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RESENHA: Nordeste, de Gilberto Freyre

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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A obra Nordeste, de Gilberto Freyre, publicada originalmente em 1937, representa um marco na historiografia e na sociologia brasileiras ao propor uma análise ecológica e regionalista da formação social do Brasil a partir da influência da cana-de-açúcar. Distanciando-se de uma visão puramente econômica ou histórica, Freyre utiliza o critério ecológico para compreender como o homem, a terra, a água, a flora e a fauna se inter-relacionaram para criar o que ele denomina de "Nordeste agrário", uma região distinta do "outro Nordeste" — o sertão semiárido, pastoril e algodoeiro. Esta resenha busca analisar os fundamentos sociológicos dessa obra, estruturando-se em blocos que exploram a simbiose entre os elementos naturais e a estrutura social patriarcal e monocultora.

O primeiro grande pilar da análise de Freyre é a relação entre a cana e a terra, especificamente o solo de massapê. Para o autor, o massapê não é apenas um componente geológico, mas a base física de uma nacionalidade inteira, uma terra "doce", "acomodatícia" e "pegajenta" que permitiu a fixação de uma civilização sedentária e sólida. Ao contrário das areias secas dos sertões, que parecem repelir a bota do europeu, o massapê do Nordeste "deixou-se penetrar como nenhuma outra terra dos trópicos pela civilização agrária dos portugueses". Essa estabilidade do solo permitiu que gerações de senhores de engenho se sucedessem na mesma terra, criando raízes em casas de pedra e cal, o que evitou o nomadismo agrário comum em outras áreas coloniais. Freyre afirma que o "perfil da região é o perfil de uma paisagem enobrecida pela capela, pelo cruzeiro, pela casa-grande, pelo cavalo de raça, pelo barco a vela, pela palmeira-imperial".

Contudo, essa nobreza da paisagem esconde o trauma da monocultura latifundiária e escravocrática, que "feriu mais profundamente" a vida e o homem do Nordeste. A exclusividade da cana-de-açúcar deformou a região, esterilizando fontes de vida e alimentação, devastando matas e degradando águas. Freyre observa que "a monocultura, a escravidão, o latifúndio — mas principalmente a monocultura — aqui é que abriram na vida, na paisagem e no caráter da gente as feridas mais fundas". Sociologicamente, essa estrutura moldou uma sociedade de classes ríspida, onde o domínio sobre a terra e os escravos deu à aristocracia açucareira um caráter "aquilino, aristocrático, cavalheiresco", ainda que muitas vezes "mórbido" e "sádico".

A água surge como o segundo elemento central, sendo considerada por Freyre como "quase tudo" no Nordeste da cana-de-açúcar. A civilização do açúcar dependeu intrinsecamente dos rios e riachos regulares, que serviam não apenas para a moagem nos engenhos reais, mas também para o transporte e o uso doméstico. Os "triângulos rurais" compostos por engenho, casa-grande e capela organizaram-se invariavelmente próximos à água doce, introduzindo uma "geometria da colonização agrária" em uma paisagem anteriormente desordenada. Freyre destaca a importância dos rios pequenos e constantes, como o Beberibe e o Capibaribe, que "prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos", foram colaboradores fiéis do colono agrário.~

No entanto, a relação com a água também revela a face predatória da exploração canavieira. A monocultura, ao devastar as matas ciliares, permitiu que a erosão levasse a "gordura das terras" para os rios, assoreando-os e transformando-os em mictórios industriais. Freyre critica veementemente as usinas que, em sua ânsia de lucro, degradaram os rios com caldas fedorentas que matam os peixes e emporcalham as margens. "Quase não há um rio do Nordeste do canavial que alguma usina de ricaço não tenha degradado em mictório", afirma ele, notando que as casas modernas dão as costas para a água com nojo, rompendo a antiga intimidade entre o homem e o rio.

A análise sociológica da mata no Nordeste agrário revela o profundo trauma ambiental causado pela monocultura da cana-de-açúcar. Gilberto Freyre descreve como o canavial entrou na região "como um conquistador em terra inimiga: matando as árvores, secando o mato, afugentando e destruindo os animais e até os índios, querendo para si toda a força da terra". Essa destruição, operada principalmente por meio da queimada e da coivara, desvirginou o mato grosso de "prumagens que não podia homem dar conta" para que apenas a cana pudesse rebentar "gorda e triunfante". Sociologicamente, essa guerra contra a mata impediu o desenvolvimento de relações líricas entre o homem e a natureza, comuns em sociedades rurais saudáveis, mas pervertidas no Nordeste pelo furor da monocultura exclusiva.

Freyre destaca que a exclusividade da cana rompeu o equilíbrio biológico da região, pois o homem impôs a hegemonia de uma planta única sobre a variedade natural. Esse desequilíbrio gerou consequências históricas severas, como fomes e alterações no regime das águas. O autor observa que, enquanto o colonizador português frequentemente vencia a floresta destruindo-a, o colonizador negro realizou um esforço notável de adaptação e domínio, criando o que Freyre chama de "policultura de evadido da monocultura", exemplificada por comunidades como o Quilombo de Palmares. Nessas matas, o negro se assenhoreou da natureza e integrou-se a ela, utilizando a floresta como proteção e fonte de subsistência variada.

A relação da civilização do açúcar com a fauna também reflete a estrutura de classe e o domínio patriarcal. Para Freyre, o cavalo e o boi foram os dois animais centrais, mas com papéis sociais distintos: "o cavalo ficou no primeiro [grupo aristocrático] e o boi no segundo [grupo subalterno]". O cavalo completava a figura senhorial, permitindo que o senhor de engenho governasse seus domínios "majestosamente a cavalo", falando sempre de um ponto mais alto. Já o boi, lento e dócil, tornou-se o aliado fiel do escravo no trabalho agrícola árduo, sendo por vezes glorificado em manifestações populares como o bumba meu boi, onde o negro se identificava com a figura máscula e sofrida do animal.

A monocultura latifundiária, ao priorizar o açúcar em detrimento de culturas de subsistência e da pecuária, criou um desequilíbrio alimentar crônico. Freyre menciona que a área pastoril foi sendo reduzida e empurrada para os sertões, forçando o Nordeste agrário a importar produtos básicos de distâncias enormes. Essa especialização rígida transformou a região em um "sistema balcânico" de áreas belicosas e exclusivistas, resultando em crises frequentes de víveres onde se via o absurdo de "senhoras trocarem joias de ouro por punhados de farinha". Assim, a história natural e social do Nordeste da cana é, para o autor, uma história de desequilíbrio causado pelo furor monocultor.

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O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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