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O Encontro entre a Ciência e a Alma: Uma Entrevista Exclusiva com Lua

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: Acervo Pessoal / Divulgação

Em um mundo que corre contra o relógio, onde o silêncio é luxo e o cansaço parece ser o novo normal, surge uma voz que nos convida a desacelerar e olhar para dentro. No Post Literal de hoje, temos a honra de conversar com Lua, uma autora que decidiu romper as barreiras acadêmicas para falar sobre o que realmente importa: a nossa humanidade.

Em sua obra mais recente, Lua propõe algo audacioso e, ao mesmo tempo, profundamente acolhedor. Ela costura a precisão da Neurociência, a vastidão da Física Quântica e a sensibilidade da Psicanálise em uma única narrativa, provando que a ciência não precisa ser fria para ser exata.

Mas a teoria é apenas uma parte da história. O que torna este diálogo especial é a sua raiz: a sabedoria ancestral herdada de sua avó à sombra de um pé de mexerica e a coragem de transformar cicatrizes — como o abuso narcisista e a depressão — em ferramentas de cura para outros.

Nesta entrevista, mergulhamos nos conceitos de liberdade emocional, neuroplasticidade e no poder invisível das nossas intenções. Prepare-se para uma conversa que vai muito além dos consultórios e laboratórios; é um guia para quem busca entender que a cura não é um destino final, mas uma travessia contínua e gentil.

Imagem: Arte digital

Confira a entrevista completa abaixo:

REDAÇÃO: Lua, seu livro propõe uma convergência de saberes. Como foi o desafio de unir Psicanálise, Física Quântica e Neurociência em uma única obra voltada para o público leigo?

LUA: Foi um desafio bonito. Eu não quis escrever para especialistas, quis escrever para pessoas. A Psicanálise me deu a escuta da alma, a Neurociência me trouxe a compreensão do cérebro, e a Física Quântica me ajudou a entender que tudo é relação, energia e intenção. Meu trabalho foi traduzir isso para o cotidiano, para a mãe cansada, para quem sofre calado, para quem nunca entrou num consultório. Meu compromisso sempre foi tornar o complexo simples, sem perder a profundidade.

REDAÇÃO: Você afirma que a saúde mental não é apenas individual, mas um compromisso coletivo. Como a sociedade brasileira pode evoluir para acolher melhor essa ideia?

LUA: Porque ninguém adoece sozinho. A saúde mental nasce no vínculo, no olhar, no acolhimento. A sociedade brasileira evolui quando para de romantizar o sofrimento e começa a investir em escuta real nas escolas, nas famílias, nos bairros e no trabalho. Saúde mental não é luxo, é base.

REDAÇÃO: Sua avó, Anália Dalefe, é citada como sua primeira terapeuta. O que o "viver o básico" à sombra de um pé de mexerica ensina sobre a cura que os consultórios luxuosos às vezes ignoram? 

LUA: Ensina que a cura não mora apenas em salas brancas e poltronas caras. Mora no afeto, na presença e no silêncio compartilhado. À sombra daquele pé de mexerica, aprendi que ser visto, ouvido e amado regula mais o sistema nervoso do que muitas técnicas. O básico salva.

REDAÇÃO: Você menciona ter enfrentado "vozes sombrias" e depressão. Como a voz da sua avó no seu inconsciente serviu de âncora nesses momentos críticos? 

LUA: A voz dela virou meu porto interno. Quando tudo escurecia, eu lembrava das palavras simples e do jeito como ela segurava a minha mão. Aquilo virou um recurso interno. Às vezes a gente sobrevive porque alguém acreditou em nós antes de nós mesmos.

REDAÇÃO: O livro define saúde mental como um estado de bem-estar emocional, psicológico e social. Por que ainda existe o mito de que ela é apenas a "ausência de doenças"? 

LUA: Porque fomos ensinados a olhar só para sintomas. Saúde mental é qualidade de vínculo, de vida e de presença. Você pode não ter diagnóstico algum e, ainda assim, estar profundamente adoecido por abandono, excesso de cobrança ou solidão.

REDAÇÃO: Na sua visão, como a química do corpo afeta diretamente a forma como sentimos o mundo ao nosso redor? 

LUA: Nosso corpo conversa o tempo todo com a mente. Hormônios, neurotransmissores, sono e alimentação moldam nossa percepção da realidade. Quando a química está em desequilíbrio, o mundo parece mais pesado. Cuidar do corpo também é cuidar da alma.

REDAÇÃO: Você cita a arte como uma janela para a complexidade da mente. Como os desenhos realistas de sua filha Lívia exemplificam essa liberdade de expressão? 

LUA: A Lívia desenha o que sente. Nos traços dela existe presença, verdade e liberdade. A arte permite expressar o que ainda não tem palavras. É um portal direto do inconsciente para o mundo.

REDAÇÃO: A espiritualidade é tratada no livro como uma busca por significado. Qual a diferença entre ter uma religião e cultivar uma saúde espiritual? 

LUA: Religião é estrutura. Saúde espiritual é experiência. É sentir pertencimento, propósito e conexão com algo maior, independente do nome que se dê a isso.

REDAÇÃO: Você critica frases como "é só uma fase" ou "basta pensar positivo". Por que esse tipo de abordagem é prejudicial para quem sofre? 

LUA: Porque invalida a dor. Quem sofre não precisa de frases prontas, precisa de presença. Esse tipo de fala ensina a engolir sentimentos, e isso adoece ainda mais.

REDAÇÃO: Sobre a realidade brasileira: por que o estigma ainda impede que milhões busquem ajuda profissional?

LUA: Medo de julgamento, falta de informação e acesso limitado. Ainda tratamos terapia como fraqueza, quando, na verdade, é coragem.

REDAÇÃO: Como a desigualdade de acesso à terapia no Brasil molda as diferentes "vocações" de sofrimento nas comunidades carentes? 

LUA: Nas periferias, o sofrimento vira sobrevivência. Sem acesso, a dor vira sintoma físico, violência, vício ou silêncio. Cada território cria sua própria forma de gritar.

REDAÇÃO: Você menciona o trabalho de palhaços em hospitais. Como o riso pode ser uma ferramenta de neuroplasticidade na prática? 

LUA: O riso ativa circuitos de recompensa, libera dopamina e oxitocina, criando novas associações emocionais. Ele ensina ao cérebro que ainda existe vida mesmo em meio à dor.

REDAÇÃO: No campo da Psicanálise, você explica o conceito de "transferência". Como identificamos sentimentos passados sendo projetados em nossas relações atuais? 

LUA: Quando reagimos ao outro como se ele fosse alguém do passado. Uma autoridade vira pai, um parceiro vira mãe. Percebemos isso quando nossas reações são maiores que a situação presente.

REDAÇÃO: O inconsciente é comparado a um mar profundo. Como o medo de mergulhar nessas águas gera a "resistência" que trava a nossa evolução? 

LUA: Porque dói olhar para dentro. A resistência é o medo de tocar feridas antigas. Mas só atravessando essas águas encontramos partes esquecidas de nós.

REDAÇÃO: Freud interpretava sonhos como símbolos. Como um sonho de estar perdido em uma floresta pode revelar o estado emocional de um paciente?

LUA: Revela sensação de desorientação, ansiedade e perda de direção. O sonho traduz em imagens aquilo que o consciente ainda não consegue nomear.

REDAÇÃO: Como as ideias de Jung e o inconsciente coletivo expandem a visão limitada de que nossos problemas são apenas "nossos"? 

LUA: Jung mostra que carregamos histórias familiares e coletivas. Muitas dores não começaram em nós, apenas continuaram.

REDAÇÃO: Lacan enfatizava a linguagem. Como as palavras que escolhemos para descrever nossa dor podem, na verdade, nos manter presos a ela? 

LUA: Porque repetir a mesma narrativa reforça o mesmo lugar psíquico. As palavras podem virar cárcere ou ponte.

REDAÇÃO: Você narra o caso de uma paciente que vivia em uma "casa de janelas fechadas". O que o ato de abrir as janelas significou terapeuticamente? 

LUA: Foi deixar a vida entrar. Sair do enclausuramento emocional e permitir luz, ar e novas possibilidades internas.

REDAÇÃO: "A vida é como um espelho". Por que repetimos padrões familiares mesmo quando isso nos faz sofrer? 

LUA: Porque o amor aprendido vira modelo. Repetimos o conhecido até termos consciência suficiente para escolher diferente.

REDAÇÃO: Na Física Quântica, você fala que a observação altera o objeto. Como a nossa intenção pode mudar a melodia da nossa vida? 

LUA: Quando mudamos o foco, mudamos o campo. A intenção direciona escolhas, atitudes e estados internos.

REDAÇÃO: Nossas emoções carregam energia. Como um estado de gratidão altera a nossa "frequência quântica"? 

LUA: A gratidão tira o corpo do modo sobrevivência e o leva para o modo presença. Isso muda nossa forma de responder ao mundo.

REDAÇÃO: O córtex pré-frontal é o maestro cerebral. Como ele regula impulsos? 

LUA: Ele é responsável pelo autocontrole, pela tomada de decisões e pela capacidade de pensar antes de agir. É o córtex pré-frontal que nos permite sair do automático, avaliar consequências, regular emoções intensas e escolher respostas mais conscientes em vez de reações impulsivas. Quando ele está bem estimulado, conseguimos respirar, pausar e agir com mais clareza, mesmo diante de situações desafiadoras.

REDAÇÃO: Qual o papel da amígdala? 

LUA: É nosso radar de perigo. Em traumas, pode ficar hiperativada.

REDAÇÃO: E o hipocampo?

LUA: Organiza memórias e transforma experiências em aprendizado.

REDAÇÃO: Por que traumas permanecem? 

LUA: Porque o trauma não fica só na memória; ele fica no corpo e no sistema emocional. Como sobrevivente do narcisismo, aprendi que o cérebro passa a viver em modo alerta permanente, sempre esperando o próximo ataque, a próxima rejeição ou invalidação. Mesmo quando o perigo já passou, o corpo continua reagindo como se ainda estivesse acontecendo. O trauma permanece porque fomos condicionados a sobreviver, não a sentir segurança. A cura começa quando ensinamos ao corpo, pouco a pouco, que agora é diferente.

REDAÇÃO: Como funciona a neuroplasticidade? 

LUA: Com repetição consciente. O cérebro aprende o que praticamos.

REDAÇÃO: Como é o transe hipnótico? 

LUA: Um estado de foco profundo e relaxamento com plena consciência.

REDAÇÃO: Como a hipnose ajuda no medo de palco? 

LUA: A hipnose ajuda a ressignificar experiências passadas ligadas ao medo, diminuindo a ansiedade antecipatória e treinando o cérebro para associar o palco à segurança em vez de à ameaça. A pessoa passa a acessar estados de calma, ganha uma nova percepção sobre si mesma e sobre a situação, fortalecendo a autoconfiança. Aos poucos, o corpo deixa de reagir com pânico e aprende que se expressar também pode ser um lugar de potência.

REDAÇÃO: O que motivou o grupo sobre mães narcisistas? 

LUA: Minha própria história. Sou sobrevivente e quis que ninguém atravessasse isso sozinho.

REDAÇÃO: Impactos desse abuso? 

LUA: O abuso narcisista deixa marcas profundas e silenciosas. Ele afeta a autoestima, cria confusão emocional, gera hipervigilância e uma sensação constante de não ser suficiente. Muitas pessoas crescem aprendendo a se adaptar ao outro para sobreviver, perdendo a própria identidade no caminho. Como sobrevivente, vejo que os impactos mais comuns são dificuldade de confiar, medo de abandono, culpa excessiva, ansiedade, tendência a relações abusivas e um vazio interno que só começa a ser preenchido quando a pessoa se reconecta com quem ela realmente é.

REDAÇÃO: Como reconhecer laços tóxicos? 

LUA: Quando há competição, desvalorização e falta de apoio.

REDAÇÃO: O que é liberdade emocional? 

LUA: Liberdade emocional é a capacidade de sentir sem se prender ao medo, à culpa ou à aprovação alheia. É escolher como reagir às situações, sem que velhos padrões ou traumas determinem nossas emoções. Para mim, é poder colocar limites, sentir alegria, tristeza ou raiva, e ainda assim permanecer conectada com quem sou de verdade. É respirar e perceber que a sua vida emocional te pertence, não precisa ser ditada por ninguém.

REDAÇÃO: Por que sentimos culpa ao dizer não? 

LUA: Porque fomos ensinados desde cedo que agradar aos outros é necessário para sobreviver, principalmente quando crescemos em ambientes narcisistas. Dizer "não" ativa um medo de rejeição ou abandono, mesmo quando estamos protegendo nosso bem-estar. A culpa é um reflexo desse condicionamento, mas, com consciência e prática, podemos aprender que estabelecer limites é um ato de amor-próprio, não de egoísmo.

REDAÇÃO: Radiestesia ajuda como? 

LUA: A radiestesia é como uma escuta sensível do nosso campo energético. Ela nos mostra bloqueios, padrões repetitivos e emoções reprimidas que muitas vezes não conseguimos perceber conscientemente. Ao identificar essas áreas de desequilíbrio, podemos trabalhar sobre elas com intenção e cuidado, acelerando processos de cura e trazendo maior clareza sobre nossas escolhas e sentimentos.

REDAÇÃO: Hipnose + energia? 

LUA: Quando integramos hipnose e trabalho energético, tratamos tanto a mente quanto o corpo emocional. A hipnose ajuda a ressignificar experiências e mudar padrões internos, enquanto a energia equilibra bloqueios e harmoniza o campo vibracional. Juntas, essas abordagens potencializam a cura, permitindo que a transformação aconteça de dentro para fora, com mais leveza e consciência.

REDAÇÃO: Fé da sua avó Fernanda?

LUA: A fé da minha avó foi um guia silencioso que me ensinou sobre perdão, paciência e resiliência. Mesmo após anos de afastamento e mágoas, a fé dela abriu espaço para reconstruir vínculos e restaurar afetos. Aprendi que a fé não é só acreditar, mas agir a partir de confiança, esperança e conexão com algo maior que nós mesmos.

REDAÇÃO: Diário emocional? 

LUA: Escrever um diário emocional é como colocar luz sobre o que está dentro da gente. Colocar sentimentos no papel ajuda a organizar pensamentos, identificar padrões, aliviar a tensão e compreender reações que antes pareciam confusas. É uma ferramenta de autoconhecimento que transforma o caos em clareza e nos ensina a olhar para nós mesmos com mais gentileza.

REDAÇÃO: Quadro de visão? 

LUA: O quadro de visão é uma representação visual dos nossos objetivos, sonhos e intenções. Ele ajuda o cérebro a reconhecer possibilidades, manter o foco e criar conexões neurais que favorecem ações alinhadas com nossas metas. Ver diariamente imagens e palavras que representam onde queremos chegar reforça a confiança, a motivação e a clareza sobre nossos desejos mais profundos.

REDAÇÃO: Mantra pessoal? 

LUA: Um mantra é uma frase ou palavra que se torna uma âncora interna. Repeti-lo fortalece nossa atenção, reduz a ansiedade e nos conecta a um estado de calma e presença. Por exemplo, dizer “a paz está em mim” ajuda a mente a se desviar de pensamentos acelerados e cria uma sensação de segurança e equilíbrio emocional. Com a prática, ele se torna um recurso que podemos acessar sempre que precisamos.

REDAÇÃO: Recado final? 

LUA: Você não está quebrado, está em processo. Cada peça do seu quebra-cabeça interno aparece no tempo certo, quando você se permite sentir, olhar para si mesmo e cuidar da própria história. Seja gentil consigo, mesmo diante da dor e dos erros. A cura não é um destino, é uma travessia, e cada passo, por menor que pareça, é transformação.

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