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A Convergência de Saberes como Ontologia da Cura: Uma Perspectiva Integrativa sobre a Obra de Lua Amaral

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A Convergência de Saberes como Ontologia da Cura: Uma Perspectiva Integrativa sobre a Obra de Lua Amaral

Foto: Arte digital

A obra Saúde Mental: A Convergência de Saberes para a Transformação Pessoal, de autoria de Lua Amaral , publicada em 2025 , apresenta-se como um esforço intelectual contemporâneo de natureza integrativa, que busca transcender as fronteiras disciplinares convencionais para oferecer uma visão holística do bem-estar psíquico. Estruturado em uma narrativa que funde a experiência fenomênica da autora com rigorosas incursões em campos como a psicanálise, a neurociência, a física quântica e a hipnoterapia , o texto estabelece uma ontologia da cura baseada na indissociabilidade entre o biológico, o psíquico e o espiritual. Desde o prefácio, Amaral propõe que a saúde mental não deve ser compreendida apenas como a vacuidade de nosologias, mas como um "estado de bem-estar emocional, psicológico e social que influencia a forma como pensamos, sentimos e nos comportamos" (p. 9). Essa definição, embora dialoguem com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, ganha no livro uma densidade humanística ao ser ancorada em trajetórias de superação pessoal, transformando o conhecimento teórico em uma práxis de vida. A autora utiliza sua própria história, marcada pelo enfrentamento do narcisismo materno e pela reconstrução da identidade , para validar a tese de que o sofrimento, quando devidamente processado através da "convergência de saberes" , torna-se o substrato para uma evolução de consciência sem precedentes.

No âmbito da psicanálise, Amaral demonstra uma erudição acessível ao discorrer sobre os pilares freudianos e suas evoluções lacanianas e junguianas. Ela explora o conceito de inconsciente não como um reservatório estático, mas como um "mar profundo, onde frequentemente escondemos nossos desejos, medos e anseios" (p. 20). A análise técnica sobre a transferência e a resistência é ilustrada com casos clínicos que evidenciam como padrões arcaicos de relacionamento são projetados na contemporaneidade, aprisionando o sujeito em scripts emocionais repetitivos. A autora argumenta com propriedade que a autoconsciência funciona como um "farol em meio à neblina emocional" (p. 25) , permitindo que o indivíduo abra as janelas internas para a entrada de novas luzes e significados. Essa transição da sombra para a luz é sustentada tecnicamente pela neurociência, capítulo no qual a obra detalha a funcionalidade do sistema límbico, da amígdala e do hipocampo na regulação das emoções e na consolidação de memórias traumáticas. Ao abordar a neuroplasticidade, Amaral oferece um contra-argumento científico ao determinismo psíquico, afirmando que "situais dolorosas não definem quem somos" (p. 39) e que o cérebro possui a capacidade intrínseca de reconfigurar suas redes neurais diante de novas experiências e terapias integrativas.

A originalidade do trabalho reside na audácia de integrar a física quântica a esse mosaico terapêutico. A autora postula que a realidade é um "campo vivo de potencialidades, onde a consciência exerce papel fundamental" (p. 28) , estabelecendo um diálogo entre o efeito do observador e a capacidade de cocriação da própria existência. Sob essa ótica, o pensamento e a emoção não são subprodutos epifenomênicos, mas forças vibracionais que moldam o campo energético do sujeito. Essa perspectiva é complementada pela discussão sobre a radiestesia, apresentada como uma técnica de leitura e harmonização de frequências sutis que auxilia no diagnóstico e reequilíbrio do fluxo vital. A hipnose, por sua vez, é despojada de seus estigmas performáticos e redefinida como um "estado concentrado de atenção e colaboração" (p. 33) , funcionando como uma ferramenta de alta precisão para a reprogramação de registros subconscientes e a ressignificação de traumas que a mente consciente, muitas vezes, resiste em processar. O rigor com que Amaral descreve a aplicação clínica da hipnose regressiva e da autohipnose eleva a obra de um simples manual de autoajuda a um tratado de intervenção mental consciente.

Finalmente, a dimensão ética e social da obra é consolidada na análise sobre os "laços tóxicos" e a importância da fé no processo de cura. O movimento Sobreviver, fundado pela autora , serve como evidência empírica de que a saúde mental se realiza plenamente na dimensão comunitária e na validação mútua do sofrimento. Ao discutir a fé, Amaral a desvincula de dogmatismos religiosos estritos, tratando-a como um "recurso essencial de fortalecimento" (p. 60) e uma "escolha diária" (p. 63) que reconecta o indivíduo a um sentido teleológico da vida. A obra conclui que a jornada de autoconhecimento é um "desabrochar silencioso" (p. 69) , onde a integração de saberes científicos e espirituais permite que o sujeito se torne o protagonista de sua própria história. Através de exercícios práticos, diários emocionais e meditações guiadas, o livro transita com maestria entre o rigor acadêmico e a urgência do acolhimento , consolidando-se como uma referência indispensável para profissionais da saúde e indivíduos em busca de uma transformação autêntica e fundamentada.

A sofisticação com que a narrativa articula a fenomenologia do trauma e a neurofisiologia da recuperação estabelece que a mente humana não é um sistema isolado, mas uma interface complexa de processamento de informações que reage dinamicamente ao ambiente e às memórias de longo prazo. No estudo das interações primordiais, destaca-se como o ambiente e as relações cultivadas moldam a percepção do mundo, transformando o inconsciente em um processo dinâmico onde o recalcado exerce pressão sobre a consciência. A obra argumenta com propriedade que "o inconsciente, um dos pilares dessa teoria, é um mar profundo, onde frequentemente escondemos nossos desejos, medos e anseios" , sugerindo que a cura individual é, simultaneamente, uma reparação da própria identidade ferida. Este entendimento é crucial para a prática contemporânea, pois redireciona o foco para a responsabilidade da transformação no tempo presente, validando que "a saúde mental é um caminho de retorno — não ao que fui, mas ao que sou".

A transição para o domínio biológico ocorre de forma fluida, onde a arquitetura cerebral é dissecada para fundamentar a eficácia das intervenções. O texto descreve com precisão o papel da amígdala como um centro de comando que regula memórias emocionais e detecta ameaças, enquanto o hipocampo atua na consolidação de lembranças duradouras. O livro postula que "nossas reações emocionais são tanto uma questão de história pessoal quanto de biologia" , reforçando que a convivência prolongada em ambientes deletérios pode hiperativar sistemas de alerta constante. Contudo, a introdução da neuroplasticidade como fundamento da esperança permite afirmar que, através de experiências positivas e apoio social, é possível reconfigurar as redes neurais. Essa base científica eleva as práticas de atenção plena a intervenções fisiológicas, ensinando que "o cérebro é moldável" e oferece a chance diária de reinvenção.

Foto: Arte digital

Ao tratar da física quântica e sua relação com a consciência, o texto concentra-se na natureza não-local da mente e na influência da percepção sobre a realidade física. Postula-se que "a realidade não é algo fixo, mas um campo vivo de potencialidades, onde a consciência exerce papel fundamental" , estabelecendo um diálogo entre o observador e o objeto observado. Essa seção sugere que estados de gratidão e alegria podem alterar a experiência de vida, funcionando como uma reprogramação interna. O rigor acadêmico manifesta-se na tentativa de aproximar a psicologia da física moderna, sugerindo que "nossas emoções carregam energia, e essa energia ressoa no mundo". A consciência não é apresentada como um elemento separado, mas como "a própria vida em ação", capaz de reescrever o tecido coletivo da existência.

O aprofundamento encerra-se com a análise da hipnoterapia como método de acesso às camadas subconscientes da psique. Defende-se que a hipnose permite a redução de resistências emocionais, facilitando a ressignificação de traumas e a criação de novos padrões de comportamento. O estado de transe é descrito como um espaço de "ampliação da consciência", onde o corpo relaxa para que a mente acesse registros que moldam a vibração pessoal. A obra destaca que "a hipnose não é sobre ser submisso, mas sobre estar em um estado elevado de concentração" , funcionando como um passaporte para a libertação e o autoconhecimento. Através desta integração entre a profundidade analítica e a precisão técnica, constrói-se um paradigma de saúde que é cientificamente fundamentado e orientado para a soberania emocional do sujeito.

A integração multidisciplinar proposta por Amaral alcança seu ápice na análise das dinâmicas relacionais e no impacto dos laços tóxicos sobre a homeostase psíquica. A autora define esses vínculos como forças que, em vez de nutrir o crescimento, "drenam nossa energia e saúde emocional", manifestando-se em padrões de desvalorização, controle e manipulação. O texto enfatiza que a convivência prolongada em ambientes de baixa vibração — marcados por medo, culpa ou raiva — não apenas compromete o bem-estar imediato, mas "drena a energia vital e nos desconecta do fluxo natural da abundância". Através do relato de sua fundação do movimento Sobreviver, Amaral exemplifica como a "dor profunda, confusão emocional e um longo processo de reconstrução interior" decorrentes do narcisismo materno podem ser transmutados em uma "rede viva de transformação", onde histórias são validadas e feridas são finalmente nomeadas. No campo da energética, a obra introduz a radiestesia como uma ferramenta técnica de "escuta sensível" e "leitura do inconsciente energético". Através de instrumentos como o pêndulo, torna-se possível identificar bloqueios e interferências externas no campo vibracional que moldam a experiência do sujeito. Amaral argumenta que "elevar a energia é um ato de autocuidado profundo" , exigindo a manutenção de um estado de presença e coerência interna mesmo diante de adversidades. A integração entre a radiestesia, que ajusta a vibração, e a hipnose, que "ressignifica a origem emocional dos bloqueios", cria uma aliança potente para o fortalecimento interior. Este processo permite que o indivíduo transcenda o automatismo e escolha práticas que restauram o equilíbrio, como a respiração consciente e a gratidão.

O modelo integrativo defendido pela autora sintetiza a psicanálise, a física quântica, a neurociência e a hipnose em um "mosaico rico e complexo". Enquanto a psicanálise oferece a estrutura narrativa para o entendimento das motivações inconscientes , a neurociência fornece a base biológica indispensável para compreender como o cérebro processa emoções e como as experiências moldam as sinapses. A física quântica, por sua vez, desafia a percepção tradicional ao sugerir que as intenções do observador possuem impacto real na realidade. A hipnose atua como a ferramenta de execução prática, permitindo o acesso ao subconsciente para a reprogramação de padrões e a cura de traumas passados. Esse olhar holístico permite que o sujeito perceba que sua saúde mental é um "sistema dinâmico, onde cada aspecto afeta o todo".

Por fim, a obra ressalta que o autoconhecimento é uma jornada contínua de "descobertas, curas e reconstruções". Amaral convida o leitor a olhar para os próprios desafios não como fardos, mas como oportunidades de evolução, pois "a verdadeira transformação nasce do encontro entre conhecimento, prática e coragem emocional". A adoção deste olhar integrativo exige humildade e uma vontade genuína de mudança, permitindo que as experiências emocionais sejam compreendidas em suas múltiplas facetas. Ao aplicar as ferramentas propostas, desde o diário emocional até a meditação profunda , o indivíduo deixa de ser um observador passivo para tornar-se o protagonista de sua travessia, fundamentando sua vida na "presença e coerência entre sentir, pensar e agir".

“Inclusão não é opcional, é essencial à fé”: uma entrevista com Nelson H. B. Amaral

Imagem: Acervo pessoal / Divulgação

Nas salas de ministério infantil pelo Brasil, um silêncio muitas vezes ensurdecedor revela uma lacuna na missão cristã: a invisibilidade de crianças autistas. Para o pedagogo e autor Nelson H. B. Amaral, a inclusão não deve ser vista como um "projeto especial" ou uma tarefa técnica, mas como a própria essência do chamado de Cristo. Nesta entrevista exclusiva, Nelson compartilha como sua trajetória na pedagogia e sua fé se entrelaçam para desafiar igrejas a transformarem mentalidades e estruturas. Mais do que adaptar espaços, ele nos convida a adaptar o olhar, enxergando em cada criança a imagem e semelhança de Deus.

Imagem: arte digital

TEMA: O AUTISMO NO MINISTÉRIO INFANTIL E A INCLUSÃO COMO CHAMADO CRISTÃO


REDAÇÃO: Nelson, o que motivou você a unir sua vivência pedagógica com a reflexão cristã para escrever especificamente sobre o autismo no ministério infantil? 

NELSON H. B. AMARAL: Minha motivação nasceu da percepção de que muitas crianças autistas são invisibilizadas, tanto no contexto educacional quanto no religioso. Como pedagogo e cristão, compreendi que a inclusão não é apenas uma prática pedagógica, mas uma expressão concreta do amor cristão. Escrever sobre o tema foi uma forma de unir conhecimento científico e compromisso espiritual.

REDAÇÃO: Em sua obra, você menciona que a inclusão é um “chamado”. Por que você acredita que muitas igrejas ainda hesitam em atender a essa convocação? 

NELSON H. B. AMARAL: Porque a inclusão exige mudanças profundas de mentalidade, estrutura e prática. Muitas igrejas ainda a veem como algo complexo ou secundário quando, na verdade, ela é parte essencial da missão cristã.

REDAÇÃO: Como os líderes de ministério infantil podem identificar o valor e o propósito de Deus em uma criança autista que apresenta dificuldades severas de comunicação? 

NELSON H. B. AMARAL: O valor de uma criança não está em sua capacidade de comunicação ou desempenho, mas em sua condição de ser humano criado por Deus. Quando os líderes aprendem a olhar além das limitações aparentes, percebem que cada criança possui potencial, identidade e propósito.

REDAÇÃO: Quais são os maiores mitos ou preconceitos que você ainda observa dentro das comunidades de fé em relação ao comportamento autista durante os cultos? 

NELSON H. B. AMARAL: Entre os principais mitos estão as ideias de que o comportamento autista é falta de disciplina, desobediência ou ausência de espiritualidade. Esses preconceitos revelam desconhecimento e reforçam a necessidade de formação e sensibilização.

REDAÇÃO: Do ponto de vista prático, qual é o primeiro passo para uma igreja que deseja ser inclusiva, mas não possui recursos financeiros ou infraestrutura adaptada? 

NELSON H. B. AMARAL: O primeiro passo é a mudança de mentalidade. A inclusão começa com atitude, não com estrutura. A escuta das famílias, a disposição para aprender e o compromisso com o acolhimento são fundamentais.

REDAÇÃO: Como equilibrar o ensino das doutrinas bíblicas com a necessidade de metodologias pedagógicas específicas para crianças com autismo? 

NELSON H. B. AMARAL: Não há conflito entre fé e pedagogia. Pelo contrário: metodologias adaptadas são instrumentos para que a mensagem bíblica seja compreendida por todas as crianças, respeitando suas particularidades.

REDAÇÃO: Na sua visão, como a postura do professor do ministério infantil influencia a recepção da família da criança autista na igreja? 

NELSON H. B. AMARAL: A postura do professor é decisiva. Quando ele demonstra empatia, respeito e preparo, a família se sente segura e pertencente à comunidade. O professor se torna a ponte entre a criança, a família e a igreja.

REDAÇÃO: Você cita a “verdadeira essência do Evangelho” como um amor que inclui. Onde a exclusão de crianças autistas mais fere essa essência? 

NELSON H. B. AMARAL: A exclusão fere o Evangelho quando nega o direito de pertencimento. Quando uma criança autista é afastada do convívio, a igreja deixa de testemunhar o amor inclusivo de Cristo.

REDAÇÃO: Como preparar as outras crianças do ministério infantil para acolherem seus colegas autistas com naturalidade? 

NELSON H. B. AMARAL: A educação para a diversidade deve ser intencional. Ensinar valores como respeito, solidariedade e empatia ajuda as crianças a compreenderem que as diferenças fazem parte da humanidade.

REDAÇÃO: Quais são os princípios bíblicos fundamentais que dão base ao seu argumento de que a inclusão não é opcional para o cristão? 

NELSON H. B. AMARAL: Princípios como o amor ao próximo, a justiça, a dignidade humana e o cuidado com os mais vulneráveis fundamentam a ideia de que a inclusão é essencial à fé cristã.

REDAÇÃO: Em sua vivência, qual foi o exemplo real de inclusão que mais te emocionou? 

NELSON H. B. AMARAL: Um dos exemplos mais marcantes foi ver uma criança autista, antes isolada, ser integrada às atividades do ministério infantil, encontrando espaço para se expressar e ser aceita. Esse tipo de transformação revela o poder da inclusão.

REDAÇÃO: Como lidar com a sobrecarga dos voluntários do ministério infantil? 

NELSON H. B. AMARAL: É necessário investir em formação, dividir responsabilidades e construir uma rede de apoio. Ninguém inclui sozinho; a inclusão é um trabalho coletivo.

REDAÇÃO: De que forma a igreja pode oferecer suporte às famílias? 

NELSON H. B. AMARAL: A igreja pode oferecer orientação, escuta, grupos de apoio e acompanhamento espiritual. Incluir a criança é também acolher a família.

REDAÇÃO: Você acredita que a falta de inclusão é um problema mais técnico ou espiritual? 

NELSON H. B. AMARAL: A exclusão é resultado de ambos. Falta conhecimento técnico, mas também sensibilidade espiritual. Quando a igreja aprende, ela se humaniza; quando se sensibiliza, ela transforma.

REDAÇÃO: Qual é o papel da liderança da igreja? 

NELSON H. B. AMARAL: A liderança precisa assumir a inclusão como prioridade. Sem o apoio do pastor e dos líderes, projetos inclusivos dificilmente se sustentam.

REDAÇÃO: Como adaptar o ambiente sensorial? 

NELSON H. B. AMARAL: Pequenas mudanças, como controle de ruídos, iluminação adequada e disponibilização de materiais sensoriais, podem tornar o ambiente mais acessível e acolhedor.

REDAÇÃO: Em que medida o ensino sobre “perfeição” pode atrapalhar a aceitação da neurodiversidade? 

NELSON H. B. AMARAL: Quando a igreja associa o valor humano estritamente à ideia de “cura”, ela corre o risco de negar a diversidade humana. A neurodiversidade precisa ser compreendida como parte da criação.

REDAÇÃO: O que significa olhar com sensibilidade? 

NELSON H. B. AMARAL: É reconhecer que Deus se revela na diversidade. É perceber que cada criança carrega uma história, uma identidade e uma forma única de ser.

REDAÇÃO: Quais os maiores desafios para manter a inclusão a longo prazo? 

NELSON H. B. AMARAL: O maior desafio é manter o compromisso após o entusiasmo inicial. A inclusão exige continuidade, formação permanente e avaliação constante.

REDAÇÃO: Qual é sua maior esperança? 

NELSON H. B. AMARAL: Que as igrejas brasileiras se tornem espaços verdadeiramente inclusivos, onde nenhuma criança seja invisibilizada.

REDAÇÃO: Qual é a tese central do seu livro? 

NELSON H. B. AMARAL: Que a inclusão de crianças autistas no ministério infantil é uma extensão direta do Evangelho, pois expressa o amor, a justiça e a dignidade humana defendidos por Cristo.

REDAÇÃO: Como sua formação pedagógica influenciou a obra? NELSON H. B. AMARAL: Ela contribuiu para a construção de estratégias práticas e fundamentadas, articulando teoria, prática e espiritualidade.

REDAÇÃO: Como treinar voluntários de forma eficaz? 

NELSON H. B. AMARAL: Através da formação continuada, do diálogo e da convivência com a diversidade. Esses são os caminhos para desenvolver um olhar sensível.

REDAÇÃO: Qual o maior erro cometido pelas igrejas nesse processo? 

NELSON H. B. AMARAL: Tentar incluir sem compreender o autismo, o que acaba reproduzindo práticas excludentes disfarçadas de inclusão.

REDAÇÃO: Assistencialismo ou inclusão? 

NELSON H. B. AMARAL: A verdadeira inclusão não é caridade pontual, mas sim uma transformação estrutural e cultural.

REDAÇÃO: Quais princípios são inegociáveis? 

NELSON H. B. AMARAL: Amor, respeito, dignidade, justiça e acolhimento.

REDAÇÃO: Qual a primeira mudança necessária? 

NELSON H. B. AMARAL: A de mentalidade: entender que a diversidade não é um problema, mas uma riqueza.

REDAÇÃO: Como lidar com resistências internas? 

NELSON H. B. AMARAL: O diálogo e a informação de qualidade são fundamentais para desconstruir preconceitos e promover a convivência respeitosa.

REDAÇÃO: O que é, de fato, a escuta ativa? 

NELSON H. B. AMARAL: Escutar as famílias é reconhecer suas dores, lutas e esperanças. A escuta é o primeiro passo da inclusão.

REDAÇÃO: Qual orientação é a mais urgente para o cenário atual? 

NELSON H. B. AMARAL: A formação urgente de líderes e voluntários.

REDAÇÃO: Quais são seus planos futuros? 

NELSON H. B. AMARAL: Este livro é apenas o início. Pretendo ampliar a discussão para outras faixas etárias e diferentes contextos de inclusão.

REDAÇÃO: Qual legado você espera deixar? 

NELSON H. B. AMARAL: A consciência de que a educação cristã inclusiva não é apenas um projeto, mas um compromisso permanente com a dignidade humana.


"A raiva é um combustível essencial para a lucidez": Uma entrevista com Clara sobre o romance Altiva

Imagem: Acervo pessoal / divulgação

O que resta de uma vida quando ela atravessa quase um século? Para a escritora Clara, a resposta não está apenas nos grandes marcos históricos, mas nas minúcias do cotidiano, no "sorriso maroto" e até na raiva que serve como motor para a longevidade. Em seu novo romance, Clara transforma sua avó, Altiva — uma mulher de 98 anos que desafia o tempo com agachamentos e uma lucidez cortante —, em uma protagonista que foge dos estereótipos da "velhinha doce". Nesta entrevista, mergulhamos nos bastidores de uma obra que é, ao mesmo tempo, um resgate familiar e um manifesto sobre a autonomia narrativa das mulheres de outrora.

Imagem: Colegam digital

REDAÇÃO: Clara, sua obra apresenta Altiva, uma mulher de 95 anos extremamente lúcida e ativa. Como foi o processo de transformar essa figura real em uma protagonista de romance?

CLARA: Bom, eu já estava escrevendo um romance sobre um casal que se conhece em um spa e sofre uma separação inesperada e abrupta, que restringe o relacionamento deles a apenas uma noite juntos. Enquanto eu terminava de escrever, percebi que seria capaz de chegar ao final e que, mesmo sendo um livro curto, continha muita informação sobre o onírico e passagens de vida que se comungam entre várias pessoas. Percebi que seria capaz de escrever o romance que minha avó tanto pedia desde minha adolescência. Pela primeira vez, me senti capaz de fazer um trabalho interessante sobre as histórias de vida dela, de forma poética e engraçada, não levando tão a sério os regimentos arcaicos de uma senhora de (agora) 98 anos. Quanto a trazer essa avó lúcida e ativa, não sei bem se é verdadeiro. Afinal, depende do referencial…

REDAÇÃO: O livro é narrado por Altiva, mas observado sob o olhar da neta. Por que você escolheu essa dupla perspectiva para contar a história?

CLARA: Por acaso, na época da publicação, tive um ou dois encontros com pessoas importantes na minha trajetória literária que tentaram mostrar que minha avó não era uma figura "importante". Uma mulher um tanto subjugada pela família do marido e pouco escolarizada. No entanto, pensava que em nenhum romance existe essa prerrogativa de que a protagonista deva ser relevante dentro de algum meio artístico ou uma figura importante pelo seu trabalho — como uma advogada, médica, juíza, etc. Então, atendendo ao pedido de uma avó que seria esquecida em sua história afetiva e familiar, resolvi escrever como se fosse ela. Eu, que poderia ser filha, irmã ou bisneta…

REDAÇÃO: A sinopse menciona a "raiva cotidiana de quem foi traída" e o "excesso de zelo". Foi desafiador expor as falhas e sentimentos viscerais de uma figura familiar tão respeitada?

CLARA: Certamente; acho que foi o desafio mais difícil. Mostrar as diversas facetas de uma pessoa de 95 anos com tantos familiares próximos que pensam nela já como uma figura estática, pronta para ser a sombra que eles desejam. Tentei deixar a personagem ser de todo jeito e deixar, de certa forma, documentada uma espécie de defesa emotiva para os momentos de aridez e frieza, mostrando que, no entanto, muitas vezes esquecemos tantos carinhos demonstrados com a entrega da alma ao bem-estar dos outros.

REDAÇÃO: Altiva é descrita como alguém que une valores do passado e do presente. Como ela consegue manter a mente aberta para o futuro mesmo após quase um século de vida?

CLARA: Talvez seja pela forma com que ela vê a vida: sempre "de mal" com ela, com tantas reclamações e lembranças negativas, inclusive focando sempre no que falta. De certa forma, essa filosofia negativa a leva a ver o extremo oposto de maneira inteiramente contrária e anestésica, talvez, ou compensatória. Nesse equilíbrio, ela se sustentou bem positiva, dizendo que a cabeça estava muito boa até pelo menos os 97 anos, quando levou um tombo e precisou de cadeira de rodas. Hoje, com 98, ela anda um pouco cansada de viver; imagino que, relativamente, isso seja tardio. E a Altiva do romance continua existindo dentro dela, além de que, modestamente, consegui fazer um retrato amplo dessa senhora, abrangendo cada aspecto de informação sobre ela.

REDAÇÃO: O livro aborda o ato de "remoer uma história amorosa até o fim dos tempos". Você acredita que o perdão é necessário para chegar aos 95 anos com essa lucidez, ou a raiva também é um combustível?

CLARA: Quando vejo Altiva falando, e desde que escrevi esse romance, não tenho dúvida de que a raiva é um combustível essencial para a lucidez e a longevidade. Imagino que um excesso de lucidez pode vir a trazer uma úlcera ou problemas nervosos. Como um "assassinato por queima de arquivo", no caso daquele livro de Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, continuação do Ensaio sobre a Cegueira. Embora "queima de arquivo" seja uma interpretação minha sobre a mulher do médico, que se manteve enxergando durante toda a cegueira que assolou o "lugar". Não me lembro ao certo se o assassino também enxergava ou se a mataram quando voltaram a ver… Enfim, acho que sim, a raiva é um motor importante, embora saibamos que a raiva pura, com pouca razão ou com ausência de paciência, são coisas que não combinam. Precisamos do motor funcionando bem, de bancos confortáveis e diversas coisas para que o combustível nos leve longe.

REDAÇÃO: Qual a importância de registrar as tramas familiares sob uma visão singular do afeto, fugindo da idealização comum que temos dos nossos idosos?

CLARA: É muito comum idealizarmos nossos antepassados na tentativa de engrandecer nosso próprio ego. Mas, muitas vezes, não é muito real a imagem que temos, pois não houve uma convivência genuína entre os descendentes e os idosos. É fácil idealizar um avô ou uma avó e não conviver com eles — o que acontece principalmente quando perdem suas capacidades cognitivas ou motoras e os próprios netos pensam que não conseguiriam viver com tais comorbidades e preferem "ir antes". Se dão por vencidos, pensam: "não vou viver tanto assim, quero mais é aproveitar a vida e as coisas boas, mesmo que elas não promovam saúde". Isso é, de certa forma, uma visão singular também, de ver a vida de forma hedonista. Mas também imagino o caso contrário: avós que aproveitaram demais e acabaram indo cedo. Ficamos com uma idealização da juventude desses que muitas vezes mal chegam à terceira idade.

O fato é que a visão singular do afeto é o que traz para nossa história uma convivência com essas pessoas idosas que fazem parte da nossa família. Simplesmente sabendo dos entes idosos através de outros, pincelamos a juventude de um idoso com fama através de seus feitos e maledicências. O caso de Altiva é um romance que se pretende autobiográfico, porém, como não é contado através da própria, possui um caráter irônico e sarcástico que eleva o livro ao título de uma obra autêntica. Numa tentativa de atuar pela protagonista, a autora interpreta também no livro o que considera como algo sofrido com um ar poético e melancólico, típico dela própria em sua versão pós-madura.

REDAÇÃO: O "sorriso maroto" da avó é destacado na sinopse. Essa característica é o que humaniza a personagem diante das adversidades que ela narra?

CLARA: Sim. Achei essa expressão digna de nota, pois continha tudo o que não estava mais ali depois que ela se calava, entre uma pausa e outra das passagens de sua vida. Sempre repetindo as histórias mais "cabeludas" até suas totais digestões.

REDAÇÃO: Basear um romance em histórias reais exige um cuidado ético e emocional. Como sua família reagiu ao saber que essas memórias seriam publicadas?

CLARA: É verdade, João Vitor, é necessário, sim, muito cuidado ético e emocional. Principalmente ao escrever, pois depois que a obra está pronta, fazer mudanças é como uma reforma em Brasília. Ficaria tudo dividido em remessas do que precisava ser dito ou ouvido, o que não era o propósito do livro. Ele foi escrito para defender os sentimentos da minha avó em sua memória; preservar muitas memórias antigas que uma senhora de 95 anos possuía, mas, ao mesmo tempo, colocar uma pitada de pimenta — um tempero que eu estava disposta a dar, talvez por ter sido a neta mais presente e filha da filha que mais se importou com os pais e seus sentimentos.

Talvez a elaboração desses sentimentos fosse importante para todos da família, de certa forma, ou principalmente para mim, que me sentia extremamente grata a essa senhora que me pediu que escrevesse suas memórias. Respeitando tanto meu talento para escrever quanto minha capacidade de traduzi-la, de forma a estar numa memória abandonada e imaginada entre o passado do que se passou e uma perspectiva exclusiva da nossa personagem, que é, de certa forma, metade Altiva, metade Clara.

REDAÇÃO: Na sua visão, qual é o maior segredo da Altiva para conseguir fazer "até um agachamento" e manter o vigor físico e mental nessa idade?

CLARA: Para mim, o que mais ficou claro é a constância com que Altiva repete que a cabeça está muito boa. O fato de ela sempre ter evitado tomar medicamentos demais, buscando alternativas nutricionais, respeitando o relógio biológico tanto no sono quanto na hora das refeições. E, principalmente, a atividade constante de estar fazendo crochê, cozinhando (agora não mais), lavando louça e cuidando da casa como se fosse ela própria.

REDAÇÃO: A narrativa fala sobre dar importância a pequenas coisas. Como a escrita deste livro mudou a sua própria percepção sobre o que realmente importa na vida?

CLARA: Eu não sei explicar ao certo como tudo se deu, mas foi antes mesmo de receber os livros físicos da Viseu aqui em casa que encontrei meu atual marido; casamos e estamos agora com uma filha linda, que nasceu fruto desse amor imenso.

REDAÇÃO: Pressentimentos e intuição permeiam a trama. Você acredita que a sabedoria da mulher madura é, na verdade, um tipo de clarividência sobre a vida?

CLARA: Talvez essa sensação de idealização dos mais velhos acontecesse mais na infância. Acho que cresci acreditando muito nisso e acho que ainda existe uma parte que acredita. Quando, por exemplo, minha avó descobre algo complexo que eu pensei através de muito estudo e reflexão, parece que ela simplesmente tem um insight e entende aquilo, colocando em palavras coisas que eu ainda não havia conseguido. E, ao mesmo tempo, reconheço a dificuldade dela em escrever um bilhete para nós. É discrepante, às vezes, os saltos da inteligência de uma pessoa. Dizem que existem vários tipos de inteligência, e acredito nisso também; pressentimento e intuição podem, de fato, ser os lados mais inteligentes de Altiva, junto com seu equilíbrio e vontade de viver.

REDAÇÃO: Como você trabalhou a linguagem do livro para que a voz da Altiva soasse autêntica para o leitor, respeitando o tempo dela?

CLARA: Como eu disse, fiz um trabalho grande de incorporar Altiva dentro da Clara. Por incrível que pareça, minha avó sempre foi mais rápida do que eu — pelo menos para uma criança como eu era, parecia. Ela parecia fazer tudo: dar conta da casa, do crochê, do casamento, dos filhos… enquanto eu não conseguia nem terminar de preencher um caderno de caligrafia para mostrar a ela. Talvez o problema fosse querer mostrar só para ela… (risos). Vê-se que minha avó não foi uma pessoa tão admirada pelos seus feitos; foi uma mulher comum e, no entanto, foi idolatrada pelas netas, sim. Mas o trabalho do qual está falando realmente é outro: somar a idade de 95 anos com a rapidez da Clara atual e chegar a um consenso de repetição das histórias para que o livro não ficasse enfadonho e que sustentasse que se tratava da narrativa de Altiva aos 95 anos…

REDAÇÃO: O zelo excessivo é apontado como um "pecado" da personagem. Em que momento o cuidado com a família se torna um fardo para uma mulher como ela?

CLARA: Nesse ponto devo discordar. Em Altiva, faz parte esse zelo que ela tem pela família; sem ele, a personagem não ganha suas razões emocionais para querer tanto viver dessa forma — de remorso e mágoa, com o combustível da raiva, com sua ambiguidade entre atender a todos e estar chateada com a vida. De, durante um contar de história, soltar um sorriso maroto. A história desmorona sem o zelo da personagem pela família…

REDAÇÃO: Altiva é "detentora da própria história". O que essa autonomia narrativa representa para as mulheres da geração dela?

CLARA: Isso é uma das maiores conquistas de Altiva e o motivo pelo qual quis deixar registradas suas versões das histórias. Uma mulher centenária merece ser vangloriada pelo simples fato de ter sobrevivido neste mundo dos homens. E é sempre bom lembrar que, por trás de uma história, conhecem-se muitas outras parecidas e ocultadas por medo ou vergonha de si. Coisa que nossa personagem tem de sobra: coragem.

REDAÇÃO: Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez sobre sua avó (ou sobre a personagem) durante as entrevistas para o livro?

CLARA: Acho que o que mais me surpreendeu foi saber que meu avô teria pensado em sugerir um aborto na última filha — que é justamente a filha com quem ele teve mais mimo e carinho, a Lúcia Helena. Sempre pensei que ela tivesse sido muito desejada desde o início.

REDAÇÃO: O romance mescla sinceridade e veracidade. Existe algum limite entre o que é fato histórico e o que é liberdade poética na sua escrita?

CLARA: O romance possui uma espécie de "fórmula ativa". A forma como Clara designou que Altiva conta as histórias cria "a personagem", que se distingue da avó física em forma de texto. Os nomes e fatos são citados pela avó sem erro algum, fora alguma falha de memória improvável. Porém, fatos e nomes não evitam qualquer licença literária para que se fale com emoção no tocante às sensações das coisas em si. Quero dizer, do universal, do que tange à poética.

REDAÇÃO: Como você descreve a "paz de ter razão em seus sentimentos" que a personagem experimenta?

CLARA: Acredito que seja um lugar dentro da gente onde nos sentimos confortáveis, na medida em que nossas atitudes se justificam. Não apenas atitudes, mas também o entendimento de que o combustível "raiva" tem uma fonte de petróleo e que isso é algo próprio de cada um para se abastecer e viver em paz. Com as viagens internas às vezes até mais interessantes que as externas. Como já diria o Rei do Baião: "Pra me danar, por essa estrada mundo afora ir-me embora, sem sair do meu lugar."

REDAÇÃO: Para as gerações mais novas, o que o exemplo de Altiva tem a dizer sobre resiliência e a forma como lidamos com traições e decepções?

CLARA: Vemos que existe um ímpeto grande das gerações recentes em esperar pelo parceiro até que ele esteja preparado para o grande momento de casar e ter filhos. Muitas mulheres aguentam até hoje muita coisa. E, no fim, na maioria das vezes, acabam perdendo energia e tempo de vida em situações humilhantes. O fato de que, antigamente, essas traições eram ocultadas, de certa forma, remetia a um certo "respeito" (entre aspas) às mulheres com quem se casaram, deixando a "outra" numa posição de artista ou prostituta. Muitos olham pela perspectiva de que o amor verdadeiro é o das amantes, das que se entregam sem remorso, sem mágoa, sem ciúme — quase virgens de alma, quase inumanas. Talvez por isso muitas vezes sejam artistas; embora, no caso da arte, considero artista quem privilegia a importância da obra em vida e dedica a alma a isso, tendo que lidar com os amantes da vida como ser humano, não mais apenas como mulher.

No caso de Altiva, ela é uma "Maria-Ninguém", como cantava Elis Regina. Era uma mulher como outra qualquer que quis contar a perspectiva pouco explorada da mulher "oficial" e dedicada à família, que descobre na outra uma figura com quem nunca pôde contar.

REDAÇÃO: Escrever sobre o envelhecimento lúcido é uma forma de lutar contra o preconceito de idade (etarismo) na literatura?

CLARA: Na verdade, esta não é uma questão que eu tenha aplicado deliberadamente como pauta nesta obra.

REDAÇÃO: Para encerrar, Clara, se você pudesse resumir a essência da Altiva em uma única lição de vida para seus leitores, qual seria?

CLARA: Viva seus sentimentos mais sinceros e faça deles motivo para ser feliz e viver bem. Tenha uma cabeça boa, mantenha sua rotina e viva sua longevidade de forma plena. Quanto mais perto você estiver de si mesma, mais longe poderá ir.

O Resgate da Res Publica: Uma Conversa com Aurelio Tadeu

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Vivemos em uma época de acontecimentos atordoantes. Entre o fluxo incessante de notícias e a sensação de crise compartilhada pelas democracias ocidentais, muitos cidadãos sentem-se perdidos, buscando critérios para entender o presente e alternativas para orientar o futuro. É nesse cenário de incertezas que o olhar para o passado revela sua maior utilidade.

No Post Literal de hoje, recebemos Aurelio Tadeu, autor da obra "Cícero e a Defesa da República – Ética, Poder e Retórica". O livro não é apenas um estudo histórico, mas um guia pragmático que resgata Marco Túlio Cícero — o maior orador de Roma — para dialogar com os dilemas do século XXI. Cícero foi alguém que lidou pessoalmente com um mundo em transformação e crise permanente, e suas reflexões sobre liberdade, igualdade e o respeito às instituições permanecem assustadoramente atuais.

Nesta entrevista exclusiva, Aurelio Tadeu nos mostra como a união entre filosofia e política pode oferecer o "decoro" e a ética que tanto faltam ao debate moderno. Prepare-se para um contato leve e instigante com um pensador que prova: a defesa da República é, acima de tudo, a defesa da nossa própria humanidade.

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REDAÇÃO: O que motivou a escolha de Marco Túlio Cícero como o "guia" para entender as crises das democracias contemporâneas?

AURÉLIO TADEU: Ao menos dois motivos me levaram a essa escolha. O primeiro diz respeito ao papel de difusor de conhecimento. Marco Túlio Cícero foi um filósofo, advogado e político de importância tremenda para sua época e para as posteriores. Além de transmitir conhecimentos da filosofia grega para os romanos de seu tempo, as obras de Cícero serviram de inspiração para pensadores políticos desde a Idade Média. Então, essa importância intergeracional dos seus ensinamentos me levou a escolhê-lo. O segundo motivo diz respeito à experiência de vida que Cícero teve ao lidar com os desafios sobre os quais escreveu e os perigos que enfrentou.

REDAÇÃO: Vivemos uma época de acontecimentos "atordoantes". Em que medida o estado de espírito da Roma tardia se assemelha ao sentimento de crise dos regimes ocidentais atuais?

AURÉLIO TADEU: Na época em que Cícero esteve no auge de sua relevância política em Roma, havia uma série de mudanças sociais e políticas ocorrendo e se retroalimentando. O final da República romana foi marcado por graves tumultos de escravos, que se rebelavam e surpreendiam as forças romanas, as quais tinham diversos conflitos externos para debelar ao mesmo tempo. As distorções causadas pelas leis eleitorais traziam insatisfação com aqueles que eram considerados aptos a escolher os governantes, tanto pela diminuta participação daqueles que tinham de pagar impostos e servir no exército, quanto pela corrupção que havia em todas as etapas.

A desconsideração dos costumes antigos, que protegiam as instituições romanas, também aumentava a instabilidade, pois não se respeitavam mais as limitações de classe social para determinados cargos reservados aos plebeus. Isso fazia com que estes deixassem de representar os interesses de sua classe e servissem de porta de entrada para os cargos reservados aos patrícios, visando o destaque social obtido no exercício de tais incumbências, cada vez mais escandalosas. Assim, parece que a todo tempo precisamos de um governo forte, que limite direitos e garantias para lidar com o caos, aproximando-nos da ditadura. Todos esses fatores estão presentes na política contemporânea ao redor do mundo: o distanciamento cada vez maior entre representantes e representados, o desrespeito pelas regras, pelos costumes e pelo decoro dos cargos públicos, e o exercício de poderes que infringem normas para que os políticos se mantenham em evidência. Acredito que seja uma situação muito problemática por ser tão parecida.

REDAÇÃO: Cícero é conhecido por adaptar a filosofia grega ao pragmatismo romano. Como essa "simplificação" ajuda o leitor leigo a compreender a política?

AURÉLIO TADEU: Cícero adaptou diversos ensinamentos gregos, principalmente da escola estoica, para o pensamento romano, que era de natureza mais pragmática. Acredito que abstrações e desenvolvimentos muito complexos de filosofia moral não se aplicavam ao modo tradicional de agir e pensar de um povo guerreiro como o romano; a adaptação servia para facilitar a captação dos conceitos fundamentais.

REDAÇÃO: No livro, você aborda o conceito de "exercício legítimo do poder". O que define essa legitimidade para Cícero?

AURÉLIO TADEU: Os ensinamentos de Cícero sobre política e direito são interessantes porque reúnem a preocupação de observar a lei e a moral — algo que foi sendo esquecido na Idade Moderna até a Segunda Guerra Mundial, para ser resgatado pela filosofia pós-positivista dos juristas que tinham de lidar com problemas de fundamento imoral de legislações segregacionistas de regimes totalitários. Então, para Cícero, a legitimidade envolve a observância das leis eleitorais (ou seja, o cidadão atender aos requisitos para ser eleito) e a aptidão moral para exercer o cargo.

REDAÇÃO: Qual a importância da alternância de poder e por que Cícero a defendia com tanto afinco?

AURÉLIO TADEU: As instituições romanas tinham a característica da temporalidade do exercício dos cargos, muito parecida com as instituições das cidades-estado gregas. Assim, a alternância de poder evitava abusos e a perpetuação de práticas de má gestão, fosse por condutas criminosas, fosse por inaptidão. Cícero defendia a alternância com afinco porque isso garantia a maior chance de que a "coisa pública" (res publica) fosse comandada do melhor modo possível pelo maior tempo.

REDAÇÃO: Como o conceito de "decoro" exigido dos homens públicos na Antiguidade pode servir de crítica ao comportamento político nas redes sociais hoje?

AURÉLIO TADEU: Esse é um dos paralelos mais provocativos do livro, embora a distância temporal e tecnológica dos conceitos seja imensa. O decoro na Antiguidade estava ligado inclusive a aspectos religiosos, desde respeitar os augúrios e os limites de atuação perto dos templos até o que se podia fazer em certos dias e épocas. Hoje, as regras de decoro se limitam a estipular comportamentos mínimos que beiram a seara criminal. Quando pensamos nas redes sociais hoje, nota-se que não há o menor pudor em publicar e espalhar mentiras sobre acontecimentos, pessoas, legislações e instituições. Numa época em que o decoro exigia dos homens públicos presteza em lidar com ameaças de vida e morte, reverência aos deuses e respeito às regras que evitavam o abuso, a crítica é muito forte para quem busca apenas "lacrar" na internet sem entender as consequências de seus atos, que trazem desprestígio às instituições e instabilidade política e social.

REDAÇÃO: Cícero viveu o colapso da República e a ascensão de figuras autoritárias. O que ele nos ensina sobre a fragilidade das instituições?

AURÉLIO TADEU: Um dos principais ensinamentos é de que as instituições são criadas e destruídas pelos homens. São criadas por homens de visão e valor que tentam estabelecer condições mínimas benéficas ao seu povo, como os primeiros reis romanos e, depois, os decênviros que criaram a Lei das Doze Tábuas. No entanto, quando o povo perde a confiança naqueles que governam, as instituições deixam de representá-lo e o colapso vem, seja pela pressão popular, seja pelo oportunismo de quem governa.

REDAÇÃO: A retórica muitas vezes é vista hoje como "vazia" ou manipuladora. Como Cícero a unia à ética para que ela servisse ao bem comum?

AURÉLIO TADEU: Cícero via a retórica como o conhecimento que permitia a persuasão legítima dos demais cidadãos, sem truques, de modo semelhante aos gregos, que respeitavam a arte retórica e abominavam os sofismas. Portanto, a retórica deveria ser usada dentro das balizas da virtude moral e para o bem comum, que são limites constantemente referidos na obra de Cícero.

REDAÇÃO: No livro, o leitor encontra discussões sobre a divisão de funções do Estado. Como isso antecipa o que conhecemos hoje como os Três Poderes?

AURÉLIO TADEU: Pode-se dizer que havia a preocupação de limitar o exercício do poder político por uma única pessoa. Quando Cícero trata dos diversos cargos das magistraturas romanas, ele defende que o exercício independente deles garante a participação das diversas classes na condução da coisa pública, trazendo estabilidade e evitando o arbítrio. Essa divisão de atribuições foi resgatada por pensadores da Idade Moderna, como John Locke e Montesquieu, e contribuiu para a elaboração da teoria dos três poderes.

REDAÇÃO: O que significa, na visão ciceroniana, o respeito às instituições em um momento de desconfiança generalizada?

AURÉLIO TADEU: O respeito às instituições deriva não apenas da observância das leis, mas também da deferência ao passado e aos costumes dos antepassados (mos maiorum). As crises enfrentadas por Roma se relacionavam com a perda da identidade com as tradições, fosse pelo grande afluxo de imigrantes que não conheciam os costumes romanos, fosse pela ampliação territorial que levava os próprios romanos a abandonar seus hábitos. Para Cícero, o resgate dessa ordem moral era o único caminho para evitar a tirania.

REDAÇÃO: Sobre a liberdade: para Cícero, ela é apenas a ausência de um senhor ou exige algo mais do cidadão?

AURÉLIO TADEU: A liberdade, nas lições de Cícero, exige a ausência de sujeição a outro homem, mas também a capacidade de usar a razão e exercitar a virtude. Não se fala de liberdade para fazer o que bem se entende, mas de uma liberdade para empregar as próprias capacidades tendo em vista o bem individual e o bem comum da cidade.

REDAÇÃO: A igualdade perante a lei era um tema central. Como ele equilibrava esse ideal com a estrutura social romana?

AURÉLIO TADEU: A estrutura social romana seguia o padrão da Antiguidade, no qual se admitia a escravidão e o status de "quase cidadão". A igualdade era equilibrada ao se considerar que cada estrutura social detinha prerrogativas e deveres, tratando-se os desiguais de forma desigual, dentro da proporcionalidade. É algo que se faz hoje em dia, de forma inversa, quando se fala em ações afirmativas. Era o tipo de pensamento que permitia a teorização e o exercício de direitos em sociedades com muitas disparidades.

REDAÇÃO: Como a morte trágica de Cícero selou o seu legado como mártir da República?

AURÉLIO TADEU: Cícero foi morto por ser inimigo de Marco Antônio e porque atrapalhava os planos dele e de Otávio Augusto de centralizar o poder. Mesmo tendo sido preceptor de Otávio, na esperança de influenciar o futuro da República e talvez adiar sua derrocada, ele não teve sucesso em sobreviver em meio a tantos tumultos e acabou perdendo a vida. Sua morte tornou-se o símbolo do fim da liberdade de expressão e do Senado livre.

REDAÇÃO: Por que a redescoberta de seus manuscritas foi tão vital para o Renascimento e para a formação do pensamento ocidental?

AURÉLIO TADEU: As obras de Cícero foram relevantes para o Renascimento porque continham não só registros do pensamento romano, mas o resultado da propagação e discussão do pensamento grego. Eram obras que tratavam de conceitos filosóficos, políticos, jurídicos e históricos de maneira integrada, permitindo entender o modo como os antigos compreendiam seu mundo de forma enriquecedora.

REDAÇÃO: Na obra, você menciona o "viver o básico" na política. O que seria o básico essencial que esquecemos de cobrar de nossos governantes?

AURÉLIO TADEU: O "viver o básico" seria pensar no bem comum dos cidadãos e manter a ética na condução da coisa pública. Ou seja: fazer o bem ao maior número de pessoas e ser honesto. Acabamos esquecendo de cobrar isso porque ficamos envolvidos com disputas de personalidades e ideologias cujas ameaças estão distantes da realidade, servindo apenas para ganhos eleitorais de poucos.

REDAÇÃO: Como a fiscalização dos atos públicos, defendida por ele, se traduz em ferramentas de transparência na era digital?

AURÉLIO TADEU: A fiscalização de atos públicos era uma grande preocupação dos antigos. Por essa razão, dividiam-se as prerrogativas dos cargos e existiam os "censores", responsáveis por fiscalizar a obediência aos costumes. Cícero defende que as atribuições dos censores sejam ampliadas para que façam verdadeiras investigações sobre os magistrados ao final de seus mandatos, para que prestem contas de tudo o que fizeram. Hoje, a transparência digital facilita a fiscalização, embora ela ainda seja restrita a poucos interessados ou a quem tem meios de cruzar dados. Acredito que ainda falta clareza para que o setor público preste contas de forma que a fiscalização seja acompanhada de perto por mais cidadãos.

REDAÇÃO: Cícero acreditava que a filosofia deveria ser "útil". Como o livro transforma conceitos densos em algo fluido e leve para o leitor?

AURÉLIO TADEU: A ideia de Cícero é transmitir uma filosofia prática, que oriente quem deseja exercer sua virtude. Em sua obra "Dos Deveres", escrita a seu filho, ele aponta o tempo todo o caminho certo a seguir. Tentei elaborar, na entrevista ficcional, um diálogo que expusesse tais orientações, embora mais voltadas para a condução do Estado.

REDAÇÃO: Qual o papel da justiça na manutenção de uma república saudável segundo o autor romano?

AURÉLIO TADEU: A Justiça garante a paz social, a observância dos costumes e a defesa dos direitos. Não haveria República sem leis — sejam escritas ou costumeiras — e também não haveria República sem quem as fizesse observar.

REDAÇÃO: Como lidar com o ceticismo de quem acha que um autor de dois mil anos atrás não tem nada a dizer sobre a política moderna?

AURÉLIO TADEU: Esse ceticismo pode ser combatido de muitas maneiras. A principal é o fato de os problemas humanos se manterem idênticos: os homens continuam buscando formas justas de se organizar e têm de lidar com falhas de caráter, instituições corruptíveis e governantes que buscam oprimir o povo. As ideias de autores antigos permitem ver as soluções tentadas e sugerir abordagens que podem ser adaptadas.

REDAÇÃO: O que o livro revela sobre a relação entre ética privada e vida pública?

AURÉLIO TADEU: Para os povos antigos, a esfera privada se confundia com a atuação pública. Os ensinamentos de Cícero refletem essa relação estreita. Não há bom gestor público que não observe as leis e os costumes em sua conduta pessoal.

REDAÇÃO: Cícero era um "homo novus". Como sua origem influenciou sua defesa da meritocracia e das instituições republicanas?

AURÉLIO TADEU: Cícero foi um "homem novo" que pôde integrar o Senado após as reformas de Mário e Sila. Ele era um produto das mudanças que visavam aumentar a participação política. Garantir a participação de diversas classes e assegurar que homens virtuosos e capazes assumissem as altas magistraturas era sua preocupação principal para o bem geral da República.

REDAÇÃO: Existe uma "vocação para o sofrimento" político em sociedades desiguais que Cícero já conseguia identificar em seu tempo?

AURÉLIO TADEU: Acredito que essa vocação se expressava na preocupação constante com as revoltas populares. As grandes desigualdades econômicas geravam insegurança, e esse temor levava à busca por líderes cada vez mais fortes e carismáticos para aplacar as paixões da multidão — o que, em si, era um perigo para as leis e costumes republicanos.

REDAÇÃO: Como o conceito de Consensus Omnium (consenso de todos) pode ajudar a reduzir a polarização atual?

AURÉLIO TADEU: Cícero defendia que a República dependia de boas leis, homens honestos e concórdia (concordia ordinum). A polarização atual é alimentada por incertezas e serve como arma de campanha que empobrece o debate ao rotular pessoas. Quando percebemos que todos desejam o básico — viver dignamente, ter suas crenças respeitadas e segurança —, a política retoma rumos virtuosos. O consenso consistiria nessa "pisada no freio" do pensamento acrítico alimentado pelo ódio.

REDAÇÃO: O livro propõe uma conversa direta com Cícero. Qual foi o maior desafio de "dar voz" a ele respeitando o rigor histórico?

AURÉLIO TADEU: O maior desafio é respeitar o legado sem distorcer os ensinamentos com base no que aconteceu posteriormente. Nós sabemos onde ele falhou e onde acertou, então podemos fazer provocações, mas sem alterar a essência das avaliações feitas pelo autor em seu tempo.

REDAÇÃO: Como a sabedoria ciceroniana ajuda o cidadão comum a não se sentir "perdido em meio a tantas notícias"?

AURÉLIO TADEU: Cícero defende um caminho ético. Hoje, o excesso de informação confunde e desorienta. Saber que o exercício da virtude e a busca do bem comum são os nortes para uma vida feliz é o primeiro passo para se manter em um caminho de retidão.

REDAÇÃO: De que maneira a retórica de Cícero pode ser usada hoje para combater a desinformação e as fake news?

AURÉLIO TADEU: Os valores da arte retórica continuam úteis. A defesa da integridade moral, da honra e do respeito às leis pode ordenar o pensamento crítico de quem procura a verdade dos fatos hoje em dia.

REDAÇÃO: O autor via a política como a "arte suprema". Por que perdemos essa visão elevada e como podemos recuperá-la?

AURÉLIO TADEU: A política se distanciou dos cidadãos; o crescimento populacional tornou a democracia algo quase cerimonial. Ela passou a ser vista como algo reservado a elites que conservam o poder a qualquer custo. Para recuperar essa visão, é necessário difundir a noção de que a política é essencial para a garantia de direitos e para a promoção do bem comum.

REDAÇÃO: Qual a lição mais urgente que Cícero deixaria para os jovens que estão ingressando na vida pública hoje?

AURÉLIO TADEU: Que respeitem os costumes e as tradições, evitando arroubos e a incitação da turba para ganhos pessoais, pois isso não traz grandeza, apenas tumulto e destruição.

REDAÇÃO: O livro não pretende esgotar a obra ciceroniana. Quais caminhos ele abre para quem deseja se aprofundar no pensamento democrático?

AURÉLIO TADEU: O livro é uma introdução. Espero instigar os leitores a buscarem as obras originais, que são riquíssimas. Ele permite ver o que os modernos, como os fundadores da democracia americana, francesa e inglesa, aproveitaram do pensamento clássico.

REDAÇÃO: Recado final: Por que a defesa da República é, em última análise, a defesa da nossa própria humanidade?

AURÉLIO TADEU: A defesa da República depende da integridade das pessoas. Defender a República é consequência de escolhas pessoais de não se deixar corromper, o que leva à preservação da cooperação e da sobrevivência de todos — ou seja, da nossa própria humanidade.

O Encontro entre a Ciência e a Alma: Uma Entrevista Exclusiva com Lua

Imagem: Acervo Pessoal / Divulgação

Em um mundo que corre contra o relógio, onde o silêncio é luxo e o cansaço parece ser o novo normal, surge uma voz que nos convida a desacelerar e olhar para dentro. No Post Literal de hoje, temos a honra de conversar com Lua, uma autora que decidiu romper as barreiras acadêmicas para falar sobre o que realmente importa: a nossa humanidade.

Em sua obra mais recente, Lua propõe algo audacioso e, ao mesmo tempo, profundamente acolhedor. Ela costura a precisão da Neurociência, a vastidão da Física Quântica e a sensibilidade da Psicanálise em uma única narrativa, provando que a ciência não precisa ser fria para ser exata.

Mas a teoria é apenas uma parte da história. O que torna este diálogo especial é a sua raiz: a sabedoria ancestral herdada de sua avó à sombra de um pé de mexerica e a coragem de transformar cicatrizes — como o abuso narcisista e a depressão — em ferramentas de cura para outros.

Nesta entrevista, mergulhamos nos conceitos de liberdade emocional, neuroplasticidade e no poder invisível das nossas intenções. Prepare-se para uma conversa que vai muito além dos consultórios e laboratórios; é um guia para quem busca entender que a cura não é um destino final, mas uma travessia contínua e gentil.

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Confira a entrevista completa abaixo:

REDAÇÃO: Lua, seu livro propõe uma convergência de saberes. Como foi o desafio de unir Psicanálise, Física Quântica e Neurociência em uma única obra voltada para o público leigo?

LUA: Foi um desafio bonito. Eu não quis escrever para especialistas, quis escrever para pessoas. A Psicanálise me deu a escuta da alma, a Neurociência me trouxe a compreensão do cérebro, e a Física Quântica me ajudou a entender que tudo é relação, energia e intenção. Meu trabalho foi traduzir isso para o cotidiano, para a mãe cansada, para quem sofre calado, para quem nunca entrou num consultório. Meu compromisso sempre foi tornar o complexo simples, sem perder a profundidade.

REDAÇÃO: Você afirma que a saúde mental não é apenas individual, mas um compromisso coletivo. Como a sociedade brasileira pode evoluir para acolher melhor essa ideia?

LUA: Porque ninguém adoece sozinho. A saúde mental nasce no vínculo, no olhar, no acolhimento. A sociedade brasileira evolui quando para de romantizar o sofrimento e começa a investir em escuta real nas escolas, nas famílias, nos bairros e no trabalho. Saúde mental não é luxo, é base.

REDAÇÃO: Sua avó, Anália Dalefe, é citada como sua primeira terapeuta. O que o "viver o básico" à sombra de um pé de mexerica ensina sobre a cura que os consultórios luxuosos às vezes ignoram? 

LUA: Ensina que a cura não mora apenas em salas brancas e poltronas caras. Mora no afeto, na presença e no silêncio compartilhado. À sombra daquele pé de mexerica, aprendi que ser visto, ouvido e amado regula mais o sistema nervoso do que muitas técnicas. O básico salva.

REDAÇÃO: Você menciona ter enfrentado "vozes sombrias" e depressão. Como a voz da sua avó no seu inconsciente serviu de âncora nesses momentos críticos? 

LUA: A voz dela virou meu porto interno. Quando tudo escurecia, eu lembrava das palavras simples e do jeito como ela segurava a minha mão. Aquilo virou um recurso interno. Às vezes a gente sobrevive porque alguém acreditou em nós antes de nós mesmos.

REDAÇÃO: O livro define saúde mental como um estado de bem-estar emocional, psicológico e social. Por que ainda existe o mito de que ela é apenas a "ausência de doenças"? 

LUA: Porque fomos ensinados a olhar só para sintomas. Saúde mental é qualidade de vínculo, de vida e de presença. Você pode não ter diagnóstico algum e, ainda assim, estar profundamente adoecido por abandono, excesso de cobrança ou solidão.

REDAÇÃO: Na sua visão, como a química do corpo afeta diretamente a forma como sentimos o mundo ao nosso redor? 

LUA: Nosso corpo conversa o tempo todo com a mente. Hormônios, neurotransmissores, sono e alimentação moldam nossa percepção da realidade. Quando a química está em desequilíbrio, o mundo parece mais pesado. Cuidar do corpo também é cuidar da alma.

REDAÇÃO: Você cita a arte como uma janela para a complexidade da mente. Como os desenhos realistas de sua filha Lívia exemplificam essa liberdade de expressão? 

LUA: A Lívia desenha o que sente. Nos traços dela existe presença, verdade e liberdade. A arte permite expressar o que ainda não tem palavras. É um portal direto do inconsciente para o mundo.

REDAÇÃO: A espiritualidade é tratada no livro como uma busca por significado. Qual a diferença entre ter uma religião e cultivar uma saúde espiritual? 

LUA: Religião é estrutura. Saúde espiritual é experiência. É sentir pertencimento, propósito e conexão com algo maior, independente do nome que se dê a isso.

REDAÇÃO: Você critica frases como "é só uma fase" ou "basta pensar positivo". Por que esse tipo de abordagem é prejudicial para quem sofre? 

LUA: Porque invalida a dor. Quem sofre não precisa de frases prontas, precisa de presença. Esse tipo de fala ensina a engolir sentimentos, e isso adoece ainda mais.

REDAÇÃO: Sobre a realidade brasileira: por que o estigma ainda impede que milhões busquem ajuda profissional?

LUA: Medo de julgamento, falta de informação e acesso limitado. Ainda tratamos terapia como fraqueza, quando, na verdade, é coragem.

REDAÇÃO: Como a desigualdade de acesso à terapia no Brasil molda as diferentes "vocações" de sofrimento nas comunidades carentes? 

LUA: Nas periferias, o sofrimento vira sobrevivência. Sem acesso, a dor vira sintoma físico, violência, vício ou silêncio. Cada território cria sua própria forma de gritar.

REDAÇÃO: Você menciona o trabalho de palhaços em hospitais. Como o riso pode ser uma ferramenta de neuroplasticidade na prática? 

LUA: O riso ativa circuitos de recompensa, libera dopamina e oxitocina, criando novas associações emocionais. Ele ensina ao cérebro que ainda existe vida mesmo em meio à dor.

REDAÇÃO: No campo da Psicanálise, você explica o conceito de "transferência". Como identificamos sentimentos passados sendo projetados em nossas relações atuais? 

LUA: Quando reagimos ao outro como se ele fosse alguém do passado. Uma autoridade vira pai, um parceiro vira mãe. Percebemos isso quando nossas reações são maiores que a situação presente.

REDAÇÃO: O inconsciente é comparado a um mar profundo. Como o medo de mergulhar nessas águas gera a "resistência" que trava a nossa evolução? 

LUA: Porque dói olhar para dentro. A resistência é o medo de tocar feridas antigas. Mas só atravessando essas águas encontramos partes esquecidas de nós.

REDAÇÃO: Freud interpretava sonhos como símbolos. Como um sonho de estar perdido em uma floresta pode revelar o estado emocional de um paciente?

LUA: Revela sensação de desorientação, ansiedade e perda de direção. O sonho traduz em imagens aquilo que o consciente ainda não consegue nomear.

REDAÇÃO: Como as ideias de Jung e o inconsciente coletivo expandem a visão limitada de que nossos problemas são apenas "nossos"? 

LUA: Jung mostra que carregamos histórias familiares e coletivas. Muitas dores não começaram em nós, apenas continuaram.

REDAÇÃO: Lacan enfatizava a linguagem. Como as palavras que escolhemos para descrever nossa dor podem, na verdade, nos manter presos a ela? 

LUA: Porque repetir a mesma narrativa reforça o mesmo lugar psíquico. As palavras podem virar cárcere ou ponte.

REDAÇÃO: Você narra o caso de uma paciente que vivia em uma "casa de janelas fechadas". O que o ato de abrir as janelas significou terapeuticamente? 

LUA: Foi deixar a vida entrar. Sair do enclausuramento emocional e permitir luz, ar e novas possibilidades internas.

REDAÇÃO: "A vida é como um espelho". Por que repetimos padrões familiares mesmo quando isso nos faz sofrer? 

LUA: Porque o amor aprendido vira modelo. Repetimos o conhecido até termos consciência suficiente para escolher diferente.

REDAÇÃO: Na Física Quântica, você fala que a observação altera o objeto. Como a nossa intenção pode mudar a melodia da nossa vida? 

LUA: Quando mudamos o foco, mudamos o campo. A intenção direciona escolhas, atitudes e estados internos.

REDAÇÃO: Nossas emoções carregam energia. Como um estado de gratidão altera a nossa "frequência quântica"? 

LUA: A gratidão tira o corpo do modo sobrevivência e o leva para o modo presença. Isso muda nossa forma de responder ao mundo.

REDAÇÃO: O córtex pré-frontal é o maestro cerebral. Como ele regula impulsos? 

LUA: Ele é responsável pelo autocontrole, pela tomada de decisões e pela capacidade de pensar antes de agir. É o córtex pré-frontal que nos permite sair do automático, avaliar consequências, regular emoções intensas e escolher respostas mais conscientes em vez de reações impulsivas. Quando ele está bem estimulado, conseguimos respirar, pausar e agir com mais clareza, mesmo diante de situações desafiadoras.

REDAÇÃO: Qual o papel da amígdala? 

LUA: É nosso radar de perigo. Em traumas, pode ficar hiperativada.

REDAÇÃO: E o hipocampo?

LUA: Organiza memórias e transforma experiências em aprendizado.

REDAÇÃO: Por que traumas permanecem? 

LUA: Porque o trauma não fica só na memória; ele fica no corpo e no sistema emocional. Como sobrevivente do narcisismo, aprendi que o cérebro passa a viver em modo alerta permanente, sempre esperando o próximo ataque, a próxima rejeição ou invalidação. Mesmo quando o perigo já passou, o corpo continua reagindo como se ainda estivesse acontecendo. O trauma permanece porque fomos condicionados a sobreviver, não a sentir segurança. A cura começa quando ensinamos ao corpo, pouco a pouco, que agora é diferente.

REDAÇÃO: Como funciona a neuroplasticidade? 

LUA: Com repetição consciente. O cérebro aprende o que praticamos.

REDAÇÃO: Como é o transe hipnótico? 

LUA: Um estado de foco profundo e relaxamento com plena consciência.

REDAÇÃO: Como a hipnose ajuda no medo de palco? 

LUA: A hipnose ajuda a ressignificar experiências passadas ligadas ao medo, diminuindo a ansiedade antecipatória e treinando o cérebro para associar o palco à segurança em vez de à ameaça. A pessoa passa a acessar estados de calma, ganha uma nova percepção sobre si mesma e sobre a situação, fortalecendo a autoconfiança. Aos poucos, o corpo deixa de reagir com pânico e aprende que se expressar também pode ser um lugar de potência.

REDAÇÃO: O que motivou o grupo sobre mães narcisistas? 

LUA: Minha própria história. Sou sobrevivente e quis que ninguém atravessasse isso sozinho.

REDAÇÃO: Impactos desse abuso? 

LUA: O abuso narcisista deixa marcas profundas e silenciosas. Ele afeta a autoestima, cria confusão emocional, gera hipervigilância e uma sensação constante de não ser suficiente. Muitas pessoas crescem aprendendo a se adaptar ao outro para sobreviver, perdendo a própria identidade no caminho. Como sobrevivente, vejo que os impactos mais comuns são dificuldade de confiar, medo de abandono, culpa excessiva, ansiedade, tendência a relações abusivas e um vazio interno que só começa a ser preenchido quando a pessoa se reconecta com quem ela realmente é.

REDAÇÃO: Como reconhecer laços tóxicos? 

LUA: Quando há competição, desvalorização e falta de apoio.

REDAÇÃO: O que é liberdade emocional? 

LUA: Liberdade emocional é a capacidade de sentir sem se prender ao medo, à culpa ou à aprovação alheia. É escolher como reagir às situações, sem que velhos padrões ou traumas determinem nossas emoções. Para mim, é poder colocar limites, sentir alegria, tristeza ou raiva, e ainda assim permanecer conectada com quem sou de verdade. É respirar e perceber que a sua vida emocional te pertence, não precisa ser ditada por ninguém.

REDAÇÃO: Por que sentimos culpa ao dizer não? 

LUA: Porque fomos ensinados desde cedo que agradar aos outros é necessário para sobreviver, principalmente quando crescemos em ambientes narcisistas. Dizer "não" ativa um medo de rejeição ou abandono, mesmo quando estamos protegendo nosso bem-estar. A culpa é um reflexo desse condicionamento, mas, com consciência e prática, podemos aprender que estabelecer limites é um ato de amor-próprio, não de egoísmo.

REDAÇÃO: Radiestesia ajuda como? 

LUA: A radiestesia é como uma escuta sensível do nosso campo energético. Ela nos mostra bloqueios, padrões repetitivos e emoções reprimidas que muitas vezes não conseguimos perceber conscientemente. Ao identificar essas áreas de desequilíbrio, podemos trabalhar sobre elas com intenção e cuidado, acelerando processos de cura e trazendo maior clareza sobre nossas escolhas e sentimentos.

REDAÇÃO: Hipnose + energia? 

LUA: Quando integramos hipnose e trabalho energético, tratamos tanto a mente quanto o corpo emocional. A hipnose ajuda a ressignificar experiências e mudar padrões internos, enquanto a energia equilibra bloqueios e harmoniza o campo vibracional. Juntas, essas abordagens potencializam a cura, permitindo que a transformação aconteça de dentro para fora, com mais leveza e consciência.

REDAÇÃO: Fé da sua avó Fernanda?

LUA: A fé da minha avó foi um guia silencioso que me ensinou sobre perdão, paciência e resiliência. Mesmo após anos de afastamento e mágoas, a fé dela abriu espaço para reconstruir vínculos e restaurar afetos. Aprendi que a fé não é só acreditar, mas agir a partir de confiança, esperança e conexão com algo maior que nós mesmos.

REDAÇÃO: Diário emocional? 

LUA: Escrever um diário emocional é como colocar luz sobre o que está dentro da gente. Colocar sentimentos no papel ajuda a organizar pensamentos, identificar padrões, aliviar a tensão e compreender reações que antes pareciam confusas. É uma ferramenta de autoconhecimento que transforma o caos em clareza e nos ensina a olhar para nós mesmos com mais gentileza.

REDAÇÃO: Quadro de visão? 

LUA: O quadro de visão é uma representação visual dos nossos objetivos, sonhos e intenções. Ele ajuda o cérebro a reconhecer possibilidades, manter o foco e criar conexões neurais que favorecem ações alinhadas com nossas metas. Ver diariamente imagens e palavras que representam onde queremos chegar reforça a confiança, a motivação e a clareza sobre nossos desejos mais profundos.

REDAÇÃO: Mantra pessoal? 

LUA: Um mantra é uma frase ou palavra que se torna uma âncora interna. Repeti-lo fortalece nossa atenção, reduz a ansiedade e nos conecta a um estado de calma e presença. Por exemplo, dizer “a paz está em mim” ajuda a mente a se desviar de pensamentos acelerados e cria uma sensação de segurança e equilíbrio emocional. Com a prática, ele se torna um recurso que podemos acessar sempre que precisamos.

REDAÇÃO: Recado final? 

LUA: Você não está quebrado, está em processo. Cada peça do seu quebra-cabeça interno aparece no tempo certo, quando você se permite sentir, olhar para si mesmo e cuidar da própria história. Seja gentil consigo, mesmo diante da dor e dos erros. A cura não é um destino, é uma travessia, e cada passo, por menor que pareça, é transformação.

A Convergência de Saberes como Ontologia da Cura: Uma Perspectiva Integrativa sobre a Obra de Lua Amaral

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A obra Saúde Mental: A Convergência de Saberes para a Transformação Pessoal, de autoria de Lua Amaral , publicada em 2025 , apresenta-se como um esforço intelectual contemporâneo de natureza integrativa, que busca transcender as fronteiras disciplinares convencionais para oferecer uma visão holística do bem-estar psíquico. Estruturado em uma narrativa que funde a experiência fenomênica da autora com rigorosas incursões em campos como a psicanálise, a neurociência, a física quântica e a hipnoterapia , o texto estabelece uma ontologia da cura baseada na indissociabilidade entre o biológico, o psíquico e o espiritual. Desde o prefácio, Amaral propõe que a saúde mental não deve ser compreendida apenas como a vacuidade de nosologias, mas como um "estado de bem-estar emocional, psicológico e social que influencia a forma como pensamos, sentimos e nos comportamos" (p. 9). Essa definição, embora dialoguem com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, ganha no livro uma densidade humanística ao ser ancorada em trajetórias de superação pessoal, transformando o conhecimento teórico em uma práxis de vida. A autora utiliza sua própria história, marcada pelo enfrentamento do narcisismo materno e pela reconstrução da identidade , para validar a tese de que o sofrimento, quando devidamente processado através da "convergência de saberes" , torna-se o substrato para uma evolução de consciência sem precedentes.

No âmbito da psicanálise, Amaral demonstra uma erudição acessível ao discorrer sobre os pilares freudianos e suas evoluções lacanianas e junguianas. Ela explora o conceito de inconsciente não como um reservatório estático, mas como um "mar profundo, onde frequentemente escondemos nossos desejos, medos e anseios" (p. 20). A análise técnica sobre a transferência e a resistência é ilustrada com casos clínicos que evidenciam como padrões arcaicos de relacionamento são projetados na contemporaneidade, aprisionando o sujeito em scripts emocionais repetitivos. A autora argumenta com propriedade que a autoconsciência funciona como um "farol em meio à neblina emocional" (p. 25) , permitindo que o indivíduo abra as janelas internas para a entrada de novas luzes e significados. Essa transição da sombra para a luz é sustentada tecnicamente pela neurociência, capítulo no qual a obra detalha a funcionalidade do sistema límbico, da amígdala e do hipocampo na regulação das emoções e na consolidação de memórias traumáticas. Ao abordar a neuroplasticidade, Amaral oferece um contra-argumento científico ao determinismo psíquico, afirmando que "situais dolorosas não definem quem somos" (p. 39) e que o cérebro possui a capacidade intrínseca de reconfigurar suas redes neurais diante de novas experiências e terapias integrativas.

A originalidade do trabalho reside na audácia de integrar a física quântica a esse mosaico terapêutico. A autora postula que a realidade é um "campo vivo de potencialidades, onde a consciência exerce papel fundamental" (p. 28) , estabelecendo um diálogo entre o efeito do observador e a capacidade de cocriação da própria existência. Sob essa ótica, o pensamento e a emoção não são subprodutos epifenomênicos, mas forças vibracionais que moldam o campo energético do sujeito. Essa perspectiva é complementada pela discussão sobre a radiestesia, apresentada como uma técnica de leitura e harmonização de frequências sutis que auxilia no diagnóstico e reequilíbrio do fluxo vital. A hipnose, por sua vez, é despojada de seus estigmas performáticos e redefinida como um "estado concentrado de atenção e colaboração" (p. 33) , funcionando como uma ferramenta de alta precisão para a reprogramação de registros subconscientes e a ressignificação de traumas que a mente consciente, muitas vezes, resiste em processar. O rigor com que Amaral descreve a aplicação clínica da hipnose regressiva e da autohipnose eleva a obra de um simples manual de autoajuda a um tratado de intervenção mental consciente.

Finalmente, a dimensão ética e social da obra é consolidada na análise sobre os "laços tóxicos" e a importância da fé no processo de cura. O movimento Sobreviver, fundado pela autora , serve como evidência empírica de que a saúde mental se realiza plenamente na dimensão comunitária e na validação mútua do sofrimento. Ao discutir a fé, Amaral a desvincula de dogmatismos religiosos estritos, tratando-a como um "recurso essencial de fortalecimento" (p. 60) e uma "escolha diária" (p. 63) que reconecta o indivíduo a um sentido teleológico da vida. A obra conclui que a jornada de autoconhecimento é um "desabrochar silencioso" (p. 69) , onde a integração de saberes científicos e espirituais permite que o sujeito se torne o protagonista de sua própria história. Através de exercícios práticos, diários emocionais e meditações guiadas, o livro transita com maestria entre o rigor acadêmico e a urgência do acolhimento , consolidando-se como uma referência indispensável para profissionais da saúde e indivíduos em busca de uma transformação autêntica e fundamentada.

A sofisticação com que a narrativa articula a fenomenologia do trauma e a neurofisiologia da recuperação estabelece que a mente humana não é um sistema isolado, mas uma interface complexa de processamento de informações que reage dinamicamente ao ambiente e às memórias de longo prazo. No estudo das interações primordiais, destaca-se como o ambiente e as relações cultivadas moldam a percepção do mundo, transformando o inconsciente em um processo dinâmico onde o recalcado exerce pressão sobre a consciência. A obra argumenta com propriedade que "o inconsciente, um dos pilares dessa teoria, é um mar profundo, onde frequentemente escondemos nossos desejos, medos e anseios" , sugerindo que a cura individual é, simultaneamente, uma reparação da própria identidade ferida. Este entendimento é crucial para a prática contemporânea, pois redireciona o foco para a responsabilidade da transformação no tempo presente, validando que "a saúde mental é um caminho de retorno — não ao que fui, mas ao que sou".

A transição para o domínio biológico ocorre de forma fluida, onde a arquitetura cerebral é dissecada para fundamentar a eficácia das intervenções. O texto descreve com precisão o papel da amígdala como um centro de comando que regula memórias emocionais e detecta ameaças, enquanto o hipocampo atua na consolidação de lembranças duradouras. O livro postula que "nossas reações emocionais são tanto uma questão de história pessoal quanto de biologia" , reforçando que a convivência prolongada em ambientes deletérios pode hiperativar sistemas de alerta constante. Contudo, a introdução da neuroplasticidade como fundamento da esperança permite afirmar que, através de experiências positivas e apoio social, é possível reconfigurar as redes neurais. Essa base científica eleva as práticas de atenção plena a intervenções fisiológicas, ensinando que "o cérebro é moldável" e oferece a chance diária de reinvenção.

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Ao tratar da física quântica e sua relação com a consciência, o texto concentra-se na natureza não-local da mente e na influência da percepção sobre a realidade física. Postula-se que "a realidade não é algo fixo, mas um campo vivo de potencialidades, onde a consciência exerce papel fundamental" , estabelecendo um diálogo entre o observador e o objeto observado. Essa seção sugere que estados de gratidão e alegria podem alterar a experiência de vida, funcionando como uma reprogramação interna. O rigor acadêmico manifesta-se na tentativa de aproximar a psicologia da física moderna, sugerindo que "nossas emoções carregam energia, e essa energia ressoa no mundo". A consciência não é apresentada como um elemento separado, mas como "a própria vida em ação", capaz de reescrever o tecido coletivo da existência.

O aprofundamento encerra-se com a análise da hipnoterapia como método de acesso às camadas subconscientes da psique. Defende-se que a hipnose permite a redução de resistências emocionais, facilitando a ressignificação de traumas e a criação de novos padrões de comportamento. O estado de transe é descrito como um espaço de "ampliação da consciência", onde o corpo relaxa para que a mente acesse registros que moldam a vibração pessoal. A obra destaca que "a hipnose não é sobre ser submisso, mas sobre estar em um estado elevado de concentração" , funcionando como um passaporte para a libertação e o autoconhecimento. Através desta integração entre a profundidade analítica e a precisão técnica, constrói-se um paradigma de saúde que é cientificamente fundamentado e orientado para a soberania emocional do sujeito.

A integração multidisciplinar proposta por Amaral alcança seu ápice na análise das dinâmicas relacionais e no impacto dos laços tóxicos sobre a homeostase psíquica. A autora define esses vínculos como forças que, em vez de nutrir o crescimento, "drenam nossa energia e saúde emocional", manifestando-se em padrões de desvalorização, controle e manipulação. O texto enfatiza que a convivência prolongada em ambientes de baixa vibração — marcados por medo, culpa ou raiva — não apenas compromete o bem-estar imediato, mas "drena a energia vital e nos desconecta do fluxo natural da abundância". Através do relato de sua fundação do movimento Sobreviver, Amaral exemplifica como a "dor profunda, confusão emocional e um longo processo de reconstrução interior" decorrentes do narcisismo materno podem ser transmutados em uma "rede viva de transformação", onde histórias são validadas e feridas são finalmente nomeadas. No campo da energética, a obra introduz a radiestesia como uma ferramenta técnica de "escuta sensível" e "leitura do inconsciente energético". Através de instrumentos como o pêndulo, torna-se possível identificar bloqueios e interferências externas no campo vibracional que moldam a experiência do sujeito. Amaral argumenta que "elevar a energia é um ato de autocuidado profundo" , exigindo a manutenção de um estado de presença e coerência interna mesmo diante de adversidades. A integração entre a radiestesia, que ajusta a vibração, e a hipnose, que "ressignifica a origem emocional dos bloqueios", cria uma aliança potente para o fortalecimento interior. Este processo permite que o indivíduo transcenda o automatismo e escolha práticas que restauram o equilíbrio, como a respiração consciente e a gratidão.

O modelo integrativo defendido pela autora sintetiza a psicanálise, a física quântica, a neurociência e a hipnose em um "mosaico rico e complexo". Enquanto a psicanálise oferece a estrutura narrativa para o entendimento das motivações inconscientes , a neurociência fornece a base biológica indispensável para compreender como o cérebro processa emoções e como as experiências moldam as sinapses. A física quântica, por sua vez, desafia a percepção tradicional ao sugerir que as intenções do observador possuem impacto real na realidade. A hipnose atua como a ferramenta de execução prática, permitindo o acesso ao subconsciente para a reprogramação de padrões e a cura de traumas passados. Esse olhar holístico permite que o sujeito perceba que sua saúde mental é um "sistema dinâmico, onde cada aspecto afeta o todo".

Por fim, a obra ressalta que o autoconhecimento é uma jornada contínua de "descobertas, curas e reconstruções". Amaral convida o leitor a olhar para os próprios desafios não como fardos, mas como oportunidades de evolução, pois "a verdadeira transformação nasce do encontro entre conhecimento, prática e coragem emocional". A adoção deste olhar integrativo exige humildade e uma vontade genuína de mudança, permitindo que as experiências emocionais sejam compreendidas em suas múltiplas facetas. Ao aplicar as ferramentas propostas, desde o diário emocional até a meditação profunda , o indivíduo deixa de ser um observador passivo para tornar-se o protagonista de sua travessia, fundamentando sua vida na "presença e coerência entre sentir, pensar e agir".

“Inclusão não é opcional, é essencial à fé”: uma entrevista com Nelson H. B. Amaral

Imagem: Acervo pessoal / Divulgação

Nas salas de ministério infantil pelo Brasil, um silêncio muitas vezes ensurdecedor revela uma lacuna na missão cristã: a invisibilidade de crianças autistas. Para o pedagogo e autor Nelson H. B. Amaral, a inclusão não deve ser vista como um "projeto especial" ou uma tarefa técnica, mas como a própria essência do chamado de Cristo. Nesta entrevista exclusiva, Nelson compartilha como sua trajetória na pedagogia e sua fé se entrelaçam para desafiar igrejas a transformarem mentalidades e estruturas. Mais do que adaptar espaços, ele nos convida a adaptar o olhar, enxergando em cada criança a imagem e semelhança de Deus.

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TEMA: O AUTISMO NO MINISTÉRIO INFANTIL E A INCLUSÃO COMO CHAMADO CRISTÃO


REDAÇÃO: Nelson, o que motivou você a unir sua vivência pedagógica com a reflexão cristã para escrever especificamente sobre o autismo no ministério infantil? 

NELSON H. B. AMARAL: Minha motivação nasceu da percepção de que muitas crianças autistas são invisibilizadas, tanto no contexto educacional quanto no religioso. Como pedagogo e cristão, compreendi que a inclusão não é apenas uma prática pedagógica, mas uma expressão concreta do amor cristão. Escrever sobre o tema foi uma forma de unir conhecimento científico e compromisso espiritual.

REDAÇÃO: Em sua obra, você menciona que a inclusão é um “chamado”. Por que você acredita que muitas igrejas ainda hesitam em atender a essa convocação? 

NELSON H. B. AMARAL: Porque a inclusão exige mudanças profundas de mentalidade, estrutura e prática. Muitas igrejas ainda a veem como algo complexo ou secundário quando, na verdade, ela é parte essencial da missão cristã.

REDAÇÃO: Como os líderes de ministério infantil podem identificar o valor e o propósito de Deus em uma criança autista que apresenta dificuldades severas de comunicação? 

NELSON H. B. AMARAL: O valor de uma criança não está em sua capacidade de comunicação ou desempenho, mas em sua condição de ser humano criado por Deus. Quando os líderes aprendem a olhar além das limitações aparentes, percebem que cada criança possui potencial, identidade e propósito.

REDAÇÃO: Quais são os maiores mitos ou preconceitos que você ainda observa dentro das comunidades de fé em relação ao comportamento autista durante os cultos? 

NELSON H. B. AMARAL: Entre os principais mitos estão as ideias de que o comportamento autista é falta de disciplina, desobediência ou ausência de espiritualidade. Esses preconceitos revelam desconhecimento e reforçam a necessidade de formação e sensibilização.

REDAÇÃO: Do ponto de vista prático, qual é o primeiro passo para uma igreja que deseja ser inclusiva, mas não possui recursos financeiros ou infraestrutura adaptada? 

NELSON H. B. AMARAL: O primeiro passo é a mudança de mentalidade. A inclusão começa com atitude, não com estrutura. A escuta das famílias, a disposição para aprender e o compromisso com o acolhimento são fundamentais.

REDAÇÃO: Como equilibrar o ensino das doutrinas bíblicas com a necessidade de metodologias pedagógicas específicas para crianças com autismo? 

NELSON H. B. AMARAL: Não há conflito entre fé e pedagogia. Pelo contrário: metodologias adaptadas são instrumentos para que a mensagem bíblica seja compreendida por todas as crianças, respeitando suas particularidades.

REDAÇÃO: Na sua visão, como a postura do professor do ministério infantil influencia a recepção da família da criança autista na igreja? 

NELSON H. B. AMARAL: A postura do professor é decisiva. Quando ele demonstra empatia, respeito e preparo, a família se sente segura e pertencente à comunidade. O professor se torna a ponte entre a criança, a família e a igreja.

REDAÇÃO: Você cita a “verdadeira essência do Evangelho” como um amor que inclui. Onde a exclusão de crianças autistas mais fere essa essência? 

NELSON H. B. AMARAL: A exclusão fere o Evangelho quando nega o direito de pertencimento. Quando uma criança autista é afastada do convívio, a igreja deixa de testemunhar o amor inclusivo de Cristo.

REDAÇÃO: Como preparar as outras crianças do ministério infantil para acolherem seus colegas autistas com naturalidade? 

NELSON H. B. AMARAL: A educação para a diversidade deve ser intencional. Ensinar valores como respeito, solidariedade e empatia ajuda as crianças a compreenderem que as diferenças fazem parte da humanidade.

REDAÇÃO: Quais são os princípios bíblicos fundamentais que dão base ao seu argumento de que a inclusão não é opcional para o cristão? 

NELSON H. B. AMARAL: Princípios como o amor ao próximo, a justiça, a dignidade humana e o cuidado com os mais vulneráveis fundamentam a ideia de que a inclusão é essencial à fé cristã.

REDAÇÃO: Em sua vivência, qual foi o exemplo real de inclusão que mais te emocionou? 

NELSON H. B. AMARAL: Um dos exemplos mais marcantes foi ver uma criança autista, antes isolada, ser integrada às atividades do ministério infantil, encontrando espaço para se expressar e ser aceita. Esse tipo de transformação revela o poder da inclusão.

REDAÇÃO: Como lidar com a sobrecarga dos voluntários do ministério infantil? 

NELSON H. B. AMARAL: É necessário investir em formação, dividir responsabilidades e construir uma rede de apoio. Ninguém inclui sozinho; a inclusão é um trabalho coletivo.

REDAÇÃO: De que forma a igreja pode oferecer suporte às famílias? 

NELSON H. B. AMARAL: A igreja pode oferecer orientação, escuta, grupos de apoio e acompanhamento espiritual. Incluir a criança é também acolher a família.

REDAÇÃO: Você acredita que a falta de inclusão é um problema mais técnico ou espiritual? 

NELSON H. B. AMARAL: A exclusão é resultado de ambos. Falta conhecimento técnico, mas também sensibilidade espiritual. Quando a igreja aprende, ela se humaniza; quando se sensibiliza, ela transforma.

REDAÇÃO: Qual é o papel da liderança da igreja? 

NELSON H. B. AMARAL: A liderança precisa assumir a inclusão como prioridade. Sem o apoio do pastor e dos líderes, projetos inclusivos dificilmente se sustentam.

REDAÇÃO: Como adaptar o ambiente sensorial? 

NELSON H. B. AMARAL: Pequenas mudanças, como controle de ruídos, iluminação adequada e disponibilização de materiais sensoriais, podem tornar o ambiente mais acessível e acolhedor.

REDAÇÃO: Em que medida o ensino sobre “perfeição” pode atrapalhar a aceitação da neurodiversidade? 

NELSON H. B. AMARAL: Quando a igreja associa o valor humano estritamente à ideia de “cura”, ela corre o risco de negar a diversidade humana. A neurodiversidade precisa ser compreendida como parte da criação.

REDAÇÃO: O que significa olhar com sensibilidade? 

NELSON H. B. AMARAL: É reconhecer que Deus se revela na diversidade. É perceber que cada criança carrega uma história, uma identidade e uma forma única de ser.

REDAÇÃO: Quais os maiores desafios para manter a inclusão a longo prazo? 

NELSON H. B. AMARAL: O maior desafio é manter o compromisso após o entusiasmo inicial. A inclusão exige continuidade, formação permanente e avaliação constante.

REDAÇÃO: Qual é sua maior esperança? 

NELSON H. B. AMARAL: Que as igrejas brasileiras se tornem espaços verdadeiramente inclusivos, onde nenhuma criança seja invisibilizada.

REDAÇÃO: Qual é a tese central do seu livro? 

NELSON H. B. AMARAL: Que a inclusão de crianças autistas no ministério infantil é uma extensão direta do Evangelho, pois expressa o amor, a justiça e a dignidade humana defendidos por Cristo.

REDAÇÃO: Como sua formação pedagógica influenciou a obra? NELSON H. B. AMARAL: Ela contribuiu para a construção de estratégias práticas e fundamentadas, articulando teoria, prática e espiritualidade.

REDAÇÃO: Como treinar voluntários de forma eficaz? 

NELSON H. B. AMARAL: Através da formação continuada, do diálogo e da convivência com a diversidade. Esses são os caminhos para desenvolver um olhar sensível.

REDAÇÃO: Qual o maior erro cometido pelas igrejas nesse processo? 

NELSON H. B. AMARAL: Tentar incluir sem compreender o autismo, o que acaba reproduzindo práticas excludentes disfarçadas de inclusão.

REDAÇÃO: Assistencialismo ou inclusão? 

NELSON H. B. AMARAL: A verdadeira inclusão não é caridade pontual, mas sim uma transformação estrutural e cultural.

REDAÇÃO: Quais princípios são inegociáveis? 

NELSON H. B. AMARAL: Amor, respeito, dignidade, justiça e acolhimento.

REDAÇÃO: Qual a primeira mudança necessária? 

NELSON H. B. AMARAL: A de mentalidade: entender que a diversidade não é um problema, mas uma riqueza.

REDAÇÃO: Como lidar com resistências internas? 

NELSON H. B. AMARAL: O diálogo e a informação de qualidade são fundamentais para desconstruir preconceitos e promover a convivência respeitosa.

REDAÇÃO: O que é, de fato, a escuta ativa? 

NELSON H. B. AMARAL: Escutar as famílias é reconhecer suas dores, lutas e esperanças. A escuta é o primeiro passo da inclusão.

REDAÇÃO: Qual orientação é a mais urgente para o cenário atual? 

NELSON H. B. AMARAL: A formação urgente de líderes e voluntários.

REDAÇÃO: Quais são seus planos futuros? 

NELSON H. B. AMARAL: Este livro é apenas o início. Pretendo ampliar a discussão para outras faixas etárias e diferentes contextos de inclusão.

REDAÇÃO: Qual legado você espera deixar? 

NELSON H. B. AMARAL: A consciência de que a educação cristã inclusiva não é apenas um projeto, mas um compromisso permanente com a dignidade humana.


"A raiva é um combustível essencial para a lucidez": Uma entrevista com Clara sobre o romance Altiva

Imagem: Acervo pessoal / divulgação

O que resta de uma vida quando ela atravessa quase um século? Para a escritora Clara, a resposta não está apenas nos grandes marcos históricos, mas nas minúcias do cotidiano, no "sorriso maroto" e até na raiva que serve como motor para a longevidade. Em seu novo romance, Clara transforma sua avó, Altiva — uma mulher de 98 anos que desafia o tempo com agachamentos e uma lucidez cortante —, em uma protagonista que foge dos estereótipos da "velhinha doce". Nesta entrevista, mergulhamos nos bastidores de uma obra que é, ao mesmo tempo, um resgate familiar e um manifesto sobre a autonomia narrativa das mulheres de outrora.

Imagem: Colegam digital

REDAÇÃO: Clara, sua obra apresenta Altiva, uma mulher de 95 anos extremamente lúcida e ativa. Como foi o processo de transformar essa figura real em uma protagonista de romance?

CLARA: Bom, eu já estava escrevendo um romance sobre um casal que se conhece em um spa e sofre uma separação inesperada e abrupta, que restringe o relacionamento deles a apenas uma noite juntos. Enquanto eu terminava de escrever, percebi que seria capaz de chegar ao final e que, mesmo sendo um livro curto, continha muita informação sobre o onírico e passagens de vida que se comungam entre várias pessoas. Percebi que seria capaz de escrever o romance que minha avó tanto pedia desde minha adolescência. Pela primeira vez, me senti capaz de fazer um trabalho interessante sobre as histórias de vida dela, de forma poética e engraçada, não levando tão a sério os regimentos arcaicos de uma senhora de (agora) 98 anos. Quanto a trazer essa avó lúcida e ativa, não sei bem se é verdadeiro. Afinal, depende do referencial…

REDAÇÃO: O livro é narrado por Altiva, mas observado sob o olhar da neta. Por que você escolheu essa dupla perspectiva para contar a história?

CLARA: Por acaso, na época da publicação, tive um ou dois encontros com pessoas importantes na minha trajetória literária que tentaram mostrar que minha avó não era uma figura "importante". Uma mulher um tanto subjugada pela família do marido e pouco escolarizada. No entanto, pensava que em nenhum romance existe essa prerrogativa de que a protagonista deva ser relevante dentro de algum meio artístico ou uma figura importante pelo seu trabalho — como uma advogada, médica, juíza, etc. Então, atendendo ao pedido de uma avó que seria esquecida em sua história afetiva e familiar, resolvi escrever como se fosse ela. Eu, que poderia ser filha, irmã ou bisneta…

REDAÇÃO: A sinopse menciona a "raiva cotidiana de quem foi traída" e o "excesso de zelo". Foi desafiador expor as falhas e sentimentos viscerais de uma figura familiar tão respeitada?

CLARA: Certamente; acho que foi o desafio mais difícil. Mostrar as diversas facetas de uma pessoa de 95 anos com tantos familiares próximos que pensam nela já como uma figura estática, pronta para ser a sombra que eles desejam. Tentei deixar a personagem ser de todo jeito e deixar, de certa forma, documentada uma espécie de defesa emotiva para os momentos de aridez e frieza, mostrando que, no entanto, muitas vezes esquecemos tantos carinhos demonstrados com a entrega da alma ao bem-estar dos outros.

REDAÇÃO: Altiva é descrita como alguém que une valores do passado e do presente. Como ela consegue manter a mente aberta para o futuro mesmo após quase um século de vida?

CLARA: Talvez seja pela forma com que ela vê a vida: sempre "de mal" com ela, com tantas reclamações e lembranças negativas, inclusive focando sempre no que falta. De certa forma, essa filosofia negativa a leva a ver o extremo oposto de maneira inteiramente contrária e anestésica, talvez, ou compensatória. Nesse equilíbrio, ela se sustentou bem positiva, dizendo que a cabeça estava muito boa até pelo menos os 97 anos, quando levou um tombo e precisou de cadeira de rodas. Hoje, com 98, ela anda um pouco cansada de viver; imagino que, relativamente, isso seja tardio. E a Altiva do romance continua existindo dentro dela, além de que, modestamente, consegui fazer um retrato amplo dessa senhora, abrangendo cada aspecto de informação sobre ela.

REDAÇÃO: O livro aborda o ato de "remoer uma história amorosa até o fim dos tempos". Você acredita que o perdão é necessário para chegar aos 95 anos com essa lucidez, ou a raiva também é um combustível?

CLARA: Quando vejo Altiva falando, e desde que escrevi esse romance, não tenho dúvida de que a raiva é um combustível essencial para a lucidez e a longevidade. Imagino que um excesso de lucidez pode vir a trazer uma úlcera ou problemas nervosos. Como um "assassinato por queima de arquivo", no caso daquele livro de Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, continuação do Ensaio sobre a Cegueira. Embora "queima de arquivo" seja uma interpretação minha sobre a mulher do médico, que se manteve enxergando durante toda a cegueira que assolou o "lugar". Não me lembro ao certo se o assassino também enxergava ou se a mataram quando voltaram a ver… Enfim, acho que sim, a raiva é um motor importante, embora saibamos que a raiva pura, com pouca razão ou com ausência de paciência, são coisas que não combinam. Precisamos do motor funcionando bem, de bancos confortáveis e diversas coisas para que o combustível nos leve longe.

REDAÇÃO: Qual a importância de registrar as tramas familiares sob uma visão singular do afeto, fugindo da idealização comum que temos dos nossos idosos?

CLARA: É muito comum idealizarmos nossos antepassados na tentativa de engrandecer nosso próprio ego. Mas, muitas vezes, não é muito real a imagem que temos, pois não houve uma convivência genuína entre os descendentes e os idosos. É fácil idealizar um avô ou uma avó e não conviver com eles — o que acontece principalmente quando perdem suas capacidades cognitivas ou motoras e os próprios netos pensam que não conseguiriam viver com tais comorbidades e preferem "ir antes". Se dão por vencidos, pensam: "não vou viver tanto assim, quero mais é aproveitar a vida e as coisas boas, mesmo que elas não promovam saúde". Isso é, de certa forma, uma visão singular também, de ver a vida de forma hedonista. Mas também imagino o caso contrário: avós que aproveitaram demais e acabaram indo cedo. Ficamos com uma idealização da juventude desses que muitas vezes mal chegam à terceira idade.

O fato é que a visão singular do afeto é o que traz para nossa história uma convivência com essas pessoas idosas que fazem parte da nossa família. Simplesmente sabendo dos entes idosos através de outros, pincelamos a juventude de um idoso com fama através de seus feitos e maledicências. O caso de Altiva é um romance que se pretende autobiográfico, porém, como não é contado através da própria, possui um caráter irônico e sarcástico que eleva o livro ao título de uma obra autêntica. Numa tentativa de atuar pela protagonista, a autora interpreta também no livro o que considera como algo sofrido com um ar poético e melancólico, típico dela própria em sua versão pós-madura.

REDAÇÃO: O "sorriso maroto" da avó é destacado na sinopse. Essa característica é o que humaniza a personagem diante das adversidades que ela narra?

CLARA: Sim. Achei essa expressão digna de nota, pois continha tudo o que não estava mais ali depois que ela se calava, entre uma pausa e outra das passagens de sua vida. Sempre repetindo as histórias mais "cabeludas" até suas totais digestões.

REDAÇÃO: Basear um romance em histórias reais exige um cuidado ético e emocional. Como sua família reagiu ao saber que essas memórias seriam publicadas?

CLARA: É verdade, João Vitor, é necessário, sim, muito cuidado ético e emocional. Principalmente ao escrever, pois depois que a obra está pronta, fazer mudanças é como uma reforma em Brasília. Ficaria tudo dividido em remessas do que precisava ser dito ou ouvido, o que não era o propósito do livro. Ele foi escrito para defender os sentimentos da minha avó em sua memória; preservar muitas memórias antigas que uma senhora de 95 anos possuía, mas, ao mesmo tempo, colocar uma pitada de pimenta — um tempero que eu estava disposta a dar, talvez por ter sido a neta mais presente e filha da filha que mais se importou com os pais e seus sentimentos.

Talvez a elaboração desses sentimentos fosse importante para todos da família, de certa forma, ou principalmente para mim, que me sentia extremamente grata a essa senhora que me pediu que escrevesse suas memórias. Respeitando tanto meu talento para escrever quanto minha capacidade de traduzi-la, de forma a estar numa memória abandonada e imaginada entre o passado do que se passou e uma perspectiva exclusiva da nossa personagem, que é, de certa forma, metade Altiva, metade Clara.

REDAÇÃO: Na sua visão, qual é o maior segredo da Altiva para conseguir fazer "até um agachamento" e manter o vigor físico e mental nessa idade?

CLARA: Para mim, o que mais ficou claro é a constância com que Altiva repete que a cabeça está muito boa. O fato de ela sempre ter evitado tomar medicamentos demais, buscando alternativas nutricionais, respeitando o relógio biológico tanto no sono quanto na hora das refeições. E, principalmente, a atividade constante de estar fazendo crochê, cozinhando (agora não mais), lavando louça e cuidando da casa como se fosse ela própria.

REDAÇÃO: A narrativa fala sobre dar importância a pequenas coisas. Como a escrita deste livro mudou a sua própria percepção sobre o que realmente importa na vida?

CLARA: Eu não sei explicar ao certo como tudo se deu, mas foi antes mesmo de receber os livros físicos da Viseu aqui em casa que encontrei meu atual marido; casamos e estamos agora com uma filha linda, que nasceu fruto desse amor imenso.

REDAÇÃO: Pressentimentos e intuição permeiam a trama. Você acredita que a sabedoria da mulher madura é, na verdade, um tipo de clarividência sobre a vida?

CLARA: Talvez essa sensação de idealização dos mais velhos acontecesse mais na infância. Acho que cresci acreditando muito nisso e acho que ainda existe uma parte que acredita. Quando, por exemplo, minha avó descobre algo complexo que eu pensei através de muito estudo e reflexão, parece que ela simplesmente tem um insight e entende aquilo, colocando em palavras coisas que eu ainda não havia conseguido. E, ao mesmo tempo, reconheço a dificuldade dela em escrever um bilhete para nós. É discrepante, às vezes, os saltos da inteligência de uma pessoa. Dizem que existem vários tipos de inteligência, e acredito nisso também; pressentimento e intuição podem, de fato, ser os lados mais inteligentes de Altiva, junto com seu equilíbrio e vontade de viver.

REDAÇÃO: Como você trabalhou a linguagem do livro para que a voz da Altiva soasse autêntica para o leitor, respeitando o tempo dela?

CLARA: Como eu disse, fiz um trabalho grande de incorporar Altiva dentro da Clara. Por incrível que pareça, minha avó sempre foi mais rápida do que eu — pelo menos para uma criança como eu era, parecia. Ela parecia fazer tudo: dar conta da casa, do crochê, do casamento, dos filhos… enquanto eu não conseguia nem terminar de preencher um caderno de caligrafia para mostrar a ela. Talvez o problema fosse querer mostrar só para ela… (risos). Vê-se que minha avó não foi uma pessoa tão admirada pelos seus feitos; foi uma mulher comum e, no entanto, foi idolatrada pelas netas, sim. Mas o trabalho do qual está falando realmente é outro: somar a idade de 95 anos com a rapidez da Clara atual e chegar a um consenso de repetição das histórias para que o livro não ficasse enfadonho e que sustentasse que se tratava da narrativa de Altiva aos 95 anos…

REDAÇÃO: O zelo excessivo é apontado como um "pecado" da personagem. Em que momento o cuidado com a família se torna um fardo para uma mulher como ela?

CLARA: Nesse ponto devo discordar. Em Altiva, faz parte esse zelo que ela tem pela família; sem ele, a personagem não ganha suas razões emocionais para querer tanto viver dessa forma — de remorso e mágoa, com o combustível da raiva, com sua ambiguidade entre atender a todos e estar chateada com a vida. De, durante um contar de história, soltar um sorriso maroto. A história desmorona sem o zelo da personagem pela família…

REDAÇÃO: Altiva é "detentora da própria história". O que essa autonomia narrativa representa para as mulheres da geração dela?

CLARA: Isso é uma das maiores conquistas de Altiva e o motivo pelo qual quis deixar registradas suas versões das histórias. Uma mulher centenária merece ser vangloriada pelo simples fato de ter sobrevivido neste mundo dos homens. E é sempre bom lembrar que, por trás de uma história, conhecem-se muitas outras parecidas e ocultadas por medo ou vergonha de si. Coisa que nossa personagem tem de sobra: coragem.

REDAÇÃO: Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez sobre sua avó (ou sobre a personagem) durante as entrevistas para o livro?

CLARA: Acho que o que mais me surpreendeu foi saber que meu avô teria pensado em sugerir um aborto na última filha — que é justamente a filha com quem ele teve mais mimo e carinho, a Lúcia Helena. Sempre pensei que ela tivesse sido muito desejada desde o início.

REDAÇÃO: O romance mescla sinceridade e veracidade. Existe algum limite entre o que é fato histórico e o que é liberdade poética na sua escrita?

CLARA: O romance possui uma espécie de "fórmula ativa". A forma como Clara designou que Altiva conta as histórias cria "a personagem", que se distingue da avó física em forma de texto. Os nomes e fatos são citados pela avó sem erro algum, fora alguma falha de memória improvável. Porém, fatos e nomes não evitam qualquer licença literária para que se fale com emoção no tocante às sensações das coisas em si. Quero dizer, do universal, do que tange à poética.

REDAÇÃO: Como você descreve a "paz de ter razão em seus sentimentos" que a personagem experimenta?

CLARA: Acredito que seja um lugar dentro da gente onde nos sentimos confortáveis, na medida em que nossas atitudes se justificam. Não apenas atitudes, mas também o entendimento de que o combustível "raiva" tem uma fonte de petróleo e que isso é algo próprio de cada um para se abastecer e viver em paz. Com as viagens internas às vezes até mais interessantes que as externas. Como já diria o Rei do Baião: "Pra me danar, por essa estrada mundo afora ir-me embora, sem sair do meu lugar."

REDAÇÃO: Para as gerações mais novas, o que o exemplo de Altiva tem a dizer sobre resiliência e a forma como lidamos com traições e decepções?

CLARA: Vemos que existe um ímpeto grande das gerações recentes em esperar pelo parceiro até que ele esteja preparado para o grande momento de casar e ter filhos. Muitas mulheres aguentam até hoje muita coisa. E, no fim, na maioria das vezes, acabam perdendo energia e tempo de vida em situações humilhantes. O fato de que, antigamente, essas traições eram ocultadas, de certa forma, remetia a um certo "respeito" (entre aspas) às mulheres com quem se casaram, deixando a "outra" numa posição de artista ou prostituta. Muitos olham pela perspectiva de que o amor verdadeiro é o das amantes, das que se entregam sem remorso, sem mágoa, sem ciúme — quase virgens de alma, quase inumanas. Talvez por isso muitas vezes sejam artistas; embora, no caso da arte, considero artista quem privilegia a importância da obra em vida e dedica a alma a isso, tendo que lidar com os amantes da vida como ser humano, não mais apenas como mulher.

No caso de Altiva, ela é uma "Maria-Ninguém", como cantava Elis Regina. Era uma mulher como outra qualquer que quis contar a perspectiva pouco explorada da mulher "oficial" e dedicada à família, que descobre na outra uma figura com quem nunca pôde contar.

REDAÇÃO: Escrever sobre o envelhecimento lúcido é uma forma de lutar contra o preconceito de idade (etarismo) na literatura?

CLARA: Na verdade, esta não é uma questão que eu tenha aplicado deliberadamente como pauta nesta obra.

REDAÇÃO: Para encerrar, Clara, se você pudesse resumir a essência da Altiva em uma única lição de vida para seus leitores, qual seria?

CLARA: Viva seus sentimentos mais sinceros e faça deles motivo para ser feliz e viver bem. Tenha uma cabeça boa, mantenha sua rotina e viva sua longevidade de forma plena. Quanto mais perto você estiver de si mesma, mais longe poderá ir.

O Resgate da Res Publica: Uma Conversa com Aurelio Tadeu

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Vivemos em uma época de acontecimentos atordoantes. Entre o fluxo incessante de notícias e a sensação de crise compartilhada pelas democracias ocidentais, muitos cidadãos sentem-se perdidos, buscando critérios para entender o presente e alternativas para orientar o futuro. É nesse cenário de incertezas que o olhar para o passado revela sua maior utilidade.

No Post Literal de hoje, recebemos Aurelio Tadeu, autor da obra "Cícero e a Defesa da República – Ética, Poder e Retórica". O livro não é apenas um estudo histórico, mas um guia pragmático que resgata Marco Túlio Cícero — o maior orador de Roma — para dialogar com os dilemas do século XXI. Cícero foi alguém que lidou pessoalmente com um mundo em transformação e crise permanente, e suas reflexões sobre liberdade, igualdade e o respeito às instituições permanecem assustadoramente atuais.

Nesta entrevista exclusiva, Aurelio Tadeu nos mostra como a união entre filosofia e política pode oferecer o "decoro" e a ética que tanto faltam ao debate moderno. Prepare-se para um contato leve e instigante com um pensador que prova: a defesa da República é, acima de tudo, a defesa da nossa própria humanidade.

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REDAÇÃO: O que motivou a escolha de Marco Túlio Cícero como o "guia" para entender as crises das democracias contemporâneas?

AURÉLIO TADEU: Ao menos dois motivos me levaram a essa escolha. O primeiro diz respeito ao papel de difusor de conhecimento. Marco Túlio Cícero foi um filósofo, advogado e político de importância tremenda para sua época e para as posteriores. Além de transmitir conhecimentos da filosofia grega para os romanos de seu tempo, as obras de Cícero serviram de inspiração para pensadores políticos desde a Idade Média. Então, essa importância intergeracional dos seus ensinamentos me levou a escolhê-lo. O segundo motivo diz respeito à experiência de vida que Cícero teve ao lidar com os desafios sobre os quais escreveu e os perigos que enfrentou.

REDAÇÃO: Vivemos uma época de acontecimentos "atordoantes". Em que medida o estado de espírito da Roma tardia se assemelha ao sentimento de crise dos regimes ocidentais atuais?

AURÉLIO TADEU: Na época em que Cícero esteve no auge de sua relevância política em Roma, havia uma série de mudanças sociais e políticas ocorrendo e se retroalimentando. O final da República romana foi marcado por graves tumultos de escravos, que se rebelavam e surpreendiam as forças romanas, as quais tinham diversos conflitos externos para debelar ao mesmo tempo. As distorções causadas pelas leis eleitorais traziam insatisfação com aqueles que eram considerados aptos a escolher os governantes, tanto pela diminuta participação daqueles que tinham de pagar impostos e servir no exército, quanto pela corrupção que havia em todas as etapas.

A desconsideração dos costumes antigos, que protegiam as instituições romanas, também aumentava a instabilidade, pois não se respeitavam mais as limitações de classe social para determinados cargos reservados aos plebeus. Isso fazia com que estes deixassem de representar os interesses de sua classe e servissem de porta de entrada para os cargos reservados aos patrícios, visando o destaque social obtido no exercício de tais incumbências, cada vez mais escandalosas. Assim, parece que a todo tempo precisamos de um governo forte, que limite direitos e garantias para lidar com o caos, aproximando-nos da ditadura. Todos esses fatores estão presentes na política contemporânea ao redor do mundo: o distanciamento cada vez maior entre representantes e representados, o desrespeito pelas regras, pelos costumes e pelo decoro dos cargos públicos, e o exercício de poderes que infringem normas para que os políticos se mantenham em evidência. Acredito que seja uma situação muito problemática por ser tão parecida.

REDAÇÃO: Cícero é conhecido por adaptar a filosofia grega ao pragmatismo romano. Como essa "simplificação" ajuda o leitor leigo a compreender a política?

AURÉLIO TADEU: Cícero adaptou diversos ensinamentos gregos, principalmente da escola estoica, para o pensamento romano, que era de natureza mais pragmática. Acredito que abstrações e desenvolvimentos muito complexos de filosofia moral não se aplicavam ao modo tradicional de agir e pensar de um povo guerreiro como o romano; a adaptação servia para facilitar a captação dos conceitos fundamentais.

REDAÇÃO: No livro, você aborda o conceito de "exercício legítimo do poder". O que define essa legitimidade para Cícero?

AURÉLIO TADEU: Os ensinamentos de Cícero sobre política e direito são interessantes porque reúnem a preocupação de observar a lei e a moral — algo que foi sendo esquecido na Idade Moderna até a Segunda Guerra Mundial, para ser resgatado pela filosofia pós-positivista dos juristas que tinham de lidar com problemas de fundamento imoral de legislações segregacionistas de regimes totalitários. Então, para Cícero, a legitimidade envolve a observância das leis eleitorais (ou seja, o cidadão atender aos requisitos para ser eleito) e a aptidão moral para exercer o cargo.

REDAÇÃO: Qual a importância da alternância de poder e por que Cícero a defendia com tanto afinco?

AURÉLIO TADEU: As instituições romanas tinham a característica da temporalidade do exercício dos cargos, muito parecida com as instituições das cidades-estado gregas. Assim, a alternância de poder evitava abusos e a perpetuação de práticas de má gestão, fosse por condutas criminosas, fosse por inaptidão. Cícero defendia a alternância com afinco porque isso garantia a maior chance de que a "coisa pública" (res publica) fosse comandada do melhor modo possível pelo maior tempo.

REDAÇÃO: Como o conceito de "decoro" exigido dos homens públicos na Antiguidade pode servir de crítica ao comportamento político nas redes sociais hoje?

AURÉLIO TADEU: Esse é um dos paralelos mais provocativos do livro, embora a distância temporal e tecnológica dos conceitos seja imensa. O decoro na Antiguidade estava ligado inclusive a aspectos religiosos, desde respeitar os augúrios e os limites de atuação perto dos templos até o que se podia fazer em certos dias e épocas. Hoje, as regras de decoro se limitam a estipular comportamentos mínimos que beiram a seara criminal. Quando pensamos nas redes sociais hoje, nota-se que não há o menor pudor em publicar e espalhar mentiras sobre acontecimentos, pessoas, legislações e instituições. Numa época em que o decoro exigia dos homens públicos presteza em lidar com ameaças de vida e morte, reverência aos deuses e respeito às regras que evitavam o abuso, a crítica é muito forte para quem busca apenas "lacrar" na internet sem entender as consequências de seus atos, que trazem desprestígio às instituições e instabilidade política e social.

REDAÇÃO: Cícero viveu o colapso da República e a ascensão de figuras autoritárias. O que ele nos ensina sobre a fragilidade das instituições?

AURÉLIO TADEU: Um dos principais ensinamentos é de que as instituições são criadas e destruídas pelos homens. São criadas por homens de visão e valor que tentam estabelecer condições mínimas benéficas ao seu povo, como os primeiros reis romanos e, depois, os decênviros que criaram a Lei das Doze Tábuas. No entanto, quando o povo perde a confiança naqueles que governam, as instituições deixam de representá-lo e o colapso vem, seja pela pressão popular, seja pelo oportunismo de quem governa.

REDAÇÃO: A retórica muitas vezes é vista hoje como "vazia" ou manipuladora. Como Cícero a unia à ética para que ela servisse ao bem comum?

AURÉLIO TADEU: Cícero via a retórica como o conhecimento que permitia a persuasão legítima dos demais cidadãos, sem truques, de modo semelhante aos gregos, que respeitavam a arte retórica e abominavam os sofismas. Portanto, a retórica deveria ser usada dentro das balizas da virtude moral e para o bem comum, que são limites constantemente referidos na obra de Cícero.

REDAÇÃO: No livro, o leitor encontra discussões sobre a divisão de funções do Estado. Como isso antecipa o que conhecemos hoje como os Três Poderes?

AURÉLIO TADEU: Pode-se dizer que havia a preocupação de limitar o exercício do poder político por uma única pessoa. Quando Cícero trata dos diversos cargos das magistraturas romanas, ele defende que o exercício independente deles garante a participação das diversas classes na condução da coisa pública, trazendo estabilidade e evitando o arbítrio. Essa divisão de atribuições foi resgatada por pensadores da Idade Moderna, como John Locke e Montesquieu, e contribuiu para a elaboração da teoria dos três poderes.

REDAÇÃO: O que significa, na visão ciceroniana, o respeito às instituições em um momento de desconfiança generalizada?

AURÉLIO TADEU: O respeito às instituições deriva não apenas da observância das leis, mas também da deferência ao passado e aos costumes dos antepassados (mos maiorum). As crises enfrentadas por Roma se relacionavam com a perda da identidade com as tradições, fosse pelo grande afluxo de imigrantes que não conheciam os costumes romanos, fosse pela ampliação territorial que levava os próprios romanos a abandonar seus hábitos. Para Cícero, o resgate dessa ordem moral era o único caminho para evitar a tirania.

REDAÇÃO: Sobre a liberdade: para Cícero, ela é apenas a ausência de um senhor ou exige algo mais do cidadão?

AURÉLIO TADEU: A liberdade, nas lições de Cícero, exige a ausência de sujeição a outro homem, mas também a capacidade de usar a razão e exercitar a virtude. Não se fala de liberdade para fazer o que bem se entende, mas de uma liberdade para empregar as próprias capacidades tendo em vista o bem individual e o bem comum da cidade.

REDAÇÃO: A igualdade perante a lei era um tema central. Como ele equilibrava esse ideal com a estrutura social romana?

AURÉLIO TADEU: A estrutura social romana seguia o padrão da Antiguidade, no qual se admitia a escravidão e o status de "quase cidadão". A igualdade era equilibrada ao se considerar que cada estrutura social detinha prerrogativas e deveres, tratando-se os desiguais de forma desigual, dentro da proporcionalidade. É algo que se faz hoje em dia, de forma inversa, quando se fala em ações afirmativas. Era o tipo de pensamento que permitia a teorização e o exercício de direitos em sociedades com muitas disparidades.

REDAÇÃO: Como a morte trágica de Cícero selou o seu legado como mártir da República?

AURÉLIO TADEU: Cícero foi morto por ser inimigo de Marco Antônio e porque atrapalhava os planos dele e de Otávio Augusto de centralizar o poder. Mesmo tendo sido preceptor de Otávio, na esperança de influenciar o futuro da República e talvez adiar sua derrocada, ele não teve sucesso em sobreviver em meio a tantos tumultos e acabou perdendo a vida. Sua morte tornou-se o símbolo do fim da liberdade de expressão e do Senado livre.

REDAÇÃO: Por que a redescoberta de seus manuscritas foi tão vital para o Renascimento e para a formação do pensamento ocidental?

AURÉLIO TADEU: As obras de Cícero foram relevantes para o Renascimento porque continham não só registros do pensamento romano, mas o resultado da propagação e discussão do pensamento grego. Eram obras que tratavam de conceitos filosóficos, políticos, jurídicos e históricos de maneira integrada, permitindo entender o modo como os antigos compreendiam seu mundo de forma enriquecedora.

REDAÇÃO: Na obra, você menciona o "viver o básico" na política. O que seria o básico essencial que esquecemos de cobrar de nossos governantes?

AURÉLIO TADEU: O "viver o básico" seria pensar no bem comum dos cidadãos e manter a ética na condução da coisa pública. Ou seja: fazer o bem ao maior número de pessoas e ser honesto. Acabamos esquecendo de cobrar isso porque ficamos envolvidos com disputas de personalidades e ideologias cujas ameaças estão distantes da realidade, servindo apenas para ganhos eleitorais de poucos.

REDAÇÃO: Como a fiscalização dos atos públicos, defendida por ele, se traduz em ferramentas de transparência na era digital?

AURÉLIO TADEU: A fiscalização de atos públicos era uma grande preocupação dos antigos. Por essa razão, dividiam-se as prerrogativas dos cargos e existiam os "censores", responsáveis por fiscalizar a obediência aos costumes. Cícero defende que as atribuições dos censores sejam ampliadas para que façam verdadeiras investigações sobre os magistrados ao final de seus mandatos, para que prestem contas de tudo o que fizeram. Hoje, a transparência digital facilita a fiscalização, embora ela ainda seja restrita a poucos interessados ou a quem tem meios de cruzar dados. Acredito que ainda falta clareza para que o setor público preste contas de forma que a fiscalização seja acompanhada de perto por mais cidadãos.

REDAÇÃO: Cícero acreditava que a filosofia deveria ser "útil". Como o livro transforma conceitos densos em algo fluido e leve para o leitor?

AURÉLIO TADEU: A ideia de Cícero é transmitir uma filosofia prática, que oriente quem deseja exercer sua virtude. Em sua obra "Dos Deveres", escrita a seu filho, ele aponta o tempo todo o caminho certo a seguir. Tentei elaborar, na entrevista ficcional, um diálogo que expusesse tais orientações, embora mais voltadas para a condução do Estado.

REDAÇÃO: Qual o papel da justiça na manutenção de uma república saudável segundo o autor romano?

AURÉLIO TADEU: A Justiça garante a paz social, a observância dos costumes e a defesa dos direitos. Não haveria República sem leis — sejam escritas ou costumeiras — e também não haveria República sem quem as fizesse observar.

REDAÇÃO: Como lidar com o ceticismo de quem acha que um autor de dois mil anos atrás não tem nada a dizer sobre a política moderna?

AURÉLIO TADEU: Esse ceticismo pode ser combatido de muitas maneiras. A principal é o fato de os problemas humanos se manterem idênticos: os homens continuam buscando formas justas de se organizar e têm de lidar com falhas de caráter, instituições corruptíveis e governantes que buscam oprimir o povo. As ideias de autores antigos permitem ver as soluções tentadas e sugerir abordagens que podem ser adaptadas.

REDAÇÃO: O que o livro revela sobre a relação entre ética privada e vida pública?

AURÉLIO TADEU: Para os povos antigos, a esfera privada se confundia com a atuação pública. Os ensinamentos de Cícero refletem essa relação estreita. Não há bom gestor público que não observe as leis e os costumes em sua conduta pessoal.

REDAÇÃO: Cícero era um "homo novus". Como sua origem influenciou sua defesa da meritocracia e das instituições republicanas?

AURÉLIO TADEU: Cícero foi um "homem novo" que pôde integrar o Senado após as reformas de Mário e Sila. Ele era um produto das mudanças que visavam aumentar a participação política. Garantir a participação de diversas classes e assegurar que homens virtuosos e capazes assumissem as altas magistraturas era sua preocupação principal para o bem geral da República.

REDAÇÃO: Existe uma "vocação para o sofrimento" político em sociedades desiguais que Cícero já conseguia identificar em seu tempo?

AURÉLIO TADEU: Acredito que essa vocação se expressava na preocupação constante com as revoltas populares. As grandes desigualdades econômicas geravam insegurança, e esse temor levava à busca por líderes cada vez mais fortes e carismáticos para aplacar as paixões da multidão — o que, em si, era um perigo para as leis e costumes republicanos.

REDAÇÃO: Como o conceito de Consensus Omnium (consenso de todos) pode ajudar a reduzir a polarização atual?

AURÉLIO TADEU: Cícero defendia que a República dependia de boas leis, homens honestos e concórdia (concordia ordinum). A polarização atual é alimentada por incertezas e serve como arma de campanha que empobrece o debate ao rotular pessoas. Quando percebemos que todos desejam o básico — viver dignamente, ter suas crenças respeitadas e segurança —, a política retoma rumos virtuosos. O consenso consistiria nessa "pisada no freio" do pensamento acrítico alimentado pelo ódio.

REDAÇÃO: O livro propõe uma conversa direta com Cícero. Qual foi o maior desafio de "dar voz" a ele respeitando o rigor histórico?

AURÉLIO TADEU: O maior desafio é respeitar o legado sem distorcer os ensinamentos com base no que aconteceu posteriormente. Nós sabemos onde ele falhou e onde acertou, então podemos fazer provocações, mas sem alterar a essência das avaliações feitas pelo autor em seu tempo.

REDAÇÃO: Como a sabedoria ciceroniana ajuda o cidadão comum a não se sentir "perdido em meio a tantas notícias"?

AURÉLIO TADEU: Cícero defende um caminho ético. Hoje, o excesso de informação confunde e desorienta. Saber que o exercício da virtude e a busca do bem comum são os nortes para uma vida feliz é o primeiro passo para se manter em um caminho de retidão.

REDAÇÃO: De que maneira a retórica de Cícero pode ser usada hoje para combater a desinformação e as fake news?

AURÉLIO TADEU: Os valores da arte retórica continuam úteis. A defesa da integridade moral, da honra e do respeito às leis pode ordenar o pensamento crítico de quem procura a verdade dos fatos hoje em dia.

REDAÇÃO: O autor via a política como a "arte suprema". Por que perdemos essa visão elevada e como podemos recuperá-la?

AURÉLIO TADEU: A política se distanciou dos cidadãos; o crescimento populacional tornou a democracia algo quase cerimonial. Ela passou a ser vista como algo reservado a elites que conservam o poder a qualquer custo. Para recuperar essa visão, é necessário difundir a noção de que a política é essencial para a garantia de direitos e para a promoção do bem comum.

REDAÇÃO: Qual a lição mais urgente que Cícero deixaria para os jovens que estão ingressando na vida pública hoje?

AURÉLIO TADEU: Que respeitem os costumes e as tradições, evitando arroubos e a incitação da turba para ganhos pessoais, pois isso não traz grandeza, apenas tumulto e destruição.

REDAÇÃO: O livro não pretende esgotar a obra ciceroniana. Quais caminhos ele abre para quem deseja se aprofundar no pensamento democrático?

AURÉLIO TADEU: O livro é uma introdução. Espero instigar os leitores a buscarem as obras originais, que são riquíssimas. Ele permite ver o que os modernos, como os fundadores da democracia americana, francesa e inglesa, aproveitaram do pensamento clássico.

REDAÇÃO: Recado final: Por que a defesa da República é, em última análise, a defesa da nossa própria humanidade?

AURÉLIO TADEU: A defesa da República depende da integridade das pessoas. Defender a República é consequência de escolhas pessoais de não se deixar corromper, o que leva à preservação da cooperação e da sobrevivência de todos — ou seja, da nossa própria humanidade.

O Encontro entre a Ciência e a Alma: Uma Entrevista Exclusiva com Lua

Imagem: Acervo Pessoal / Divulgação

Em um mundo que corre contra o relógio, onde o silêncio é luxo e o cansaço parece ser o novo normal, surge uma voz que nos convida a desacelerar e olhar para dentro. No Post Literal de hoje, temos a honra de conversar com Lua, uma autora que decidiu romper as barreiras acadêmicas para falar sobre o que realmente importa: a nossa humanidade.

Em sua obra mais recente, Lua propõe algo audacioso e, ao mesmo tempo, profundamente acolhedor. Ela costura a precisão da Neurociência, a vastidão da Física Quântica e a sensibilidade da Psicanálise em uma única narrativa, provando que a ciência não precisa ser fria para ser exata.

Mas a teoria é apenas uma parte da história. O que torna este diálogo especial é a sua raiz: a sabedoria ancestral herdada de sua avó à sombra de um pé de mexerica e a coragem de transformar cicatrizes — como o abuso narcisista e a depressão — em ferramentas de cura para outros.

Nesta entrevista, mergulhamos nos conceitos de liberdade emocional, neuroplasticidade e no poder invisível das nossas intenções. Prepare-se para uma conversa que vai muito além dos consultórios e laboratórios; é um guia para quem busca entender que a cura não é um destino final, mas uma travessia contínua e gentil.

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Confira a entrevista completa abaixo:

REDAÇÃO: Lua, seu livro propõe uma convergência de saberes. Como foi o desafio de unir Psicanálise, Física Quântica e Neurociência em uma única obra voltada para o público leigo?

LUA: Foi um desafio bonito. Eu não quis escrever para especialistas, quis escrever para pessoas. A Psicanálise me deu a escuta da alma, a Neurociência me trouxe a compreensão do cérebro, e a Física Quântica me ajudou a entender que tudo é relação, energia e intenção. Meu trabalho foi traduzir isso para o cotidiano, para a mãe cansada, para quem sofre calado, para quem nunca entrou num consultório. Meu compromisso sempre foi tornar o complexo simples, sem perder a profundidade.

REDAÇÃO: Você afirma que a saúde mental não é apenas individual, mas um compromisso coletivo. Como a sociedade brasileira pode evoluir para acolher melhor essa ideia?

LUA: Porque ninguém adoece sozinho. A saúde mental nasce no vínculo, no olhar, no acolhimento. A sociedade brasileira evolui quando para de romantizar o sofrimento e começa a investir em escuta real nas escolas, nas famílias, nos bairros e no trabalho. Saúde mental não é luxo, é base.

REDAÇÃO: Sua avó, Anália Dalefe, é citada como sua primeira terapeuta. O que o "viver o básico" à sombra de um pé de mexerica ensina sobre a cura que os consultórios luxuosos às vezes ignoram? 

LUA: Ensina que a cura não mora apenas em salas brancas e poltronas caras. Mora no afeto, na presença e no silêncio compartilhado. À sombra daquele pé de mexerica, aprendi que ser visto, ouvido e amado regula mais o sistema nervoso do que muitas técnicas. O básico salva.

REDAÇÃO: Você menciona ter enfrentado "vozes sombrias" e depressão. Como a voz da sua avó no seu inconsciente serviu de âncora nesses momentos críticos? 

LUA: A voz dela virou meu porto interno. Quando tudo escurecia, eu lembrava das palavras simples e do jeito como ela segurava a minha mão. Aquilo virou um recurso interno. Às vezes a gente sobrevive porque alguém acreditou em nós antes de nós mesmos.

REDAÇÃO: O livro define saúde mental como um estado de bem-estar emocional, psicológico e social. Por que ainda existe o mito de que ela é apenas a "ausência de doenças"? 

LUA: Porque fomos ensinados a olhar só para sintomas. Saúde mental é qualidade de vínculo, de vida e de presença. Você pode não ter diagnóstico algum e, ainda assim, estar profundamente adoecido por abandono, excesso de cobrança ou solidão.

REDAÇÃO: Na sua visão, como a química do corpo afeta diretamente a forma como sentimos o mundo ao nosso redor? 

LUA: Nosso corpo conversa o tempo todo com a mente. Hormônios, neurotransmissores, sono e alimentação moldam nossa percepção da realidade. Quando a química está em desequilíbrio, o mundo parece mais pesado. Cuidar do corpo também é cuidar da alma.

REDAÇÃO: Você cita a arte como uma janela para a complexidade da mente. Como os desenhos realistas de sua filha Lívia exemplificam essa liberdade de expressão? 

LUA: A Lívia desenha o que sente. Nos traços dela existe presença, verdade e liberdade. A arte permite expressar o que ainda não tem palavras. É um portal direto do inconsciente para o mundo.

REDAÇÃO: A espiritualidade é tratada no livro como uma busca por significado. Qual a diferença entre ter uma religião e cultivar uma saúde espiritual? 

LUA: Religião é estrutura. Saúde espiritual é experiência. É sentir pertencimento, propósito e conexão com algo maior, independente do nome que se dê a isso.

REDAÇÃO: Você critica frases como "é só uma fase" ou "basta pensar positivo". Por que esse tipo de abordagem é prejudicial para quem sofre? 

LUA: Porque invalida a dor. Quem sofre não precisa de frases prontas, precisa de presença. Esse tipo de fala ensina a engolir sentimentos, e isso adoece ainda mais.

REDAÇÃO: Sobre a realidade brasileira: por que o estigma ainda impede que milhões busquem ajuda profissional?

LUA: Medo de julgamento, falta de informação e acesso limitado. Ainda tratamos terapia como fraqueza, quando, na verdade, é coragem.

REDAÇÃO: Como a desigualdade de acesso à terapia no Brasil molda as diferentes "vocações" de sofrimento nas comunidades carentes? 

LUA: Nas periferias, o sofrimento vira sobrevivência. Sem acesso, a dor vira sintoma físico, violência, vício ou silêncio. Cada território cria sua própria forma de gritar.

REDAÇÃO: Você menciona o trabalho de palhaços em hospitais. Como o riso pode ser uma ferramenta de neuroplasticidade na prática? 

LUA: O riso ativa circuitos de recompensa, libera dopamina e oxitocina, criando novas associações emocionais. Ele ensina ao cérebro que ainda existe vida mesmo em meio à dor.

REDAÇÃO: No campo da Psicanálise, você explica o conceito de "transferência". Como identificamos sentimentos passados sendo projetados em nossas relações atuais? 

LUA: Quando reagimos ao outro como se ele fosse alguém do passado. Uma autoridade vira pai, um parceiro vira mãe. Percebemos isso quando nossas reações são maiores que a situação presente.

REDAÇÃO: O inconsciente é comparado a um mar profundo. Como o medo de mergulhar nessas águas gera a "resistência" que trava a nossa evolução? 

LUA: Porque dói olhar para dentro. A resistência é o medo de tocar feridas antigas. Mas só atravessando essas águas encontramos partes esquecidas de nós.

REDAÇÃO: Freud interpretava sonhos como símbolos. Como um sonho de estar perdido em uma floresta pode revelar o estado emocional de um paciente?

LUA: Revela sensação de desorientação, ansiedade e perda de direção. O sonho traduz em imagens aquilo que o consciente ainda não consegue nomear.

REDAÇÃO: Como as ideias de Jung e o inconsciente coletivo expandem a visão limitada de que nossos problemas são apenas "nossos"? 

LUA: Jung mostra que carregamos histórias familiares e coletivas. Muitas dores não começaram em nós, apenas continuaram.

REDAÇÃO: Lacan enfatizava a linguagem. Como as palavras que escolhemos para descrever nossa dor podem, na verdade, nos manter presos a ela? 

LUA: Porque repetir a mesma narrativa reforça o mesmo lugar psíquico. As palavras podem virar cárcere ou ponte.

REDAÇÃO: Você narra o caso de uma paciente que vivia em uma "casa de janelas fechadas". O que o ato de abrir as janelas significou terapeuticamente? 

LUA: Foi deixar a vida entrar. Sair do enclausuramento emocional e permitir luz, ar e novas possibilidades internas.

REDAÇÃO: "A vida é como um espelho". Por que repetimos padrões familiares mesmo quando isso nos faz sofrer? 

LUA: Porque o amor aprendido vira modelo. Repetimos o conhecido até termos consciência suficiente para escolher diferente.

REDAÇÃO: Na Física Quântica, você fala que a observação altera o objeto. Como a nossa intenção pode mudar a melodia da nossa vida? 

LUA: Quando mudamos o foco, mudamos o campo. A intenção direciona escolhas, atitudes e estados internos.

REDAÇÃO: Nossas emoções carregam energia. Como um estado de gratidão altera a nossa "frequência quântica"? 

LUA: A gratidão tira o corpo do modo sobrevivência e o leva para o modo presença. Isso muda nossa forma de responder ao mundo.

REDAÇÃO: O córtex pré-frontal é o maestro cerebral. Como ele regula impulsos? 

LUA: Ele é responsável pelo autocontrole, pela tomada de decisões e pela capacidade de pensar antes de agir. É o córtex pré-frontal que nos permite sair do automático, avaliar consequências, regular emoções intensas e escolher respostas mais conscientes em vez de reações impulsivas. Quando ele está bem estimulado, conseguimos respirar, pausar e agir com mais clareza, mesmo diante de situações desafiadoras.

REDAÇÃO: Qual o papel da amígdala? 

LUA: É nosso radar de perigo. Em traumas, pode ficar hiperativada.

REDAÇÃO: E o hipocampo?

LUA: Organiza memórias e transforma experiências em aprendizado.

REDAÇÃO: Por que traumas permanecem? 

LUA: Porque o trauma não fica só na memória; ele fica no corpo e no sistema emocional. Como sobrevivente do narcisismo, aprendi que o cérebro passa a viver em modo alerta permanente, sempre esperando o próximo ataque, a próxima rejeição ou invalidação. Mesmo quando o perigo já passou, o corpo continua reagindo como se ainda estivesse acontecendo. O trauma permanece porque fomos condicionados a sobreviver, não a sentir segurança. A cura começa quando ensinamos ao corpo, pouco a pouco, que agora é diferente.

REDAÇÃO: Como funciona a neuroplasticidade? 

LUA: Com repetição consciente. O cérebro aprende o que praticamos.

REDAÇÃO: Como é o transe hipnótico? 

LUA: Um estado de foco profundo e relaxamento com plena consciência.

REDAÇÃO: Como a hipnose ajuda no medo de palco? 

LUA: A hipnose ajuda a ressignificar experiências passadas ligadas ao medo, diminuindo a ansiedade antecipatória e treinando o cérebro para associar o palco à segurança em vez de à ameaça. A pessoa passa a acessar estados de calma, ganha uma nova percepção sobre si mesma e sobre a situação, fortalecendo a autoconfiança. Aos poucos, o corpo deixa de reagir com pânico e aprende que se expressar também pode ser um lugar de potência.

REDAÇÃO: O que motivou o grupo sobre mães narcisistas? 

LUA: Minha própria história. Sou sobrevivente e quis que ninguém atravessasse isso sozinho.

REDAÇÃO: Impactos desse abuso? 

LUA: O abuso narcisista deixa marcas profundas e silenciosas. Ele afeta a autoestima, cria confusão emocional, gera hipervigilância e uma sensação constante de não ser suficiente. Muitas pessoas crescem aprendendo a se adaptar ao outro para sobreviver, perdendo a própria identidade no caminho. Como sobrevivente, vejo que os impactos mais comuns são dificuldade de confiar, medo de abandono, culpa excessiva, ansiedade, tendência a relações abusivas e um vazio interno que só começa a ser preenchido quando a pessoa se reconecta com quem ela realmente é.

REDAÇÃO: Como reconhecer laços tóxicos? 

LUA: Quando há competição, desvalorização e falta de apoio.

REDAÇÃO: O que é liberdade emocional? 

LUA: Liberdade emocional é a capacidade de sentir sem se prender ao medo, à culpa ou à aprovação alheia. É escolher como reagir às situações, sem que velhos padrões ou traumas determinem nossas emoções. Para mim, é poder colocar limites, sentir alegria, tristeza ou raiva, e ainda assim permanecer conectada com quem sou de verdade. É respirar e perceber que a sua vida emocional te pertence, não precisa ser ditada por ninguém.

REDAÇÃO: Por que sentimos culpa ao dizer não? 

LUA: Porque fomos ensinados desde cedo que agradar aos outros é necessário para sobreviver, principalmente quando crescemos em ambientes narcisistas. Dizer "não" ativa um medo de rejeição ou abandono, mesmo quando estamos protegendo nosso bem-estar. A culpa é um reflexo desse condicionamento, mas, com consciência e prática, podemos aprender que estabelecer limites é um ato de amor-próprio, não de egoísmo.

REDAÇÃO: Radiestesia ajuda como? 

LUA: A radiestesia é como uma escuta sensível do nosso campo energético. Ela nos mostra bloqueios, padrões repetitivos e emoções reprimidas que muitas vezes não conseguimos perceber conscientemente. Ao identificar essas áreas de desequilíbrio, podemos trabalhar sobre elas com intenção e cuidado, acelerando processos de cura e trazendo maior clareza sobre nossas escolhas e sentimentos.

REDAÇÃO: Hipnose + energia? 

LUA: Quando integramos hipnose e trabalho energético, tratamos tanto a mente quanto o corpo emocional. A hipnose ajuda a ressignificar experiências e mudar padrões internos, enquanto a energia equilibra bloqueios e harmoniza o campo vibracional. Juntas, essas abordagens potencializam a cura, permitindo que a transformação aconteça de dentro para fora, com mais leveza e consciência.

REDAÇÃO: Fé da sua avó Fernanda?

LUA: A fé da minha avó foi um guia silencioso que me ensinou sobre perdão, paciência e resiliência. Mesmo após anos de afastamento e mágoas, a fé dela abriu espaço para reconstruir vínculos e restaurar afetos. Aprendi que a fé não é só acreditar, mas agir a partir de confiança, esperança e conexão com algo maior que nós mesmos.

REDAÇÃO: Diário emocional? 

LUA: Escrever um diário emocional é como colocar luz sobre o que está dentro da gente. Colocar sentimentos no papel ajuda a organizar pensamentos, identificar padrões, aliviar a tensão e compreender reações que antes pareciam confusas. É uma ferramenta de autoconhecimento que transforma o caos em clareza e nos ensina a olhar para nós mesmos com mais gentileza.

REDAÇÃO: Quadro de visão? 

LUA: O quadro de visão é uma representação visual dos nossos objetivos, sonhos e intenções. Ele ajuda o cérebro a reconhecer possibilidades, manter o foco e criar conexões neurais que favorecem ações alinhadas com nossas metas. Ver diariamente imagens e palavras que representam onde queremos chegar reforça a confiança, a motivação e a clareza sobre nossos desejos mais profundos.

REDAÇÃO: Mantra pessoal? 

LUA: Um mantra é uma frase ou palavra que se torna uma âncora interna. Repeti-lo fortalece nossa atenção, reduz a ansiedade e nos conecta a um estado de calma e presença. Por exemplo, dizer “a paz está em mim” ajuda a mente a se desviar de pensamentos acelerados e cria uma sensação de segurança e equilíbrio emocional. Com a prática, ele se torna um recurso que podemos acessar sempre que precisamos.

REDAÇÃO: Recado final? 

LUA: Você não está quebrado, está em processo. Cada peça do seu quebra-cabeça interno aparece no tempo certo, quando você se permite sentir, olhar para si mesmo e cuidar da própria história. Seja gentil consigo, mesmo diante da dor e dos erros. A cura não é um destino, é uma travessia, e cada passo, por menor que pareça, é transformação.

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