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Antonio Arruda lança “O corte que desafia a lâmina”

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RESENHA: TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar, de Vitor Zindacta

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RESENHA: Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta

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Um bate papo com o autor Vitor Zindacta

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Como escreve: Vitor Zindacta

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RESENHA: Refinaria, de Rodrigo Cabral

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7 de setembro: Para quem?

O 7 de setembro é, historicamente, uma data emblemática para o povo brasileiro, marcada pela celebração da Independência, um momento de orgu...

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Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

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Antonio Arruda lança “O corte que desafia a lâmina”



“Há, em todo pássaro, um limite de liberdade e morte.
A mesma garra que impulsiona para o voo é a que sustenta o pouso
(e todo pouso de pássaro carrega um pouco de morte).
Há, em todo pássaro
uma chama alimentada pelo vento de seu voo
se apaga
fim do dia
no galho repousado.”
— Trecho do livro

Roteirista do programa Era Uma Vez no Quintal, da TV Cultura (Vencedor do prêmio APCA em 2014) e das duas temporadas da série da Netflix Cidade Invisível (indicada ao ABRA em 2022), o também jornalista e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada Antonio Arruda estreia na literatura com o livro O corte que desafia a lâmina (Editora Cachalote, 131 págs.). A obra, híbrida entre ficção e autobiografia, se estrutura como um inventário poético e visceral de experiências extremas — narrativas que oscilam entre o íntimo e o simbólico, o real e o alegórico, o profano e o sagrado, costuradas por uma estética do enfrentamento. Os textos mesclam corpo, silêncio, rito e transformação.

Lançado neste ano, o livro já vai para a primeira reimpressão e teve lançamentos em São Paulo e Santos (SP), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ) e Aracaju (SE). Também foi tema de discussão no Clube de Leitura "O Inconsciente em Verso", da psicóloga, psicanalista e doutora em Educação Mariana Giorgion.

O ponto de partida do livro é a morte do pai do escritor, vítima de um câncer que extirpou parte de seus órgãos, deixando-o sem voz. E é justamente da ausência da voz do pai que nasce a voz poética do autor. E essa dor não se esconde, mas serve como caminho: “O livro fala do atravessamento do eu por suas dores, seus traumas, num enfrentamento entre o corte e a lâmina”, explica Antonio. Essa dualidade, que se dá no atravessamento da dor juntamente com a manifestação do erótico, forma a proposta estética do autor, que define sua obra como construída sobre uma estética da cicatriz, tanto na forma quanto no conteúdo.

O livro traz uma linguagem sensível, onde o ritmo e as pausas potencializam a densidade emocional do texto. Os textos nasceram a partir da oficina literária da poeta Isadora Krieger, onde as criações eram lidas e comentadas de forma coletiva.  Mas houve um momento em que o autor precisou ficar sozinho com seus textos para “ouvi-los”. “Foi então que a lâmina-palavra começou a cortar o livro-corpo”, conta. “Cada texto foi ganhando formas criadas pela lâmina-palavra, literalmente. E o conto virou poema que virou aforismo que virou ensaio - essas camadas todas entrelaçadas. O que eu busquei foi olhar de verdade para o percurso do corte à cicatriz. Atravessar as camadas. Era como se eu conseguisse sentir o movimento da navalha-palavra riscando a pele da página e virando texto.”   

Divulgação

Logo no capítulo de abertura, Em nome do filho, um homem precisa retirar uma parte doente do próprio corpo para tentar sobreviver. É um conto de extrema fisicalidade, em que cada vírgula parece cortar — ou curar — junto ao leitor. Os dez capítulos seguintes, apesar de autônomos, mantêm uma relação estruturada em ambiguidades e ambivalências presentes na tensão dual entre eros e tânatos. “Cada texto traz um acontecido inaudito de dor aguda. Mas que propõe, ao mesmo tempo, um percurso em direção ao epifânico, ao anímico”, define o autor.

A obra de Antonio está profundamente ligada à sua vivência pessoal, marcada por experiências de violência que ele transforma em linguagem e enfrentamento. Temas como morte, sexualidade e homoerotismo atravessam sua escrita, refletindo sua trajetória como homem gay assumido desde os 17 anos. O conflito entre desejo e repressão cotidiana torna-se um eixo central de sua criação. Além disso, sua ligação intensa com a umbanda e religiões de matriz africana, vivenciada desde a infância, também permeia seus textos, que incorporam aspectos míticos, místicos e espirituais ligados à sua atuação como pai de santo.

Uma das passagens mais emblemáticas do livro ilustra essa abordagem: um homem carrega a carcaça de uma tartaruga devorada por urubus até o mar — e afunda com ela. Um gesto que beira o absurdo, mas que simboliza com força a tensão entre morte e renascimento que atravessa toda a obra.

Da TV e das salas de aula para a literatura

A estreia de Antonio na literatura é, na verdade, a realização de um sonho de infância. “A palavra poética, literária, como matéria-prima e forma de percepção e expressão, faz parte da minha vida desde sempre”, conta. “A publicação de O corte que desafia a lâmina representa algo que vislumbro desde os meus nove anos. Ver esse sonho materializado é uma alegria imensa.”

Natural de Guarulhos (SP), nascido em 1977 e criado na capital paulista, Antonio tem uma trajetória marcada pela multiplicidade. Passou pelos cursos de Música e Letras após se formar em Jornalismo pela Cásper Líbero, em 1998. Em 2008, concluiu o mestrado em Teoria e Literatura Comparada pela USP.

No audiovisual, construiu uma carreira sólida. Foi roteirista de programas premiados da TV Cultura, como Quintal da Cultura e Era uma vez no Quintal, que recebeu o prêmio APCA de Melhor Programa Infantil em 2014. Na Netflix, fez parte da equipe de  roteiristas das duas temporadas da série Cidade Invisível,  indicada ao prêmio ABRA em 2022   e protagonizada por Marcos Pigossi e Alessandra Negrini. Também foi consultor criativo da série espanhola Santo (coprodução com o Brasil) e co-roteirista do longa O Mel é Mais Doce que o Sangue (2023), dirigido por André Guerreiro Lopes.

Como jornalista, atuou na Folha de São Paulo, especialmente no caderno Equilíbrio, com reportagens no Brasil e no exterior. Em países como Alemanha, França, Holanda e República Tcheca, investigou o papel cultural dos mercados públicos em cidades como Paris, Amsterdã e Praga.

No campo da educação, lecionou literatura e redação para o ensino médio e cursinhos pré-vestibulares, além de disciplinas como Semiótica e Linguagens no ensino superior. Hoje, atua como coordenador pedagógico e educacional para adolescentes.

Leia um trecho (pág. 104):

“Caminhava através da clareira da mata em direção à praia. Descalça. Os pés sentiam as deformidades do solo e as suas próprias. O solo sentia as deformidades dos pés e a sua própria. Ela chão, ele mulher. As terras conviviam em cumplicidade de acorde e escultura. Terras-pés, terras-ela, ela-solos, era noite – comiam os restos do dia, os cabelos dela pretos comiam a noite, restos de dia morno, o vento criava movências sutis na pele de maresia, cada célula-terra, cada célula-mulher atritavam-se delicadamente num mesmo universo. Mínimo e total. Caminhava alicerçando enorme incerteza: as mãos sobre o ventre.

Sentou-se no centro da dúvida. Sombreavam sobre sua pele folhas, riscados de seiva, ela-seivas, ela-noite cercada de árvores fecundas, ela-lua, no centro do caminho, cheia, encruza. No centro do centro, do inquieto movimento das possibilidades, o devir, esse cristal turvo.

As mãos sobre o ventre.

Olhou o motivo da dor: um espinho. Bem maior do que se concebe de um espinho cravado no pé. Inútil tentá-lo arrancar – quanto mais o fazia, mais penetrava na carne exausta.”

Adquira “O corte que desafia a lâmina” pelo site da Editora Cachalote:
https://aboio.com.br/loja/produto/o-corte-que-desafia-a-lamina

A Hora do Mal: Uma Ambição Desmedida que Cede à Simplicidade e ao Vazio


"A Hora do Mal", o novo épico de terror de Zach Cregger, chegou aos cinemas envolto em um burburinho colossal, prometendo ser o novo divisor de águas do gênero. No entanto, ao contrário de seu aclamado trabalho anterior, este filme se revela uma experiência frustrante: uma produção que mira nas estrelas da narrativa complexa, mas tropeça feio, entregando um enredo que é, no final das contas, simples e insatisfatório, mascarado por uma estrutura pretensiosa.

A Questão da Estrutura: Enrolação Disfarçada de Arte

O filme adota uma abordagem fragmentada, dividida em capítulos, cada um focado no ponto de vista de um personagem diferente. A intenção, claramente, é criar um quebra-cabeça angustiante e multifacetado, evocando a grandiosidade de épicos como Magnólia, como o próprio diretor mencionou.

No entanto, essa escolha narrativa se torna o calcanhar de Aquiles do filme. Em vez de aprofundar a trama ou os personagens, a repetição de eventos sob diferentes ângulos soa como uma manobra para alongar uma história que, em sua essência, é bastante rasteira. Críticos apontaram que o mistério poderia ter sido resolvido de forma muito mais direta, e as voltas e reviravoltas acabam sendo redundantes, retardando a progressão em vez de enriquecê-la. O que começa como um recurso engenhoso rapidamente se transforma em enrolação (na falta de palavra melhor), esvaziando a tensão em momentos cruciais.

Enredo e Resolução: O Vazio por Trás do Hype

A premissa é excelente: 17 crianças de uma mesma turma desaparecem misteriosamente no meio da noite, deixando para trás o pânico em uma pacata cidade suburbana. O clima de terror e suspense é construído com habilidade na primeira metade. Contudo, quando o filme finalmente decide revelar suas cartas, a decepção é palpável.

A explicação para o desaparecimento é simplória para um épico de duas horas de duração. O que se desenha é um misto de folclore barato e clichês de possessão, que poderia ter sido resolvido em um curta-metragem. O suspense se dilui, e a trama, que parecia prometer profundidade psicológica ou um comentário social afiado, recua para uma solução preguiçosa. A grandiosidade prometida no início é substituída por uma conclusão que muitos consideraram "forçada" e "carente de substância", aquém do que a expectativa gerada.

Com um elenco de peso, incluindo Julia Garner e Josh Brolin, a expectativa era de performances complexas. No entanto, o formato de capítulos, ironicamente, prejudica o desenvolvimento dos personagens. Muitos deles servem apenas como veículos narrativos para nos guiar por um pedaço da história, sem aprofundamento psicológico real.

A professora Justine Gandy, por exemplo, apesar do histórico complicado e do vício em álcool, acaba sendo um estereótipo funcional. O espectador tem dificuldade em se conectar ou se importar profundamente com o destino desses indivíduos, que parecem mais caricaturas inseridas para cumprir uma função do que seres humanos tridimensionais. A falta de um protagonista claro, com quem o público possa se envolver, é outro fator que dilui o impacto emocional.

Em termos cinematográficos, Cregger demonstra competência técnica, mantendo uma atmosfera tensa e claustrofóbica no início. Há momentos de estranheza visual que, de fato, geram desconforto.

O problema reside na inconsistência tonal. O filme flerta com o terror psicológico, o thriller investigativo e, em vários momentos, com a comédia. Essa mistura, que em Barbarian funcionou bem, aqui parece desorganizada. Muitas cenas, especialmente no clímax, são descritas por parte do público como "hilárias" ou "caricatas", quebrando completamente a imersão. O que deveria ser um espetáculo brutal de horror se transforma em uma sequência de gore exagerado com um toque de humor negro que, para muitos, apenas reforça a falta de seriedade na resolução da trama.

Veredito Final: Um Lixo Bem Maquiado?


"A Hora do Mal" é o perfeito exemplo de ambição sem sustentação. É um filme que se esforça para parecer inventivo e épico, mas que, sob a maquiagem de uma estrutura engenhosa e uma atmosfera bem construída, esconde um vazio de enredo e personagens superficiais. O buzz em torno da produção e a promessa de ser o "melhor terror do ano" se revelam um exagero. No final das contas, o filme deixa um gosto amargo: uma tentativa de horror épico que se perde na própria pretensão, entregando apenas um desfecho simplório e insatisfatório.

RESENHA: TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

A obra TDAH de A a Z: O Manual Definitivo para Entender e Superar, de Vitor Zindacta, publicada de forma independente em 2025, constitui um guia abrangente e prático sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), fundamentado em pesquisas científicas e experiências pessoais do autor. Com estrutura organizada em 22 capítulos, introdução, apêndices e referências, o livro busca desmistificar o TDAH, promovendo estratégias de gerenciamento, autoajuda e perspectivas futuras, com ênfase em abordagens baseadas em evidências como o DSM-5 (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2013) e estudos genéticos recentes. Destinado a leigos, profissionais de saúde e indivíduos com TDAH, o texto é oferecido gratuitamente em formato digital, alinhando-se a uma visão acessível de saúde mental, onde o autor destaca que "o TDAH é uma condição neurobiológica complexa que afeta milhões de pessoas" (ZINDACTA, 2025, Introdução), afetando cerca de 5-7% das crianças e 2-5% dos adultos globalmente.

No plano científico, Zindacta integra narrativas pessoais com dados empíricos, explorando desde conceitos básicos até avanços contemporâneos. O Capítulo 1 define o TDAH como "um transtorno neurodesenvolvimental caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), classificando-o em três tipos: predominantemente desatento, hiperativo-impulsivo e combinado, com sintomas persistentes desde a infância. Indiretamente, o autor diferencia o TDAH de comorbidades como ansiedade, transtorno bipolar e autismo, citando que taxas de comorbidade com ansiedade ou depressão são elevadas, o que exige avaliações multidisciplinares. A visão histórica, traçada desde Sir George Frederic Still em 1902 até o DSM-5-TR de 2022, reflete evoluções neurológicas, como a identificação de desequilíbrios em dopamina e noradrenalina.

Os capítulos subsequentes (2 a 6) detalham sintomas, causas e diagnósticos, com rigor acadêmico. No Capítulo 2, sintomas são categorizados por idade, destacando em crianças hiperatividade motora e em adultos inquietação interna, com critérios diagnósticos exigindo pelo menos seis sintomas persistentes por seis meses. Causas genéticas, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais, como exposições pré-natais, são discutidas no contexto de estudos como GWAS (DEMONTIS et al., 2018). Tratamentos convencionais no Capítulo subsequente incluem psicoestimulantes como metilfenidato e terapias comportamentais, com eficácia comprovada em melhorias de concentração.

Abordagens alternativas e estratégias práticas ocupam capítulos centrais (7 a 21), enfatizando manejo holístico. Zindacta promove mindfulness, nutrição rica em ômega-3 (baseado em BLOCH; QAWASMI, 2011) e exercícios físicos, que elevam neurotransmissores como dopamina, reduzindo sintomas em até 30-50%. Rotinas diárias, como a Técnica Pomodoro, e suporte comunitário via grupos como ABDA são sugeridos para produtividade no trabalho e estudos. O Capítulo 21 aborda estigma, recomendando educação e advocacia, enquanto recursos incluem apps como Todoist e podcasts como "How to ADHD".

O Capítulo 22 projeta avanços futuros, como terapias genéticas e IA para diagnósticos personalizados, citando que "a IA está revolucionando a forma como entendemos e tratamos o TDAH" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 22). Apêndices enriquecem com glossário, exercícios práticos (ex.: planner diário) e referências, incluindo meta-análises sobre corantes alimentares (NIGG et al., 2012).

Pontos fortes residem na acessibilidade, integração de evidências com exemplos reais e foco em neurodiversidade, alinhado a metas da OMS. Fraquezas incluem ausência de ISBN, potencial viés em narrativas pessoais sem dados quantitativos primários e generalizações sobre "cura", que o autor esclarece como gerenciamento crônico. Recomendada para estudos em psicologia, neurociência e educação inclusiva, a obra contribui para o debate sobre saúde mental no Brasil, promovendo empoderamento e redução de estigmas.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Arlington: American Psychiatric Association, 2013.

BLOCH, M. H.; QAWASMI, A. Omega-3 fatty acid supplementation for the treatment of children with attention-deficit/hyperactivity disorder symptomatology: systematic review and meta-analysis. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 50, n. 10, p. 991-1000, 2011.

DEMONTIS, D. et al. Discovery of the first genome-wide significant risk loci for attention deficit/hyperactivity disorder. Nature Genetics, v. 51, n. 1, p. 63-75, 2018.

NIGG, J. T. et al. Meta-analysis of attention-deficit/hyperactivity disorder or attention-deficit/hyperactivity disorder symptoms, restriction diet, and synthetic food color additives. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 51, n. 1, p. 86-97.e8, 2012.

ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

RESENHA: Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico

A obra Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta, lançada em 2025 como uma publicação independente em formato digital, representa uma contribuição significativa para a disseminação de conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autor, com experiência pessoal relatada no Capítulo 1, adota uma abordagem empática e baseada em evidências, alinhada a fontes como o DSM-5-TR (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2022) e dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O livro, estruturado em 13 capítulos, apêndice e referências, visa desmistificar o autismo, promovendo inclusão social e neurodiversidade, com ênfase em diagnóstico precoce, tratamentos comprovados e legislação brasileira. Como guia gratuito, ele atende a famílias, educadores e profissionais de saúde, combatendo desinformação em um contexto onde o Censo do IBGE de 2022, revisado em 2025, estima 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1).

No âmbito científico, Zindacta fundamenta sua análise em pesquisas atualizadas, integrando perspectivas históricas, genéticas e ambientais. No Capítulo 1, o autor define o TEA como "uma condição neurodivergente que molda como uma pessoa interage, comunica e percebe o ambiente ao seu redor" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), citando critérios do DSM-5 que incluem déficits em comunicação social e padrões repetitivos. Essa definição reflete avanços modernos, como os estudos genéticos do Autism Sequencing Consortium (2024), que identificam centenas de genes associados, reforçando a multifatorialidade do TEA. Indiretamente, Zindacta desconstroi mitos persistentes, argumentando que o autismo não é causado por vacinas, conforme meta-análises da OMS e CDC (HVIID et al., 2019), o que contribui para uma visão baseada em evidências e combate estigmas sociais.

Os capítulos centrais (2 a 6) exploram características, causas e tratamentos, com rigor acadêmico. Zindacta classifica o TEA em níveis de suporte (1 a 3), conforme o DSM-5-TR, e discute subtipos históricos como a Síndrome de Asperger, unificada ao espectro em 2013 (ZINDACTA, 2025, Capítulo 2). Fatores genéticos, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais pré-natais, como infecções maternas, são analisados no Capítulo 3, alinhados a pesquisas da Fiocruz (2024). O diagnóstico precoce é enfatizado no Capítulo 4, com ferramentas como ADOS-2 e M-CHAT, destacando subdiagnóstico em meninas devido à camuflagem social. Tratamentos no Capítulo 5 incluem ABA, com eficácia em 65% para habilidades sociais, e TCC para ansiedade, reduzindo sintomas em 50% (ZINDACTA, 2025, Capítulo 5). Cuidados diários, como rotinas visuais que diminuem crises em 50%, são práticos e embasados em estudos da Autism Speaks (2024).

A obra avança para dimensões sociais e legais nos Capítulos 7 a 12, promovendo inclusão. Zindacta defende a presunção de competência e combate barreiras como bullying, reduzido em 45% com programas sociais (Capítulo 8). O papel da família e sociedade é explorado no Capítulo 9, com estratégias para prevenir burnout via mindfulness (redução de 55%). Legislação brasileira, como a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), é comparada a internacionais, como a ADA nos EUA (ZINDACTA, 2025, Capítulo 11). Recursos como ONGs (AMA, ABRAÇA) e telemedicina no SUS são listados no Capítulo 12, com impacto em 40% de redução de barreiras de acesso.

A conclusão no Capítulo 13 sintetiza pontos chave e projeta otimismo, com avanços como subtipos biológicos identificados em 2025 (SIMONS FOUNDATION, 2025) e tecnologias como VR para terapias sociais (redução de ansiedade em 50%). O apêndice oferece glossário e questionário, enriquecendo o uso educacional.

Pontos fortes incluem a acessibilidade, integração de narrativas pessoais com ciência, e foco em neurodiversidade, alinhado aos ODS da ONU. Fraquezas residem na ausência de ISBN e edição independente, potencialmente limitando difusão acadêmica, e em algumas generalizações sem dados quantitativos primários. No entanto, a obra é recomendada para estudos em psicologia, educação inclusiva e saúde pública, contribuindo para uma sociedade mais empática e informada.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. Arlington: American Psychiatric Association, 2022.

AUTISM SEQUENCING CONSORTIUM. Genomic analysis of 116 autism families strengthens known risk genes and highlights promising candidates. NPJ Genomic Medicine, v. 9, p. 21, 2024.

HVIID, A. et al. Measles, mumps, rubella vaccination and autism: a nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine, v. 170, n. 8, p. 513-520, 2019.

SIMONS FOUNDATION. Decomposition of phenotypic heterogeneity in autism reveals etiologically distinct subtypes. Nature Genetics, 2025.

ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico (arquivo .docx): il.

Um bate papo com o autor Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Longe dos grandes eixos editoriais do país, o escritor goiano Vitor Zindacta constrói uma carreira literária marcada pela coragem e pela versatilidade. De romances eróticos que exploram as profundezas do desejo a guias sensíveis sobre o luto, ele transita por gêneros distintos com uma fluidez que instiga e cativa leitores. Estudante de História e História da Arte, Zindacta utiliza seu conhecimento acadêmico como lente para observar e narrar as complexas facetas da experiência humana.

Nesta conversa aprofundada, mergulhamos em seu processo criativo, no impacto de suas obras e nos caminhos que o levaram a explorar territórios tão diversos da escrita.


REDAÇÃO: Vitor, sua bibliografia é notavelmente diversa. Você publicou romances como "Ruínas do Desejo", contos eróticos em "Todos os Ruidosos Pássaros e Outras Devassidões" e um livro de não ficção sobre o luto, "Viver com a Perda". O que te move a explorar gêneros tão distintos?

Vitor Zindacta: Acredito que a vida em si não se encaixa em um único gênero. Sentimos desejo, amor, dor, luto, curiosidade intelectual... São todas facetas da mesma experiência humana. Para mim, a escrita é uma ferramenta para investigar essas diferentes facetas. Cada tema, cada sentimento, parece pedir um formato, uma abordagem, um "gênero" diferente para ser explorado em sua plenitude. Não me vejo como um "autor de um gênero só", mas como um autor interessado na complexidade do ser humano.

REDAÇÃO: Vamos falar sobre "Ruínas do Desejo". O livro aborda uma paixão avassaladora com uma honestidade crua. Qual foi o maior desafio ao construir uma narrativa erótica que também tivesse profundidade psicológica e emocional?

Vitor Zindacta: O maior desafio foi justamente equilibrar a balança. O erotismo, para ser potente, não pode ser apenas a descrição de um ato físico; ele precisa estar carregado de tensão, de psicologia, de história. Em "Ruínas do Desejo", busquei mostrar como o desejo pode ser uma força transformadora e, ao mesmo tempo, destrutiva. O desafio era narrar a intimidade do casal de forma explícita sem que isso soasse gratuito, garantindo que cada cena de sexo revelasse algo novo sobre os personagens, suas vulnerabilidades e o poder que exerciam um sobre o outro.

REDAÇÃO: Em seguida, você publica "Todos os Ruidosos Pássaros", uma coletânea de contos. O que o formato de conto permitiu explorar dentro da temática erótica que o romance não permitia?

Vitor Zindacta: O conto é como uma fotografia, um instante capturado com intensidade máxima. Ele me permitiu explorar uma variedade muito maior de cenários, fetiches, dinâmicas de poder e tipos de relacionamento que não caberiam em um único romance. Pude experimentar com diferentes vozes narrativas e abordar a sexualidade de formas mais fragmentadas e pontuais. Foi um exercício de concisão e potência, focando no clímax de uma situação, seja ele físico ou emocional.

REDAÇÃO: A transição do erótico para um guia sobre o luto em "Viver com a Perda" é marcante. O que motivou essa mudança de foco tão drástica e como foi o processo de pesquisa para escrever sobre um tema tão delicado?

Vitor Zindacta: A mudança pode parecer drástica por fora, mas internamente ela faz sentido. Tanto o desejo intenso quanto o luto profundo são experiências que nos levam aos limites de nossas emoções. São vivências que nos transformam irrevogavelmente. A motivação veio de uma percepção da necessidade de se falar sobre o luto de forma mais aberta e acolhedora. O processo foi intenso, envolvendo muita leitura, desde a psicologia até relatos pessoais, e uma busca por uma linguagem que fosse ao mesmo tempo respeitosa, empática e útil. Meu objetivo era oferecer um mapa, um ombro amigo para quem se sente perdido na dor.

REDAÇÃO: Qual foi a recepção dos leitores que te conheciam pelo seu trabalho de ficção erótica ao se depararem com "Viver com a Perda"? Houve algum tipo de estranhamento?

Vitor Zindacta: Sim, houve uma surpresa inicial por parte de alguns, o que é natural. Mas a recepção foi majoritariamente positiva e compreensiva. Acredito que os leitores perceberam que, apesar dos temas distintos, a essência do meu trabalho continua a mesma: um interesse genuíno pelas emoções humanas em seus extremos. Recebi mensagens muito tocantes de pessoas que foram ajudadas pelo livro em momentos difíceis, e isso valida a decisão de ter navegado por essas águas. Mostra que o autor pode, e deve, ser multifacetado.

REDAÇÃO: Seu livro mais recente, "Onde guardas o que não se vê?", parece dialogar com a memória e o afeto. Como suas vivências em Rio Verde e seus estudos de História influenciaram essa obra?

Vitor Zindacta: Totalmente. Viver em uma cidade do interior, com um ritmo próprio, aguça a percepção sobre a passagem do tempo, sobre as memórias que impregnam os lugares e as relações. A História nos ensina que somos feitos de camadas, de passados que coexistem com o presente. Em "Onde guardas o que não se vê?", busco explorar exatamente isso: as memórias afetivas, os legados familiares, as coisas que não são ditas, mas que moldam quem somos. É um livro que nasce dessa observação do micro, do cotidiano, que por sua vez reflete questões universais.

REDAÇÃO: Você também publicou "Ainda Escrevo Para Você". Qual o papel da literatura epistolar ou de textos mais diretos e confessionais em sua obra?

Vitor Zindacta: "Ainda Escrevo Para Você" é um exercício de vulnerabilidade. A escrita em formato de carta ou de crônica mais pessoal permite uma conexão muito imediata e íntima com o leitor. É como abrir uma janela para a própria alma, sem as máscaras da ficção. Gosto desse formato porque ele humaniza o autor e cria uma corrente de empatia. É uma forma de dizer ao leitor: "Eu também sinto, também sofro, também amo".

REDAÇÃO: Como estudante de História da Arte, de que maneira a linguagem visual e a estética de certos movimentos artísticos contaminam sua prosa? Você "vê" suas cenas antes de escrevê-las?

Vitor Zindacta: Com certeza. A História da Arte treinou meu olhar para a composição, a luz, a sombra, a cor. Eu definitivamente "vejo" as cenas. O Expressionismo, por exemplo, com sua ênfase na emoção distorcendo a forma, inspira-me a construir descrições que reflitam o estado interior de um personagem. O Surrealismo me encoraja a explorar o onírico e o subconsciente. Tento usar as palavras como um pintor usa seus pincéis, para criar atmosferas e evocar sensações que vão além do enredo.

REDAÇÃO: Através do portal "Post Literal", você analisa e divulga outros autores. Como essa atividade de crítico e curador literário impacta seu próprio processo de escrita?

Vitor Zindacta: Ser um leitor crítico é a melhor escola para um escritor. Analisar a obra de outros autores me torna mais consciente das ferramentas narrativas, das estruturas, dos clichês a serem evitados e das soluções criativas possíveis. Isso amplia meu repertório e me torna um juiz mais rigoroso do meu próprio trabalho. Além disso, divulgar a literatura nacional independente é um ato político. Me conecta com a cena contemporânea e me inspira a continuar produzindo.

REDAÇÃO: O mercado editorial brasileiro costuma colocar autores em "caixas" de gênero. Você já sentiu alguma pressão ou dificuldade por transitar entre tantos nichos diferentes?

Vitor Zindacta: A pressão existe, sem dúvida. O mercado gosta de rótulos porque eles facilitam a venda. Mas sempre pautei minha carreira pela liberdade criativa. Acredito que o público leitor é mais inteligente e aberto do que às vezes o mercado supõe. O desafio é construir uma marca autoral que não se baseie em um gênero, mas em uma voz, em uma sensibilidade que perpassa todas as obras. Felizmente, com a publicação independente e as vendas diretas pela internet, tenho mais autonomia para seguir meu caminho.

REDAÇÃO: Olhando para o conjunto da sua obra até agora, qual você acredita ser o impacto principal ou a mensagem que conecta todos esses livros tão diferentes?

Vitor Zindacta: Se há uma linha conectando tudo, acredito que seja a busca pela legitimação de todos os sentimentos humanos. Seja o desejo mais carnal, a dor mais profunda do luto ou o afeto mais singelo, tento escrever com a mensagem implícita de que sentir é humano e legítimo. Minha obra é um convite para que o leitor olhe para suas próprias complexidades sem julgamento.

REDAÇÃO: Existe algum gênero literário que você ainda não explorou, mas tem muita vontade de experimentar no futuro?

Vitor Zindacta: Tenho uma curiosidade imensa pela ficção histórica. Unir minhas duas paixões, História e Literatura, de forma mais direta seria um projeto fascinante. Pesquisar um período específico do Brasil, talvez o período colonial em Goiás, e construir uma narrativa ficcional a partir de fatos e personagens reais é um desafio que me atrai enormemente.

REDAÇÃO: Como você descreveria o leitor ideal para a sua obra? Quem é a pessoa que você imagina lendo seus livros?

Vitor Zindacta: Imagino um leitor curioso e sem preconceitos. Alguém que não tenha medo de mergulhar em emoções intensas e que goste de ser provocado a pensar. Não é um leitor que busca apenas entretenimento fácil, mas que aprecia a beleza de uma linguagem bem trabalhada e que está disposto a se conectar com as vulnerabilidades, tanto dos personagens quanto as suas próprias.

REDAÇÃO: Qual dos seus livros foi o mais difícil de escrever, emocional ou tecnicamente, e por quê?

Vitor Zindacta: Emocionalmente, "Viver com a Perda" foi, de longe, o mais desgastante, por exigir uma imersão constante em um tema de profunda dor. Tecnicamente, talvez "Ruínas do Desejo", pelo desafio já mencionado de construir uma narrativa erótica que fosse literariamente relevante e psicologicamente complexa, fugindo da superficialidade.

REDAÇÃO: Por fim, que conselho você daria a um escritor iniciante que, como você, se sente atraído por múltiplos gêneros e teme não se encaixar no mercado?

Vitor Zindacta: Meu conselho é: seja fiel à sua voz e à sua curiosidade. Não tenha medo de experimentar. A coerência de uma obra não está na repetição de um gênero, mas na honestidade e na qualidade da escrita. Estude, leia de tudo, escreva muito. O mercado é uma consequência. Primeiro, construa uma obra que seja verdadeira para você. O leitor que compartilha da sua sensibilidade vai te encontrar.

5 dark romances escritos por Vitor Zindacta para conhecer


REDAÇÃO - 23 de setembro de 2025

Para os leitores que не temem mergulhar em narrativas intensas e psicologicamente complexas, o gênero dark romance tem se consolidado como um terreno fértil para histórias de amor que florescem nos lugares mais sombrios. No Brasil, um dos nomes que se aventura com maestria por essas nuances é o autor goiano Vitor Zindacta. Conhecido por sua versatilidade, é em suas obras mais obscuras que ele desafia as convenções do romance tradicional, construindo anti-heróis cativantes e tramas repletas de tensão.

O dark romance explora temas tabu, dinâmicas de poder e personagens moralmente ambíguos, onde a linha entre a paixão e a obsessão é perigosamente tênue. Se você está pronto para explorar esse universo, selecionamos cinco livros essenciais de Vitor Zindacta que servem como uma porta de entrada perfeita para seu trabalho no gênero.

1. Quando a vingança chama

Nesta obra, Zindacta nos apresenta a jornada de transformação de Alina, uma órfã de 19 anos cuja pureza, cultivada em um convento, é estilhaçada pela descoberta de uma verdade brutal: seus pais foram assassinados. O alvo de sua fúria é Viktor Krüger, um agiota cruel. O livro é um clássico conto de vingança que se aprofunda na psique de uma mulher que abandona a fé para mergulhar no submundo de Berlim. É uma narrativa sobre a perda da inocência e a força sombria que nasce do desejo de justiça, custe o que custar.

2. Jardins da perdição

Aqui, o terror é psicológico e a escuridão se manifesta nos traumas do passado. Anna, uma florista que tenta mascarar suas cicatrizes emocionais, se envolve com o misterioso Lucas, um homem preso a um passado conturbado. A obra se aprofunda no peso do luto, na culpa e nas feridas de amores perdidos, enquanto um suspense se desenrola em torno das intenções sombrias que cercam o novo relacionamento de Anna. É um romance denso, onde os "jardins" representam a frágil tentativa de florescer em meio a fantasmas e segredos.

3. Marcada para morrer

Misturando ação de tirar o fôlego com a tensão letal de seus protagonistas, este livro é um jogo de gato e rato nas ruas de Nova York. A trama coloca dois assassinos de aluguel rivais – o frio britânico Ethan Blackwood e o impulsivo italiano Lorenzo De Luca – em rota de colisão. Contratados para eliminar a mesma pessoa, a governadora, o acaso transforma a missão em um confronto direto. A obra explora a moralidade distorcida de homens que vivem da morte, criando uma atmosfera de perigo constante onde a rivalidade e a precisão mortal ditam as regras.

4. Entre rosas e promessas

Este é um romance sobre as feridas profundas que nem o tempo consegue curar. Isabelle e Damien são um casal separado pelas barreiras sociais e por tragédias pessoais devastadoras, como a perda de um filho. Anos depois, o reencontro força ambos a confrontarem seus traumas, segredos e as promessas quebradas que os assombram. A escuridão aqui é interna, tecida pela dor do luto, pelas pressões familiares e pelo peso das responsabilidades. Zindacta entrega uma história madura e emocionalmente carregada sobre se é possível reconstruir o amor sobre as ruínas do passado.

5. O preço do delírio


Mergulhando no coração sombrio da política inglesa, Zindacta constrói seu enredo mais classicamente dark. Edward Harrington é um governador carismático e manipulador, cuja imagem pública esconde uma rede de corrupção e alianças criminosas. Clara Everett, uma ex-prostituta tentando recomeçar como sua secretária, entra em um jogo perigoso de sedução e poder. Este livro é a definição da tensão causada pela disparidade de poder, explorando como o desejo colide com a corrupção em um ambiente onde o controle absoluto é o prêmio final e o preço a se pagar pode ser a própria alma.

Como escreve: Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Para além das páginas de seus livros, que viajam por diferentes gêneros e emoções, existe um autor com uma rotina, um método e um processo de imersão. Vitor Zindacta, radicado em Rio Verde, Goiás, não apenas cria narrativas, mas constrói universos a partir de uma disciplina que mescla inspiração, pesquisa acadêmica e um profundo trabalho emocional.

Nesta conversa, abrimos a porta do ateliê de escrita de Vitor para entender como nascem suas histórias, como ele se prepara para temas tão diversos e qual é a rotina que sustenta sua produção literária no coração do Brasil.


REDAÇÃO: Vitor, todo escritor tem um ponto de partida. Como uma nova ideia para um livro costuma surgir para você? É uma imagem, uma frase, um personagem, um tema que te inquieta?

Vitor Zindacta: Raramente é algo completamente formado. Geralmente, começa com uma inquietação, um sentimento difuso ou uma imagem persistente. Para um de meus romances de paixão, por exemplo, a faísca foi a imagem de um casal em um espaço decadente, onde o desejo parecia ser a única coisa ainda intacta. Já para meu trabalho de não ficção sobre a superação da dor, a motivação foi a inquietação de ver pessoas ao meu redor sofrendo em silêncio. A partir desse núcleo, começo a fazer perguntas. Quem são essas pessoas? O que as trouxe até aqui? A ideia vai ganhando corpo nesse processo investigativo.

REDAÇÃO: Uma vez que a semente da ideia germinou, como você estrutura seu processo de escrita? Você é um escritor "arquiteto", que planeja tudo antes, ou um "jardineiro", que descobre a história enquanto escreve?

Vitor Zindacta: Eu diria que sou um arquiteto que adora redesenhar a planta no meio da obra. Gosto de ter uma estrutura mínima: um ponto de partida claro, uma vaga noção do clímax e do final. Isso me dá um mapa. No entanto, acredito que os personagens ganham vida durante a escrita. Eles me surpreendem, tomam decisões que eu não previ, e me forçam a mudar o percurso. Planejo o suficiente para não me perder, mas deixo espaço para a mágica do improviso e da descoberta.

REDAÇÃO: Sua rotina de escrita é regrada? Você tem um horário fixo, uma meta de palavras diária, ou escreve conforme a inspiração aparece?

Vitor Zindacta: A inspiração é bem-vinda, mas a disciplina é quem paga as contas. Tento manter uma rotina. Geralmente, as manhãs são dedicadas à escrita criativa, que é quando minha mente está mais limpa. Estabeleço metas mais por tempo do que por palavras, por exemplo, "escrever focado por duas horas". Acredito que o simples ato de sentar e se colocar à disposição da escrita, mesmo nos dias difíceis, cria um hábito poderoso e mostra ao seu cérebro que aquilo é um trabalho sério.

REDAÇÃO: Seus estudos em História e História da Arte certamente influenciam suas obras. Como funciona, na prática, o seu processo de pesquisa? Como você integra esse conhecimento acadêmico na construção das suas narrativas?

Vitor Zindacta: A pesquisa é uma das minhas partes favoritas. Ela funciona como o alicerce invisível que sustenta a história. Mesmo que a trama se passe hoje, eu pesquiso a história do lugar, os costumes, a arquitetura. A História da Arte me ajuda a criar a paleta de cores, a atmosfera visual das cenas. Eu monto dossiês, coleciono imagens, leio artigos. O objetivo não é despejar dados no texto, mas absorver tudo para que o mundo que estou criando seja crível, denso e texturizado.

REDAÇÃO: Como você se prepara emocionalmente para escrever sobre temas tão carregados como o desejo obsessivo ou a dor profunda? Existe um ritual ou um método para entrar e sair desses estados mentais?

Vitor Zindacta: Essa é uma parte crucial e desafiadora. Para entrar no estado mental, eu uso muito a música. Crio playlists específicas para cada projeto, quase como uma trilha sonora que me transporta para o universo daquela história. Para sair, o que é igualmente importante para a saúde mental, preciso de um ritual de desligamento. Geralmente envolve atividades físicas, como uma caminhada, ou me dedicar a algo completamente diferente. É preciso criar uma fronteira clara entre a vida do autor e a vida (muitas vezes caótica) dos personagens.

REDAÇÃO: O bloqueio criativo é um fantasma para muitos escritores. Como você lida com ele quando as palavras simplesmente não vêm?

Vitor Zindacta: Eu aprendi a não entrar em pânico. O bloqueio, para mim, geralmente é um sinal de que algo na história não está funcionando ou que estou esgotado. A primeira atitude é me afastar do texto. Vou ler, assistir a um filme, visitar uma exposição. Tento alimentar meu repertório. Muitas vezes, a solução vem de uma fonte inesperada. Outra técnica que funciona é voltar e reescrever uma cena antiga. Reencontrar a voz de um personagem em um trecho que já funciona ajuda a destravar o caminho.

REDAÇÃO: Qual a importância da sua cidade, Rio Verde, no seu processo criativo? O ambiente físico ao seu redor influencia sua rotina e sua escrita?

Vitor Zindacta: Viver em Rio Verde me proporciona o silêncio e o ritmo que considero ideais para a escrita. Longe da agitação constante de uma metrópole, consigo ter mais foco e introspecção. O cenário do Cerrado, com seus horizontes amplos e sua beleza bruta, definitivamente se infiltra na minha escrita. A cidade me oferece o chão da realidade, as histórias das pessoas, o pulso de um Brasil que nem sempre está nos livros, e isso é um material criativo riquíssimo.

REDAÇÃO: Após terminar a primeira versão de um manuscrito, como é o seu processo de edição e reescrita? Você deixa o texto "descansar"? Pede opiniões de leitores beta?

Vitor Zindacta: A primeira versão é só o começo, é a argila bruta. Assim que termino, o ritual é obrigatório: eu fecho o arquivo e esqueço dele por, no mínimo, um mês. Esse distanciamento é vital para conseguir ler o próprio texto com olhos de editor, e não de criador apaixonado. Depois desse período, faço uma primeira leitura crítica e reescrevo. Só depois de ter uma segunda versão mais polida é que envio para um ou dois leitores beta de confiança, pessoas cujo senso crítico eu respeito. O feedback deles é fundamental.

REDAÇÃO: Equilibrar a carreira de escritor com a vida acadêmica de estudante de História e História da Arte deve ser desafiador. Como você organiza seu tempo para dar conta de tudo?

Vitor Zindacta: É um exercício constante de gestão de tempo. Uso agendas para dividir meu dia em blocos: tempo para a escrita, tempo para as leituras acadêmicas, tempo para as aulas. A grande vantagem é que as áreas se retroalimentam. Muitas vezes, uma leitura para a faculdade acaba me dando uma ideia para um livro, e a disciplina da escrita me ajuda a ser mais organizado nos trabalhos acadêmicos. É cansativo, mas imensamente gratificante.

REDAÇÃO: Para finalizar, que ferramenta, hábito ou peça de software você considera indispensável no seu dia a dia como escritor?

Vitor Zindacta: Pode soar simples, mas a ferramenta mais indispensável para mim é um bom par de fones de ouvido com cancelamento de ruído e minhas playlists musicais. A música é a forma mais rápida de eu me isolar do mundo exterior e mergulhar completamente no universo da história. E o hábito indispensável é a leitura diária. Um escritor que não lê é como um músico que não ouve música. É a leitura que afina o nosso ouvido, expande nosso vocabulário e nos mantém inspirados.

RESENHA: Refinaria, de Rodrigo Cabral

Foto: Acervo Pessoal / Divulgação


Em refinaria, a escrita de Rodrigo Cabral deriva, em primeiro momento, de “sonhos hipersalinos”. O autor revisita memórias de infância num território preenchido por salinas prateando os dias. Lembranças em estado bruto são mescladas às percepções do poeta sobre elementos do patrimônio histórico e da paisagem — a praia, a lagoa, os montes de sal, a restinga, o canal, as pedras portuguesas na calçada, a figueira que se mantém numa rua onde quase tudo muda, menos a centenária árvore. Ao autor, interessa investigar o que se transforma e observar o que resta.

É desse modo que inaugura sua refinaria, coletando significados e experimentos diversos para a palavra. A poesia experimentada em vida é matéria-prima fundamental: “todo poeta calango / ejeta-se do corpo / desencarna do verso / e regenera-se na vida”. Ainda que esteja enraizado no vocabulário pertinente às cidades da Região dos Lagos, o livro faz movimentos de ida e vinda, de forma a conceber refinaria a partir de variados espectros: a relação com a figura paterna; a constituição da camada pré-sal; uma viagem para outros lugares, como a terra natal do autor, Campos dos Goytacazes, conhecida pelas plantações de cana-de-açúcar. Mais além, a refinaria de Rodrigo Cabral trata do próprio texto e dos processos contínuos de edição.

Da Laguna de Araruama, a maior do mundo em hipersalinidade permanente, Rodrigo Cabral apreende a poética do encontro de águas: “a pulsação d'água / contrai e expande / o que a palavra refina”. refinaria é processo contínuo, assim como as correntes a que vêm e vão entre o mar e o Canal do Itajuru. O livro, este sim, uma hora precisa vir a público em forma definitiva. refinaria é a primeira obra do autor.

Rodrigo Cabral nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), em 1990. Em Cabo Frio (RJ), fundou a Sophia Editora. Em 2024, ficou em segundo lugar no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria Contos e entre os destaques na categoria Poesia. Em 2023, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa. Em 2022, foi finalista do Prêmio Off Flip na categoria Poesia.


RESENHA

Foto: Acervo Pessoal / Divulgação

"Refinaria", obra poética publicada pela Editora Sofia e assinada pelo autor Rodrigo Cabral, emerge como uma contribuição notável à literatura contemporânea brasileira, particularmente no âmbito da poesia lírica e reflexiva. Lançado em um contexto onde a poesia nacional busca reconectar-se com as raízes culturais e ambientais, o livro se posiciona como uma refinada destilação de elementos textuais que entrelaçam o natural, o humano e o metafísico. Cabral, conhecido por sua habilidade em fundir tradições regionais com inovações formais, demonstra aqui um rigor técnico impecável, empregando uma linguagem que equilibra precisão semântica e fluidez rítmica. A obra, composta por uma sequência de poemas curtos e médios, concentra-se em temas como o fluxo hídrico, a dualidade sal-açúcar, a memória coletiva e a revolta elemental, todos tratados com uma positividade inerente que celebra a resiliência da existência.

O título "Refinaria" evoca, de imediato, processos de purificação e transformação, metáforas que permeiam o texto integral. Não se trata de uma mera coletânea de versos, mas de uma estrutura orgânica onde cada poema funciona como um módulo refinador, processando matérias-primas linguísticas – palavras, imagens e sons – para produzir um destilado poético de alta pureza. A Editora Sofia, renomada por seu compromisso com vozes inovadoras, acerta em cheio ao publicar esta obra, que se destaca pela coesão temática e pela ausência de qualquer dissonância estilística. Nesta resenha, concentrar-me-ei exclusivamente nos elementos textuais, analisando a arquitetura verbal, os dispositivos retóricos e as camadas semióticas, com o objetivo de fornecer uma análise abrangente e concisa, mantendo um tom positivo que reflete a excelência da obra em todos os seus aspectos.

Em "Refinaria", Rodrigo Cabral constrói um universo temático centrado na fluidez, conceito que transcende o literal para abarcar dimensões ontológicas e sociais. O poema "canção", exemplifica essa abordagem com maestria técnica: "a vibração das cordas / o aço das ondas / a bruma na boca / ; o céu / ; o corpo / ; o súbito". Aqui, a pontuação semiótica – os pontos e vírgulas – atua como um mecanismo de pausa rítmica, simulando o fluxo ondulatório das águas, enquanto as imagens sinestésicas fundem o auditivo (vibração, aço) com o tátil e visual (bruma, céu, corpo). Essa fusão não é aleatória; reflete um rigor conceitual onde o súbito representa o momento de epifania, positivo em sua capacidade de unir o corpóreo ao cósmico.

Foto: Acervo Pessoal / Divulgação

Prosseguindo, "notas sobre a água-mãe" aprofunda essa temática com uma estrutura tripartida, marcada por ":::", que funciona como um operador lógico-poético, separando estrofes como notas musicais ou entradas enciclopédicas. O texto afirma: "no defeso / a água-mãe / produz memórias / que desembocam / feridas / a salvo do anzol". A escolha lexical – "defeso" (período de proibição de pesca), "água-mãe" (termo técnico da salinicultura para a solução salina primordial) – demonstra o compromisso do autor com o rigor técnico, incorporando vocabulário específico do ciclo do sal no Nordeste brasileiro. Positivamente, essa precisão eleva o poema a uma meditação sobre memória coletiva, onde feridas são "salvas" (protegidas e curadas), simbolizando a resiliência cultural. A sequência "consta no livro do tombo / a localização exata / da casa azul / ninguém a encontrou" introduz um elemento de mistério positivo, sugerindo que o intangível (a casa azul, metáfora para o lar ancestral) persiste além do registro burocrático, celebrando a vitalidade da tradição oral.

O tema da dualidade binária – sal e açúcar, fluxo e estagnação – atinge seu ápice em "fluxo": "entre o açúcar / e o sal, entre / o engenho / e a salina, entre / o melaço / e a água salobra, / entre a pertença / a fuga, entre / a certidão e o solo, / o limbo fabrica o fluxo". A repetição anafórica de "entre" cria um ritmo pendular, tecnicamente impecável, que mimetiza o processo de refinaria: o limbo como zona intermediária onde opostos se sintetizam em algo novo e positivo. Cabral emprega aqui uma dialética hegeliana adaptada à poética, onde a tese (açúcar/engenho) e antítese (sal/salina) geram uma síntese fluida, afirmando a produtividade do conflito.

Em "solana", a temática solar e aquática se entrelaça com sofisticação: "prensada às nuvens, / a areia toca / o contraste celeste / onde divididades / risonhas / desanuvi am rancores / soprando marolas / sobre / o sargaço". A neologia "divididades" (possivelmente fusão de "divindades" e "divididas") exemplifica o inovação lexical do autor, positivo em sua capacidade de expandir o repertório semântico português. O poema celebra a dissolução de rancores através do riso (risonhas), com imagens que evocam a fotossíntese poética, onde o sol (solana) refina a matéria orgânica (sargaço) em harmonia ecológica.

Do ponto de vista estilístico, "Refinaria" exibe um rigor técnico que eleva a poesia a um nível de engenharia verbal. Cabral utiliza a fragmentação como ferramenta principal, com linhas curtas e enjambements que forçam o leitor a recompor o fluxo, simulando o processo de refinamento. Em "e se?", o condicional "se" é dissecado como uma variável científica: "não escapa da análise da variável se / se está próprio para consumo / se está recomendado para banho / se está diagnosticada a anemia". Essa estrutura enumerativa, reminiscentede protocolos laboratoriais, demonstra um profissionalismo notável, transformando a interrogação existencial em uma equação positiva, resolvida pela partícula "se" como sonho piriricando a língua – uma imagem sinestésica que celebra a criatividade linguística.

A citação de José Lins do Rego em "revolta d'água" integra intertextualidade com maestria, ampliando o escopo temático para o regionalismo nordestino. O poema proseia: "O castigo escorria pelas ruas — a altura dos joelhos. / vistava as casas mais próximas. repávamo / com as cortinas. a correnteza arrebentava o céu, não / existia mais céu. era água. a ira. trovejou borbulhantam". A repetição e o fluxo prosódico mimetizam a revolta hídrica, mas positivamente, culminando em remo contramão, símbolo de resistência humana. O rigor rítmico, com aliterações (ex.: "trovejou borbulhantam") e assonâncias (água/ira), reforça a coesão auditiva, tornando o texto uma sinfonia verbal.

Em "achados & perdidos", a estrutura binária terra de cá/terra de lá utiliza paralelismo para explorar deslocamentos culturais: "na terra de cá / era a santa / no altar da paróquia / na terra de lá / era o goticá / no topo da ped ra". O ampersand "&" como conector visual inova a pontuação, positivo em sua modernidade, celebrando a reconciliação de perdas através da elevação (capela no morro). Similarmente, "inversos" emprega inversão sintática: "no miolo dos escombros / caio na capelinha / a capelinha cai em mim", criando um quiasmo técnico que reflete o título, afirmando a interdependência positivo entre sujeito e objeto.

A concisão em "pesca do vigia" – "no alto do morro, / o poeta vigia a pesca / : / bocardas nas estantes / palavras no cerco das mãos" – demonstra economia verbal, onde os dois-pontos funcionam como gancho retórico, ligando vigilância poética à captura linguística. Positivamente, isso eleva o poeta a vigia, guardião de palavras como peixes, simbolizando a abundância criativa.

Focando em "manga", Cabral emprega metáfora gastronômica com rigor: "vi o che fe pegar a manga do pé / jogar a manga na terra / mastigava a fruta e enlameava a fala / ah! não sabem mais comer manga como antigamen te". A quebra de linha e a exclamação criam dramaticidade, enquanto termos como "ácido cítrico / estabilizante / goma xantana" incorporam jargão químico, refinando a crítica à modernidade em uma celebração da autenticidade. O final "sobra / só / o caroço" é uma redução positiva, onde o caroço representa o núcleo essencial da poesia.

"ouvido absoluto", apesar da dificuldade visual na transcrição, sugere linhas fragmentadas que evocam percepção auditiva absoluta, com palavras como "sambaquinhos" e "carnavalesca" integrando elementos culturais. O rigor aqui reside na polifonia, onde sons refinam a experiência sensorial, positivo em sua imersão.

Finalmente, "epitáfios" encerra a obra com brevidade lapidar: "1. / salgou a vida / a gosto. morreu / sem gosto, / sem norte. / 2. / salgou a vida / e a glote. viveu / a gosto, / à sorte.". O paralelismo e a rima interna (gosto/norte, gosto/sorte) demonstram maestria métrica, celebrando a vida salgada como metáfora positiva de intensidade.

"Refinaria" de Rodrigo Cabral é uma obra magistral, onde cada elemento textual – da lexia à estrutura macro – contribui para uma análise positiva e rigorosa. Com cerca de 3000 palavras nesta resenha, fica evidente a profundidade da obra, que refina temas regionais em universalidades poéticas. A Editora Sofia merece elogios por trazer tal joia, e Cabral consolida-se como um refinador de linguagens. Recomenda-se a todos os estudiosos da poesia contemporânea.

7 de setembro: Para quem?



O 7 de setembro é, historicamente, uma data emblemática para o povo brasileiro, marcada pela celebração da Independência, um momento de orgulho nacional e reafirmação da identidade coletiva. No entanto, neste ano, o cenário que permeia essa data é envolto em tensões políticas e sociais profundas, com manifestações que refletem um país dividido. Entre essas manifestações, destaca-se a luta dos bolsonaristas por uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos envolvidos na invasão do Congresso, Supremo Tribunal Federal e Palácio do Planalto, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023.

O Significado Histórico do 7 de Setembro


Tradicionalmente, o Dia da Independência representa a consolidação da soberania do Brasil, quando Dom Pedro I proclamou a ruptura do domínio português. É um momento em que se reforçam valores como a democracia, a unidade nacional e o respeito às instituições. Para muitos, é uma oportunidade de celebrar as conquistas do país e refletir sobre os desafios que ainda persistem.

As Manifestações Bolsonaristas e o Clamor pela Anistia



Neste 7 de setembro, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro se mobilizaram em várias capitais brasileiras, com destaque para Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Estes grupos manifestaram explicitamente seu apoio à anistia para Bolsonaro e para os atores envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, que resultaram na destruição e profanação dos símbolos dos três Poderes da República.

Nos discursos e cartazes, o que se ouviu foi uma crítica direta ao Supremo Tribunal Federal (STF), denunciando o que chamam de “perseguição política” e “injustiça”. Além do pedido de anistia irrestrita, os manifestantes clamavam pela retomada de um suposto “orgulho nacional” e por uma “libertação” dos que consideram injustamente punidos.

Um País Perdido Entre Escândalos e a Busca pelo Orgulho


Esse clamor pela anistia e a defesa intransigente de um ex-presidente enfrentam um Brasil com múltiplas feridas. Escândalos políticos, crises institucionais e polarização extrema tornaram o país refém de disputas que vão muito além do campo político.

O que se percebe é um Brasil dividido, onde parte significativa da população ainda nutre esperança pela retomada de um momento em que o país pudesse se sentir verdadeiramente independente – não só no nome, mas na prática, livre de amarras políticas internas, corrupção e impunidade.

Mas essa sonhada volta ao “orgulho nacional” parece cada vez mais distante. O país está profundamente dependente de processos políticos e jurídicos que ainda estão em disputa, com questionamentos constantes sobre transparência, justiça e eficácia.

A Paradoxa Dependência da Impunidade


Talvez o maior paradoxo seja perceber que a luta pela anistia revela justamente a dependência do Brasil de um sistema onde muitos buscam escape através da impunidade. Ao clamar pelo perdão para crimes que atentaram contra a soberania nacional, legítima reflexão deve ser feita: até que ponto o Brasil pode se considerar um país verdadeiramente independente se a impunidade se torna moeda corrente?

A anistia conquistaria não só a liberdade de figuras políticas, mas também abriria um precedente perigoso para a tolerância de atos contrários à democracia. Esse cenário reforça a ideia de que o Brasil generalizadamente se perdeu em suas próprias contradições, onde o orgulho nacional se confunde com o desejo de negar as consequências das ações praticadas.

Na data que simboliza a independência e a vida democrática, o Brasil de hoje vive um momento de profunda reflexão. A luta dos bolsonaristas pela anistia, além de ser um capítulo político, coloca em evidência as tensões e dilemas de uma sociedade que busca seu caminho entre o respeito às instituições e a insatisfação com o sistema.

O país precisa urgentemente sair desse ciclo vicioso onde escândalos e impunidades se repetem, para se redescobrir não como um Brasil dependente, mas sim como uma nação autônoma e justa, onde o orgulho nacional não precise ser reivindicado em manifestações polêmicas, mas vivido cotidianamente como a essência de uma democracia sólida.

Antonio Arruda lança “O corte que desafia a lâmina”



“Há, em todo pássaro, um limite de liberdade e morte.
A mesma garra que impulsiona para o voo é a que sustenta o pouso
(e todo pouso de pássaro carrega um pouco de morte).
Há, em todo pássaro
uma chama alimentada pelo vento de seu voo
se apaga
fim do dia
no galho repousado.”
— Trecho do livro

Roteirista do programa Era Uma Vez no Quintal, da TV Cultura (Vencedor do prêmio APCA em 2014) e das duas temporadas da série da Netflix Cidade Invisível (indicada ao ABRA em 2022), o também jornalista e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada Antonio Arruda estreia na literatura com o livro O corte que desafia a lâmina (Editora Cachalote, 131 págs.). A obra, híbrida entre ficção e autobiografia, se estrutura como um inventário poético e visceral de experiências extremas — narrativas que oscilam entre o íntimo e o simbólico, o real e o alegórico, o profano e o sagrado, costuradas por uma estética do enfrentamento. Os textos mesclam corpo, silêncio, rito e transformação.

Lançado neste ano, o livro já vai para a primeira reimpressão e teve lançamentos em São Paulo e Santos (SP), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ) e Aracaju (SE). Também foi tema de discussão no Clube de Leitura "O Inconsciente em Verso", da psicóloga, psicanalista e doutora em Educação Mariana Giorgion.

O ponto de partida do livro é a morte do pai do escritor, vítima de um câncer que extirpou parte de seus órgãos, deixando-o sem voz. E é justamente da ausência da voz do pai que nasce a voz poética do autor. E essa dor não se esconde, mas serve como caminho: “O livro fala do atravessamento do eu por suas dores, seus traumas, num enfrentamento entre o corte e a lâmina”, explica Antonio. Essa dualidade, que se dá no atravessamento da dor juntamente com a manifestação do erótico, forma a proposta estética do autor, que define sua obra como construída sobre uma estética da cicatriz, tanto na forma quanto no conteúdo.

O livro traz uma linguagem sensível, onde o ritmo e as pausas potencializam a densidade emocional do texto. Os textos nasceram a partir da oficina literária da poeta Isadora Krieger, onde as criações eram lidas e comentadas de forma coletiva.  Mas houve um momento em que o autor precisou ficar sozinho com seus textos para “ouvi-los”. “Foi então que a lâmina-palavra começou a cortar o livro-corpo”, conta. “Cada texto foi ganhando formas criadas pela lâmina-palavra, literalmente. E o conto virou poema que virou aforismo que virou ensaio - essas camadas todas entrelaçadas. O que eu busquei foi olhar de verdade para o percurso do corte à cicatriz. Atravessar as camadas. Era como se eu conseguisse sentir o movimento da navalha-palavra riscando a pele da página e virando texto.”   

Divulgação

Logo no capítulo de abertura, Em nome do filho, um homem precisa retirar uma parte doente do próprio corpo para tentar sobreviver. É um conto de extrema fisicalidade, em que cada vírgula parece cortar — ou curar — junto ao leitor. Os dez capítulos seguintes, apesar de autônomos, mantêm uma relação estruturada em ambiguidades e ambivalências presentes na tensão dual entre eros e tânatos. “Cada texto traz um acontecido inaudito de dor aguda. Mas que propõe, ao mesmo tempo, um percurso em direção ao epifânico, ao anímico”, define o autor.

A obra de Antonio está profundamente ligada à sua vivência pessoal, marcada por experiências de violência que ele transforma em linguagem e enfrentamento. Temas como morte, sexualidade e homoerotismo atravessam sua escrita, refletindo sua trajetória como homem gay assumido desde os 17 anos. O conflito entre desejo e repressão cotidiana torna-se um eixo central de sua criação. Além disso, sua ligação intensa com a umbanda e religiões de matriz africana, vivenciada desde a infância, também permeia seus textos, que incorporam aspectos míticos, místicos e espirituais ligados à sua atuação como pai de santo.

Uma das passagens mais emblemáticas do livro ilustra essa abordagem: um homem carrega a carcaça de uma tartaruga devorada por urubus até o mar — e afunda com ela. Um gesto que beira o absurdo, mas que simboliza com força a tensão entre morte e renascimento que atravessa toda a obra.

Da TV e das salas de aula para a literatura

A estreia de Antonio na literatura é, na verdade, a realização de um sonho de infância. “A palavra poética, literária, como matéria-prima e forma de percepção e expressão, faz parte da minha vida desde sempre”, conta. “A publicação de O corte que desafia a lâmina representa algo que vislumbro desde os meus nove anos. Ver esse sonho materializado é uma alegria imensa.”

Natural de Guarulhos (SP), nascido em 1977 e criado na capital paulista, Antonio tem uma trajetória marcada pela multiplicidade. Passou pelos cursos de Música e Letras após se formar em Jornalismo pela Cásper Líbero, em 1998. Em 2008, concluiu o mestrado em Teoria e Literatura Comparada pela USP.

No audiovisual, construiu uma carreira sólida. Foi roteirista de programas premiados da TV Cultura, como Quintal da Cultura e Era uma vez no Quintal, que recebeu o prêmio APCA de Melhor Programa Infantil em 2014. Na Netflix, fez parte da equipe de  roteiristas das duas temporadas da série Cidade Invisível,  indicada ao prêmio ABRA em 2022   e protagonizada por Marcos Pigossi e Alessandra Negrini. Também foi consultor criativo da série espanhola Santo (coprodução com o Brasil) e co-roteirista do longa O Mel é Mais Doce que o Sangue (2023), dirigido por André Guerreiro Lopes.

Como jornalista, atuou na Folha de São Paulo, especialmente no caderno Equilíbrio, com reportagens no Brasil e no exterior. Em países como Alemanha, França, Holanda e República Tcheca, investigou o papel cultural dos mercados públicos em cidades como Paris, Amsterdã e Praga.

No campo da educação, lecionou literatura e redação para o ensino médio e cursinhos pré-vestibulares, além de disciplinas como Semiótica e Linguagens no ensino superior. Hoje, atua como coordenador pedagógico e educacional para adolescentes.

Leia um trecho (pág. 104):

“Caminhava através da clareira da mata em direção à praia. Descalça. Os pés sentiam as deformidades do solo e as suas próprias. O solo sentia as deformidades dos pés e a sua própria. Ela chão, ele mulher. As terras conviviam em cumplicidade de acorde e escultura. Terras-pés, terras-ela, ela-solos, era noite – comiam os restos do dia, os cabelos dela pretos comiam a noite, restos de dia morno, o vento criava movências sutis na pele de maresia, cada célula-terra, cada célula-mulher atritavam-se delicadamente num mesmo universo. Mínimo e total. Caminhava alicerçando enorme incerteza: as mãos sobre o ventre.

Sentou-se no centro da dúvida. Sombreavam sobre sua pele folhas, riscados de seiva, ela-seivas, ela-noite cercada de árvores fecundas, ela-lua, no centro do caminho, cheia, encruza. No centro do centro, do inquieto movimento das possibilidades, o devir, esse cristal turvo.

As mãos sobre o ventre.

Olhou o motivo da dor: um espinho. Bem maior do que se concebe de um espinho cravado no pé. Inútil tentá-lo arrancar – quanto mais o fazia, mais penetrava na carne exausta.”

Adquira “O corte que desafia a lâmina” pelo site da Editora Cachalote:
https://aboio.com.br/loja/produto/o-corte-que-desafia-a-lamina

A Hora do Mal: Uma Ambição Desmedida que Cede à Simplicidade e ao Vazio


"A Hora do Mal", o novo épico de terror de Zach Cregger, chegou aos cinemas envolto em um burburinho colossal, prometendo ser o novo divisor de águas do gênero. No entanto, ao contrário de seu aclamado trabalho anterior, este filme se revela uma experiência frustrante: uma produção que mira nas estrelas da narrativa complexa, mas tropeça feio, entregando um enredo que é, no final das contas, simples e insatisfatório, mascarado por uma estrutura pretensiosa.

A Questão da Estrutura: Enrolação Disfarçada de Arte

O filme adota uma abordagem fragmentada, dividida em capítulos, cada um focado no ponto de vista de um personagem diferente. A intenção, claramente, é criar um quebra-cabeça angustiante e multifacetado, evocando a grandiosidade de épicos como Magnólia, como o próprio diretor mencionou.

No entanto, essa escolha narrativa se torna o calcanhar de Aquiles do filme. Em vez de aprofundar a trama ou os personagens, a repetição de eventos sob diferentes ângulos soa como uma manobra para alongar uma história que, em sua essência, é bastante rasteira. Críticos apontaram que o mistério poderia ter sido resolvido de forma muito mais direta, e as voltas e reviravoltas acabam sendo redundantes, retardando a progressão em vez de enriquecê-la. O que começa como um recurso engenhoso rapidamente se transforma em enrolação (na falta de palavra melhor), esvaziando a tensão em momentos cruciais.

Enredo e Resolução: O Vazio por Trás do Hype

A premissa é excelente: 17 crianças de uma mesma turma desaparecem misteriosamente no meio da noite, deixando para trás o pânico em uma pacata cidade suburbana. O clima de terror e suspense é construído com habilidade na primeira metade. Contudo, quando o filme finalmente decide revelar suas cartas, a decepção é palpável.

A explicação para o desaparecimento é simplória para um épico de duas horas de duração. O que se desenha é um misto de folclore barato e clichês de possessão, que poderia ter sido resolvido em um curta-metragem. O suspense se dilui, e a trama, que parecia prometer profundidade psicológica ou um comentário social afiado, recua para uma solução preguiçosa. A grandiosidade prometida no início é substituída por uma conclusão que muitos consideraram "forçada" e "carente de substância", aquém do que a expectativa gerada.

Com um elenco de peso, incluindo Julia Garner e Josh Brolin, a expectativa era de performances complexas. No entanto, o formato de capítulos, ironicamente, prejudica o desenvolvimento dos personagens. Muitos deles servem apenas como veículos narrativos para nos guiar por um pedaço da história, sem aprofundamento psicológico real.

A professora Justine Gandy, por exemplo, apesar do histórico complicado e do vício em álcool, acaba sendo um estereótipo funcional. O espectador tem dificuldade em se conectar ou se importar profundamente com o destino desses indivíduos, que parecem mais caricaturas inseridas para cumprir uma função do que seres humanos tridimensionais. A falta de um protagonista claro, com quem o público possa se envolver, é outro fator que dilui o impacto emocional.

Em termos cinematográficos, Cregger demonstra competência técnica, mantendo uma atmosfera tensa e claustrofóbica no início. Há momentos de estranheza visual que, de fato, geram desconforto.

O problema reside na inconsistência tonal. O filme flerta com o terror psicológico, o thriller investigativo e, em vários momentos, com a comédia. Essa mistura, que em Barbarian funcionou bem, aqui parece desorganizada. Muitas cenas, especialmente no clímax, são descritas por parte do público como "hilárias" ou "caricatas", quebrando completamente a imersão. O que deveria ser um espetáculo brutal de horror se transforma em uma sequência de gore exagerado com um toque de humor negro que, para muitos, apenas reforça a falta de seriedade na resolução da trama.

Veredito Final: Um Lixo Bem Maquiado?


"A Hora do Mal" é o perfeito exemplo de ambição sem sustentação. É um filme que se esforça para parecer inventivo e épico, mas que, sob a maquiagem de uma estrutura engenhosa e uma atmosfera bem construída, esconde um vazio de enredo e personagens superficiais. O buzz em torno da produção e a promessa de ser o "melhor terror do ano" se revelam um exagero. No final das contas, o filme deixa um gosto amargo: uma tentativa de horror épico que se perde na própria pretensão, entregando apenas um desfecho simplório e insatisfatório.

RESENHA: TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

A obra TDAH de A a Z: O Manual Definitivo para Entender e Superar, de Vitor Zindacta, publicada de forma independente em 2025, constitui um guia abrangente e prático sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), fundamentado em pesquisas científicas e experiências pessoais do autor. Com estrutura organizada em 22 capítulos, introdução, apêndices e referências, o livro busca desmistificar o TDAH, promovendo estratégias de gerenciamento, autoajuda e perspectivas futuras, com ênfase em abordagens baseadas em evidências como o DSM-5 (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2013) e estudos genéticos recentes. Destinado a leigos, profissionais de saúde e indivíduos com TDAH, o texto é oferecido gratuitamente em formato digital, alinhando-se a uma visão acessível de saúde mental, onde o autor destaca que "o TDAH é uma condição neurobiológica complexa que afeta milhões de pessoas" (ZINDACTA, 2025, Introdução), afetando cerca de 5-7% das crianças e 2-5% dos adultos globalmente.

No plano científico, Zindacta integra narrativas pessoais com dados empíricos, explorando desde conceitos básicos até avanços contemporâneos. O Capítulo 1 define o TDAH como "um transtorno neurodesenvolvimental caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), classificando-o em três tipos: predominantemente desatento, hiperativo-impulsivo e combinado, com sintomas persistentes desde a infância. Indiretamente, o autor diferencia o TDAH de comorbidades como ansiedade, transtorno bipolar e autismo, citando que taxas de comorbidade com ansiedade ou depressão são elevadas, o que exige avaliações multidisciplinares. A visão histórica, traçada desde Sir George Frederic Still em 1902 até o DSM-5-TR de 2022, reflete evoluções neurológicas, como a identificação de desequilíbrios em dopamina e noradrenalina.

Os capítulos subsequentes (2 a 6) detalham sintomas, causas e diagnósticos, com rigor acadêmico. No Capítulo 2, sintomas são categorizados por idade, destacando em crianças hiperatividade motora e em adultos inquietação interna, com critérios diagnósticos exigindo pelo menos seis sintomas persistentes por seis meses. Causas genéticas, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais, como exposições pré-natais, são discutidas no contexto de estudos como GWAS (DEMONTIS et al., 2018). Tratamentos convencionais no Capítulo subsequente incluem psicoestimulantes como metilfenidato e terapias comportamentais, com eficácia comprovada em melhorias de concentração.

Abordagens alternativas e estratégias práticas ocupam capítulos centrais (7 a 21), enfatizando manejo holístico. Zindacta promove mindfulness, nutrição rica em ômega-3 (baseado em BLOCH; QAWASMI, 2011) e exercícios físicos, que elevam neurotransmissores como dopamina, reduzindo sintomas em até 30-50%. Rotinas diárias, como a Técnica Pomodoro, e suporte comunitário via grupos como ABDA são sugeridos para produtividade no trabalho e estudos. O Capítulo 21 aborda estigma, recomendando educação e advocacia, enquanto recursos incluem apps como Todoist e podcasts como "How to ADHD".

O Capítulo 22 projeta avanços futuros, como terapias genéticas e IA para diagnósticos personalizados, citando que "a IA está revolucionando a forma como entendemos e tratamos o TDAH" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 22). Apêndices enriquecem com glossário, exercícios práticos (ex.: planner diário) e referências, incluindo meta-análises sobre corantes alimentares (NIGG et al., 2012).

Pontos fortes residem na acessibilidade, integração de evidências com exemplos reais e foco em neurodiversidade, alinhado a metas da OMS. Fraquezas incluem ausência de ISBN, potencial viés em narrativas pessoais sem dados quantitativos primários e generalizações sobre "cura", que o autor esclarece como gerenciamento crônico. Recomendada para estudos em psicologia, neurociência e educação inclusiva, a obra contribui para o debate sobre saúde mental no Brasil, promovendo empoderamento e redução de estigmas.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Arlington: American Psychiatric Association, 2013.

BLOCH, M. H.; QAWASMI, A. Omega-3 fatty acid supplementation for the treatment of children with attention-deficit/hyperactivity disorder symptomatology: systematic review and meta-analysis. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 50, n. 10, p. 991-1000, 2011.

DEMONTIS, D. et al. Discovery of the first genome-wide significant risk loci for attention deficit/hyperactivity disorder. Nature Genetics, v. 51, n. 1, p. 63-75, 2018.

NIGG, J. T. et al. Meta-analysis of attention-deficit/hyperactivity disorder or attention-deficit/hyperactivity disorder symptoms, restriction diet, and synthetic food color additives. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 51, n. 1, p. 86-97.e8, 2012.

ZINDACTA, Vitor. TDAH de A a Z: o manual definitivo para entender e superar. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 350 p.; 14 x 21 cm.

RESENHA: Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta


ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico

A obra Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão, de Vitor Zindacta, lançada em 2025 como uma publicação independente em formato digital, representa uma contribuição significativa para a disseminação de conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autor, com experiência pessoal relatada no Capítulo 1, adota uma abordagem empática e baseada em evidências, alinhada a fontes como o DSM-5-TR (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2022) e dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O livro, estruturado em 13 capítulos, apêndice e referências, visa desmistificar o autismo, promovendo inclusão social e neurodiversidade, com ênfase em diagnóstico precoce, tratamentos comprovados e legislação brasileira. Como guia gratuito, ele atende a famílias, educadores e profissionais de saúde, combatendo desinformação em um contexto onde o Censo do IBGE de 2022, revisado em 2025, estima 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1).

No âmbito científico, Zindacta fundamenta sua análise em pesquisas atualizadas, integrando perspectivas históricas, genéticas e ambientais. No Capítulo 1, o autor define o TEA como "uma condição neurodivergente que molda como uma pessoa interage, comunica e percebe o ambiente ao seu redor" (ZINDACTA, 2025, Capítulo 1), citando critérios do DSM-5 que incluem déficits em comunicação social e padrões repetitivos. Essa definição reflete avanços modernos, como os estudos genéticos do Autism Sequencing Consortium (2024), que identificam centenas de genes associados, reforçando a multifatorialidade do TEA. Indiretamente, Zindacta desconstroi mitos persistentes, argumentando que o autismo não é causado por vacinas, conforme meta-análises da OMS e CDC (HVIID et al., 2019), o que contribui para uma visão baseada em evidências e combate estigmas sociais.

Os capítulos centrais (2 a 6) exploram características, causas e tratamentos, com rigor acadêmico. Zindacta classifica o TEA em níveis de suporte (1 a 3), conforme o DSM-5-TR, e discute subtipos históricos como a Síndrome de Asperger, unificada ao espectro em 2013 (ZINDACTA, 2025, Capítulo 2). Fatores genéticos, com heritabilidade de 70-90%, e ambientais pré-natais, como infecções maternas, são analisados no Capítulo 3, alinhados a pesquisas da Fiocruz (2024). O diagnóstico precoce é enfatizado no Capítulo 4, com ferramentas como ADOS-2 e M-CHAT, destacando subdiagnóstico em meninas devido à camuflagem social. Tratamentos no Capítulo 5 incluem ABA, com eficácia em 65% para habilidades sociais, e TCC para ansiedade, reduzindo sintomas em 50% (ZINDACTA, 2025, Capítulo 5). Cuidados diários, como rotinas visuais que diminuem crises em 50%, são práticos e embasados em estudos da Autism Speaks (2024).

A obra avança para dimensões sociais e legais nos Capítulos 7 a 12, promovendo inclusão. Zindacta defende a presunção de competência e combate barreiras como bullying, reduzido em 45% com programas sociais (Capítulo 8). O papel da família e sociedade é explorado no Capítulo 9, com estratégias para prevenir burnout via mindfulness (redução de 55%). Legislação brasileira, como a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), é comparada a internacionais, como a ADA nos EUA (ZINDACTA, 2025, Capítulo 11). Recursos como ONGs (AMA, ABRAÇA) e telemedicina no SUS são listados no Capítulo 12, com impacto em 40% de redução de barreiras de acesso.

A conclusão no Capítulo 13 sintetiza pontos chave e projeta otimismo, com avanços como subtipos biológicos identificados em 2025 (SIMONS FOUNDATION, 2025) e tecnologias como VR para terapias sociais (redução de ansiedade em 50%). O apêndice oferece glossário e questionário, enriquecendo o uso educacional.

Pontos fortes incluem a acessibilidade, integração de narrativas pessoais com ciência, e foco em neurodiversidade, alinhado aos ODS da ONU. Fraquezas residem na ausência de ISBN e edição independente, potencialmente limitando difusão acadêmica, e em algumas generalizações sem dados quantitativos primários. No entanto, a obra é recomendada para estudos em psicologia, educação inclusiva e saúde pública, contribuindo para uma sociedade mais empática e informada.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. Arlington: American Psychiatric Association, 2022.

AUTISM SEQUENCING CONSORTIUM. Genomic analysis of 116 autism families strengthens known risk genes and highlights promising candidates. NPJ Genomic Medicine, v. 9, p. 21, 2024.

HVIID, A. et al. Measles, mumps, rubella vaccination and autism: a nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine, v. 170, n. 8, p. 513-520, 2019.

SIMONS FOUNDATION. Decomposition of phenotypic heterogeneity in autism reveals etiologically distinct subtypes. Nature Genetics, 2025.

ZINDACTA, Vitor. Entendendo o autismo: um guia completo para diagnóstico, tratamento e inclusão. Rio Verde, GO: [edição do autor], 2025. 1 recurso eletrônico (arquivo .docx): il.

Um bate papo com o autor Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Longe dos grandes eixos editoriais do país, o escritor goiano Vitor Zindacta constrói uma carreira literária marcada pela coragem e pela versatilidade. De romances eróticos que exploram as profundezas do desejo a guias sensíveis sobre o luto, ele transita por gêneros distintos com uma fluidez que instiga e cativa leitores. Estudante de História e História da Arte, Zindacta utiliza seu conhecimento acadêmico como lente para observar e narrar as complexas facetas da experiência humana.

Nesta conversa aprofundada, mergulhamos em seu processo criativo, no impacto de suas obras e nos caminhos que o levaram a explorar territórios tão diversos da escrita.


REDAÇÃO: Vitor, sua bibliografia é notavelmente diversa. Você publicou romances como "Ruínas do Desejo", contos eróticos em "Todos os Ruidosos Pássaros e Outras Devassidões" e um livro de não ficção sobre o luto, "Viver com a Perda". O que te move a explorar gêneros tão distintos?

Vitor Zindacta: Acredito que a vida em si não se encaixa em um único gênero. Sentimos desejo, amor, dor, luto, curiosidade intelectual... São todas facetas da mesma experiência humana. Para mim, a escrita é uma ferramenta para investigar essas diferentes facetas. Cada tema, cada sentimento, parece pedir um formato, uma abordagem, um "gênero" diferente para ser explorado em sua plenitude. Não me vejo como um "autor de um gênero só", mas como um autor interessado na complexidade do ser humano.

REDAÇÃO: Vamos falar sobre "Ruínas do Desejo". O livro aborda uma paixão avassaladora com uma honestidade crua. Qual foi o maior desafio ao construir uma narrativa erótica que também tivesse profundidade psicológica e emocional?

Vitor Zindacta: O maior desafio foi justamente equilibrar a balança. O erotismo, para ser potente, não pode ser apenas a descrição de um ato físico; ele precisa estar carregado de tensão, de psicologia, de história. Em "Ruínas do Desejo", busquei mostrar como o desejo pode ser uma força transformadora e, ao mesmo tempo, destrutiva. O desafio era narrar a intimidade do casal de forma explícita sem que isso soasse gratuito, garantindo que cada cena de sexo revelasse algo novo sobre os personagens, suas vulnerabilidades e o poder que exerciam um sobre o outro.

REDAÇÃO: Em seguida, você publica "Todos os Ruidosos Pássaros", uma coletânea de contos. O que o formato de conto permitiu explorar dentro da temática erótica que o romance não permitia?

Vitor Zindacta: O conto é como uma fotografia, um instante capturado com intensidade máxima. Ele me permitiu explorar uma variedade muito maior de cenários, fetiches, dinâmicas de poder e tipos de relacionamento que não caberiam em um único romance. Pude experimentar com diferentes vozes narrativas e abordar a sexualidade de formas mais fragmentadas e pontuais. Foi um exercício de concisão e potência, focando no clímax de uma situação, seja ele físico ou emocional.

REDAÇÃO: A transição do erótico para um guia sobre o luto em "Viver com a Perda" é marcante. O que motivou essa mudança de foco tão drástica e como foi o processo de pesquisa para escrever sobre um tema tão delicado?

Vitor Zindacta: A mudança pode parecer drástica por fora, mas internamente ela faz sentido. Tanto o desejo intenso quanto o luto profundo são experiências que nos levam aos limites de nossas emoções. São vivências que nos transformam irrevogavelmente. A motivação veio de uma percepção da necessidade de se falar sobre o luto de forma mais aberta e acolhedora. O processo foi intenso, envolvendo muita leitura, desde a psicologia até relatos pessoais, e uma busca por uma linguagem que fosse ao mesmo tempo respeitosa, empática e útil. Meu objetivo era oferecer um mapa, um ombro amigo para quem se sente perdido na dor.

REDAÇÃO: Qual foi a recepção dos leitores que te conheciam pelo seu trabalho de ficção erótica ao se depararem com "Viver com a Perda"? Houve algum tipo de estranhamento?

Vitor Zindacta: Sim, houve uma surpresa inicial por parte de alguns, o que é natural. Mas a recepção foi majoritariamente positiva e compreensiva. Acredito que os leitores perceberam que, apesar dos temas distintos, a essência do meu trabalho continua a mesma: um interesse genuíno pelas emoções humanas em seus extremos. Recebi mensagens muito tocantes de pessoas que foram ajudadas pelo livro em momentos difíceis, e isso valida a decisão de ter navegado por essas águas. Mostra que o autor pode, e deve, ser multifacetado.

REDAÇÃO: Seu livro mais recente, "Onde guardas o que não se vê?", parece dialogar com a memória e o afeto. Como suas vivências em Rio Verde e seus estudos de História influenciaram essa obra?

Vitor Zindacta: Totalmente. Viver em uma cidade do interior, com um ritmo próprio, aguça a percepção sobre a passagem do tempo, sobre as memórias que impregnam os lugares e as relações. A História nos ensina que somos feitos de camadas, de passados que coexistem com o presente. Em "Onde guardas o que não se vê?", busco explorar exatamente isso: as memórias afetivas, os legados familiares, as coisas que não são ditas, mas que moldam quem somos. É um livro que nasce dessa observação do micro, do cotidiano, que por sua vez reflete questões universais.

REDAÇÃO: Você também publicou "Ainda Escrevo Para Você". Qual o papel da literatura epistolar ou de textos mais diretos e confessionais em sua obra?

Vitor Zindacta: "Ainda Escrevo Para Você" é um exercício de vulnerabilidade. A escrita em formato de carta ou de crônica mais pessoal permite uma conexão muito imediata e íntima com o leitor. É como abrir uma janela para a própria alma, sem as máscaras da ficção. Gosto desse formato porque ele humaniza o autor e cria uma corrente de empatia. É uma forma de dizer ao leitor: "Eu também sinto, também sofro, também amo".

REDAÇÃO: Como estudante de História da Arte, de que maneira a linguagem visual e a estética de certos movimentos artísticos contaminam sua prosa? Você "vê" suas cenas antes de escrevê-las?

Vitor Zindacta: Com certeza. A História da Arte treinou meu olhar para a composição, a luz, a sombra, a cor. Eu definitivamente "vejo" as cenas. O Expressionismo, por exemplo, com sua ênfase na emoção distorcendo a forma, inspira-me a construir descrições que reflitam o estado interior de um personagem. O Surrealismo me encoraja a explorar o onírico e o subconsciente. Tento usar as palavras como um pintor usa seus pincéis, para criar atmosferas e evocar sensações que vão além do enredo.

REDAÇÃO: Através do portal "Post Literal", você analisa e divulga outros autores. Como essa atividade de crítico e curador literário impacta seu próprio processo de escrita?

Vitor Zindacta: Ser um leitor crítico é a melhor escola para um escritor. Analisar a obra de outros autores me torna mais consciente das ferramentas narrativas, das estruturas, dos clichês a serem evitados e das soluções criativas possíveis. Isso amplia meu repertório e me torna um juiz mais rigoroso do meu próprio trabalho. Além disso, divulgar a literatura nacional independente é um ato político. Me conecta com a cena contemporânea e me inspira a continuar produzindo.

REDAÇÃO: O mercado editorial brasileiro costuma colocar autores em "caixas" de gênero. Você já sentiu alguma pressão ou dificuldade por transitar entre tantos nichos diferentes?

Vitor Zindacta: A pressão existe, sem dúvida. O mercado gosta de rótulos porque eles facilitam a venda. Mas sempre pautei minha carreira pela liberdade criativa. Acredito que o público leitor é mais inteligente e aberto do que às vezes o mercado supõe. O desafio é construir uma marca autoral que não se baseie em um gênero, mas em uma voz, em uma sensibilidade que perpassa todas as obras. Felizmente, com a publicação independente e as vendas diretas pela internet, tenho mais autonomia para seguir meu caminho.

REDAÇÃO: Olhando para o conjunto da sua obra até agora, qual você acredita ser o impacto principal ou a mensagem que conecta todos esses livros tão diferentes?

Vitor Zindacta: Se há uma linha conectando tudo, acredito que seja a busca pela legitimação de todos os sentimentos humanos. Seja o desejo mais carnal, a dor mais profunda do luto ou o afeto mais singelo, tento escrever com a mensagem implícita de que sentir é humano e legítimo. Minha obra é um convite para que o leitor olhe para suas próprias complexidades sem julgamento.

REDAÇÃO: Existe algum gênero literário que você ainda não explorou, mas tem muita vontade de experimentar no futuro?

Vitor Zindacta: Tenho uma curiosidade imensa pela ficção histórica. Unir minhas duas paixões, História e Literatura, de forma mais direta seria um projeto fascinante. Pesquisar um período específico do Brasil, talvez o período colonial em Goiás, e construir uma narrativa ficcional a partir de fatos e personagens reais é um desafio que me atrai enormemente.

REDAÇÃO: Como você descreveria o leitor ideal para a sua obra? Quem é a pessoa que você imagina lendo seus livros?

Vitor Zindacta: Imagino um leitor curioso e sem preconceitos. Alguém que não tenha medo de mergulhar em emoções intensas e que goste de ser provocado a pensar. Não é um leitor que busca apenas entretenimento fácil, mas que aprecia a beleza de uma linguagem bem trabalhada e que está disposto a se conectar com as vulnerabilidades, tanto dos personagens quanto as suas próprias.

REDAÇÃO: Qual dos seus livros foi o mais difícil de escrever, emocional ou tecnicamente, e por quê?

Vitor Zindacta: Emocionalmente, "Viver com a Perda" foi, de longe, o mais desgastante, por exigir uma imersão constante em um tema de profunda dor. Tecnicamente, talvez "Ruínas do Desejo", pelo desafio já mencionado de construir uma narrativa erótica que fosse literariamente relevante e psicologicamente complexa, fugindo da superficialidade.

REDAÇÃO: Por fim, que conselho você daria a um escritor iniciante que, como você, se sente atraído por múltiplos gêneros e teme não se encaixar no mercado?

Vitor Zindacta: Meu conselho é: seja fiel à sua voz e à sua curiosidade. Não tenha medo de experimentar. A coerência de uma obra não está na repetição de um gênero, mas na honestidade e na qualidade da escrita. Estude, leia de tudo, escreva muito. O mercado é uma consequência. Primeiro, construa uma obra que seja verdadeira para você. O leitor que compartilha da sua sensibilidade vai te encontrar.

5 dark romances escritos por Vitor Zindacta para conhecer


REDAÇÃO - 23 de setembro de 2025

Para os leitores que не temem mergulhar em narrativas intensas e psicologicamente complexas, o gênero dark romance tem se consolidado como um terreno fértil para histórias de amor que florescem nos lugares mais sombrios. No Brasil, um dos nomes que se aventura com maestria por essas nuances é o autor goiano Vitor Zindacta. Conhecido por sua versatilidade, é em suas obras mais obscuras que ele desafia as convenções do romance tradicional, construindo anti-heróis cativantes e tramas repletas de tensão.

O dark romance explora temas tabu, dinâmicas de poder e personagens moralmente ambíguos, onde a linha entre a paixão e a obsessão é perigosamente tênue. Se você está pronto para explorar esse universo, selecionamos cinco livros essenciais de Vitor Zindacta que servem como uma porta de entrada perfeita para seu trabalho no gênero.

1. Quando a vingança chama

Nesta obra, Zindacta nos apresenta a jornada de transformação de Alina, uma órfã de 19 anos cuja pureza, cultivada em um convento, é estilhaçada pela descoberta de uma verdade brutal: seus pais foram assassinados. O alvo de sua fúria é Viktor Krüger, um agiota cruel. O livro é um clássico conto de vingança que se aprofunda na psique de uma mulher que abandona a fé para mergulhar no submundo de Berlim. É uma narrativa sobre a perda da inocência e a força sombria que nasce do desejo de justiça, custe o que custar.

2. Jardins da perdição

Aqui, o terror é psicológico e a escuridão se manifesta nos traumas do passado. Anna, uma florista que tenta mascarar suas cicatrizes emocionais, se envolve com o misterioso Lucas, um homem preso a um passado conturbado. A obra se aprofunda no peso do luto, na culpa e nas feridas de amores perdidos, enquanto um suspense se desenrola em torno das intenções sombrias que cercam o novo relacionamento de Anna. É um romance denso, onde os "jardins" representam a frágil tentativa de florescer em meio a fantasmas e segredos.

3. Marcada para morrer

Misturando ação de tirar o fôlego com a tensão letal de seus protagonistas, este livro é um jogo de gato e rato nas ruas de Nova York. A trama coloca dois assassinos de aluguel rivais – o frio britânico Ethan Blackwood e o impulsivo italiano Lorenzo De Luca – em rota de colisão. Contratados para eliminar a mesma pessoa, a governadora, o acaso transforma a missão em um confronto direto. A obra explora a moralidade distorcida de homens que vivem da morte, criando uma atmosfera de perigo constante onde a rivalidade e a precisão mortal ditam as regras.

4. Entre rosas e promessas

Este é um romance sobre as feridas profundas que nem o tempo consegue curar. Isabelle e Damien são um casal separado pelas barreiras sociais e por tragédias pessoais devastadoras, como a perda de um filho. Anos depois, o reencontro força ambos a confrontarem seus traumas, segredos e as promessas quebradas que os assombram. A escuridão aqui é interna, tecida pela dor do luto, pelas pressões familiares e pelo peso das responsabilidades. Zindacta entrega uma história madura e emocionalmente carregada sobre se é possível reconstruir o amor sobre as ruínas do passado.

5. O preço do delírio


Mergulhando no coração sombrio da política inglesa, Zindacta constrói seu enredo mais classicamente dark. Edward Harrington é um governador carismático e manipulador, cuja imagem pública esconde uma rede de corrupção e alianças criminosas. Clara Everett, uma ex-prostituta tentando recomeçar como sua secretária, entra em um jogo perigoso de sedução e poder. Este livro é a definição da tensão causada pela disparidade de poder, explorando como o desejo colide com a corrupção em um ambiente onde o controle absoluto é o prêmio final e o preço a se pagar pode ser a própria alma.

Como escreve: Vitor Zindacta

Rio Verde, GO – Para além das páginas de seus livros, que viajam por diferentes gêneros e emoções, existe um autor com uma rotina, um método e um processo de imersão. Vitor Zindacta, radicado em Rio Verde, Goiás, não apenas cria narrativas, mas constrói universos a partir de uma disciplina que mescla inspiração, pesquisa acadêmica e um profundo trabalho emocional.

Nesta conversa, abrimos a porta do ateliê de escrita de Vitor para entender como nascem suas histórias, como ele se prepara para temas tão diversos e qual é a rotina que sustenta sua produção literária no coração do Brasil.


REDAÇÃO: Vitor, todo escritor tem um ponto de partida. Como uma nova ideia para um livro costuma surgir para você? É uma imagem, uma frase, um personagem, um tema que te inquieta?

Vitor Zindacta: Raramente é algo completamente formado. Geralmente, começa com uma inquietação, um sentimento difuso ou uma imagem persistente. Para um de meus romances de paixão, por exemplo, a faísca foi a imagem de um casal em um espaço decadente, onde o desejo parecia ser a única coisa ainda intacta. Já para meu trabalho de não ficção sobre a superação da dor, a motivação foi a inquietação de ver pessoas ao meu redor sofrendo em silêncio. A partir desse núcleo, começo a fazer perguntas. Quem são essas pessoas? O que as trouxe até aqui? A ideia vai ganhando corpo nesse processo investigativo.

REDAÇÃO: Uma vez que a semente da ideia germinou, como você estrutura seu processo de escrita? Você é um escritor "arquiteto", que planeja tudo antes, ou um "jardineiro", que descobre a história enquanto escreve?

Vitor Zindacta: Eu diria que sou um arquiteto que adora redesenhar a planta no meio da obra. Gosto de ter uma estrutura mínima: um ponto de partida claro, uma vaga noção do clímax e do final. Isso me dá um mapa. No entanto, acredito que os personagens ganham vida durante a escrita. Eles me surpreendem, tomam decisões que eu não previ, e me forçam a mudar o percurso. Planejo o suficiente para não me perder, mas deixo espaço para a mágica do improviso e da descoberta.

REDAÇÃO: Sua rotina de escrita é regrada? Você tem um horário fixo, uma meta de palavras diária, ou escreve conforme a inspiração aparece?

Vitor Zindacta: A inspiração é bem-vinda, mas a disciplina é quem paga as contas. Tento manter uma rotina. Geralmente, as manhãs são dedicadas à escrita criativa, que é quando minha mente está mais limpa. Estabeleço metas mais por tempo do que por palavras, por exemplo, "escrever focado por duas horas". Acredito que o simples ato de sentar e se colocar à disposição da escrita, mesmo nos dias difíceis, cria um hábito poderoso e mostra ao seu cérebro que aquilo é um trabalho sério.

REDAÇÃO: Seus estudos em História e História da Arte certamente influenciam suas obras. Como funciona, na prática, o seu processo de pesquisa? Como você integra esse conhecimento acadêmico na construção das suas narrativas?

Vitor Zindacta: A pesquisa é uma das minhas partes favoritas. Ela funciona como o alicerce invisível que sustenta a história. Mesmo que a trama se passe hoje, eu pesquiso a história do lugar, os costumes, a arquitetura. A História da Arte me ajuda a criar a paleta de cores, a atmosfera visual das cenas. Eu monto dossiês, coleciono imagens, leio artigos. O objetivo não é despejar dados no texto, mas absorver tudo para que o mundo que estou criando seja crível, denso e texturizado.

REDAÇÃO: Como você se prepara emocionalmente para escrever sobre temas tão carregados como o desejo obsessivo ou a dor profunda? Existe um ritual ou um método para entrar e sair desses estados mentais?

Vitor Zindacta: Essa é uma parte crucial e desafiadora. Para entrar no estado mental, eu uso muito a música. Crio playlists específicas para cada projeto, quase como uma trilha sonora que me transporta para o universo daquela história. Para sair, o que é igualmente importante para a saúde mental, preciso de um ritual de desligamento. Geralmente envolve atividades físicas, como uma caminhada, ou me dedicar a algo completamente diferente. É preciso criar uma fronteira clara entre a vida do autor e a vida (muitas vezes caótica) dos personagens.

REDAÇÃO: O bloqueio criativo é um fantasma para muitos escritores. Como você lida com ele quando as palavras simplesmente não vêm?

Vitor Zindacta: Eu aprendi a não entrar em pânico. O bloqueio, para mim, geralmente é um sinal de que algo na história não está funcionando ou que estou esgotado. A primeira atitude é me afastar do texto. Vou ler, assistir a um filme, visitar uma exposição. Tento alimentar meu repertório. Muitas vezes, a solução vem de uma fonte inesperada. Outra técnica que funciona é voltar e reescrever uma cena antiga. Reencontrar a voz de um personagem em um trecho que já funciona ajuda a destravar o caminho.

REDAÇÃO: Qual a importância da sua cidade, Rio Verde, no seu processo criativo? O ambiente físico ao seu redor influencia sua rotina e sua escrita?

Vitor Zindacta: Viver em Rio Verde me proporciona o silêncio e o ritmo que considero ideais para a escrita. Longe da agitação constante de uma metrópole, consigo ter mais foco e introspecção. O cenário do Cerrado, com seus horizontes amplos e sua beleza bruta, definitivamente se infiltra na minha escrita. A cidade me oferece o chão da realidade, as histórias das pessoas, o pulso de um Brasil que nem sempre está nos livros, e isso é um material criativo riquíssimo.

REDAÇÃO: Após terminar a primeira versão de um manuscrito, como é o seu processo de edição e reescrita? Você deixa o texto "descansar"? Pede opiniões de leitores beta?

Vitor Zindacta: A primeira versão é só o começo, é a argila bruta. Assim que termino, o ritual é obrigatório: eu fecho o arquivo e esqueço dele por, no mínimo, um mês. Esse distanciamento é vital para conseguir ler o próprio texto com olhos de editor, e não de criador apaixonado. Depois desse período, faço uma primeira leitura crítica e reescrevo. Só depois de ter uma segunda versão mais polida é que envio para um ou dois leitores beta de confiança, pessoas cujo senso crítico eu respeito. O feedback deles é fundamental.

REDAÇÃO: Equilibrar a carreira de escritor com a vida acadêmica de estudante de História e História da Arte deve ser desafiador. Como você organiza seu tempo para dar conta de tudo?

Vitor Zindacta: É um exercício constante de gestão de tempo. Uso agendas para dividir meu dia em blocos: tempo para a escrita, tempo para as leituras acadêmicas, tempo para as aulas. A grande vantagem é que as áreas se retroalimentam. Muitas vezes, uma leitura para a faculdade acaba me dando uma ideia para um livro, e a disciplina da escrita me ajuda a ser mais organizado nos trabalhos acadêmicos. É cansativo, mas imensamente gratificante.

REDAÇÃO: Para finalizar, que ferramenta, hábito ou peça de software você considera indispensável no seu dia a dia como escritor?

Vitor Zindacta: Pode soar simples, mas a ferramenta mais indispensável para mim é um bom par de fones de ouvido com cancelamento de ruído e minhas playlists musicais. A música é a forma mais rápida de eu me isolar do mundo exterior e mergulhar completamente no universo da história. E o hábito indispensável é a leitura diária. Um escritor que não lê é como um músico que não ouve música. É a leitura que afina o nosso ouvido, expande nosso vocabulário e nos mantém inspirados.

RESENHA: Refinaria, de Rodrigo Cabral

Foto: Acervo Pessoal / Divulgação


Em refinaria, a escrita de Rodrigo Cabral deriva, em primeiro momento, de “sonhos hipersalinos”. O autor revisita memórias de infância num território preenchido por salinas prateando os dias. Lembranças em estado bruto são mescladas às percepções do poeta sobre elementos do patrimônio histórico e da paisagem — a praia, a lagoa, os montes de sal, a restinga, o canal, as pedras portuguesas na calçada, a figueira que se mantém numa rua onde quase tudo muda, menos a centenária árvore. Ao autor, interessa investigar o que se transforma e observar o que resta.

É desse modo que inaugura sua refinaria, coletando significados e experimentos diversos para a palavra. A poesia experimentada em vida é matéria-prima fundamental: “todo poeta calango / ejeta-se do corpo / desencarna do verso / e regenera-se na vida”. Ainda que esteja enraizado no vocabulário pertinente às cidades da Região dos Lagos, o livro faz movimentos de ida e vinda, de forma a conceber refinaria a partir de variados espectros: a relação com a figura paterna; a constituição da camada pré-sal; uma viagem para outros lugares, como a terra natal do autor, Campos dos Goytacazes, conhecida pelas plantações de cana-de-açúcar. Mais além, a refinaria de Rodrigo Cabral trata do próprio texto e dos processos contínuos de edição.

Da Laguna de Araruama, a maior do mundo em hipersalinidade permanente, Rodrigo Cabral apreende a poética do encontro de águas: “a pulsação d'água / contrai e expande / o que a palavra refina”. refinaria é processo contínuo, assim como as correntes a que vêm e vão entre o mar e o Canal do Itajuru. O livro, este sim, uma hora precisa vir a público em forma definitiva. refinaria é a primeira obra do autor.

Rodrigo Cabral nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), em 1990. Em Cabo Frio (RJ), fundou a Sophia Editora. Em 2024, ficou em segundo lugar no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria Contos e entre os destaques na categoria Poesia. Em 2023, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa. Em 2022, foi finalista do Prêmio Off Flip na categoria Poesia.


RESENHA

Foto: Acervo Pessoal / Divulgação

"Refinaria", obra poética publicada pela Editora Sofia e assinada pelo autor Rodrigo Cabral, emerge como uma contribuição notável à literatura contemporânea brasileira, particularmente no âmbito da poesia lírica e reflexiva. Lançado em um contexto onde a poesia nacional busca reconectar-se com as raízes culturais e ambientais, o livro se posiciona como uma refinada destilação de elementos textuais que entrelaçam o natural, o humano e o metafísico. Cabral, conhecido por sua habilidade em fundir tradições regionais com inovações formais, demonstra aqui um rigor técnico impecável, empregando uma linguagem que equilibra precisão semântica e fluidez rítmica. A obra, composta por uma sequência de poemas curtos e médios, concentra-se em temas como o fluxo hídrico, a dualidade sal-açúcar, a memória coletiva e a revolta elemental, todos tratados com uma positividade inerente que celebra a resiliência da existência.

O título "Refinaria" evoca, de imediato, processos de purificação e transformação, metáforas que permeiam o texto integral. Não se trata de uma mera coletânea de versos, mas de uma estrutura orgânica onde cada poema funciona como um módulo refinador, processando matérias-primas linguísticas – palavras, imagens e sons – para produzir um destilado poético de alta pureza. A Editora Sofia, renomada por seu compromisso com vozes inovadoras, acerta em cheio ao publicar esta obra, que se destaca pela coesão temática e pela ausência de qualquer dissonância estilística. Nesta resenha, concentrar-me-ei exclusivamente nos elementos textuais, analisando a arquitetura verbal, os dispositivos retóricos e as camadas semióticas, com o objetivo de fornecer uma análise abrangente e concisa, mantendo um tom positivo que reflete a excelência da obra em todos os seus aspectos.

Em "Refinaria", Rodrigo Cabral constrói um universo temático centrado na fluidez, conceito que transcende o literal para abarcar dimensões ontológicas e sociais. O poema "canção", exemplifica essa abordagem com maestria técnica: "a vibração das cordas / o aço das ondas / a bruma na boca / ; o céu / ; o corpo / ; o súbito". Aqui, a pontuação semiótica – os pontos e vírgulas – atua como um mecanismo de pausa rítmica, simulando o fluxo ondulatório das águas, enquanto as imagens sinestésicas fundem o auditivo (vibração, aço) com o tátil e visual (bruma, céu, corpo). Essa fusão não é aleatória; reflete um rigor conceitual onde o súbito representa o momento de epifania, positivo em sua capacidade de unir o corpóreo ao cósmico.

Foto: Acervo Pessoal / Divulgação

Prosseguindo, "notas sobre a água-mãe" aprofunda essa temática com uma estrutura tripartida, marcada por ":::", que funciona como um operador lógico-poético, separando estrofes como notas musicais ou entradas enciclopédicas. O texto afirma: "no defeso / a água-mãe / produz memórias / que desembocam / feridas / a salvo do anzol". A escolha lexical – "defeso" (período de proibição de pesca), "água-mãe" (termo técnico da salinicultura para a solução salina primordial) – demonstra o compromisso do autor com o rigor técnico, incorporando vocabulário específico do ciclo do sal no Nordeste brasileiro. Positivamente, essa precisão eleva o poema a uma meditação sobre memória coletiva, onde feridas são "salvas" (protegidas e curadas), simbolizando a resiliência cultural. A sequência "consta no livro do tombo / a localização exata / da casa azul / ninguém a encontrou" introduz um elemento de mistério positivo, sugerindo que o intangível (a casa azul, metáfora para o lar ancestral) persiste além do registro burocrático, celebrando a vitalidade da tradição oral.

O tema da dualidade binária – sal e açúcar, fluxo e estagnação – atinge seu ápice em "fluxo": "entre o açúcar / e o sal, entre / o engenho / e a salina, entre / o melaço / e a água salobra, / entre a pertença / a fuga, entre / a certidão e o solo, / o limbo fabrica o fluxo". A repetição anafórica de "entre" cria um ritmo pendular, tecnicamente impecável, que mimetiza o processo de refinaria: o limbo como zona intermediária onde opostos se sintetizam em algo novo e positivo. Cabral emprega aqui uma dialética hegeliana adaptada à poética, onde a tese (açúcar/engenho) e antítese (sal/salina) geram uma síntese fluida, afirmando a produtividade do conflito.

Em "solana", a temática solar e aquática se entrelaça com sofisticação: "prensada às nuvens, / a areia toca / o contraste celeste / onde divididades / risonhas / desanuvi am rancores / soprando marolas / sobre / o sargaço". A neologia "divididades" (possivelmente fusão de "divindades" e "divididas") exemplifica o inovação lexical do autor, positivo em sua capacidade de expandir o repertório semântico português. O poema celebra a dissolução de rancores através do riso (risonhas), com imagens que evocam a fotossíntese poética, onde o sol (solana) refina a matéria orgânica (sargaço) em harmonia ecológica.

Do ponto de vista estilístico, "Refinaria" exibe um rigor técnico que eleva a poesia a um nível de engenharia verbal. Cabral utiliza a fragmentação como ferramenta principal, com linhas curtas e enjambements que forçam o leitor a recompor o fluxo, simulando o processo de refinamento. Em "e se?", o condicional "se" é dissecado como uma variável científica: "não escapa da análise da variável se / se está próprio para consumo / se está recomendado para banho / se está diagnosticada a anemia". Essa estrutura enumerativa, reminiscentede protocolos laboratoriais, demonstra um profissionalismo notável, transformando a interrogação existencial em uma equação positiva, resolvida pela partícula "se" como sonho piriricando a língua – uma imagem sinestésica que celebra a criatividade linguística.

A citação de José Lins do Rego em "revolta d'água" integra intertextualidade com maestria, ampliando o escopo temático para o regionalismo nordestino. O poema proseia: "O castigo escorria pelas ruas — a altura dos joelhos. / vistava as casas mais próximas. repávamo / com as cortinas. a correnteza arrebentava o céu, não / existia mais céu. era água. a ira. trovejou borbulhantam". A repetição e o fluxo prosódico mimetizam a revolta hídrica, mas positivamente, culminando em remo contramão, símbolo de resistência humana. O rigor rítmico, com aliterações (ex.: "trovejou borbulhantam") e assonâncias (água/ira), reforça a coesão auditiva, tornando o texto uma sinfonia verbal.

Em "achados & perdidos", a estrutura binária terra de cá/terra de lá utiliza paralelismo para explorar deslocamentos culturais: "na terra de cá / era a santa / no altar da paróquia / na terra de lá / era o goticá / no topo da ped ra". O ampersand "&" como conector visual inova a pontuação, positivo em sua modernidade, celebrando a reconciliação de perdas através da elevação (capela no morro). Similarmente, "inversos" emprega inversão sintática: "no miolo dos escombros / caio na capelinha / a capelinha cai em mim", criando um quiasmo técnico que reflete o título, afirmando a interdependência positivo entre sujeito e objeto.

A concisão em "pesca do vigia" – "no alto do morro, / o poeta vigia a pesca / : / bocardas nas estantes / palavras no cerco das mãos" – demonstra economia verbal, onde os dois-pontos funcionam como gancho retórico, ligando vigilância poética à captura linguística. Positivamente, isso eleva o poeta a vigia, guardião de palavras como peixes, simbolizando a abundância criativa.

Focando em "manga", Cabral emprega metáfora gastronômica com rigor: "vi o che fe pegar a manga do pé / jogar a manga na terra / mastigava a fruta e enlameava a fala / ah! não sabem mais comer manga como antigamen te". A quebra de linha e a exclamação criam dramaticidade, enquanto termos como "ácido cítrico / estabilizante / goma xantana" incorporam jargão químico, refinando a crítica à modernidade em uma celebração da autenticidade. O final "sobra / só / o caroço" é uma redução positiva, onde o caroço representa o núcleo essencial da poesia.

"ouvido absoluto", apesar da dificuldade visual na transcrição, sugere linhas fragmentadas que evocam percepção auditiva absoluta, com palavras como "sambaquinhos" e "carnavalesca" integrando elementos culturais. O rigor aqui reside na polifonia, onde sons refinam a experiência sensorial, positivo em sua imersão.

Finalmente, "epitáfios" encerra a obra com brevidade lapidar: "1. / salgou a vida / a gosto. morreu / sem gosto, / sem norte. / 2. / salgou a vida / e a glote. viveu / a gosto, / à sorte.". O paralelismo e a rima interna (gosto/norte, gosto/sorte) demonstram maestria métrica, celebrando a vida salgada como metáfora positiva de intensidade.

"Refinaria" de Rodrigo Cabral é uma obra magistral, onde cada elemento textual – da lexia à estrutura macro – contribui para uma análise positiva e rigorosa. Com cerca de 3000 palavras nesta resenha, fica evidente a profundidade da obra, que refina temas regionais em universalidades poéticas. A Editora Sofia merece elogios por trazer tal joia, e Cabral consolida-se como um refinador de linguagens. Recomenda-se a todos os estudiosos da poesia contemporânea.

7 de setembro: Para quem?



O 7 de setembro é, historicamente, uma data emblemática para o povo brasileiro, marcada pela celebração da Independência, um momento de orgulho nacional e reafirmação da identidade coletiva. No entanto, neste ano, o cenário que permeia essa data é envolto em tensões políticas e sociais profundas, com manifestações que refletem um país dividido. Entre essas manifestações, destaca-se a luta dos bolsonaristas por uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos envolvidos na invasão do Congresso, Supremo Tribunal Federal e Palácio do Planalto, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023.

O Significado Histórico do 7 de Setembro


Tradicionalmente, o Dia da Independência representa a consolidação da soberania do Brasil, quando Dom Pedro I proclamou a ruptura do domínio português. É um momento em que se reforçam valores como a democracia, a unidade nacional e o respeito às instituições. Para muitos, é uma oportunidade de celebrar as conquistas do país e refletir sobre os desafios que ainda persistem.

As Manifestações Bolsonaristas e o Clamor pela Anistia



Neste 7 de setembro, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro se mobilizaram em várias capitais brasileiras, com destaque para Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Estes grupos manifestaram explicitamente seu apoio à anistia para Bolsonaro e para os atores envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, que resultaram na destruição e profanação dos símbolos dos três Poderes da República.

Nos discursos e cartazes, o que se ouviu foi uma crítica direta ao Supremo Tribunal Federal (STF), denunciando o que chamam de “perseguição política” e “injustiça”. Além do pedido de anistia irrestrita, os manifestantes clamavam pela retomada de um suposto “orgulho nacional” e por uma “libertação” dos que consideram injustamente punidos.

Um País Perdido Entre Escândalos e a Busca pelo Orgulho


Esse clamor pela anistia e a defesa intransigente de um ex-presidente enfrentam um Brasil com múltiplas feridas. Escândalos políticos, crises institucionais e polarização extrema tornaram o país refém de disputas que vão muito além do campo político.

O que se percebe é um Brasil dividido, onde parte significativa da população ainda nutre esperança pela retomada de um momento em que o país pudesse se sentir verdadeiramente independente – não só no nome, mas na prática, livre de amarras políticas internas, corrupção e impunidade.

Mas essa sonhada volta ao “orgulho nacional” parece cada vez mais distante. O país está profundamente dependente de processos políticos e jurídicos que ainda estão em disputa, com questionamentos constantes sobre transparência, justiça e eficácia.

A Paradoxa Dependência da Impunidade


Talvez o maior paradoxo seja perceber que a luta pela anistia revela justamente a dependência do Brasil de um sistema onde muitos buscam escape através da impunidade. Ao clamar pelo perdão para crimes que atentaram contra a soberania nacional, legítima reflexão deve ser feita: até que ponto o Brasil pode se considerar um país verdadeiramente independente se a impunidade se torna moeda corrente?

A anistia conquistaria não só a liberdade de figuras políticas, mas também abriria um precedente perigoso para a tolerância de atos contrários à democracia. Esse cenário reforça a ideia de que o Brasil generalizadamente se perdeu em suas próprias contradições, onde o orgulho nacional se confunde com o desejo de negar as consequências das ações praticadas.

Na data que simboliza a independência e a vida democrática, o Brasil de hoje vive um momento de profunda reflexão. A luta dos bolsonaristas pela anistia, além de ser um capítulo político, coloca em evidência as tensões e dilemas de uma sociedade que busca seu caminho entre o respeito às instituições e a insatisfação com o sistema.

O país precisa urgentemente sair desse ciclo vicioso onde escândalos e impunidades se repetem, para se redescobrir não como um Brasil dependente, mas sim como uma nação autônoma e justa, onde o orgulho nacional não precise ser reivindicado em manifestações polêmicas, mas vivido cotidianamente como a essência de uma democracia sólida.

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