A obra Uma teoria do poder global (2024), do cientista político brasileiro José Luís Fiori, apresenta uma interpretação ambiciosa da história do capitalismo e da política internacional. Publicado pela Editora Vozes, o livro reúne mais de quatro décadas de pesquisa do autor e propõe uma tese central: o poder político — e não o mercado — é o verdadeiro motor da formação do sistema mundial moderno.
A partir de ensaios escritos ao longo de sua trajetória acadêmica, Fiori constrói uma narrativa que conecta guerras, formação de Estados, economia e hegemonia internacional. O resultado é uma obra densa, provocativa e profundamente interdisciplinar, que dialoga com história, economia política e geopolítica.
Logo na apresentação, o autor explica o eixo de sua investigação:
“Esta obra reúne vários artigos e ensaios que fazem parte de uma longa pesquisa histórica e de uma reflexão teórica […] a respeito da dinâmica expansiva do ‘poder global’.” (p. 34)
Essa reflexão parte de um princípio radical: o poder tende sempre a se expandir, criando estruturas hierárquicas e conflitos constantes entre Estados.
A teoria central: o poder como força expansiva
O argumento mais original do livro está na formulação de uma teoria segundo a qual o poder funciona como um fluxo permanente de expansão e competição. Para Fiori, não existe equilíbrio duradouro no sistema internacional, pois cada unidade política busca ampliar continuamente sua própria capacidade de dominação.
O autor resume essa ideia de maneira quase axiológica:
“O poder é movimento, é fluxo permanente, muito mais do que um estoque de equipamentos […] o poder só existe enquanto é exercido e acumulado.” (p. 43)
Essa visão aproxima a política internacional de uma lógica dinâmica e conflitiva, em que hegemonias surgem, se expandem e eventualmente entram em crise. Assim, a história global não seria uma trajetória linear rumo à cooperação, mas um sistema permanente de competição entre Estados.
Guerra, riqueza e nascimento do capitalismo
Um dos pontos mais controversos da obra é a inversão de uma ideia clássica da economia política. Para pensadores como Adam Smith ou Karl Marx, a acumulação de riqueza está associada ao desenvolvimento das trocas e da produção. Fiori, porém, sugere que o poder precede o excedente econômico.
Segundo ele:
“A verdadeira origem do ‘excedente’ foi o poder dos soberanos e sua capacidade de definir e cobrar tributos.” (p. 45)
Essa hipótese implica uma releitura da origem do capitalismo. Em vez de surgir apenas do comércio ou da inovação produtiva, a riqueza teria sido impulsionada pela conquista territorial, pela tributação e pela guerra.
O historiador Charles Tilly é citado como referência para reforçar essa perspectiva histórica:
“Foi a guerra que teceu a rede europeia de Estados nacionais.” (p. 44)
Assim, guerras, impostos, moeda e dívida pública aparecem como pilares da formação do sistema capitalista moderno.
Hegemonia global e a ascensão dos Estados Unidos
Outra parte relevante da obra analisa a formação do poder global dos Estados Unidos. Fiori discute episódios decisivos da política internacional — como a Guerra do Vietnã, a crise do sistema Bretton Woods e a Guerra do Golfo — para mostrar como Washington consolidou sua posição hegemônica.
Sobre o impacto dessas transformações na década de 1970, o autor escreve:
“Entre 1970 e 1973, foi como se tudo tivesse vindo abaixo […] muitos analistas anunciaram o fim da supremacia mundial norte-americana.” (p. 35)
Contudo, segundo sua interpretação, os Estados Unidos reagiram redefinindo sua estratégia econômica e geopolítica, consolidando um poder militar e financeiro sem precedentes.
Essa leitura desafia teses recorrentes sobre o “declínio inevitável” da hegemonia americana e sugere que o sistema internacional funciona como um campo de expansão permanente de poder, em que novos polos emergem sem necessariamente substituir totalmente os anteriores.
Uma teoria do poder global é uma obra de grande ambição intelectual. Seu principal mérito está na tentativa de integrar economia, história e geopolítica em uma única estrutura teórica. Ao colocar o poder — e não o mercado — no centro da análise, Fiori oferece uma interpretação que dialoga tanto com a tradição realista das relações internacionais quanto com a economia política crítica.
Por outro lado, essa amplitude também é um dos desafios do livro. A densidade conceitual e o grande número de referências históricas exigem do leitor familiaridade prévia com debates acadêmicos complexos.
Ainda assim, o livro se destaca por propor uma pergunta fundamental para compreender o mundo contemporâneo: o que realmente move a história — o comércio ou a disputa pelo poder?
Ao responder que a política e a guerra são forças estruturantes do capitalismo global, Fiori provoca o leitor a reconsiderar muitos dos pressupostos da teoria econômica tradicional.
Uma teoria do poder global é uma obra essencial para quem deseja compreender as engrenagens profundas da política internacional. Com uma tese ousada e um vasto aparato histórico, José Luís Fiori propõe uma interpretação inquietante do mundo moderno: o capitalismo não nasceu apenas do mercado, mas da expansão incessante do poder.

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