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“Inclusão não é opcional, é essencial à fé”: uma entrevista com Nelson H. B. Amaral

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: Acervo pessoal / Divulgação

Nas salas de ministério infantil pelo Brasil, um silêncio muitas vezes ensurdecedor revela uma lacuna na missão cristã: a invisibilidade de crianças autistas. Para o pedagogo e autor Nelson H. B. Amaral, a inclusão não deve ser vista como um "projeto especial" ou uma tarefa técnica, mas como a própria essência do chamado de Cristo. Nesta entrevista exclusiva, Nelson compartilha como sua trajetória na pedagogia e sua fé se entrelaçam para desafiar igrejas a transformarem mentalidades e estruturas. Mais do que adaptar espaços, ele nos convida a adaptar o olhar, enxergando em cada criança a imagem e semelhança de Deus.

Imagem: arte digital

TEMA: O AUTISMO NO MINISTÉRIO INFANTIL E A INCLUSÃO COMO CHAMADO CRISTÃO


REDAÇÃO: Nelson, o que motivou você a unir sua vivência pedagógica com a reflexão cristã para escrever especificamente sobre o autismo no ministério infantil? 

NELSON H. B. AMARAL: Minha motivação nasceu da percepção de que muitas crianças autistas são invisibilizadas, tanto no contexto educacional quanto no religioso. Como pedagogo e cristão, compreendi que a inclusão não é apenas uma prática pedagógica, mas uma expressão concreta do amor cristão. Escrever sobre o tema foi uma forma de unir conhecimento científico e compromisso espiritual.

REDAÇÃO: Em sua obra, você menciona que a inclusão é um “chamado”. Por que você acredita que muitas igrejas ainda hesitam em atender a essa convocação? 

NELSON H. B. AMARAL: Porque a inclusão exige mudanças profundas de mentalidade, estrutura e prática. Muitas igrejas ainda a veem como algo complexo ou secundário quando, na verdade, ela é parte essencial da missão cristã.

REDAÇÃO: Como os líderes de ministério infantil podem identificar o valor e o propósito de Deus em uma criança autista que apresenta dificuldades severas de comunicação? 

NELSON H. B. AMARAL: O valor de uma criança não está em sua capacidade de comunicação ou desempenho, mas em sua condição de ser humano criado por Deus. Quando os líderes aprendem a olhar além das limitações aparentes, percebem que cada criança possui potencial, identidade e propósito.

REDAÇÃO: Quais são os maiores mitos ou preconceitos que você ainda observa dentro das comunidades de fé em relação ao comportamento autista durante os cultos? 

NELSON H. B. AMARAL: Entre os principais mitos estão as ideias de que o comportamento autista é falta de disciplina, desobediência ou ausência de espiritualidade. Esses preconceitos revelam desconhecimento e reforçam a necessidade de formação e sensibilização.

REDAÇÃO: Do ponto de vista prático, qual é o primeiro passo para uma igreja que deseja ser inclusiva, mas não possui recursos financeiros ou infraestrutura adaptada? 

NELSON H. B. AMARAL: O primeiro passo é a mudança de mentalidade. A inclusão começa com atitude, não com estrutura. A escuta das famílias, a disposição para aprender e o compromisso com o acolhimento são fundamentais.

REDAÇÃO: Como equilibrar o ensino das doutrinas bíblicas com a necessidade de metodologias pedagógicas específicas para crianças com autismo? 

NELSON H. B. AMARAL: Não há conflito entre fé e pedagogia. Pelo contrário: metodologias adaptadas são instrumentos para que a mensagem bíblica seja compreendida por todas as crianças, respeitando suas particularidades.

REDAÇÃO: Na sua visão, como a postura do professor do ministério infantil influencia a recepção da família da criança autista na igreja? 

NELSON H. B. AMARAL: A postura do professor é decisiva. Quando ele demonstra empatia, respeito e preparo, a família se sente segura e pertencente à comunidade. O professor se torna a ponte entre a criança, a família e a igreja.

REDAÇÃO: Você cita a “verdadeira essência do Evangelho” como um amor que inclui. Onde a exclusão de crianças autistas mais fere essa essência? 

NELSON H. B. AMARAL: A exclusão fere o Evangelho quando nega o direito de pertencimento. Quando uma criança autista é afastada do convívio, a igreja deixa de testemunhar o amor inclusivo de Cristo.

REDAÇÃO: Como preparar as outras crianças do ministério infantil para acolherem seus colegas autistas com naturalidade? 

NELSON H. B. AMARAL: A educação para a diversidade deve ser intencional. Ensinar valores como respeito, solidariedade e empatia ajuda as crianças a compreenderem que as diferenças fazem parte da humanidade.

REDAÇÃO: Quais são os princípios bíblicos fundamentais que dão base ao seu argumento de que a inclusão não é opcional para o cristão? 

NELSON H. B. AMARAL: Princípios como o amor ao próximo, a justiça, a dignidade humana e o cuidado com os mais vulneráveis fundamentam a ideia de que a inclusão é essencial à fé cristã.

REDAÇÃO: Em sua vivência, qual foi o exemplo real de inclusão que mais te emocionou? 

NELSON H. B. AMARAL: Um dos exemplos mais marcantes foi ver uma criança autista, antes isolada, ser integrada às atividades do ministério infantil, encontrando espaço para se expressar e ser aceita. Esse tipo de transformação revela o poder da inclusão.

REDAÇÃO: Como lidar com a sobrecarga dos voluntários do ministério infantil? 

NELSON H. B. AMARAL: É necessário investir em formação, dividir responsabilidades e construir uma rede de apoio. Ninguém inclui sozinho; a inclusão é um trabalho coletivo.

REDAÇÃO: De que forma a igreja pode oferecer suporte às famílias? 

NELSON H. B. AMARAL: A igreja pode oferecer orientação, escuta, grupos de apoio e acompanhamento espiritual. Incluir a criança é também acolher a família.

REDAÇÃO: Você acredita que a falta de inclusão é um problema mais técnico ou espiritual? 

NELSON H. B. AMARAL: A exclusão é resultado de ambos. Falta conhecimento técnico, mas também sensibilidade espiritual. Quando a igreja aprende, ela se humaniza; quando se sensibiliza, ela transforma.

REDAÇÃO: Qual é o papel da liderança da igreja? 

NELSON H. B. AMARAL: A liderança precisa assumir a inclusão como prioridade. Sem o apoio do pastor e dos líderes, projetos inclusivos dificilmente se sustentam.

REDAÇÃO: Como adaptar o ambiente sensorial? 

NELSON H. B. AMARAL: Pequenas mudanças, como controle de ruídos, iluminação adequada e disponibilização de materiais sensoriais, podem tornar o ambiente mais acessível e acolhedor.

REDAÇÃO: Em que medida o ensino sobre “perfeição” pode atrapalhar a aceitação da neurodiversidade? 

NELSON H. B. AMARAL: Quando a igreja associa o valor humano estritamente à ideia de “cura”, ela corre o risco de negar a diversidade humana. A neurodiversidade precisa ser compreendida como parte da criação.

REDAÇÃO: O que significa olhar com sensibilidade? 

NELSON H. B. AMARAL: É reconhecer que Deus se revela na diversidade. É perceber que cada criança carrega uma história, uma identidade e uma forma única de ser.

REDAÇÃO: Quais os maiores desafios para manter a inclusão a longo prazo? 

NELSON H. B. AMARAL: O maior desafio é manter o compromisso após o entusiasmo inicial. A inclusão exige continuidade, formação permanente e avaliação constante.

REDAÇÃO: Qual é sua maior esperança? 

NELSON H. B. AMARAL: Que as igrejas brasileiras se tornem espaços verdadeiramente inclusivos, onde nenhuma criança seja invisibilizada.

REDAÇÃO: Qual é a tese central do seu livro? 

NELSON H. B. AMARAL: Que a inclusão de crianças autistas no ministério infantil é uma extensão direta do Evangelho, pois expressa o amor, a justiça e a dignidade humana defendidos por Cristo.

REDAÇÃO: Como sua formação pedagógica influenciou a obra? NELSON H. B. AMARAL: Ela contribuiu para a construção de estratégias práticas e fundamentadas, articulando teoria, prática e espiritualidade.

REDAÇÃO: Como treinar voluntários de forma eficaz? 

NELSON H. B. AMARAL: Através da formação continuada, do diálogo e da convivência com a diversidade. Esses são os caminhos para desenvolver um olhar sensível.

REDAÇÃO: Qual o maior erro cometido pelas igrejas nesse processo? 

NELSON H. B. AMARAL: Tentar incluir sem compreender o autismo, o que acaba reproduzindo práticas excludentes disfarçadas de inclusão.

REDAÇÃO: Assistencialismo ou inclusão? 

NELSON H. B. AMARAL: A verdadeira inclusão não é caridade pontual, mas sim uma transformação estrutural e cultural.

REDAÇÃO: Quais princípios são inegociáveis? 

NELSON H. B. AMARAL: Amor, respeito, dignidade, justiça e acolhimento.

REDAÇÃO: Qual a primeira mudança necessária? 

NELSON H. B. AMARAL: A de mentalidade: entender que a diversidade não é um problema, mas uma riqueza.

REDAÇÃO: Como lidar com resistências internas? 

NELSON H. B. AMARAL: O diálogo e a informação de qualidade são fundamentais para desconstruir preconceitos e promover a convivência respeitosa.

REDAÇÃO: O que é, de fato, a escuta ativa? 

NELSON H. B. AMARAL: Escutar as famílias é reconhecer suas dores, lutas e esperanças. A escuta é o primeiro passo da inclusão.

REDAÇÃO: Qual orientação é a mais urgente para o cenário atual? 

NELSON H. B. AMARAL: A formação urgente de líderes e voluntários.

REDAÇÃO: Quais são seus planos futuros? 

NELSON H. B. AMARAL: Este livro é apenas o início. Pretendo ampliar a discussão para outras faixas etárias e diferentes contextos de inclusão.

REDAÇÃO: Qual legado você espera deixar? 

NELSON H. B. AMARAL: A consciência de que a educação cristã inclusiva não é apenas um projeto, mas um compromisso permanente com a dignidade humana.


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