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Resenha: O Corpo Sente: Como as emoções afetam a saúde do corpo

O presente volume, "O Corpo Sente: Como Suas Emoções Afetam a Saúde do Seu Corpo, um Estudo Clínico", de Vitor Zindacta, é uma obr...

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O Paradoxo da Legitimidade Literária: Uma Análise Crítica da Hegemonia Canônica e a Emergência de Obras Subversivas na Pós-Modernidade

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A Crise do Humano Narrador: Intersecções Entre o Imaginário Distópico e a Subversão da Autoria pela Inteligência Artificial na Literatura Contemporânea

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A Síndrome de Burnout no Âmbito Laboral Brasileiro: Implicações Jurídicas, Direitos do Empregado e Responsabilidade Empresarial

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Pré-venda: romance lésbico, mistério e nostalgia millennial marcam estreia de Rai Gradowski

Divulgação Em “Cercas Vivas” (Editora Zouk), autora explora memória, amadurecimento e dilemas afetivos a partir da herança de uma casa ...

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Pesquisadora mostra como patriarcado e a violência de gênero apaga mulheres em novo livro

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Ana Paula Couto explora maturidade feminina com humor e sensibilidade

  "Escrevo para mulheres que, como eu, descobriram na maturidade o direito de ser imperfeitas e felizes.” Ana Paula Couto, autora de “A...

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Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

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Resenha: O Corpo Sente: Como as emoções afetam a saúde do corpo


O presente volume, "O Corpo Sente: Como Suas Emoções Afetam a Saúde do Seu Corpo, um Estudo Clínico", de Vitor Zindacta, é uma obra seminal que estabelece um quadro teórico e protocolar robusto para o desmantelamento do dualismo cartesiano na medicina moderna. O texto se posiciona na fronteira da Psiconeuroimunologia (PNI), fornecendo uma investigação clínica detalhada e fundamentada sobre a complexa rede de comunicação entre os sistemas psíquico, nervoso e imunológico. A obra transcende a mera descrição de sintomas para atacar a "raiz subterrânea" das doenças crônicas: a Carga Alostática.

I. Fundamentos Teóricos: A Carga Alostática como Mecanismo Unificador da Patologia Crônica

A premissa central do estudo é que o sofrimento emocional se traduz em uma "resposta química e estrutural no corpo", sendo a Carga Alostática o biomarcador desse desgaste.

I.A. Definição e Mensuração da Carga Alostática

A obra define a Alostase como a capacidade de o corpo "atingir a estabilidade através da mudança" em resposta a estressores. A Carga Alostática é o "desgaste cumulativo que ocorre quando essa resposta de estresse falha em se desligar". O livro identifica o estressor crônico moderno, que "nunca vai embora" e "se disfarça de prazo de trabalho, dívida ou conflito não resolvido", como o motor desse desgaste.

O índice de Carga Alostática, conforme detalhado no Capítulo Dois, é mensurável através de um conjunto de biomarcadores que incluem: Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC), perfil de Cortisol Salivar (Ritmo Diel), Proteína C Reativa (PCR), glicose em jejum e pressão arterial. Uma pontuação elevada indica um "risco significativamente maior de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes e declínio cognitivo".

I.B. As Vias Biológicas do Estresse (PNI Triádica)

O texto mapeia a comunicação bidirecional entre os sistemas psíquico, nervoso e imunológico.

  1. Eixo Neuroendócrino (Eixo HPA): O cortisol e a adrenalina, liberados na resposta de sobrevivência, causam um efeito corrosivo quando cronicamente elevados. O cortisol elevado leva à Resistência à Insulina, à Obesidade Abdominal (gordura visceral) e à Neurotoxicidade no Hipocampo. A disfunção culmina no padrão de Cortisol Achatado ou Invertido, sinalizando "exaustão da glândula adrenal".

  2. Sistema Nervoso Autônomo (SNA): O desequilíbrio entre o SNS (Simpático) — "luta ou fuga" — e o SNP (Parassimpático) — "repouso e digestão" — é a essência da Carga Alostática. A dominância crônica do SNS se traduz em VFC Baixa ("rigidez" do SNA) e hipertensão. O principal mediador da resiliência é o Nervo Vago, que é o "mensageiro da calma".

  3. Inflamação Crônica e Imunológica: A inflamação sistêmica, medida pela PCR-as, é a "raiz subterrânea" que conecta a maioria das doenças. O livro estabelece que a inflamação é o motor da Depressão, da Autoimunidade e do envelhecimento acelerado (encurtamento dos Telômeros).

II. Aplicações Clínicas: A Carga Alostática em Doenças Crônicas

O livro dedica capítulos específicos para demonstrar como o conceito de Carga Alostática se aplica a diferentes patologias, recontextualizando o diagnóstico.

II.A. Dor Crônica e Fadiga Extrema (Cap. 3, 18)

A Fibromialgia (FM) e a Síndrome da Fadiga Crônica (SFC) são enquadradas como "condições de desregulação crônica do sistema de estresse".

  • Mecanismo: A Carga Alostática induz a Sensibilização Central, onde o sistema nervoso amplifica os sinais de dor e fadiga. A Neuroinflamação (inflamação cerebral) rebaixa o limiar da dor.

  • Disfunção Energética: A SFC é marcada pela Disfunção Mitocondrial, um colapso na produção de ATP (energia celular) impulsionado pela inflamação crônica. O sintoma de Mal-Estar Pós-Esforço (PEM) é a prova de um "colapso da Alostase".

  • Dor Pélvica Crônica (DPC): Condições como a Endometriose e Cistite Intersticial (CI) são vistas como disfunções do SNA. A dor é amplificada pela Sensibilização Central e a tensão crônica do Assoalho Pélvico é uma manifestação de "congelamento" (resposta de defesa) induzida pelo trauma.

II.B. Saúde Mental e Neuroinflamação (Cap. 4, 19)

O livro advoga a Hipótese Inflamatória da Depressão, onde a doença é uma "doença inflamatória com manifestações psiquiátricas".

  • Mecanismo: Citocinas inflamatórias ativam a Micróglia (células imunes do cérebro) e desviam o metabolismo do Triptofano para o Ácido Quinolínico (neurotoxina), "roubando os blocos de construção da felicidade" (Serotonina).

  • Dano Estrutural: A inflamação suprime o BDNF, levando à "atrofia do Hipocampo", uma "lesão estrutural".

  • Demência (Alzheimer): A Doença de Alzheimer é redefinida como "Diabetes Tipo 3", impulsionada pela Resistência à Insulina Cerebral e a Neuroinflamação que acelera o acúmulo de placas de Beta-Amiloide.

II.C. Autoimunidade e Tolerância (Cap. 5, 21)

A autoimunidade é o resultado da falha na capacidade de o corpo manter a tolerância.

  • Mecanismo: O estresse crônico induz a Resistência ao Cortisol, liberando o sistema imunológico para inflamar. O Leaky Gut (permeabilidade intestinal) permite que toxinas bacterianas (LPS) e proteínas alimentares entrem na circulação, causando Mimetismo Molecular, onde o sistema imune ataca tecidos próprios (e.g., Tireoide de Hashimoto).

  • Polarização: O estresse sabota as Células T Reguladoras (Tregs), o "exército da paz", permitindo que as vias Th1, Th2 e Th17 ataquem livremente.

III. O Protocolo de Restauração da Alostase: Intervenção Integrada (Cap. 7-15)

O "Protocolo de Restauração da Alostase" é o roteiro prático para o tratamento sistêmico, concentrando-se em seis pilares interconectados.

III.A. Pilar I: Regulação Neural (Vago e VFC)

O objetivo é restaurar a flexibilidade do SNA e aumentar a VFC.

  • Respiração de Coerência Cardíaca (RCC): Prática fundamental de 10 minutos, 3 vezes ao dia, com 5s de inspiração/5s de expiração. A expiração prolongada ativa o Nervo Vago, que libera Acetilcolina (o potente anti-inflamatório endógeno).

  • Biofeedback de VFC: Ferramenta clínica que permite ao paciente "modular sua biologia" e "transforma a intenção mental (respirar calmamente) em um resultado fisiológico mensurável".

  • Estimulação Vagal: O gargarejo vigoroso e a exposição controlada ao frio (banho frio) atuam como "reboot" e "mini-treino" para o Vago.

III.B. Pilar II e III: Reparo Bioquímico e Reversão da Inflamação (Dieta PNI)

O foco é silenciar a inflamação e selar o intestino.

  • Dieta Antidepressiva: É um "protocolo molecular anti-inflamatório" e não calórico.

    • Ômega-3 EPA: Prescrito em doses terapêuticas, pois age como um agente anti-inflamatório que promove a resolução de citocinas.

    • Polifenóis: (Curcumina, Resveratrol) atuam como inibidores do NF-B (o interruptor genético da inflamação) e "acalmam a Micróglia".

  • Cura Intestinal (Protocolo 4R): Essencial para selar o Leaky Gut.

    • Reparadores: L-Glutamina e Zinco para selar as Junções Apertadas.

    • Pós-bióticos: Fibras Prebióticas e Psicobióticos para maximizar a produção de Butirato. O Butirato é um agente epigenético que inibe a HDAC, promovendo a expressão do BDNF.

  • Suporte Adrenal: O uso de Adaptógenos (como Ashwagandha para Cortisol alto e Rhodiola para Cortisol achatado) é vital para normalizar o Eixo HPA. O Magnésio é o mineral crítico que reforça o GABA e protege contra o esgotamento.

III.C. Pilar IV: Movimento e Cronoterapia

O foco é a programação PNI para o crescimento neural e o reparo.

  • Movimento como Remédio: O exercício é o "indutor mais eficaz" do BDNF, promovendo a Neurogênese. O Treinamento de Força é crucial para combater a Resistência à Insulina e construir reserva metabólica. Para a SFC, o Pacing adaptativo é obrigatório para evitar o PEM.

  • Cronoterapia do Sono: O sono é a "janela de reparo". A Luz Matinal zera o relógio circadiano, e o Corte da Luz Azul (90 minutos antes de dormir) otimiza a liberação de Melatonina, que é o principal agente anti-inflamatório e antioxidante noturno. A limpeza cerebral (Sistema Glinfático) ocorre no Sono Profundo.

III.D. Pilar V: Integração Psicossocial (Vínculo e Trauma)

Este pilar desativa o estressor primário: a ameaça social e o trauma.

  • Trauma: O trauma crônico (ACEs) é uma "lesão biológica" que programa o Eixo HPA para a hipersensibilidade.

    • Terapia Neural: EMDR e Somatic Experiencing (SE) são usadas para "reprogramação da PNI" e "liberar a energia de luta/fuga que ficou presa no corpo".

  • Vínculo e Segurança: A Conexão Segura e o toque ativam a liberação de Oxitocina, que é o "antagonista direto do cortisol". O isolamento é um estressor que cria um "padrão de vigilância inflamatória" (CTRA).

  • Metacognição: Mindfulness e Perdão são intervenções PNI que fortalecem o Córtex Pré-Frontal (CPF) e "desligam a resposta fisiológica de ameaça".

IV. Fronteiras da PNI: Epigenética e Longevidade (Cap. 16, 17)

A obra se aprofunda nos mecanismos moleculares que ligam o comportamento ao destino genético.

IV.A. Epigenética: O Legado do Estresse

O livro prova que a Epigenética é a "memória biológica" do estresse. O estresse crônico (Carga Alostática) atua como um modificador epigenético, levando à metilação (silenciamento) do Gene do Receptor de Glicocorticoide (GR), o "freio" do Eixo HPA. O trauma pode ser transmitido para a próxima geração, mas o Protocolo de Restauração da Alostase é um "programa de reprogramação epigenética" que pode reverter o silenciamento.

IV.B. Longevidade: O Telômero como Biomarcador PNI

O envelhecimento é a manifestação tardia da Carga Alostática. O encurtamento telomérico, acelerado pela inflamação e pelo estresse oxidativo, é o "biomarcador supremo do desgaste PNI".

  • Reversão: A PNI demonstrou que a atividade da enzima Telomerase pode ser aumentada e o encurtamento telomérico revertido através da adesão ao Protocolo: Mindfulness, Exercício Moderado e Dieta Anti-inflamatória. A Restrição Calórica (Jejum Intermitente) ativa a Autofagia, que recicla células danificadas.

V. Estudos de Caso e Integração (Cap. 23, 24)

O livro utiliza estudos de caso (Sofia e Marcos) para demonstrar a aplicação clínica do protocolo. Sofia, com SII, ansiedade e Resistência à Insulina, ilustra a desregulação do SNS e o Cortisol Achatado. Marcos, com crises de pânico e Fadiga Adrenal, demonstra a "Falha Alostática", onde o sistema de defesa está esgotado.

O tratamento, em ambos os casos, não se resume à medicação, mas sim à Regulação Neural (VFC), à Terapia do Trauma (SE) e ao Suporte Adrenal/Mitocondrial (Adaptógenos/Magnésio).

Em conclusão, "O Corpo Sente" estabelece um novo paradigma de saúde, exigindo que a medicina "não perguntará 'O que está errado com você?', mas sim 'O que aconteceu com você?'". A cura é definida como a Restauração da Alostase, um processo em que o indivíduo recupera a "autonomia biológica" e a capacidade do corpo de se reparar, sinalizando que "o perigo, finalmente, passou". A PNI transforma a saúde em uma "ciência preditiva e preventiva".

O Paradoxo da Legitimidade Literária: Uma Análise Crítica da Hegemonia Canônica e a Emergência de Obras Subversivas na Pós-Modernidade

Imagem: Sistema Etapa

A Literatura, como campo de produção simbólica, constitui um vetor fundamental na formação do imaginário social e na validação de determinadas epistemes, transcendendo a mera expressão estética. O conceito de Cânone Literário, doravante tratado como o corpus textual oficialmente legitimado e ensinado, tem sido classicamente defendido por Harold Bloom (1994) como uma seleção vitalícia das melhores obras. Contudo, a crítica sociológica, baseada em Pierre Bourdieu e sua análise do Campo Literário, revela que o Cânone opera intrinsecamente como um dispositivo de poder hegemônico, estabelecendo barreiras de acesso e validação para vozes e estéticas não alinhadas ao status quo cultural, muitas vezes de matriz ocidental, masculina e branca. Este artigo propõe a desconstrução do Cânone Hegemônico (CH), demonstrando que a exclusão de determinadas obras não se baseia unicamente em seu mérito estético, mas sim em sua potencialidade subversiva e ruptural, que desafia as estruturas de poder. A emergência de um Anticânone, composto por textos que promovem a ruptura epistemológica e a polifonia identitária, configura-se, portanto, como um imperativo sociocultural da Pós-Modernidade, exigindo uma investigação profunda dos mecanismos de exclusão e da relevância política do texto marginalizado.

O Cânone, nesta perspectiva, deve ser entendido como um capital simbólico acumulado. Bourdieu (1983) argumenta que o valor de uma obra está indissociavelmente ligado ao seu campo de produção e circulação. No Campo Literário brasileiro, a legitimação esteve historicamente concentrada em instituições como a Academia Brasileira de Letras (ABL) e em circuitos editoriais e acadêmicos dominantes, que atuam como filtros. Esta exclusão opera sob a máscara da qualidade estética, um mecanismo sutil onde obras que questionam a linguagem padrão, que não se enquadram nos gêneros reconhecidos (como a Literatura Periférica ou a Ciência Ficção com viés político) ou que veiculam ideias políticas não conformes são sistematicamente classificadas como de "menor valor" ou "engajadas demais", conforme a análise de Antonio Candido sobre o processo de formação da literatura nacional. Este filtro ideológico não visa a pureza estética, mas a reprodução simbólica de uma classe ou visão dominante. Adicionalmente, a crítica acadêmica reforça esta estrutura, pois ao privilegiar autores já consagrados, endossa a estrutura canônica e retira visibilidade a pesquisas sobre o não-canônico. Edward Said (1978), em sua análise do Orientalismo, oferece um framework para entender como a produção de conhecimento, aqui representado pelo cânone, atua como instrumento de dominação e silenciamento de vozes periféricas ou dissidentes.

Um estudo de caso paradigmático da emergência do Anticânone no Brasil é a Poesia Marginal e Experimental, notadamente a produção ligada à Geração Mimeógrafo nos anos 1970, e a subsequente Literatura Periférica. Esta vertente representa uma ruptura estética e política. A poesia de autores como Ana Cristina Cesar ou a obra inicial de Paulo Leminski foi, por princípio, avessa à institucionalização, e sua forma de circulação (mimeógrafo, panfletos, livros artesanais) constituiu uma crítica direta ao monopólio das grandes editoras. Esta estética subversiva prioriza a oralidade, a fragmentação e o cotidiano antipoético, opondo-se ao formalismo e ao lirismo romântico que permeia o Cânone Hegemônico. De forma ainda mais contundente, a Literatura Periférica, surgida em comunidades de baixa renda (ex: Sarrafo, Cooperifa), evidencia o risco político do Anticânone. Obras como as de Paulo Lins (Cidade de Deus) ou de Ferréz trazem para o centro do debate a questão da violência estrutural, do racismo e da exclusão social com uma linguagem bruta e dialetal, muitas vezes chocante para o leitor tradicional. O risco da leitura destas obras reside na desnaturalização da realidade social e na exigência de uma resposta ética do leitor, um engajamento com o contexto concreto que o CH muitas vezes neutraliza ao focar em dilemas psicológicos e universais desvinculados do substrato social. O não-reconhecimento pleno destas obras no currículo escolar, portanto, é um ato de manutenção do silêncio social e da invisibilidade destas realidades.

Ademais, o Cânone Escolar, como principal instrumento de transmissão do CH, é um palco de tensões quando confrontado com a Literatura Feminista e a Literatura Indígena. A inclusão de obras que desafiam a perspectiva patriarcal e colonialista gera resistência institucional, pois expõe falhas estruturais. Obras de literatura feminista, como as de Clarice Lispector (que foi inicialmente marginalizada pela crítica masculina de sua época) ou a produção contemporânea que dialoga abertamente com a teoria de gênero, expõem o machismo estrutural e o silenciamento feminino. A dificuldade em adotar textos de Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo) ou Virginia Woolf (Um Teto Todo Seu) como leituras obrigatórias reside na necessidade de revisão crítica dos modelos sociais e familiares vigentes; o risco é a emancipação do leitor jovem através da consciência de gênero. Da mesma forma, a literatura de autoria indígena (ex: Ailton Krenak, Daniel Munduruku) não é apenas um novo objeto de estudo, mas uma contranarrativa à história oficial do Brasil. Estes textos subvertem a noção europeia de tempo, de natureza e de propriedade, sendo cruciais para a descolonização do saber, conforme defende a crítica pós-colonial. Sua inclusão é uma necessidade epistemológica, pois desfazem a ilusão de uma cultura homogênea e canônica, confrontando o leitor com a diversidade radical de cosmologias. O embasamento desta seção pode ser enriquecido por documentários sobre o movimento literário periférico (Slam e Batalhas de Poesia) e por estudos de caso em escolas que adotaram livros com temas controversos, analisando as reações institucionais e comunitárias.

Em síntese, o Cânone Hegemônico é, em essência, um instrumento de conservação. A literatura subversiva – o Anticânone – é o motor de renovação e democratização do campo literário. O risco destas obras é precisamente sua força: elas convidam o leitor a questionar as bases de sua própria realidade e estrutura de poder. Para uma abordagem curricular mais plural e crítica nas Letras, é imperativo adotar a perspectiva interseccional, reconhecendo o mérito estético e a relevância política daquelas vozes historicamente marginalizadas, superando o reducionismo estético. Apenas através deste engajamento crítico com o que foi excluído é que a Literatura cumprirá seu papel de crítica e transformação social, garantindo que o acervo simbólico da nação reflita sua complexidade e contradições.


Referências 


  • BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola do Tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 1994.

    BOURDIEU, Pierre. O Campo Literário: Ensaios sobre o Funcionamento e a Estrutura da Vida Literária. São Paulo: Edusp, 1998.

  • CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos. 8. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2008.

  • CRENSHAW, Kimberlé Williams. Mapping the Margins: Interesectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, p. 1241-1299, 1991.

  • SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

  • SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas: Forma Literária e Processo Social em Machado de Assis. 5. ed. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000.

  • WOOLF, Virginia. Um Teto Todo Seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.

A Crise do Humano Narrador: Intersecções Entre o Imaginário Distópico e a Subversão da Autoria pela Inteligência Artificial na Literatura Contemporânea

Foto: Fest Company Brasil

A Literatura Distópica, definida por Tom Moylan 2000 como uma forma narrativa que confronta o leitor com as ameaças e as consequências do poder totalitário ou das falhas sistêmicas da sociedade contemporânea, adquire uma nova e perturbadora ressonância na era da Inteligência Artificial IA Generativa. A tese central deste artigo sustenta que a IA não é apenas um novo tema literário, mas a concretização tecnológica do controle totalitário previsto pela distopia, impulsionando uma crise fundamental no conceito de autoria e na relação intrínseca entre o humano e a narrativa. Neste conto, a análise da IA como personagem e, mais criticamente, como co-autor, revela o surgimento de uma Autoria Algorítmica que desestabiliza as premissas filosóficas estabelecidas por Jacques Derrida sobre o traço e a autoria. O debate sobre a IA transcende a ficção científica, tornando-se uma questão de Ontologia da Criação.

A IA se manifesta na literatura contemporânea tanto como profecia distópica quanto como agente ativo. Em obras clássicas como 1984 de Orwell ou Admirável Mundo Novo de Huxley, o controle era exercido por estruturas políticas e biológicas; contudo, a realidade atual apresenta um controle sutil e pervasivo, mediado pelo Big Data e pela Vigilância Digital. Filmes e séries como Blade Runner Black Mirror servem como referências para ilustrar como a IA se tornou o agente narrativo de opressão, operando através de algoritmos que predizem, regulam e punem. A distopia, historicamente uma forma de alerta social, agora se depara com a iminência da realização de suas próprias previsões. A diferença crucial reside no fato de que o totalitarismo atual não se impõe pelo terror visível, mas pela comodidade algorítmica.

O debate se deu ao considerar a IA como ferramenta e co autor, abordando o problema da agência criativa. O surgimento dos Generative Pré-trained Transformers GPTs, modelos de linguagem avançada, permite a criação de os que mimetizam a voz e o estilo humanos com alta fidelidade. A análise de os gerados por AÍ, sejam eles poesia experimental ou contos curtos, levanta a questão fundamental: Onde começa e termina a autoria humana no prompt? Tecnólogos e críticos, embasados em artigos técnicos sobre LP Natural Language Processing, argumentam que o escritor se torna um curador, um "engenheiro de prompt", que orienta o processo, mas não o executa na sua totalidade. No entanto, a crítica humanista questiona se a literatura pode ser reduzida a um processamento estatístico de sequências de palavras, argumentando que a intencionalidade, a experiência existencial e o'traço singular do autor, elementos centrais na filosofia da linguagem, são irrecuperáveis pela máquina.

As implicações para a cadeia produtiva do livro são vastas, abarcando as dimensões econômica, legal e estética. Economicamente, a capacidade da IA de gerar conteúdo em massa ameaça desvalorizar a produção ual humana, saturando o mercado com commodities narrativas e forçando uma reavaliação do trabalho do escritor profissional. Legalmente, a legislação de Copyright e Propriedade Intelectual como a debatida na WIPO e nas propostas de regulamentação europeias enfrenta um impasse sobre quem detém os direitos autorais de um o gerado por máquina: o programador, o usuário do prompt, ou a própria máquina, se esta for considerada um "inventor" no futuro. Esteticamente, o futuro da criatividade é incerto: a escrita se tornará um ato de resistência humana e de valorização da imperfeição e da singularidade, ou a IA será catalisadora de novas formas artísticas, liberando o humano para o papel de arquiteto conceitual? O embate entre a Escassez da obra de gênio e a Abundância do o algorítmico reescreve as regras do mercado editorial.

Em suma, a profecia da distopia se concretiza no desafio existencial que a IA impõe ao conceito de Gênio Criador. O Bitcoin representa o desafio tecnológico à moeda fiduciária, e a IA, de maneira análoga, representa o desafio tecnológico à moeda fiduciária da criatividade: a autoria humana. A crise da autoria é um teste de estresse para a humanidade, que precisa redefinir o que constitui valor e singularidade na produção artística. A superação desta crise exigirá não o abandono da tecnologia, mas a revalorização da escrita como práxis existencial, um ato carregado de corpo, experiência e, sobretudo,erro humano, elementos que o algoritmo, por mais sofisticado que seja, ainda não conseguiu simular de forma convincente. A literatura do futuro será definida não pelo que a IA pode escrever, mas pela forma como o humano escolherá reagir a essa inevitável coautoria algorítmica.

_____________________________________________________________________________

  • BLOOM, Harold. The Western Canon: The Books and School of the Ages. New York: Riverhead Books, 1994.

  • GIBSON, William. Neuromancer. New York: Ace Books, 1984.

  • MOYLAN, Tom. Scraps of the Untainted Sky: Science Fiction, Utopia, Dystopia. Boulder: Westview Press, 2000.

  • ORWELL, George. Nineteen Eighty-Four. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1949.

  • DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. Campinas: Papirus, 1991. Para discussão sobre autoria e traço.

  • SUTTON, John. The neural representation of narrative fiction: a cognitive and neuroscientific approach. Journal of Cognitive Neuroscience, v. 28, n. 11, p. 1655-1668, 2016. Para embasamento em neurociência da narrativa.

  • WIPO World Intellectual Property Organization. Artificial Intelligence and Intellectual Property: Policy Issues. Geneva: WIPO, 2019. Para embasamento legal e técnico.

A Síndrome de Burnout no Âmbito Laboral Brasileiro: Implicações Jurídicas, Direitos do Empregado e Responsabilidade Empresarial


Foto: ABM

A Síndrome de Burnout (Esgotamento Profissional) emergiu, nas últimas décadas, de um mero constructo psicossocial para uma entidade clínica de relevância jurídica incontestável no Direito do Trabalho brasileiro. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e incorporada na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o Burnout é conceituado como uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso.

No Brasil, a jurisprudência e a legislação previdenciária consolidaram o entendimento de que, uma vez comprovado o nexo causal entre o diagnóstico e a atividade laboral, o Burnout se equipara a uma doença ocupacional ou acidente de trabalho. Tal equiparação transcende a esfera médica, estabelecendo um complexo quadro de deveres para o empregador e de direitos para o empregado, com profundas implicações na responsabilidade civil e na estabilidade do vínculo empregatício.

O presente artigo visa analisar, em tom acadêmico e coeso, o contexto jurídico-laboral do Burnout no Brasil, detalhando os direitos assegurados ao trabalhador e as obrigações impostas à empresa, além de delinear as condutas recomendadas e as ações a serem evitadas por ambas as partes.

I. O Reconhecimento da Síndrome de Burnout como Doença Ocupacional

1.1. Classificação e Natureza Jurídica

O ponto de partida para a análise jurídica é o reconhecimento formal do Burnout. A CID-11 o inclui na categoria QD85, definindo-o por três dimensões:

  1. Exaustão ou esgotamento de energia.

  2. Aumento do distanciamento mental do trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho.

  3. Redução da eficácia profissional.

Embora a OMS o classifique como um "fenômeno ocupacional" e não uma "condição de saúde", para fins de direito previdenciário e trabalhista brasileiro, a síndrome é enquadrada no Anexo II do Decreto n.º 3.048/99, sendo considerada uma doença do trabalho (art. 20, I, da Lei n.º 8.213/91), desde que haja a comprovação do nexo causal com as condições de trabalho.

1.2. O Nexo Causal e a Responsabilidade Objetiva e Subjetiva

A comprovação do nexo causal (nexo técnico epidemiológico previdenciário – NTEP) é crucial. O NTEP presume a relação entre a doença e a atividade econômica da empresa (CNAE). Contudo, no contexto do Burnout, a prova da origem laboral muitas vezes exige uma análise pericial aprofundada das condições de trabalho (cobrança excessiva, metas inatingíveis, assédio moral, jornadas exaustivas, falta de recursos).

A responsabilidade do empregador pode ser:

  • Objetiva: Nos casos de atividades de risco acentuado (art. 927, parágrafo único, do Código Civil), onde o nexo causal é suficiente.

  • Subjetiva: Na maioria dos casos, baseada na culpa ou dolo da empresa (art. 186 e 927 do Código Civil), demonstrando-se que a negligência patronal (omissão de medidas preventivas) foi determinante para o desenvolvimento da síndrome.

II. Direitos Assegurados ao Empregado Diagnosticado com Burnout

O reconhecimento do Burnout como doença ocupacional confere ao trabalhador uma série de direitos, a maioria dos quais são específicos de quem adquire uma patologia em razão do trabalho (Auxílio-Doença Acidentário – B-91), e não de uma doença comum (Auxílio-Doença Comum – B-31).

2.1. Afastamento e Benefícios Previdenciários

  1. Afastamento Remunerado: Nos primeiros 15 (quinze) dias de afastamento, o salário integral é de responsabilidade da empresa (art. 60, §3º, da Lei n.º 8.213/91).

  2. Auxílio-Doença Acidentário (B-91): Se o afastamento superar 15 dias, o empregado passa a receber o benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O código B-91 é vital, pois:

    • Mantém o recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) pela empresa durante todo o período de afastamento, sem necessidade de contribuição do trabalhador (art. 15, §5º, da Lei n.º 8.036/90).

    • Garante o cômputo do tempo de afastamento para fins de aposentadoria.

2.2. Estabilidade Provisória no Emprego

Um dos direitos mais significativos é a garantia provisória de emprego. Após a cessação do benefício previdenciário (alta médica) e o retorno ao trabalho, o empregado tem direito à estabilidade de 12 (doze) meses (art. 118 da Lei n.º 8.213/91). Durante este período, a demissão sem justa causa é vedada, sob pena de reintegração ou indenização correspondente ao período restante da estabilidade.

2.3. Rescisão Indireta e Indenizações

  1. Rescisão Indireta: Se a doença for resultado da inércia ou omissão da empresa em cumprir as normas de segurança e saúde, ou se o empregador submeter o trabalhador a condições insalubres (como assédio moral), o empregado pode pleitear a rescisão indireta do contrato (art. 483, alíneas "a", "b", "c" e "d" da CLT). Isso equivale a uma demissão sem justa causa por iniciativa do empregador, garantindo ao trabalhador o recebimento integral de todas as verbas rescisórias, incluindo aviso prévio, multa de 40% sobre o FGTS e direito ao seguro-desemprego.

  2. Indenização por Danos Morais: Comprovada a culpa do empregador pelo adoecimento, o trabalhador pode buscar uma indenização por danos morais, visando compensar o sofrimento psíquico causado.

  3. Indenização por Danos Materiais: Inclui o ressarcimento de despesas médicas, medicamentos e terapias não cobertas pelo plano de saúde (danos emergentes) e, em casos de redução da capacidade laboral, a reparação por lucros cessantes (pensão mensal).

III. Deveres e Responsabilidades do Empregador na Prevenção do Burnout

A legislação brasileira impõe ao empregador a obrigação de garantir um meio ambiente de trabalho seguro e saudável, abrangendo a saúde física e mental. Esse dever é extraído de diversos dispositivos legais e constitucionais.

3.1. Normas Constitucionais e Infraconstitucionais

O art. 7º, XXII, da Constituição Federal estabelece a redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em seu art. 157, impõe às empresas o dever de cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho, o que, por extensão jurisprudencial, inclui a saúde mental.

3.2. Ações Práticas e Prevenção

O dever da empresa não é apenas de reagir ao diagnóstico, mas de ser proativa na prevenção. As obrigações práticas de uma gestão moderna e legalmente responsável incluem:

  1. Gestão de Carga Horária e Descanso:

    • Garantir o cumprimento da jornada de trabalho legal e dos limites de horas extras.

    • Estimular o respeito ao direito à desconexão (especialmente no regime de teletrabalho), proibindo cobranças e comunicação fora do horário.

    • Assegurar o usufruto de férias e intervalos intrajornada e interjornada.

  2. Avaliação Psicossocial de Risco:

    • Realizar avaliações ergonômicas e psicossociais regulares do ambiente de trabalho para identificar fatores de risco (metas abusivas, assédio, falta de autonomia).

    • Implementar programas de gestão de estresse e bem-estar.

  3. Treinamento de Lideranças:

    • Capacitar gestores e líderes para identificar sinais precoces de Burnout e para adotar uma cultura de liderança humanizada, evitando práticas de assédio e cobrança excessiva.

  4. Emissão da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho):

    • Ao constatar o nexo causal, a empresa tem o dever legal de emitir a CAT (Lei n.º 8.213/91, art. 22). A omissão na emissão pode gerar multa administrativa e é vista como indício de negligência em eventuais ações judiciais.

IV. O que Fazer e o que Não Fazer: Condutas Legais e Éticas

A natureza insidiosa do Burnout exige condutas éticas e legais específicas tanto do empregado quanto da empresa.

4.1. Condutas Recomendadas ao Empregado

O Que Fazer (Recomendado)O Que Não Fazer (Evitar)
Buscar Ajuda Médica Imediata: Obter laudo e atestado de um profissional (psiquiatra ou psicólogo) que estabeleça o diagnóstico e, idealmente, o nexo com o trabalho.Ignorar os Sintomas: A automedicação ou a tentativa de "aguentar" a situação pode agravar o quadro e dificultar a comprovação do nexo causal futuro.
Documentar Provas: Reunir e-mails de cobrança fora do horário, mensagens de texto, relatórios de horas extras não pagas, e testemunhos sobre o ambiente de trabalho (assédio, sobrecarga).Pedir Demissão (Rescisão Voluntária): Isso anula o direito à estabilidade, à multa de 40% do FGTS e ao seguro-desemprego, dificultando a via judicial.
Comunicar a Empresa (se possível): Informar o RH ou a CIPA sobre a situação. Isso reforça a prova de que a empresa tinha conhecimento do risco.Entrar em Conflito Aberto: Evitar confrontos diretos que possam ser usados pela empresa para caracterizar insubordinação ou desídia.
Exigir a CAT: Se afastado pelo B-91, o trabalhador deve exigir que a empresa emita a Comunicação de Acidente de Trabalho.Aceitar o B-31 (Auxílio-Doença Comum): Caso o INSS conceda o B-31 sem considerar o nexo, o trabalhador deve recorrer administrativa ou judicialmente para obter o B-91 e seus direitos.

4.2. Condutas Recomendadas à Empresa

O Que Fazer (Dever de Cuidado)O Que Não Fazer (Risco Legal)
Emitir a CAT (se cabível): Cumprir a obrigação legal ao ter ciência do diagnóstico com nexo causal, mesmo que discorde do laudo.Omitir a CAT: A não emissão é uma infração legal e um forte indício de negligência em um eventual processo judicial.
Promover o Remanejamento: Avaliar a possibilidade de realocar o empregado em uma função menos estressante ou readequar sua carga de trabalho.Pressionar o Empregado Afastado: Qualquer contato que vise pressionar o retorno, demitir o empregado doente ou ameaçar o emprego é ilegal e agrava o dano moral.
Investigar e Corrigir Fatores de Risco: Realizar auditoria interna no setor ou gerência apontada como causadora do Burnout para eliminar as fontes de estresse e assédio.Discriminar ou Retaliar: Punir, isolar ou demitir o empregado após o retorno do afastamento é característico de retaliação e viola a estabilidade provisória.
Oferecer Suporte Psicológico: Integrar o Plano de Saúde e o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) com foco na saúde mental.Transferir a Culpa (o Gaslighting Corporativo): Tentar atribuir o Burnout exclusivamente a fatores pessoais ou à "falta de resiliência" do empregado, ignorando as condições de trabalho.

Conclusão

O reconhecimento da Síndrome de Burnout como doença ocupacional impôs uma nova e necessária exigência ao Direito do Trabalho brasileiro. Não se trata apenas de uma questão de saúde individual, mas de um reflexo da gestão do capital humano.

O ordenamento jurídico brasileiro, com base na Constituição Federal, na CLT e na Lei Previdenciária, estabeleceu um sólido quadro de proteção ao trabalhador, garantindo-lhe direitos essenciais como estabilidade provisória, recolhimento de FGTS e benefícios previdenciários acidentários.

Para o empregador, a omissão ou a negligência no dever de garantir um ambiente de trabalho saudável e seguro acarreta severa responsabilidade civil e trabalhista. A prevenção, por meio de uma gestão ética, transparente e atenta aos riscos psicossociais, deixou de ser um diferencial corporativo para se tornar uma imposição legal e um imperativo de sustentabilidade empresarial. Em última análise, a discussão sobre o Burnout no Brasil é a manifestação da busca por um ambiente laboral que concilie produtividade com a dignidade da pessoa humana.

Pré-venda: romance lésbico, mistério e nostalgia millennial marcam estreia de Rai Gradowski

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Em “Cercas Vivas” (Editora Zouk), autora explora memória, amadurecimento e dilemas afetivos a partir da herança de uma casa

"Um romance com uma voz original e uma história envolvente, que se desenrola em direções inesperadas."
Carol Bensimon, escritora, no blurb da obra

A escritora curitibana Rai Gradowski estreia na literatura com “Cercas Vivas” (Editora Zouk), romance que está em pré-venda e combina amadurecimento, dilemas morais e um vínculo interrompido pelos trânsitos da juventude. Narrado em primeira pessoa por Bianca, a obra acompanha a jovem que, ao herdar a casa da avó, precisa lidar com as memórias afetivas do lugar, revisitar os sentimentos da adolescência e enfrentar o mistério que envolve o passado familiar. O livro conta com texto de orelha da escritora Julia Dantas e blurb de Carol Bensimon.

Dividido em 18 capítulos, o livro se destaca pelo ritmo fluido, a linguagem visual e a construção de personagens que dialogam com experiências urbanas contemporâneas. O envolvimento da autora com a narrativa e com as personagens foi tão intenso que quase a impediu de finalizar a obra: “Comentei desse sentimento com minha namorada e ela me respondeu que elas iam começar a existir de verdade, nascendo pro mundo, e é o que está acontecendo agora”, celebra.

“Por reconhecer ali uma vivência lésbica perto da minha realidade, da minha geração, percebi que também era sobre isso que eu queria escrever, porque era isso que de certa maneira eu queria ler”, explica Rai.

Com linguagem fluida e coloquial, Rai imprime nas páginas uma ficção realista que explora dilemas morais e afetivos a partir de um enredo aparentemente cotidiano. Com referências que evocam o imaginário dos anos 1990 e 2000 — de cadernos da Tilibra a trilhas sonoras com The Calling —, “Cercas Vivas” dialoga diretamente com a geração millennial. Entre locadoras de filmes e tardes dividindo fones de ouvido, a narrativa revisita a adolescência, transformando memórias em um tecido literário que costura mistério, amadurecimento e identidade.

A ideia para “Cercas Vivas” surgiu em 2021, durante uma oficina de romance com a escritora Carol Bensimon. A ambientação em Curitiba nasceu da observação cotidiana: uma casa de esquina, vista de sua varanda, se transformou no cenário central da história. A partir daí, a trama foi lapidada em oficinas da Baubo, sob orientação das escritoras Julia Dantas e Cacá Joanello. O projeto amadureceu ao longo de dois anos até ser concluído em 2024.

Herdar uma história

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Herdar uma casa talvez seja o sonho de muita gente, mas para Bianca, protagonista da obra, significa muito mais do que ganhar autonomia: é também herdar uma história. “Retornar para um território da infância significa abandonar a posição de neta, descobrir a mulher que ela conheceu apenas sob o manto de avó e perceber que havia ali muito mais camadas de complexidade”, analisa Julia Dantas. “Dessas descobertas, surge para Bianca um dilema moral, e ela precisará tomar uma decisão capaz de afetar não apenas a sua vida, mas a de muitas a seu redor.”

Segundo Julia, o romance explora noções de identidade, pertencimento e justiça em uma narrativa que oscila entre intimidade e suspense:“‘Cercas Vivas’ transita entre o quintal de casa, o bairro afastado do centro e as mesas de bares. Rai constrói um cenário urbano, mas fincado na natureza, e um ritmo dinâmico, mas marcado pelas hesitações da incerteza.”
Sobre a autora

Rai Gradowski nasceu em 1989, em Curitiba (PR), onde vive até hoje. É advogada formada pela UFPR (2018) e especialista em Escrita Criativa pela PUCRS (2025). Também é graduada em Farmácia (PUCPR, 2011) e mestre em Farmacologia (UFPR, 2013).

Desde 2021, assina a coluna de autoficção .docx, publicada no Curitiba Cult e no Substack. Em 2023, teve o conto Imposições selecionado para a coletânea Imagens de Coragem (Editora Patuá). Em 2025, o conto Cascas foi selecionado no concurso II Novas Leituras Curitibanas, e publicou na coletânea organizada por Ana Emília Cardoso, “Curitiba Inimaginável” (Arte&Letra), ao lado de escritores da cena curitibana como Dalton Trevisan, Giovana Madalosso, Cristovão Tezza, Pedro Guerra, Laís Graf, Luiz Felipe Leprevost e Pedro Jucá.

Entre suas influências literárias estão Carol Bensimon, Julia Dantas, Natália Borges Polesso, além de autoras internacionais como Bernardine Evaristo, Samantha Schweblin e Fernanda Melchor.

“Cercas Vivas” está disponível no site da Editora Zouk: www.editorazouk.com.br
Trecho do livro:

“Ao lado da cama, estico os braços e arranco os lençóis e jogo tudo embolado perto da janela. Vejo a topografia meio apagada do corpo miúdo de vó Luci no colchão. (...) Já é quase fim de tarde da sexta-feira quando a carreta buzina na frente de casa. A cama nova tem previsão de chegada só depois do final de semana, mas eu precisava calar o rangido dos estrados agora.”

Pesquisadora mostra como patriarcado e a violência de gênero apaga mulheres em novo livro

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Em “Por que nos querem esquecidas?”, fruto da tese de doutorado pesquisadora da UFCA Vitória Gomes, mostra como a exclusão das mulheres na história é uma política de dominação que precisa ser desfeita

Resultado da tese de doutorado e com atualizações de pesquisas feitas nos últimos três anos, Vitória Gomes lança “Por que nos querem esquecidas? Patrimônios, matrimônios e a descolonização da memória” (Editora da Universidade Estadual do Ceará, 2025, 290 págs.), obra que mergulha nas relações entre gênero, memória e colonialidade, propondo uma reflexão urgente sobre como as estruturas de poder têm perpetuado esquecimentos sistemáticos das mulheres, especialmente negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e com deficiências. O livro integra a Coleção Territórios de Criação, fruto do edital da Secretaria da Cultura do Ceará realizado via Lei Paulo Gustavo.


A obra surgiu de uma inquietação pessoal da autora. Ao estudar a etimologia da palavra “patrimônio” – que, da sociedade romana antiga, remete ao “pater familias”, aquilo que pertence ao pai e é transmitido por uma linhagem masculina –, Vitória questiona a utilização de um termo com raízes tão patriarcais para designar o que é culturalmente relevante para toda uma sociedade. “Como cresci rodeada por mulheres, sobretudo minha mãe e uma tia, cujas histórias envolviam pouca escolarização e exploração, o uso de uma palavra que omite, já na forma de nomeação, a atuação de qualquer pessoa que não seja homem, me fez chegar no doutorado querendo pensar sobre as relações de poder que geram esses apagamentos, a partir de uma perspectiva de gênero no campo da memória e dos patrimônios”, explica a autora.

A pesquisadora também está promovendo um curso com o tema "Por que nos querem esquecidas? Patrimônios e matrimônios em conceitos e disputas" em que aborda os temas da memória e do patrimônio com ênfase na dimensão de gênero e da descolonização. Com carga horária de 5 horas (divididas em quatro encontros on-line, via Google Meet), é voltado para estudantes, pessoas pesquisadoras, artistas e demais interessadas/os nos estudos de memória, gênero e patrimônio. Há bolsas disponíveis para pessoas negras, indígenas, trans e PCDs. As aulas iniciam no dia 20 de outubro e as inscrições estão disponíveis via Google Forms.


Livro propõe a descolonização da memória


Um dos argumentos do livro é que existe uma ligação direta entre a violência física e o apagamento histórico. Vitória desenvolve a tese de que o memoricídio – um apagamento sistemático da memória – e o feminicídio são duas faces da mesma moeda do patriarcado. “O feminicídio, o extremo da violência, atenta contra a vida das mulheres. Já o memoricídio é uma forma de extermínio das mulheres ao retirar seus lugares como sujeitas da história, silenciando suas contribuições para o desenvolvimento das sociedades”, analisa a pesquisadora. A obra evidencia como o apagamento na memória é uma política de dominação que impede a valoração e o reconhecimento das mulheres, diminuindo seu prestígio e status social.

A trajetória pessoal de Vitória é um fio condutor fundamental na narrativa. Nascida em Brasília (DF) e criada entre Valparaíso de Goiás e Juazeiro do Norte, no Ceará, ela encontrou na história de sua própria família a matéria-prima para suas reflexões. A mudança para o Cariri cearense, terra de sua família materna, a conectou com os saberes e fazeres tradicionais que mais tarde se tornaram tema de seu estudo.

Além de uma crítica bem-fundamentada, “Por que nos querem esquecidas?” é um convite à ação e à resistência. A autora defende a necessidade de debater coletivamente que tipo de memória e identidade queremos construir como sociedade, incluindo os diferentes grupos historicamente desconsiderados. O livro não propõe o abandono das políticas patrimoniais, mas sim seu aprimoramento. A obra é um importante instrumento para pensarmos em outras formas de recordar e valorizar, destacando o papel das mulheres como guardiãs e produtoras de artes, culturas e memórias.


Sobre a autora

Vitória Gomes é professora, pesquisadora e brincante. Integra o grupo de Coco São Francisco de Mestre Dodô e Mestre Joãozinho, em Juazeiro do Norte (CE). Doutora e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é professora na Universidade Federal do Cariri (UFCA), onde coordena o grupo de pesquisa SABERES. Em 2025, iniciou seu pós-doutorado em Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investigando memórias e saberes de mulheres no Programa de Saberes Tradicionais. Sua trajetória acadêmica e pessoal é profundamente marcada pelas culturas populares e pela luta contra o apagamento das memórias femininas.



FICHA TÉCNICA

Livro: “Por que nos querem esquecidas? Patrimônios, matrimônios e a descolonização da memória”

Autora: Vitória Gomes

Número de páginas: 290

ISBN: 978-65-83910-14-1

Gênero: Não-Ficção

Editora: coleção Territórios da Criação, da Editora da Universidade Estadual do Ceará

Ano: 2025

Aquisição da obra: o livro pode ser adquirido diretamente com a autora via formulário (https://forms.gle/JMDU2Civ6YAad9ZP7)

Ana Paula Couto explora maturidade feminina com humor e sensibilidade

 

"Escrevo para mulheres que, como eu, descobriram na maturidade o direito de ser imperfeitas e felizes.”

Ana Paula Couto, autora de “Amor de Manjericão” e “Amor de Alecrim”

A escritora e professora Ana Paula Couto lança "Amor de Alecrim", sequência de "Amor de Manjericão" (2022). O novo romance mergulha na vida de Amanda, uma mulher que, aos 50 anos, enfrenta desafios como crise conjugal, menopausa e a descoberta de novas paixões, tudo temperado pelo lirismo e pelo humor característicos da autora. 

"Quis retratar uma fase pouco explorada na literatura: a maturidade cheia de dúvidas, mas também de possibilidades", explica Ana. A protagonista, que no primeiro livro superou um divórcio e um affair com um homem mais jovem, agora se depara com a aposentadoria, os dilemas da maternidade e o reencontro com um amor do passado. "Amanda é toda mulher que precisou se reinventar. O alecrim, assim como o manjericão, simboliza essa jornada de autoconhecimento — às vezes mágica, às vezes prosaica, mas sempre verdadeira", reflete a autora.

O livro foi gestado a pedido dos leitores, que se identificaram com a franqueza da narrativa em “Amor de Manjericão”. "Recebi mensagens de mulheres dizendo: 'Isso aconteceu comigo!'. Percebi que havia tocado em feridas e alegrias coletivas", conta. A escrita passou por leituras críticas e ajustes até chegar à versão final. "Desta vez, trouxe Amanda mais dona de si, mas tão vulnerável quanto qualquer uma de nós", revela. A obra mantém a estrutura de chick-lit, com diálogos ágeis e um tom confessional que aproxima a personagem do público.

Além do entretenimento, "Amor de Alecrim" propõe reflexões sobre etarismo e invisibilidade feminina após os 50. "Nossas protagonistas são raras: mulheres reais, com rugas e histórias, que não se resumem a estereótipos", defende a autora. A narrativa incorpora elementos lúdicos — como uma curandeira especialista em chás —, mesclando realismo e fantasia. "São metáforas para os caminhos que percorremos em busca de respostas. Afinal, a vida também tem seu lado mágico", afirma.

Sobre a autora

Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de Língua Inglesa há mais de duas décadas, estreou na literatura em 2021 com participações em antologias como “Diário dos Confinados” (Editora Resilience). Seu primeiro romance, “Amor de Manjericão” (2022), foi pivô de sua transição para a carreira literária. Desde então, publicou os e-books “Conto Comigo” (contos) e “Vida Crônica” (crônicas) e participou de eventos como Flip e Bienais do Livro. “Amor de Alecrim” é seu segundo romance. "Escrevo para mulheres que, como eu, descobriram na maturidade o direito de ser imperfeitas e felizes", conclui.

Resenha: O Corpo Sente: Como as emoções afetam a saúde do corpo


O presente volume, "O Corpo Sente: Como Suas Emoções Afetam a Saúde do Seu Corpo, um Estudo Clínico", de Vitor Zindacta, é uma obra seminal que estabelece um quadro teórico e protocolar robusto para o desmantelamento do dualismo cartesiano na medicina moderna. O texto se posiciona na fronteira da Psiconeuroimunologia (PNI), fornecendo uma investigação clínica detalhada e fundamentada sobre a complexa rede de comunicação entre os sistemas psíquico, nervoso e imunológico. A obra transcende a mera descrição de sintomas para atacar a "raiz subterrânea" das doenças crônicas: a Carga Alostática.

I. Fundamentos Teóricos: A Carga Alostática como Mecanismo Unificador da Patologia Crônica

A premissa central do estudo é que o sofrimento emocional se traduz em uma "resposta química e estrutural no corpo", sendo a Carga Alostática o biomarcador desse desgaste.

I.A. Definição e Mensuração da Carga Alostática

A obra define a Alostase como a capacidade de o corpo "atingir a estabilidade através da mudança" em resposta a estressores. A Carga Alostática é o "desgaste cumulativo que ocorre quando essa resposta de estresse falha em se desligar". O livro identifica o estressor crônico moderno, que "nunca vai embora" e "se disfarça de prazo de trabalho, dívida ou conflito não resolvido", como o motor desse desgaste.

O índice de Carga Alostática, conforme detalhado no Capítulo Dois, é mensurável através de um conjunto de biomarcadores que incluem: Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC), perfil de Cortisol Salivar (Ritmo Diel), Proteína C Reativa (PCR), glicose em jejum e pressão arterial. Uma pontuação elevada indica um "risco significativamente maior de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes e declínio cognitivo".

I.B. As Vias Biológicas do Estresse (PNI Triádica)

O texto mapeia a comunicação bidirecional entre os sistemas psíquico, nervoso e imunológico.

  1. Eixo Neuroendócrino (Eixo HPA): O cortisol e a adrenalina, liberados na resposta de sobrevivência, causam um efeito corrosivo quando cronicamente elevados. O cortisol elevado leva à Resistência à Insulina, à Obesidade Abdominal (gordura visceral) e à Neurotoxicidade no Hipocampo. A disfunção culmina no padrão de Cortisol Achatado ou Invertido, sinalizando "exaustão da glândula adrenal".

  2. Sistema Nervoso Autônomo (SNA): O desequilíbrio entre o SNS (Simpático) — "luta ou fuga" — e o SNP (Parassimpático) — "repouso e digestão" — é a essência da Carga Alostática. A dominância crônica do SNS se traduz em VFC Baixa ("rigidez" do SNA) e hipertensão. O principal mediador da resiliência é o Nervo Vago, que é o "mensageiro da calma".

  3. Inflamação Crônica e Imunológica: A inflamação sistêmica, medida pela PCR-as, é a "raiz subterrânea" que conecta a maioria das doenças. O livro estabelece que a inflamação é o motor da Depressão, da Autoimunidade e do envelhecimento acelerado (encurtamento dos Telômeros).

II. Aplicações Clínicas: A Carga Alostática em Doenças Crônicas

O livro dedica capítulos específicos para demonstrar como o conceito de Carga Alostática se aplica a diferentes patologias, recontextualizando o diagnóstico.

II.A. Dor Crônica e Fadiga Extrema (Cap. 3, 18)

A Fibromialgia (FM) e a Síndrome da Fadiga Crônica (SFC) são enquadradas como "condições de desregulação crônica do sistema de estresse".

  • Mecanismo: A Carga Alostática induz a Sensibilização Central, onde o sistema nervoso amplifica os sinais de dor e fadiga. A Neuroinflamação (inflamação cerebral) rebaixa o limiar da dor.

  • Disfunção Energética: A SFC é marcada pela Disfunção Mitocondrial, um colapso na produção de ATP (energia celular) impulsionado pela inflamação crônica. O sintoma de Mal-Estar Pós-Esforço (PEM) é a prova de um "colapso da Alostase".

  • Dor Pélvica Crônica (DPC): Condições como a Endometriose e Cistite Intersticial (CI) são vistas como disfunções do SNA. A dor é amplificada pela Sensibilização Central e a tensão crônica do Assoalho Pélvico é uma manifestação de "congelamento" (resposta de defesa) induzida pelo trauma.

II.B. Saúde Mental e Neuroinflamação (Cap. 4, 19)

O livro advoga a Hipótese Inflamatória da Depressão, onde a doença é uma "doença inflamatória com manifestações psiquiátricas".

  • Mecanismo: Citocinas inflamatórias ativam a Micróglia (células imunes do cérebro) e desviam o metabolismo do Triptofano para o Ácido Quinolínico (neurotoxina), "roubando os blocos de construção da felicidade" (Serotonina).

  • Dano Estrutural: A inflamação suprime o BDNF, levando à "atrofia do Hipocampo", uma "lesão estrutural".

  • Demência (Alzheimer): A Doença de Alzheimer é redefinida como "Diabetes Tipo 3", impulsionada pela Resistência à Insulina Cerebral e a Neuroinflamação que acelera o acúmulo de placas de Beta-Amiloide.

II.C. Autoimunidade e Tolerância (Cap. 5, 21)

A autoimunidade é o resultado da falha na capacidade de o corpo manter a tolerância.

  • Mecanismo: O estresse crônico induz a Resistência ao Cortisol, liberando o sistema imunológico para inflamar. O Leaky Gut (permeabilidade intestinal) permite que toxinas bacterianas (LPS) e proteínas alimentares entrem na circulação, causando Mimetismo Molecular, onde o sistema imune ataca tecidos próprios (e.g., Tireoide de Hashimoto).

  • Polarização: O estresse sabota as Células T Reguladoras (Tregs), o "exército da paz", permitindo que as vias Th1, Th2 e Th17 ataquem livremente.

III. O Protocolo de Restauração da Alostase: Intervenção Integrada (Cap. 7-15)

O "Protocolo de Restauração da Alostase" é o roteiro prático para o tratamento sistêmico, concentrando-se em seis pilares interconectados.

III.A. Pilar I: Regulação Neural (Vago e VFC)

O objetivo é restaurar a flexibilidade do SNA e aumentar a VFC.

  • Respiração de Coerência Cardíaca (RCC): Prática fundamental de 10 minutos, 3 vezes ao dia, com 5s de inspiração/5s de expiração. A expiração prolongada ativa o Nervo Vago, que libera Acetilcolina (o potente anti-inflamatório endógeno).

  • Biofeedback de VFC: Ferramenta clínica que permite ao paciente "modular sua biologia" e "transforma a intenção mental (respirar calmamente) em um resultado fisiológico mensurável".

  • Estimulação Vagal: O gargarejo vigoroso e a exposição controlada ao frio (banho frio) atuam como "reboot" e "mini-treino" para o Vago.

III.B. Pilar II e III: Reparo Bioquímico e Reversão da Inflamação (Dieta PNI)

O foco é silenciar a inflamação e selar o intestino.

  • Dieta Antidepressiva: É um "protocolo molecular anti-inflamatório" e não calórico.

    • Ômega-3 EPA: Prescrito em doses terapêuticas, pois age como um agente anti-inflamatório que promove a resolução de citocinas.

    • Polifenóis: (Curcumina, Resveratrol) atuam como inibidores do NF-B (o interruptor genético da inflamação) e "acalmam a Micróglia".

  • Cura Intestinal (Protocolo 4R): Essencial para selar o Leaky Gut.

    • Reparadores: L-Glutamina e Zinco para selar as Junções Apertadas.

    • Pós-bióticos: Fibras Prebióticas e Psicobióticos para maximizar a produção de Butirato. O Butirato é um agente epigenético que inibe a HDAC, promovendo a expressão do BDNF.

  • Suporte Adrenal: O uso de Adaptógenos (como Ashwagandha para Cortisol alto e Rhodiola para Cortisol achatado) é vital para normalizar o Eixo HPA. O Magnésio é o mineral crítico que reforça o GABA e protege contra o esgotamento.

III.C. Pilar IV: Movimento e Cronoterapia

O foco é a programação PNI para o crescimento neural e o reparo.

  • Movimento como Remédio: O exercício é o "indutor mais eficaz" do BDNF, promovendo a Neurogênese. O Treinamento de Força é crucial para combater a Resistência à Insulina e construir reserva metabólica. Para a SFC, o Pacing adaptativo é obrigatório para evitar o PEM.

  • Cronoterapia do Sono: O sono é a "janela de reparo". A Luz Matinal zera o relógio circadiano, e o Corte da Luz Azul (90 minutos antes de dormir) otimiza a liberação de Melatonina, que é o principal agente anti-inflamatório e antioxidante noturno. A limpeza cerebral (Sistema Glinfático) ocorre no Sono Profundo.

III.D. Pilar V: Integração Psicossocial (Vínculo e Trauma)

Este pilar desativa o estressor primário: a ameaça social e o trauma.

  • Trauma: O trauma crônico (ACEs) é uma "lesão biológica" que programa o Eixo HPA para a hipersensibilidade.

    • Terapia Neural: EMDR e Somatic Experiencing (SE) são usadas para "reprogramação da PNI" e "liberar a energia de luta/fuga que ficou presa no corpo".

  • Vínculo e Segurança: A Conexão Segura e o toque ativam a liberação de Oxitocina, que é o "antagonista direto do cortisol". O isolamento é um estressor que cria um "padrão de vigilância inflamatória" (CTRA).

  • Metacognição: Mindfulness e Perdão são intervenções PNI que fortalecem o Córtex Pré-Frontal (CPF) e "desligam a resposta fisiológica de ameaça".

IV. Fronteiras da PNI: Epigenética e Longevidade (Cap. 16, 17)

A obra se aprofunda nos mecanismos moleculares que ligam o comportamento ao destino genético.

IV.A. Epigenética: O Legado do Estresse

O livro prova que a Epigenética é a "memória biológica" do estresse. O estresse crônico (Carga Alostática) atua como um modificador epigenético, levando à metilação (silenciamento) do Gene do Receptor de Glicocorticoide (GR), o "freio" do Eixo HPA. O trauma pode ser transmitido para a próxima geração, mas o Protocolo de Restauração da Alostase é um "programa de reprogramação epigenética" que pode reverter o silenciamento.

IV.B. Longevidade: O Telômero como Biomarcador PNI

O envelhecimento é a manifestação tardia da Carga Alostática. O encurtamento telomérico, acelerado pela inflamação e pelo estresse oxidativo, é o "biomarcador supremo do desgaste PNI".

  • Reversão: A PNI demonstrou que a atividade da enzima Telomerase pode ser aumentada e o encurtamento telomérico revertido através da adesão ao Protocolo: Mindfulness, Exercício Moderado e Dieta Anti-inflamatória. A Restrição Calórica (Jejum Intermitente) ativa a Autofagia, que recicla células danificadas.

V. Estudos de Caso e Integração (Cap. 23, 24)

O livro utiliza estudos de caso (Sofia e Marcos) para demonstrar a aplicação clínica do protocolo. Sofia, com SII, ansiedade e Resistência à Insulina, ilustra a desregulação do SNS e o Cortisol Achatado. Marcos, com crises de pânico e Fadiga Adrenal, demonstra a "Falha Alostática", onde o sistema de defesa está esgotado.

O tratamento, em ambos os casos, não se resume à medicação, mas sim à Regulação Neural (VFC), à Terapia do Trauma (SE) e ao Suporte Adrenal/Mitocondrial (Adaptógenos/Magnésio).

Em conclusão, "O Corpo Sente" estabelece um novo paradigma de saúde, exigindo que a medicina "não perguntará 'O que está errado com você?', mas sim 'O que aconteceu com você?'". A cura é definida como a Restauração da Alostase, um processo em que o indivíduo recupera a "autonomia biológica" e a capacidade do corpo de se reparar, sinalizando que "o perigo, finalmente, passou". A PNI transforma a saúde em uma "ciência preditiva e preventiva".

O Paradoxo da Legitimidade Literária: Uma Análise Crítica da Hegemonia Canônica e a Emergência de Obras Subversivas na Pós-Modernidade

Imagem: Sistema Etapa

A Literatura, como campo de produção simbólica, constitui um vetor fundamental na formação do imaginário social e na validação de determinadas epistemes, transcendendo a mera expressão estética. O conceito de Cânone Literário, doravante tratado como o corpus textual oficialmente legitimado e ensinado, tem sido classicamente defendido por Harold Bloom (1994) como uma seleção vitalícia das melhores obras. Contudo, a crítica sociológica, baseada em Pierre Bourdieu e sua análise do Campo Literário, revela que o Cânone opera intrinsecamente como um dispositivo de poder hegemônico, estabelecendo barreiras de acesso e validação para vozes e estéticas não alinhadas ao status quo cultural, muitas vezes de matriz ocidental, masculina e branca. Este artigo propõe a desconstrução do Cânone Hegemônico (CH), demonstrando que a exclusão de determinadas obras não se baseia unicamente em seu mérito estético, mas sim em sua potencialidade subversiva e ruptural, que desafia as estruturas de poder. A emergência de um Anticânone, composto por textos que promovem a ruptura epistemológica e a polifonia identitária, configura-se, portanto, como um imperativo sociocultural da Pós-Modernidade, exigindo uma investigação profunda dos mecanismos de exclusão e da relevância política do texto marginalizado.

O Cânone, nesta perspectiva, deve ser entendido como um capital simbólico acumulado. Bourdieu (1983) argumenta que o valor de uma obra está indissociavelmente ligado ao seu campo de produção e circulação. No Campo Literário brasileiro, a legitimação esteve historicamente concentrada em instituições como a Academia Brasileira de Letras (ABL) e em circuitos editoriais e acadêmicos dominantes, que atuam como filtros. Esta exclusão opera sob a máscara da qualidade estética, um mecanismo sutil onde obras que questionam a linguagem padrão, que não se enquadram nos gêneros reconhecidos (como a Literatura Periférica ou a Ciência Ficção com viés político) ou que veiculam ideias políticas não conformes são sistematicamente classificadas como de "menor valor" ou "engajadas demais", conforme a análise de Antonio Candido sobre o processo de formação da literatura nacional. Este filtro ideológico não visa a pureza estética, mas a reprodução simbólica de uma classe ou visão dominante. Adicionalmente, a crítica acadêmica reforça esta estrutura, pois ao privilegiar autores já consagrados, endossa a estrutura canônica e retira visibilidade a pesquisas sobre o não-canônico. Edward Said (1978), em sua análise do Orientalismo, oferece um framework para entender como a produção de conhecimento, aqui representado pelo cânone, atua como instrumento de dominação e silenciamento de vozes periféricas ou dissidentes.

Um estudo de caso paradigmático da emergência do Anticânone no Brasil é a Poesia Marginal e Experimental, notadamente a produção ligada à Geração Mimeógrafo nos anos 1970, e a subsequente Literatura Periférica. Esta vertente representa uma ruptura estética e política. A poesia de autores como Ana Cristina Cesar ou a obra inicial de Paulo Leminski foi, por princípio, avessa à institucionalização, e sua forma de circulação (mimeógrafo, panfletos, livros artesanais) constituiu uma crítica direta ao monopólio das grandes editoras. Esta estética subversiva prioriza a oralidade, a fragmentação e o cotidiano antipoético, opondo-se ao formalismo e ao lirismo romântico que permeia o Cânone Hegemônico. De forma ainda mais contundente, a Literatura Periférica, surgida em comunidades de baixa renda (ex: Sarrafo, Cooperifa), evidencia o risco político do Anticânone. Obras como as de Paulo Lins (Cidade de Deus) ou de Ferréz trazem para o centro do debate a questão da violência estrutural, do racismo e da exclusão social com uma linguagem bruta e dialetal, muitas vezes chocante para o leitor tradicional. O risco da leitura destas obras reside na desnaturalização da realidade social e na exigência de uma resposta ética do leitor, um engajamento com o contexto concreto que o CH muitas vezes neutraliza ao focar em dilemas psicológicos e universais desvinculados do substrato social. O não-reconhecimento pleno destas obras no currículo escolar, portanto, é um ato de manutenção do silêncio social e da invisibilidade destas realidades.

Ademais, o Cânone Escolar, como principal instrumento de transmissão do CH, é um palco de tensões quando confrontado com a Literatura Feminista e a Literatura Indígena. A inclusão de obras que desafiam a perspectiva patriarcal e colonialista gera resistência institucional, pois expõe falhas estruturais. Obras de literatura feminista, como as de Clarice Lispector (que foi inicialmente marginalizada pela crítica masculina de sua época) ou a produção contemporânea que dialoga abertamente com a teoria de gênero, expõem o machismo estrutural e o silenciamento feminino. A dificuldade em adotar textos de Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo) ou Virginia Woolf (Um Teto Todo Seu) como leituras obrigatórias reside na necessidade de revisão crítica dos modelos sociais e familiares vigentes; o risco é a emancipação do leitor jovem através da consciência de gênero. Da mesma forma, a literatura de autoria indígena (ex: Ailton Krenak, Daniel Munduruku) não é apenas um novo objeto de estudo, mas uma contranarrativa à história oficial do Brasil. Estes textos subvertem a noção europeia de tempo, de natureza e de propriedade, sendo cruciais para a descolonização do saber, conforme defende a crítica pós-colonial. Sua inclusão é uma necessidade epistemológica, pois desfazem a ilusão de uma cultura homogênea e canônica, confrontando o leitor com a diversidade radical de cosmologias. O embasamento desta seção pode ser enriquecido por documentários sobre o movimento literário periférico (Slam e Batalhas de Poesia) e por estudos de caso em escolas que adotaram livros com temas controversos, analisando as reações institucionais e comunitárias.

Em síntese, o Cânone Hegemônico é, em essência, um instrumento de conservação. A literatura subversiva – o Anticânone – é o motor de renovação e democratização do campo literário. O risco destas obras é precisamente sua força: elas convidam o leitor a questionar as bases de sua própria realidade e estrutura de poder. Para uma abordagem curricular mais plural e crítica nas Letras, é imperativo adotar a perspectiva interseccional, reconhecendo o mérito estético e a relevância política daquelas vozes historicamente marginalizadas, superando o reducionismo estético. Apenas através deste engajamento crítico com o que foi excluído é que a Literatura cumprirá seu papel de crítica e transformação social, garantindo que o acervo simbólico da nação reflita sua complexidade e contradições.


Referências 


  • BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola do Tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 1994.

    BOURDIEU, Pierre. O Campo Literário: Ensaios sobre o Funcionamento e a Estrutura da Vida Literária. São Paulo: Edusp, 1998.

  • CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos. 8. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2008.

  • CRENSHAW, Kimberlé Williams. Mapping the Margins: Interesectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, p. 1241-1299, 1991.

  • SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

  • SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas: Forma Literária e Processo Social em Machado de Assis. 5. ed. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000.

  • WOOLF, Virginia. Um Teto Todo Seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.

A Crise do Humano Narrador: Intersecções Entre o Imaginário Distópico e a Subversão da Autoria pela Inteligência Artificial na Literatura Contemporânea

Foto: Fest Company Brasil

A Literatura Distópica, definida por Tom Moylan 2000 como uma forma narrativa que confronta o leitor com as ameaças e as consequências do poder totalitário ou das falhas sistêmicas da sociedade contemporânea, adquire uma nova e perturbadora ressonância na era da Inteligência Artificial IA Generativa. A tese central deste artigo sustenta que a IA não é apenas um novo tema literário, mas a concretização tecnológica do controle totalitário previsto pela distopia, impulsionando uma crise fundamental no conceito de autoria e na relação intrínseca entre o humano e a narrativa. Neste conto, a análise da IA como personagem e, mais criticamente, como co-autor, revela o surgimento de uma Autoria Algorítmica que desestabiliza as premissas filosóficas estabelecidas por Jacques Derrida sobre o traço e a autoria. O debate sobre a IA transcende a ficção científica, tornando-se uma questão de Ontologia da Criação.

A IA se manifesta na literatura contemporânea tanto como profecia distópica quanto como agente ativo. Em obras clássicas como 1984 de Orwell ou Admirável Mundo Novo de Huxley, o controle era exercido por estruturas políticas e biológicas; contudo, a realidade atual apresenta um controle sutil e pervasivo, mediado pelo Big Data e pela Vigilância Digital. Filmes e séries como Blade Runner Black Mirror servem como referências para ilustrar como a IA se tornou o agente narrativo de opressão, operando através de algoritmos que predizem, regulam e punem. A distopia, historicamente uma forma de alerta social, agora se depara com a iminência da realização de suas próprias previsões. A diferença crucial reside no fato de que o totalitarismo atual não se impõe pelo terror visível, mas pela comodidade algorítmica.

O debate se deu ao considerar a IA como ferramenta e co autor, abordando o problema da agência criativa. O surgimento dos Generative Pré-trained Transformers GPTs, modelos de linguagem avançada, permite a criação de os que mimetizam a voz e o estilo humanos com alta fidelidade. A análise de os gerados por AÍ, sejam eles poesia experimental ou contos curtos, levanta a questão fundamental: Onde começa e termina a autoria humana no prompt? Tecnólogos e críticos, embasados em artigos técnicos sobre LP Natural Language Processing, argumentam que o escritor se torna um curador, um "engenheiro de prompt", que orienta o processo, mas não o executa na sua totalidade. No entanto, a crítica humanista questiona se a literatura pode ser reduzida a um processamento estatístico de sequências de palavras, argumentando que a intencionalidade, a experiência existencial e o'traço singular do autor, elementos centrais na filosofia da linguagem, são irrecuperáveis pela máquina.

As implicações para a cadeia produtiva do livro são vastas, abarcando as dimensões econômica, legal e estética. Economicamente, a capacidade da IA de gerar conteúdo em massa ameaça desvalorizar a produção ual humana, saturando o mercado com commodities narrativas e forçando uma reavaliação do trabalho do escritor profissional. Legalmente, a legislação de Copyright e Propriedade Intelectual como a debatida na WIPO e nas propostas de regulamentação europeias enfrenta um impasse sobre quem detém os direitos autorais de um o gerado por máquina: o programador, o usuário do prompt, ou a própria máquina, se esta for considerada um "inventor" no futuro. Esteticamente, o futuro da criatividade é incerto: a escrita se tornará um ato de resistência humana e de valorização da imperfeição e da singularidade, ou a IA será catalisadora de novas formas artísticas, liberando o humano para o papel de arquiteto conceitual? O embate entre a Escassez da obra de gênio e a Abundância do o algorítmico reescreve as regras do mercado editorial.

Em suma, a profecia da distopia se concretiza no desafio existencial que a IA impõe ao conceito de Gênio Criador. O Bitcoin representa o desafio tecnológico à moeda fiduciária, e a IA, de maneira análoga, representa o desafio tecnológico à moeda fiduciária da criatividade: a autoria humana. A crise da autoria é um teste de estresse para a humanidade, que precisa redefinir o que constitui valor e singularidade na produção artística. A superação desta crise exigirá não o abandono da tecnologia, mas a revalorização da escrita como práxis existencial, um ato carregado de corpo, experiência e, sobretudo,erro humano, elementos que o algoritmo, por mais sofisticado que seja, ainda não conseguiu simular de forma convincente. A literatura do futuro será definida não pelo que a IA pode escrever, mas pela forma como o humano escolherá reagir a essa inevitável coautoria algorítmica.

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  • BLOOM, Harold. The Western Canon: The Books and School of the Ages. New York: Riverhead Books, 1994.

  • GIBSON, William. Neuromancer. New York: Ace Books, 1984.

  • MOYLAN, Tom. Scraps of the Untainted Sky: Science Fiction, Utopia, Dystopia. Boulder: Westview Press, 2000.

  • ORWELL, George. Nineteen Eighty-Four. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1949.

  • DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. Campinas: Papirus, 1991. Para discussão sobre autoria e traço.

  • SUTTON, John. The neural representation of narrative fiction: a cognitive and neuroscientific approach. Journal of Cognitive Neuroscience, v. 28, n. 11, p. 1655-1668, 2016. Para embasamento em neurociência da narrativa.

  • WIPO World Intellectual Property Organization. Artificial Intelligence and Intellectual Property: Policy Issues. Geneva: WIPO, 2019. Para embasamento legal e técnico.

A Síndrome de Burnout no Âmbito Laboral Brasileiro: Implicações Jurídicas, Direitos do Empregado e Responsabilidade Empresarial


Foto: ABM

A Síndrome de Burnout (Esgotamento Profissional) emergiu, nas últimas décadas, de um mero constructo psicossocial para uma entidade clínica de relevância jurídica incontestável no Direito do Trabalho brasileiro. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e incorporada na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o Burnout é conceituado como uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso.

No Brasil, a jurisprudência e a legislação previdenciária consolidaram o entendimento de que, uma vez comprovado o nexo causal entre o diagnóstico e a atividade laboral, o Burnout se equipara a uma doença ocupacional ou acidente de trabalho. Tal equiparação transcende a esfera médica, estabelecendo um complexo quadro de deveres para o empregador e de direitos para o empregado, com profundas implicações na responsabilidade civil e na estabilidade do vínculo empregatício.

O presente artigo visa analisar, em tom acadêmico e coeso, o contexto jurídico-laboral do Burnout no Brasil, detalhando os direitos assegurados ao trabalhador e as obrigações impostas à empresa, além de delinear as condutas recomendadas e as ações a serem evitadas por ambas as partes.

I. O Reconhecimento da Síndrome de Burnout como Doença Ocupacional

1.1. Classificação e Natureza Jurídica

O ponto de partida para a análise jurídica é o reconhecimento formal do Burnout. A CID-11 o inclui na categoria QD85, definindo-o por três dimensões:

  1. Exaustão ou esgotamento de energia.

  2. Aumento do distanciamento mental do trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho.

  3. Redução da eficácia profissional.

Embora a OMS o classifique como um "fenômeno ocupacional" e não uma "condição de saúde", para fins de direito previdenciário e trabalhista brasileiro, a síndrome é enquadrada no Anexo II do Decreto n.º 3.048/99, sendo considerada uma doença do trabalho (art. 20, I, da Lei n.º 8.213/91), desde que haja a comprovação do nexo causal com as condições de trabalho.

1.2. O Nexo Causal e a Responsabilidade Objetiva e Subjetiva

A comprovação do nexo causal (nexo técnico epidemiológico previdenciário – NTEP) é crucial. O NTEP presume a relação entre a doença e a atividade econômica da empresa (CNAE). Contudo, no contexto do Burnout, a prova da origem laboral muitas vezes exige uma análise pericial aprofundada das condições de trabalho (cobrança excessiva, metas inatingíveis, assédio moral, jornadas exaustivas, falta de recursos).

A responsabilidade do empregador pode ser:

  • Objetiva: Nos casos de atividades de risco acentuado (art. 927, parágrafo único, do Código Civil), onde o nexo causal é suficiente.

  • Subjetiva: Na maioria dos casos, baseada na culpa ou dolo da empresa (art. 186 e 927 do Código Civil), demonstrando-se que a negligência patronal (omissão de medidas preventivas) foi determinante para o desenvolvimento da síndrome.

II. Direitos Assegurados ao Empregado Diagnosticado com Burnout

O reconhecimento do Burnout como doença ocupacional confere ao trabalhador uma série de direitos, a maioria dos quais são específicos de quem adquire uma patologia em razão do trabalho (Auxílio-Doença Acidentário – B-91), e não de uma doença comum (Auxílio-Doença Comum – B-31).

2.1. Afastamento e Benefícios Previdenciários

  1. Afastamento Remunerado: Nos primeiros 15 (quinze) dias de afastamento, o salário integral é de responsabilidade da empresa (art. 60, §3º, da Lei n.º 8.213/91).

  2. Auxílio-Doença Acidentário (B-91): Se o afastamento superar 15 dias, o empregado passa a receber o benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O código B-91 é vital, pois:

    • Mantém o recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) pela empresa durante todo o período de afastamento, sem necessidade de contribuição do trabalhador (art. 15, §5º, da Lei n.º 8.036/90).

    • Garante o cômputo do tempo de afastamento para fins de aposentadoria.

2.2. Estabilidade Provisória no Emprego

Um dos direitos mais significativos é a garantia provisória de emprego. Após a cessação do benefício previdenciário (alta médica) e o retorno ao trabalho, o empregado tem direito à estabilidade de 12 (doze) meses (art. 118 da Lei n.º 8.213/91). Durante este período, a demissão sem justa causa é vedada, sob pena de reintegração ou indenização correspondente ao período restante da estabilidade.

2.3. Rescisão Indireta e Indenizações

  1. Rescisão Indireta: Se a doença for resultado da inércia ou omissão da empresa em cumprir as normas de segurança e saúde, ou se o empregador submeter o trabalhador a condições insalubres (como assédio moral), o empregado pode pleitear a rescisão indireta do contrato (art. 483, alíneas "a", "b", "c" e "d" da CLT). Isso equivale a uma demissão sem justa causa por iniciativa do empregador, garantindo ao trabalhador o recebimento integral de todas as verbas rescisórias, incluindo aviso prévio, multa de 40% sobre o FGTS e direito ao seguro-desemprego.

  2. Indenização por Danos Morais: Comprovada a culpa do empregador pelo adoecimento, o trabalhador pode buscar uma indenização por danos morais, visando compensar o sofrimento psíquico causado.

  3. Indenização por Danos Materiais: Inclui o ressarcimento de despesas médicas, medicamentos e terapias não cobertas pelo plano de saúde (danos emergentes) e, em casos de redução da capacidade laboral, a reparação por lucros cessantes (pensão mensal).

III. Deveres e Responsabilidades do Empregador na Prevenção do Burnout

A legislação brasileira impõe ao empregador a obrigação de garantir um meio ambiente de trabalho seguro e saudável, abrangendo a saúde física e mental. Esse dever é extraído de diversos dispositivos legais e constitucionais.

3.1. Normas Constitucionais e Infraconstitucionais

O art. 7º, XXII, da Constituição Federal estabelece a redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em seu art. 157, impõe às empresas o dever de cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho, o que, por extensão jurisprudencial, inclui a saúde mental.

3.2. Ações Práticas e Prevenção

O dever da empresa não é apenas de reagir ao diagnóstico, mas de ser proativa na prevenção. As obrigações práticas de uma gestão moderna e legalmente responsável incluem:

  1. Gestão de Carga Horária e Descanso:

    • Garantir o cumprimento da jornada de trabalho legal e dos limites de horas extras.

    • Estimular o respeito ao direito à desconexão (especialmente no regime de teletrabalho), proibindo cobranças e comunicação fora do horário.

    • Assegurar o usufruto de férias e intervalos intrajornada e interjornada.

  2. Avaliação Psicossocial de Risco:

    • Realizar avaliações ergonômicas e psicossociais regulares do ambiente de trabalho para identificar fatores de risco (metas abusivas, assédio, falta de autonomia).

    • Implementar programas de gestão de estresse e bem-estar.

  3. Treinamento de Lideranças:

    • Capacitar gestores e líderes para identificar sinais precoces de Burnout e para adotar uma cultura de liderança humanizada, evitando práticas de assédio e cobrança excessiva.

  4. Emissão da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho):

    • Ao constatar o nexo causal, a empresa tem o dever legal de emitir a CAT (Lei n.º 8.213/91, art. 22). A omissão na emissão pode gerar multa administrativa e é vista como indício de negligência em eventuais ações judiciais.

IV. O que Fazer e o que Não Fazer: Condutas Legais e Éticas

A natureza insidiosa do Burnout exige condutas éticas e legais específicas tanto do empregado quanto da empresa.

4.1. Condutas Recomendadas ao Empregado

O Que Fazer (Recomendado)O Que Não Fazer (Evitar)
Buscar Ajuda Médica Imediata: Obter laudo e atestado de um profissional (psiquiatra ou psicólogo) que estabeleça o diagnóstico e, idealmente, o nexo com o trabalho.Ignorar os Sintomas: A automedicação ou a tentativa de "aguentar" a situação pode agravar o quadro e dificultar a comprovação do nexo causal futuro.
Documentar Provas: Reunir e-mails de cobrança fora do horário, mensagens de texto, relatórios de horas extras não pagas, e testemunhos sobre o ambiente de trabalho (assédio, sobrecarga).Pedir Demissão (Rescisão Voluntária): Isso anula o direito à estabilidade, à multa de 40% do FGTS e ao seguro-desemprego, dificultando a via judicial.
Comunicar a Empresa (se possível): Informar o RH ou a CIPA sobre a situação. Isso reforça a prova de que a empresa tinha conhecimento do risco.Entrar em Conflito Aberto: Evitar confrontos diretos que possam ser usados pela empresa para caracterizar insubordinação ou desídia.
Exigir a CAT: Se afastado pelo B-91, o trabalhador deve exigir que a empresa emita a Comunicação de Acidente de Trabalho.Aceitar o B-31 (Auxílio-Doença Comum): Caso o INSS conceda o B-31 sem considerar o nexo, o trabalhador deve recorrer administrativa ou judicialmente para obter o B-91 e seus direitos.

4.2. Condutas Recomendadas à Empresa

O Que Fazer (Dever de Cuidado)O Que Não Fazer (Risco Legal)
Emitir a CAT (se cabível): Cumprir a obrigação legal ao ter ciência do diagnóstico com nexo causal, mesmo que discorde do laudo.Omitir a CAT: A não emissão é uma infração legal e um forte indício de negligência em um eventual processo judicial.
Promover o Remanejamento: Avaliar a possibilidade de realocar o empregado em uma função menos estressante ou readequar sua carga de trabalho.Pressionar o Empregado Afastado: Qualquer contato que vise pressionar o retorno, demitir o empregado doente ou ameaçar o emprego é ilegal e agrava o dano moral.
Investigar e Corrigir Fatores de Risco: Realizar auditoria interna no setor ou gerência apontada como causadora do Burnout para eliminar as fontes de estresse e assédio.Discriminar ou Retaliar: Punir, isolar ou demitir o empregado após o retorno do afastamento é característico de retaliação e viola a estabilidade provisória.
Oferecer Suporte Psicológico: Integrar o Plano de Saúde e o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) com foco na saúde mental.Transferir a Culpa (o Gaslighting Corporativo): Tentar atribuir o Burnout exclusivamente a fatores pessoais ou à "falta de resiliência" do empregado, ignorando as condições de trabalho.

Conclusão

O reconhecimento da Síndrome de Burnout como doença ocupacional impôs uma nova e necessária exigência ao Direito do Trabalho brasileiro. Não se trata apenas de uma questão de saúde individual, mas de um reflexo da gestão do capital humano.

O ordenamento jurídico brasileiro, com base na Constituição Federal, na CLT e na Lei Previdenciária, estabeleceu um sólido quadro de proteção ao trabalhador, garantindo-lhe direitos essenciais como estabilidade provisória, recolhimento de FGTS e benefícios previdenciários acidentários.

Para o empregador, a omissão ou a negligência no dever de garantir um ambiente de trabalho saudável e seguro acarreta severa responsabilidade civil e trabalhista. A prevenção, por meio de uma gestão ética, transparente e atenta aos riscos psicossociais, deixou de ser um diferencial corporativo para se tornar uma imposição legal e um imperativo de sustentabilidade empresarial. Em última análise, a discussão sobre o Burnout no Brasil é a manifestação da busca por um ambiente laboral que concilie produtividade com a dignidade da pessoa humana.

Pré-venda: romance lésbico, mistério e nostalgia millennial marcam estreia de Rai Gradowski

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Em “Cercas Vivas” (Editora Zouk), autora explora memória, amadurecimento e dilemas afetivos a partir da herança de uma casa

"Um romance com uma voz original e uma história envolvente, que se desenrola em direções inesperadas."
Carol Bensimon, escritora, no blurb da obra

A escritora curitibana Rai Gradowski estreia na literatura com “Cercas Vivas” (Editora Zouk), romance que está em pré-venda e combina amadurecimento, dilemas morais e um vínculo interrompido pelos trânsitos da juventude. Narrado em primeira pessoa por Bianca, a obra acompanha a jovem que, ao herdar a casa da avó, precisa lidar com as memórias afetivas do lugar, revisitar os sentimentos da adolescência e enfrentar o mistério que envolve o passado familiar. O livro conta com texto de orelha da escritora Julia Dantas e blurb de Carol Bensimon.

Dividido em 18 capítulos, o livro se destaca pelo ritmo fluido, a linguagem visual e a construção de personagens que dialogam com experiências urbanas contemporâneas. O envolvimento da autora com a narrativa e com as personagens foi tão intenso que quase a impediu de finalizar a obra: “Comentei desse sentimento com minha namorada e ela me respondeu que elas iam começar a existir de verdade, nascendo pro mundo, e é o que está acontecendo agora”, celebra.

“Por reconhecer ali uma vivência lésbica perto da minha realidade, da minha geração, percebi que também era sobre isso que eu queria escrever, porque era isso que de certa maneira eu queria ler”, explica Rai.

Com linguagem fluida e coloquial, Rai imprime nas páginas uma ficção realista que explora dilemas morais e afetivos a partir de um enredo aparentemente cotidiano. Com referências que evocam o imaginário dos anos 1990 e 2000 — de cadernos da Tilibra a trilhas sonoras com The Calling —, “Cercas Vivas” dialoga diretamente com a geração millennial. Entre locadoras de filmes e tardes dividindo fones de ouvido, a narrativa revisita a adolescência, transformando memórias em um tecido literário que costura mistério, amadurecimento e identidade.

A ideia para “Cercas Vivas” surgiu em 2021, durante uma oficina de romance com a escritora Carol Bensimon. A ambientação em Curitiba nasceu da observação cotidiana: uma casa de esquina, vista de sua varanda, se transformou no cenário central da história. A partir daí, a trama foi lapidada em oficinas da Baubo, sob orientação das escritoras Julia Dantas e Cacá Joanello. O projeto amadureceu ao longo de dois anos até ser concluído em 2024.

Herdar uma história

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Herdar uma casa talvez seja o sonho de muita gente, mas para Bianca, protagonista da obra, significa muito mais do que ganhar autonomia: é também herdar uma história. “Retornar para um território da infância significa abandonar a posição de neta, descobrir a mulher que ela conheceu apenas sob o manto de avó e perceber que havia ali muito mais camadas de complexidade”, analisa Julia Dantas. “Dessas descobertas, surge para Bianca um dilema moral, e ela precisará tomar uma decisão capaz de afetar não apenas a sua vida, mas a de muitas a seu redor.”

Segundo Julia, o romance explora noções de identidade, pertencimento e justiça em uma narrativa que oscila entre intimidade e suspense:“‘Cercas Vivas’ transita entre o quintal de casa, o bairro afastado do centro e as mesas de bares. Rai constrói um cenário urbano, mas fincado na natureza, e um ritmo dinâmico, mas marcado pelas hesitações da incerteza.”
Sobre a autora

Rai Gradowski nasceu em 1989, em Curitiba (PR), onde vive até hoje. É advogada formada pela UFPR (2018) e especialista em Escrita Criativa pela PUCRS (2025). Também é graduada em Farmácia (PUCPR, 2011) e mestre em Farmacologia (UFPR, 2013).

Desde 2021, assina a coluna de autoficção .docx, publicada no Curitiba Cult e no Substack. Em 2023, teve o conto Imposições selecionado para a coletânea Imagens de Coragem (Editora Patuá). Em 2025, o conto Cascas foi selecionado no concurso II Novas Leituras Curitibanas, e publicou na coletânea organizada por Ana Emília Cardoso, “Curitiba Inimaginável” (Arte&Letra), ao lado de escritores da cena curitibana como Dalton Trevisan, Giovana Madalosso, Cristovão Tezza, Pedro Guerra, Laís Graf, Luiz Felipe Leprevost e Pedro Jucá.

Entre suas influências literárias estão Carol Bensimon, Julia Dantas, Natália Borges Polesso, além de autoras internacionais como Bernardine Evaristo, Samantha Schweblin e Fernanda Melchor.

“Cercas Vivas” está disponível no site da Editora Zouk: www.editorazouk.com.br
Trecho do livro:

“Ao lado da cama, estico os braços e arranco os lençóis e jogo tudo embolado perto da janela. Vejo a topografia meio apagada do corpo miúdo de vó Luci no colchão. (...) Já é quase fim de tarde da sexta-feira quando a carreta buzina na frente de casa. A cama nova tem previsão de chegada só depois do final de semana, mas eu precisava calar o rangido dos estrados agora.”

Pesquisadora mostra como patriarcado e a violência de gênero apaga mulheres em novo livro

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Em “Por que nos querem esquecidas?”, fruto da tese de doutorado pesquisadora da UFCA Vitória Gomes, mostra como a exclusão das mulheres na história é uma política de dominação que precisa ser desfeita

Resultado da tese de doutorado e com atualizações de pesquisas feitas nos últimos três anos, Vitória Gomes lança “Por que nos querem esquecidas? Patrimônios, matrimônios e a descolonização da memória” (Editora da Universidade Estadual do Ceará, 2025, 290 págs.), obra que mergulha nas relações entre gênero, memória e colonialidade, propondo uma reflexão urgente sobre como as estruturas de poder têm perpetuado esquecimentos sistemáticos das mulheres, especialmente negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e com deficiências. O livro integra a Coleção Territórios de Criação, fruto do edital da Secretaria da Cultura do Ceará realizado via Lei Paulo Gustavo.


A obra surgiu de uma inquietação pessoal da autora. Ao estudar a etimologia da palavra “patrimônio” – que, da sociedade romana antiga, remete ao “pater familias”, aquilo que pertence ao pai e é transmitido por uma linhagem masculina –, Vitória questiona a utilização de um termo com raízes tão patriarcais para designar o que é culturalmente relevante para toda uma sociedade. “Como cresci rodeada por mulheres, sobretudo minha mãe e uma tia, cujas histórias envolviam pouca escolarização e exploração, o uso de uma palavra que omite, já na forma de nomeação, a atuação de qualquer pessoa que não seja homem, me fez chegar no doutorado querendo pensar sobre as relações de poder que geram esses apagamentos, a partir de uma perspectiva de gênero no campo da memória e dos patrimônios”, explica a autora.

A pesquisadora também está promovendo um curso com o tema "Por que nos querem esquecidas? Patrimônios e matrimônios em conceitos e disputas" em que aborda os temas da memória e do patrimônio com ênfase na dimensão de gênero e da descolonização. Com carga horária de 5 horas (divididas em quatro encontros on-line, via Google Meet), é voltado para estudantes, pessoas pesquisadoras, artistas e demais interessadas/os nos estudos de memória, gênero e patrimônio. Há bolsas disponíveis para pessoas negras, indígenas, trans e PCDs. As aulas iniciam no dia 20 de outubro e as inscrições estão disponíveis via Google Forms.


Livro propõe a descolonização da memória


Um dos argumentos do livro é que existe uma ligação direta entre a violência física e o apagamento histórico. Vitória desenvolve a tese de que o memoricídio – um apagamento sistemático da memória – e o feminicídio são duas faces da mesma moeda do patriarcado. “O feminicídio, o extremo da violência, atenta contra a vida das mulheres. Já o memoricídio é uma forma de extermínio das mulheres ao retirar seus lugares como sujeitas da história, silenciando suas contribuições para o desenvolvimento das sociedades”, analisa a pesquisadora. A obra evidencia como o apagamento na memória é uma política de dominação que impede a valoração e o reconhecimento das mulheres, diminuindo seu prestígio e status social.

A trajetória pessoal de Vitória é um fio condutor fundamental na narrativa. Nascida em Brasília (DF) e criada entre Valparaíso de Goiás e Juazeiro do Norte, no Ceará, ela encontrou na história de sua própria família a matéria-prima para suas reflexões. A mudança para o Cariri cearense, terra de sua família materna, a conectou com os saberes e fazeres tradicionais que mais tarde se tornaram tema de seu estudo.

Além de uma crítica bem-fundamentada, “Por que nos querem esquecidas?” é um convite à ação e à resistência. A autora defende a necessidade de debater coletivamente que tipo de memória e identidade queremos construir como sociedade, incluindo os diferentes grupos historicamente desconsiderados. O livro não propõe o abandono das políticas patrimoniais, mas sim seu aprimoramento. A obra é um importante instrumento para pensarmos em outras formas de recordar e valorizar, destacando o papel das mulheres como guardiãs e produtoras de artes, culturas e memórias.


Sobre a autora

Vitória Gomes é professora, pesquisadora e brincante. Integra o grupo de Coco São Francisco de Mestre Dodô e Mestre Joãozinho, em Juazeiro do Norte (CE). Doutora e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é professora na Universidade Federal do Cariri (UFCA), onde coordena o grupo de pesquisa SABERES. Em 2025, iniciou seu pós-doutorado em Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investigando memórias e saberes de mulheres no Programa de Saberes Tradicionais. Sua trajetória acadêmica e pessoal é profundamente marcada pelas culturas populares e pela luta contra o apagamento das memórias femininas.



FICHA TÉCNICA

Livro: “Por que nos querem esquecidas? Patrimônios, matrimônios e a descolonização da memória”

Autora: Vitória Gomes

Número de páginas: 290

ISBN: 978-65-83910-14-1

Gênero: Não-Ficção

Editora: coleção Territórios da Criação, da Editora da Universidade Estadual do Ceará

Ano: 2025

Aquisição da obra: o livro pode ser adquirido diretamente com a autora via formulário (https://forms.gle/JMDU2Civ6YAad9ZP7)

Ana Paula Couto explora maturidade feminina com humor e sensibilidade

 

"Escrevo para mulheres que, como eu, descobriram na maturidade o direito de ser imperfeitas e felizes.”

Ana Paula Couto, autora de “Amor de Manjericão” e “Amor de Alecrim”

A escritora e professora Ana Paula Couto lança "Amor de Alecrim", sequência de "Amor de Manjericão" (2022). O novo romance mergulha na vida de Amanda, uma mulher que, aos 50 anos, enfrenta desafios como crise conjugal, menopausa e a descoberta de novas paixões, tudo temperado pelo lirismo e pelo humor característicos da autora. 

"Quis retratar uma fase pouco explorada na literatura: a maturidade cheia de dúvidas, mas também de possibilidades", explica Ana. A protagonista, que no primeiro livro superou um divórcio e um affair com um homem mais jovem, agora se depara com a aposentadoria, os dilemas da maternidade e o reencontro com um amor do passado. "Amanda é toda mulher que precisou se reinventar. O alecrim, assim como o manjericão, simboliza essa jornada de autoconhecimento — às vezes mágica, às vezes prosaica, mas sempre verdadeira", reflete a autora.

O livro foi gestado a pedido dos leitores, que se identificaram com a franqueza da narrativa em “Amor de Manjericão”. "Recebi mensagens de mulheres dizendo: 'Isso aconteceu comigo!'. Percebi que havia tocado em feridas e alegrias coletivas", conta. A escrita passou por leituras críticas e ajustes até chegar à versão final. "Desta vez, trouxe Amanda mais dona de si, mas tão vulnerável quanto qualquer uma de nós", revela. A obra mantém a estrutura de chick-lit, com diálogos ágeis e um tom confessional que aproxima a personagem do público.

Além do entretenimento, "Amor de Alecrim" propõe reflexões sobre etarismo e invisibilidade feminina após os 50. "Nossas protagonistas são raras: mulheres reais, com rugas e histórias, que não se resumem a estereótipos", defende a autora. A narrativa incorpora elementos lúdicos — como uma curandeira especialista em chás —, mesclando realismo e fantasia. "São metáforas para os caminhos que percorremos em busca de respostas. Afinal, a vida também tem seu lado mágico", afirma.

Sobre a autora

Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de Língua Inglesa há mais de duas décadas, estreou na literatura em 2021 com participações em antologias como “Diário dos Confinados” (Editora Resilience). Seu primeiro romance, “Amor de Manjericão” (2022), foi pivô de sua transição para a carreira literária. Desde então, publicou os e-books “Conto Comigo” (contos) e “Vida Crônica” (crônicas) e participou de eventos como Flip e Bienais do Livro. “Amor de Alecrim” é seu segundo romance. "Escrevo para mulheres que, como eu, descobriram na maturidade o direito de ser imperfeitas e felizes", conclui.

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