A obra Nordeste, de Gilberto Freyre, publicada originalmente em 1937, representa um marco na historiografia e na sociologia brasileiras ao propor uma análise ecológica e regionalista da formação social do Brasil a partir da influência da cana-de-açúcar. Distanciando-se de uma visão puramente econômica ou histórica, Freyre utiliza o critério ecológico para compreender como o homem, a terra, a água, a flora e a fauna se inter-relacionaram para criar o que ele denomina de "Nordeste agrário", uma região distinta do "outro Nordeste" — o sertão semiárido, pastoril e algodoeiro. Esta resenha busca analisar os fundamentos sociológicos dessa obra, estruturando-se em blocos que exploram a simbiose entre os elementos naturais e a estrutura social patriarcal e monocultora.
O primeiro grande pilar da análise de Freyre é a relação entre a cana e a terra, especificamente o solo de massapê. Para o autor, o massapê não é apenas um componente geológico, mas a base física de uma nacionalidade inteira, uma terra "doce", "acomodatícia" e "pegajenta" que permitiu a fixação de uma civilização sedentária e sólida
Contudo, essa nobreza da paisagem esconde o trauma da monocultura latifundiária e escravocrática, que "feriu mais profundamente" a vida e o homem do Nordeste
A água surge como o segundo elemento central, sendo considerada por Freyre como "quase tudo" no Nordeste da cana-de-açúcar
No entanto, a relação com a água também revela a face predatória da exploração canavieira. A monocultura, ao devastar as matas ciliares, permitiu que a erosão levasse a "gordura das terras" para os rios, assoreando-os e transformando-os em mictórios industriais
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