilibrar narrativa histórica e análise sociológica, mostrando que o fenômeno do cangaço não pode ser reduzido a mero banditismo. Ele foi, antes de tudo, resultado de um contexto histórico complexo e profundamente enraizado na formação social do Nordeste.

Ao final da leitura, fica claro que Lampião permanece como um dos personagens mais paradoxais da história brasileira: ao mesmo tempo símbolo de violência, mito popular e reflexo das tensões sociais do sertão. A obra, portanto, não apenas investiga a morte do “Rei do Cangaço”, mas ilumina todo um universo cultural que marcou profundamente a identidade nordestina.

Aspectos do Folclore Brasileiro: a obra de Mário de Andrade que revela a alma cultural do Brasil


A obra Aspectos do folclore brasileiro, de Mário de Andrade, é um dos textos fundamentais para compreender a formação cultural do Brasil. Escrita a partir de pesquisas, conferências e reflexões produzidas ao longo de décadas, a obra examina o folclore não apenas como curiosidade popular, mas como campo científico capaz de revelar estruturas sociais, raciais e culturais profundas do país.

Publicada postumamente como parte das Obras Completas do autor, a obra reúne ensaios e anotações que investigam a tradição oral, a cultura popular, as manifestações afro-brasileiras e o papel da pesquisa etnográfica. O livro também denuncia problemas metodológicos e intelectuais que marcaram os primeiros estudos sobre o folclore no Brasil.


Um manifesto contra o amadorismo no estudo do folclore

Logo no início do ensaio “O folclore no Brasil”, Mário de Andrade faz uma crítica contundente à falta de rigor científico nos estudos da cultura popular. Segundo ele, o folclore brasileiro era frequentemente tratado como entretenimento ou curiosidade literária, e não como objeto sério de investigação.

Ele afirma:

“A situação dos estudos do Folclore no Brasil ainda não é boa.” (p. 19) 

O autor identifica três grandes obstáculos ao desenvolvimento do campo:

  1. a indiferença institucional;

  2. a ausência de financiamento cultural;

  3. o predomínio do amadorismo.

Em tom irônico e crítico, ele observa que, no Brasil, muitos artistas e cantores se autodenominavam folcloristas apenas por reinterpretarem canções populares:

“É geral entre os cantores improvisados de rádio, disco e mesmo concerto, se intitularem ‘folcloristas’ só porque usam e abusam da canção popular.” (p. 20) 

Essa crítica revela o projeto intelectual de Mário de Andrade: transformar o folclore em disciplina científica, com métodos rigorosos de coleta, registro e análise.

Outro aspecto central da obra é a análise da cultura popular como reflexo das tensões sociais do país. Mário de Andrade observa que muitas interpretações do folclore eram distorcidas porque buscavam apenas elementos esteticamente agradáveis.

Segundo ele:

“O folclore no Brasil ainda não é verdadeiramente concebido como um processo de conhecimento.” (p. 22) 

Para o autor, essa abordagem seletiva criava uma visão romantizada do povo brasileiro. Ao privilegiar apenas cantigas engraçadas ou curiosidades pitorescas, os pesquisadores ignoravam aspectos fundamentais da vida social e cultural.

O resultado, segundo o autor, era uma compreensão superficial da cultura popular.


A crítica à manipulação dos documentos folclóricos

Um dos trechos mais marcantes do livro é a denúncia de práticas pouco rigorosas na coleta de material folclórico. Mário de Andrade critica diretamente o escritor Afrânio Peixoto por incluir versos inventados em uma coletânea de trovas populares.

Ele relata:

“Das mil quadrinhas recolhidas nas Trovas populares, duzentas e cinquenta eram falsas, inventadas pelo próprio antologista.” (p. 20) 

Para o autor, esse tipo de prática compromete o valor científico do material coletado e evidencia a necessidade de métodos rigorosos na pesquisa etnográfica.

Essa discussão revela a preocupação metodológica que permeia toda a obra.


O papel das instituições e das pesquisas de campo

Mário de Andrade também destaca a importância da institucionalização do estudo do folclore no Brasil. Ele celebra iniciativas como o Departamento de Cultura de São Paulo e a criação da Sociedade de Etnografia e Folclore, que buscavam formar pesquisadores especializados.

O autor defende que o estudo da cultura popular precisa ir além do gabinete e envolver trabalho de campo sistemático.

Nesse contexto, ele afirma que os estudos deveriam entrar numa fase monográfica, baseada em pesquisas específicas e aprofundadas sobre manifestações culturais particulares.

Um dos grandes méritos da obra é reconhecer o papel da diversidade cultural na formação do Brasil. Mário de Andrade enfatiza a contribuição de diferentes grupos — indígenas, africanos e europeus — para a construção do imaginário popular brasileiro.

Ele observa que muitos elementos da cultura nacional surgem da interação entre essas tradições, como mitos, cantigas, danças e práticas religiosas.

Essa perspectiva multicultural foi extremamente inovadora para a época e antecipa debates que hoje são centrais nas ciências sociais.

Aspectos do folclore brasileiro é um livro essencial para compreender tanto o pensamento de Mário de Andrade quanto a evolução dos estudos culturais no Brasil.

A obra combina:

  • crítica intelectual contundente

  • erudição histórica

  • reflexão metodológica

  • compromisso com a cultura popular

Mais do que registrar tradições, Mário de Andrade propõe uma nova forma de olhar o Brasil. Para ele, o folclore não é apenas um conjunto de curiosidades pitorescas, mas uma chave interpretativa da identidade nacional.

Ao transformar o folclore em objeto de investigação científica e crítica cultural, Mário de Andrade inaugura uma nova etapa nos estudos brasileiros. Sua obra revela que as manifestações populares — cantigas, lendas, costumes e rituais — são documentos fundamentais da história social do país.

Aspectos do folclore brasileiro permanece, assim, como uma leitura indispensável para quem deseja compreender as raízes culturais do Brasil e a complexidade da formação de sua identidade.

Homo Modernus: Como Denise Ferreira da Silva desmonta a ideia moderna de raça e revela a engrenagem invisível do poder global


Publicado originalmente no início dos anos 2000 e relançado em português pela editora Cobogó, Homo Modernus — Para uma ideia global de raça, da filósofa brasileira Denise Ferreira da Silva, é uma obra densa e profundamente provocadora. Mais do que discutir racismo como fenômeno social ou histórico, o livro se propõe a investigar algo ainda mais radical: a própria estrutura do pensamento moderno que tornou possível a existência do conceito de raça.

A autora parte de uma hipótese contundente: o racial não é um desvio da modernidade, mas um de seus fundamentos constitutivos. Em outras palavras, a modernidade ocidental — sustentada por ciência, filosofia e história — produziu o sujeito moderno ao mesmo tempo em que produziu seus “outros”, aqueles que seriam considerados exteriormente determinados, inferiores ou incapazes de autodeterminação.

Logo nas primeiras páginas, Denise Ferreira da Silva deixa claro o escopo de sua investigação. O livro busca compreender “o papel produtivo que o racial cumpre no cenário pós-iluminista” e demonstrar como as ferramentas da ciência e da história contribuíram para criar uma estrutura global de subjugação racial.

Segundo a autora, o pensamento moderno construiu o ideal do sujeito autodeterminado — racional, livre e universal — como centro da ética e da política. Porém, esse sujeito só poderia existir ao produzir simultaneamente aqueles que estariam fora desse ideal. Assim, a modernidade criou uma divisão fundamental entre o sujeito e seus “outros”.

Essa lógica aparece de forma explícita quando a autora explica como as ciências humanas do século XIX passaram a utilizar a diferença racial como elemento constitutivo do próprio conceito de humanidade. Nesse processo, emergiu um enunciado central da subjugação racial: a ideia de que certos grupos humanos seriam autodeterminados, enquanto outros seriam determinados pelas condições externas ou naturais.

Esse mecanismo não foi apenas teórico. Ele sustentou sistemas políticos, jurídicos e econômicos que estruturaram o mundo moderno. Ao analisar esse processo, a autora mostra como o racial tornou-se uma ferramenta epistemológica capaz de justificar a dominação colonial, a exploração econômica e a exclusão social.

Um dos pontos mais interessantes da obra é a crítica que Denise Ferreira da Silva dirige às explicações tradicionais do racismo. Para ela, abordagens sociológicas que tratam o racismo apenas como exclusão social ou cultural são insuficientes. Essas análises, embora críticas, ainda reproduzem o mesmo quadro conceitual da modernidade que produziu o racial.

A autora afirma que o problema está justamente na forma como a modernidade concebe o humano. As categorias de universalidade e historicidade — fundamentais para o pensamento moderno — são também as ferramentas que permitiram a criação de hierarquias raciais.

Por isso, o livro propõe uma crítica radical da representação moderna. O objetivo não é apenas denunciar o racismo, mas compreender como a própria estrutura do conhecimento moderno continua reproduzindo desigualdades globais.

A análise ganha ainda mais força quando a autora conecta o racial à configuração contemporânea do mundo. Para ela, mesmo após o declínio das teorias raciais explícitas do século XIX, os efeitos dessa lógica permanecem profundamente enraizados nas estruturas globais.

Como observa Denise Ferreira da Silva, o racial continua a operar porque está ligado à própria ontologia moderna — à maneira como a modernidade definiu o que significa ser humano.

Nesse sentido, Homo Modernus também é um livro sobre o presente. Ao examinar fenômenos como desigualdade global, violência racial e políticas de identidade, a autora demonstra que as categorias criadas pela modernidade continuam organizando a realidade contemporânea.

A força do livro reside justamente nessa abordagem interdisciplinar. Denise Ferreira da Silva transita entre filosofia, sociologia, teoria crítica e estudos pós-coloniais para construir um argumento complexo e rigoroso. O texto dialoga com pensadores como Foucault, Hegel, Nietzsche e Stuart Hall, ao mesmo tempo em que desenvolve conceitos próprios, como a chamada “analítica da racialidade”.

Apesar de sua densidade teórica, Homo Modernus oferece uma contribuição essencial para debates contemporâneos sobre raça, colonialismo e globalização. Ao deslocar o problema do racismo do campo moral para o campo ontológico e epistemológico, o livro amplia radicalmente o horizonte da crítica.

Mais do que denunciar injustiças históricas, Denise Ferreira da Silva convida o leitor a questionar os próprios fundamentos do mundo moderno. A pergunta que ecoa ao longo da obra é simples e perturbadora: se a modernidade produziu o sujeito moderno ao criar seus “outros”, seria possível imaginar um mundo além dessa lógica?

Homo Modernus — Para uma ideia global de raça é, portanto, uma obra fundamental para quem deseja compreender não apenas o racismo, mas as bases filosóficas e científicas que moldaram a modernidade e continuam estruturando o mundo contemporâneo.

Poder Global e Religião Universal: a denúncia de uma nova ordem cultural contra o cristianismo


A obra Poder Global e Religião Universal, do sacerdote e pesquisador argentino Juan Cláudio Sanahuja, é um ensaio contundente sobre aquilo que o autor considera ser um processo global de transformação cultural e moral. Publicado no Brasil em 2012, o livro se insere no campo das análises críticas do globalismo, propondo que instituições internacionais, organismos multilaterais e movimentos ideológicos estariam articulando uma profunda “reengenharia social” destinada a redefinir valores tradicionais — sobretudo aqueles enraizados na ética judaico-cristã. 

Desde as primeiras páginas, Sanahuja estabelece o tom da obra: trata-se menos de uma narrativa acadêmica neutra e mais de uma denúncia ideológica e espiritual. Segundo ele, a cultura contemporânea estaria sendo moldada por um projeto político e cultural que busca consolidar um “poder global”, acompanhado pela construção de uma religião universal relativista e sincrética.

“Estamos em tempos de perseguição […] e a fidelidade a Jesus Cristo nos exige defender, promover, ensinar, transmitir as verdades imutáveis — os princípios inegociáveis.” (p. 8) 

A tese central do livro afirma que esse projeto global não opera apenas por meio de políticas públicas ou acordos internacionais, mas sobretudo através de mudanças culturais profundas. O autor argumenta que conceitos como direitos humanos, família, saúde e liberdade religiosa estariam sendo reinterpretados em escala internacional, especialmente dentro de organismos como a ONU.

Nesse contexto, Sanahuja sugere que novas agendas culturais — incluindo debates sobre sexualidade, aborto, ideologia de gênero e políticas populacionais — seriam parte de um movimento mais amplo de transformação ética. Para ele, a estratégia central seria uma mudança gradual de linguagem e significado.

“Mudar o significado e o conteúdo das palavras é uma estratégia para que a reengenharia social seja aceita por todos, sem protestar.” (p. 11) 

Um dos pontos mais recorrentes da obra é a crítica ao relativismo moral. Sanahuja sustenta que a cultura contemporânea estaria substituindo princípios morais considerados universais por uma ética baseada no consenso político e na utilidade social. Em sua análise, esse processo criaria uma nova ordem cultural marcada pelo sincretismo religioso, pela ética planetária e pelo ecologismo espiritualizado, elementos que ele entende como componentes de uma nova religiosidade global.

O autor também dedica parte significativa do livro à análise das próprias tensões internas da Igreja Católica. Segundo ele, uma parcela do cristianismo teria cedido às pressões culturais do mundo moderno, adotando posições que diluiriam a doutrina tradicional.

“A crise da Igreja é grave […] o cataclismo social que afeta o respeito à vida humana e à família tem essa triste situação como causa.” (p. 22) 

Apesar do tom crítico e, por vezes, alarmista, Poder Global e Religião Universal não se limita à denúncia. Nos capítulos finais, Sanahuja propõe uma resposta que passa pelo fortalecimento da identidade cristã, pelo testemunho público da fé e pela resistência cultural ao que ele identifica como imposições ideológicas.

Assim, o livro termina assumindo um caráter quase pastoral, convocando os leitores a uma postura ativa diante das transformações contemporâneas.

“Num mundo onde a mentira é poderosa, paga-se a verdade com sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento mantém longe a própria vida e sua grandeza.” (p. 24) 

No conjunto, Poder Global e Religião Universal é uma obra polêmica e fortemente posicionada. Sua leitura interessa especialmente a quem deseja compreender uma vertente do pensamento católico contemporâneo que interpreta a globalização cultural como um campo de disputa espiritual e moral.

Independentemente de concordar ou não com suas conclusões, o livro oferece um panorama revelador sobre como setores religiosos percebem as mudanças sociais do século XXI — e sobre a tensão crescente entre tradição, modernidade e poder global.

Uma teoria do poder global: a tese provocadora de José Luís Fiori sobre guerras, poder e a origem do capitalismo



A obra Uma teoria do poder global (2024), do cientista político brasileiro José Luís Fiori, apresenta uma interpretação ambiciosa da história do capitalismo e da política internacional. Publicado pela Editora Vozes, o livro reúne mais de quatro décadas de pesquisa do autor e propõe uma tese central: o poder político — e não o mercado — é o verdadeiro motor da formação do sistema mundial moderno.

A partir de ensaios escritos ao longo de sua trajetória acadêmica, Fiori constrói uma narrativa que conecta guerras, formação de Estados, economia e hegemonia internacional. O resultado é uma obra densa, provocativa e profundamente interdisciplinar, que dialoga com história, economia política e geopolítica.

Logo na apresentação, o autor explica o eixo de sua investigação:

“Esta obra reúne vários artigos e ensaios que fazem parte de uma longa pesquisa histórica e de uma reflexão teórica […] a respeito da dinâmica expansiva do ‘poder global’.” (p. 34) 

Essa reflexão parte de um princípio radical: o poder tende sempre a se expandir, criando estruturas hierárquicas e conflitos constantes entre Estados.

A teoria central: o poder como força expansiva

O argumento mais original do livro está na formulação de uma teoria segundo a qual o poder funciona como um fluxo permanente de expansão e competição. Para Fiori, não existe equilíbrio duradouro no sistema internacional, pois cada unidade política busca ampliar continuamente sua própria capacidade de dominação.

O autor resume essa ideia de maneira quase axiológica:

“O poder é movimento, é fluxo permanente, muito mais do que um estoque de equipamentos […] o poder só existe enquanto é exercido e acumulado.” (p. 43) 

Essa visão aproxima a política internacional de uma lógica dinâmica e conflitiva, em que hegemonias surgem, se expandem e eventualmente entram em crise. Assim, a história global não seria uma trajetória linear rumo à cooperação, mas um sistema permanente de competição entre Estados.

Guerra, riqueza e nascimento do capitalismo

Um dos pontos mais controversos da obra é a inversão de uma ideia clássica da economia política. Para pensadores como Adam Smith ou Karl Marx, a acumulação de riqueza está associada ao desenvolvimento das trocas e da produção. Fiori, porém, sugere que o poder precede o excedente econômico.

Segundo ele:

“A verdadeira origem do ‘excedente’ foi o poder dos soberanos e sua capacidade de definir e cobrar tributos.” (p. 45) 

Essa hipótese implica uma releitura da origem do capitalismo. Em vez de surgir apenas do comércio ou da inovação produtiva, a riqueza teria sido impulsionada pela conquista territorial, pela tributação e pela guerra.

O historiador Charles Tilly é citado como referência para reforçar essa perspectiva histórica:

“Foi a guerra que teceu a rede europeia de Estados nacionais.” (p. 44) 

Assim, guerras, impostos, moeda e dívida pública aparecem como pilares da formação do sistema capitalista moderno.

Hegemonia global e a ascensão dos Estados Unidos

Outra parte relevante da obra analisa a formação do poder global dos Estados Unidos. Fiori discute episódios decisivos da política internacional — como a Guerra do Vietnã, a crise do sistema Bretton Woods e a Guerra do Golfo — para mostrar como Washington consolidou sua posição hegemônica.

Sobre o impacto dessas transformações na década de 1970, o autor escreve:

“Entre 1970 e 1973, foi como se tudo tivesse vindo abaixo […] muitos analistas anunciaram o fim da supremacia mundial norte-americana.” (p. 35) 

Contudo, segundo sua interpretação, os Estados Unidos reagiram redefinindo sua estratégia econômica e geopolítica, consolidando um poder militar e financeiro sem precedentes.

Essa leitura desafia teses recorrentes sobre o “declínio inevitável” da hegemonia americana e sugere que o sistema internacional funciona como um campo de expansão permanente de poder, em que novos polos emergem sem necessariamente substituir totalmente os anteriores.

Uma teoria do poder global é uma obra de grande ambição intelectual. Seu principal mérito está na tentativa de integrar economia, história e geopolítica em uma única estrutura teórica. Ao colocar o poder — e não o mercado — no centro da análise, Fiori oferece uma interpretação que dialoga tanto com a tradição realista das relações internacionais quanto com a economia política crítica.

Por outro lado, essa amplitude também é um dos desafios do livro. A densidade conceitual e o grande número de referências históricas exigem do leitor familiaridade prévia com debates acadêmicos complexos.

Ainda assim, o livro se destaca por propor uma pergunta fundamental para compreender o mundo contemporâneo: o que realmente move a história — o comércio ou a disputa pelo poder?

Ao responder que a política e a guerra são forças estruturantes do capitalismo global, Fiori provoca o leitor a reconsiderar muitos dos pressupostos da teoria econômica tradicional.

Uma teoria do poder global é uma obra essencial para quem deseja compreender as engrenagens profundas da política internacional. Com uma tese ousada e um vasto aparato histórico, José Luís Fiori propõe uma interpretação inquietante do mundo moderno: o capitalismo não nasceu apenas do mercado, mas da expansão incessante do poder.

“Vanessa Halen: Tudo o que Não Quis, Mas Já É” — Mistério, memória e desejo em um romance sobre identidades que insistem em emergir


O romance “Vanessa Halen: Tudo o que não quis, mas já é”, de Patricia Tischler, apresenta uma narrativa híbrida que mistura romance psicológico, investigação familiar e drama existencial. A obra acompanha a jornalista investigativa Vanessa de Melo Halen, que retorna a São Paulo após a morte da tia-avó Leila — a única figura afetiva estável de sua vida. O que começa como um simples processo de organizar um apartamento herdado se transforma em uma jornada de descoberta sobre o passado, o amor clandestino e os limites entre identidade e memória.

Logo no prólogo, a protagonista estabelece o tom ácido e irônico que permeia a narrativa. Ao chegar em São Paulo, ela descreve a cidade com uma mistura de irritação e pertencimento:

“Vivo pensando que existem tantos lugares melhores para ir, mas sempre acabo voltando. A cidade faz parte de mim na composição dos meus ossos.” (p. 4)

Essa frase resume um dos grandes temas do livro: a impossibilidade de escapar completamente das próprias origens.


Uma narradora marcada pelo deslocamento

Vanessa é uma personagem complexa e profundamente marcada por experiências de abandono e deslocamento. Filha de uma mãe ausente e criada em grande parte fora do Brasil, ela construiu uma carreira de sucesso no jornalismo investigativo. No entanto, sua identidade parece sempre fragmentada entre países, relações e versões de si mesma.

O retorno ao apartamento da tia Leila funciona como gatilho narrativo e psicológico. Ao reorganizar os objetos da casa, Vanessa não apenas revisita memórias da infância, mas começa a suspeitar que a morte da tia pode não ter sido tão simples quanto parecia.

Essa inquietação aparece logo no início da obra:

“Mas eles não sabem de algumas coisas que eu sei… Apesar de seus 86 anos, ela estava em perfeita forma física. (…) Um infarto fulminante não me soa correto.” (p. 5)

Aqui a autora insere discretamente um elemento de suspense investigativo, que atravessa o romance sem transformá-lo em thriller tradicional.


Amor, acaso e tensão emocional

Um dos eixos centrais da narrativa é o encontro inesperado entre Vanessa e Eric Clapton Guimarães e Souza — funcionário público e aspirante a artista. O encontro acontece de forma quase banal, na fila de um órgão público, mas rapidamente ganha uma dimensão emocional intensa.

O diálogo entre os dois revela a habilidade de Patricia Tischler para criar conversas naturais, irônicas e carregadas de subtexto. Um exemplo marcante ocorre quando Eric comenta sobre a postura reservada de Vanessa:

“Eu nunca tive muito com quem conversar, daí me acostumei a fazer um monte de perguntas para quem conhecia.” (p. 17)

A relação entre os dois evolui de maneira gradual, marcada por hesitações e curiosidade mútua. O erotismo da narrativa, quando surge, é tratado com sensibilidade e introspecção, como na cena em que Vanessa descreve o primeiro contato físico entre eles:

“É legal ouvir as batidas do coração alheio. Dá para pegar em que pé está a adrenalina da pessoa.” (p. 27)

Esses momentos revelam um dos pontos fortes da obra: a capacidade de explorar intimidade emocional sem recorrer a clichês românticos.


O armário secreto: o coração simbólico do romance

O ponto de virada da história ocorre quando Vanessa encontra um armário trancado no antigo quarto de empregada do apartamento. Dentro dele estão ternos masculinos, objetos elegantes e caixas cheias de cartas antigas.

A descoberta provoca uma ruptura na imagem idealizada que Vanessa tinha da tia Leila. O armário revela um passado oculto: um relacionamento amoroso secreto com um homem casado, mantido durante décadas.

Ao ler as cartas trocadas entre os dois amantes, Vanessa percebe a profundidade da relação. Em uma delas, o homem escreve:

“Meu amor, que cada indivíduo na face dessa terra de Deus tenha o privilégio de encontrar aquela por quem distâncias se unem.” (p. 47)

Esse momento transforma o romance em algo maior que uma história individual. O livro passa a discutir a natureza dos amores impossíveis e das vidas vividas à margem das convenções sociais.


Memória, segredo e herança emocional

O romance também apresenta uma crítica sutil às estruturas familiares tradicionais. A conversa com a tia Maria Eleonora revela preconceitos e tensões que atravessam gerações. Ao falar sobre Leila, ela afirma com desprezo:

“Leila morreu tão virgem como quando veio ao mundo.” (p. 53)

A afirmação contrasta com o universo apaixonado das cartas escondidas no armário, reforçando um dos temas mais fortes da obra: o abismo entre a vida pública e a vida secreta das pessoas.

Patricia Tischler opta por uma narrativa em primeira pessoa, que aproxima o leitor da consciência da protagonista. O texto mistura humor ácido, introspecção psicológica e observação social, criando uma voz narrativa contemporânea e muito reconhecível.

Outro recurso importante é o uso de objetos como gatilhos narrativos — cartas, roupas, fotografias e móveis funcionam como portas para diferentes camadas da história.

Essa técnica aproxima o romance de tradições literárias que exploram memória material e história íntima, lembrando em certos momentos autores que trabalham com arquivos pessoais e segredos familiares.

“Vanessa Halen: Tudo o que não quis, mas já é” é um romance que funciona em múltiplos níveis:

  • como história de amor imperfeito

  • como investigação de um passado escondido

  • e como reflexão sobre identidade e pertencimento

A obra se destaca principalmente pela profundidade psicológica da protagonista e pela forma como o passado se revela através de fragmentos — cartas, objetos e lembranças.

O romance mostra que algumas heranças não são materiais. Elas são histórias.

E às vezes elas ficam escondidas em um armário.

Estreia literária do escritor recifense Rafael Godoy expõe feridas da marginalização em contos viscerais



A estreia literária do escritor recifense Rafael Godoy surge como um mergulho contundente nas fissuras sociais e emocionais da vida urbana contemporânea. Em Bichos Cegos Tateiam Feridas (Mondru, 62 páginas), o autor apresenta uma coletânea de contos que expõe, com intensidade e lirismo áspero, as experiências de personagens atravessados por abandono, violência, desejo e marginalização.

O livro reúne 20 narrativas organizadas em três partes — Os bichos, A cegueira e As feridas — que, juntas, compõem um retrato cru de existências situadas nos limites da cidade, do corpo e da própria linguagem. O prefácio de contracapa é assinado pelo escritor Marcelino Freire, referência da literatura brasileira contemporânea, que reconhece na obra a potência de uma escrita que golpeia o leitor com a força de um conto bem executado.

“Todos os contos deste livro tipo: aquele ensinamento de Júlio Cortázar. Porrada! Eu me sinto particularmente neste livro. É como se eu tivesse encontrado uma companhia. Para eu não ficar, na esquina de um parágrafo, sangrando abandonado. Eis um autor parceiro do meu trabalho. Um cúmplice de ofício. Sempre ligado ao que acontece na rua. De olho em tantos olhos mortos de fome. O pão que o Diabo amassou é o que mais se come. O lodo do lodo do lodo do homem. Dói constatar que não temos mesmo salvação. Literatura nunca foi o terreno da boa intenção. Ai, ai. Bate. Mas também apanha, coração.”

— Marcelino Freire, em texto de contracapa da obra

Nas páginas de Bichos Cegos Tateiam Feridas, brutalidade, sexualidade, afetos interrompidos, renúncias e violações atravessam histórias que revelam a luta cotidiana pela sobrevivência. Os personagens — frequentemente situados à margem das estruturas sociais — vivem em constante confronto com a precariedade material e simbólica que molda suas existências. Ao explorar as semelhanças e tensões entre o humano e o animal, Godoy constrói narrativas que revelam, com inquietante clareza, os mecanismos de exclusão e violência presentes nas cidades brasileiras.

A oralidade desempenha papel central na construção das histórias. O ritmo das frases, os diálogos e os registros linguísticos evocam vozes da rua, criando uma cadência que oscila entre o sarcasmo, a dor e a crueza. Essa linguagem direta e pulsante aproxima o leitor da experiência das personagens, evidenciando as contradições de um mundo marcado por desigualdades profundas.

Como afirma o próprio autor, “maltratar, pisar, ignorar, tratar como bicho, só vai fazer com que mais ódio cresça, se espalhe e acabe matando a gente de ignorância”. Em seu livro de estreia, não há espaço para amenizações: a narrativa se constrói justamente na ausência de respiro, obrigando o leitor a encarar as feridas abertas que estruturam aquelas vidas.

Literatura que emerge das feridas

Narrados alternadamente em primeira e terceira pessoa, os contos parecem habitar um mesmo território simbólico — um espaço onde miséria material, solidão e violência coexistem com lampejos de memória, desejo e humanidade. A autenticidade da escrita se revela tanto na composição das cenas quanto na maneira como as personagens se expressam, com seus gestos, vícios de linguagem e modos de existir.

Mesmo quando descreve situações extremas, a prosa de Godoy preserva uma dimensão poética. A cadência das frases, marcada por repetições e sonoridades, confere lirismo a episódios de brutalidade, ampliando o impacto emocional das narrativas. Ao recusar qualquer tentativa de suavizar a realidade retratada, o autor opta por uma escrita frontal, que não busca conforto nem redenção.

Nesse sentido, Bichos Cegos Tateiam Feridas se posiciona como uma literatura que se recusa a estetizar a miséria. Ao contrário, lança o leitor diretamente no barro, no sangue e nos conflitos humanos que atravessam aquelas histórias. É justamente nessa franqueza narrativa que reside a força da obra.

Entre a história, o design e a literatura

Rafael Cabral Godoy nasceu em Recife (PE) e cresceu entre a capital pernambucana e o município de Camaragibe. Atualmente com 29 anos, é formado em História pela Universidade de Pernambuco (2016–2021), período em que atuou como professor na Zona da Mata por meio do Programa de Residência Pedagógica. Em 2023 concluiu também a graduação em Design Gráfico.

No ano seguinte, fundou ao lado da esposa e sócia, Rafaela Maria, o Estúdio PUYA!, onde atua como diretor de arte. Paralelamente ao trabalho no campo do design, Godoy cultiva a escrita desde a adolescência. Iniciou sua trajetória literária com crônicas, até encontrar no conto o formato ideal para sua expressão narrativa.

Depois de mais de uma década de experimentações, rascunhos e tentativas, o autor considera que encontrou sua voz literária. Para ele, a publicação do livro representa não apenas a concretização de um projeto antigo, mas também o reconhecimento de um percurso de persistência.

Bichos Cegos Tateiam Feridas não é só um sonho realizado, é um ensinamento de persistência e um convite ao pertencimento. Agora eu consigo me chamar de escritor”, afirma.

Trecho da obra (p. 57)

“Fiquei alguns anos pela casa, perambulando, mexendo nas gavetas, procurando rumo dentro da bolha. Quando pegou fogo, eu soube por um vizinho que me ligou. Corre, o fogo tá comendo tudo, tua casa agora é só cinza. Entrei contrariando os bombeiros, procurei a carta no meio do inferno e a achei no canto do que era uma estante com fotos antigas. Li uma última vez, a centésima trigésima terceira, e só então minha mãe tinha morrido, meu pai tinha sumido, e eu nem conheci esse fodido.”

A obra pode ser adquirida diretamente no site da editora Mondru:
https://mondru.com/produto/bichos-cegos-tateiam-feridas/

Entre cartas e fragmentos, escritora carioca Luciana Palhares transforma vivências afetivas em narrativa de autoconhecimento


A escritora e artista multidisciplinar Luciana Palhares estreia na literatura com a autoficção Para entender uma história de amor, obra que reúne fragmentos narrativos, cartas, reflexões e passagens poéticas para investigar as complexidades das relações afetivas e o processo de retorno ao próprio eu. Lançado de forma independente, o livro apresenta uma escrita sensível e introspectiva que percorre memórias, emoções e experiências pessoais, compondo um mosaico literário sobre amor, vulnerabilidade e transformação interior.

Construída em uma estrutura fragmentada, a obra mescla narrativas breves, ensaios autobiográficos e momentos de lirismo, refletindo a natureza fluida e muitas vezes contraditória dos sentimentos humanos. Ao longo das páginas, a autora propõe uma reflexão sobre os vínculos afetivos e sobre como as experiências moldam – ou podem deixar de moldar – a identidade individual. “Nossas experiências só nos definem se permitimos que isso aconteça. Independentemente do que nos ocorre, sempre existe a possibilidade de buscar outras formas de viver e de ser”, afirma Luciana.

O livro nasceu de uma necessidade íntima de compreender episódios marcantes da própria trajetória emocional. Segundo a autora, o processo de escrita funcionou como um exercício de investigação pessoal e também de reconstrução subjetiva. “Cresci em um ambiente emocionalmente árido, algo bastante distante da minha natureza curiosa e espontânea. Durante muito tempo procurei atenção e afeto em relacionamentos com homens, até perceber que precisava fazer o caminho de volta para mim mesma”, revela. Ao revisitar essas vivências, a escritora encontrou na literatura uma ferramenta de elaboração e mudança. “A Luciana que escreveu esse livro já não existe mais. Hoje sou outra pessoa, mas devo muito àquela versão anterior que teve coragem de olhar para si.”

A narrativa dialoga com tradições da autoficção contemporânea e assume um tom confessional que aproxima o leitor de um diário aberto. Entre memórias, questionamentos e observações sobre o amor e o desejo, Luciana constrói uma prosa sincopada que revela influências literárias diversas. Autores como Milan Kundera, Henry Miller e Anaïs Nin aparecem como referências importantes na construção de sua escrita, marcada pela franqueza emocional e pela exploração das fronteiras entre experiência vivida e criação literária. “A autoficção, para mim, surge quase como um mecanismo natural. É uma forma de organizar a experiência e, ao mesmo tempo, um instrumento de sobrevivência psíquica”, explica.

A dimensão autobiográfica do livro também se manifesta visualmente na capa, que traz uma fotografia da autora em seus vinte anos. A escolha da imagem representa, segundo ela, uma reconciliação com diferentes fases de sua história pessoal. “Publicar meus livros é uma forma de afirmar minha existência. Passei muitos anos me escondendo; agora quero ser vista, lida e ouvida.”

Além da literatura, Luciana Palhares construiu uma trajetória artística e profissional diversificada. Formada em artes cênicas pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, atuou no teatro, no cinema e na produção cultural antes de ampliar seu campo de atuação para terapias holísticas e práticas de autoconhecimento. Em Barcelona, cidade onde vive atualmente, também trabalhou como modelo vivo em escolas de arte, experiência que contribuiu para aprofundar sua relação com o corpo, a expressão e a criação.

A autora já foi finalista de concursos literários como o Prêmio Marie Claire de Contos Eróticos, em 2012, e o Prêmio Microconto de Ouro, em 2023. Paralelamente à divulgação de seu livro de estreia, Luciana desenvolve novos projetos literários, entre eles dois volumes de poesia — um em português e outro em inglês — além de iniciativas voltadas à escrita terapêutica, área na qual pretende oferecer mentorias e oficinas.

Com Para entender uma história de amor, Luciana Palhares apresenta ao público um trabalho que transita entre literatura e experiência pessoal, propondo uma reflexão sensível sobre os caminhos do amor, da memória e da reconstrução de si. Em uma narrativa que alterna delicadeza e franqueza emocional, a autora transforma vivências íntimas em matéria literária, convidando o leitor a revisitar suas próprias histórias e afetos.

Sobre a autora

Luciana Palhares nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Atriz formada pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), construiu uma carreira que atravessa teatro, cinema, produção cultural, terapias holísticas e escrita. Finalista de concursos literários como o Prêmio Marie Claire de Contos Eróticos (2012) e o Prêmio Microconto de Ouro (2023), atualmente vive entre projetos artísticos na Europa e sua produção literária. Para entender uma história de amor marca sua estreia editorial.

Educação para transformar: nova edição de obra sobre sustentabilidade no ensino superior reforça papel estratégico da formação docente


Em um cenário global marcado por crises ambientais, desigualdades sociais e desafios educacionais cada vez mais complexos, a terceira edição do livro “Sustentabilidade no ensino superior: uma prática transdisciplinar na formação de professores”, da pesquisadora Carla Conti, chega ao público pela Editora Scotti como uma contribuição relevante ao debate sobre o papel transformador da educação. A obra, cuja primeira edição foi publicada há cerca de quinze anos, retorna atualizada e reafirma a necessidade de repensar os processos formativos no ensino superior a partir de uma perspectiva que articule sustentabilidade, cidadania e responsabilidade social.

O lançamento da nova edição ocorreu em importantes eventos literários e acadêmicos do país, incluindo a Bienal do Livro do Rio de Janeiro e a Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). A autora também apresentará o trabalho no I Encontro Interdisciplinar em Ciência da Informação: Comunicação, Tecnologia e Educação, programado para o dia 2 de outubro, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.

A publicação reúne reflexões teóricas e relatos de práticas pedagógicas desenvolvidas no curso de Letras, nas quais a sustentabilidade da vida foi adotada como eixo central para a elaboração de trabalhos de conclusão de curso. Ao longo da obra, Carla Conti apresenta experiências formativas que integram ensino, pesquisa e prática docente, demonstrando como futuros professores de língua portuguesa, literatura e língua inglesa podem incorporar em suas atividades temas como preservação ambiental, cultura de paz, direitos humanos, valores éticos e responsabilidade coletiva.

Entre os materiais analisados estão relatórios de estágio supervisionado, planos de aula e projetos pedagógicos transdisciplinares, que evidenciam caminhos possíveis para a construção de práticas educacionais comprometidas com a formação de cidadãos críticos e socialmente engajados. A proposta central do livro é que a sustentabilidade não seja tratada apenas como conteúdo curricular isolado, mas como princípio orientador das práticas educativas e da formação docente.

Para a autora, a formação de professores precisa ultrapassar os limites de uma abordagem estritamente técnica e incorporar uma visão mais ampla do conhecimento, capaz de dialogar com diferentes áreas do saber e com os desafios contemporâneos da sociedade. Em um dos trechos da obra, Carla Conti destaca: “Pensar dessa forma é um exercício que pode ser aprendido na vivência e na experiência com o mundo. Significa abrir-se ao desconhecido, aceitar desafios, respeitar as diferenças e colocar o conhecimento a serviço do coletivo”.

A obra estabelece diálogo com importantes documentos internacionais que orientam reflexões sobre educação e sustentabilidade, como a Carta da Terra, a Carta da Ecopedagogia e a Carta da Transdisciplinaridade. Esses referenciais reforçam a ideia de que a educação deve contribuir para a formação de sujeitos capazes de compreender sua inserção no mundo de maneira responsável, desenvolvendo aquilo que a autora denomina de “consciência local e planetária”.

A edição conta ainda com apresentação da professora Anabela Simões, da Universidade de Aveiro, em Portugal, que destaca o potencial transformador da proposta apresentada no livro. Segundo ela, “a obra inspira educadores a acreditarem que a educação pode efetivamente contribuir para transformar o mundo, incentivando práticas que fortaleçam uma sociedade mais consciente, solidária e sustentável”.

O prefácio é assinado pela professora Andrea Kochhann, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que ressalta a relevância da temática abordada. Para ela, discutir sustentabilidade como dimensão da vida cotidiana e da prática pedagógica é um processo contínuo que precisa ser incorporado às rotinas acadêmicas e educativas.

Voltado a professores, gestores educacionais, pesquisadores e estudantes da área de educação, o livro se apresenta como um instrumento de reflexão e inspiração para aqueles que buscam desenvolver práticas pedagógicas inovadoras e alinhadas aos desafios do século XXI.

Sobre a autora

Carla Conti é doutora em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e realizou estágio pós-doutoral em Gestão da Informação na Universidade do Porto, em Portugal. Atua como professora na graduação e no mestrado em Educação da Universidade Estadual de Goiás (UEG), onde desenvolve pesquisas nas áreas de educação em direitos humanos, gênero e tecnologias digitais.

Natural de Passos, em Minas Gerais, a autora reside atualmente em Inhumas (GO) e dedica-se também à produção literária, explorando em seus livros temas relacionados ao desenvolvimento humano, à reflexão social e ao papel transformador da educação.

O livro está disponível para compra em plataformas digitais.

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Wallace Armani lança “Por uma administração socialista” e propõe uma crítica marxista à lógica capitalista nas organizações


O doutorando em Sociologia Política e professor Wallace Armani acaba de lançar o livro Por uma administração socialista, publicado pela Editora Diálogo Freiriano. A obra apresenta uma análise crítica da Administração a partir da tradição marxista, propondo uma reflexão sobre esse campo do conhecimento à luz da crítica da economia política e do materialismo histórico.

Distanciando-se de manuais tradicionais da área, o livro se apresenta como um ensaio político e teórico que busca problematizar a forma como a Administração se consolidou como um dos principais instrumentos de organização e legitimação das relações capitalistas. Para Armani, a chamada “administração científica” — frequentemente apresentada como um conjunto de técnicas neutras de gestão — atua, na prática, como uma linguagem estruturante do neoliberalismo contemporâneo.

Segundo o autor, essa racionalidade administrativa ultrapassa os limites do mundo empresarial e passa a orientar o funcionamento de diversas instituições sociais. “A Administração tornou-se a gramática dominante do neoliberalismo, reproduzida em espaços tão diversos quanto empresas privadas, organizações não governamentais, partidos políticos, sindicatos, igrejas e até estruturas governamentais”, argumenta.

Nesse contexto, Por uma administração socialista busca revelar como os métodos administrativos influenciam diretamente a organização do trabalho e a vida cotidiana dos trabalhadores. A obra questiona a ideia de neutralidade técnica que frequentemente sustenta os discursos gerenciais e propõe uma crítica sistemática às formas de dominação produzidas pela lógica do capital.

O livro também se posiciona de forma explícita no debate político e ideológico contemporâneo. Armani rejeita interpretações da realidade fundamentadas em perspectivas positivistas, neoliberais ou pós-estruturalistas, que, em sua avaliação, acabam por reforçar a permanência das estruturas existentes. Em contraposição, o autor sustenta que a superação das desigualdades estruturais do capitalismo depende de uma transformação social profunda.

“Apresento o socialismo como condição necessária para a emancipação humana e para a construção de uma sociedade orientada em direção ao comunismo. Não acredito em reformas capazes de humanizar o capitalismo ou em um suposto ‘capitalismo com rosto social’”, afirma.

A motivação para a escrita do livro surgiu da experiência de Armani como professor da disciplina Ciências Sociais e Humanas para estudantes dos cursos de Administração e Ciências Contábeis, aliada às pesquisas desenvolvidas em seu doutorado. De acordo com o autor, os debates acadêmicos e pedagógicos acumulados ao longo dessas atividades forneceram as bases teóricas e analíticas que estruturam a obra.

Grande parte da escrita foi realizada durante o primeiro semestre de 2025, período em que Armani reuniu reflexões provenientes de suas leituras e investigações acadêmicas. O resultado é um texto de caráter ensaístico, concebido deliberadamente em linguagem acessível, com o objetivo de dialogar não apenas com especialistas, mas também com leitores interessados em compreender criticamente as estruturas de poder presentes nas organizações.

O autor afirma que o processo de elaboração do livro também representou um momento de síntese intelectual. “A escrita permitiu organizar diversas reflexões que já vinham sendo construídas ao longo dos anos, mas que ainda não haviam encontrado as condições materiais necessárias para se transformar em obra”, explica.

A publicação reflete igualmente a trajetória acadêmica e profissional de Armani, que combina pesquisa teórica com experiências práticas no campo da gestão. Além da atuação como pesquisador, ele dirige sua própria escola de idiomas e participa de conselhos fiscais sindicais, experiências que, segundo o autor, contribuíram para aprofundar sua percepção crítica sobre as dinâmicas do trabalho e da organização produtiva no capitalismo contemporâneo.

Para discutir os principais temas abordados no livro, será realizado um encontro on-line com o autor no dia 25 de setembro, às 19h30, no canal Nepólis (@nepolis.uemg) no Instagram. O debate contará também com a participação de Caio Marçal e Joana Syrio. O link para a transmissão será disponibilizado na biografia do perfil no dia do evento.


Sobre o autor

Wallace Armani, 48 anos, nasceu em Belo Horizonte e atualmente reside no Rio de Janeiro. É mestre e doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ-UCAM. Possui graduação em Secretariado Executivo, Empreendedorismo, Ciências Humanas, Ciência Política e Gestão de Partidos Políticos, além de três pós-graduações em áreas correlatas.

Atua como diretor-geral do Wallace Armani – Centro de Idiomas e Outros Estudos (CIOE) e como editor-geral da Editora Simulacro. Reconhecido como hiperpoliglota pela HYPIA (The International Association of Hyperpolyglots), também é autor do livro Impeachment: Sinal de Crise da Democracia (Diálogo Freiriano, 2024), além de obras de ficção científica e ensaios sociológicos publicados pela Editora Simulacro.


Encontro on-line sobre a obra

Data: 25 de setembro
Horário: 19h30
Local: Canal Nepólis no Instagram (@nepolis.uemg)
Participantes: Wallace Armani, Caio Marçal e Joana Syrio

“A Torre”, estreia poética de Thaís Alcoforado, utiliza o tarot como arquitetura simbólica para narrar ruínas, travessias e renascimentos


Publicada pela Editora Primata, a obra marca o início da trajetória literária da recifense Thaís Alcoforado. Em A Torre, a autora constrói uma poética que dialoga com os arcanos maiores do tarot e com referências da literatura e do pensamento contemporâneo para elaborar uma cartografia sensível sobre trauma, perda, autoconhecimento e transformação. O livro propõe ao leitor uma travessia simbólica pelos escombros da experiência humana, sugerindo que todo colapso pode também ser ponto de partida para novas fundações.

Com 116 páginas, a publicação se organiza a partir da imagem central da carta A Torre, um dos arcanos mais emblemáticos do tarot, tradicionalmente associado à ruptura de estruturas, revelações abruptas e mudanças inevitáveis. A partir desse símbolo, Alcoforado desenvolve uma sequência de poemas que dialogam também com outros seis arcanos do baralho, transformando o tarot em linguagem poética e dispositivo de reflexão existencial.

O livro conta com prefácio da psicanalista, jornalista e escritora Gabrielle Estevans, que descreve a obra como um espaço de reconstrução simbólica. Segundo ela, o gesto de escrita da autora reproduz o próprio movimento da carta que inspira o título da obra: o colapso necessário para que algo novo possa surgir.

“Ao escrever, Thaís deixa, pela segunda vez, a própria Torre ruir. No vazio que se abre, escuta a linguagem dos sonhos, do corpo e das cartas. Ao fim, a lalangue é solo fértil. A queda, uma nova fundação. E o livro, uma catedral portátil para todos aqueles que, de algum modo, também foram expulsos de seus territórios.”

Nesse contexto, A Torre apresenta-se como um verdadeiro livro-ritual, em que os poemas funcionam simultaneamente como confissão íntima, exercício de elaboração psíquica e espécie de oráculo literário. Os versos investigam aquilo que ocorre antes, durante e depois das rupturas — sejam elas emocionais, afetivas ou simbólicas. Mais do que narrar o desmoronamento, a autora se interessa pelas brechas que surgem entre os escombros: os momentos de lucidez, libertação e reconfiguração que se tornam possíveis após a queda.

Para Gabrielle Estevans, o tarot, na obra, não é apenas tema, mas também estrutura narrativa e linguagem simbólica. Os arcanos funcionam como eixos interpretativos que organizam a experiência poética, permitindo à autora explorar diferentes dimensões do colapso — desde o fim de relações até o questionamento de estruturas familiares, identidades e desejos.

Poesia como oráculo

A própria autora descreve o livro como um experimento de poesia oracular, no qual tarot e escrita se aproximam como ferramentas de introspecção e autoconhecimento. Segundo Alcoforado, os poemas surgiram inicialmente como uma forma de sobrevivência emocional e gesto de fé na continuidade da vida. A unidade do projeto, porém, tornou-se mais clara durante sua participação nas oficinas de Escriterapia, conduzidas por Gabrielle Estevans, quando percebeu que os textos possuíam conexões internas e poderiam dialogar diretamente com os arcanos do tarot.

Para a poeta, tanto a poesia quanto o tarot são práticas de escuta e interpretação do mundo.

“O tempo todo seguimos pistas, recebemos indícios. Estar presente é não ignorar essas pistas. Essa é a verdadeira magia, e tanto o tarot quanto a poesia podem nos ajudar nessa missão”, afirma.

Entre territórios, fronteiras e silêncios

A trajetória de Thaís Alcoforado atravessa múltiplos territórios e experiências culturais. Nascida no Recife, a autora é advogada, mestre em Direito Internacional e especialista em estudos de paz e conflito. Ao longo de sua carreira como trabalhadora humanitária, viveu em países como Senegal, Irã e República Dominicana.

Atualmente residente no Panamá, a escritora passou o último ano na província de Darién, região rural próxima à fronteira com a Colômbia. Foi nesse ambiente de natureza intensa e relativa reclusão que a escrita e o tarot ganharam novo espaço em sua rotina, tornando-se práticas essenciais de reflexão e criação.

O isolamento, a convivência com a paisagem selvática e o contato cotidiano com animais e comunidades locais contribuíram para moldar o ambiente sensível em que A Torre foi concebido.

“Percebi que quanto mais se escreve, mais se torna urgente escrever. Agora, minha meta é manter esse canal aberto, criando espaços intencionais para que a escrita exista dentro da vida cotidiana”, afirma.

Referências literárias e simbólicas

No campo da poesia brasileira contemporânea, Alcoforado aponta como referências autoras como Bruna Beber, Ana Estaregui, Prisca Agustoni, Sofia Mariutti, Mar Becker e Júlia Carvalho Hansen.

No universo simbólico do tarot, destaca-se a influência de Alejandro Jodorowsky e da obra O Caminho do Tarot, escrita em parceria com Marianne Costa.

Entre as leituras que dialogam diretamente com o projeto literário do livro estão também os diários de Susan Sontag, o ensaio poético Eros, o Amargo-Doce, de Anne Carson, e o clássico Mulheres que Correm com os Lobos, da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés.

Essas referências alimentam a busca da autora por uma escrita que combine experiência cotidiana, imaginação simbólica e espiritualidade, criando uma poesia sensorial que transita entre diferentes dimensões da experiência humana.

Poema

Trecho do poema “Hefesto”, presente no livro (pág. 19):

Como a construção

A catástrofe também demanda paciência

Ainda assim, o momento exato do desabamento

Parece sempre repentino

Os acontecimentos teriam sido devastadores

Se eu não tivesse começado a me preparar

Sem suspeita

Justo a tempo

Para todo tipo de emergências

Tudo que veio antes, um ensaio

Tudo o que vier depois, uma réplica

Do choque primordial


Ficha técnica

Título: A Torre
Autora: Thaís Alcoforado
Editora: Editora Primata
Ano: 2025
Páginas: 116
ISBN: 978-65-5269-041-8
Gênero: Poesia

Instagram da autora:
https://www.instagram.com/alcoforado.thais/

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