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RESENHA: Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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A obra Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, constitui um esforço metodológico singular que busca transcender as fronteiras tradicionais da historiografia e da sociologia para penetrar no que o autor denomina "história íntima" de uma cidade. Publicado originalmente em 1955, o texto se posiciona não como uma mera coletânea de folclore ou contos de terror, mas como um ensaio de sociologia do sobrenatural que utiliza o fantasmagórico como uma lente para compreender a formação social e cultural do Recife e, por extensão, do Nordeste brasileiro. Freyre argumenta que não há uma contradição radical entre a sociologia e a história, mesmo quando esta se desvia das revoluções políticas para focar nas assombrações, pois a convicção na existência de meios psíquicos de associação entre vivos e mortos pode ser tratada como uma realidade sociológica que molda comportamentos e identidades. Ao longo desta análise, observa-se que o autor utiliza o sobrenatural como um elemento que "poetiza" o espaço urbano, resistindo ao que ele chama de "simplismo cientificista" ou "história natural" fria, que falha em capturar a profundidade da alma de uma cidade. O Recife é apresentado como uma "Veneza americana boiando sobre as águas", onde o sobrenatural está intrinsecamente ligado aos rios e ao mar, criando uma ecologia espiritual específica que diferencia a capital pernambucana de outros centros como Salvador ou Rio de Janeiro. Enquanto na Bahia o sobrenatural seria um aliado da África contra a Europa, no Recife ele é descrito como uma "perseguição do presente pelo passado", uma insistência das raízes coloniais e imperiais em permanecerem vivas no tecido urbano moderno. A técnica de Freyre fundamenta-se na coleta de testemunhos orais, arquivos policiais e tradições íntimas, elevando a lenda ao status de documento social que, por vezes, "mente menos que um documento" oficial. Através dessa abordagem, o autor explora como as estruturas arquitetônicas do Recife — seus sobrados esguios de influência nórdica e suas casas-grandes — tornaram-se receptáculos de uma memória coletiva que se manifesta através de ruídos, vultos e luzinhas misteriosas. Esta resenha propõe-se a dissecar as camadas de significado contidas nesses relatos, avaliando como Freyre utiliza o "sobrenormal" para discutir tensões de classe, raça e gênero, bem como a transição conflituosa entre o tradicionalismo agrário-patriarcal e o urbanismo industrial e racionalista. O livro revela que a sensibilidade do recifense aos mistérios da vida e da morte é uma característica de longa duração, moldada pela presença de várias ordens religiosas, pelo mercado de escravos e pela herança judaico-holandesa. Portanto, o estudo das assombrações freyreanas é, em última análise, o estudo de uma sociedade que se recusa a esquecer seus mortos, permitindo que eles continuem a "governar" ou, ao menos, a assombrar a vida dos vivos.

Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, constitui um esforço metodológico singular que busca transcender as fronteiras tradicionais da historiografia e da sociologia para penetrar no que o autor denomina "história íntima" de uma cidade. Publicado originalmente em 1955, o texto se posiciona não como uma mera coletânea de folclore, mas como um ensaio sobre a sociologia do sobrenatural que utiliza o fantasmagórico como uma lente para compreender a formação social e cultural do Recife e do Nordeste brasileiro. Freyre argumenta que não há uma contradição radical entre a sociologia e a história, mesmo quando esta se desvia das revoluções políticas para focar nas assombrações. Segundo o autor, a convicção humana pode fazer sociologicamente as vezes da realidade, permitindo o estudo de "sociedades" formadas por meios psíquicos entre vivos e mortos.

Ao longo desta análise, observa-se que o autor utiliza o sobrenatural como um elemento que poetiza o espaço urbano, resistindo ao que ele chama de "frio aspecto de uma história natural". O Recife é apresentado como uma cidade talássica, escancara ao mar e cortada por rios, onde o sobrenatural está intrinsecamente ligado à água. Diferente de Salvador, onde o sobrenatural seria um aliado da África contra a Europa, ou do Rio de Janeiro, focado no futuro através da cartomancia, no Recife o sobrenatural é "sobretudo uma perseguição do presente pelo passado".

A técnica de Freyre fundamenta-se na coleta de testemunhos orais, arquivos policiais e tradições íntimas, elevando a lenda ao status de documento social que, por vezes, mente menos que um documento oficial. Através dessa abordagem, o autor explora como os sobrados esguios de "feitio mais nórdico do que ibérico" tornaram-se receptáculos de uma memória coletiva que se manifesta através de ruídos e vultos. Este estudo avalia como Freyre utiliza o "sobrenormal" para discutir tensões de classe, raça e gênero na transição entre o tradicionalismo patriarcal e o urbanismo moderno.

A transição da história natural para a história íntima estabelece uma ruptura com o racionalismo positivista. Freyre afirma que "o próprio positivismo admite que 'os vivos' sejam 'governados pelos mortos'", sugerindo que a preocupação com os mortos sob a forma de "visagens" é onipresente na cultura humana. Casos como o do "Boca-de-Ouro" ilustram o pavor dos tresnoitados diante de figuras que misturam o humano ao demoníaco. Sociologicamente, o autor observa que essas aparições possuem uma "ecologia" própria, sendo mitos urbanos que excluem entidades rústicas como o Curupira ou o Saci-Pererê, que são considerados entes "fora-de-portas".

O relato do lobisomem que ataca a jovem Josefina revela uma profunda tensão de classe e prestígio. Ao descobrir que o agressor era um "doutor pálido" de sobrado, Freyre subverte a hierarquia tradicional: o senhor branco e letrado é quem assume a forma bestial, dependendo do sangue ou leite de mulheres negras para sua cura mística. O autor enfatiza que "o sobrenatural ou o sobrenormal continuam a atrair a atenção dos homens os mais sofisticados", indicando que a modernidade não elimina o mito, apenas o desloca.

A valorização do folclore como ciência da tradição permite explorar a psique do "Nordeste místico". A resistência contra a mudança de nomes como "Encanta-Moça" para "Santos Dumont" exemplifica a luta contra o apagamento da identidade mágica da cidade em favor de um progresso "lógico". Para Freyre, uma lenda é "obra de muitos" e deve ser tratada com respeito, pois a história oficial é obra de um único homem.

As luzinhas misteriosas nos morros do Arraial ou o fantasma do Barão de Escada envolto em um lençol manchado de sangue são interpretados como respostas psíquicas a traumas históricos reais. O autor utiliza essas narrativas para construir uma sociologia da convivência, onde o convívio que certos vivos supõem manter com espíritos é uma "forma de socialidade" digna de estudo.

Em última análise, o estudo das assombrações freyreanas mostra uma sociedade que se recusa a esquecer seus mortos, permitindo que eles assombrem a vida cotidiana. As visagens surgem no momento em que a modernidade tenta enterrar as raízes coloniais, provando que o passado recifense, tocado pelo sobrenatural, retém um mistério que não se deixa explicar pelo "simplismo cientificista".

A análise da ecologia urbana proposta por Gilberto Freyre revela uma profunda interdependência entre a geografia física do Recife e a sua manifestação sobrenatural. Para o autor, a cidade não é apenas um cenário, mas um agente ativo que molda o misticismo através de seus rios e mar. O Recife é descrito como uma "Veneza americana boiando sobre as águas", onde o elemento líquido atua como condutor de fenômenos preternaturais, como a "mãe-d'água" do riacho da Prata ou os monstros marinhos de "braços cabeludos" relatados por navegadores antigos.

Esta relação com a água cria uma distinção sociológica clara entre o misticismo urbano e o rural. Enquanto o interior do Nordeste é habitado por figuras como o "caipora" ou o "saci-pererê", Freyre observa que estas são entidades "fora-de-portas", raramente vistas dentro dos limites da cidade. A vida sobrenatural recifense parece regulada por "invisíveis posturas urbanas" que barram a entrada de animais encantados do mato grosso, preferindo o convívio com fantasmas de casarões, como o marinheiro inglês no alto do mastro de Ponte d'Uchoa.

A arquitetura dos sobrados desempenha um papel central nesta sociologia da habitação. Freyre destaca que o feitio esguio das construções, de influência nórdica ou holandesa, favorece a retenção de sombras e segredos. Casas como o "sobrado da Estrela" ou a da esquina do "beco do Marisco" não são meras habitações, mas depósitos de tensões sociais acumuladas ao longo de séculos. O fenômeno da "casa mal-assombrada" é tratado como uma extensão da história íntima da família brasileira, onde a presença de "dinheiro enterrado" ou "almas penadas" reflete o peso do passado sobre a propriedade privada.

Sociologicamente, a figura do "dinheiro enterrado" ou da "botija" serve como um comentário sobre a instabilidade econômica e a mentalidade de entesouramento do período colonial. Freyre relata diversos casos em que a assombração cessa apenas quando o tesouro é descoberto, sugerindo que o espírito atua como um guardião da riqueza acumulada sob o regime escravocrata. A "botija" é, portanto, o laço material que mantém o morto vinculado ao espaço físico da casa, impedindo a plena transição para a modernidade capitalista.

Outro aspecto relevante é a transição tecnológica da iluminação. Freyre observa que a chegada do "gás hidrogênio" e, posteriormente, da luz elétrica, desferiu um "golpe quase de morte" no domínio que as almas dos mortos exerciam sobre as ruas escuras. No entanto, o autor nota com perspicácia que o mistério não desaparece, mas se refugia nos "ermos, nos cemitérios, nas ruínas" e em áreas onde as jaqueiras e mangueiras abafam a luz artificial. A luz elétrica "diminuiu" o mistério, mas não o eliminou, pois o medo do invisível permanece latente no subconsciente do recifense.

A estratificação social das assombrações também é evidente nos relatos de Freyre. Há uma distinção entre o fantasma "fidalgo", como o Visconde de Suassuna que aparece "muito branco" pedindo missas, e as manifestações mais grotescas ligadas à plebe e aos escravizados, como o "negro velho que andava em fogo". Essa hierarquia espiritual reflete a estrutura da "Casa-Grande", onde até no além-múmulo se preservam as distinções de cor e classe.

A persistência do "negro velho" e das seitas afro-brasileiras no Recife, segundo o autor, ocorre porque a igreja oficial, ao se tornar excessivamente "racionalista" ou focar apenas em atividades sociais, abandonou a assistência às "solicitações místicas" da gente simples. Como resultado, a população busca refúgio no espiritismo e nos xangôs, onde os mortos continuam a ter uma voz ativa e prática na resolução de problemas cotidianos.

Freyre utiliza estes relatos para demonstrar que o Recife é uma cidade onde o passado insiste em não ser passado. A visagem de uma "iaiá branca" perseguida pelo marido ou o "adolescente que assassinou a namorada" são dramas humanos cristalizados no espaço urbano. A sociologia das assombrações é, em última análise, uma sociologia da resistência da memória contra o esquecimento imposto pelo progresso linear.

A dimensão racial nas assombrações recifenses é explorada por Gilberto Freyre como um reflexo das tensões não resolvidas da escravidão e do contato cultural afro-brasileiro. O autor observa que, enquanto o Rio de Janeiro utiliza o sobrenatural para prever o futuro, no Recife o passado "persegue o presente" através de figuras que personificam o trauma colonial. O "Papa-Figo", por exemplo, é descrito como uma figura sinistra que sequestra crianças para lhes arrancar o fígado, uma dieta prescrita por "negros velhos" para curar as doenças de um "ricaço" definhado. Sociologicamente, essa lenda inverte a lógica do sacrifício: é o corpo jovem e saudável da plebe que sustenta a sobrevivência do aristocrata doente.

A figura do "negro velho" aparece em diversas nuances na obra, indo desde o misticismo protetor até a figura de poder espiritual absoluto. Freyre relata o caso do "negro velho que andava em fogo vivo", Manuel de Sousa, que atravessava fogueiras na noite de São João sem se queimar. Esse fenômeno é tratado não como uma anomalia, mas como uma manifestação de fé profunda que desafia as leis naturais e a própria observação médica da época. A presença do negro no imaginário sobrenatural recifense é tão forte que o autor afirma que o folclore local fala mais de assombrações do que das famosas "revoluções libertárias" de Pernambuco.

As assombrações também servem para reforçar ou subverter papéis de gênero na sociedade patriarcal. A lenda da "emparedada da rua Nova" ou da "moça de branco" no sítio de Bento José da Costa revela a repressão feminina. No caso da "Encanta-Moça", uma "iaiá branca" se encanta nos mangues para fugir de um marido ciumento e malvado. Freyre nota que essas mulheres muitas vezes se transformam em figuras sedutoras e perigosas, como a "Alamoa", uma fantasma loira e nua que enfeitiça homens para depois desmanchar-se em um "gelo de morte".

O autor discute a "mula-sem-cabeça" como uma punição mística específica para as mulheres que mantinham relações com clérigos. Segundo a crença popular, as "barregãs de padre" deixavam suas cabeças em casa e corriam pelos ermos como corpos abrutalhados de mulas, arrastando cadeias e escoiceando no escuro. Sociologicamente, essa assombração funciona como um mecanismo de controle moral da comunidade sobre a conduta sexual feminina e a integridade da Igreja.

A transição para a modernidade é marcada pelo desaparecimento de nomes tradicionais em prol de uma lógica "progressista" que Freyre critica veementemente. Ele cita o Instituto Arqueológico de Pernambuco, que permitiu a mudança do nome do campo de aviação de "Encanta-Moça" para "Santos Dumont" por considerar o primeiro "vergonhosamente arcaico". Para Freyre, essa substituição é um erro histórico, pois uma lenda "mente às vezes menos do que um documento" e carrega a alma coletiva de uma cidade que os historiadores "rasteiros" não conseguem enxergar.

O Recife antigo, com suas ruas de nomes evocativos como a "Rua dos Sete Pecados Mortais", oferecia um mapa espiritual que a modernidade tentou burocratizar. Freyre argumenta que essa "história íntima" é composta por "restos de guerras frias entre culturas" — europeia, africana e ameríndia — que encontraram no sobrenatural um espaço de coexistência e síntese. O sobrenatural recifense é, portanto, o subproduto de um caldeirão étnico onde as almas penadas dos senhores e os zumbis dos escravos continuam a compartilhar o mesmo espaço urbano.

Gilberto Freyre descreve como figuras da elite intelectual e médica, como o Dr. Martins Júnior, envolveram-se com o sobrenatural, desafiando a dicotomia entre o "direito positivo" e a "poesia científica". Um episódio emblemático narra uma sessão mediúnica em que o falecido escritor Raul Pompéia teria enviado uma mensagem cifrada a Martins Júnior: "Reúna a tropa, emende os braços e acostele-os de uma só vez". Este evento ilustra como o misticismo permeava até os ambientes mais tecnicistas, como consultórios médicos repletos de instrumentos cirúrgicos europeus, sugerindo que a ciência no Recife não conseguia ignorar o convívio com os mortos.

O autor também destaca a figura do Dr. Dornelas, um médico negro que, após sua morte, tornou-se um dos espíritos mais invocados na região. Dornelas personifica a fusão entre a ciência formal e o saber ancestral; em vida, ele teria diagnosticado a tuberculose de uma moça aristocrata apenas por uma "cusparada" que ela lhe lançou no chapéu, um ato interpretado pela lenda como uma mistura de olho clínico e premonição sobrenatural. Sociologicamente, o culto às "receitas do Dr. Dornelas" demonstra como a população recifense mantinha uma relação de dependência com curadores que transcendiam a barreira entre a vida e a morte.

A análise se estende ao fenômeno das assombrações como sinalizadoras de eventos políticos e sociais traumáticos. Freyre relata o caso do "vulto do salão nobre" no Palácio do Governo de Pernambuco, uma "assombração premonitora" que surgiria para anunciar desgraças iminentes aos governantes. Este vulto teria aparecido a Estácio Coimbra antes da Revolução de 1930, reforçando a ideia de que o sobrenatural atua como um registro histórico paralelo às crises institucionais. Para Freyre, essas aparições não são meras alucinações, mas formas de "socialidade" em que o passado político insiste em manifestar sua presença nos espaços de poder.

A transição entre o mundo dos objetos e o mundo das sombras é exemplificada no "cemitério de carros" da Casa Agra. Freyre descreve coches de luxo, outrora brilhantes em carnavais e enterros de gala, agora tristonhamente parados em cocheiras ermas na Rua do Sossego. Nesses veículos mortos, como o cupê de uma condessinha, dizia-se ouvir o "ruge-ruge" de sedas finas, transformando o objeto material em um receptáculo de nostalgia e fantasmagoria. Esta relação com os objetos revela uma sociedade que atribui alma não apenas aos homens, mas aos próprios símbolos de seu status e lazer.

Finalmente, o autor aborda a persistência da fé através do "santo Bom Jesus dos Passos", que teria aparecido no Recife disfarçado como um velhinho pedindo abrigo. A transformação do velho em imagem sagrada após ser acolhido na igreja do Corpo Santo reforça o caráter sagrado e, ao mesmo tempo, cotidiano do sobrenatural recifense. Essas narrativas sugerem que a identidade da cidade é construída sobre uma base onde o divino e o demoníaco caminham pelas mesmas ruas, moldando uma cultura que aceita o mistério como parte integrante da realidade sociológica.

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