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"A raiva é um combustível essencial para a lucidez": Uma entrevista com Clara sobre o romance Altiva

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: Acervo pessoal / divulgação

O que resta de uma vida quando ela atravessa quase um século? Para a escritora Clara, a resposta não está apenas nos grandes marcos históricos, mas nas minúcias do cotidiano, no "sorriso maroto" e até na raiva que serve como motor para a longevidade. Em seu novo romance, Clara transforma sua avó, Altiva — uma mulher de 98 anos que desafia o tempo com agachamentos e uma lucidez cortante —, em uma protagonista que foge dos estereótipos da "velhinha doce". Nesta entrevista, mergulhamos nos bastidores de uma obra que é, ao mesmo tempo, um resgate familiar e um manifesto sobre a autonomia narrativa das mulheres de outrora.

Imagem: Colegam digital

REDAÇÃO: Clara, sua obra apresenta Altiva, uma mulher de 95 anos extremamente lúcida e ativa. Como foi o processo de transformar essa figura real em uma protagonista de romance?

CLARA: Bom, eu já estava escrevendo um romance sobre um casal que se conhece em um spa e sofre uma separação inesperada e abrupta, que restringe o relacionamento deles a apenas uma noite juntos. Enquanto eu terminava de escrever, percebi que seria capaz de chegar ao final e que, mesmo sendo um livro curto, continha muita informação sobre o onírico e passagens de vida que se comungam entre várias pessoas. Percebi que seria capaz de escrever o romance que minha avó tanto pedia desde minha adolescência. Pela primeira vez, me senti capaz de fazer um trabalho interessante sobre as histórias de vida dela, de forma poética e engraçada, não levando tão a sério os regimentos arcaicos de uma senhora de (agora) 98 anos. Quanto a trazer essa avó lúcida e ativa, não sei bem se é verdadeiro. Afinal, depende do referencial…

REDAÇÃO: O livro é narrado por Altiva, mas observado sob o olhar da neta. Por que você escolheu essa dupla perspectiva para contar a história?

CLARA: Por acaso, na época da publicação, tive um ou dois encontros com pessoas importantes na minha trajetória literária que tentaram mostrar que minha avó não era uma figura "importante". Uma mulher um tanto subjugada pela família do marido e pouco escolarizada. No entanto, pensava que em nenhum romance existe essa prerrogativa de que a protagonista deva ser relevante dentro de algum meio artístico ou uma figura importante pelo seu trabalho — como uma advogada, médica, juíza, etc. Então, atendendo ao pedido de uma avó que seria esquecida em sua história afetiva e familiar, resolvi escrever como se fosse ela. Eu, que poderia ser filha, irmã ou bisneta…

REDAÇÃO: A sinopse menciona a "raiva cotidiana de quem foi traída" e o "excesso de zelo". Foi desafiador expor as falhas e sentimentos viscerais de uma figura familiar tão respeitada?

CLARA: Certamente; acho que foi o desafio mais difícil. Mostrar as diversas facetas de uma pessoa de 95 anos com tantos familiares próximos que pensam nela já como uma figura estática, pronta para ser a sombra que eles desejam. Tentei deixar a personagem ser de todo jeito e deixar, de certa forma, documentada uma espécie de defesa emotiva para os momentos de aridez e frieza, mostrando que, no entanto, muitas vezes esquecemos tantos carinhos demonstrados com a entrega da alma ao bem-estar dos outros.

REDAÇÃO: Altiva é descrita como alguém que une valores do passado e do presente. Como ela consegue manter a mente aberta para o futuro mesmo após quase um século de vida?

CLARA: Talvez seja pela forma com que ela vê a vida: sempre "de mal" com ela, com tantas reclamações e lembranças negativas, inclusive focando sempre no que falta. De certa forma, essa filosofia negativa a leva a ver o extremo oposto de maneira inteiramente contrária e anestésica, talvez, ou compensatória. Nesse equilíbrio, ela se sustentou bem positiva, dizendo que a cabeça estava muito boa até pelo menos os 97 anos, quando levou um tombo e precisou de cadeira de rodas. Hoje, com 98, ela anda um pouco cansada de viver; imagino que, relativamente, isso seja tardio. E a Altiva do romance continua existindo dentro dela, além de que, modestamente, consegui fazer um retrato amplo dessa senhora, abrangendo cada aspecto de informação sobre ela.

REDAÇÃO: O livro aborda o ato de "remoer uma história amorosa até o fim dos tempos". Você acredita que o perdão é necessário para chegar aos 95 anos com essa lucidez, ou a raiva também é um combustível?

CLARA: Quando vejo Altiva falando, e desde que escrevi esse romance, não tenho dúvida de que a raiva é um combustível essencial para a lucidez e a longevidade. Imagino que um excesso de lucidez pode vir a trazer uma úlcera ou problemas nervosos. Como um "assassinato por queima de arquivo", no caso daquele livro de Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, continuação do Ensaio sobre a Cegueira. Embora "queima de arquivo" seja uma interpretação minha sobre a mulher do médico, que se manteve enxergando durante toda a cegueira que assolou o "lugar". Não me lembro ao certo se o assassino também enxergava ou se a mataram quando voltaram a ver… Enfim, acho que sim, a raiva é um motor importante, embora saibamos que a raiva pura, com pouca razão ou com ausência de paciência, são coisas que não combinam. Precisamos do motor funcionando bem, de bancos confortáveis e diversas coisas para que o combustível nos leve longe.

REDAÇÃO: Qual a importância de registrar as tramas familiares sob uma visão singular do afeto, fugindo da idealização comum que temos dos nossos idosos?

CLARA: É muito comum idealizarmos nossos antepassados na tentativa de engrandecer nosso próprio ego. Mas, muitas vezes, não é muito real a imagem que temos, pois não houve uma convivência genuína entre os descendentes e os idosos. É fácil idealizar um avô ou uma avó e não conviver com eles — o que acontece principalmente quando perdem suas capacidades cognitivas ou motoras e os próprios netos pensam que não conseguiriam viver com tais comorbidades e preferem "ir antes". Se dão por vencidos, pensam: "não vou viver tanto assim, quero mais é aproveitar a vida e as coisas boas, mesmo que elas não promovam saúde". Isso é, de certa forma, uma visão singular também, de ver a vida de forma hedonista. Mas também imagino o caso contrário: avós que aproveitaram demais e acabaram indo cedo. Ficamos com uma idealização da juventude desses que muitas vezes mal chegam à terceira idade.

O fato é que a visão singular do afeto é o que traz para nossa história uma convivência com essas pessoas idosas que fazem parte da nossa família. Simplesmente sabendo dos entes idosos através de outros, pincelamos a juventude de um idoso com fama através de seus feitos e maledicências. O caso de Altiva é um romance que se pretende autobiográfico, porém, como não é contado através da própria, possui um caráter irônico e sarcástico que eleva o livro ao título de uma obra autêntica. Numa tentativa de atuar pela protagonista, a autora interpreta também no livro o que considera como algo sofrido com um ar poético e melancólico, típico dela própria em sua versão pós-madura.

REDAÇÃO: O "sorriso maroto" da avó é destacado na sinopse. Essa característica é o que humaniza a personagem diante das adversidades que ela narra?

CLARA: Sim. Achei essa expressão digna de nota, pois continha tudo o que não estava mais ali depois que ela se calava, entre uma pausa e outra das passagens de sua vida. Sempre repetindo as histórias mais "cabeludas" até suas totais digestões.

REDAÇÃO: Basear um romance em histórias reais exige um cuidado ético e emocional. Como sua família reagiu ao saber que essas memórias seriam publicadas?

CLARA: É verdade, João Vitor, é necessário, sim, muito cuidado ético e emocional. Principalmente ao escrever, pois depois que a obra está pronta, fazer mudanças é como uma reforma em Brasília. Ficaria tudo dividido em remessas do que precisava ser dito ou ouvido, o que não era o propósito do livro. Ele foi escrito para defender os sentimentos da minha avó em sua memória; preservar muitas memórias antigas que uma senhora de 95 anos possuía, mas, ao mesmo tempo, colocar uma pitada de pimenta — um tempero que eu estava disposta a dar, talvez por ter sido a neta mais presente e filha da filha que mais se importou com os pais e seus sentimentos.

Talvez a elaboração desses sentimentos fosse importante para todos da família, de certa forma, ou principalmente para mim, que me sentia extremamente grata a essa senhora que me pediu que escrevesse suas memórias. Respeitando tanto meu talento para escrever quanto minha capacidade de traduzi-la, de forma a estar numa memória abandonada e imaginada entre o passado do que se passou e uma perspectiva exclusiva da nossa personagem, que é, de certa forma, metade Altiva, metade Clara.

REDAÇÃO: Na sua visão, qual é o maior segredo da Altiva para conseguir fazer "até um agachamento" e manter o vigor físico e mental nessa idade?

CLARA: Para mim, o que mais ficou claro é a constância com que Altiva repete que a cabeça está muito boa. O fato de ela sempre ter evitado tomar medicamentos demais, buscando alternativas nutricionais, respeitando o relógio biológico tanto no sono quanto na hora das refeições. E, principalmente, a atividade constante de estar fazendo crochê, cozinhando (agora não mais), lavando louça e cuidando da casa como se fosse ela própria.

REDAÇÃO: A narrativa fala sobre dar importância a pequenas coisas. Como a escrita deste livro mudou a sua própria percepção sobre o que realmente importa na vida?

CLARA: Eu não sei explicar ao certo como tudo se deu, mas foi antes mesmo de receber os livros físicos da Viseu aqui em casa que encontrei meu atual marido; casamos e estamos agora com uma filha linda, que nasceu fruto desse amor imenso.

REDAÇÃO: Pressentimentos e intuição permeiam a trama. Você acredita que a sabedoria da mulher madura é, na verdade, um tipo de clarividência sobre a vida?

CLARA: Talvez essa sensação de idealização dos mais velhos acontecesse mais na infância. Acho que cresci acreditando muito nisso e acho que ainda existe uma parte que acredita. Quando, por exemplo, minha avó descobre algo complexo que eu pensei através de muito estudo e reflexão, parece que ela simplesmente tem um insight e entende aquilo, colocando em palavras coisas que eu ainda não havia conseguido. E, ao mesmo tempo, reconheço a dificuldade dela em escrever um bilhete para nós. É discrepante, às vezes, os saltos da inteligência de uma pessoa. Dizem que existem vários tipos de inteligência, e acredito nisso também; pressentimento e intuição podem, de fato, ser os lados mais inteligentes de Altiva, junto com seu equilíbrio e vontade de viver.

REDAÇÃO: Como você trabalhou a linguagem do livro para que a voz da Altiva soasse autêntica para o leitor, respeitando o tempo dela?

CLARA: Como eu disse, fiz um trabalho grande de incorporar Altiva dentro da Clara. Por incrível que pareça, minha avó sempre foi mais rápida do que eu — pelo menos para uma criança como eu era, parecia. Ela parecia fazer tudo: dar conta da casa, do crochê, do casamento, dos filhos… enquanto eu não conseguia nem terminar de preencher um caderno de caligrafia para mostrar a ela. Talvez o problema fosse querer mostrar só para ela… (risos). Vê-se que minha avó não foi uma pessoa tão admirada pelos seus feitos; foi uma mulher comum e, no entanto, foi idolatrada pelas netas, sim. Mas o trabalho do qual está falando realmente é outro: somar a idade de 95 anos com a rapidez da Clara atual e chegar a um consenso de repetição das histórias para que o livro não ficasse enfadonho e que sustentasse que se tratava da narrativa de Altiva aos 95 anos…

REDAÇÃO: O zelo excessivo é apontado como um "pecado" da personagem. Em que momento o cuidado com a família se torna um fardo para uma mulher como ela?

CLARA: Nesse ponto devo discordar. Em Altiva, faz parte esse zelo que ela tem pela família; sem ele, a personagem não ganha suas razões emocionais para querer tanto viver dessa forma — de remorso e mágoa, com o combustível da raiva, com sua ambiguidade entre atender a todos e estar chateada com a vida. De, durante um contar de história, soltar um sorriso maroto. A história desmorona sem o zelo da personagem pela família…

REDAÇÃO: Altiva é "detentora da própria história". O que essa autonomia narrativa representa para as mulheres da geração dela?

CLARA: Isso é uma das maiores conquistas de Altiva e o motivo pelo qual quis deixar registradas suas versões das histórias. Uma mulher centenária merece ser vangloriada pelo simples fato de ter sobrevivido neste mundo dos homens. E é sempre bom lembrar que, por trás de uma história, conhecem-se muitas outras parecidas e ocultadas por medo ou vergonha de si. Coisa que nossa personagem tem de sobra: coragem.

REDAÇÃO: Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez sobre sua avó (ou sobre a personagem) durante as entrevistas para o livro?

CLARA: Acho que o que mais me surpreendeu foi saber que meu avô teria pensado em sugerir um aborto na última filha — que é justamente a filha com quem ele teve mais mimo e carinho, a Lúcia Helena. Sempre pensei que ela tivesse sido muito desejada desde o início.

REDAÇÃO: O romance mescla sinceridade e veracidade. Existe algum limite entre o que é fato histórico e o que é liberdade poética na sua escrita?

CLARA: O romance possui uma espécie de "fórmula ativa". A forma como Clara designou que Altiva conta as histórias cria "a personagem", que se distingue da avó física em forma de texto. Os nomes e fatos são citados pela avó sem erro algum, fora alguma falha de memória improvável. Porém, fatos e nomes não evitam qualquer licença literária para que se fale com emoção no tocante às sensações das coisas em si. Quero dizer, do universal, do que tange à poética.

REDAÇÃO: Como você descreve a "paz de ter razão em seus sentimentos" que a personagem experimenta?

CLARA: Acredito que seja um lugar dentro da gente onde nos sentimos confortáveis, na medida em que nossas atitudes se justificam. Não apenas atitudes, mas também o entendimento de que o combustível "raiva" tem uma fonte de petróleo e que isso é algo próprio de cada um para se abastecer e viver em paz. Com as viagens internas às vezes até mais interessantes que as externas. Como já diria o Rei do Baião: "Pra me danar, por essa estrada mundo afora ir-me embora, sem sair do meu lugar."

REDAÇÃO: Para as gerações mais novas, o que o exemplo de Altiva tem a dizer sobre resiliência e a forma como lidamos com traições e decepções?

CLARA: Vemos que existe um ímpeto grande das gerações recentes em esperar pelo parceiro até que ele esteja preparado para o grande momento de casar e ter filhos. Muitas mulheres aguentam até hoje muita coisa. E, no fim, na maioria das vezes, acabam perdendo energia e tempo de vida em situações humilhantes. O fato de que, antigamente, essas traições eram ocultadas, de certa forma, remetia a um certo "respeito" (entre aspas) às mulheres com quem se casaram, deixando a "outra" numa posição de artista ou prostituta. Muitos olham pela perspectiva de que o amor verdadeiro é o das amantes, das que se entregam sem remorso, sem mágoa, sem ciúme — quase virgens de alma, quase inumanas. Talvez por isso muitas vezes sejam artistas; embora, no caso da arte, considero artista quem privilegia a importância da obra em vida e dedica a alma a isso, tendo que lidar com os amantes da vida como ser humano, não mais apenas como mulher.

No caso de Altiva, ela é uma "Maria-Ninguém", como cantava Elis Regina. Era uma mulher como outra qualquer que quis contar a perspectiva pouco explorada da mulher "oficial" e dedicada à família, que descobre na outra uma figura com quem nunca pôde contar.

REDAÇÃO: Escrever sobre o envelhecimento lúcido é uma forma de lutar contra o preconceito de idade (etarismo) na literatura?

CLARA: Na verdade, esta não é uma questão que eu tenha aplicado deliberadamente como pauta nesta obra.

REDAÇÃO: Para encerrar, Clara, se você pudesse resumir a essência da Altiva em uma única lição de vida para seus leitores, qual seria?

CLARA: Viva seus sentimentos mais sinceros e faça deles motivo para ser feliz e viver bem. Tenha uma cabeça boa, mantenha sua rotina e viva sua longevidade de forma plena. Quanto mais perto você estiver de si mesma, mais longe poderá ir.

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