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Kleiton Ferreira lança romance épico sobre memória e redenção no Brasil sertanejo do século 20

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RESENHA: Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta

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Um bate papo com o autor Vitor Zindacta

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Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

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Kleiton Ferreira lança romance épico sobre memória e redenção no Brasil sertanejo do século 20


Em “Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste…”, o juiz e escritor narra a jornada de um homem que atravessa o século 20 entre soldados, cangaceiros e revolucionários, confrontando as próprias verdades em meio à violência e ao amor.

“Era eu, a vereda, e dois cadáveres ensanguentados. Primeiros corpos crivados por balas a serem captados por estes olhos, cujas gravuras se carimbariam para o resto da vida em meu juízo. Morte ao vivo e a cores. Dois tiros bem dados por um padre. E isso era só o começo da aventura.”
Trecho do livro

Divulgação
O escritor e juiz federal alagoano Kleiton Ferreira lança Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste... (Editora Labrador, 2025, 368 págs.), romance histórico que atravessa os principais conflitos do país no século 20. O protagonista Paulo, narrador da trama, é lançado ainda jovem nas entranhas impiedosas e violentas de grupos revolucionários armados. Astuto e destemido, o rapaz se vale de artimanhas para sobreviver e desvendar mistérios do próprio passado.

Nessa trajetória, ele encontra figuras históricas marcantes, como o político comunista Luís Carlos Prestes e o explorador britânico Percy Fawcett. O romance é o primeiro volume de um total de cinco que narrará os desdobramentos dessa saga, reverenciando obras de mestres da literatura brasileira como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos.

A narrativa é construída em primeira pessoa e organizada em duas linhas temporais: o presente, centrado na velhice do protagonista, e o passado, que detalha sua infância e juventude. A história perpassa temas como verdade, mentira e memória, contradições da natureza humana, Brasil histórico e suas narrativas, culpa, arrependimento e redenção, e relações familiares.

Sobre esse último tópico, o autor revela um toque pessoal. “Fiz um exercício de reflexão: como eu seria, daqui a 30 anos, quando minha filha, já adulta, sequer me conhecesse”, conta Kleiton Ferreira, complementando: “O processo de escrita foi criar uma metáfora para isso, começando por criar também um narrador mentiroso, que iria se justificar pelos erros, transferir a culpa, para no fim reconhecer o fracasso humano.”

DIVULGAÇÃO

Uma obra instigante para compreender as entranhas do Brasil

A trama começa na década de 1980, com o protagonista — um homem de mais de 70 anos — trabalhando como zelador de uma escola pública numa vila rural. Enquanto tenta estabelecer contato com a filha que desconhece o parentesco, relembra os desafios do início de sua vida. A narrativa retorna então ao passado, quando o rapaz órfão vivia com os tios em uma casa paupérrima no interior da Bahia. De lá, é catapultado para o fogo cruzado entre grupos revolucionários, legalistas e desertores, percorrendo caminhos controversos e experimentando situações limites.

Uma das qualidades inegáveis do livro é que nada parece forçado ou inverossímil. Kleiton sustenta com habilidade cada reviravolta nas mais de 360 páginas. Fatos e personagens históricos são apresentados com riqueza de detalhes, resultado de extenso trabalho de pesquisa. A composição de cenas contundentes, combinada a diálogos rápidos e marcantes, confere à narrativa um estilo cinematográfico.

O conjunto da obra evidencia a influência de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, ao mesmo tempo em que Kleiton Ferreira entrega uma obra singular, instigante e relevante para compreender as entranhas do Brasil.

O juiz escritor

Kleiton Ferreira nasceu e vive em Arapiraca (AL), região metropolitana do agreste alagoano. Formado em Direito, trabalhou como montador de móveis e carteiro antes de ingressar na área jurídica, primeiro como estagiário da Justiça Federal e depois como advogado. Em 2019, foi aprovado para o cargo de juiz federal.

Sua trajetória inspiradora rendeu o livro “Na última vaga: De montador de móveis a juiz federal: a luta para ser aprovado no concurso mais difícil do Brasil” (Editora Labrador, 192 págs.), lançado em 2024.

No exercício da magistratura, Kleiton destaca-se pela sensibilidade com que atende as pessoas. Trechos das audiências públicas são compartilhados nas redes sociais — no Instagram, o juiz soma 2 milhões de seguidores — e registram milhares de visualizações e comentários elogiando sua empatia e seriedade, especialmente no atendimento a trabalhadores prestes a se aposentar.

O cenário jurídico também inspirou seu romance anterior, “A espada da justiça” (Editora Labrador, 160 págs.), protagonizado por um juiz federal refletindo sobre a vida e o trabalho após a chegada de um jovem substituto. Com Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste..., Kleiton demonstra maturidade literária e dá mais um passo na consolidação da carreira como escritor.

“Primeiro, a aproximação familiar (a tempo) com relação à minha filha; segundo, a reflexão sobre os erros do passado (que em alguma medida o protagonista também comete); e o poder do amadurecimento, pois como Guimarães Rosa dizia: ‘o melhor da vida é que as pessoas podem mudar’”, reflete o autor.

Trecho do livro (pág. 77)

“— Ele pode me matar — soltei tenso e indignado.
— Pode, eu sei — ele respondeu serenamente. — É por isso que a coragem faz um homem ser um homem de verdade, controlando o medo de morrer. Você não quer morrer, mas se consome pela angústia de não poder ajudar. Quer ajudar e naturalmente tem medo, e então procura motivos para ficar inerte, indiferente, lava as mãos, se esconde, vira o rosto, prefere não ver o sofrimento do outro, mesmo sabendo que ele está lá e existe, porque assim mente a si com motivos apenas verossímeis de que não sabia de nada.
— Tempo demais se passou. O que há de fazer agora? E de mãos limpas? — eu insistia em empecilhos dos mais diversos.
— Astúcia, Paulo. Astúcia! Coloque-se no lugar do homem.”

FICHA TÉCNICA

Livro: Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste...
Autor: Kleiton Ferreira
Editora: Labrador
Páginas: 368

ISBN: 978-65-5625-722-8

“Cronofagia”, de Carla Brasil: quando a poesia mastiga o tempo

 

Leonardo Gudel

“A poeta não foge do sujo, vai até o limite, sempre em favor da ideia, sem sacrificar o encantamento perverso de algumas imagens, beirando o sórdido.”
 — Ruy Guerra, no prefácio de “Cronofagia”

Carla Brasil (@eu.carlabrasil) não estreia de forma tímida. Cronofagia (Editora Appris) é uma irrupção — uma obra que atravessa o leitor com seus 37 poemas de carne e ironia, onde o tempo deixa de ser medida e se torna matéria. É poesia que grita, sangra e debocha do presente, ao mesmo tempo em que o contempla com assombro.

Com prefácio do cineasta, dramaturgo e também poeta Ruy Guerra, o livro já nasce em meio a elogios raros. “É muito bom ler uma jovem poeta como Carla Brasil, que na sua primeira arremetida chega tão longe. Me dá vontade de usar um daqueles sonoros palavrões descarados, para escancarar o meu entusiasmo”, escreve ele, destacando a ousadia e a densidade da autora.

A obra, que já foi lançada na Bienal do Livro Rio e na FLIP, ganha uma nova sessão especial na Livraria Travessa, de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97), no Rio, com um bate-papo exclusivo com Ruy Guerra. O encontro acontece dia 13 de novembro, às 19h.

O tempo como devorador — e como personagem

Na tensão entre lirismo e brutalidade, Carla Brasil transforma o tempo — esse algoz invisível e onipresente — em protagonista. Seus versos encaram a ansiedade digital, a compressão da subjetividade, o esgotamento da produtividade e a ironia cruel de uma era que promete ganho de tempo, mas entrega  apenas exaustão.

“Esse jogo perverso entre aceleração e esgotamento é a essência do livro”, explica a autora. “O tempo não é um bem que possuímos, mas uma força que nos intersecta, nos escapa e, ao mesmo tempo, nos consome.”

A partir dessa visão, Cronofagia desenha uma experiência poética que desafia rótulos. A identidade é fluida, a memória é falha, o amor é um hiato, e a existência — uma coreografia entre o absurdo e o encantamento.

Divulgação

Entre o escracho e o abismo

Para Ruy Guerra, a escrita de Carla Brasil é um “retrato impiedoso de um tempo ansioso, barulhento e vazio”. Sua poesia transita entre o sublime e o grotesco, entre a filosofia e o esgoto, sem concessões. “Carla Brasil abre o seu livro com uma paródia sofrida e indignada do hino nacional, marcando a sua vocação do abismo”, observa o autor, referindo-se ao poema “Hino Marginal Brasileiro”, que subverte o patriotismo em um grito de desencanto:

“Terra calada,
 Entre outras mil,
 És tu, Brasil,
 A mais roubada!
 Pros filhos deste solo és tão hostil,
 Pátria amarga,
 Brasil!”

Em outro momento, em “Clichês do tempo”, o embate com o relógio é íntimo e devastador:

“corre o tempo e eu não corro
 ele salta colinas
 eu me destroço em pedregulhos
 ele voa absorto
 e eu fico na lama,
 no rastro bastardo do seu pecado”

Poesia Visual

Multiartista de formação e atuação, Carla Brasil assina também a direção criativa do projeto gráfico de Cronofagia. Desde a concepção da capa até o conceito das ilustrações de Daniel Uires, sua visão estética compõe o mesmo corpo poético dos textos. “A fusão entre palavra e imagem não são apenas ilustrativas — fazem parte da narrativa do livro”, afirma.

Uma autora que provoca territórios

Poeta, escritora e artista visual, Carla Brasil vive e cria no Rio de Janeiro, movida por um impulso que une literatura, design, artes plásticas e fotografia. Sua produção reflete as contradições da contemporaneidade com lirismo, ironia e crítica social, sem medo de encarar o grotesco como matéria estética.

Seu talento já foi reconhecido em premiações literárias nacionais, como o Prêmio Poesia Agora – Primavera 2020 (Editora Trevo) e a Seleção Poesia Brasileira – Poetize 2021 (Vivara Editora Nacional), nas quais teve poemas selecionados entre milhares de inscritos.

Em Cronofagia, Carla Brasil faz da linguagem o campo de batalha onde o eu-lírico enfrenta o colapso cotidiano com sarcasmo, melancolia e fúria poética. Um livro que devora o tempo — antes que o tempo nos devore.

FICHA TÉCNICA

Livro: Cronofagia
Autora: Carla Brasil
Prefácio: Ruy Guerra
Editora: Appris
Ilustrações: Daniel Uires
Disponível em: editoraappris.com.br

Antonio Arruda lança “O corte que desafia a lâmina”



“Há, em todo pássaro, um limite de liberdade e morte.
A mesma garra que impulsiona para o voo é a que sustenta o pouso
(e todo pouso de pássaro carrega um pouco de morte).
Há, em todo pássaro
uma chama alimentada pelo vento de seu voo
se apaga
fim do dia
no galho repousado.”
— Trecho do livro

Roteirista do programa Era Uma Vez no Quintal, da TV Cultura (Vencedor do prêmio APCA em 2014) e das duas temporadas da série da Netflix Cidade Invisível (indicada ao ABRA em 2022), o também jornalista e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada Antonio Arruda estreia na literatura com o livro O corte que desafia a lâmina (Editora Cachalote, 131 págs.). A obra, híbrida entre ficção e autobiografia, se estrutura como um inventário poético e visceral de experiências extremas — narrativas que oscilam entre o íntimo e o simbólico, o real e o alegórico, o profano e o sagrado, costuradas por uma estética do enfrentamento. Os textos mesclam corpo, silêncio, rito e transformação.

Lançado neste ano, o livro já vai para a primeira reimpressão e teve lançamentos em São Paulo e Santos (SP), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ) e Aracaju (SE). Também foi tema de discussão no Clube de Leitura "O Inconsciente em Verso", da psicóloga, psicanalista e doutora em Educação Mariana Giorgion.

O ponto de partida do livro é a morte do pai do escritor, vítima de um câncer que extirpou parte de seus órgãos, deixando-o sem voz. E é justamente da ausência da voz do pai que nasce a voz poética do autor. E essa dor não se esconde, mas serve como caminho: “O livro fala do atravessamento do eu por suas dores, seus traumas, num enfrentamento entre o corte e a lâmina”, explica Antonio. Essa dualidade, que se dá no atravessamento da dor juntamente com a manifestação do erótico, forma a proposta estética do autor, que define sua obra como construída sobre uma estética da cicatriz, tanto na forma quanto no conteúdo.

O livro traz uma linguagem sensível, onde o ritmo e as pausas potencializam a densidade emocional do texto. Os textos nasceram a partir da oficina literária da poeta Isadora Krieger, onde as criações eram lidas e comentadas de forma coletiva.  Mas houve um momento em que o autor precisou ficar sozinho com seus textos para “ouvi-los”. “Foi então que a lâmina-palavra começou a cortar o livro-corpo”, conta. “Cada texto foi ganhando formas criadas pela lâmina-palavra, literalmente. E o conto virou poema que virou aforismo que virou ensaio - essas camadas todas entrelaçadas. O que eu busquei foi olhar de verdade para o percurso do corte à cicatriz. Atravessar as camadas. Era como se eu conseguisse sentir o movimento da navalha-palavra riscando a pele da página e virando texto.”   

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Logo no capítulo de abertura, Em nome do filho, um homem precisa retirar uma parte doente do próprio corpo para tentar sobreviver. É um conto de extrema fisicalidade, em que cada vírgula parece cortar — ou curar — junto ao leitor. Os dez capítulos seguintes, apesar de autônomos, mantêm uma relação estruturada em ambiguidades e ambivalências presentes na tensão dual entre eros e tânatos. “Cada texto traz um acontecido inaudito de dor aguda. Mas que propõe, ao mesmo tempo, um percurso em direção ao epifânico, ao anímico”, define o autor.

A obra de Antonio está profundamente ligada à sua vivência pessoal, marcada por experiências de violência que ele transforma em linguagem e enfrentamento. Temas como morte, sexualidade e homoerotismo atravessam sua escrita, refletindo sua trajetória como homem gay assumido desde os 17 anos. O conflito entre desejo e repressão cotidiana torna-se um eixo central de sua criação. Além disso, sua ligação intensa com a umbanda e religiões de matriz africana, vivenciada desde a infância, também permeia seus textos, que incorporam aspectos míticos, místicos e espirituais ligados à sua atuação como pai de santo.

Uma das passagens mais emblemáticas do livro ilustra essa abordagem: um homem carrega a carcaça de uma tartaruga devorada por urubus até o mar — e afunda com ela. Um gesto que beira o absurdo, mas que simboliza com força a tensão entre morte e renascimento que atravessa toda a obra.

Da TV e das salas de aula para a literatura

A estreia de Antonio na literatura é, na verdade, a realização de um sonho de infância. “A palavra poética, literária, como matéria-prima e forma de percepção e expressão, faz parte da minha vida desde sempre”, conta. “A publicação de O corte que desafia a lâmina representa algo que vislumbro desde os meus nove anos. Ver esse sonho materializado é uma alegria imensa.”

Natural de Guarulhos (SP), nascido em 1977 e criado na capital paulista, Antonio tem uma trajetória marcada pela multiplicidade. Passou pelos cursos de Música e Letras após se formar em Jornalismo pela Cásper Líbero, em 1998. Em 2008, concluiu o mestrado em Teoria e Literatura Comparada pela USP.

No audiovisual, construiu uma carreira sólida. Foi roteirista de programas premiados da TV Cultura, como Quintal da Cultura e Era uma vez no Quintal, que recebeu o prêmio APCA de Melhor Programa Infantil em 2014. Na Netflix, fez parte da equipe de  roteiristas das duas temporadas da série Cidade Invisível,  indicada ao prêmio ABRA em 2022   e protagonizada por Marcos Pigossi e Alessandra Negrini. Também foi consultor criativo da série espanhola Santo (coprodução com o Brasil) e co-roteirista do longa O Mel é Mais Doce que o Sangue (2023), dirigido por André Guerreiro Lopes.

Como jornalista, atuou na Folha de São Paulo, especialmente no caderno Equilíbrio, com reportagens no Brasil e no exterior. Em países como Alemanha, França, Holanda e República Tcheca, investigou o papel cultural dos mercados públicos em cidades como Paris, Amsterdã e Praga.

No campo da educação, lecionou literatura e redação para o ensino médio e cursinhos pré-vestibulares, além de disciplinas como Semiótica e Linguagens no ensino superior. Hoje, atua como coordenador pedagógico e educacional para adolescentes.

Leia um trecho (pág. 104):

“Caminhava através da clareira da mata em direção à praia. Descalça. Os pés sentiam as deformidades do solo e as suas próprias. O solo sentia as deformidades dos pés e a sua própria. Ela chão, ele mulher. As terras conviviam em cumplicidade de acorde e escultura. Terras-pés, terras-ela, ela-solos, era noite – comiam os restos do dia, os cabelos dela pretos comiam a noite, restos de dia morno, o vento criava movências sutis na pele de maresia, cada célula-terra, cada célula-mulher atritavam-se delicadamente num mesmo universo. Mínimo e total. Caminhava alicerçando enorme incerteza: as mãos sobre o ventre.

Sentou-se no centro da dúvida. Sombreavam sobre sua pele folhas, riscados de seiva, ela-seivas, ela-noite cercada de árvores fecundas, ela-lua, no centro do caminho, cheia, encruza. No centro do centro, do inquieto movimento das possibilidades, o devir, esse cristal turvo.

As mãos sobre o ventre.

Olhou o motivo da dor: um espinho. Bem maior do que se concebe de um espinho cravado no pé. Inútil tentá-lo arrancar – quanto mais o fazia, mais penetrava na carne exausta.”

Adquira “O corte que desafia a lâmina” pelo site da Editora Cachalote:
https://aboio.com.br/loja/produto/o-corte-que-desafia-a-lamina

A Hora do Mal: Uma Ambição Desmedida que Cede à Simplicidade e ao Vazio


"A Hora do Mal", o novo épico de terror de Zach Cregger, chegou aos cinemas envolto em um burburinho colossal, prometendo ser o novo divisor de águas do gênero. No entanto, ao contrário de seu aclamado trabalho anterior, este filme se revela uma experiência frustrante: uma produção que mira nas estrelas da narrativa complexa, mas tropeça feio, entregando um enredo que é, no final das contas, simples e insatisfatório, mascarado por uma estrutura pretensiosa.

A Questão da Estrutura: Enrolação Disfarçada de Arte

O filme adota uma abordagem fragmentada, dividida em capítulos, cada um focado no ponto de vista de um personagem diferente. A intenção, claramente, é criar um quebra-cabeça angustiante e multifacetado, evocando a grandiosidade de épicos como Magnólia, como o próprio diretor mencionou.

No entanto, essa escolha narrativa se torna o calcanhar de Aquiles do filme. Em vez de aprofundar a trama ou os personagens, a repetição de eventos sob diferentes ângulos soa como uma manobra para alongar uma história que, em sua essência, é bastante rasteira. Críticos apontaram que o mistério poderia ter sido resolvido de forma muito mais direta, e as voltas e reviravoltas acabam sendo redundantes, retardando a progressão em vez de enriquecê-la. O que começa como um recurso engenhoso rapidamente se transforma em enrolação (na falta de palavra melhor), esvaziando a tensão em momentos cruciais.

Enredo e Resolução: O Vazio por Trás do Hype

A premissa é excelente: 17 crianças de uma mesma turma desaparecem misteriosamente no meio da noite, deixando para trás o pânico em uma pacata cidade suburbana. O clima de terror e suspense é construído com habilidade na primeira metade. Contudo, quando o filme finalmente decide revelar suas cartas, a decepção é palpável.

A explicação para o desaparecimento é simplória para um épico de duas horas de duração. O que se desenha é um misto de folclore barato e clichês de possessão, que poderia ter sido resolvido em um curta-metragem. O suspense se dilui, e a trama, que parecia prometer profundidade psicológica ou um comentário social afiado, recua para uma solução preguiçosa. A grandiosidade prometida no início é substituída por uma conclusão que muitos consideraram "forçada" e "carente de substância", aquém do que a expectativa gerada.

Com um elenco de peso, incluindo Julia Garner e Josh Brolin, a expectativa era de performances complexas. No entanto, o formato de capítulos, ironicamente, prejudica o desenvolvimento dos personagens. Muitos deles servem apenas como veículos narrativos para nos guiar por um pedaço da história, sem aprofundamento psicológico real.

A professora Justine Gandy, por exemplo, apesar do histórico complicado e do vício em álcool, acaba sendo um estereótipo funcional. O espectador tem dificuldade em se conectar ou se importar profundamente com o destino desses indivíduos, que parecem mais caricaturas inseridas para cumprir uma função do que seres humanos tridimensionais. A falta de um protagonista claro, com quem o público possa se envolver, é outro fator que dilui o impacto emocional.

Em termos cinematográficos, Cregger demonstra competência técnica, mantendo uma atmosfera tensa e claustrofóbica no início. Há momentos de estranheza visual que, de fato, geram desconforto.

O problema reside na inconsistência tonal. O filme flerta com o terror psicológico, o thriller investigativo e, em vários momentos, com a comédia. Essa mistura, que em Barbarian funcionou bem, aqui parece desorganizada. Muitas cenas, especialmente no clímax, são descritas por parte do público como "hilárias" ou "caricatas", quebrando completamente a imersão. O que deveria ser um espetáculo brutal de horror se transforma em uma sequência de gore exagerado com um toque de humor negro que, para muitos, apenas reforça a falta de seriedade na resolução da trama.

Veredito Final: Um Lixo Bem Maquiado?


"A Hora do Mal" é o perfeito exemplo de ambição sem sustentação. É um filme que se esforça para parecer inventivo e épico, mas que, sob a maquiagem de uma estrutura engenhosa e uma atmosfera bem construída, esconde um vazio de enredo e personagens superficiais. O buzz em torno da produção e a promessa de ser o "melhor terror do ano" se revelam um exagero. No final das contas, o filme deixa um gosto amargo: uma tentativa de horror épico que se perde na própria pretensão, entregando apenas um desfecho simplório e insatisfatório.

RESENHA: TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

A obra TDAH de A a Z: O Manual Definitivo para Entender e Superar, de Vitor Zindacta, publicada de forma independente em 2025, constitui um guia abrangente e prático sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), fundamentado em pesquisas científicas e experiências pessoais do autor. Com estrutura organizada em 22 capítulos, introdução, apêndices e referências, o livro busca desmistificar o TDAH, promovendo estratégias de gerenciamento, autoajuda e perspectivas futuras, com ênfase em abordagens baseadas em evidências como o DSM-5 (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2013) e estudos genéticos recentes. Destinado a leigos, profissionais de saúde e indivíduos com TDAH, o texto é oferecido gratuitamente em formato digital, alinhando-se a uma visão acessível de saúde mental, onde o autor destaca que "o TDAH é uma condição neurobiológica complexa que afeta milhões de pessoas" (ZINDACTA, 2025, Introdução), afetando cerca de 5-7% das crianças e 2-5% dos adultos globalmente.

No plano científico, Zindacta integra narrativas pessoais com dados empíricos, explorando desde conceitos básicos até avanços contemporâneos. O Capítulo 1 define o TDAH como "um transtorno neurodesenvolvimental caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), classificando-o em três tipos: predominantemente desatento, hiperativo-impulsivo e combinado, com sintomas persistentes desde a infância. Indiretamente, o autor diferencia o TDAH de comorbidades como ansiedade, transtorno bipolar e autismo, citando que taxas de comorbidade com ansiedade ou depressão são elevadas, o que exige avaliações multidisciplinares. A visão histórica, traçada desde Sir George Frederic Still em 1902 até o DSM-5-TR de 2022, reflete evoluções neurológicas, como a identificação de desequilíbrios em dopamina e noradrenalina.

Os capítulos subsequentes (2 a 6) detalham sintomas, causas e diagnósticos, com rigor acadêmico. No Capítulo 2, sintomas são categorizados por idade, destacando em crianças hiperatividade motora e em adultos inquietação interna, com critérios diagnósticos exigindo pelo menos seis sintomas persistentes por seis meses. Causas genéticas, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais, como exposições pré-natais, são discutidas no contexto de estudos como GWAS (DEMONTIS et al., 2018). Tratamentos convencionais no Capítulo subsequente incluem psicoestimulantes como metilfenidato e terapias comportamentais, com eficácia comprovada em melhorias de concentração.

Abordagens alternativas e estratégias práticas ocupam capítulos centrais (7 a 21), enfatizando manejo holístico. Zindacta promove mindfulness, nutrição rica em ômega-3 (baseado em BLOCH; QAWASMI, 2011) e exercícios físicos, que elevam neurotransmissores como dopamina, reduzindo sintomas em até 30-50%. Rotinas diárias, como a Técnica Pomodoro, e suporte comunitário via grupos como ABDA são sugeridos para produtividade no trabalho e estudos. O Capítulo 21 aborda estigma, recomendando educação e advocacia, enquanto recursos incluem apps como Todoist e podcasts como "How to ADHD".

O Capítulo 22 projeta avanços futuros, como terapias genéticas e IA para diagnósticos personalizados, citando que "a IA está revolucionando a forma como entendemos e tratamos o TDAH" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 22). Apêndices enriquecem com glossário, exercícios práticos (ex.: planner diário) e referências, incluindo meta-análises sobre corantes alimentares (NIGG et al., 2012).

Pontos fortes residem na acessibilidade, integração de evidências com exemplos reais e foco em neurodiversidade, alinhado a metas da OMS. Fraquezas incluem ausência de ISBN, potencial viés em narrativas pessoais sem dados quantitativos primários e generalizações sobre "cura", que o autor esclarece como gerenciamento crônico. Recomendada para estudos em psicologia, neurociência e educação inclusiva, a obra contribui para o debate sobre saúde mental no Brasil, promovendo empoderamento e redução de estigmas.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Arlington: American Psychiatric Association, 2013.

BLOCH, M. H.; QAWASMI, A. Omega-3 fatty acid supplementation for the treatment of children with attention-deficit/hyperactivity disorder symptomatology: systematic review and meta-analysis. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 50, n. 10, p. 991-1000, 2011.

DEMONTIS, D. et al. Discovery of the first genome-wide significant risk loci for attention deficit/hyperactivity disorder. Nature Genetics, v. 51, n. 1, p. 63-75, 2018.

NIGG, J. T. et al. Meta-analysis of attention-deficit/hyperactivity disorder or attention-deficit/hyperactivity disorder symptoms, restriction diet, and synthetic food color additives. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 51, n. 1, p. 86-97.e8, 2012.

ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

RESENHA: Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico

A obra Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta, lançada em 2025 como uma publicação independente em formato digital, representa uma contribuição significativa para a disseminação de conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autor, com experiência pessoal relatada no Capítulo 1, adota uma abordagem empática e baseada em evidências, alinhada a fontes como o DSM-5-TR (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2022) e dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O livro, estruturado em 13 capítulos, apêndice e referências, visa desmistificar o autismo, promovendo inclusão social e neurodiversidade, com ênfase em diagnóstico precoce, tratamentos comprovados e legislação brasileira. Como guia gratuito, ele atende a famílias, educadores e profissionais de saúde, combatendo desinformação em um contexto onde o Censo do IBGE de 2022, revisado em 2025, estima 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1).

No âmbito científico, Zindacta fundamenta sua análise em pesquisas atualizadas, integrando perspectivas históricas, genéticas e ambientais. No Capítulo 1, o autor define o TEA como "uma condição neurodivergente que molda como uma pessoa interage, comunica e percebe o ambiente ao seu redor" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), citando critérios do DSM-5 que incluem déficits em comunicação social e padrões repetitivos. Essa definição reflete avanços modernos, como os estudos genéticos do Autism Sequencing Consortium (2024), que identificam centenas de genes associados, reforçando a multifatorialidade do TEA. Indiretamente, Zindacta desconstroi mitos persistentes, argumentando que o autismo não é causado por vacinas, conforme meta-análises da OMS e CDC (HVIID et al., 2019), o que contribui para uma visão baseada em evidências e combate estigmas sociais.

Os capítulos centrais (2 a 6) exploram características, causas e tratamentos, com rigor acadêmico. Zindacta classifica o TEA em níveis de suporte (1 a 3), conforme o DSM-5-TR, e discute subtipos históricos como a Síndrome de Asperger, unificada ao espectro em 2013 (ZINDACTA, 2025, Capítulo 2). Fatores genéticos, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais pré-natais, como infecções maternas, são analisados no Capítulo 3, alinhados a pesquisas da Fiocruz (2024). O diagnóstico precoce é enfatizado no Capítulo 4, com ferramentas como ADOS-2 e M-CHAT, destacando subdiagnóstico em meninas devido à camuflagem social. Tratamentos no Capítulo 5 incluem ABA, com eficácia em 65% para habilidades sociais, e TCC para ansiedade, reduzindo sintomas em 50% (ZINDACTA, 2025, Capítulo 5). Cuidados diários, como rotinas visuais que diminuem crises em 50%, são práticos e embasados em estudos da Autism Speaks (2024).

A obra avança para dimensões sociais e legais nos Capítulos 7 a 12, promovendo inclusão. Zindacta defende a presunção de competência e combate barreiras como bullying, reduzido em 45% com programas sociais (Capítulo 8). O papel da família e sociedade é explorado no Capítulo 9, com estratégias para prevenir burnout via mindfulness (redução de 55%). Legislação brasileira, como a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), é comparada a internacionais, como a ADA nos EUA (ZINDACTA, 2025, Capítulo 11). Recursos como ONGs (AMA, ABRAÇA) e telemedicina no SUS são listados no Capítulo 12, com impacto em 40% de redução de barreiras de acesso.

A conclusão no Capítulo 13 sintetiza pontos chave e projeta otimismo, com avanços como subtipos biológicos identificados em 2025 (SIMONS FOUNDATION, 2025) e tecnologias como VR para terapias sociais (redução de ansiedade em 50%). O apêndice oferece glossário e questionário, enriquecendo o uso educacional.

Pontos fortes incluem a acessibilidade, integração de narrativas pessoais com ciência, e foco em neurodiversidade, alinhado aos ODS da ONU. Fraquezas residem na ausência de ISBN e edição independente, potencialmente limitando difusão acadêmica, e em algumas generalizações sem dados quantitativos primários. No entanto, a obra é recomendada para estudos em psicologia, educação inclusiva e saúde pública, contribuindo para uma sociedade mais empática e informada.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. Arlington: American Psychiatric Association, 2022.

AUTISM SEQUENCING CONSORTIUM. Genomic analysis of 116 autism families strengthens known risk genes and highlights promising candidates. NPJ Genomic Medicine, v. 9, p. 21, 2024.

HVIID, A. et al. Measles, mumps, rubella vaccination and autism: a nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine, v. 170, n. 8, p. 513-520, 2019.

SIMONS FOUNDATION. Decomposition of phenotypic heterogeneity in autism reveals etiologically distinct subtypes. Nature Genetics, 2025.

ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico (arquivo .docx): il.

Um bate papo com o autor Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Longe dos grandes eixos editoriais do país, o escritor goiano Vitor Zindacta constrói uma carreira literária marcada pela coragem e pela versatilidade. De romances eróticos que exploram as profundezas do desejo a guias sensíveis sobre o luto, ele transita por gêneros distintos com uma fluidez que instiga e cativa leitores. Estudante de História e História da Arte, Zindacta utiliza seu conhecimento acadêmico como lente para observar e narrar as complexas facetas da experiência humana.

Nesta conversa aprofundada, mergulhamos em seu processo criativo, no impacto de suas obras e nos caminhos que o levaram a explorar territórios tão diversos da escrita.


REDAÇÃO: Vitor, sua bibliografia é notavelmente diversa. Você publicou romances como "Ruínas do Desejo", contos eróticos em "Todos os Ruidosos Pássaros e Outras Devassidões" e um livro de não ficção sobre o luto, "Viver com a Perda". O que te move a explorar gêneros tão distintos?

Vitor Zindacta: Acredito que a vida em si não se encaixa em um único gênero. Sentimos desejo, amor, dor, luto, curiosidade intelectual... São todas facetas da mesma experiência humana. Para mim, a escrita é uma ferramenta para investigar essas diferentes facetas. Cada tema, cada sentimento, parece pedir um formato, uma abordagem, um "gênero" diferente para ser explorado em sua plenitude. Não me vejo como um "autor de um gênero só", mas como um autor interessado na complexidade do ser humano.

REDAÇÃO: Vamos falar sobre "Ruínas do Desejo". O livro aborda uma paixão avassaladora com uma honestidade crua. Qual foi o maior desafio ao construir uma narrativa erótica que também tivesse profundidade psicológica e emocional?

Vitor Zindacta: O maior desafio foi justamente equilibrar a balança. O erotismo, para ser potente, não pode ser apenas a descrição de um ato físico; ele precisa estar carregado de tensão, de psicologia, de história. Em "Ruínas do Desejo", busquei mostrar como o desejo pode ser uma força transformadora e, ao mesmo tempo, destrutiva. O desafio era narrar a intimidade do casal de forma explícita sem que isso soasse gratuito, garantindo que cada cena de sexo revelasse algo novo sobre os personagens, suas vulnerabilidades e o poder que exerciam um sobre o outro.

REDAÇÃO: Em seguida, você publica "Todos os Ruidosos Pássaros", uma coletânea de contos. O que o formato de conto permitiu explorar dentro da temática erótica que o romance não permitia?

Vitor Zindacta: O conto é como uma fotografia, um instante capturado com intensidade máxima. Ele me permitiu explorar uma variedade muito maior de cenários, fetiches, dinâmicas de poder e tipos de relacionamento que não caberiam em um único romance. Pude experimentar com diferentes vozes narrativas e abordar a sexualidade de formas mais fragmentadas e pontuais. Foi um exercício de concisão e potência, focando no clímax de uma situação, seja ele físico ou emocional.

REDAÇÃO: A transição do erótico para um guia sobre o luto em "Viver com a Perda" é marcante. O que motivou essa mudança de foco tão drástica e como foi o processo de pesquisa para escrever sobre um tema tão delicado?

Vitor Zindacta: A mudança pode parecer drástica por fora, mas internamente ela faz sentido. Tanto o desejo intenso quanto o luto profundo são experiências que nos levam aos limites de nossas emoções. São vivências que nos transformam irrevogavelmente. A motivação veio de uma percepção da necessidade de se falar sobre o luto de forma mais aberta e acolhedora. O processo foi intenso, envolvendo muita leitura, desde a psicologia até relatos pessoais, e uma busca por uma linguagem que fosse ao mesmo tempo respeitosa, empática e útil. Meu objetivo era oferecer um mapa, um ombro amigo para quem se sente perdido na dor.

REDAÇÃO: Qual foi a recepção dos leitores que te conheciam pelo seu trabalho de ficção erótica ao se depararem com "Viver com a Perda"? Houve algum tipo de estranhamento?

Vitor Zindacta: Sim, houve uma surpresa inicial por parte de alguns, o que é natural. Mas a recepção foi majoritariamente positiva e compreensiva. Acredito que os leitores perceberam que, apesar dos temas distintos, a essência do meu trabalho continua a mesma: um interesse genuíno pelas emoções humanas em seus extremos. Recebi mensagens muito tocantes de pessoas que foram ajudadas pelo livro em momentos difíceis, e isso valida a decisão de ter navegado por essas águas. Mostra que o autor pode, e deve, ser multifacetado.

REDAÇÃO: Seu livro mais recente, "Onde guardas o que não se vê?", parece dialogar com a memória e o afeto. Como suas vivências em Rio Verde e seus estudos de História influenciaram essa obra?

Vitor Zindacta: Totalmente. Viver em uma cidade do interior, com um ritmo próprio, aguça a percepção sobre a passagem do tempo, sobre as memórias que impregnam os lugares e as relações. A História nos ensina que somos feitos de camadas, de passados que coexistem com o presente. Em "Onde guardas o que não se vê?", busco explorar exatamente isso: as memórias afetivas, os legados familiares, as coisas que não são ditas, mas que moldam quem somos. É um livro que nasce dessa observação do micro, do cotidiano, que por sua vez reflete questões universais.

REDAÇÃO: Você também publicou "Ainda Escrevo Para Você". Qual o papel da literatura epistolar ou de textos mais diretos e confessionais em sua obra?

Vitor Zindacta: "Ainda Escrevo Para Você" é um exercício de vulnerabilidade. A escrita em formato de carta ou de crônica mais pessoal permite uma conexão muito imediata e íntima com o leitor. É como abrir uma janela para a própria alma, sem as máscaras da ficção. Gosto desse formato porque ele humaniza o autor e cria uma corrente de empatia. É uma forma de dizer ao leitor: "Eu também sinto, também sofro, também amo".

REDAÇÃO: Como estudante de História da Arte, de que maneira a linguagem visual e a estética de certos movimentos artísticos contaminam sua prosa? Você "vê" suas cenas antes de escrevê-las?

Vitor Zindacta: Com certeza. A História da Arte treinou meu olhar para a composição, a luz, a sombra, a cor. Eu definitivamente "vejo" as cenas. O Expressionismo, por exemplo, com sua ênfase na emoção distorcendo a forma, inspira-me a construir descrições que reflitam o estado interior de um personagem. O Surrealismo me encoraja a explorar o onírico e o subconsciente. Tento usar as palavras como um pintor usa seus pincéis, para criar atmosferas e evocar sensações que vão além do enredo.

REDAÇÃO: Através do portal "Post Literal", você analisa e divulga outros autores. Como essa atividade de crítico e curador literário impacta seu próprio processo de escrita?

Vitor Zindacta: Ser um leitor crítico é a melhor escola para um escritor. Analisar a obra de outros autores me torna mais consciente das ferramentas narrativas, das estruturas, dos clichês a serem evitados e das soluções criativas possíveis. Isso amplia meu repertório e me torna um juiz mais rigoroso do meu próprio trabalho. Além disso, divulgar a literatura nacional independente é um ato político. Me conecta com a cena contemporânea e me inspira a continuar produzindo.

REDAÇÃO: O mercado editorial brasileiro costuma colocar autores em "caixas" de gênero. Você já sentiu alguma pressão ou dificuldade por transitar entre tantos nichos diferentes?

Vitor Zindacta: A pressão existe, sem dúvida. O mercado gosta de rótulos porque eles facilitam a venda. Mas sempre pautei minha carreira pela liberdade criativa. Acredito que o público leitor é mais inteligente e aberto do que às vezes o mercado supõe. O desafio é construir uma marca autoral que não se baseie em um gênero, mas em uma voz, em uma sensibilidade que perpassa todas as obras. Felizmente, com a publicação independente e as vendas diretas pela internet, tenho mais autonomia para seguir meu caminho.

REDAÇÃO: Olhando para o conjunto da sua obra até agora, qual você acredita ser o impacto principal ou a mensagem que conecta todos esses livros tão diferentes?

Vitor Zindacta: Se há uma linha conectando tudo, acredito que seja a busca pela legitimação de todos os sentimentos humanos. Seja o desejo mais carnal, a dor mais profunda do luto ou o afeto mais singelo, tento escrever com a mensagem implícita de que sentir é humano e legítimo. Minha obra é um convite para que o leitor olhe para suas próprias complexidades sem julgamento.

REDAÇÃO: Existe algum gênero literário que você ainda não explorou, mas tem muita vontade de experimentar no futuro?

Vitor Zindacta: Tenho uma curiosidade imensa pela ficção histórica. Unir minhas duas paixões, História e Literatura, de forma mais direta seria um projeto fascinante. Pesquisar um período específico do Brasil, talvez o período colonial em Goiás, e construir uma narrativa ficcional a partir de fatos e personagens reais é um desafio que me atrai enormemente.

REDAÇÃO: Como você descreveria o leitor ideal para a sua obra? Quem é a pessoa que você imagina lendo seus livros?

Vitor Zindacta: Imagino um leitor curioso e sem preconceitos. Alguém que não tenha medo de mergulhar em emoções intensas e que goste de ser provocado a pensar. Não é um leitor que busca apenas entretenimento fácil, mas que aprecia a beleza de uma linguagem bem trabalhada e que está disposto a se conectar com as vulnerabilidades, tanto dos personagens quanto as suas próprias.

REDAÇÃO: Qual dos seus livros foi o mais difícil de escrever, emocional ou tecnicamente, e por quê?

Vitor Zindacta: Emocionalmente, "Viver com a Perda" foi, de longe, o mais desgastante, por exigir uma imersão constante em um tema de profunda dor. Tecnicamente, talvez "Ruínas do Desejo", pelo desafio já mencionado de construir uma narrativa erótica que fosse literariamente relevante e psicologicamente complexa, fugindo da superficialidade.

REDAÇÃO: Por fim, que conselho você daria a um escritor iniciante que, como você, se sente atraído por múltiplos gêneros e teme não se encaixar no mercado?

Vitor Zindacta: Meu conselho é: seja fiel à sua voz e à sua curiosidade. Não tenha medo de experimentar. A coerência de uma obra não está na repetição de um gênero, mas na honestidade e na qualidade da escrita. Estude, leia de tudo, escreva muito. O mercado é uma consequência. Primeiro, construa uma obra que seja verdadeira para você. O leitor que compartilha da sua sensibilidade vai te encontrar.

5 dark romances escritos por Vitor Zindacta para conhecer


REDAÇÃO - 23 de setembro de 2025

Para os leitores que не temem mergulhar em narrativas intensas e psicologicamente complexas, o gênero dark romance tem se consolidado como um terreno fértil para histórias de amor que florescem nos lugares mais sombrios. No Brasil, um dos nomes que se aventura com maestria por essas nuances é o autor goiano Vitor Zindacta. Conhecido por sua versatilidade, é em suas obras mais obscuras que ele desafia as convenções do romance tradicional, construindo anti-heróis cativantes e tramas repletas de tensão.

O dark romance explora temas tabu, dinâmicas de poder e personagens moralmente ambíguos, onde a linha entre a paixão e a obsessão é perigosamente tênue. Se você está pronto para explorar esse universo, selecionamos cinco livros essenciais de Vitor Zindacta que servem como uma porta de entrada perfeita para seu trabalho no gênero.

1. Quando a vingança chama

Nesta obra, Zindacta nos apresenta a jornada de transformação de Alina, uma órfã de 19 anos cuja pureza, cultivada em um convento, é estilhaçada pela descoberta de uma verdade brutal: seus pais foram assassinados. O alvo de sua fúria é Viktor Krüger, um agiota cruel. O livro é um clássico conto de vingança que se aprofunda na psique de uma mulher que abandona a fé para mergulhar no submundo de Berlim. É uma narrativa sobre a perda da inocência e a força sombria que nasce do desejo de justiça, custe o que custar.

2. Jardins da perdição

Aqui, o terror é psicológico e a escuridão se manifesta nos traumas do passado. Anna, uma florista que tenta mascarar suas cicatrizes emocionais, se envolve com o misterioso Lucas, um homem preso a um passado conturbado. A obra se aprofunda no peso do luto, na culpa e nas feridas de amores perdidos, enquanto um suspense se desenrola em torno das intenções sombrias que cercam o novo relacionamento de Anna. É um romance denso, onde os "jardins" representam a frágil tentativa de florescer em meio a fantasmas e segredos.

3. Marcada para morrer

Misturando ação de tirar o fôlego com a tensão letal de seus protagonistas, este livro é um jogo de gato e rato nas ruas de Nova York. A trama coloca dois assassinos de aluguel rivais – o frio britânico Ethan Blackwood e o impulsivo italiano Lorenzo De Luca – em rota de colisão. Contratados para eliminar a mesma pessoa, a governadora, o acaso transforma a missão em um confronto direto. A obra explora a moralidade distorcida de homens que vivem da morte, criando uma atmosfera de perigo constante onde a rivalidade e a precisão mortal ditam as regras.

4. Entre rosas e promessas

Este é um romance sobre as feridas profundas que nem o tempo consegue curar. Isabelle e Damien são um casal separado pelas barreiras sociais e por tragédias pessoais devastadoras, como a perda de um filho. Anos depois, o reencontro força ambos a confrontarem seus traumas, segredos e as promessas quebradas que os assombram. A escuridão aqui é interna, tecida pela dor do luto, pelas pressões familiares e pelo peso das responsabilidades. Zindacta entrega uma história madura e emocionalmente carregada sobre se é possível reconstruir o amor sobre as ruínas do passado.

5. O preço do delírio


Mergulhando no coração sombrio da política inglesa, Zindacta constrói seu enredo mais classicamente dark. Edward Harrington é um governador carismático e manipulador, cuja imagem pública esconde uma rede de corrupção e alianças criminosas. Clara Everett, uma ex-prostituta tentando recomeçar como sua secretária, entra em um jogo perigoso de sedução e poder. Este livro é a definição da tensão causada pela disparidade de poder, explorando como o desejo colide com a corrupção em um ambiente onde o controle absoluto é o prêmio final e o preço a se pagar pode ser a própria alma.

Como escreve: Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Para além das páginas de seus livros, que viajam por diferentes gêneros e emoções, existe um autor com uma rotina, um método e um processo de imersão. Vitor Zindacta, radicado em Rio Verde, Goiás, não apenas cria narrativas, mas constrói universos a partir de uma disciplina que mescla inspiração, pesquisa acadêmica e um profundo trabalho emocional.

Nesta conversa, abrimos a porta do ateliê de escrita de Vitor para entender como nascem suas histórias, como ele se prepara para temas tão diversos e qual é a rotina que sustenta sua produção literária no coração do Brasil.


REDAÇÃO: Vitor, todo escritor tem um ponto de partida. Como uma nova ideia para um livro costuma surgir para você? É uma imagem, uma frase, um personagem, um tema que te inquieta?

Vitor Zindacta: Raramente é algo completamente formado. Geralmente, começa com uma inquietação, um sentimento difuso ou uma imagem persistente. Para um de meus romances de paixão, por exemplo, a faísca foi a imagem de um casal em um espaço decadente, onde o desejo parecia ser a única coisa ainda intacta. Já para meu trabalho de não ficção sobre a superação da dor, a motivação foi a inquietação de ver pessoas ao meu redor sofrendo em silêncio. A partir desse núcleo, começo a fazer perguntas. Quem são essas pessoas? O que as trouxe até aqui? A ideia vai ganhando corpo nesse processo investigativo.

REDAÇÃO: Uma vez que a semente da ideia germinou, como você estrutura seu processo de escrita? Você é um escritor "arquiteto", que planeja tudo antes, ou um "jardineiro", que descobre a história enquanto escreve?

Vitor Zindacta: Eu diria que sou um arquiteto que adora redesenhar a planta no meio da obra. Gosto de ter uma estrutura mínima: um ponto de partida claro, uma vaga noção do clímax e do final. Isso me dá um mapa. No entanto, acredito que os personagens ganham vida durante a escrita. Eles me surpreendem, tomam decisões que eu não previ, e me forçam a mudar o percurso. Planejo o suficiente para não me perder, mas deixo espaço para a mágica do improviso e da descoberta.

REDAÇÃO: Sua rotina de escrita é regrada? Você tem um horário fixo, uma meta de palavras diária, ou escreve conforme a inspiração aparece?

Vitor Zindacta: A inspiração é bem-vinda, mas a disciplina é quem paga as contas. Tento manter uma rotina. Geralmente, as manhãs são dedicadas à escrita criativa, que é quando minha mente está mais limpa. Estabeleço metas mais por tempo do que por palavras, por exemplo, "escrever focado por duas horas". Acredito que o simples ato de sentar e se colocar à disposição da escrita, mesmo nos dias difíceis, cria um hábito poderoso e mostra ao seu cérebro que aquilo é um trabalho sério.

REDAÇÃO: Seus estudos em História e História da Arte certamente influenciam suas obras. Como funciona, na prática, o seu processo de pesquisa? Como você integra esse conhecimento acadêmico na construção das suas narrativas?

Vitor Zindacta: A pesquisa é uma das minhas partes favoritas. Ela funciona como o alicerce invisível que sustenta a história. Mesmo que a trama se passe hoje, eu pesquiso a história do lugar, os costumes, a arquitetura. A História da Arte me ajuda a criar a paleta de cores, a atmosfera visual das cenas. Eu monto dossiês, coleciono imagens, leio artigos. O objetivo não é despejar dados no texto, mas absorver tudo para que o mundo que estou criando seja crível, denso e texturizado.

REDAÇÃO: Como você se prepara emocionalmente para escrever sobre temas tão carregados como o desejo obsessivo ou a dor profunda? Existe um ritual ou um método para entrar e sair desses estados mentais?

Vitor Zindacta: Essa é uma parte crucial e desafiadora. Para entrar no estado mental, eu uso muito a música. Crio playlists específicas para cada projeto, quase como uma trilha sonora que me transporta para o universo daquela história. Para sair, o que é igualmente importante para a saúde mental, preciso de um ritual de desligamento. Geralmente envolve atividades físicas, como uma caminhada, ou me dedicar a algo completamente diferente. É preciso criar uma fronteira clara entre a vida do autor e a vida (muitas vezes caótica) dos personagens.

REDAÇÃO: O bloqueio criativo é um fantasma para muitos escritores. Como você lida com ele quando as palavras simplesmente não vêm?

Vitor Zindacta: Eu aprendi a não entrar em pânico. O bloqueio, para mim, geralmente é um sinal de que algo na história não está funcionando ou que estou esgotado. A primeira atitude é me afastar do texto. Vou ler, assistir a um filme, visitar uma exposição. Tento alimentar meu repertório. Muitas vezes, a solução vem de uma fonte inesperada. Outra técnica que funciona é voltar e reescrever uma cena antiga. Reencontrar a voz de um personagem em um trecho que já funciona ajuda a destravar o caminho.

REDAÇÃO: Qual a importância da sua cidade, Rio Verde, no seu processo criativo? O ambiente físico ao seu redor influencia sua rotina e sua escrita?

Vitor Zindacta: Viver em Rio Verde me proporciona o silêncio e o ritmo que considero ideais para a escrita. Longe da agitação constante de uma metrópole, consigo ter mais foco e introspecção. O cenário do Cerrado, com seus horizontes amplos e sua beleza bruta, definitivamente se infiltra na minha escrita. A cidade me oferece o chão da realidade, as histórias das pessoas, o pulso de um Brasil que nem sempre está nos livros, e isso é um material criativo riquíssimo.

REDAÇÃO: Após terminar a primeira versão de um manuscrito, como é o seu processo de edição e reescrita? Você deixa o texto "descansar"? Pede opiniões de leitores beta?

Vitor Zindacta: A primeira versão é só o começo, é a argila bruta. Assim que termino, o ritual é obrigatório: eu fecho o arquivo e esqueço dele por, no mínimo, um mês. Esse distanciamento é vital para conseguir ler o próprio texto com olhos de editor, e não de criador apaixonado. Depois desse período, faço uma primeira leitura crítica e reescrevo. Só depois de ter uma segunda versão mais polida é que envio para um ou dois leitores beta de confiança, pessoas cujo senso crítico eu respeito. O feedback deles é fundamental.

REDAÇÃO: Equilibrar a carreira de escritor com a vida acadêmica de estudante de História e História da Arte deve ser desafiador. Como você organiza seu tempo para dar conta de tudo?

Vitor Zindacta: É um exercício constante de gestão de tempo. Uso agendas para dividir meu dia em blocos: tempo para a escrita, tempo para as leituras acadêmicas, tempo para as aulas. A grande vantagem é que as áreas se retroalimentam. Muitas vezes, uma leitura para a faculdade acaba me dando uma ideia para um livro, e a disciplina da escrita me ajuda a ser mais organizado nos trabalhos acadêmicos. É cansativo, mas imensamente gratificante.

REDAÇÃO: Para finalizar, que ferramenta, hábito ou peça de software você considera indispensável no seu dia a dia como escritor?

Vitor Zindacta: Pode soar simples, mas a ferramenta mais indispensável para mim é um bom par de fones de ouvido com cancelamento de ruído e minhas playlists musicais. A música é a forma mais rápida de eu me isolar do mundo exterior e mergulhar completamente no universo da história. E o hábito indispensável é a leitura diária. Um escritor que não lê é como um músico que não ouve música. É a leitura que afina o nosso ouvido, expande nosso vocabulário e nos mantém inspirados.

Kleiton Ferreira lança romance épico sobre memória e redenção no Brasil sertanejo do século 20


Em “Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste…”, o juiz e escritor narra a jornada de um homem que atravessa o século 20 entre soldados, cangaceiros e revolucionários, confrontando as próprias verdades em meio à violência e ao amor.

“Era eu, a vereda, e dois cadáveres ensanguentados. Primeiros corpos crivados por balas a serem captados por estes olhos, cujas gravuras se carimbariam para o resto da vida em meu juízo. Morte ao vivo e a cores. Dois tiros bem dados por um padre. E isso era só o começo da aventura.”
Trecho do livro

Divulgação
O escritor e juiz federal alagoano Kleiton Ferreira lança Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste... (Editora Labrador, 2025, 368 págs.), romance histórico que atravessa os principais conflitos do país no século 20. O protagonista Paulo, narrador da trama, é lançado ainda jovem nas entranhas impiedosas e violentas de grupos revolucionários armados. Astuto e destemido, o rapaz se vale de artimanhas para sobreviver e desvendar mistérios do próprio passado.

Nessa trajetória, ele encontra figuras históricas marcantes, como o político comunista Luís Carlos Prestes e o explorador britânico Percy Fawcett. O romance é o primeiro volume de um total de cinco que narrará os desdobramentos dessa saga, reverenciando obras de mestres da literatura brasileira como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos.

A narrativa é construída em primeira pessoa e organizada em duas linhas temporais: o presente, centrado na velhice do protagonista, e o passado, que detalha sua infância e juventude. A história perpassa temas como verdade, mentira e memória, contradições da natureza humana, Brasil histórico e suas narrativas, culpa, arrependimento e redenção, e relações familiares.

Sobre esse último tópico, o autor revela um toque pessoal. “Fiz um exercício de reflexão: como eu seria, daqui a 30 anos, quando minha filha, já adulta, sequer me conhecesse”, conta Kleiton Ferreira, complementando: “O processo de escrita foi criar uma metáfora para isso, começando por criar também um narrador mentiroso, que iria se justificar pelos erros, transferir a culpa, para no fim reconhecer o fracasso humano.”

DIVULGAÇÃO

Uma obra instigante para compreender as entranhas do Brasil

A trama começa na década de 1980, com o protagonista — um homem de mais de 70 anos — trabalhando como zelador de uma escola pública numa vila rural. Enquanto tenta estabelecer contato com a filha que desconhece o parentesco, relembra os desafios do início de sua vida. A narrativa retorna então ao passado, quando o rapaz órfão vivia com os tios em uma casa paupérrima no interior da Bahia. De lá, é catapultado para o fogo cruzado entre grupos revolucionários, legalistas e desertores, percorrendo caminhos controversos e experimentando situações limites.

Uma das qualidades inegáveis do livro é que nada parece forçado ou inverossímil. Kleiton sustenta com habilidade cada reviravolta nas mais de 360 páginas. Fatos e personagens históricos são apresentados com riqueza de detalhes, resultado de extenso trabalho de pesquisa. A composição de cenas contundentes, combinada a diálogos rápidos e marcantes, confere à narrativa um estilo cinematográfico.

O conjunto da obra evidencia a influência de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, ao mesmo tempo em que Kleiton Ferreira entrega uma obra singular, instigante e relevante para compreender as entranhas do Brasil.

O juiz escritor

Kleiton Ferreira nasceu e vive em Arapiraca (AL), região metropolitana do agreste alagoano. Formado em Direito, trabalhou como montador de móveis e carteiro antes de ingressar na área jurídica, primeiro como estagiário da Justiça Federal e depois como advogado. Em 2019, foi aprovado para o cargo de juiz federal.

Sua trajetória inspiradora rendeu o livro “Na última vaga: De montador de móveis a juiz federal: a luta para ser aprovado no concurso mais difícil do Brasil” (Editora Labrador, 192 págs.), lançado em 2024.

No exercício da magistratura, Kleiton destaca-se pela sensibilidade com que atende as pessoas. Trechos das audiências públicas são compartilhados nas redes sociais — no Instagram, o juiz soma 2 milhões de seguidores — e registram milhares de visualizações e comentários elogiando sua empatia e seriedade, especialmente no atendimento a trabalhadores prestes a se aposentar.

O cenário jurídico também inspirou seu romance anterior, “A espada da justiça” (Editora Labrador, 160 págs.), protagonizado por um juiz federal refletindo sobre a vida e o trabalho após a chegada de um jovem substituto. Com Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste..., Kleiton demonstra maturidade literária e dá mais um passo na consolidação da carreira como escritor.

“Primeiro, a aproximação familiar (a tempo) com relação à minha filha; segundo, a reflexão sobre os erros do passado (que em alguma medida o protagonista também comete); e o poder do amadurecimento, pois como Guimarães Rosa dizia: ‘o melhor da vida é que as pessoas podem mudar’”, reflete o autor.

Trecho do livro (pág. 77)

“— Ele pode me matar — soltei tenso e indignado.
— Pode, eu sei — ele respondeu serenamente. — É por isso que a coragem faz um homem ser um homem de verdade, controlando o medo de morrer. Você não quer morrer, mas se consome pela angústia de não poder ajudar. Quer ajudar e naturalmente tem medo, e então procura motivos para ficar inerte, indiferente, lava as mãos, se esconde, vira o rosto, prefere não ver o sofrimento do outro, mesmo sabendo que ele está lá e existe, porque assim mente a si com motivos apenas verossímeis de que não sabia de nada.
— Tempo demais se passou. O que há de fazer agora? E de mãos limpas? — eu insistia em empecilhos dos mais diversos.
— Astúcia, Paulo. Astúcia! Coloque-se no lugar do homem.”

FICHA TÉCNICA

Livro: Crônicas de um mentiroso – Era uma vez no Nordeste...
Autor: Kleiton Ferreira
Editora: Labrador
Páginas: 368

ISBN: 978-65-5625-722-8

“Cronofagia”, de Carla Brasil: quando a poesia mastiga o tempo

 

Leonardo Gudel

“A poeta não foge do sujo, vai até o limite, sempre em favor da ideia, sem sacrificar o encantamento perverso de algumas imagens, beirando o sórdido.”
 — Ruy Guerra, no prefácio de “Cronofagia”

Carla Brasil (@eu.carlabrasil) não estreia de forma tímida. Cronofagia (Editora Appris) é uma irrupção — uma obra que atravessa o leitor com seus 37 poemas de carne e ironia, onde o tempo deixa de ser medida e se torna matéria. É poesia que grita, sangra e debocha do presente, ao mesmo tempo em que o contempla com assombro.

Com prefácio do cineasta, dramaturgo e também poeta Ruy Guerra, o livro já nasce em meio a elogios raros. “É muito bom ler uma jovem poeta como Carla Brasil, que na sua primeira arremetida chega tão longe. Me dá vontade de usar um daqueles sonoros palavrões descarados, para escancarar o meu entusiasmo”, escreve ele, destacando a ousadia e a densidade da autora.

A obra, que já foi lançada na Bienal do Livro Rio e na FLIP, ganha uma nova sessão especial na Livraria Travessa, de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97), no Rio, com um bate-papo exclusivo com Ruy Guerra. O encontro acontece dia 13 de novembro, às 19h.

O tempo como devorador — e como personagem

Na tensão entre lirismo e brutalidade, Carla Brasil transforma o tempo — esse algoz invisível e onipresente — em protagonista. Seus versos encaram a ansiedade digital, a compressão da subjetividade, o esgotamento da produtividade e a ironia cruel de uma era que promete ganho de tempo, mas entrega  apenas exaustão.

“Esse jogo perverso entre aceleração e esgotamento é a essência do livro”, explica a autora. “O tempo não é um bem que possuímos, mas uma força que nos intersecta, nos escapa e, ao mesmo tempo, nos consome.”

A partir dessa visão, Cronofagia desenha uma experiência poética que desafia rótulos. A identidade é fluida, a memória é falha, o amor é um hiato, e a existência — uma coreografia entre o absurdo e o encantamento.

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Entre o escracho e o abismo

Para Ruy Guerra, a escrita de Carla Brasil é um “retrato impiedoso de um tempo ansioso, barulhento e vazio”. Sua poesia transita entre o sublime e o grotesco, entre a filosofia e o esgoto, sem concessões. “Carla Brasil abre o seu livro com uma paródia sofrida e indignada do hino nacional, marcando a sua vocação do abismo”, observa o autor, referindo-se ao poema “Hino Marginal Brasileiro”, que subverte o patriotismo em um grito de desencanto:

“Terra calada,
 Entre outras mil,
 És tu, Brasil,
 A mais roubada!
 Pros filhos deste solo és tão hostil,
 Pátria amarga,
 Brasil!”

Em outro momento, em “Clichês do tempo”, o embate com o relógio é íntimo e devastador:

“corre o tempo e eu não corro
 ele salta colinas
 eu me destroço em pedregulhos
 ele voa absorto
 e eu fico na lama,
 no rastro bastardo do seu pecado”

Poesia Visual

Multiartista de formação e atuação, Carla Brasil assina também a direção criativa do projeto gráfico de Cronofagia. Desde a concepção da capa até o conceito das ilustrações de Daniel Uires, sua visão estética compõe o mesmo corpo poético dos textos. “A fusão entre palavra e imagem não são apenas ilustrativas — fazem parte da narrativa do livro”, afirma.

Uma autora que provoca territórios

Poeta, escritora e artista visual, Carla Brasil vive e cria no Rio de Janeiro, movida por um impulso que une literatura, design, artes plásticas e fotografia. Sua produção reflete as contradições da contemporaneidade com lirismo, ironia e crítica social, sem medo de encarar o grotesco como matéria estética.

Seu talento já foi reconhecido em premiações literárias nacionais, como o Prêmio Poesia Agora – Primavera 2020 (Editora Trevo) e a Seleção Poesia Brasileira – Poetize 2021 (Vivara Editora Nacional), nas quais teve poemas selecionados entre milhares de inscritos.

Em Cronofagia, Carla Brasil faz da linguagem o campo de batalha onde o eu-lírico enfrenta o colapso cotidiano com sarcasmo, melancolia e fúria poética. Um livro que devora o tempo — antes que o tempo nos devore.

FICHA TÉCNICA

Livro: Cronofagia
Autora: Carla Brasil
Prefácio: Ruy Guerra
Editora: Appris
Ilustrações: Daniel Uires
Disponível em: editoraappris.com.br

Antonio Arruda lança “O corte que desafia a lâmina”



“Há, em todo pássaro, um limite de liberdade e morte.
A mesma garra que impulsiona para o voo é a que sustenta o pouso
(e todo pouso de pássaro carrega um pouco de morte).
Há, em todo pássaro
uma chama alimentada pelo vento de seu voo
se apaga
fim do dia
no galho repousado.”
— Trecho do livro

Roteirista do programa Era Uma Vez no Quintal, da TV Cultura (Vencedor do prêmio APCA em 2014) e das duas temporadas da série da Netflix Cidade Invisível (indicada ao ABRA em 2022), o também jornalista e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada Antonio Arruda estreia na literatura com o livro O corte que desafia a lâmina (Editora Cachalote, 131 págs.). A obra, híbrida entre ficção e autobiografia, se estrutura como um inventário poético e visceral de experiências extremas — narrativas que oscilam entre o íntimo e o simbólico, o real e o alegórico, o profano e o sagrado, costuradas por uma estética do enfrentamento. Os textos mesclam corpo, silêncio, rito e transformação.

Lançado neste ano, o livro já vai para a primeira reimpressão e teve lançamentos em São Paulo e Santos (SP), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ) e Aracaju (SE). Também foi tema de discussão no Clube de Leitura "O Inconsciente em Verso", da psicóloga, psicanalista e doutora em Educação Mariana Giorgion.

O ponto de partida do livro é a morte do pai do escritor, vítima de um câncer que extirpou parte de seus órgãos, deixando-o sem voz. E é justamente da ausência da voz do pai que nasce a voz poética do autor. E essa dor não se esconde, mas serve como caminho: “O livro fala do atravessamento do eu por suas dores, seus traumas, num enfrentamento entre o corte e a lâmina”, explica Antonio. Essa dualidade, que se dá no atravessamento da dor juntamente com a manifestação do erótico, forma a proposta estética do autor, que define sua obra como construída sobre uma estética da cicatriz, tanto na forma quanto no conteúdo.

O livro traz uma linguagem sensível, onde o ritmo e as pausas potencializam a densidade emocional do texto. Os textos nasceram a partir da oficina literária da poeta Isadora Krieger, onde as criações eram lidas e comentadas de forma coletiva.  Mas houve um momento em que o autor precisou ficar sozinho com seus textos para “ouvi-los”. “Foi então que a lâmina-palavra começou a cortar o livro-corpo”, conta. “Cada texto foi ganhando formas criadas pela lâmina-palavra, literalmente. E o conto virou poema que virou aforismo que virou ensaio - essas camadas todas entrelaçadas. O que eu busquei foi olhar de verdade para o percurso do corte à cicatriz. Atravessar as camadas. Era como se eu conseguisse sentir o movimento da navalha-palavra riscando a pele da página e virando texto.”   

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Logo no capítulo de abertura, Em nome do filho, um homem precisa retirar uma parte doente do próprio corpo para tentar sobreviver. É um conto de extrema fisicalidade, em que cada vírgula parece cortar — ou curar — junto ao leitor. Os dez capítulos seguintes, apesar de autônomos, mantêm uma relação estruturada em ambiguidades e ambivalências presentes na tensão dual entre eros e tânatos. “Cada texto traz um acontecido inaudito de dor aguda. Mas que propõe, ao mesmo tempo, um percurso em direção ao epifânico, ao anímico”, define o autor.

A obra de Antonio está profundamente ligada à sua vivência pessoal, marcada por experiências de violência que ele transforma em linguagem e enfrentamento. Temas como morte, sexualidade e homoerotismo atravessam sua escrita, refletindo sua trajetória como homem gay assumido desde os 17 anos. O conflito entre desejo e repressão cotidiana torna-se um eixo central de sua criação. Além disso, sua ligação intensa com a umbanda e religiões de matriz africana, vivenciada desde a infância, também permeia seus textos, que incorporam aspectos míticos, místicos e espirituais ligados à sua atuação como pai de santo.

Uma das passagens mais emblemáticas do livro ilustra essa abordagem: um homem carrega a carcaça de uma tartaruga devorada por urubus até o mar — e afunda com ela. Um gesto que beira o absurdo, mas que simboliza com força a tensão entre morte e renascimento que atravessa toda a obra.

Da TV e das salas de aula para a literatura

A estreia de Antonio na literatura é, na verdade, a realização de um sonho de infância. “A palavra poética, literária, como matéria-prima e forma de percepção e expressão, faz parte da minha vida desde sempre”, conta. “A publicação de O corte que desafia a lâmina representa algo que vislumbro desde os meus nove anos. Ver esse sonho materializado é uma alegria imensa.”

Natural de Guarulhos (SP), nascido em 1977 e criado na capital paulista, Antonio tem uma trajetória marcada pela multiplicidade. Passou pelos cursos de Música e Letras após se formar em Jornalismo pela Cásper Líbero, em 1998. Em 2008, concluiu o mestrado em Teoria e Literatura Comparada pela USP.

No audiovisual, construiu uma carreira sólida. Foi roteirista de programas premiados da TV Cultura, como Quintal da Cultura e Era uma vez no Quintal, que recebeu o prêmio APCA de Melhor Programa Infantil em 2014. Na Netflix, fez parte da equipe de  roteiristas das duas temporadas da série Cidade Invisível,  indicada ao prêmio ABRA em 2022   e protagonizada por Marcos Pigossi e Alessandra Negrini. Também foi consultor criativo da série espanhola Santo (coprodução com o Brasil) e co-roteirista do longa O Mel é Mais Doce que o Sangue (2023), dirigido por André Guerreiro Lopes.

Como jornalista, atuou na Folha de São Paulo, especialmente no caderno Equilíbrio, com reportagens no Brasil e no exterior. Em países como Alemanha, França, Holanda e República Tcheca, investigou o papel cultural dos mercados públicos em cidades como Paris, Amsterdã e Praga.

No campo da educação, lecionou literatura e redação para o ensino médio e cursinhos pré-vestibulares, além de disciplinas como Semiótica e Linguagens no ensino superior. Hoje, atua como coordenador pedagógico e educacional para adolescentes.

Leia um trecho (pág. 104):

“Caminhava através da clareira da mata em direção à praia. Descalça. Os pés sentiam as deformidades do solo e as suas próprias. O solo sentia as deformidades dos pés e a sua própria. Ela chão, ele mulher. As terras conviviam em cumplicidade de acorde e escultura. Terras-pés, terras-ela, ela-solos, era noite – comiam os restos do dia, os cabelos dela pretos comiam a noite, restos de dia morno, o vento criava movências sutis na pele de maresia, cada célula-terra, cada célula-mulher atritavam-se delicadamente num mesmo universo. Mínimo e total. Caminhava alicerçando enorme incerteza: as mãos sobre o ventre.

Sentou-se no centro da dúvida. Sombreavam sobre sua pele folhas, riscados de seiva, ela-seivas, ela-noite cercada de árvores fecundas, ela-lua, no centro do caminho, cheia, encruza. No centro do centro, do inquieto movimento das possibilidades, o devir, esse cristal turvo.

As mãos sobre o ventre.

Olhou o motivo da dor: um espinho. Bem maior do que se concebe de um espinho cravado no pé. Inútil tentá-lo arrancar – quanto mais o fazia, mais penetrava na carne exausta.”

Adquira “O corte que desafia a lâmina” pelo site da Editora Cachalote:
https://aboio.com.br/loja/produto/o-corte-que-desafia-a-lamina

A Hora do Mal: Uma Ambição Desmedida que Cede à Simplicidade e ao Vazio


"A Hora do Mal", o novo épico de terror de Zach Cregger, chegou aos cinemas envolto em um burburinho colossal, prometendo ser o novo divisor de águas do gênero. No entanto, ao contrário de seu aclamado trabalho anterior, este filme se revela uma experiência frustrante: uma produção que mira nas estrelas da narrativa complexa, mas tropeça feio, entregando um enredo que é, no final das contas, simples e insatisfatório, mascarado por uma estrutura pretensiosa.

A Questão da Estrutura: Enrolação Disfarçada de Arte

O filme adota uma abordagem fragmentada, dividida em capítulos, cada um focado no ponto de vista de um personagem diferente. A intenção, claramente, é criar um quebra-cabeça angustiante e multifacetado, evocando a grandiosidade de épicos como Magnólia, como o próprio diretor mencionou.

No entanto, essa escolha narrativa se torna o calcanhar de Aquiles do filme. Em vez de aprofundar a trama ou os personagens, a repetição de eventos sob diferentes ângulos soa como uma manobra para alongar uma história que, em sua essência, é bastante rasteira. Críticos apontaram que o mistério poderia ter sido resolvido de forma muito mais direta, e as voltas e reviravoltas acabam sendo redundantes, retardando a progressão em vez de enriquecê-la. O que começa como um recurso engenhoso rapidamente se transforma em enrolação (na falta de palavra melhor), esvaziando a tensão em momentos cruciais.

Enredo e Resolução: O Vazio por Trás do Hype

A premissa é excelente: 17 crianças de uma mesma turma desaparecem misteriosamente no meio da noite, deixando para trás o pânico em uma pacata cidade suburbana. O clima de terror e suspense é construído com habilidade na primeira metade. Contudo, quando o filme finalmente decide revelar suas cartas, a decepção é palpável.

A explicação para o desaparecimento é simplória para um épico de duas horas de duração. O que se desenha é um misto de folclore barato e clichês de possessão, que poderia ter sido resolvido em um curta-metragem. O suspense se dilui, e a trama, que parecia prometer profundidade psicológica ou um comentário social afiado, recua para uma solução preguiçosa. A grandiosidade prometida no início é substituída por uma conclusão que muitos consideraram "forçada" e "carente de substância", aquém do que a expectativa gerada.

Com um elenco de peso, incluindo Julia Garner e Josh Brolin, a expectativa era de performances complexas. No entanto, o formato de capítulos, ironicamente, prejudica o desenvolvimento dos personagens. Muitos deles servem apenas como veículos narrativos para nos guiar por um pedaço da história, sem aprofundamento psicológico real.

A professora Justine Gandy, por exemplo, apesar do histórico complicado e do vício em álcool, acaba sendo um estereótipo funcional. O espectador tem dificuldade em se conectar ou se importar profundamente com o destino desses indivíduos, que parecem mais caricaturas inseridas para cumprir uma função do que seres humanos tridimensionais. A falta de um protagonista claro, com quem o público possa se envolver, é outro fator que dilui o impacto emocional.

Em termos cinematográficos, Cregger demonstra competência técnica, mantendo uma atmosfera tensa e claustrofóbica no início. Há momentos de estranheza visual que, de fato, geram desconforto.

O problema reside na inconsistência tonal. O filme flerta com o terror psicológico, o thriller investigativo e, em vários momentos, com a comédia. Essa mistura, que em Barbarian funcionou bem, aqui parece desorganizada. Muitas cenas, especialmente no clímax, são descritas por parte do público como "hilárias" ou "caricatas", quebrando completamente a imersão. O que deveria ser um espetáculo brutal de horror se transforma em uma sequência de gore exagerado com um toque de humor negro que, para muitos, apenas reforça a falta de seriedade na resolução da trama.

Veredito Final: Um Lixo Bem Maquiado?


"A Hora do Mal" é o perfeito exemplo de ambição sem sustentação. É um filme que se esforça para parecer inventivo e épico, mas que, sob a maquiagem de uma estrutura engenhosa e uma atmosfera bem construída, esconde um vazio de enredo e personagens superficiais. O buzz em torno da produção e a promessa de ser o "melhor terror do ano" se revelam um exagero. No final das contas, o filme deixa um gosto amargo: uma tentativa de horror épico que se perde na própria pretensão, entregando apenas um desfecho simplório e insatisfatório.

RESENHA: TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

A obra TDAH de A a Z: O Manual Definitivo para Entender e Superar, de Vitor Zindacta, publicada de forma independente em 2025, constitui um guia abrangente e prático sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), fundamentado em pesquisas científicas e experiências pessoais do autor. Com estrutura organizada em 22 capítulos, introdução, apêndices e referências, o livro busca desmistificar o TDAH, promovendo estratégias de gerenciamento, autoajuda e perspectivas futuras, com ênfase em abordagens baseadas em evidências como o DSM-5 (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2013) e estudos genéticos recentes. Destinado a leigos, profissionais de saúde e indivíduos com TDAH, o texto é oferecido gratuitamente em formato digital, alinhando-se a uma visão acessível de saúde mental, onde o autor destaca que "o TDAH é uma condição neurobiológica complexa que afeta milhões de pessoas" (ZINDACTA, 2025, Introdução), afetando cerca de 5-7% das crianças e 2-5% dos adultos globalmente.

No plano científico, Zindacta integra narrativas pessoais com dados empíricos, explorando desde conceitos básicos até avanços contemporâneos. O Capítulo 1 define o TDAH como "um transtorno neurodesenvolvimental caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), classificando-o em três tipos: predominantemente desatento, hiperativo-impulsivo e combinado, com sintomas persistentes desde a infância. Indiretamente, o autor diferencia o TDAH de comorbidades como ansiedade, transtorno bipolar e autismo, citando que taxas de comorbidade com ansiedade ou depressão são elevadas, o que exige avaliações multidisciplinares. A visão histórica, traçada desde Sir George Frederic Still em 1902 até o DSM-5-TR de 2022, reflete evoluções neurológicas, como a identificação de desequilíbrios em dopamina e noradrenalina.

Os capítulos subsequentes (2 a 6) detalham sintomas, causas e diagnósticos, com rigor acadêmico. No Capítulo 2, sintomas são categorizados por idade, destacando em crianças hiperatividade motora e em adultos inquietação interna, com critérios diagnósticos exigindo pelo menos seis sintomas persistentes por seis meses. Causas genéticas, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais, como exposições pré-natais, são discutidas no contexto de estudos como GWAS (DEMONTIS et al., 2018). Tratamentos convencionais no Capítulo subsequente incluem psicoestimulantes como metilfenidato e terapias comportamentais, com eficácia comprovada em melhorias de concentração.

Abordagens alternativas e estratégias práticas ocupam capítulos centrais (7 a 21), enfatizando manejo holístico. Zindacta promove mindfulness, nutrição rica em ômega-3 (baseado em BLOCH; QAWASMI, 2011) e exercícios físicos, que elevam neurotransmissores como dopamina, reduzindo sintomas em até 30-50%. Rotinas diárias, como a Técnica Pomodoro, e suporte comunitário via grupos como ABDA são sugeridos para produtividade no trabalho e estudos. O Capítulo 21 aborda estigma, recomendando educação e advocacia, enquanto recursos incluem apps como Todoist e podcasts como "How to ADHD".

O Capítulo 22 projeta avanços futuros, como terapias genéticas e IA para diagnósticos personalizados, citando que "a IA está revolucionando a forma como entendemos e tratamos o TDAH" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 22). Apêndices enriquecem com glossário, exercícios práticos (ex.: planner diário) e referências, incluindo meta-análises sobre corantes alimentares (NIGG et al., 2012).

Pontos fortes residem na acessibilidade, integração de evidências com exemplos reais e foco em neurodiversidade, alinhado a metas da OMS. Fraquezas incluem ausência de ISBN, potencial viés em narrativas pessoais sem dados quantitativos primários e generalizações sobre "cura", que o autor esclarece como gerenciamento crônico. Recomendada para estudos em psicologia, neurociência e educação inclusiva, a obra contribui para o debate sobre saúde mental no Brasil, promovendo empoderamento e redução de estigmas.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Arlington: American Psychiatric Association, 2013.

BLOCH, M. H.; QAWASMI, A. Omega-3 fatty acid supplementation for the treatment of children with attention-deficit/hyperactivity disorder symptomatology: systematic review and meta-analysis. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 50, n. 10, p. 991-1000, 2011.

DEMONTIS, D. et al. Discovery of the first genome-wide significant risk loci for attention deficit/hyperactivity disorder. Nature Genetics, v. 51, n. 1, p. 63-75, 2018.

NIGG, J. T. et al. Meta-analysis of attention-deficit/hyperactivity disorder or attention-deficit/hyperactivity disorder symptoms, restriction diet, and synthetic food color additives. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 51, n. 1, p. 86-97.e8, 2012.

ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

RESENHA: Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico

A obra Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta, lançada em 2025 como uma publicação independente em formato digital, representa uma contribuição significativa para a disseminação de conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autor, com experiência pessoal relatada no Capítulo 1, adota uma abordagem empática e baseada em evidências, alinhada a fontes como o DSM-5-TR (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2022) e dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O livro, estruturado em 13 capítulos, apêndice e referências, visa desmistificar o autismo, promovendo inclusão social e neurodiversidade, com ênfase em diagnóstico precoce, tratamentos comprovados e legislação brasileira. Como guia gratuito, ele atende a famílias, educadores e profissionais de saúde, combatendo desinformação em um contexto onde o Censo do IBGE de 2022, revisado em 2025, estima 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1).

No âmbito científico, Zindacta fundamenta sua análise em pesquisas atualizadas, integrando perspectivas históricas, genéticas e ambientais. No Capítulo 1, o autor define o TEA como "uma condição neurodivergente que molda como uma pessoa interage, comunica e percebe o ambiente ao seu redor" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), citando critérios do DSM-5 que incluem déficits em comunicação social e padrões repetitivos. Essa definição reflete avanços modernos, como os estudos genéticos do Autism Sequencing Consortium (2024), que identificam centenas de genes associados, reforçando a multifatorialidade do TEA. Indiretamente, Zindacta desconstroi mitos persistentes, argumentando que o autismo não é causado por vacinas, conforme meta-análises da OMS e CDC (HVIID et al., 2019), o que contribui para uma visão baseada em evidências e combate estigmas sociais.

Os capítulos centrais (2 a 6) exploram características, causas e tratamentos, com rigor acadêmico. Zindacta classifica o TEA em níveis de suporte (1 a 3), conforme o DSM-5-TR, e discute subtipos históricos como a Síndrome de Asperger, unificada ao espectro em 2013 (ZINDACTA, 2025, Capítulo 2). Fatores genéticos, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais pré-natais, como infecções maternas, são analisados no Capítulo 3, alinhados a pesquisas da Fiocruz (2024). O diagnóstico precoce é enfatizado no Capítulo 4, com ferramentas como ADOS-2 e M-CHAT, destacando subdiagnóstico em meninas devido à camuflagem social. Tratamentos no Capítulo 5 incluem ABA, com eficácia em 65% para habilidades sociais, e TCC para ansiedade, reduzindo sintomas em 50% (ZINDACTA, 2025, Capítulo 5). Cuidados diários, como rotinas visuais que diminuem crises em 50%, são práticos e embasados em estudos da Autism Speaks (2024).

A obra avança para dimensões sociais e legais nos Capítulos 7 a 12, promovendo inclusão. Zindacta defende a presunção de competência e combate barreiras como bullying, reduzido em 45% com programas sociais (Capítulo 8). O papel da família e sociedade é explorado no Capítulo 9, com estratégias para prevenir burnout via mindfulness (redução de 55%). Legislação brasileira, como a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), é comparada a internacionais, como a ADA nos EUA (ZINDACTA, 2025, Capítulo 11). Recursos como ONGs (AMA, ABRAÇA) e telemedicina no SUS são listados no Capítulo 12, com impacto em 40% de redução de barreiras de acesso.

A conclusão no Capítulo 13 sintetiza pontos chave e projeta otimismo, com avanços como subtipos biológicos identificados em 2025 (SIMONS FOUNDATION, 2025) e tecnologias como VR para terapias sociais (redução de ansiedade em 50%). O apêndice oferece glossário e questionário, enriquecendo o uso educacional.

Pontos fortes incluem a acessibilidade, integração de narrativas pessoais com ciência, e foco em neurodiversidade, alinhado aos ODS da ONU. Fraquezas residem na ausência de ISBN e edição independente, potencialmente limitando difusão acadêmica, e em algumas generalizações sem dados quantitativos primários. No entanto, a obra é recomendada para estudos em psicologia, educação inclusiva e saúde pública, contribuindo para uma sociedade mais empática e informada.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. Arlington: American Psychiatric Association, 2022.

AUTISM SEQUENCING CONSORTIUM. Genomic analysis of 116 autism families strengthens known risk genes and highlights promising candidates. NPJ Genomic Medicine, v. 9, p. 21, 2024.

HVIID, A. et al. Measles, mumps, rubella vaccination and autism: a nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine, v. 170, n. 8, p. 513-520, 2019.

SIMONS FOUNDATION. Decomposition of phenotypic heterogeneity in autism reveals etiologically distinct subtypes. Nature Genetics, 2025.

ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico (arquivo .docx): il.

Um bate papo com o autor Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Longe dos grandes eixos editoriais do país, o escritor goiano Vitor Zindacta constrói uma carreira literária marcada pela coragem e pela versatilidade. De romances eróticos que exploram as profundezas do desejo a guias sensíveis sobre o luto, ele transita por gêneros distintos com uma fluidez que instiga e cativa leitores. Estudante de História e História da Arte, Zindacta utiliza seu conhecimento acadêmico como lente para observar e narrar as complexas facetas da experiência humana.

Nesta conversa aprofundada, mergulhamos em seu processo criativo, no impacto de suas obras e nos caminhos que o levaram a explorar territórios tão diversos da escrita.


REDAÇÃO: Vitor, sua bibliografia é notavelmente diversa. Você publicou romances como "Ruínas do Desejo", contos eróticos em "Todos os Ruidosos Pássaros e Outras Devassidões" e um livro de não ficção sobre o luto, "Viver com a Perda". O que te move a explorar gêneros tão distintos?

Vitor Zindacta: Acredito que a vida em si não se encaixa em um único gênero. Sentimos desejo, amor, dor, luto, curiosidade intelectual... São todas facetas da mesma experiência humana. Para mim, a escrita é uma ferramenta para investigar essas diferentes facetas. Cada tema, cada sentimento, parece pedir um formato, uma abordagem, um "gênero" diferente para ser explorado em sua plenitude. Não me vejo como um "autor de um gênero só", mas como um autor interessado na complexidade do ser humano.

REDAÇÃO: Vamos falar sobre "Ruínas do Desejo". O livro aborda uma paixão avassaladora com uma honestidade crua. Qual foi o maior desafio ao construir uma narrativa erótica que também tivesse profundidade psicológica e emocional?

Vitor Zindacta: O maior desafio foi justamente equilibrar a balança. O erotismo, para ser potente, não pode ser apenas a descrição de um ato físico; ele precisa estar carregado de tensão, de psicologia, de história. Em "Ruínas do Desejo", busquei mostrar como o desejo pode ser uma força transformadora e, ao mesmo tempo, destrutiva. O desafio era narrar a intimidade do casal de forma explícita sem que isso soasse gratuito, garantindo que cada cena de sexo revelasse algo novo sobre os personagens, suas vulnerabilidades e o poder que exerciam um sobre o outro.

REDAÇÃO: Em seguida, você publica "Todos os Ruidosos Pássaros", uma coletânea de contos. O que o formato de conto permitiu explorar dentro da temática erótica que o romance não permitia?

Vitor Zindacta: O conto é como uma fotografia, um instante capturado com intensidade máxima. Ele me permitiu explorar uma variedade muito maior de cenários, fetiches, dinâmicas de poder e tipos de relacionamento que não caberiam em um único romance. Pude experimentar com diferentes vozes narrativas e abordar a sexualidade de formas mais fragmentadas e pontuais. Foi um exercício de concisão e potência, focando no clímax de uma situação, seja ele físico ou emocional.

REDAÇÃO: A transição do erótico para um guia sobre o luto em "Viver com a Perda" é marcante. O que motivou essa mudança de foco tão drástica e como foi o processo de pesquisa para escrever sobre um tema tão delicado?

Vitor Zindacta: A mudança pode parecer drástica por fora, mas internamente ela faz sentido. Tanto o desejo intenso quanto o luto profundo são experiências que nos levam aos limites de nossas emoções. São vivências que nos transformam irrevogavelmente. A motivação veio de uma percepção da necessidade de se falar sobre o luto de forma mais aberta e acolhedora. O processo foi intenso, envolvendo muita leitura, desde a psicologia até relatos pessoais, e uma busca por uma linguagem que fosse ao mesmo tempo respeitosa, empática e útil. Meu objetivo era oferecer um mapa, um ombro amigo para quem se sente perdido na dor.

REDAÇÃO: Qual foi a recepção dos leitores que te conheciam pelo seu trabalho de ficção erótica ao se depararem com "Viver com a Perda"? Houve algum tipo de estranhamento?

Vitor Zindacta: Sim, houve uma surpresa inicial por parte de alguns, o que é natural. Mas a recepção foi majoritariamente positiva e compreensiva. Acredito que os leitores perceberam que, apesar dos temas distintos, a essência do meu trabalho continua a mesma: um interesse genuíno pelas emoções humanas em seus extremos. Recebi mensagens muito tocantes de pessoas que foram ajudadas pelo livro em momentos difíceis, e isso valida a decisão de ter navegado por essas águas. Mostra que o autor pode, e deve, ser multifacetado.

REDAÇÃO: Seu livro mais recente, "Onde guardas o que não se vê?", parece dialogar com a memória e o afeto. Como suas vivências em Rio Verde e seus estudos de História influenciaram essa obra?

Vitor Zindacta: Totalmente. Viver em uma cidade do interior, com um ritmo próprio, aguça a percepção sobre a passagem do tempo, sobre as memórias que impregnam os lugares e as relações. A História nos ensina que somos feitos de camadas, de passados que coexistem com o presente. Em "Onde guardas o que não se vê?", busco explorar exatamente isso: as memórias afetivas, os legados familiares, as coisas que não são ditas, mas que moldam quem somos. É um livro que nasce dessa observação do micro, do cotidiano, que por sua vez reflete questões universais.

REDAÇÃO: Você também publicou "Ainda Escrevo Para Você". Qual o papel da literatura epistolar ou de textos mais diretos e confessionais em sua obra?

Vitor Zindacta: "Ainda Escrevo Para Você" é um exercício de vulnerabilidade. A escrita em formato de carta ou de crônica mais pessoal permite uma conexão muito imediata e íntima com o leitor. É como abrir uma janela para a própria alma, sem as máscaras da ficção. Gosto desse formato porque ele humaniza o autor e cria uma corrente de empatia. É uma forma de dizer ao leitor: "Eu também sinto, também sofro, também amo".

REDAÇÃO: Como estudante de História da Arte, de que maneira a linguagem visual e a estética de certos movimentos artísticos contaminam sua prosa? Você "vê" suas cenas antes de escrevê-las?

Vitor Zindacta: Com certeza. A História da Arte treinou meu olhar para a composição, a luz, a sombra, a cor. Eu definitivamente "vejo" as cenas. O Expressionismo, por exemplo, com sua ênfase na emoção distorcendo a forma, inspira-me a construir descrições que reflitam o estado interior de um personagem. O Surrealismo me encoraja a explorar o onírico e o subconsciente. Tento usar as palavras como um pintor usa seus pincéis, para criar atmosferas e evocar sensações que vão além do enredo.

REDAÇÃO: Através do portal "Post Literal", você analisa e divulga outros autores. Como essa atividade de crítico e curador literário impacta seu próprio processo de escrita?

Vitor Zindacta: Ser um leitor crítico é a melhor escola para um escritor. Analisar a obra de outros autores me torna mais consciente das ferramentas narrativas, das estruturas, dos clichês a serem evitados e das soluções criativas possíveis. Isso amplia meu repertório e me torna um juiz mais rigoroso do meu próprio trabalho. Além disso, divulgar a literatura nacional independente é um ato político. Me conecta com a cena contemporânea e me inspira a continuar produzindo.

REDAÇÃO: O mercado editorial brasileiro costuma colocar autores em "caixas" de gênero. Você já sentiu alguma pressão ou dificuldade por transitar entre tantos nichos diferentes?

Vitor Zindacta: A pressão existe, sem dúvida. O mercado gosta de rótulos porque eles facilitam a venda. Mas sempre pautei minha carreira pela liberdade criativa. Acredito que o público leitor é mais inteligente e aberto do que às vezes o mercado supõe. O desafio é construir uma marca autoral que não se baseie em um gênero, mas em uma voz, em uma sensibilidade que perpassa todas as obras. Felizmente, com a publicação independente e as vendas diretas pela internet, tenho mais autonomia para seguir meu caminho.

REDAÇÃO: Olhando para o conjunto da sua obra até agora, qual você acredita ser o impacto principal ou a mensagem que conecta todos esses livros tão diferentes?

Vitor Zindacta: Se há uma linha conectando tudo, acredito que seja a busca pela legitimação de todos os sentimentos humanos. Seja o desejo mais carnal, a dor mais profunda do luto ou o afeto mais singelo, tento escrever com a mensagem implícita de que sentir é humano e legítimo. Minha obra é um convite para que o leitor olhe para suas próprias complexidades sem julgamento.

REDAÇÃO: Existe algum gênero literário que você ainda não explorou, mas tem muita vontade de experimentar no futuro?

Vitor Zindacta: Tenho uma curiosidade imensa pela ficção histórica. Unir minhas duas paixões, História e Literatura, de forma mais direta seria um projeto fascinante. Pesquisar um período específico do Brasil, talvez o período colonial em Goiás, e construir uma narrativa ficcional a partir de fatos e personagens reais é um desafio que me atrai enormemente.

REDAÇÃO: Como você descreveria o leitor ideal para a sua obra? Quem é a pessoa que você imagina lendo seus livros?

Vitor Zindacta: Imagino um leitor curioso e sem preconceitos. Alguém que não tenha medo de mergulhar em emoções intensas e que goste de ser provocado a pensar. Não é um leitor que busca apenas entretenimento fácil, mas que aprecia a beleza de uma linguagem bem trabalhada e que está disposto a se conectar com as vulnerabilidades, tanto dos personagens quanto as suas próprias.

REDAÇÃO: Qual dos seus livros foi o mais difícil de escrever, emocional ou tecnicamente, e por quê?

Vitor Zindacta: Emocionalmente, "Viver com a Perda" foi, de longe, o mais desgastante, por exigir uma imersão constante em um tema de profunda dor. Tecnicamente, talvez "Ruínas do Desejo", pelo desafio já mencionado de construir uma narrativa erótica que fosse literariamente relevante e psicologicamente complexa, fugindo da superficialidade.

REDAÇÃO: Por fim, que conselho você daria a um escritor iniciante que, como você, se sente atraído por múltiplos gêneros e teme não se encaixar no mercado?

Vitor Zindacta: Meu conselho é: seja fiel à sua voz e à sua curiosidade. Não tenha medo de experimentar. A coerência de uma obra não está na repetição de um gênero, mas na honestidade e na qualidade da escrita. Estude, leia de tudo, escreva muito. O mercado é uma consequência. Primeiro, construa uma obra que seja verdadeira para você. O leitor que compartilha da sua sensibilidade vai te encontrar.

5 dark romances escritos por Vitor Zindacta para conhecer


REDAÇÃO - 23 de setembro de 2025

Para os leitores que не temem mergulhar em narrativas intensas e psicologicamente complexas, o gênero dark romance tem se consolidado como um terreno fértil para histórias de amor que florescem nos lugares mais sombrios. No Brasil, um dos nomes que se aventura com maestria por essas nuances é o autor goiano Vitor Zindacta. Conhecido por sua versatilidade, é em suas obras mais obscuras que ele desafia as convenções do romance tradicional, construindo anti-heróis cativantes e tramas repletas de tensão.

O dark romance explora temas tabu, dinâmicas de poder e personagens moralmente ambíguos, onde a linha entre a paixão e a obsessão é perigosamente tênue. Se você está pronto para explorar esse universo, selecionamos cinco livros essenciais de Vitor Zindacta que servem como uma porta de entrada perfeita para seu trabalho no gênero.

1. Quando a vingança chama

Nesta obra, Zindacta nos apresenta a jornada de transformação de Alina, uma órfã de 19 anos cuja pureza, cultivada em um convento, é estilhaçada pela descoberta de uma verdade brutal: seus pais foram assassinados. O alvo de sua fúria é Viktor Krüger, um agiota cruel. O livro é um clássico conto de vingança que se aprofunda na psique de uma mulher que abandona a fé para mergulhar no submundo de Berlim. É uma narrativa sobre a perda da inocência e a força sombria que nasce do desejo de justiça, custe o que custar.

2. Jardins da perdição

Aqui, o terror é psicológico e a escuridão se manifesta nos traumas do passado. Anna, uma florista que tenta mascarar suas cicatrizes emocionais, se envolve com o misterioso Lucas, um homem preso a um passado conturbado. A obra se aprofunda no peso do luto, na culpa e nas feridas de amores perdidos, enquanto um suspense se desenrola em torno das intenções sombrias que cercam o novo relacionamento de Anna. É um romance denso, onde os "jardins" representam a frágil tentativa de florescer em meio a fantasmas e segredos.

3. Marcada para morrer

Misturando ação de tirar o fôlego com a tensão letal de seus protagonistas, este livro é um jogo de gato e rato nas ruas de Nova York. A trama coloca dois assassinos de aluguel rivais – o frio britânico Ethan Blackwood e o impulsivo italiano Lorenzo De Luca – em rota de colisão. Contratados para eliminar a mesma pessoa, a governadora, o acaso transforma a missão em um confronto direto. A obra explora a moralidade distorcida de homens que vivem da morte, criando uma atmosfera de perigo constante onde a rivalidade e a precisão mortal ditam as regras.

4. Entre rosas e promessas

Este é um romance sobre as feridas profundas que nem o tempo consegue curar. Isabelle e Damien são um casal separado pelas barreiras sociais e por tragédias pessoais devastadoras, como a perda de um filho. Anos depois, o reencontro força ambos a confrontarem seus traumas, segredos e as promessas quebradas que os assombram. A escuridão aqui é interna, tecida pela dor do luto, pelas pressões familiares e pelo peso das responsabilidades. Zindacta entrega uma história madura e emocionalmente carregada sobre se é possível reconstruir o amor sobre as ruínas do passado.

5. O preço do delírio


Mergulhando no coração sombrio da política inglesa, Zindacta constrói seu enredo mais classicamente dark. Edward Harrington é um governador carismático e manipulador, cuja imagem pública esconde uma rede de corrupção e alianças criminosas. Clara Everett, uma ex-prostituta tentando recomeçar como sua secretária, entra em um jogo perigoso de sedução e poder. Este livro é a definição da tensão causada pela disparidade de poder, explorando como o desejo colide com a corrupção em um ambiente onde o controle absoluto é o prêmio final e o preço a se pagar pode ser a própria alma.

Como escreve: Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Para além das páginas de seus livros, que viajam por diferentes gêneros e emoções, existe um autor com uma rotina, um método e um processo de imersão. Vitor Zindacta, radicado em Rio Verde, Goiás, não apenas cria narrativas, mas constrói universos a partir de uma disciplina que mescla inspiração, pesquisa acadêmica e um profundo trabalho emocional.

Nesta conversa, abrimos a porta do ateliê de escrita de Vitor para entender como nascem suas histórias, como ele se prepara para temas tão diversos e qual é a rotina que sustenta sua produção literária no coração do Brasil.


REDAÇÃO: Vitor, todo escritor tem um ponto de partida. Como uma nova ideia para um livro costuma surgir para você? É uma imagem, uma frase, um personagem, um tema que te inquieta?

Vitor Zindacta: Raramente é algo completamente formado. Geralmente, começa com uma inquietação, um sentimento difuso ou uma imagem persistente. Para um de meus romances de paixão, por exemplo, a faísca foi a imagem de um casal em um espaço decadente, onde o desejo parecia ser a única coisa ainda intacta. Já para meu trabalho de não ficção sobre a superação da dor, a motivação foi a inquietação de ver pessoas ao meu redor sofrendo em silêncio. A partir desse núcleo, começo a fazer perguntas. Quem são essas pessoas? O que as trouxe até aqui? A ideia vai ganhando corpo nesse processo investigativo.

REDAÇÃO: Uma vez que a semente da ideia germinou, como você estrutura seu processo de escrita? Você é um escritor "arquiteto", que planeja tudo antes, ou um "jardineiro", que descobre a história enquanto escreve?

Vitor Zindacta: Eu diria que sou um arquiteto que adora redesenhar a planta no meio da obra. Gosto de ter uma estrutura mínima: um ponto de partida claro, uma vaga noção do clímax e do final. Isso me dá um mapa. No entanto, acredito que os personagens ganham vida durante a escrita. Eles me surpreendem, tomam decisões que eu não previ, e me forçam a mudar o percurso. Planejo o suficiente para não me perder, mas deixo espaço para a mágica do improviso e da descoberta.

REDAÇÃO: Sua rotina de escrita é regrada? Você tem um horário fixo, uma meta de palavras diária, ou escreve conforme a inspiração aparece?

Vitor Zindacta: A inspiração é bem-vinda, mas a disciplina é quem paga as contas. Tento manter uma rotina. Geralmente, as manhãs são dedicadas à escrita criativa, que é quando minha mente está mais limpa. Estabeleço metas mais por tempo do que por palavras, por exemplo, "escrever focado por duas horas". Acredito que o simples ato de sentar e se colocar à disposição da escrita, mesmo nos dias difíceis, cria um hábito poderoso e mostra ao seu cérebro que aquilo é um trabalho sério.

REDAÇÃO: Seus estudos em História e História da Arte certamente influenciam suas obras. Como funciona, na prática, o seu processo de pesquisa? Como você integra esse conhecimento acadêmico na construção das suas narrativas?

Vitor Zindacta: A pesquisa é uma das minhas partes favoritas. Ela funciona como o alicerce invisível que sustenta a história. Mesmo que a trama se passe hoje, eu pesquiso a história do lugar, os costumes, a arquitetura. A História da Arte me ajuda a criar a paleta de cores, a atmosfera visual das cenas. Eu monto dossiês, coleciono imagens, leio artigos. O objetivo não é despejar dados no texto, mas absorver tudo para que o mundo que estou criando seja crível, denso e texturizado.

REDAÇÃO: Como você se prepara emocionalmente para escrever sobre temas tão carregados como o desejo obsessivo ou a dor profunda? Existe um ritual ou um método para entrar e sair desses estados mentais?

Vitor Zindacta: Essa é uma parte crucial e desafiadora. Para entrar no estado mental, eu uso muito a música. Crio playlists específicas para cada projeto, quase como uma trilha sonora que me transporta para o universo daquela história. Para sair, o que é igualmente importante para a saúde mental, preciso de um ritual de desligamento. Geralmente envolve atividades físicas, como uma caminhada, ou me dedicar a algo completamente diferente. É preciso criar uma fronteira clara entre a vida do autor e a vida (muitas vezes caótica) dos personagens.

REDAÇÃO: O bloqueio criativo é um fantasma para muitos escritores. Como você lida com ele quando as palavras simplesmente não vêm?

Vitor Zindacta: Eu aprendi a não entrar em pânico. O bloqueio, para mim, geralmente é um sinal de que algo na história não está funcionando ou que estou esgotado. A primeira atitude é me afastar do texto. Vou ler, assistir a um filme, visitar uma exposição. Tento alimentar meu repertório. Muitas vezes, a solução vem de uma fonte inesperada. Outra técnica que funciona é voltar e reescrever uma cena antiga. Reencontrar a voz de um personagem em um trecho que já funciona ajuda a destravar o caminho.

REDAÇÃO: Qual a importância da sua cidade, Rio Verde, no seu processo criativo? O ambiente físico ao seu redor influencia sua rotina e sua escrita?

Vitor Zindacta: Viver em Rio Verde me proporciona o silêncio e o ritmo que considero ideais para a escrita. Longe da agitação constante de uma metrópole, consigo ter mais foco e introspecção. O cenário do Cerrado, com seus horizontes amplos e sua beleza bruta, definitivamente se infiltra na minha escrita. A cidade me oferece o chão da realidade, as histórias das pessoas, o pulso de um Brasil que nem sempre está nos livros, e isso é um material criativo riquíssimo.

REDAÇÃO: Após terminar a primeira versão de um manuscrito, como é o seu processo de edição e reescrita? Você deixa o texto "descansar"? Pede opiniões de leitores beta?

Vitor Zindacta: A primeira versão é só o começo, é a argila bruta. Assim que termino, o ritual é obrigatório: eu fecho o arquivo e esqueço dele por, no mínimo, um mês. Esse distanciamento é vital para conseguir ler o próprio texto com olhos de editor, e não de criador apaixonado. Depois desse período, faço uma primeira leitura crítica e reescrevo. Só depois de ter uma segunda versão mais polida é que envio para um ou dois leitores beta de confiança, pessoas cujo senso crítico eu respeito. O feedback deles é fundamental.

REDAÇÃO: Equilibrar a carreira de escritor com a vida acadêmica de estudante de História e História da Arte deve ser desafiador. Como você organiza seu tempo para dar conta de tudo?

Vitor Zindacta: É um exercício constante de gestão de tempo. Uso agendas para dividir meu dia em blocos: tempo para a escrita, tempo para as leituras acadêmicas, tempo para as aulas. A grande vantagem é que as áreas se retroalimentam. Muitas vezes, uma leitura para a faculdade acaba me dando uma ideia para um livro, e a disciplina da escrita me ajuda a ser mais organizado nos trabalhos acadêmicos. É cansativo, mas imensamente gratificante.

REDAÇÃO: Para finalizar, que ferramenta, hábito ou peça de software você considera indispensável no seu dia a dia como escritor?

Vitor Zindacta: Pode soar simples, mas a ferramenta mais indispensável para mim é um bom par de fones de ouvido com cancelamento de ruído e minhas playlists musicais. A música é a forma mais rápida de eu me isolar do mundo exterior e mergulhar completamente no universo da história. E o hábito indispensável é a leitura diária. Um escritor que não lê é como um músico que não ouve música. É a leitura que afina o nosso ouvido, expande nosso vocabulário e nos mantém inspirados.

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