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Pesquisadora mostra como patriarcado e a violência de gênero apaga mulheres em novo livro

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
Divulgação


Em “Por que nos querem esquecidas?”, fruto da tese de doutorado pesquisadora da UFCA Vitória Gomes, mostra como a exclusão das mulheres na história é uma política de dominação que precisa ser desfeita

Resultado da tese de doutorado e com atualizações de pesquisas feitas nos últimos três anos, Vitória Gomes lança “Por que nos querem esquecidas? Patrimônios, matrimônios e a descolonização da memória” (Editora da Universidade Estadual do Ceará, 2025, 290 págs.), obra que mergulha nas relações entre gênero, memória e colonialidade, propondo uma reflexão urgente sobre como as estruturas de poder têm perpetuado esquecimentos sistemáticos das mulheres, especialmente negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e com deficiências. O livro integra a Coleção Territórios de Criação, fruto do edital da Secretaria da Cultura do Ceará realizado via Lei Paulo Gustavo.


A obra surgiu de uma inquietação pessoal da autora. Ao estudar a etimologia da palavra “patrimônio” – que, da sociedade romana antiga, remete ao “pater familias”, aquilo que pertence ao pai e é transmitido por uma linhagem masculina –, Vitória questiona a utilização de um termo com raízes tão patriarcais para designar o que é culturalmente relevante para toda uma sociedade. “Como cresci rodeada por mulheres, sobretudo minha mãe e uma tia, cujas histórias envolviam pouca escolarização e exploração, o uso de uma palavra que omite, já na forma de nomeação, a atuação de qualquer pessoa que não seja homem, me fez chegar no doutorado querendo pensar sobre as relações de poder que geram esses apagamentos, a partir de uma perspectiva de gênero no campo da memória e dos patrimônios”, explica a autora.

A pesquisadora também está promovendo um curso com o tema "Por que nos querem esquecidas? Patrimônios e matrimônios em conceitos e disputas" em que aborda os temas da memória e do patrimônio com ênfase na dimensão de gênero e da descolonização. Com carga horária de 5 horas (divididas em quatro encontros on-line, via Google Meet), é voltado para estudantes, pessoas pesquisadoras, artistas e demais interessadas/os nos estudos de memória, gênero e patrimônio. Há bolsas disponíveis para pessoas negras, indígenas, trans e PCDs. As aulas iniciam no dia 20 de outubro e as inscrições estão disponíveis via Google Forms.


Livro propõe a descolonização da memória


Um dos argumentos do livro é que existe uma ligação direta entre a violência física e o apagamento histórico. Vitória desenvolve a tese de que o memoricídio – um apagamento sistemático da memória – e o feminicídio são duas faces da mesma moeda do patriarcado. “O feminicídio, o extremo da violência, atenta contra a vida das mulheres. Já o memoricídio é uma forma de extermínio das mulheres ao retirar seus lugares como sujeitas da história, silenciando suas contribuições para o desenvolvimento das sociedades”, analisa a pesquisadora. A obra evidencia como o apagamento na memória é uma política de dominação que impede a valoração e o reconhecimento das mulheres, diminuindo seu prestígio e status social.

A trajetória pessoal de Vitória é um fio condutor fundamental na narrativa. Nascida em Brasília (DF) e criada entre Valparaíso de Goiás e Juazeiro do Norte, no Ceará, ela encontrou na história de sua própria família a matéria-prima para suas reflexões. A mudança para o Cariri cearense, terra de sua família materna, a conectou com os saberes e fazeres tradicionais que mais tarde se tornaram tema de seu estudo.

Além de uma crítica bem-fundamentada, “Por que nos querem esquecidas?” é um convite à ação e à resistência. A autora defende a necessidade de debater coletivamente que tipo de memória e identidade queremos construir como sociedade, incluindo os diferentes grupos historicamente desconsiderados. O livro não propõe o abandono das políticas patrimoniais, mas sim seu aprimoramento. A obra é um importante instrumento para pensarmos em outras formas de recordar e valorizar, destacando o papel das mulheres como guardiãs e produtoras de artes, culturas e memórias.


Sobre a autora

Vitória Gomes é professora, pesquisadora e brincante. Integra o grupo de Coco São Francisco de Mestre Dodô e Mestre Joãozinho, em Juazeiro do Norte (CE). Doutora e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é professora na Universidade Federal do Cariri (UFCA), onde coordena o grupo de pesquisa SABERES. Em 2025, iniciou seu pós-doutorado em Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investigando memórias e saberes de mulheres no Programa de Saberes Tradicionais. Sua trajetória acadêmica e pessoal é profundamente marcada pelas culturas populares e pela luta contra o apagamento das memórias femininas.



FICHA TÉCNICA

Livro: “Por que nos querem esquecidas? Patrimônios, matrimônios e a descolonização da memória”

Autora: Vitória Gomes

Número de páginas: 290

ISBN: 978-65-83910-14-1

Gênero: Não-Ficção

Editora: coleção Territórios da Criação, da Editora da Universidade Estadual do Ceará

Ano: 2025

Aquisição da obra: o livro pode ser adquirido diretamente com a autora via formulário (https://forms.gle/JMDU2Civ6YAad9ZP7)

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