China Tropical, de Gilberto Freyre, uma antologia que reúne escritos fundamentais do autor sobre a influência do Oriente na formação da cultura luso-brasileira. Organizada por Edson Nery da Fonseca, a obra expande as fronteiras da tropicologia freyriana, demonstrando que o Brasil não é apenas um prolongamento da Europa nos trópicos ou um encontro entre europeus, indígenas e africanos, mas sim o receptáculo de uma "cultura simbiótica" que absorveu valores milenares da Ásia através da mediação portuguesa
O conceito central de "China Tropical" — expressão que dá título ao livro e ao seu ensaio mais instigante — não deve ser lido como uma identidade literal, mas como uma analogia sociológica sobre a capacidade de resistência cultural e a extensão territorial brasileira frente ao imperialismo. Freyre argumenta que o Brasil se assemelhava à China por sua fase "antianglo-americana de nacionalismo agressivo", colocando o país em uma situação sociológica similar à dos asiáticos modernos no esforço de preservar valores tradicionais diante de uma industrialização espiritual e fisicamente deslocadora
A análise sociológica de Freyre mergulha na cultura material para provar essa tese. Ele demonstra como o aristocrata brasileiro do século XVI já gozava de luxos orientais desconhecidos na maior parte da Europa, como a porcelana de mesa, as colchas de seda e o leque, trazidos pelas naus portuguesas que faziam escala em Pernambuco e na Bahia ao voltarem do Oriente
Sociologicamente, a obra destaca o conflito entre esse Brasil "orientalizado" e o processo de "reeuropeização" iniciado no século XIX com a vinda da família real. Freyre analisa com ironia e profundidade a expressão "para inglês ver", surgida quando o Brasil passou a adotar leis e estilos de vida menos por convicção e mais para satisfazer as exigências britânicas
A recepção de figuras como Gandhi e Tagore na obra de Freyre também recebe destaque técnico, servindo como pilares para a defesa de um "nacionalismo defensivo" e inclusivo. O autor elogia Gandhi como um mestre que soube sujeitar a máquina à escala humana e conciliar o telúrico com o industrial, uma proposta afim à visão freyriana de progresso
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