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O Resgate da Res Publica: Uma Conversa com Aurelio Tadeu

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Foto: Acervo Pessoal / Divulgação

Vivemos em uma época de acontecimentos atordoantes. Entre o fluxo incessante de notícias e a sensação de crise compartilhada pelas democracias ocidentais, muitos cidadãos sentem-se perdidos, buscando critérios para entender o presente e alternativas para orientar o futuro. É nesse cenário de incertezas que o olhar para o passado revela sua maior utilidade.

No Post Literal de hoje, recebemos Aurelio Tadeu, autor da obra "Cícero e a Defesa da República – Ética, Poder e Retórica". O livro não é apenas um estudo histórico, mas um guia pragmático que resgata Marco Túlio Cícero — o maior orador de Roma — para dialogar com os dilemas do século XXI. Cícero foi alguém que lidou pessoalmente com um mundo em transformação e crise permanente, e suas reflexões sobre liberdade, igualdade e o respeito às instituições permanecem assustadoramente atuais.

Nesta entrevista exclusiva, Aurelio Tadeu nos mostra como a união entre filosofia e política pode oferecer o "decoro" e a ética que tanto faltam ao debate moderno. Prepare-se para um contato leve e instigante com um pensador que prova: a defesa da República é, acima de tudo, a defesa da nossa própria humanidade.

Imagem: Arte digital

REDAÇÃO: O que motivou a escolha de Marco Túlio Cícero como o "guia" para entender as crises das democracias contemporâneas?

AURÉLIO TADEU: Ao menos dois motivos me levaram a essa escolha. O primeiro diz respeito ao papel de difusor de conhecimento. Marco Túlio Cícero foi um filósofo, advogado e político de importância tremenda para sua época e para as posteriores. Além de transmitir conhecimentos da filosofia grega para os romanos de seu tempo, as obras de Cícero serviram de inspiração para pensadores políticos desde a Idade Média. Então, essa importância intergeracional dos seus ensinamentos me levou a escolhê-lo. O segundo motivo diz respeito à experiência de vida que Cícero teve ao lidar com os desafios sobre os quais escreveu e os perigos que enfrentou.

REDAÇÃO: Vivemos uma época de acontecimentos "atordoantes". Em que medida o estado de espírito da Roma tardia se assemelha ao sentimento de crise dos regimes ocidentais atuais?

AURÉLIO TADEU: Na época em que Cícero esteve no auge de sua relevância política em Roma, havia uma série de mudanças sociais e políticas ocorrendo e se retroalimentando. O final da República romana foi marcado por graves tumultos de escravos, que se rebelavam e surpreendiam as forças romanas, as quais tinham diversos conflitos externos para debelar ao mesmo tempo. As distorções causadas pelas leis eleitorais traziam insatisfação com aqueles que eram considerados aptos a escolher os governantes, tanto pela diminuta participação daqueles que tinham de pagar impostos e servir no exército, quanto pela corrupção que havia em todas as etapas.

A desconsideração dos costumes antigos, que protegiam as instituições romanas, também aumentava a instabilidade, pois não se respeitavam mais as limitações de classe social para determinados cargos reservados aos plebeus. Isso fazia com que estes deixassem de representar os interesses de sua classe e servissem de porta de entrada para os cargos reservados aos patrícios, visando o destaque social obtido no exercício de tais incumbências, cada vez mais escandalosas. Assim, parece que a todo tempo precisamos de um governo forte, que limite direitos e garantias para lidar com o caos, aproximando-nos da ditadura. Todos esses fatores estão presentes na política contemporânea ao redor do mundo: o distanciamento cada vez maior entre representantes e representados, o desrespeito pelas regras, pelos costumes e pelo decoro dos cargos públicos, e o exercício de poderes que infringem normas para que os políticos se mantenham em evidência. Acredito que seja uma situação muito problemática por ser tão parecida.

REDAÇÃO: Cícero é conhecido por adaptar a filosofia grega ao pragmatismo romano. Como essa "simplificação" ajuda o leitor leigo a compreender a política?

AURÉLIO TADEU: Cícero adaptou diversos ensinamentos gregos, principalmente da escola estoica, para o pensamento romano, que era de natureza mais pragmática. Acredito que abstrações e desenvolvimentos muito complexos de filosofia moral não se aplicavam ao modo tradicional de agir e pensar de um povo guerreiro como o romano; a adaptação servia para facilitar a captação dos conceitos fundamentais.

REDAÇÃO: No livro, você aborda o conceito de "exercício legítimo do poder". O que define essa legitimidade para Cícero?

AURÉLIO TADEU: Os ensinamentos de Cícero sobre política e direito são interessantes porque reúnem a preocupação de observar a lei e a moral — algo que foi sendo esquecido na Idade Moderna até a Segunda Guerra Mundial, para ser resgatado pela filosofia pós-positivista dos juristas que tinham de lidar com problemas de fundamento imoral de legislações segregacionistas de regimes totalitários. Então, para Cícero, a legitimidade envolve a observância das leis eleitorais (ou seja, o cidadão atender aos requisitos para ser eleito) e a aptidão moral para exercer o cargo.

REDAÇÃO: Qual a importância da alternância de poder e por que Cícero a defendia com tanto afinco?

AURÉLIO TADEU: As instituições romanas tinham a característica da temporalidade do exercício dos cargos, muito parecida com as instituições das cidades-estado gregas. Assim, a alternância de poder evitava abusos e a perpetuação de práticas de má gestão, fosse por condutas criminosas, fosse por inaptidão. Cícero defendia a alternância com afinco porque isso garantia a maior chance de que a "coisa pública" (res publica) fosse comandada do melhor modo possível pelo maior tempo.

REDAÇÃO: Como o conceito de "decoro" exigido dos homens públicos na Antiguidade pode servir de crítica ao comportamento político nas redes sociais hoje?

AURÉLIO TADEU: Esse é um dos paralelos mais provocativos do livro, embora a distância temporal e tecnológica dos conceitos seja imensa. O decoro na Antiguidade estava ligado inclusive a aspectos religiosos, desde respeitar os augúrios e os limites de atuação perto dos templos até o que se podia fazer em certos dias e épocas. Hoje, as regras de decoro se limitam a estipular comportamentos mínimos que beiram a seara criminal. Quando pensamos nas redes sociais hoje, nota-se que não há o menor pudor em publicar e espalhar mentiras sobre acontecimentos, pessoas, legislações e instituições. Numa época em que o decoro exigia dos homens públicos presteza em lidar com ameaças de vida e morte, reverência aos deuses e respeito às regras que evitavam o abuso, a crítica é muito forte para quem busca apenas "lacrar" na internet sem entender as consequências de seus atos, que trazem desprestígio às instituições e instabilidade política e social.

REDAÇÃO: Cícero viveu o colapso da República e a ascensão de figuras autoritárias. O que ele nos ensina sobre a fragilidade das instituições?

AURÉLIO TADEU: Um dos principais ensinamentos é de que as instituições são criadas e destruídas pelos homens. São criadas por homens de visão e valor que tentam estabelecer condições mínimas benéficas ao seu povo, como os primeiros reis romanos e, depois, os decênviros que criaram a Lei das Doze Tábuas. No entanto, quando o povo perde a confiança naqueles que governam, as instituições deixam de representá-lo e o colapso vem, seja pela pressão popular, seja pelo oportunismo de quem governa.

REDAÇÃO: A retórica muitas vezes é vista hoje como "vazia" ou manipuladora. Como Cícero a unia à ética para que ela servisse ao bem comum?

AURÉLIO TADEU: Cícero via a retórica como o conhecimento que permitia a persuasão legítima dos demais cidadãos, sem truques, de modo semelhante aos gregos, que respeitavam a arte retórica e abominavam os sofismas. Portanto, a retórica deveria ser usada dentro das balizas da virtude moral e para o bem comum, que são limites constantemente referidos na obra de Cícero.

REDAÇÃO: No livro, o leitor encontra discussões sobre a divisão de funções do Estado. Como isso antecipa o que conhecemos hoje como os Três Poderes?

AURÉLIO TADEU: Pode-se dizer que havia a preocupação de limitar o exercício do poder político por uma única pessoa. Quando Cícero trata dos diversos cargos das magistraturas romanas, ele defende que o exercício independente deles garante a participação das diversas classes na condução da coisa pública, trazendo estabilidade e evitando o arbítrio. Essa divisão de atribuições foi resgatada por pensadores da Idade Moderna, como John Locke e Montesquieu, e contribuiu para a elaboração da teoria dos três poderes.

REDAÇÃO: O que significa, na visão ciceroniana, o respeito às instituições em um momento de desconfiança generalizada?

AURÉLIO TADEU: O respeito às instituições deriva não apenas da observância das leis, mas também da deferência ao passado e aos costumes dos antepassados (mos maiorum). As crises enfrentadas por Roma se relacionavam com a perda da identidade com as tradições, fosse pelo grande afluxo de imigrantes que não conheciam os costumes romanos, fosse pela ampliação territorial que levava os próprios romanos a abandonar seus hábitos. Para Cícero, o resgate dessa ordem moral era o único caminho para evitar a tirania.

REDAÇÃO: Sobre a liberdade: para Cícero, ela é apenas a ausência de um senhor ou exige algo mais do cidadão?

AURÉLIO TADEU: A liberdade, nas lições de Cícero, exige a ausência de sujeição a outro homem, mas também a capacidade de usar a razão e exercitar a virtude. Não se fala de liberdade para fazer o que bem se entende, mas de uma liberdade para empregar as próprias capacidades tendo em vista o bem individual e o bem comum da cidade.

REDAÇÃO: A igualdade perante a lei era um tema central. Como ele equilibrava esse ideal com a estrutura social romana?

AURÉLIO TADEU: A estrutura social romana seguia o padrão da Antiguidade, no qual se admitia a escravidão e o status de "quase cidadão". A igualdade era equilibrada ao se considerar que cada estrutura social detinha prerrogativas e deveres, tratando-se os desiguais de forma desigual, dentro da proporcionalidade. É algo que se faz hoje em dia, de forma inversa, quando se fala em ações afirmativas. Era o tipo de pensamento que permitia a teorização e o exercício de direitos em sociedades com muitas disparidades.

REDAÇÃO: Como a morte trágica de Cícero selou o seu legado como mártir da República?

AURÉLIO TADEU: Cícero foi morto por ser inimigo de Marco Antônio e porque atrapalhava os planos dele e de Otávio Augusto de centralizar o poder. Mesmo tendo sido preceptor de Otávio, na esperança de influenciar o futuro da República e talvez adiar sua derrocada, ele não teve sucesso em sobreviver em meio a tantos tumultos e acabou perdendo a vida. Sua morte tornou-se o símbolo do fim da liberdade de expressão e do Senado livre.

REDAÇÃO: Por que a redescoberta de seus manuscritas foi tão vital para o Renascimento e para a formação do pensamento ocidental?

AURÉLIO TADEU: As obras de Cícero foram relevantes para o Renascimento porque continham não só registros do pensamento romano, mas o resultado da propagação e discussão do pensamento grego. Eram obras que tratavam de conceitos filosóficos, políticos, jurídicos e históricos de maneira integrada, permitindo entender o modo como os antigos compreendiam seu mundo de forma enriquecedora.

REDAÇÃO: Na obra, você menciona o "viver o básico" na política. O que seria o básico essencial que esquecemos de cobrar de nossos governantes?

AURÉLIO TADEU: O "viver o básico" seria pensar no bem comum dos cidadãos e manter a ética na condução da coisa pública. Ou seja: fazer o bem ao maior número de pessoas e ser honesto. Acabamos esquecendo de cobrar isso porque ficamos envolvidos com disputas de personalidades e ideologias cujas ameaças estão distantes da realidade, servindo apenas para ganhos eleitorais de poucos.

REDAÇÃO: Como a fiscalização dos atos públicos, defendida por ele, se traduz em ferramentas de transparência na era digital?

AURÉLIO TADEU: A fiscalização de atos públicos era uma grande preocupação dos antigos. Por essa razão, dividiam-se as prerrogativas dos cargos e existiam os "censores", responsáveis por fiscalizar a obediência aos costumes. Cícero defende que as atribuições dos censores sejam ampliadas para que façam verdadeiras investigações sobre os magistrados ao final de seus mandatos, para que prestem contas de tudo o que fizeram. Hoje, a transparência digital facilita a fiscalização, embora ela ainda seja restrita a poucos interessados ou a quem tem meios de cruzar dados. Acredito que ainda falta clareza para que o setor público preste contas de forma que a fiscalização seja acompanhada de perto por mais cidadãos.

REDAÇÃO: Cícero acreditava que a filosofia deveria ser "útil". Como o livro transforma conceitos densos em algo fluido e leve para o leitor?

AURÉLIO TADEU: A ideia de Cícero é transmitir uma filosofia prática, que oriente quem deseja exercer sua virtude. Em sua obra "Dos Deveres", escrita a seu filho, ele aponta o tempo todo o caminho certo a seguir. Tentei elaborar, na entrevista ficcional, um diálogo que expusesse tais orientações, embora mais voltadas para a condução do Estado.

REDAÇÃO: Qual o papel da justiça na manutenção de uma república saudável segundo o autor romano?

AURÉLIO TADEU: A Justiça garante a paz social, a observância dos costumes e a defesa dos direitos. Não haveria República sem leis — sejam escritas ou costumeiras — e também não haveria República sem quem as fizesse observar.

REDAÇÃO: Como lidar com o ceticismo de quem acha que um autor de dois mil anos atrás não tem nada a dizer sobre a política moderna?

AURÉLIO TADEU: Esse ceticismo pode ser combatido de muitas maneiras. A principal é o fato de os problemas humanos se manterem idênticos: os homens continuam buscando formas justas de se organizar e têm de lidar com falhas de caráter, instituições corruptíveis e governantes que buscam oprimir o povo. As ideias de autores antigos permitem ver as soluções tentadas e sugerir abordagens que podem ser adaptadas.

REDAÇÃO: O que o livro revela sobre a relação entre ética privada e vida pública?

AURÉLIO TADEU: Para os povos antigos, a esfera privada se confundia com a atuação pública. Os ensinamentos de Cícero refletem essa relação estreita. Não há bom gestor público que não observe as leis e os costumes em sua conduta pessoal.

REDAÇÃO: Cícero era um "homo novus". Como sua origem influenciou sua defesa da meritocracia e das instituições republicanas?

AURÉLIO TADEU: Cícero foi um "homem novo" que pôde integrar o Senado após as reformas de Mário e Sila. Ele era um produto das mudanças que visavam aumentar a participação política. Garantir a participação de diversas classes e assegurar que homens virtuosos e capazes assumissem as altas magistraturas era sua preocupação principal para o bem geral da República.

REDAÇÃO: Existe uma "vocação para o sofrimento" político em sociedades desiguais que Cícero já conseguia identificar em seu tempo?

AURÉLIO TADEU: Acredito que essa vocação se expressava na preocupação constante com as revoltas populares. As grandes desigualdades econômicas geravam insegurança, e esse temor levava à busca por líderes cada vez mais fortes e carismáticos para aplacar as paixões da multidão — o que, em si, era um perigo para as leis e costumes republicanos.

REDAÇÃO: Como o conceito de Consensus Omnium (consenso de todos) pode ajudar a reduzir a polarização atual?

AURÉLIO TADEU: Cícero defendia que a República dependia de boas leis, homens honestos e concórdia (concordia ordinum). A polarização atual é alimentada por incertezas e serve como arma de campanha que empobrece o debate ao rotular pessoas. Quando percebemos que todos desejam o básico — viver dignamente, ter suas crenças respeitadas e segurança —, a política retoma rumos virtuosos. O consenso consistiria nessa "pisada no freio" do pensamento acrítico alimentado pelo ódio.

REDAÇÃO: O livro propõe uma conversa direta com Cícero. Qual foi o maior desafio de "dar voz" a ele respeitando o rigor histórico?

AURÉLIO TADEU: O maior desafio é respeitar o legado sem distorcer os ensinamentos com base no que aconteceu posteriormente. Nós sabemos onde ele falhou e onde acertou, então podemos fazer provocações, mas sem alterar a essência das avaliações feitas pelo autor em seu tempo.

REDAÇÃO: Como a sabedoria ciceroniana ajuda o cidadão comum a não se sentir "perdido em meio a tantas notícias"?

AURÉLIO TADEU: Cícero defende um caminho ético. Hoje, o excesso de informação confunde e desorienta. Saber que o exercício da virtude e a busca do bem comum são os nortes para uma vida feliz é o primeiro passo para se manter em um caminho de retidão.

REDAÇÃO: De que maneira a retórica de Cícero pode ser usada hoje para combater a desinformação e as fake news?

AURÉLIO TADEU: Os valores da arte retórica continuam úteis. A defesa da integridade moral, da honra e do respeito às leis pode ordenar o pensamento crítico de quem procura a verdade dos fatos hoje em dia.

REDAÇÃO: O autor via a política como a "arte suprema". Por que perdemos essa visão elevada e como podemos recuperá-la?

AURÉLIO TADEU: A política se distanciou dos cidadãos; o crescimento populacional tornou a democracia algo quase cerimonial. Ela passou a ser vista como algo reservado a elites que conservam o poder a qualquer custo. Para recuperar essa visão, é necessário difundir a noção de que a política é essencial para a garantia de direitos e para a promoção do bem comum.

REDAÇÃO: Qual a lição mais urgente que Cícero deixaria para os jovens que estão ingressando na vida pública hoje?

AURÉLIO TADEU: Que respeitem os costumes e as tradições, evitando arroubos e a incitação da turba para ganhos pessoais, pois isso não traz grandeza, apenas tumulto e destruição.

REDAÇÃO: O livro não pretende esgotar a obra ciceroniana. Quais caminhos ele abre para quem deseja se aprofundar no pensamento democrático?

AURÉLIO TADEU: O livro é uma introdução. Espero instigar os leitores a buscarem as obras originais, que são riquíssimas. Ele permite ver o que os modernos, como os fundadores da democracia americana, francesa e inglesa, aproveitaram do pensamento clássico.

REDAÇÃO: Recado final: Por que a defesa da República é, em última análise, a defesa da nossa própria humanidade?

AURÉLIO TADEU: A defesa da República depende da integridade das pessoas. Defender a República é consequência de escolhas pessoais de não se deixar corromper, o que leva à preservação da cooperação e da sobrevivência de todos — ou seja, da nossa própria humanidade.

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