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RESENHA: Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre

A obra Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, constitui um esforço metodológico singular que busca transcender as fronteiras trad...

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RESENHA: China tropical, de Gilberto Freyre

China Tropical , de Gilberto Freyre, uma antologia que reúne escritos fundamentais do autor sobre a influência do Oriente na formação da cul...

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RESENHA: Nordeste, de Gilberto Freyre

A obra Nordeste, de Gilberto Freyre, publicada originalmente em 1937, representa um marco na historiografia e na sociologia brasileiras a...

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Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

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RESENHA: Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre

A obra Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, constitui um esforço metodológico singular que busca transcender as fronteiras tradicionais da historiografia e da sociologia para penetrar no que o autor denomina "história íntima" de uma cidade. Publicado originalmente em 1955, o texto se posiciona não como uma mera coletânea de folclore ou contos de terror, mas como um ensaio de sociologia do sobrenatural que utiliza o fantasmagórico como uma lente para compreender a formação social e cultural do Recife e, por extensão, do Nordeste brasileiro. Freyre argumenta que não há uma contradição radical entre a sociologia e a história, mesmo quando esta se desvia das revoluções políticas para focar nas assombrações, pois a convicção na existência de meios psíquicos de associação entre vivos e mortos pode ser tratada como uma realidade sociológica que molda comportamentos e identidades. Ao longo desta análise, observa-se que o autor utiliza o sobrenatural como um elemento que "poetiza" o espaço urbano, resistindo ao que ele chama de "simplismo cientificista" ou "história natural" fria, que falha em capturar a profundidade da alma de uma cidade. O Recife é apresentado como uma "Veneza americana boiando sobre as águas", onde o sobrenatural está intrinsecamente ligado aos rios e ao mar, criando uma ecologia espiritual específica que diferencia a capital pernambucana de outros centros como Salvador ou Rio de Janeiro. Enquanto na Bahia o sobrenatural seria um aliado da África contra a Europa, no Recife ele é descrito como uma "perseguição do presente pelo passado", uma insistência das raízes coloniais e imperiais em permanecerem vivas no tecido urbano moderno. A técnica de Freyre fundamenta-se na coleta de testemunhos orais, arquivos policiais e tradições íntimas, elevando a lenda ao status de documento social que, por vezes, "mente menos que um documento" oficial. Através dessa abordagem, o autor explora como as estruturas arquitetônicas do Recife — seus sobrados esguios de influência nórdica e suas casas-grandes — tornaram-se receptáculos de uma memória coletiva que se manifesta através de ruídos, vultos e luzinhas misteriosas. Esta resenha propõe-se a dissecar as camadas de significado contidas nesses relatos, avaliando como Freyre utiliza o "sobrenormal" para discutir tensões de classe, raça e gênero, bem como a transição conflituosa entre o tradicionalismo agrário-patriarcal e o urbanismo industrial e racionalista. O livro revela que a sensibilidade do recifense aos mistérios da vida e da morte é uma característica de longa duração, moldada pela presença de várias ordens religiosas, pelo mercado de escravos e pela herança judaico-holandesa. Portanto, o estudo das assombrações freyreanas é, em última análise, o estudo de uma sociedade que se recusa a esquecer seus mortos, permitindo que eles continuem a "governar" ou, ao menos, a assombrar a vida dos vivos.

Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, constitui um esforço metodológico singular que busca transcender as fronteiras tradicionais da historiografia e da sociologia para penetrar no que o autor denomina "história íntima" de uma cidade. Publicado originalmente em 1955, o texto se posiciona não como uma mera coletânea de folclore, mas como um ensaio sobre a sociologia do sobrenatural que utiliza o fantasmagórico como uma lente para compreender a formação social e cultural do Recife e do Nordeste brasileiro. Freyre argumenta que não há uma contradição radical entre a sociologia e a história, mesmo quando esta se desvia das revoluções políticas para focar nas assombrações. Segundo o autor, a convicção humana pode fazer sociologicamente as vezes da realidade, permitindo o estudo de "sociedades" formadas por meios psíquicos entre vivos e mortos.

Ao longo desta análise, observa-se que o autor utiliza o sobrenatural como um elemento que poetiza o espaço urbano, resistindo ao que ele chama de "frio aspecto de uma história natural". O Recife é apresentado como uma cidade talássica, escancara ao mar e cortada por rios, onde o sobrenatural está intrinsecamente ligado à água. Diferente de Salvador, onde o sobrenatural seria um aliado da África contra a Europa, ou do Rio de Janeiro, focado no futuro através da cartomancia, no Recife o sobrenatural é "sobretudo uma perseguição do presente pelo passado".

A técnica de Freyre fundamenta-se na coleta de testemunhos orais, arquivos policiais e tradições íntimas, elevando a lenda ao status de documento social que, por vezes, mente menos que um documento oficial. Através dessa abordagem, o autor explora como os sobrados esguios de "feitio mais nórdico do que ibérico" tornaram-se receptáculos de uma memória coletiva que se manifesta através de ruídos e vultos. Este estudo avalia como Freyre utiliza o "sobrenormal" para discutir tensões de classe, raça e gênero na transição entre o tradicionalismo patriarcal e o urbanismo moderno.

A transição da história natural para a história íntima estabelece uma ruptura com o racionalismo positivista. Freyre afirma que "o próprio positivismo admite que 'os vivos' sejam 'governados pelos mortos'", sugerindo que a preocupação com os mortos sob a forma de "visagens" é onipresente na cultura humana. Casos como o do "Boca-de-Ouro" ilustram o pavor dos tresnoitados diante de figuras que misturam o humano ao demoníaco. Sociologicamente, o autor observa que essas aparições possuem uma "ecologia" própria, sendo mitos urbanos que excluem entidades rústicas como o Curupira ou o Saci-Pererê, que são considerados entes "fora-de-portas".

O relato do lobisomem que ataca a jovem Josefina revela uma profunda tensão de classe e prestígio. Ao descobrir que o agressor era um "doutor pálido" de sobrado, Freyre subverte a hierarquia tradicional: o senhor branco e letrado é quem assume a forma bestial, dependendo do sangue ou leite de mulheres negras para sua cura mística. O autor enfatiza que "o sobrenatural ou o sobrenormal continuam a atrair a atenção dos homens os mais sofisticados", indicando que a modernidade não elimina o mito, apenas o desloca.

A valorização do folclore como ciência da tradição permite explorar a psique do "Nordeste místico". A resistência contra a mudança de nomes como "Encanta-Moça" para "Santos Dumont" exemplifica a luta contra o apagamento da identidade mágica da cidade em favor de um progresso "lógico". Para Freyre, uma lenda é "obra de muitos" e deve ser tratada com respeito, pois a história oficial é obra de um único homem.

As luzinhas misteriosas nos morros do Arraial ou o fantasma do Barão de Escada envolto em um lençol manchado de sangue são interpretados como respostas psíquicas a traumas históricos reais. O autor utiliza essas narrativas para construir uma sociologia da convivência, onde o convívio que certos vivos supõem manter com espíritos é uma "forma de socialidade" digna de estudo.

Em última análise, o estudo das assombrações freyreanas mostra uma sociedade que se recusa a esquecer seus mortos, permitindo que eles assombrem a vida cotidiana. As visagens surgem no momento em que a modernidade tenta enterrar as raízes coloniais, provando que o passado recifense, tocado pelo sobrenatural, retém um mistério que não se deixa explicar pelo "simplismo cientificista".

A análise da ecologia urbana proposta por Gilberto Freyre revela uma profunda interdependência entre a geografia física do Recife e a sua manifestação sobrenatural. Para o autor, a cidade não é apenas um cenário, mas um agente ativo que molda o misticismo através de seus rios e mar. O Recife é descrito como uma "Veneza americana boiando sobre as águas", onde o elemento líquido atua como condutor de fenômenos preternaturais, como a "mãe-d'água" do riacho da Prata ou os monstros marinhos de "braços cabeludos" relatados por navegadores antigos.

Esta relação com a água cria uma distinção sociológica clara entre o misticismo urbano e o rural. Enquanto o interior do Nordeste é habitado por figuras como o "caipora" ou o "saci-pererê", Freyre observa que estas são entidades "fora-de-portas", raramente vistas dentro dos limites da cidade. A vida sobrenatural recifense parece regulada por "invisíveis posturas urbanas" que barram a entrada de animais encantados do mato grosso, preferindo o convívio com fantasmas de casarões, como o marinheiro inglês no alto do mastro de Ponte d'Uchoa.

A arquitetura dos sobrados desempenha um papel central nesta sociologia da habitação. Freyre destaca que o feitio esguio das construções, de influência nórdica ou holandesa, favorece a retenção de sombras e segredos. Casas como o "sobrado da Estrela" ou a da esquina do "beco do Marisco" não são meras habitações, mas depósitos de tensões sociais acumuladas ao longo de séculos. O fenômeno da "casa mal-assombrada" é tratado como uma extensão da história íntima da família brasileira, onde a presença de "dinheiro enterrado" ou "almas penadas" reflete o peso do passado sobre a propriedade privada.

Sociologicamente, a figura do "dinheiro enterrado" ou da "botija" serve como um comentário sobre a instabilidade econômica e a mentalidade de entesouramento do período colonial. Freyre relata diversos casos em que a assombração cessa apenas quando o tesouro é descoberto, sugerindo que o espírito atua como um guardião da riqueza acumulada sob o regime escravocrata. A "botija" é, portanto, o laço material que mantém o morto vinculado ao espaço físico da casa, impedindo a plena transição para a modernidade capitalista.

Outro aspecto relevante é a transição tecnológica da iluminação. Freyre observa que a chegada do "gás hidrogênio" e, posteriormente, da luz elétrica, desferiu um "golpe quase de morte" no domínio que as almas dos mortos exerciam sobre as ruas escuras. No entanto, o autor nota com perspicácia que o mistério não desaparece, mas se refugia nos "ermos, nos cemitérios, nas ruínas" e em áreas onde as jaqueiras e mangueiras abafam a luz artificial. A luz elétrica "diminuiu" o mistério, mas não o eliminou, pois o medo do invisível permanece latente no subconsciente do recifense.

A estratificação social das assombrações também é evidente nos relatos de Freyre. Há uma distinção entre o fantasma "fidalgo", como o Visconde de Suassuna que aparece "muito branco" pedindo missas, e as manifestações mais grotescas ligadas à plebe e aos escravizados, como o "negro velho que andava em fogo". Essa hierarquia espiritual reflete a estrutura da "Casa-Grande", onde até no além-múmulo se preservam as distinções de cor e classe.

A persistência do "negro velho" e das seitas afro-brasileiras no Recife, segundo o autor, ocorre porque a igreja oficial, ao se tornar excessivamente "racionalista" ou focar apenas em atividades sociais, abandonou a assistência às "solicitações místicas" da gente simples. Como resultado, a população busca refúgio no espiritismo e nos xangôs, onde os mortos continuam a ter uma voz ativa e prática na resolução de problemas cotidianos.

Freyre utiliza estes relatos para demonstrar que o Recife é uma cidade onde o passado insiste em não ser passado. A visagem de uma "iaiá branca" perseguida pelo marido ou o "adolescente que assassinou a namorada" são dramas humanos cristalizados no espaço urbano. A sociologia das assombrações é, em última análise, uma sociologia da resistência da memória contra o esquecimento imposto pelo progresso linear.

A dimensão racial nas assombrações recifenses é explorada por Gilberto Freyre como um reflexo das tensões não resolvidas da escravidão e do contato cultural afro-brasileiro. O autor observa que, enquanto o Rio de Janeiro utiliza o sobrenatural para prever o futuro, no Recife o passado "persegue o presente" através de figuras que personificam o trauma colonial. O "Papa-Figo", por exemplo, é descrito como uma figura sinistra que sequestra crianças para lhes arrancar o fígado, uma dieta prescrita por "negros velhos" para curar as doenças de um "ricaço" definhado. Sociologicamente, essa lenda inverte a lógica do sacrifício: é o corpo jovem e saudável da plebe que sustenta a sobrevivência do aristocrata doente.

A figura do "negro velho" aparece em diversas nuances na obra, indo desde o misticismo protetor até a figura de poder espiritual absoluto. Freyre relata o caso do "negro velho que andava em fogo vivo", Manuel de Sousa, que atravessava fogueiras na noite de São João sem se queimar. Esse fenômeno é tratado não como uma anomalia, mas como uma manifestação de fé profunda que desafia as leis naturais e a própria observação médica da época. A presença do negro no imaginário sobrenatural recifense é tão forte que o autor afirma que o folclore local fala mais de assombrações do que das famosas "revoluções libertárias" de Pernambuco.

As assombrações também servem para reforçar ou subverter papéis de gênero na sociedade patriarcal. A lenda da "emparedada da rua Nova" ou da "moça de branco" no sítio de Bento José da Costa revela a repressão feminina. No caso da "Encanta-Moça", uma "iaiá branca" se encanta nos mangues para fugir de um marido ciumento e malvado. Freyre nota que essas mulheres muitas vezes se transformam em figuras sedutoras e perigosas, como a "Alamoa", uma fantasma loira e nua que enfeitiça homens para depois desmanchar-se em um "gelo de morte".

O autor discute a "mula-sem-cabeça" como uma punição mística específica para as mulheres que mantinham relações com clérigos. Segundo a crença popular, as "barregãs de padre" deixavam suas cabeças em casa e corriam pelos ermos como corpos abrutalhados de mulas, arrastando cadeias e escoiceando no escuro. Sociologicamente, essa assombração funciona como um mecanismo de controle moral da comunidade sobre a conduta sexual feminina e a integridade da Igreja.

A transição para a modernidade é marcada pelo desaparecimento de nomes tradicionais em prol de uma lógica "progressista" que Freyre critica veementemente. Ele cita o Instituto Arqueológico de Pernambuco, que permitiu a mudança do nome do campo de aviação de "Encanta-Moça" para "Santos Dumont" por considerar o primeiro "vergonhosamente arcaico". Para Freyre, essa substituição é um erro histórico, pois uma lenda "mente às vezes menos do que um documento" e carrega a alma coletiva de uma cidade que os historiadores "rasteiros" não conseguem enxergar.

O Recife antigo, com suas ruas de nomes evocativos como a "Rua dos Sete Pecados Mortais", oferecia um mapa espiritual que a modernidade tentou burocratizar. Freyre argumenta que essa "história íntima" é composta por "restos de guerras frias entre culturas" — europeia, africana e ameríndia — que encontraram no sobrenatural um espaço de coexistência e síntese. O sobrenatural recifense é, portanto, o subproduto de um caldeirão étnico onde as almas penadas dos senhores e os zumbis dos escravos continuam a compartilhar o mesmo espaço urbano.

Gilberto Freyre descreve como figuras da elite intelectual e médica, como o Dr. Martins Júnior, envolveram-se com o sobrenatural, desafiando a dicotomia entre o "direito positivo" e a "poesia científica". Um episódio emblemático narra uma sessão mediúnica em que o falecido escritor Raul Pompéia teria enviado uma mensagem cifrada a Martins Júnior: "Reúna a tropa, emende os braços e acostele-os de uma só vez". Este evento ilustra como o misticismo permeava até os ambientes mais tecnicistas, como consultórios médicos repletos de instrumentos cirúrgicos europeus, sugerindo que a ciência no Recife não conseguia ignorar o convívio com os mortos.

O autor também destaca a figura do Dr. Dornelas, um médico negro que, após sua morte, tornou-se um dos espíritos mais invocados na região. Dornelas personifica a fusão entre a ciência formal e o saber ancestral; em vida, ele teria diagnosticado a tuberculose de uma moça aristocrata apenas por uma "cusparada" que ela lhe lançou no chapéu, um ato interpretado pela lenda como uma mistura de olho clínico e premonição sobrenatural. Sociologicamente, o culto às "receitas do Dr. Dornelas" demonstra como a população recifense mantinha uma relação de dependência com curadores que transcendiam a barreira entre a vida e a morte.

A análise se estende ao fenômeno das assombrações como sinalizadoras de eventos políticos e sociais traumáticos. Freyre relata o caso do "vulto do salão nobre" no Palácio do Governo de Pernambuco, uma "assombração premonitora" que surgiria para anunciar desgraças iminentes aos governantes. Este vulto teria aparecido a Estácio Coimbra antes da Revolução de 1930, reforçando a ideia de que o sobrenatural atua como um registro histórico paralelo às crises institucionais. Para Freyre, essas aparições não são meras alucinações, mas formas de "socialidade" em que o passado político insiste em manifestar sua presença nos espaços de poder.

A transição entre o mundo dos objetos e o mundo das sombras é exemplificada no "cemitério de carros" da Casa Agra. Freyre descreve coches de luxo, outrora brilhantes em carnavais e enterros de gala, agora tristonhamente parados em cocheiras ermas na Rua do Sossego. Nesses veículos mortos, como o cupê de uma condessinha, dizia-se ouvir o "ruge-ruge" de sedas finas, transformando o objeto material em um receptáculo de nostalgia e fantasmagoria. Esta relação com os objetos revela uma sociedade que atribui alma não apenas aos homens, mas aos próprios símbolos de seu status e lazer.

Finalmente, o autor aborda a persistência da fé através do "santo Bom Jesus dos Passos", que teria aparecido no Recife disfarçado como um velhinho pedindo abrigo. A transformação do velho em imagem sagrada após ser acolhido na igreja do Corpo Santo reforça o caráter sagrado e, ao mesmo tempo, cotidiano do sobrenatural recifense. Essas narrativas sugerem que a identidade da cidade é construída sobre uma base onde o divino e o demoníaco caminham pelas mesmas ruas, moldando uma cultura que aceita o mistério como parte integrante da realidade sociológica.

RESENHA: China tropical, de Gilberto Freyre


China Tropical, de Gilberto Freyre, uma antologia que reúne escritos fundamentais do autor sobre a influência do Oriente na formação da cultura luso-brasileira. Organizada por Edson Nery da Fonseca, a obra expande as fronteiras da tropicologia freyriana, demonstrando que o Brasil não é apenas um prolongamento da Europa nos trópicos ou um encontro entre europeus, indígenas e africanos, mas sim o receptáculo de uma "cultura simbiótica" que absorveu valores milenares da Ásia através da mediação portuguesa. Ao contrário da visão eurocêntrica predominante em sua época, Freyre identifica que "o Oriente chegou a dar considerável substância, e não apenas alguns dos seus brilhos mais vistosos de cor, à cultura que aqui se formou" , estabelecendo uma tese ousada: ecologicamente e socialmente, o parentesco do Brasil colonial era, em muitos aspectos, mais próximo do Oriente do que do Ocidente industrial.

O conceito central de "China Tropical" — expressão que dá título ao livro e ao seu ensaio mais instigante — não deve ser lido como uma identidade literal, mas como uma analogia sociológica sobre a capacidade de resistência cultural e a extensão territorial brasileira frente ao imperialismo. Freyre argumenta que o Brasil se assemelhava à China por sua fase "antianglo-americana de nacionalismo agressivo", colocando o país em uma situação sociológica similar à dos asiáticos modernos no esforço de preservar valores tradicionais diante de uma industrialização espiritual e fisicamente deslocadora. A obra revela que o Brasil "pode ser considerado como líder em potencial de um dos sistemas de civilização mais significativos do mundo moderno", uma civilização moderna em técnica, mas tradicional em valores, capaz de equilibrar antagonismos em um modelo que Freyre denomina como "equilíbrio de contrários" ou "equilíbrio criador".

A análise sociológica de Freyre mergulha na cultura material para provar essa tese. Ele demonstra como o aristocrata brasileiro do século XVI já gozava de luxos orientais desconhecidos na maior parte da Europa, como a porcelana de mesa, as colchas de seda e o leque, trazidos pelas naus portuguesas que faziam escala em Pernambuco e na Bahia ao voltarem do Oriente. Itens como a "telha à moda sino-japonesa", o palanquim e até o gosto pelo banho diário — que o autor sugere ter sido transmitido do Oriente à Inglaterra via portugueses — são evidências de que o Brasil foi a parte do império lusitano que mais largamente aproveitou os produtos de "finas, opulentas e velhas civilizações asiáticas". Essa influência moldou não apenas a estética das casas-grandes, com seus telhados recurvados "em cornos de lua", mas também os modos de pensar e a hierarquia social de uma sociedade essencialmente patriarcal e familista.

Sociologicamente, a obra destaca o conflito entre esse Brasil "orientalizado" e o processo de "reeuropeização" iniciado no século XIX com a vinda da família real. Freyre analisa com ironia e profundidade a expressão "para inglês ver", surgida quando o Brasil passou a adotar leis e estilos de vida menos por convicção e mais para satisfazer as exigências britânicas. Sob o olhar do "ente superior" inglês, o brasileiro abandonou a rótula de madeira e o palanquim em favor do vidro e da carruagem, em um processo de "desassombramento" que rompeu uma adaptação saudável ao trópico. O autor critica esse ocidentalismo ortodoxo que, em sua "mística de pureza etnocêntrica", tentou acinzentar a vivacidade oriental da paisagem brasileira, substituindo a sombra das mangueiras e a doçura das esteiras da Índia pelo rigor industrial europeu.

A recepção de figuras como Gandhi e Tagore na obra de Freyre também recebe destaque técnico, servindo como pilares para a defesa de um "nacionalismo defensivo" e inclusivo. O autor elogia Gandhi como um mestre que soube sujeitar a máquina à escala humana e conciliar o telúrico com o industrial, uma proposta afim à visão freyriana de progresso. Freyre vê na Índia e no Brasil afinidades de experiência regional e situação social condicionada pelo meio físico, sugerindo que ambos os povos deveriam realizar suas próprias revoluções pacíficas para criar valores universais a partir de suas culturas locais. Em suma, "China Tropical" é uma defesa científica da mestiçagem cultural profunda, onde o Oriente não é apenas um rastro pitoresco, mas um componente estrutural da identidade brasileira.


RESENHA: Nordeste, de Gilberto Freyre

A obra Nordeste, de Gilberto Freyre, publicada originalmente em 1937, representa um marco na historiografia e na sociologia brasileiras ao propor uma análise ecológica e regionalista da formação social do Brasil a partir da influência da cana-de-açúcar. Distanciando-se de uma visão puramente econômica ou histórica, Freyre utiliza o critério ecológico para compreender como o homem, a terra, a água, a flora e a fauna se inter-relacionaram para criar o que ele denomina de "Nordeste agrário", uma região distinta do "outro Nordeste" — o sertão semiárido, pastoril e algodoeiro. Esta resenha busca analisar os fundamentos sociológicos dessa obra, estruturando-se em blocos que exploram a simbiose entre os elementos naturais e a estrutura social patriarcal e monocultora.

O primeiro grande pilar da análise de Freyre é a relação entre a cana e a terra, especificamente o solo de massapê. Para o autor, o massapê não é apenas um componente geológico, mas a base física de uma nacionalidade inteira, uma terra "doce", "acomodatícia" e "pegajenta" que permitiu a fixação de uma civilização sedentária e sólida. Ao contrário das areias secas dos sertões, que parecem repelir a bota do europeu, o massapê do Nordeste "deixou-se penetrar como nenhuma outra terra dos trópicos pela civilização agrária dos portugueses". Essa estabilidade do solo permitiu que gerações de senhores de engenho se sucedessem na mesma terra, criando raízes em casas de pedra e cal, o que evitou o nomadismo agrário comum em outras áreas coloniais. Freyre afirma que o "perfil da região é o perfil de uma paisagem enobrecida pela capela, pelo cruzeiro, pela casa-grande, pelo cavalo de raça, pelo barco a vela, pela palmeira-imperial".

Contudo, essa nobreza da paisagem esconde o trauma da monocultura latifundiária e escravocrática, que "feriu mais profundamente" a vida e o homem do Nordeste. A exclusividade da cana-de-açúcar deformou a região, esterilizando fontes de vida e alimentação, devastando matas e degradando águas. Freyre observa que "a monocultura, a escravidão, o latifúndio — mas principalmente a monocultura — aqui é que abriram na vida, na paisagem e no caráter da gente as feridas mais fundas". Sociologicamente, essa estrutura moldou uma sociedade de classes ríspida, onde o domínio sobre a terra e os escravos deu à aristocracia açucareira um caráter "aquilino, aristocrático, cavalheiresco", ainda que muitas vezes "mórbido" e "sádico".

A água surge como o segundo elemento central, sendo considerada por Freyre como "quase tudo" no Nordeste da cana-de-açúcar. A civilização do açúcar dependeu intrinsecamente dos rios e riachos regulares, que serviam não apenas para a moagem nos engenhos reais, mas também para o transporte e o uso doméstico. Os "triângulos rurais" compostos por engenho, casa-grande e capela organizaram-se invariavelmente próximos à água doce, introduzindo uma "geometria da colonização agrária" em uma paisagem anteriormente desordenada. Freyre destaca a importância dos rios pequenos e constantes, como o Beberibe e o Capibaribe, que "prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos", foram colaboradores fiéis do colono agrário.~

No entanto, a relação com a água também revela a face predatória da exploração canavieira. A monocultura, ao devastar as matas ciliares, permitiu que a erosão levasse a "gordura das terras" para os rios, assoreando-os e transformando-os em mictórios industriais. Freyre critica veementemente as usinas que, em sua ânsia de lucro, degradaram os rios com caldas fedorentas que matam os peixes e emporcalham as margens. "Quase não há um rio do Nordeste do canavial que alguma usina de ricaço não tenha degradado em mictório", afirma ele, notando que as casas modernas dão as costas para a água com nojo, rompendo a antiga intimidade entre o homem e o rio.

A análise sociológica da mata no Nordeste agrário revela o profundo trauma ambiental causado pela monocultura da cana-de-açúcar. Gilberto Freyre descreve como o canavial entrou na região "como um conquistador em terra inimiga: matando as árvores, secando o mato, afugentando e destruindo os animais e até os índios, querendo para si toda a força da terra". Essa destruição, operada principalmente por meio da queimada e da coivara, desvirginou o mato grosso de "prumagens que não podia homem dar conta" para que apenas a cana pudesse rebentar "gorda e triunfante". Sociologicamente, essa guerra contra a mata impediu o desenvolvimento de relações líricas entre o homem e a natureza, comuns em sociedades rurais saudáveis, mas pervertidas no Nordeste pelo furor da monocultura exclusiva.

Freyre destaca que a exclusividade da cana rompeu o equilíbrio biológico da região, pois o homem impôs a hegemonia de uma planta única sobre a variedade natural. Esse desequilíbrio gerou consequências históricas severas, como fomes e alterações no regime das águas. O autor observa que, enquanto o colonizador português frequentemente vencia a floresta destruindo-a, o colonizador negro realizou um esforço notável de adaptação e domínio, criando o que Freyre chama de "policultura de evadido da monocultura", exemplificada por comunidades como o Quilombo de Palmares. Nessas matas, o negro se assenhoreou da natureza e integrou-se a ela, utilizando a floresta como proteção e fonte de subsistência variada.

A relação da civilização do açúcar com a fauna também reflete a estrutura de classe e o domínio patriarcal. Para Freyre, o cavalo e o boi foram os dois animais centrais, mas com papéis sociais distintos: "o cavalo ficou no primeiro [grupo aristocrático] e o boi no segundo [grupo subalterno]". O cavalo completava a figura senhorial, permitindo que o senhor de engenho governasse seus domínios "majestosamente a cavalo", falando sempre de um ponto mais alto. Já o boi, lento e dócil, tornou-se o aliado fiel do escravo no trabalho agrícola árduo, sendo por vezes glorificado em manifestações populares como o bumba meu boi, onde o negro se identificava com a figura máscula e sofrida do animal.

A monocultura latifundiária, ao priorizar o açúcar em detrimento de culturas de subsistência e da pecuária, criou um desequilíbrio alimentar crônico. Freyre menciona que a área pastoril foi sendo reduzida e empurrada para os sertões, forçando o Nordeste agrário a importar produtos básicos de distâncias enormes. Essa especialização rígida transformou a região em um "sistema balcânico" de áreas belicosas e exclusivistas, resultando em crises frequentes de víveres onde se via o absurdo de "senhoras trocarem joias de ouro por punhados de farinha". Assim, a história natural e social do Nordeste da cana é, para o autor, uma história de desequilíbrio causado pelo furor monocultor.

RESENHA: Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre

A obra Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, constitui um esforço metodológico singular que busca transcender as fronteiras tradicionais da historiografia e da sociologia para penetrar no que o autor denomina "história íntima" de uma cidade. Publicado originalmente em 1955, o texto se posiciona não como uma mera coletânea de folclore ou contos de terror, mas como um ensaio de sociologia do sobrenatural que utiliza o fantasmagórico como uma lente para compreender a formação social e cultural do Recife e, por extensão, do Nordeste brasileiro. Freyre argumenta que não há uma contradição radical entre a sociologia e a história, mesmo quando esta se desvia das revoluções políticas para focar nas assombrações, pois a convicção na existência de meios psíquicos de associação entre vivos e mortos pode ser tratada como uma realidade sociológica que molda comportamentos e identidades. Ao longo desta análise, observa-se que o autor utiliza o sobrenatural como um elemento que "poetiza" o espaço urbano, resistindo ao que ele chama de "simplismo cientificista" ou "história natural" fria, que falha em capturar a profundidade da alma de uma cidade. O Recife é apresentado como uma "Veneza americana boiando sobre as águas", onde o sobrenatural está intrinsecamente ligado aos rios e ao mar, criando uma ecologia espiritual específica que diferencia a capital pernambucana de outros centros como Salvador ou Rio de Janeiro. Enquanto na Bahia o sobrenatural seria um aliado da África contra a Europa, no Recife ele é descrito como uma "perseguição do presente pelo passado", uma insistência das raízes coloniais e imperiais em permanecerem vivas no tecido urbano moderno. A técnica de Freyre fundamenta-se na coleta de testemunhos orais, arquivos policiais e tradições íntimas, elevando a lenda ao status de documento social que, por vezes, "mente menos que um documento" oficial. Através dessa abordagem, o autor explora como as estruturas arquitetônicas do Recife — seus sobrados esguios de influência nórdica e suas casas-grandes — tornaram-se receptáculos de uma memória coletiva que se manifesta através de ruídos, vultos e luzinhas misteriosas. Esta resenha propõe-se a dissecar as camadas de significado contidas nesses relatos, avaliando como Freyre utiliza o "sobrenormal" para discutir tensões de classe, raça e gênero, bem como a transição conflituosa entre o tradicionalismo agrário-patriarcal e o urbanismo industrial e racionalista. O livro revela que a sensibilidade do recifense aos mistérios da vida e da morte é uma característica de longa duração, moldada pela presença de várias ordens religiosas, pelo mercado de escravos e pela herança judaico-holandesa. Portanto, o estudo das assombrações freyreanas é, em última análise, o estudo de uma sociedade que se recusa a esquecer seus mortos, permitindo que eles continuem a "governar" ou, ao menos, a assombrar a vida dos vivos.

Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, constitui um esforço metodológico singular que busca transcender as fronteiras tradicionais da historiografia e da sociologia para penetrar no que o autor denomina "história íntima" de uma cidade. Publicado originalmente em 1955, o texto se posiciona não como uma mera coletânea de folclore, mas como um ensaio sobre a sociologia do sobrenatural que utiliza o fantasmagórico como uma lente para compreender a formação social e cultural do Recife e do Nordeste brasileiro. Freyre argumenta que não há uma contradição radical entre a sociologia e a história, mesmo quando esta se desvia das revoluções políticas para focar nas assombrações. Segundo o autor, a convicção humana pode fazer sociologicamente as vezes da realidade, permitindo o estudo de "sociedades" formadas por meios psíquicos entre vivos e mortos.

Ao longo desta análise, observa-se que o autor utiliza o sobrenatural como um elemento que poetiza o espaço urbano, resistindo ao que ele chama de "frio aspecto de uma história natural". O Recife é apresentado como uma cidade talássica, escancara ao mar e cortada por rios, onde o sobrenatural está intrinsecamente ligado à água. Diferente de Salvador, onde o sobrenatural seria um aliado da África contra a Europa, ou do Rio de Janeiro, focado no futuro através da cartomancia, no Recife o sobrenatural é "sobretudo uma perseguição do presente pelo passado".

A técnica de Freyre fundamenta-se na coleta de testemunhos orais, arquivos policiais e tradições íntimas, elevando a lenda ao status de documento social que, por vezes, mente menos que um documento oficial. Através dessa abordagem, o autor explora como os sobrados esguios de "feitio mais nórdico do que ibérico" tornaram-se receptáculos de uma memória coletiva que se manifesta através de ruídos e vultos. Este estudo avalia como Freyre utiliza o "sobrenormal" para discutir tensões de classe, raça e gênero na transição entre o tradicionalismo patriarcal e o urbanismo moderno.

A transição da história natural para a história íntima estabelece uma ruptura com o racionalismo positivista. Freyre afirma que "o próprio positivismo admite que 'os vivos' sejam 'governados pelos mortos'", sugerindo que a preocupação com os mortos sob a forma de "visagens" é onipresente na cultura humana. Casos como o do "Boca-de-Ouro" ilustram o pavor dos tresnoitados diante de figuras que misturam o humano ao demoníaco. Sociologicamente, o autor observa que essas aparições possuem uma "ecologia" própria, sendo mitos urbanos que excluem entidades rústicas como o Curupira ou o Saci-Pererê, que são considerados entes "fora-de-portas".

O relato do lobisomem que ataca a jovem Josefina revela uma profunda tensão de classe e prestígio. Ao descobrir que o agressor era um "doutor pálido" de sobrado, Freyre subverte a hierarquia tradicional: o senhor branco e letrado é quem assume a forma bestial, dependendo do sangue ou leite de mulheres negras para sua cura mística. O autor enfatiza que "o sobrenatural ou o sobrenormal continuam a atrair a atenção dos homens os mais sofisticados", indicando que a modernidade não elimina o mito, apenas o desloca.

A valorização do folclore como ciência da tradição permite explorar a psique do "Nordeste místico". A resistência contra a mudança de nomes como "Encanta-Moça" para "Santos Dumont" exemplifica a luta contra o apagamento da identidade mágica da cidade em favor de um progresso "lógico". Para Freyre, uma lenda é "obra de muitos" e deve ser tratada com respeito, pois a história oficial é obra de um único homem.

As luzinhas misteriosas nos morros do Arraial ou o fantasma do Barão de Escada envolto em um lençol manchado de sangue são interpretados como respostas psíquicas a traumas históricos reais. O autor utiliza essas narrativas para construir uma sociologia da convivência, onde o convívio que certos vivos supõem manter com espíritos é uma "forma de socialidade" digna de estudo.

Em última análise, o estudo das assombrações freyreanas mostra uma sociedade que se recusa a esquecer seus mortos, permitindo que eles assombrem a vida cotidiana. As visagens surgem no momento em que a modernidade tenta enterrar as raízes coloniais, provando que o passado recifense, tocado pelo sobrenatural, retém um mistério que não se deixa explicar pelo "simplismo cientificista".

A análise da ecologia urbana proposta por Gilberto Freyre revela uma profunda interdependência entre a geografia física do Recife e a sua manifestação sobrenatural. Para o autor, a cidade não é apenas um cenário, mas um agente ativo que molda o misticismo através de seus rios e mar. O Recife é descrito como uma "Veneza americana boiando sobre as águas", onde o elemento líquido atua como condutor de fenômenos preternaturais, como a "mãe-d'água" do riacho da Prata ou os monstros marinhos de "braços cabeludos" relatados por navegadores antigos.

Esta relação com a água cria uma distinção sociológica clara entre o misticismo urbano e o rural. Enquanto o interior do Nordeste é habitado por figuras como o "caipora" ou o "saci-pererê", Freyre observa que estas são entidades "fora-de-portas", raramente vistas dentro dos limites da cidade. A vida sobrenatural recifense parece regulada por "invisíveis posturas urbanas" que barram a entrada de animais encantados do mato grosso, preferindo o convívio com fantasmas de casarões, como o marinheiro inglês no alto do mastro de Ponte d'Uchoa.

A arquitetura dos sobrados desempenha um papel central nesta sociologia da habitação. Freyre destaca que o feitio esguio das construções, de influência nórdica ou holandesa, favorece a retenção de sombras e segredos. Casas como o "sobrado da Estrela" ou a da esquina do "beco do Marisco" não são meras habitações, mas depósitos de tensões sociais acumuladas ao longo de séculos. O fenômeno da "casa mal-assombrada" é tratado como uma extensão da história íntima da família brasileira, onde a presença de "dinheiro enterrado" ou "almas penadas" reflete o peso do passado sobre a propriedade privada.

Sociologicamente, a figura do "dinheiro enterrado" ou da "botija" serve como um comentário sobre a instabilidade econômica e a mentalidade de entesouramento do período colonial. Freyre relata diversos casos em que a assombração cessa apenas quando o tesouro é descoberto, sugerindo que o espírito atua como um guardião da riqueza acumulada sob o regime escravocrata. A "botija" é, portanto, o laço material que mantém o morto vinculado ao espaço físico da casa, impedindo a plena transição para a modernidade capitalista.

Outro aspecto relevante é a transição tecnológica da iluminação. Freyre observa que a chegada do "gás hidrogênio" e, posteriormente, da luz elétrica, desferiu um "golpe quase de morte" no domínio que as almas dos mortos exerciam sobre as ruas escuras. No entanto, o autor nota com perspicácia que o mistério não desaparece, mas se refugia nos "ermos, nos cemitérios, nas ruínas" e em áreas onde as jaqueiras e mangueiras abafam a luz artificial. A luz elétrica "diminuiu" o mistério, mas não o eliminou, pois o medo do invisível permanece latente no subconsciente do recifense.

A estratificação social das assombrações também é evidente nos relatos de Freyre. Há uma distinção entre o fantasma "fidalgo", como o Visconde de Suassuna que aparece "muito branco" pedindo missas, e as manifestações mais grotescas ligadas à plebe e aos escravizados, como o "negro velho que andava em fogo". Essa hierarquia espiritual reflete a estrutura da "Casa-Grande", onde até no além-múmulo se preservam as distinções de cor e classe.

A persistência do "negro velho" e das seitas afro-brasileiras no Recife, segundo o autor, ocorre porque a igreja oficial, ao se tornar excessivamente "racionalista" ou focar apenas em atividades sociais, abandonou a assistência às "solicitações místicas" da gente simples. Como resultado, a população busca refúgio no espiritismo e nos xangôs, onde os mortos continuam a ter uma voz ativa e prática na resolução de problemas cotidianos.

Freyre utiliza estes relatos para demonstrar que o Recife é uma cidade onde o passado insiste em não ser passado. A visagem de uma "iaiá branca" perseguida pelo marido ou o "adolescente que assassinou a namorada" são dramas humanos cristalizados no espaço urbano. A sociologia das assombrações é, em última análise, uma sociologia da resistência da memória contra o esquecimento imposto pelo progresso linear.

A dimensão racial nas assombrações recifenses é explorada por Gilberto Freyre como um reflexo das tensões não resolvidas da escravidão e do contato cultural afro-brasileiro. O autor observa que, enquanto o Rio de Janeiro utiliza o sobrenatural para prever o futuro, no Recife o passado "persegue o presente" através de figuras que personificam o trauma colonial. O "Papa-Figo", por exemplo, é descrito como uma figura sinistra que sequestra crianças para lhes arrancar o fígado, uma dieta prescrita por "negros velhos" para curar as doenças de um "ricaço" definhado. Sociologicamente, essa lenda inverte a lógica do sacrifício: é o corpo jovem e saudável da plebe que sustenta a sobrevivência do aristocrata doente.

A figura do "negro velho" aparece em diversas nuances na obra, indo desde o misticismo protetor até a figura de poder espiritual absoluto. Freyre relata o caso do "negro velho que andava em fogo vivo", Manuel de Sousa, que atravessava fogueiras na noite de São João sem se queimar. Esse fenômeno é tratado não como uma anomalia, mas como uma manifestação de fé profunda que desafia as leis naturais e a própria observação médica da época. A presença do negro no imaginário sobrenatural recifense é tão forte que o autor afirma que o folclore local fala mais de assombrações do que das famosas "revoluções libertárias" de Pernambuco.

As assombrações também servem para reforçar ou subverter papéis de gênero na sociedade patriarcal. A lenda da "emparedada da rua Nova" ou da "moça de branco" no sítio de Bento José da Costa revela a repressão feminina. No caso da "Encanta-Moça", uma "iaiá branca" se encanta nos mangues para fugir de um marido ciumento e malvado. Freyre nota que essas mulheres muitas vezes se transformam em figuras sedutoras e perigosas, como a "Alamoa", uma fantasma loira e nua que enfeitiça homens para depois desmanchar-se em um "gelo de morte".

O autor discute a "mula-sem-cabeça" como uma punição mística específica para as mulheres que mantinham relações com clérigos. Segundo a crença popular, as "barregãs de padre" deixavam suas cabeças em casa e corriam pelos ermos como corpos abrutalhados de mulas, arrastando cadeias e escoiceando no escuro. Sociologicamente, essa assombração funciona como um mecanismo de controle moral da comunidade sobre a conduta sexual feminina e a integridade da Igreja.

A transição para a modernidade é marcada pelo desaparecimento de nomes tradicionais em prol de uma lógica "progressista" que Freyre critica veementemente. Ele cita o Instituto Arqueológico de Pernambuco, que permitiu a mudança do nome do campo de aviação de "Encanta-Moça" para "Santos Dumont" por considerar o primeiro "vergonhosamente arcaico". Para Freyre, essa substituição é um erro histórico, pois uma lenda "mente às vezes menos do que um documento" e carrega a alma coletiva de uma cidade que os historiadores "rasteiros" não conseguem enxergar.

O Recife antigo, com suas ruas de nomes evocativos como a "Rua dos Sete Pecados Mortais", oferecia um mapa espiritual que a modernidade tentou burocratizar. Freyre argumenta que essa "história íntima" é composta por "restos de guerras frias entre culturas" — europeia, africana e ameríndia — que encontraram no sobrenatural um espaço de coexistência e síntese. O sobrenatural recifense é, portanto, o subproduto de um caldeirão étnico onde as almas penadas dos senhores e os zumbis dos escravos continuam a compartilhar o mesmo espaço urbano.

Gilberto Freyre descreve como figuras da elite intelectual e médica, como o Dr. Martins Júnior, envolveram-se com o sobrenatural, desafiando a dicotomia entre o "direito positivo" e a "poesia científica". Um episódio emblemático narra uma sessão mediúnica em que o falecido escritor Raul Pompéia teria enviado uma mensagem cifrada a Martins Júnior: "Reúna a tropa, emende os braços e acostele-os de uma só vez". Este evento ilustra como o misticismo permeava até os ambientes mais tecnicistas, como consultórios médicos repletos de instrumentos cirúrgicos europeus, sugerindo que a ciência no Recife não conseguia ignorar o convívio com os mortos.

O autor também destaca a figura do Dr. Dornelas, um médico negro que, após sua morte, tornou-se um dos espíritos mais invocados na região. Dornelas personifica a fusão entre a ciência formal e o saber ancestral; em vida, ele teria diagnosticado a tuberculose de uma moça aristocrata apenas por uma "cusparada" que ela lhe lançou no chapéu, um ato interpretado pela lenda como uma mistura de olho clínico e premonição sobrenatural. Sociologicamente, o culto às "receitas do Dr. Dornelas" demonstra como a população recifense mantinha uma relação de dependência com curadores que transcendiam a barreira entre a vida e a morte.

A análise se estende ao fenômeno das assombrações como sinalizadoras de eventos políticos e sociais traumáticos. Freyre relata o caso do "vulto do salão nobre" no Palácio do Governo de Pernambuco, uma "assombração premonitora" que surgiria para anunciar desgraças iminentes aos governantes. Este vulto teria aparecido a Estácio Coimbra antes da Revolução de 1930, reforçando a ideia de que o sobrenatural atua como um registro histórico paralelo às crises institucionais. Para Freyre, essas aparições não são meras alucinações, mas formas de "socialidade" em que o passado político insiste em manifestar sua presença nos espaços de poder.

A transição entre o mundo dos objetos e o mundo das sombras é exemplificada no "cemitério de carros" da Casa Agra. Freyre descreve coches de luxo, outrora brilhantes em carnavais e enterros de gala, agora tristonhamente parados em cocheiras ermas na Rua do Sossego. Nesses veículos mortos, como o cupê de uma condessinha, dizia-se ouvir o "ruge-ruge" de sedas finas, transformando o objeto material em um receptáculo de nostalgia e fantasmagoria. Esta relação com os objetos revela uma sociedade que atribui alma não apenas aos homens, mas aos próprios símbolos de seu status e lazer.

Finalmente, o autor aborda a persistência da fé através do "santo Bom Jesus dos Passos", que teria aparecido no Recife disfarçado como um velhinho pedindo abrigo. A transformação do velho em imagem sagrada após ser acolhido na igreja do Corpo Santo reforça o caráter sagrado e, ao mesmo tempo, cotidiano do sobrenatural recifense. Essas narrativas sugerem que a identidade da cidade é construída sobre uma base onde o divino e o demoníaco caminham pelas mesmas ruas, moldando uma cultura que aceita o mistério como parte integrante da realidade sociológica.

RESENHA: China tropical, de Gilberto Freyre


China Tropical, de Gilberto Freyre, uma antologia que reúne escritos fundamentais do autor sobre a influência do Oriente na formação da cultura luso-brasileira. Organizada por Edson Nery da Fonseca, a obra expande as fronteiras da tropicologia freyriana, demonstrando que o Brasil não é apenas um prolongamento da Europa nos trópicos ou um encontro entre europeus, indígenas e africanos, mas sim o receptáculo de uma "cultura simbiótica" que absorveu valores milenares da Ásia através da mediação portuguesa. Ao contrário da visão eurocêntrica predominante em sua época, Freyre identifica que "o Oriente chegou a dar considerável substância, e não apenas alguns dos seus brilhos mais vistosos de cor, à cultura que aqui se formou" , estabelecendo uma tese ousada: ecologicamente e socialmente, o parentesco do Brasil colonial era, em muitos aspectos, mais próximo do Oriente do que do Ocidente industrial.

O conceito central de "China Tropical" — expressão que dá título ao livro e ao seu ensaio mais instigante — não deve ser lido como uma identidade literal, mas como uma analogia sociológica sobre a capacidade de resistência cultural e a extensão territorial brasileira frente ao imperialismo. Freyre argumenta que o Brasil se assemelhava à China por sua fase "antianglo-americana de nacionalismo agressivo", colocando o país em uma situação sociológica similar à dos asiáticos modernos no esforço de preservar valores tradicionais diante de uma industrialização espiritual e fisicamente deslocadora. A obra revela que o Brasil "pode ser considerado como líder em potencial de um dos sistemas de civilização mais significativos do mundo moderno", uma civilização moderna em técnica, mas tradicional em valores, capaz de equilibrar antagonismos em um modelo que Freyre denomina como "equilíbrio de contrários" ou "equilíbrio criador".

A análise sociológica de Freyre mergulha na cultura material para provar essa tese. Ele demonstra como o aristocrata brasileiro do século XVI já gozava de luxos orientais desconhecidos na maior parte da Europa, como a porcelana de mesa, as colchas de seda e o leque, trazidos pelas naus portuguesas que faziam escala em Pernambuco e na Bahia ao voltarem do Oriente. Itens como a "telha à moda sino-japonesa", o palanquim e até o gosto pelo banho diário — que o autor sugere ter sido transmitido do Oriente à Inglaterra via portugueses — são evidências de que o Brasil foi a parte do império lusitano que mais largamente aproveitou os produtos de "finas, opulentas e velhas civilizações asiáticas". Essa influência moldou não apenas a estética das casas-grandes, com seus telhados recurvados "em cornos de lua", mas também os modos de pensar e a hierarquia social de uma sociedade essencialmente patriarcal e familista.

Sociologicamente, a obra destaca o conflito entre esse Brasil "orientalizado" e o processo de "reeuropeização" iniciado no século XIX com a vinda da família real. Freyre analisa com ironia e profundidade a expressão "para inglês ver", surgida quando o Brasil passou a adotar leis e estilos de vida menos por convicção e mais para satisfazer as exigências britânicas. Sob o olhar do "ente superior" inglês, o brasileiro abandonou a rótula de madeira e o palanquim em favor do vidro e da carruagem, em um processo de "desassombramento" que rompeu uma adaptação saudável ao trópico. O autor critica esse ocidentalismo ortodoxo que, em sua "mística de pureza etnocêntrica", tentou acinzentar a vivacidade oriental da paisagem brasileira, substituindo a sombra das mangueiras e a doçura das esteiras da Índia pelo rigor industrial europeu.

A recepção de figuras como Gandhi e Tagore na obra de Freyre também recebe destaque técnico, servindo como pilares para a defesa de um "nacionalismo defensivo" e inclusivo. O autor elogia Gandhi como um mestre que soube sujeitar a máquina à escala humana e conciliar o telúrico com o industrial, uma proposta afim à visão freyriana de progresso. Freyre vê na Índia e no Brasil afinidades de experiência regional e situação social condicionada pelo meio físico, sugerindo que ambos os povos deveriam realizar suas próprias revoluções pacíficas para criar valores universais a partir de suas culturas locais. Em suma, "China Tropical" é uma defesa científica da mestiçagem cultural profunda, onde o Oriente não é apenas um rastro pitoresco, mas um componente estrutural da identidade brasileira.


RESENHA: Nordeste, de Gilberto Freyre

A obra Nordeste, de Gilberto Freyre, publicada originalmente em 1937, representa um marco na historiografia e na sociologia brasileiras ao propor uma análise ecológica e regionalista da formação social do Brasil a partir da influência da cana-de-açúcar. Distanciando-se de uma visão puramente econômica ou histórica, Freyre utiliza o critério ecológico para compreender como o homem, a terra, a água, a flora e a fauna se inter-relacionaram para criar o que ele denomina de "Nordeste agrário", uma região distinta do "outro Nordeste" — o sertão semiárido, pastoril e algodoeiro. Esta resenha busca analisar os fundamentos sociológicos dessa obra, estruturando-se em blocos que exploram a simbiose entre os elementos naturais e a estrutura social patriarcal e monocultora.

O primeiro grande pilar da análise de Freyre é a relação entre a cana e a terra, especificamente o solo de massapê. Para o autor, o massapê não é apenas um componente geológico, mas a base física de uma nacionalidade inteira, uma terra "doce", "acomodatícia" e "pegajenta" que permitiu a fixação de uma civilização sedentária e sólida. Ao contrário das areias secas dos sertões, que parecem repelir a bota do europeu, o massapê do Nordeste "deixou-se penetrar como nenhuma outra terra dos trópicos pela civilização agrária dos portugueses". Essa estabilidade do solo permitiu que gerações de senhores de engenho se sucedessem na mesma terra, criando raízes em casas de pedra e cal, o que evitou o nomadismo agrário comum em outras áreas coloniais. Freyre afirma que o "perfil da região é o perfil de uma paisagem enobrecida pela capela, pelo cruzeiro, pela casa-grande, pelo cavalo de raça, pelo barco a vela, pela palmeira-imperial".

Contudo, essa nobreza da paisagem esconde o trauma da monocultura latifundiária e escravocrática, que "feriu mais profundamente" a vida e o homem do Nordeste. A exclusividade da cana-de-açúcar deformou a região, esterilizando fontes de vida e alimentação, devastando matas e degradando águas. Freyre observa que "a monocultura, a escravidão, o latifúndio — mas principalmente a monocultura — aqui é que abriram na vida, na paisagem e no caráter da gente as feridas mais fundas". Sociologicamente, essa estrutura moldou uma sociedade de classes ríspida, onde o domínio sobre a terra e os escravos deu à aristocracia açucareira um caráter "aquilino, aristocrático, cavalheiresco", ainda que muitas vezes "mórbido" e "sádico".

A água surge como o segundo elemento central, sendo considerada por Freyre como "quase tudo" no Nordeste da cana-de-açúcar. A civilização do açúcar dependeu intrinsecamente dos rios e riachos regulares, que serviam não apenas para a moagem nos engenhos reais, mas também para o transporte e o uso doméstico. Os "triângulos rurais" compostos por engenho, casa-grande e capela organizaram-se invariavelmente próximos à água doce, introduzindo uma "geometria da colonização agrária" em uma paisagem anteriormente desordenada. Freyre destaca a importância dos rios pequenos e constantes, como o Beberibe e o Capibaribe, que "prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos", foram colaboradores fiéis do colono agrário.~

No entanto, a relação com a água também revela a face predatória da exploração canavieira. A monocultura, ao devastar as matas ciliares, permitiu que a erosão levasse a "gordura das terras" para os rios, assoreando-os e transformando-os em mictórios industriais. Freyre critica veementemente as usinas que, em sua ânsia de lucro, degradaram os rios com caldas fedorentas que matam os peixes e emporcalham as margens. "Quase não há um rio do Nordeste do canavial que alguma usina de ricaço não tenha degradado em mictório", afirma ele, notando que as casas modernas dão as costas para a água com nojo, rompendo a antiga intimidade entre o homem e o rio.

A análise sociológica da mata no Nordeste agrário revela o profundo trauma ambiental causado pela monocultura da cana-de-açúcar. Gilberto Freyre descreve como o canavial entrou na região "como um conquistador em terra inimiga: matando as árvores, secando o mato, afugentando e destruindo os animais e até os índios, querendo para si toda a força da terra". Essa destruição, operada principalmente por meio da queimada e da coivara, desvirginou o mato grosso de "prumagens que não podia homem dar conta" para que apenas a cana pudesse rebentar "gorda e triunfante". Sociologicamente, essa guerra contra a mata impediu o desenvolvimento de relações líricas entre o homem e a natureza, comuns em sociedades rurais saudáveis, mas pervertidas no Nordeste pelo furor da monocultura exclusiva.

Freyre destaca que a exclusividade da cana rompeu o equilíbrio biológico da região, pois o homem impôs a hegemonia de uma planta única sobre a variedade natural. Esse desequilíbrio gerou consequências históricas severas, como fomes e alterações no regime das águas. O autor observa que, enquanto o colonizador português frequentemente vencia a floresta destruindo-a, o colonizador negro realizou um esforço notável de adaptação e domínio, criando o que Freyre chama de "policultura de evadido da monocultura", exemplificada por comunidades como o Quilombo de Palmares. Nessas matas, o negro se assenhoreou da natureza e integrou-se a ela, utilizando a floresta como proteção e fonte de subsistência variada.

A relação da civilização do açúcar com a fauna também reflete a estrutura de classe e o domínio patriarcal. Para Freyre, o cavalo e o boi foram os dois animais centrais, mas com papéis sociais distintos: "o cavalo ficou no primeiro [grupo aristocrático] e o boi no segundo [grupo subalterno]". O cavalo completava a figura senhorial, permitindo que o senhor de engenho governasse seus domínios "majestosamente a cavalo", falando sempre de um ponto mais alto. Já o boi, lento e dócil, tornou-se o aliado fiel do escravo no trabalho agrícola árduo, sendo por vezes glorificado em manifestações populares como o bumba meu boi, onde o negro se identificava com a figura máscula e sofrida do animal.

A monocultura latifundiária, ao priorizar o açúcar em detrimento de culturas de subsistência e da pecuária, criou um desequilíbrio alimentar crônico. Freyre menciona que a área pastoril foi sendo reduzida e empurrada para os sertões, forçando o Nordeste agrário a importar produtos básicos de distâncias enormes. Essa especialização rígida transformou a região em um "sistema balcânico" de áreas belicosas e exclusivistas, resultando em crises frequentes de víveres onde se via o absurdo de "senhoras trocarem joias de ouro por punhados de farinha". Assim, a história natural e social do Nordeste da cana é, para o autor, uma história de desequilíbrio causado pelo furor monocultor.

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