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Vínculos violentos e privilégios em jogo: finalista do Jabuti 2025, Andressa Tabaczinski estreia na Rocco com thriller ambientado na “república” de Curitiba


Em “Boas meninas se afogam em silêncio”, o feminicídio de uma herdeira da alta sociedade mobiliza a polícia e desmonta a imagem de moralidade da Curitiba da Lava Jato.

A médica e escritora gaúcha Andressa Tabaczinski, 35, estreia na ficção com Boas meninas se afogam em silêncio (Rocco, 272 páginas), thriller investigativo finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento. A obra, publicada anteriormente sob o título Crisálida, chega agora em nova edição, ampliando o alcance de uma narrativa que articula investigação policial, drama familiar e crítica às estruturas conservadoras e aos privilégios sociais.

Ambientado na alta sociedade de Curitiba, o romance tem início com a descoberta do corpo de Amélia Moura, jovem encontrada com sinais de estrangulamento em uma área isolada da cidade, em meio às araucárias, após uma tempestade. O caso, inicialmente arquivado por falta de provas, é reaberto diante da pressão da mídia e da opinião pública. A investigação passa a ser conduzida pela delegada Ana Cervinski e pelo policial Júlio Bragatti.

O enredo ganha complexidade com a revelação de que a vítima mantinha encontros secretos com uma mulher, registrados por câmeras de segurança. A descoberta tensiona a imagem pública de Amélia como “boa menina” e expõe contradições que apontam para uma vida privada marcada por segredos. Ao entrelaçar feminicídio e repressão à sexualidade feminina, a narrativa evidencia mecanismos de silenciamento presentes em contextos sociais conservadores.

A origem do romance remonta ao período em que a autora viveu em Curitiba, atuando como médica em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em São José dos Pinhais, durante o auge da Operação Lava Jato — fase em que a cidade passou a ser associada à chamada “República de Curitiba”. Segundo Tabaczinski, o ambiente de valorização de uma suposta superioridade moral, somado a casos reais de violência e impunidade, influenciou diretamente a construção da obra. A primeira versão do livro levou cerca de dois anos para ser concluída.

Com estrutura narrativa que alterna entre o avanço da investigação e os acontecimentos que antecedem o crime sob a perspectiva da protagonista, o romance combina ritmo acelerado e tensão psicológica. A abordagem de temas como violência de gênero e descoberta da sexualidade, tratada de forma simultaneamente sensível e contundente, contribui para a singularidade da obra.

De acordo com a autora, os principais eixos temáticos — autodescoberta, relações LGBT, violência de gênero, desigualdades sociais e conflitos familiares — emergem do interesse em examinar o embate entre a vida íntima e as normas sociais. Nesse contexto, a afirmação do desejo individual pode ser percebida como ameaça, desencadeando reações violentas em determinados ambientes.

Tabaczinski defende ainda o papel da ficção na problematização dessas questões. Para ela, narrativas como a de Amélia contribuem para dar visibilidade a formas de violência frequentemente naturalizadas, ao mesmo tempo em que tensionam estruturas que permitem sua persistência.

Da medicina à literatura

Nascida em 1990, em Passo Fundo (RS), e criada em Balneário Camboriú (SC), Andressa Tabaczinski formou-se em Medicina pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e atuou como clínica geral antes de iniciar residência em Psiquiatria, em Porto Alegre. Em 2018, após um episódio de burnout, interrompeu a formação médica para se dedicar integralmente à literatura.

Posteriormente, residiu no Rio de Janeiro, onde se tornou sócia da Editora Oito e Meio e da escola Carreira Literária, ao lado da escritora Flávia Iriarte. Atualmente, atua como publisher, curadora e mentora em escrita criativa, e vive em Brasília.

A autora trabalha agora na finalização de seu segundo romance, um thriller psicológico ambientado no litoral do Rio Grande do Sul. A trama acompanha um psiquiatra que, após um apagão, passa a suspeitar de seu envolvimento em um assassinato. Em fuga pela costa gaúcha com o sobrinho de sete anos, o personagem enfrenta uma jornada marcada por culpa, paranoia e dilemas de responsabilidade afetiva.


Ficha técnica
Título: Boas meninas se afogam em silêncio
Autora: Andressa Tabaczinski
Editora: Rocco
Edição: 1ª edição pela Rocco (publicado anteriormente como Crisálida)
Ano: 2025
Páginas: 272
Gênero: Thriller investigativo / suspense psicológico
ISBN: 978-65-5532-421-1
Disponível em: https://rocco.com.br/produto/boas-meninas-se-afogam-em-silencio/

Resenha crítica da obra Irene ou da Tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite


A poesia contemporânea brasileira tem se destacado, nas últimas décadas, por um movimento de intensa experimentação formal e temática, no qual o sujeito lírico deixa de ser apenas um mediador de sentimentos para tornar-se também um campo de tensão entre linguagem, corpo e pensamento. É nesse território inquieto que se insere Irene ou da Tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite, uma obra que não apenas se lê, mas se experimenta — quase como um organismo vivo, pulsante, fragmentado e profundamente sensorial.

Desde o título, a obra já se anuncia como um espaço de ambiguidade e densidade. “Irene”, palavra de origem grega que remete à paz, contrasta com “tensilidade”, termo que evoca tensão, elasticidade, resistência à ruptura. Essa dualidade atravessa toda a obra: paz e conflito, corpo e linguagem, desejo e dissolução, presença e ausência. Trata-se de um livro que desafia o leitor a abandonar expectativas lineares e mergulhar em uma experiência poética radical, na qual forma e conteúdo são indissociáveis.

Ao longo dos poemas, organizados em blocos que sugerem uma espécie de narrativa fragmentada, o autor constrói uma reflexão sobre o amor, o corpo, o tempo e a morte — não de maneira tradicional ou discursiva, mas por meio de imagens densas, jogos sonoros, experimentações tipográficas e uma linguagem que oscila entre o lírico e o quase filosófico. O resultado é uma obra que exige atenção, entrega e, sobretudo, disposição para o desconforto.

Um dos aspectos mais marcantes de Irene ou da Tensilidade é o modo como a linguagem se comporta não apenas como meio de expressão, mas como matéria viva. As palavras não são apenas significantes; elas parecem carregar peso físico, textura, ritmo e até mesmo resistência. A “tensilidade” do título se manifesta na própria escrita: versos que se esticam, se fragmentam, se repetem, se contraem.

O autor frequentemente rompe com a linearidade sintática, criando construções que desafiam a leitura fluida. Há cortes abruptos, palavras isoladas, jogos tipográficos e espaçamentos que sugerem pausas ou respirações irregulares. Essa estratégia não é gratuita: ela reforça a ideia de que o poema é também um corpo em tensão, um campo de forças onde sentido e forma se confrontam. Além disso, há uma forte presença de neologismos e combinações inusitadas, como “pertodistante” ou “simetricorreflexo”, que ampliam o campo semântico da obra e exigem do leitor uma postura ativa na construção do significado. A linguagem, aqui, não oferece respostas prontas — ela provoca, instiga, desestabiliza.

O tema do amor atravessa toda a obra, mas está longe de ser tratado de maneira idealizada. Pelo contrário: o amor em Irene ou da Tensilidade é visceral, ambíguo, por vezes violento. Ele aparece como encontro e desencontro, como fusão e separação, como desejo de união e consciência da inevitável solidão.

Os poemas exploram a intimidade do corpo com uma intensidade quase crua. Há descrições sensoriais que envolvem toque, cheiro, temperatura, fluidos — elementos que aproximam o texto de uma experiência quase tátil. No entanto, essa materialidade não elimina a dimensão existencial do amor; ao contrário, a intensifica.

O sujeito lírico parece constantemente dividido entre a vontade de se fundir ao outro e a percepção de que essa fusão é impossível. “Na solidão que somos” é uma das ideias centrais que emergem do texto: mesmo no encontro mais íntimo, permanece uma distância irreparável. O amor, portanto, não é solução, mas ampliação da tensão.

Outro aspecto relevante é a forma como o corpo é representado. Longe de qualquer idealização estética, o corpo em Irene ou da Tensilidade é apresentado em sua complexidade: desejante, vulnerável, por vezes grotesco. Há uma exploração franca da sexualidade, que não se limita ao erotismo, mas se estende à reflexão sobre identidade, gênero e relação com o outro. O autor não hesita em utilizar termos explícitos ou imagens fortes, mas o faz com uma intenção claramente poética e reflexiva. O corpo não é objeto; é sujeito, é linguagem, é campo de experiência. Em muitos momentos, a própria estrutura do poema parece imitar movimentos corporais — aproximação, afastamento, repetição, exaustão.

Essa dimensão corporal da linguagem reforça a ideia de que a poesia, aqui, não é apenas intelectual, mas também sensorial. Ler o livro é, de certa forma, experimentar um corpo em movimento.

Se o amor e o corpo são eixos centrais, o tempo e a morte funcionam como pano de fundo constante. Há uma consciência aguda da finitude, que permeia os poemas e confere a eles uma tonalidade melancólica. No entanto, essa melancolia não é passiva; ela se transforma em impulso criativo, em tentativa de capturar o instante, de resistir ao esquecimento.

A memória aparece de forma fragmentada, muitas vezes associada a imagens sensoriais ou situações cotidianas. Pequenos gestos — como arrumar o cabelo, ouvir o café sendo preparado, sentir o toque do outro — ganham uma dimensão quase épica, justamente por sua efemeridade. A morte, por sua vez, não é tratada apenas como fim, mas como presença constante, como algo que atravessa a vida e a torna mais intensa. Em um dos trechos mais marcantes, o sujeito lírico reflete sobre a experiência de ver um cadáver e a dificuldade de compreender a morte — especialmente na infância. Esse momento sintetiza a tensão entre conhecimento e incompreensão que atravessa toda a obra.

A estrutura do livro é outro elemento digno de destaque. Os poemas não seguem uma organização tradicional; em vez disso, parecem formar um fluxo contínuo, dividido em blocos que funcionam quase como movimentos de uma composição musical.

Há também uma forte presença de intertextualidade, com referências que vão da mitologia grega à literatura europeia, passando por elementos da cultura popular. Essas referências não são explicadas, mas incorporadas ao tecido do texto, contribuindo para sua densidade.

A alternância entre línguas — português, inglês, espanhol — reforça a ideia de que a linguagem é múltipla e instável. Em alguns momentos, o texto se aproxima de uma espécie de fluxo de consciência, no qual pensamentos, imagens e sensações se sobrepõem. Um dos efeitos mais interessantes da obra é a forma como ela convoca o leitor a participar ativamente da construção de sentido. Não se trata de uma leitura passiva; é necessário interpretar, conectar, reler, aceitar a ambiguidade.

Essa exigência pode afastar leitores que buscam uma poesia mais direta, mas é justamente o que torna Irene ou da Tensilidade uma obra relevante no contexto contemporâneo. Ela não oferece conforto, mas experiência; não entrega respostas, mas perguntas.

Irene ou da Tensilidade é uma obra que se destaca pela coragem estética e pela intensidade de sua proposta. Danilo da Costa-Cobra Leite constrói um livro que desafia convenções, explora limites e transforma a linguagem em matéria viva. Ao abordar temas como amor, corpo, tempo e morte, o autor não busca respostas definitivas, mas cria um espaço de tensão onde essas questões podem ser vividas em toda a sua complexidade.

Trata-se de uma poesia que exige do leitor não apenas atenção, mas entrega — uma disposição para se perder e se reencontrar no texto. Em um cenário literário muitas vezes marcado pela busca por acessibilidade e imediatismo, a obra se posiciona como um contraponto necessário: densa, exigente, profundamente sensorial.

Mais do que um livro de poemas, Irene ou da Tensilidade é uma experiência estética e existencial. Uma obra que não se esgota em uma única leitura e que, justamente por isso, permanece — como tensão, como eco, como presença.

Autor: Danilo da Costa-Cobra Leite
Título: Irene ou da Tensilidade
Local de publicação: Curitiba, PR
Editora: Kafka Editora & Produções Gráficas LTDA
Ano de publicação: 2025
Descrição física: Livro impresso, papel Pólen Bold, tipografia Graveur
Gênero: Poesia brasileira contemporânea
Idioma: Português (com inserções em outras línguas, como inglês e espanhol)
ISBN: (não informado no trecho analisado)
Classificação: Literatura brasileira – poesia – experimentalismo contemporâneo

SOBRE O AUTOR


Danilo da Costa-Cobra Leite é paulistano, 42 anos, advogado, ex-servidor público estadual e atualmente servidor público municipal (Analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental), sociólogo, doutor em Letras (USP) e escritor. Aprendeu desde cedo a aceitar e amar a cultura paulista, caipira, nordestina, brasileira no que elas tem de mais genuíno e libertário. Sua pesquisa acadêmica se volta para a área das línguas e literatura clássica (grego antigo, latim e filologia indo-europeia), filosofia antiga, ética, filosofia das emoções e teoria da literatura. Publicou sete livros: "Paralithomaquia" (Patuá, 2015), "Nhe'enga a more quixotesco" (Kotter, 2019), "Nenhuma chuva em vão: quebra-cabeça" (Caravana, 2021)," Epyka" (Mentes Abertas, 2021), "24 horas-haiku" (Mentes Abertas, 2021), "Caminho das aves" (Kotter, 2025), "Irene ou da tensilidade" (Kafka, 2025).

Resenha: Ódio ao poema, de Vitor Miranda

Ódio ao Poema, de Vitor Miranda, é uma obra que se posiciona deliberadamente contra a própria tradição que a sustenta: a poesia. Desde o título, há um gesto provocativo, quase iconoclasta, que sugere uma negação do fazer poético — mas que, paradoxalmente, só pode existir dentro dele. O livro se apresenta como uma espécie de manifesto fragmentado, um anti-poema que, ao atacar a poesia, revela sua permanência e inevitabilidade.

A obra mergulha em um fluxo textual que mistura crítica social, violência urbana, ironia, metalinguagem e referências culturais diversas. Em vez de buscar a beleza tradicional ou a musicalidade clássica, Miranda aposta no choque, na repetição, na ruptura e na saturação. O poema deixa de ser objeto estético elevado para se tornar um corpo ferido, um organismo em decomposição, um produto de mercado, uma vítima e, simultaneamente, um agente de denúncia.

Mais do que um livro de poesia, Ódio ao Poema é uma reflexão radical sobre o lugar da literatura em um mundo marcado por desigualdade, banalização da violência e esvaziamento simbólico. A obra dialoga com uma tradição de ruptura — que remonta às vanguardas do século XX —, mas o faz com uma urgência contemporânea profundamente brasileira.

Logo nas primeiras páginas, o autor estabelece um tom que será mantido ao longo de toda a obra: a recusa da poesia como instrumento burguês. A afirmação de que “a poesia é um entretenimento burguês” não é apenas provocativa — ela funciona como eixo conceitual do livro. Miranda questiona a utilidade da poesia diante de realidades brutais: violência policial, desigualdade social, exploração do trabalho e banalização da morte.

No entanto, essa negação não elimina o poema — ela o transforma. Ao declarar ódio à poesia, o autor cria uma nova forma de fazê-la. O poema deixa de ser contemplativo e passa a ser combativo, quase panfletário em alguns momentos, mas sem perder sua densidade simbólica.

Essa tensão entre rejeição e necessidade é um dos aspectos mais interessantes da obra. O poema é odiado, mas também é inevitável. Ele ressurge constantemente, mesmo quando declarado morto.

Uma das imagens mais recorrentes no livro é a do poema como corpo — um corpo que sofre, sangra, trabalha, é explorado e assassinado. Essa corporeidade aproxima o texto da realidade concreta e afasta qualquer idealização estética.

O poema está:

  • “em situação de rua”
  • “com fome e sede”
  • “trabalhando”
  • “sendo morto pela polícia”

Essa personificação radical transforma o poema em sujeito político. Ele deixa de ser apenas linguagem para se tornar testemunha e vítima da sociedade.

Ao fazer isso, Miranda desloca o foco da poesia: não se trata mais de expressão individual, mas de representação coletiva. O poema incorpora as dores de uma população marginalizada e invisibilizada.

A estrutura do livro é marcada pela fragmentação. Não há linearidade narrativa, nem progressão temática clara. O texto se organiza em blocos que misturam:

  • notícias
  • pensamentos
  • diálogos
  • slogans
  • reflexões filosóficas

Essa estética caótica reflete o próprio conteúdo: um mundo desordenado, saturado de informações e marcado por contradições.

A fragmentação também reforça a ideia de que o poema está em crise. Ele não consegue mais se sustentar como unidade coerente — está quebrado, disperso, em constante ruptura.

Outro eixo central da obra é a crítica ao mercado literário e à transformação da poesia em produto. O trecho que simula uma venda de poemas (“compre poemas! no pix ou à prestação”) é especialmente significativo.

Aqui, o autor denuncia:

  • a lógica capitalista aplicada à arte
  • a superficialização da produção literária
  • a transformação do poeta em vendedor

Essa crítica não é feita de forma sutil — pelo contrário, é explícita, irônica e agressiva. O poema se torna mercadoria, mas também ironiza sua própria venda.

A obra dialoga com diversos nomes e elementos da cultura:

  • Goethe
  • Werther
  • Lacan
  • Madonna
  • Maria Bethânia

Essas referências criam um contraste entre alta cultura, cultura de massa e realidade social. Ao colocar Madonna ao lado de massacres e crises políticas, Miranda evidencia o absurdo da contemporaneidade.

A intertextualidade também serve para questionar o papel dos grandes nomes da literatura. Ao sugerir que “se eu tivesse assassinado Goethe não nasceriam outros Goethes”, o autor ironiza a ideia de genialidade e tradição.

A violência é um tema constante e aparece de forma crua e repetitiva. Crianças mortas, operações policiais, guerras internacionais — tudo é incorporado ao poema.

O impacto dessa repetição é duplo:

  1. Denunciar a normalização da violência
  2. Mostrar a incapacidade da linguagem de dar conta dela

O poema tenta representar a violência, mas também reconhece seu fracasso. Essa consciência crítica reforça a complexidade da obra.

Ódio ao Poema é profundamente metapoético. O texto fala constantemente sobre o próprio poema:

  • sua inutilidade
  • sua fragilidade
  • sua impossibilidade

Essa autorreflexão cria um efeito de espelho: o poema se observa enquanto se destrói.

A crise da linguagem é evidente. Há momentos em que o autor parece duvidar da própria capacidade de dizer algo significativo. Ainda assim, o texto continua — como se escrever fosse inevitável.

Apesar de todo o discurso de ódio e negação, o livro termina reafirmando a permanência do poema. Mesmo odiado, ignorado e atacado, ele continua existindo.

Essa é talvez a principal mensagem da obra: o poema não pode ser eliminado. Ele resiste, mesmo em condições adversas.

O ódio ao poema, portanto, não é destruição — é transformação.

Ódio ao Poema é uma obra intensa, provocadora e profundamente contemporânea. Vitor Miranda constrói um texto que desafia convenções, questiona a função da poesia e expõe as contradições da sociedade brasileira.

A linguagem é agressiva, fragmentada e muitas vezes desconfortável — mas esse desconforto é intencional. O autor não busca agradar, mas provocar reflexão.

Entre seus principais méritos estão:

  • a coragem estética
  • a crítica social contundente
  • a inovação formal
  • a capacidade de dialogar com o presente

Por outro lado, a obra pode ser desafiadora para leitores que esperam uma poesia mais tradicional ou estruturada. A ausência de linearidade e a intensidade do conteúdo exigem atenção e disposição.

Ainda assim, trata-se de um livro relevante e necessário. Em um cenário em que a poesia muitas vezes é esvaziada ou domesticada, Ódio ao Poema surge como um grito — desconfortável, caótico, mas absolutamente vivo.

E talvez seja justamente isso que o torna tão potente: ao odiar o poema, Vitor Miranda prova que ele ainda importa.

Autor: Vitor Miranda
Título: Ódio ao Poema
Edição: 1ª edição
Local de publicação: São Paulo, SP – Brasil
Editora: Barraco Editorial
Ano: 2026
Gênero: Poesia contemporânea / Poesia experimental / Crítica literária poética
Idioma: Português

O AUTOR

Vitor Miranda é poeta e escritor paulistano com vivências pelo Paraná e Minas Gerais. Atualmente se divide em São Paulo e Valinhos. “Os ratos vão para o céu?” é seu sétimo título lançado. Entre poemas e contos, e o romance experimental “A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty”. É poeta e letrista da Banda da Portaria, projeto que nasceu para musicar os poemas de seu livro “Poemas de amor deixados na portaria” e ganhou vida. É parceiro em letras e canções de artistas como Alice Ruiz, Rubi, Touché, João Sobral, Luz Marina, Zeca Alencar e os porteiros João Mantovani, Binho Siqueira e Arthur Lobo. Também faz parte como letrista do Margaridáridas, projeto de sua parceria com o músico paranaense, Eduardo Touché. Criou em 2019 o videocast de poesia Prosa com Poeta, no qual entrevistou diversos artistas como Alice Ruiz, Maria Vilani, Bob Baqq, Daniel Perroni Ratto, entre outros. É criador e organizador do Movimento Neomarginal, grupo artístico vivo que tenta vencer as amarras do mercado artístico misturando artistas de diferentes níveis (sociais) de público nos mesmos eventos.

CRÍTICA | Sem Saída (2011)

A crítica cinematográfica exige, por vezes, um olhar atento àquilo que o cinema de gênero oferece como entretenimento puro, e "Sem Saída" (Abduction, 2011), sob a batuta do diretor John Singleton, é um exemplo contundente de como o suspense adolescente pode ser bem executado quando alinhado a uma narrativa de ritmo acelerado e constante movimento. Protagonizado por Taylor Lautner, o filme não se propõe a revolucionar a sétima arte, mas cumpre com louvor a sua missão de entregar um thriller de perseguição que mantém a tensão em níveis elevados desde a primeira cena.

A premissa que ancora o filme é um clássico moderno da desconfiança: Nathan Harper, um estudante vivendo o tédio suburbano, descobre involuntariamente que toda a sua existência foi baseada em uma mentira. A partir do momento em que encontra sua foto em um banco de dados de crianças desaparecidas, a película abandona qualquer pretensão de drama cotidiano para mergulhar em uma espiral de espionagem, traições e segredos governamentais. A transição de Nathan, interpretado por Lautner, de um adolescente inadaptado e impulsivo para alguém que precisa utilizar técnicas de combate para sobreviver, é um arco que, embora previsível em seus moldes, é conduzido com uma fisicalidade que justifica a escolha do protagonista.

O cerne do sucesso deste projeto reside na química entre Lautner e Lily Collins, que dá vida à vizinha Karen. Enquanto a trama se expande para conspirações internacionais envolvendo figuras como Martin Price, a relação entre os dois jovens funciona como um contrapeso emocional necessário. Sem a interação deles, a história poderia facilmente descambar para um filme de ação estéril; entretanto, a veracidade do medo e da cumplicidade que compartilham sob a ameaça constante de assassinos profissionais confere ao longa uma humanidade que o espectador consegue absorver e validar. A direção de Singleton demonstra sua maturidade ao orquestrar sequências de ação em espaços confinados, como a icônica sequência da fuga no trem, onde a claustrofobia se alia ao ritmo frenético da montagem para criar momentos de genuina apreensão.

É importante notar como o filme utiliza a tecnologia a seu favor, transformando algo tão comum quanto um celular ou um site da internet em motores de perseguição. A lista encriptada que sustenta todo o conflito funciona como um "MacGuffin" eficiente, movendo a trama através de uma era onde a privacidade é uma ilusão e o rastreamento digital é uma ferramenta onipresente. O roteiro de "Sem Saída" não tenta ser um tratado geopolítico complexo, o que seria um erro para o público que busca um entretenimento direto, e sim um suspense autoconsciente que prioriza a fluidez dos fatos em detrimento de explicações técnicas exaustivas.

Visualmente, o filme mantém um tom sóbrio que valoriza as locações e a atmosfera de isolamento dos protagonistas enquanto eles atravessam o país tentando entender suas próprias origens. O elenco de apoio, que conta com nomes de peso como Sigourney Weaver e Alfred Molina, confere a "Sem Saída" uma camada de credibilidade que eleva o material original, equilibrando a energia da juventude de seus protagonistas com a experiência de veteranos do cinema que entendem perfeitamente o tom de urgência exigido pela narrativa.

Ao final, "Sem Saída" se consolida como uma obra de entretenimento de alta qualidade que entende o valor de manter o espectador engajado. É um filme que, ao encerrar suas contas pendentes e fechar o arco de busca por identidade de Nathan, deixa uma janela aberta para a complexidade das relações familiares, mostrando que, por trás da adrenalina das perseguições e dos combates, a essência humana da busca pela verdade é o que realmente importa. Para quem busca uma narrativa que não perde tempo com devaneios e se compromete integralmente com a ação e o suspense de ponta a ponta, esta obra de 2011 continua sendo um exemplar sólido e altamente recomendável.

Onde ler livros gratuitos na internet: 50 plataformas confiáveis reunidas

Em um cenário em que o acesso ao conhecimento ainda esbarra em barreiras econômicas e geográficas, cresce o número de iniciativas que disponibilizam livros digitais de forma gratuita e legal. Plataformas como o Portal Domínio Público, o Projeto Gutenberg e o Internet Archive consolidam um movimento que une universidades, fundações e organizações independentes em torno da democratização da leitura.

De acervos acadêmicos especializados a bibliotecas digitais de alcance global, esses repositórios oferecem desde clássicos da literatura até obras científicas contemporâneas em acesso aberto. A seguir, reunimos uma curadoria abrangente de sites confiáveis que permitem baixar ou ler livros gratuitamente em diferentes formatos, ampliando as possibilidades de estudo, pesquisa e formação de leitores em todo o mundo.

SiteLink + Descrição
Portal Domínio PúblicoAcessar site — Biblioteca do governo brasileiro
Projeto Gutenberghttps://www.gutenberg.org/ — Clássicos domínio público
Internet Archivehttps://archive.org/ — Biblioteca digital massiva (IRI-USP)
Open Libraryhttps://openlibrary.org/ — Empréstimos digitais (biblioteca.fflch.usp.br)
SciELO Livroshttps://books.scielo.org/ — Livros acadêmicos open access (Dibib UFSJ)
DOABhttps://www.doabooks.org/ — Diretório de livros científicos (Dibib UFSJ)
Brasiliana USPhttps://www.bbm.usp.br/ — Acervo digital da USP
Livros Abertos USPAcessar portal — Livros acadêmicos USP
Biblioteca Unicamphttps://repositorio.unicamp.br/
Biblioteca UNESPhttps://repositorio.unesp.br/
Biblioteca UFRJhttps://pantheon.ufrj.br/
Biblioteca UFMGhttps://repositorio.ufmg.br/
Biblioteca UFSChttps://repositorio.ufsc.br/
Biblioteca UFFhttps://bibliotecas.uff.br/ebooks/ (Portal IF USP)
Biblioteca UFRGShttps://lume.ufrgs.br/
CAPEShttps://catalogodeteses.capes.gov.br/
EDUCAPEShttps://educapes.capes.gov.br/ (Dibib UFSJ)
Biblioteca Nacional Digitalhttps://bndigital.bn.gov.br/
Biblioteca Mundial Digitalhttps://www.wdl.org/ (Portal IF USP)
Biblioteca Iberoamericanahttps://www.iberoamericadigital.net/
Biblioteca Colômbiahttps://bibliotecanacional.gov.co/
Biblioteca Espanhahttps://www.bne.es/
Gallicahttps://gallica.bnf.fr/
Europeanahttps://www.europeana.eu/
HathiTrusthttps://www.hathitrust.org/
National Academies Presshttps://nap.nationalacademies.org/
NCBI Bookshelfhttps://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/ (Dibib UFSJ)
MIT OpenCourseWarehttps://ocw.mit.edu/
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Stanford Libraryhttps://library.stanford.edu/
Cambridge Core (open)https://www.cambridge.org/core
Oxford Academichttps://academic.oup.com/
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Skoobhttps://www.skoob.com.br/
Projecto Adamastorhttp://projectoadamastor.org/ (biblioteca.fflch.usp.br)
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Universia Livroshttps://biblioteca.universia.net/
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FGV Editorahttps://editora.fgv.br/ (antigowp.faag.com.br)
Argos Editorahttps://www.editora.unochapeco.edu.br/
Dorina Nowillhttps://www.fundacaodorina.org.br/ (Dibib UFSJ)
Open Textbook Libraryhttps://open.umn.edu/opentextbooks
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Com adesão nacional, primeira Noite das Livrarias mobiliza mais de 80 espaços em 30 cidades brasileiras

Inspirada em tradicionais circuitos literários internacionais, a Noite das Livrarias chega à sua edição brasileira consolidando-se como um dos principais movimentos de valorização das livrarias de rua no país. Marcado para o dia 24 de abril, data em que se celebra o Dia Mundial do Livro, o evento reúne, nesta edição, 86 livrarias distribuídas por 30 cidades, alcançando nove estados e o Distrito Federal.

A iniciativa, que teve origem em São Paulo a partir de uma articulação entre livreiros ligados ao projeto Mapa das Livrarias de Rua, rapidamente ultrapassou os limites da capital paulista e ganhou projeção nacional. Embora São Paulo ainda concentre cerca de metade da programação, a expansão do circuito evidencia seu alcance: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pará, Santa Catarina, Rondônia e Paraná, além de Brasília, integram o calendário de atividades.

O engajamento do público acompanha o crescimento do evento. Nas redes sociais, a Noite das Livrarias tornou-se um fenômeno orgânico, impulsionado por vídeos virais no TikTok que acumulam milhares de visualizações e por leitores que organizam seus próprios roteiros para a noite literária.

Para João Varella, livreiro à frente da Banca Tatuí e da Livraria Gráfica e um dos organizadores da iniciativa, a capilaridade do evento revela uma demanda latente no país. Segundo ele, a adesão de estados como Rondônia e Pará reforça a importância da bibliodiversidade e do fortalecimento de espaços culturais dedicados ao livro em diferentes regiões do Brasil.


Dados do mais recente levantamento Panorama do Consumo de Livros, produzido pela consultoria Nielsen, ajudam a contextualizar esse interesse: 53% dos leitores consideram a livraria um ambiente propício ao relaxamento e à exploração sem pressa, enquanto 46% a associam diretamente à conexão com cultura e conhecimento.

A programação da Noite das Livrarias reflete essa diversidade de experiências. Estão previstos lançamentos de livros, encontros de leitura silenciosa, clubes de leitura, oficinas, mesas de debate, apresentações musicais e até propostas inusitadas, como festas do pijama e atividades de impressão ao vivo.

Gratuitas, as atividades têm programação completa disponível no site oficial do evento. A identidade visual desta edição leva a assinatura do artista e ilustrador Flavio Kauffmann, contribuindo para consolidar a proposta estética e cultural da iniciativa.

Os eventos são gratuitos. A programação completa está no site www.noitedaslivrarias.com.br.

A identidade gráfica do evento foi criada pelo artista e ilustrador Flavio Kauffmann.

Dahmer revisita o desamor em edição renovada de "A coragem do primeiro pássaro"

Imagem: Imprensa lote 42 / Divulgação

A nova edição de A Coragem do Primeiro Pássaro reafirma a potência de uma obra que, desde seu lançamento original em 2015, já se destacava como um dos trabalhos mais sensíveis e contundentes da trajetória de André Dahmer, agora revisitados em um projeto editorial que amplia suas camadas de leitura e aprofunda o diálogo entre palavra e imagem. Publicado em coedição pelas independentes Lote 42 e Impressões de Minas, o livro retorna às livrarias com ilustrações inéditas do próprio autor, prefácio assinado por Fabio Weintraub e um projeto gráfico inteiramente reformulado, consolidando-se como uma edição que não apenas recupera, mas ressignifica o impacto do texto original.

A obra se estrutura como um percurso emocional que investiga a experiência da separação conjugal sem recorrer a fórmulas previsíveis ou sentimentalismos fáceis, organizando-se em três atos — “Vocês não me conhecem”, “Agora é guerra” e “Era ela era para ser” — que delineiam uma trajetória marcada pelo choque inicial do rompimento, pelo conflito interno e externo que se segue, e pela lenta e imperfeita reconstrução subjetiva. Utilizando o verso livre como ferramenta expressiva, Dahmer constrói uma narrativa poética fragmentada e, ao mesmo tempo, profundamente coesa, na qual sua já conhecida ironia, presente em séries como “Malvados”, cede espaço a uma escrita mais vulnerável, ainda que nunca desprovida de lucidez crítica.

Ao revisitar o livro, o autor reconhece nele um ponto de inflexão em sua própria trajetória criativa, definindo-o como um “livro-ponte”, expressão que sintetiza o caráter transitório e transformador da obra, concebida como registro de uma travessia íntima e simbólica. Essa dimensão ganha ainda mais força na nova edição, na qual as ilustrações estabelecem um contraponto visual que não se limita a ilustrar os poemas, mas os tensiona e expande, criando uma experiência de leitura que articula texto e imagem de forma orgânica e indissociável.

Imagem: Imprensa lote 42 / Divulgação

O prefácio de Fabio Weintraub reforça essa leitura ao destacar a recusa de Dahmer em aderir aos clichês da lírica amorosa tradicional, apontando para uma escrita que preserva a complexidade do desejo e da perda sem recorrer a idealizações simplificadoras. Ao observar que a obra sustenta um “voo melancólico” no qual a libido não se esgota e o mundo não desaparece sob o peso da dor, Weintraub evidencia a capacidade do livro de manter-se ancorado na materialidade da experiência, mesmo quando atravessa territórios de intensa subjetividade.

A materialidade do livro, aliás, é um dos aspectos mais marcantes desta nova edição, resultado da colaboração entre duas editoras que compartilham um compromisso com o cuidado gráfico e editorial. O projeto assinado por Elza Silveira aposta no uso do roxo tanto no miolo quanto na capa, que conta ainda com acabamento em hotstamping produzido internamente pela Impressões de Minas, evidenciando um trabalho artesanal que dialoga diretamente com o conteúdo sensível da obra. Essa atenção ao objeto livro reforça a proposta das editoras, especialmente no caso da Lote 42, conhecida por seu catálogo criterioso e por iniciativas culturais como a Banca Tatuí e a Feira Miolo(s), e da Impressões de Minas, cuja atuação integra edição, impressão e distribuição em um mesmo espaço de criação.

Mais do que uma simples reedição, esta versão de A Coragem do Primeiro Pássaro se apresenta como uma reinterpretação que amplia o alcance do livro e o reposiciona dentro da produção contemporânea de poesia brasileira, reafirmando André Dahmer como um autor capaz de transitar entre diferentes linguagens sem perder a consistência estética e a força de sua voz autoral. Ao unir texto, imagem e projeto gráfico em um conjunto coeso, a obra se consolida como um testemunho potente sobre ruptura, transformação e permanência, convidando novos leitores a experimentar a densidade de um percurso emocional que, embora particular, ressoa de maneira profundamente universal.

SOBRE O AUTOR

CRÉDITOS: Chico Cerchiaro











André Dahmer nasceu em 1974 em Botafogo, Rio de Janeiro. Artista plástico, poeta e quadrinista, criou as séries de tirinhas Malvados, Quadrinhos dos anos 10, Vida e obra de Terêncio Horto, entre outras. Ganhador de cinco prêmios HQmix e um troféu Jabuti, Dahmer publica tiras diárias nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo.

Ficha catalográfica

Título: A Coragem do Primeiro Pássaro
Autor: André Dahmer
Prefácio: Fabio Weintraub
Editora: Lote 42 / Impressões de Minas
Edição: Nova edição revista e ampliada
Ano: 2026
Gênero: Poesia
Formato: Impresso
Projeto gráfico: Elza Silveira
Características: Ilustrações do autor, prefácio inédito, novo projeto gráfico com hotstamping

Tempos Modernos de Sophie, Aline e Robert Crumb


A consagração de Robert Crumb como uma das figuras mais influentes da história dos quadrinhos ganha um novo capítulo com a chegada ao Brasil de Tempos Modernos, uma antologia que reúne trabalhos inéditos do autor ao lado de Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb. O lançamento reforça não apenas a relevância contínua de Crumb no cenário artístico contemporâneo, mas também a potência de um olhar familiar que atravessa gerações para interpretar o caos do século XXI com humor ácido, crítica social e uma honestidade desconcertante.

A recepção crítica ao longo das décadas ajuda a dimensionar o peso do nome envolvido: de Art Spiegelman a Alan Moore, passando por Matt Groening e Chris Ware, há um consenso raro em torno da grandeza de Crumb, frequentemente descrito como um artista que redefiniu os limites do que os quadrinhos poderiam abordar em termos de linguagem, temática e liberdade criativa. Não se trata apenas de influência estética, mas de uma ruptura estrutural que abriu caminho para narrativas mais pessoais, experimentais e politicamente incisivas dentro da nona arte.

Em Tempos Modernos, essa tradição se atualiza ao mergulhar no turbilhão recente marcado pela pandemia de Covid-19, pela sobrecarga informacional e por um cenário político global cada vez mais polarizado, no qual figuras como Donald Trump surgem como personagens de um teatro absurdo que parece constantemente flertar com a caricatura. A obra transforma o cotidiano pandêmico, o isolamento e a paranoia coletiva em matéria-prima para histórias que oscilam entre o grotesco e o cômico, mantendo a marca registrada dos Crumb: uma franqueza brutal que recusa qualquer forma de idealização.

O caráter colaborativo do livro amplia ainda mais sua complexidade, já que coloca em diálogo três perspectivas distintas, embora conectadas por laços afetivos e artísticos. Aline Kominsky-Crumb, reconhecida como uma das pioneiras do quadrinho autobiográfico feminino, imprime à obra seu olhar confessional e provocador, abordando temas como corpo, sexualidade e neuroses com um traço deliberadamente imperfeito que desafia convenções estéticas e narrativas. Sua presença não apenas equilibra o universo de Crumb, mas também tensiona e expande suas abordagens, criando um espaço de confronto e complementaridade.

Sophie Crumb introduz uma dimensão mais introspectiva e poética, resultado de uma trajetória que, embora inevitavelmente influenciada pelo ambiente underground em que cresceu, busca caminhos próprios, explorando identidade, relações humanas e subjetividade com uma delicadeza que contrasta e, ao mesmo tempo, dialoga com a crueza dos pais. O resultado é uma obra que não se limita a documentar um período histórico, mas que o filtra através de sensibilidades distintas, oferecendo uma leitura multifacetada do presente.

A importância de Robert Crumb no panorama cultural não pode ser dissociada de sua atuação no movimento dos quadrinhos underground, especialmente com a criação da revista Zap Comix, que se tornou um marco fundador dessa vertente e influenciou gerações de artistas ao redor do mundo, incluindo nomes como Moebius. Seu trabalho extrapolou o universo das HQs, alcançando espaços institucionais como o Centro Pompidou e a Bienal de Veneza, além de conquistar reconhecimento no mercado de arte, onde suas obras atingiram valores recordes em leilões.

No Brasil, a publicação de Tempos Modernos dá continuidade ao esforço de tornar acessível ao público nacional uma produção que, durante muito tempo, circulou de forma limitada, reforçando o papel de editoras independentes na difusão de obras fundamentais para a compreensão da cultura contemporânea. Mais do que uma coletânea de histórias, o livro se apresenta como um documento sensível e incisivo de uma época marcada pela instabilidade, pelo excesso e pela necessidade urgente de interpretação crítica.


Ficha catalográfica

Título: Tempos Modernos
Autores: Robert Crumb, Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb
Tradução: Rogério de Campos; Cris Siqueira
Editora: Veneta
Formato: 21 x 28 cm
Número de páginas: 128 páginas
ISBN: 978-8595712300
Preço sugerido: R$ 99,99

Ruy Antônio Barata lança Esse Rio é Minha Rua em SP

Imagem: Divulgação


O lançamento de um livro pode, por vezes, representar apenas a chegada de uma nova obra ao mercado editorial; em outros casos, no entanto, torna-se um acontecimento cultural capaz de iluminar trajetórias individuais e coletivas, resgatando memórias que ajudam a compreender o país em suas múltiplas camadas históricas e sociais, como é o caso de Esse Rio é Minha Rua, estreia literária de Ruy Antônio Barata, que será apresentada ao público paulistano em um evento especial na Livraria da Vila, reunindo leitores, críticos e interessados em uma narrativa que atravessa quase um século da história brasileira a partir de uma perspectiva profundamente íntima e, ao mesmo tempo, amplamente política.

A obra, publicada pela Editora Paka-Tatu, não se limita a reconstruir a trajetória de uma família, mas propõe uma investigação sensível sobre a formação da identidade nacional, especialmente no que diz respeito à relação entre a Amazônia e os grandes movimentos políticos do Brasil e do mundo, articulando episódios que vão do tenentismo à ditadura civil-militar, passando por figuras históricas e intelectuais que orbitam a narrativa, como Mário de Andrade, Carlos Marighella e Jean-Paul Sartre, todos inseridos em um universo que mistura memória, literatura e reflexão histórica com notável densidade.

Ao longo de suas páginas, o livro constrói uma espécie de cartografia afetiva que se estende das margens do Rio Tapajós às paisagens urbanas de Rio de Janeiro, passando pelos cenários simbólicos e físicos do Rio Amazonas e do Rio Negro, compondo uma narrativa que alterna entre o épico e o cotidiano, entre o testemunho político e a delicadeza das lembranças familiares, sempre com uma linguagem que preserva a pulsação poética herdada de seu pai, Ruy Barata, figura central da Geração de 45 e referência na cultura paraense.

Mais do que um relato autobiográfico, Esse Rio é Minha Rua apresenta-se como um documento histórico que evidencia o impacto de eventos globais, como a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, sobre a formação social e cultural do Norte do Brasil, ao mesmo tempo em que expõe as contradições de um país que, nas palavras do autor, ainda trata regiões como o Pará como “filho órfão da Nação”, evidenciando desigualdades históricas e negligências estruturais que permanecem atuais.

A narrativa também se destaca pela capacidade de incorporar episódios que beiram o realismo fantástico, aproximando-se do imaginário literário de Gabriel García Márquez, seja ao relatar soluções improváveis como o uso de uma jiboia para conter morcegos em uma casa amazônica, seja ao reconstruir momentos de tensão política com uma dramaticidade quase ficcional, como a invasão de um aparelho comunista por militares em 1964, episódio que revela tanto a brutalidade do período quanto a coragem individual de personagens que resistiram à repressão.

Nesse contexto, a trajetória da família Barata surge como fio condutor de uma história maior, que envolve figuras como Alarico Barata, pioneiro na defesa de presos políticos, e conecta diferentes gerações marcadas por engajamento político, produção cultural e resistência intelectual, consolidando uma narrativa que se constrói em camadas, como pequenas histórias que se desdobram dentro de outras, ampliando constantemente o horizonte interpretativo do leitor.

O lançamento em São Paulo marca não apenas a chegada do livro ao público de uma das principais capitais culturais do país, mas também o reconhecimento de uma obra que, ao revisitar experiências pessoais, contribui para o entendimento de um Brasil menos visível, frequentemente ausente das narrativas oficiais, mas fundamental para a compreensão de nossa formação histórica e cultural.

SOBRE A OBRA

O médico Ruy Antônio Barata, filho do poeta Ruy Barata, estreia na literatura com o  livro “Esse rio é minha rua” (Editora Paka-Tatu), uma obra de memória e de pesquisa sobre a  história familiar que se entrelaça com acontecimentos da própria  História do Pará, do Século XX. O lançamento com sessão de autógrafos será na sexta-feira, 6 de março, às 18h, no Espaço da Livraria da Editora da UFPA, no Complexo dos Mercedários.

ADQUIRA A OBRA: https://www.editorapakatatu.com.br/product-page/esse-rio-%C3%A9-minha-rua-de-ruy-ant%C3%B4nio-barata

SOBRE O AUTOR

Nascido em Óbidos, no Baixo Amazonas, em 1944, Ruy Antônio Barata formou-se em Medicina e mudou-se para São Paulo, onde vive há 50 anos. Nefrologista pós-graduado e ex-presidente da Sociedade Paulista de Nefrologia, ele sempre se manteve conectado com o Pará e com as influências que fizeram dele um líder estudantil na juventude e, hoje, o tornaram escritor. Antes de “Esse rio é minha rua”, o autor participou da coletânea “Relatos Subversivos”, lançada em 2004, nos 40 anos do Golpe de 1964.


Ficha Catalográfica

Título: Esse Rio é Minha Rua
Autor: Ruy Antônio Barata
Editora: Editora Paka-Tatu
Ano: 2026
Gênero: Não ficção
ISBN: 978-85-7803-711-6
Número de páginas: 440
Preço: R$ 80,00

Poder e Socialismo no Século XXI: A Experiência Chinesa e a Reinvenção do Marxismo

JABBOUR, Elias; BOER, Roland. Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China. Apresentação de José Paulo Netto. São Paulo: Boitempo, 2026. ISBN 978-65-5717-548-4. Classificação: CDD 330.951; CDU 330.342.151(510).

Poder e socialismo se insere como uma obra de alta densidade teórica que pretende não apenas interpretar a experiência chinesa contemporânea, mas sobretudo reformular categorias fundamentais do marxismo à luz do século XXI, partindo do pressuposto de que o instrumental clássico, embora indispensável, tornou-se insuficiente diante das transformações históricas recentes. Logo na introdução, os autores deixam claro que conceitos como modo de produção, formação econômico-social e lei do valor exigem atualização, uma vez que foram elaborados em um contexto histórico distinto, afirmando que “é uma necessidade teórica urgente reinterpretar e reelaborar esses conceitos para torná-los mais adequados à compreensão do mundo no século XXI” (p. 27) . Essa proposição já define o eixo do livro: não se trata de uma leitura ortodoxa do marxismo, mas de uma tentativa deliberada de expansão categorial ancorada na experiência concreta chinesa.

Ao mesmo tempo, a introdução situa o leitor diante de uma transformação interna da própria China, marcada pela emergência de uma “nova gramática” do desenvolvimento, sintetizada em conceitos como “desenvolvimento de alta qualidade” e “desenvolvimento centrado no povo”, indicando uma transição de um crescimento quantitativo acelerado para um modelo orientado por equilíbrio social e sustentabilidade (p. 35) . Nesse ponto, já aparece o conceito-chave da obra, o “projetamento”, entendido como forma superior de planejamento econômico mediada por tecnologia e orientada por objetivos estratégicos de longo prazo.

O livro de Elias Jabbour e Roland Boer é, antes de tudo, uma tentativa ambiciosa de reconstrução do marxismo como ciência do poder político, deslocando o foco da crítica econômica clássica para uma abordagem mais ampla que integra governança, tecnologia, planejamento e estratégia estatal, tendo a China como laboratório histórico privilegiado. Ao longo de suas mais de trezentas páginas, a obra constrói a tese de que o país asiático não apenas desenvolveu um modelo socialista específico, mas inaugurou uma “nova classe de formações econômico-sociais”, exigindo a formulação de categorias inéditas, como o “metamodo de produção” e a “economia do projetamento”.

A força do argumento reside na articulação entre tradição e inovação, pois os autores partem da centralidade do pensamento de Marx, Engels e Lênin, mas recusam qualquer leitura dogmática, enfatizando a necessidade de “libertação do pensamento” como condição para o desenvolvimento do socialismo contemporâneo, evocando inclusive Deng Xiaoping ao afirmar que “se a economia permanece estagnada por um longo período de tempo, não se pode dizer que é socialismo” (p. 134) . Essa passagem é particularmente reveladora, pois evidencia que, para os autores, o critério de verdade do socialismo não é a fidelidade textual aos clássicos, mas sua capacidade de produzir desenvolvimento material e melhoria concreta das condições de vida.

Nesse sentido, o conceito de projetamento emerge como núcleo teórico do livro, definido como uma forma avançada de planejamento que supera tanto o espontaneísmo do mercado quanto os limites do planejamento tradicional, sendo caracterizado como um processo no qual o Estado utiliza tecnologia e inteligência estratégica para moldar a realidade econômica de forma consciente e orientada por objetivos coletivos. Os autores descrevem esse fenômeno como “forma superior de planificação econômica baseada na apreensão pelo corpo burocrático estatal de inovações tecnológicas disruptivas [...] e em sua inserção na criação de novas formas de moldar a realidade” (p. 35) . Trata-se, portanto, de uma redefinição radical da relação entre Estado, mercado e tecnologia, na qual o planejamento deixa de ser reativo e passa a ser propositivo e estruturante.

Essa concepção atinge seu ponto mais elaborado nas conclusões, quando o projetamento é descrito como uma “nova economia” com grau de racionalidade superior tanto ao capitalismo quanto às experiências socialistas anteriores, sendo apresentado como um movimento político e intelectual que visa superar a lógica restrita da relação custo-benefício e construir uma nova forma de organização social (p. 316-317) . Aqui, o livro assume claramente um tom normativo, defendendo a experiência chinesa não apenas como objeto de análise, mas como horizonte possível para o socialismo do século XXI.

Outro aspecto central da obra é a ênfase na categoria de contradição, retomada da tradição marxista, mas ampliada para incluir dimensões contemporâneas como tecnologia, geopolítica e subjetividade. Os autores argumentam que o Estado socialista se distingue precisamente por sua capacidade de “utilizar e introduzir conscientemente contradições no sistema para fazê-lo funcionar de acordo com o projeto” (p. 316) , o que representa uma inversão significativa da visão tradicional, na qual as contradições são vistas como problemas a serem superados, e não como instrumentos de gestão e transformação.

No plano internacional, o livro também oferece uma leitura crítica do imperialismo contemporâneo, descrito como mais sofisticado e abrangente do que suas formas clássicas, operando não apenas na esfera econômica, mas também no domínio das ideias e das emoções, ao ponto de os autores afirmarem que se trata de um sistema que busca “o monopólio da própria emoção humana” (p. 54) . Essa interpretação amplia o escopo da crítica marxista, incorporando elementos da guerra informacional e da disputa simbólica, o que dialoga diretamente com o contexto geopolítico atual.

A dimensão territorial também aparece como elemento relevante, ainda que secundário, indicando que o socialismo contemporâneo deve enfrentar não apenas questões econômicas, mas também os desafios da urbanização e da organização espacial, sendo necessário desenvolver uma teoria capaz de superar a “urbanização caótica” típica do capitalismo (p. 182) . Esse ponto reforça a ideia de que o projeto socialista, na visão dos autores, é totalizante, envolvendo todas as dimensões da vida social.

Entretanto, a obra não está isenta de tensões e possíveis críticas, especialmente no que diz respeito ao risco de sobrevalorização da experiência chinesa como modelo universal, bem como à tendência de transformar categorias analíticas em instrumentos normativos. Ao afirmar que o socialismo contemporâneo avança na direção de “mais acertos do que erros” (p. 319) , os autores adotam uma postura que pode ser vista como excessivamente otimista ou mesmo apologética, o que pode limitar a capacidade crítica do próprio modelo que defendem.

Ainda assim, o mérito do livro é inegável, sobretudo por sua ousadia teórica e pela tentativa de pensar o socialismo para além dos impasses do século XX, recuperando o marxismo como um sistema vivo, em constante transformação, e não como um conjunto fechado de dogmas. A obra se destaca por articular teoria e prática, tradição e inovação, análise e proposta, oferecendo ao leitor não apenas uma interpretação da China contemporânea, mas uma reflexão profunda sobre os caminhos possíveis do socialismo no mundo atual.

Em última instância, Poder e socialismo é menos um livro sobre a China e mais um esforço de reconstrução teórica que utiliza a experiência chinesa como evidência histórica de que o socialismo, longe de ser uma relíquia do passado, permanece como uma possibilidade concreta, desde que seja capaz de se reinventar diante das novas condições do século XXI.

Crítica | Pixels (2015)


O cinema de entretenimento contemporâneo tem na nostalgia um dos seus pilares mais lucrativos e, simultaneamente, mais controversos. Ao longo da última década, vimos a cultura pop ser revisitada, reembalada e vendida como um produto de consumo imediato para gerações que cresceram sob a influência de ícones específicos. O filme Pixels, dirigido por Chris Columbus, insere-se precisamente nessa dinâmica, utilizando a iconografia dos videogames clássicos dos anos 1980 como o núcleo de uma invasão alienígena que ameaça a existência da humanidade. A premissa, embora fantasiosa e inerentemente absurda, serve como uma lente através da qual o filme examina não apenas o valor cultural de uma era analógica prestes a ser engolida pela digitalização, mas também o arquétipo do indivíduo deslocado, o nerd que, através de uma guinada do destino, vê suas habilidades obsoletas serem ressignificadas como fundamentais para a sobrevivência global. A obra, estrelada por Adam Sandler, Kevin James, Peter Dinklage e Josh Gad, constrói sua base narrativa na ideia de que uma cápsula do tempo enviada ao espaço, contendo registros da cultura terrestre, foi mal interpretada por uma inteligência alienígena. O que nós enviamos como uma mensagem de paz e um compêndio do nosso entretenimento de fliperama foi lido por esses seres como uma declaração de guerra, levando-os a materializar os inimigos digitais de jogos como Pac-Man, Space Invaders e Donkey Kong em escala monumental para atacar o planeta. A partir dessa premissa, o longa-metragem se desenvolve como uma comédia de ação que busca equilibrar o espetáculo visual dos efeitos especiais com o humor característico do cinema de Sandler, criando um diálogo constante entre o passado glorificado dos consoles de 8 bits e a realidade tecnologicamente avançada do século 21.

A introdução ao universo do filme estabelece imediatamente a sua tese central: a valorização da competência técnica em sistemas que, para o mundo exterior, parecem inúteis. Sam Brenner, o protagonista, é apresentado como uma criança prodígio que, apesar de sua genialidade inata em dominar os padrões de movimento dos inimigos digitais, não encontra sucesso na vida adulta convencional. Essa trajetória é um tropos recorrente na filmografia de Sandler, mas aqui ganha uma camada extra de significado ao ser confrontada com a posição de poder exercida por seu amigo de infância, Will Cooper, que chegou à presidência dos Estados Unidos. Essa dualidade entre o homem que possui o conhecimento tático, mas carece de status social, e o homem que possui status, mas carece de competência prática, é o motor que movimenta a narrativa. A tensão entre o que é valorizado pelo sistema econômico vigente e o que é intrinsecamente habilidoso em campos marginais é o terreno onde Pixels constrói sua humanidade. O filme sugere que, embora a sociedade possa descartar o entusiasta de jogos como um indivíduo alienado, é justamente essa alienação que permite a compreensão das regras do jogo — tanto o videogame quanto o geopolítico — de uma maneira que os especialistas tradicionais não conseguem enxergar. Quando a crise eclode, a incapacidade do exército regular em lidar com ameaças que se comportam de maneira não linear, operando sob lógicas de programação e padrões de design dos anos 80, expõe a falência de uma abordagem puramente militarista diante do inusitado.

O aspecto visual de Pixels é, inegavelmente, um dos seus pontos mais fortes e, ao mesmo tempo, um dos mais desafiadores para o espectador. A transição dos sprites de baixa resolução para a tridimensionalidade destrutiva nas cidades humanas é realizada com um cuidado técnico que honra a estética original dos jogos. O Pac-Man, por exemplo, não é meramente uma bola amarela, mas uma força da natureza devoradora que transforma matéria em pixels ao tocá-la, criando uma ameaça surrealista que é, ao mesmo tempo, ameaçadora e esteticamente deslumbrante. Essa escolha criativa de design reforça a ideia de que a ameaça é uma extensão da nossa própria cultura. Não estamos enfrentando monstros desconhecidos das profundezas do cosmos, mas sim as representações físicas das nossas próprias criações, que retornam para nos confrontar. Existe um comentário implícito sobre a relação entre o criador e a criatura, onde o entretenimento que serviu como forma de escape torna-se, ironicamente, o instrumento da nossa ruína. A nostalgia, aqui, funciona como um elemento que une a audiência ao filme; para aqueles que jogaram esses títulos, cada sequência de ação ressoa como uma memória afetiva, enquanto para os mais jovens, a espetacularidade das cenas funciona como um atrativo visual. No entanto, o filme corre o risco de se tornar uma coleção de referências vazias, um perigo que ele contorna em parte através da dinâmica entre os personagens.

O elenco, encabeçado por Adam Sandler em um registro comedido para os seus padrões, atua como a âncora emocional. Peter Dinklage, interpretando o rival Eddie Plant, traz uma energia cômica e um carisma que roubam a cena, personificando o arquétipo do jogador competitivo cuja arrogância é a sua maior virtude e o seu maior defeito. A relação entre esses jogadores de elite, que não se veem há décadas, permite explorar temas de amizade, arrependimento e a busca por um propósito na vida adulta. O filme reflete sobre a ideia de que o tempo não perdoa, e que a transição para a maturidade muitas vezes exige o sacrifício de nossas paixões juvenis. Contudo, em Pixels, a oportunidade de redescobrir essas paixões sob um contexto de perigo extremo atua como uma catarse. A camaradagem entre os personagens principais, construída sobre os escombros da inércia de suas vidas cotidianas, é o que torna a jornada suportável. Eles não são heróis no sentido clássico, mas especialistas circunstanciais cujo momento de glória chegou muito depois do que eles imaginavam. Esse sentimento de "última oportunidade" confere à trama uma urgência que mantém o interesse do público, mesmo quando o roteiro se entrega a clichês de comédia pastelão ou soluções narrativas apressadas.

Contudo, uma análise rigorosa não pode ignorar os limites do filme em sua construção narrativa. Pixels sofre, ocasionalmente, de uma dificuldade em manter o ritmo quando não está focado na ação ou na dinâmica central dos personagens. Algumas subtramas, como o romance forçado ou as piadas sobre a vida conjugal, parecem desconectadas do cerne da proposta, servindo apenas para preencher o tempo de tela com um humor que, por vezes, se sente datado. A tentativa de equilibrar a escala épica da invasão alienígena com as questões triviais da vida dos personagens nem sempre é bem-sucedida, criando um descompasso tonal que pode alienar o espectador que busca uma coesão mais firme. Além disso, a premissa de que a humanidade é salva por um grupo de nerds estereotipados pode ser vista como uma repetição exaustiva de clichês da década de 80 e 90, onde a salvação do mundo sempre recai sobre aqueles que a sociedade despreza, uma inversão que, embora satisfatória, já se tornou um padrão tão comum quanto o herói de ação invencível que o filme tenta parodiar.

No que diz respeito à análise crítica do gênero de comédia de ficção científica, Pixels ocupa um lugar singular. Ele não busca a profundidade existencial de um Blade Runner ou a ironia ácida de Marte Ataca!, optando por um caminho que é mais direto em suas intenções de diversão familiar. O filme se contenta em ser um espetáculo de entretenimento, e, sob essa ótica, ele atinge seus objetivos com competência. O design de produção e a escolha dos jogos não são arbitrários; eles refletem um período em que a tecnologia de jogos de vídeo estava dando seus primeiros passos rumo à massificação cultural. O uso dos Ghostbusters (caça-fantasmas) como referência na tecnologia de combate é uma escolha astuta, conectando ainda mais a obra a esse panteão cultural da época. O longa reconhece que a cultura de fliperama era um espaço social, um local de encontro físico que hoje foi substituído pela rede, e há uma melancolia sutil no modo como os personagens lidam com a tecnologia moderna, sempre preferindo o tato, o joystick físico e a interface simples de outrora.

O clímax do filme, com a batalha contra os ícones de Donkey Kong e a resolução do conflito, é o ponto culminante do seu discurso sobre a superação. Ao derrotar as criações alienígenas seguindo estritamente as regras que eles mesmos programaram em seu software original, os protagonistas provam que a maestria sobre um sistema não se perde com a idade. A vitória não vem através da força bruta de armas nucleares ou tecnologias avançadas de extermínio, mas através da compreensão profunda do código, da repetição, do erro e do aprendizado — as ferramentas fundamentais do jogador. Este é um comentário, ainda que simples, sobre a importância da especialização e da dedicação. O filme argumenta que, não importa quão obscura ou irrelevante possa parecer a sua área de domínio, ela possui um valor intrínseco que, sob as circunstâncias certas, pode ser a diferença entre a ordem e o caos. Esse otimismo em relação à competência individual é o que confere a Pixels um coração, apesar de todas as suas falhas estruturais e momentos de humor questionável.

Refletindo sobre o impacto do filme, podemos concluir que ele funciona como um espelho da sociedade atual: estamos cercados por tecnologia, mas nossa conexão com a base, com a origem dessas tecnologias, torna-se cada vez mais tênue. O filme convida o espectador a olhar para trás, não com saudosismo paralisante, mas com a percepção de que as lições aprendidas em outros tempos ainda carregam validade. Ao fim, a narrativa de Pixels não é sobre tecnologia, mas sobre as pessoas que encontram significado no que amam. É sobre a validação daqueles que, por muito tempo, foram chamados de "perdedores" por dedicarem horas a fios a objetos que o mundo considerava inanimados. O filme oferece a esse público — o nerd, o jogador, o entusiasta — um momento de vingança doce e satisfatória, onde o mundo finalmente entende a linguagem que eles falam. Embora o longa possa não ter a sofisticação intelectual de outros grandes nomes da ficção científica, ele compensa essa lacuna com uma autenticidade em relação ao seu tema que é difícil de ignorar.]

É importante também considerar a direção de Chris Columbus, um cineasta com uma carreira notável em lidar com o fantástico e o cotidiano. Sua capacidade de orquestrar grandes elencos em situações de fantasia é evidente aqui, mesmo que o material base não ofereça a mesma riqueza emocional de clássicos como Esqueceram de Mim ou Harry Potter e a Pedra Filosofal. Columbus trata o material com um respeito quase infantil, mantendo o foco na maravilha e no entretenimento, sem se preocupar excessivamente com a verossimilhança científica ou a complexidade política. Essa abordagem serve bem ao propósito do filme, que é ser, antes de tudo, uma celebração. Onde outros diretores poderiam ter tentado subverter a nostalgia ou transformá-la em algo cínico, Columbus a abraça, tratando os jogos como peças de museu vivas que merecem ser celebradas. Esse tom positivo, quase nostálgico em si mesmo, é o que mantém o filme como um registro curioso de uma era específica do cinema americano, onde o blockbuster ainda buscava o apelo multigeracional puro, sem a necessidade de construir universos cinematográficos interconectados.

O roteiro, embora funcional, poderia ter se beneficiado de uma exploração mais profunda das consequências da invasão. O mundo, apesar de atacado por forças que transformam prédios em cubos de matéria inanimada, parece se recuperar com uma facilidade desconcertante, um traço comum em muitos filmes de desastre que buscam não pesar demais o clima. O filme prefere focar na jornada dos protagonistas do que no impacto sociopolítico global, uma escolha que, novamente, limita o alcance da narrativa, mas protege o seu caráter lúdico. O espectador deve, portanto, abraçar o absurdo para aproveitar a experiência. Pixels não pede ao seu público que questione a lógica da sua existência, mas que aceite o convite para jogar. E nesse sentido, o filme é um sucesso. Ele cumpre o que promete: uma aventura que utiliza elementos da nossa memória cultural recente para criar um espetáculo divertido, visualmente criativo e, no fim, profundamente ligado à ideia de que a nossa infância nos prepara, de maneiras imprevisíveis, para os desafios do futuro.

Em uma análise final, Pixels é um filme sobre a memória e a importância de não esquecer de onde viemos. A mensagem de que os "jogos de antigamente" não eram apenas perda de tempo, mas exercícios de raciocínio, paciência e reflexo, encontra eco na vitória dos personagens. É uma defesa apaixonada da cultura nerd, feita em uma escala de superprodução que raramente é concedida a temas tão específicos. O filme pode ter deslizes de tom e momentos de roteiro previsível, mas ele possui uma alma dedicada ao seu material de origem que ressoa com qualquer um que já tenha segurado um controle e sentido o mundo ao seu redor desaparecer, deixando apenas o desafio da tela à sua frente. Ao revisitar Pixels, percebe-se que, por trás da fachada de comédia de Adam Sandler, existe uma homenagem sincera a uma geração que viu o nascimento do mundo digital e que, desde então, tem tentado encontrar o seu lugar em um universo que não para de atualizar os seus gráficos e mudar as suas regras. E se o filme nos ensina algo, é que as habilidades que desenvolvemos ao longo da vida — não importa quão estranhas ou obsoletas possam parecer — são as que, eventualmente, nos salvarão quando o jogo ficar difícil de verdade.

Por fim, é impossível não notar como o filme se posiciona como um documento cultural de uma década específica do século XXI, onde a cultura da nostalgia começou a atingir o seu ápice. Ele não é apenas um filme sobre videogames; é um filme sobre o desejo de retorno, de restaurar uma ordem onde as regras eram claras, os inimigos tinham padrões previsíveis e o sucesso era uma recompensa direta da habilidade. Esse desejo, compartilhado por tantos, é o que sustenta o interesse pelo longa, mesmo anos após o seu lançamento. Pixels, apesar de suas imperfeições, permanece como um lembrete da persistência da infância na vida adulta e da importância de mantermos viva a capacidade de brincar, mesmo quando o destino do planeta parece estar em jogo. Ele é, no melhor sentido possível, um fliperama de duas horas, onde as fichas podem ser limitadas, mas a diversão — e a nostalgia — duram o quanto o espectador permitir.

Vínculos violentos e privilégios em jogo: finalista do Jabuti 2025, Andressa Tabaczinski estreia na Rocco com thriller ambientado na “república” de Curitiba


Em “Boas meninas se afogam em silêncio”, o feminicídio de uma herdeira da alta sociedade mobiliza a polícia e desmonta a imagem de moralidade da Curitiba da Lava Jato.

A médica e escritora gaúcha Andressa Tabaczinski, 35, estreia na ficção com Boas meninas se afogam em silêncio (Rocco, 272 páginas), thriller investigativo finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento. A obra, publicada anteriormente sob o título Crisálida, chega agora em nova edição, ampliando o alcance de uma narrativa que articula investigação policial, drama familiar e crítica às estruturas conservadoras e aos privilégios sociais.

Ambientado na alta sociedade de Curitiba, o romance tem início com a descoberta do corpo de Amélia Moura, jovem encontrada com sinais de estrangulamento em uma área isolada da cidade, em meio às araucárias, após uma tempestade. O caso, inicialmente arquivado por falta de provas, é reaberto diante da pressão da mídia e da opinião pública. A investigação passa a ser conduzida pela delegada Ana Cervinski e pelo policial Júlio Bragatti.

O enredo ganha complexidade com a revelação de que a vítima mantinha encontros secretos com uma mulher, registrados por câmeras de segurança. A descoberta tensiona a imagem pública de Amélia como “boa menina” e expõe contradições que apontam para uma vida privada marcada por segredos. Ao entrelaçar feminicídio e repressão à sexualidade feminina, a narrativa evidencia mecanismos de silenciamento presentes em contextos sociais conservadores.

A origem do romance remonta ao período em que a autora viveu em Curitiba, atuando como médica em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em São José dos Pinhais, durante o auge da Operação Lava Jato — fase em que a cidade passou a ser associada à chamada “República de Curitiba”. Segundo Tabaczinski, o ambiente de valorização de uma suposta superioridade moral, somado a casos reais de violência e impunidade, influenciou diretamente a construção da obra. A primeira versão do livro levou cerca de dois anos para ser concluída.

Com estrutura narrativa que alterna entre o avanço da investigação e os acontecimentos que antecedem o crime sob a perspectiva da protagonista, o romance combina ritmo acelerado e tensão psicológica. A abordagem de temas como violência de gênero e descoberta da sexualidade, tratada de forma simultaneamente sensível e contundente, contribui para a singularidade da obra.

De acordo com a autora, os principais eixos temáticos — autodescoberta, relações LGBT, violência de gênero, desigualdades sociais e conflitos familiares — emergem do interesse em examinar o embate entre a vida íntima e as normas sociais. Nesse contexto, a afirmação do desejo individual pode ser percebida como ameaça, desencadeando reações violentas em determinados ambientes.

Tabaczinski defende ainda o papel da ficção na problematização dessas questões. Para ela, narrativas como a de Amélia contribuem para dar visibilidade a formas de violência frequentemente naturalizadas, ao mesmo tempo em que tensionam estruturas que permitem sua persistência.

Da medicina à literatura

Nascida em 1990, em Passo Fundo (RS), e criada em Balneário Camboriú (SC), Andressa Tabaczinski formou-se em Medicina pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e atuou como clínica geral antes de iniciar residência em Psiquiatria, em Porto Alegre. Em 2018, após um episódio de burnout, interrompeu a formação médica para se dedicar integralmente à literatura.

Posteriormente, residiu no Rio de Janeiro, onde se tornou sócia da Editora Oito e Meio e da escola Carreira Literária, ao lado da escritora Flávia Iriarte. Atualmente, atua como publisher, curadora e mentora em escrita criativa, e vive em Brasília.

A autora trabalha agora na finalização de seu segundo romance, um thriller psicológico ambientado no litoral do Rio Grande do Sul. A trama acompanha um psiquiatra que, após um apagão, passa a suspeitar de seu envolvimento em um assassinato. Em fuga pela costa gaúcha com o sobrinho de sete anos, o personagem enfrenta uma jornada marcada por culpa, paranoia e dilemas de responsabilidade afetiva.


Ficha técnica
Título: Boas meninas se afogam em silêncio
Autora: Andressa Tabaczinski
Editora: Rocco
Edição: 1ª edição pela Rocco (publicado anteriormente como Crisálida)
Ano: 2025
Páginas: 272
Gênero: Thriller investigativo / suspense psicológico
ISBN: 978-65-5532-421-1
Disponível em: https://rocco.com.br/produto/boas-meninas-se-afogam-em-silencio/

Resenha crítica da obra Irene ou da Tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite


A poesia contemporânea brasileira tem se destacado, nas últimas décadas, por um movimento de intensa experimentação formal e temática, no qual o sujeito lírico deixa de ser apenas um mediador de sentimentos para tornar-se também um campo de tensão entre linguagem, corpo e pensamento. É nesse território inquieto que se insere Irene ou da Tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite, uma obra que não apenas se lê, mas se experimenta — quase como um organismo vivo, pulsante, fragmentado e profundamente sensorial.

Desde o título, a obra já se anuncia como um espaço de ambiguidade e densidade. “Irene”, palavra de origem grega que remete à paz, contrasta com “tensilidade”, termo que evoca tensão, elasticidade, resistência à ruptura. Essa dualidade atravessa toda a obra: paz e conflito, corpo e linguagem, desejo e dissolução, presença e ausência. Trata-se de um livro que desafia o leitor a abandonar expectativas lineares e mergulhar em uma experiência poética radical, na qual forma e conteúdo são indissociáveis.

Ao longo dos poemas, organizados em blocos que sugerem uma espécie de narrativa fragmentada, o autor constrói uma reflexão sobre o amor, o corpo, o tempo e a morte — não de maneira tradicional ou discursiva, mas por meio de imagens densas, jogos sonoros, experimentações tipográficas e uma linguagem que oscila entre o lírico e o quase filosófico. O resultado é uma obra que exige atenção, entrega e, sobretudo, disposição para o desconforto.

Um dos aspectos mais marcantes de Irene ou da Tensilidade é o modo como a linguagem se comporta não apenas como meio de expressão, mas como matéria viva. As palavras não são apenas significantes; elas parecem carregar peso físico, textura, ritmo e até mesmo resistência. A “tensilidade” do título se manifesta na própria escrita: versos que se esticam, se fragmentam, se repetem, se contraem.

O autor frequentemente rompe com a linearidade sintática, criando construções que desafiam a leitura fluida. Há cortes abruptos, palavras isoladas, jogos tipográficos e espaçamentos que sugerem pausas ou respirações irregulares. Essa estratégia não é gratuita: ela reforça a ideia de que o poema é também um corpo em tensão, um campo de forças onde sentido e forma se confrontam. Além disso, há uma forte presença de neologismos e combinações inusitadas, como “pertodistante” ou “simetricorreflexo”, que ampliam o campo semântico da obra e exigem do leitor uma postura ativa na construção do significado. A linguagem, aqui, não oferece respostas prontas — ela provoca, instiga, desestabiliza.

O tema do amor atravessa toda a obra, mas está longe de ser tratado de maneira idealizada. Pelo contrário: o amor em Irene ou da Tensilidade é visceral, ambíguo, por vezes violento. Ele aparece como encontro e desencontro, como fusão e separação, como desejo de união e consciência da inevitável solidão.

Os poemas exploram a intimidade do corpo com uma intensidade quase crua. Há descrições sensoriais que envolvem toque, cheiro, temperatura, fluidos — elementos que aproximam o texto de uma experiência quase tátil. No entanto, essa materialidade não elimina a dimensão existencial do amor; ao contrário, a intensifica.

O sujeito lírico parece constantemente dividido entre a vontade de se fundir ao outro e a percepção de que essa fusão é impossível. “Na solidão que somos” é uma das ideias centrais que emergem do texto: mesmo no encontro mais íntimo, permanece uma distância irreparável. O amor, portanto, não é solução, mas ampliação da tensão.

Outro aspecto relevante é a forma como o corpo é representado. Longe de qualquer idealização estética, o corpo em Irene ou da Tensilidade é apresentado em sua complexidade: desejante, vulnerável, por vezes grotesco. Há uma exploração franca da sexualidade, que não se limita ao erotismo, mas se estende à reflexão sobre identidade, gênero e relação com o outro. O autor não hesita em utilizar termos explícitos ou imagens fortes, mas o faz com uma intenção claramente poética e reflexiva. O corpo não é objeto; é sujeito, é linguagem, é campo de experiência. Em muitos momentos, a própria estrutura do poema parece imitar movimentos corporais — aproximação, afastamento, repetição, exaustão.

Essa dimensão corporal da linguagem reforça a ideia de que a poesia, aqui, não é apenas intelectual, mas também sensorial. Ler o livro é, de certa forma, experimentar um corpo em movimento.

Se o amor e o corpo são eixos centrais, o tempo e a morte funcionam como pano de fundo constante. Há uma consciência aguda da finitude, que permeia os poemas e confere a eles uma tonalidade melancólica. No entanto, essa melancolia não é passiva; ela se transforma em impulso criativo, em tentativa de capturar o instante, de resistir ao esquecimento.

A memória aparece de forma fragmentada, muitas vezes associada a imagens sensoriais ou situações cotidianas. Pequenos gestos — como arrumar o cabelo, ouvir o café sendo preparado, sentir o toque do outro — ganham uma dimensão quase épica, justamente por sua efemeridade. A morte, por sua vez, não é tratada apenas como fim, mas como presença constante, como algo que atravessa a vida e a torna mais intensa. Em um dos trechos mais marcantes, o sujeito lírico reflete sobre a experiência de ver um cadáver e a dificuldade de compreender a morte — especialmente na infância. Esse momento sintetiza a tensão entre conhecimento e incompreensão que atravessa toda a obra.

A estrutura do livro é outro elemento digno de destaque. Os poemas não seguem uma organização tradicional; em vez disso, parecem formar um fluxo contínuo, dividido em blocos que funcionam quase como movimentos de uma composição musical.

Há também uma forte presença de intertextualidade, com referências que vão da mitologia grega à literatura europeia, passando por elementos da cultura popular. Essas referências não são explicadas, mas incorporadas ao tecido do texto, contribuindo para sua densidade.

A alternância entre línguas — português, inglês, espanhol — reforça a ideia de que a linguagem é múltipla e instável. Em alguns momentos, o texto se aproxima de uma espécie de fluxo de consciência, no qual pensamentos, imagens e sensações se sobrepõem. Um dos efeitos mais interessantes da obra é a forma como ela convoca o leitor a participar ativamente da construção de sentido. Não se trata de uma leitura passiva; é necessário interpretar, conectar, reler, aceitar a ambiguidade.

Essa exigência pode afastar leitores que buscam uma poesia mais direta, mas é justamente o que torna Irene ou da Tensilidade uma obra relevante no contexto contemporâneo. Ela não oferece conforto, mas experiência; não entrega respostas, mas perguntas.

Irene ou da Tensilidade é uma obra que se destaca pela coragem estética e pela intensidade de sua proposta. Danilo da Costa-Cobra Leite constrói um livro que desafia convenções, explora limites e transforma a linguagem em matéria viva. Ao abordar temas como amor, corpo, tempo e morte, o autor não busca respostas definitivas, mas cria um espaço de tensão onde essas questões podem ser vividas em toda a sua complexidade.

Trata-se de uma poesia que exige do leitor não apenas atenção, mas entrega — uma disposição para se perder e se reencontrar no texto. Em um cenário literário muitas vezes marcado pela busca por acessibilidade e imediatismo, a obra se posiciona como um contraponto necessário: densa, exigente, profundamente sensorial.

Mais do que um livro de poemas, Irene ou da Tensilidade é uma experiência estética e existencial. Uma obra que não se esgota em uma única leitura e que, justamente por isso, permanece — como tensão, como eco, como presença.

Autor: Danilo da Costa-Cobra Leite
Título: Irene ou da Tensilidade
Local de publicação: Curitiba, PR
Editora: Kafka Editora & Produções Gráficas LTDA
Ano de publicação: 2025
Descrição física: Livro impresso, papel Pólen Bold, tipografia Graveur
Gênero: Poesia brasileira contemporânea
Idioma: Português (com inserções em outras línguas, como inglês e espanhol)
ISBN: (não informado no trecho analisado)
Classificação: Literatura brasileira – poesia – experimentalismo contemporâneo

SOBRE O AUTOR


Danilo da Costa-Cobra Leite é paulistano, 42 anos, advogado, ex-servidor público estadual e atualmente servidor público municipal (Analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental), sociólogo, doutor em Letras (USP) e escritor. Aprendeu desde cedo a aceitar e amar a cultura paulista, caipira, nordestina, brasileira no que elas tem de mais genuíno e libertário. Sua pesquisa acadêmica se volta para a área das línguas e literatura clássica (grego antigo, latim e filologia indo-europeia), filosofia antiga, ética, filosofia das emoções e teoria da literatura. Publicou sete livros: "Paralithomaquia" (Patuá, 2015), "Nhe'enga a more quixotesco" (Kotter, 2019), "Nenhuma chuva em vão: quebra-cabeça" (Caravana, 2021)," Epyka" (Mentes Abertas, 2021), "24 horas-haiku" (Mentes Abertas, 2021), "Caminho das aves" (Kotter, 2025), "Irene ou da tensilidade" (Kafka, 2025).

Resenha: Ódio ao poema, de Vitor Miranda

Ódio ao Poema, de Vitor Miranda, é uma obra que se posiciona deliberadamente contra a própria tradição que a sustenta: a poesia. Desde o título, há um gesto provocativo, quase iconoclasta, que sugere uma negação do fazer poético — mas que, paradoxalmente, só pode existir dentro dele. O livro se apresenta como uma espécie de manifesto fragmentado, um anti-poema que, ao atacar a poesia, revela sua permanência e inevitabilidade.

A obra mergulha em um fluxo textual que mistura crítica social, violência urbana, ironia, metalinguagem e referências culturais diversas. Em vez de buscar a beleza tradicional ou a musicalidade clássica, Miranda aposta no choque, na repetição, na ruptura e na saturação. O poema deixa de ser objeto estético elevado para se tornar um corpo ferido, um organismo em decomposição, um produto de mercado, uma vítima e, simultaneamente, um agente de denúncia.

Mais do que um livro de poesia, Ódio ao Poema é uma reflexão radical sobre o lugar da literatura em um mundo marcado por desigualdade, banalização da violência e esvaziamento simbólico. A obra dialoga com uma tradição de ruptura — que remonta às vanguardas do século XX —, mas o faz com uma urgência contemporânea profundamente brasileira.

Logo nas primeiras páginas, o autor estabelece um tom que será mantido ao longo de toda a obra: a recusa da poesia como instrumento burguês. A afirmação de que “a poesia é um entretenimento burguês” não é apenas provocativa — ela funciona como eixo conceitual do livro. Miranda questiona a utilidade da poesia diante de realidades brutais: violência policial, desigualdade social, exploração do trabalho e banalização da morte.

No entanto, essa negação não elimina o poema — ela o transforma. Ao declarar ódio à poesia, o autor cria uma nova forma de fazê-la. O poema deixa de ser contemplativo e passa a ser combativo, quase panfletário em alguns momentos, mas sem perder sua densidade simbólica.

Essa tensão entre rejeição e necessidade é um dos aspectos mais interessantes da obra. O poema é odiado, mas também é inevitável. Ele ressurge constantemente, mesmo quando declarado morto.

Uma das imagens mais recorrentes no livro é a do poema como corpo — um corpo que sofre, sangra, trabalha, é explorado e assassinado. Essa corporeidade aproxima o texto da realidade concreta e afasta qualquer idealização estética.

O poema está:

  • “em situação de rua”
  • “com fome e sede”
  • “trabalhando”
  • “sendo morto pela polícia”

Essa personificação radical transforma o poema em sujeito político. Ele deixa de ser apenas linguagem para se tornar testemunha e vítima da sociedade.

Ao fazer isso, Miranda desloca o foco da poesia: não se trata mais de expressão individual, mas de representação coletiva. O poema incorpora as dores de uma população marginalizada e invisibilizada.

A estrutura do livro é marcada pela fragmentação. Não há linearidade narrativa, nem progressão temática clara. O texto se organiza em blocos que misturam:

  • notícias
  • pensamentos
  • diálogos
  • slogans
  • reflexões filosóficas

Essa estética caótica reflete o próprio conteúdo: um mundo desordenado, saturado de informações e marcado por contradições.

A fragmentação também reforça a ideia de que o poema está em crise. Ele não consegue mais se sustentar como unidade coerente — está quebrado, disperso, em constante ruptura.

Outro eixo central da obra é a crítica ao mercado literário e à transformação da poesia em produto. O trecho que simula uma venda de poemas (“compre poemas! no pix ou à prestação”) é especialmente significativo.

Aqui, o autor denuncia:

  • a lógica capitalista aplicada à arte
  • a superficialização da produção literária
  • a transformação do poeta em vendedor

Essa crítica não é feita de forma sutil — pelo contrário, é explícita, irônica e agressiva. O poema se torna mercadoria, mas também ironiza sua própria venda.

A obra dialoga com diversos nomes e elementos da cultura:

  • Goethe
  • Werther
  • Lacan
  • Madonna
  • Maria Bethânia

Essas referências criam um contraste entre alta cultura, cultura de massa e realidade social. Ao colocar Madonna ao lado de massacres e crises políticas, Miranda evidencia o absurdo da contemporaneidade.

A intertextualidade também serve para questionar o papel dos grandes nomes da literatura. Ao sugerir que “se eu tivesse assassinado Goethe não nasceriam outros Goethes”, o autor ironiza a ideia de genialidade e tradição.

A violência é um tema constante e aparece de forma crua e repetitiva. Crianças mortas, operações policiais, guerras internacionais — tudo é incorporado ao poema.

O impacto dessa repetição é duplo:

  1. Denunciar a normalização da violência
  2. Mostrar a incapacidade da linguagem de dar conta dela

O poema tenta representar a violência, mas também reconhece seu fracasso. Essa consciência crítica reforça a complexidade da obra.

Ódio ao Poema é profundamente metapoético. O texto fala constantemente sobre o próprio poema:

  • sua inutilidade
  • sua fragilidade
  • sua impossibilidade

Essa autorreflexão cria um efeito de espelho: o poema se observa enquanto se destrói.

A crise da linguagem é evidente. Há momentos em que o autor parece duvidar da própria capacidade de dizer algo significativo. Ainda assim, o texto continua — como se escrever fosse inevitável.

Apesar de todo o discurso de ódio e negação, o livro termina reafirmando a permanência do poema. Mesmo odiado, ignorado e atacado, ele continua existindo.

Essa é talvez a principal mensagem da obra: o poema não pode ser eliminado. Ele resiste, mesmo em condições adversas.

O ódio ao poema, portanto, não é destruição — é transformação.

Ódio ao Poema é uma obra intensa, provocadora e profundamente contemporânea. Vitor Miranda constrói um texto que desafia convenções, questiona a função da poesia e expõe as contradições da sociedade brasileira.

A linguagem é agressiva, fragmentada e muitas vezes desconfortável — mas esse desconforto é intencional. O autor não busca agradar, mas provocar reflexão.

Entre seus principais méritos estão:

  • a coragem estética
  • a crítica social contundente
  • a inovação formal
  • a capacidade de dialogar com o presente

Por outro lado, a obra pode ser desafiadora para leitores que esperam uma poesia mais tradicional ou estruturada. A ausência de linearidade e a intensidade do conteúdo exigem atenção e disposição.

Ainda assim, trata-se de um livro relevante e necessário. Em um cenário em que a poesia muitas vezes é esvaziada ou domesticada, Ódio ao Poema surge como um grito — desconfortável, caótico, mas absolutamente vivo.

E talvez seja justamente isso que o torna tão potente: ao odiar o poema, Vitor Miranda prova que ele ainda importa.

Autor: Vitor Miranda
Título: Ódio ao Poema
Edição: 1ª edição
Local de publicação: São Paulo, SP – Brasil
Editora: Barraco Editorial
Ano: 2026
Gênero: Poesia contemporânea / Poesia experimental / Crítica literária poética
Idioma: Português

O AUTOR

Vitor Miranda é poeta e escritor paulistano com vivências pelo Paraná e Minas Gerais. Atualmente se divide em São Paulo e Valinhos. “Os ratos vão para o céu?” é seu sétimo título lançado. Entre poemas e contos, e o romance experimental “A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty”. É poeta e letrista da Banda da Portaria, projeto que nasceu para musicar os poemas de seu livro “Poemas de amor deixados na portaria” e ganhou vida. É parceiro em letras e canções de artistas como Alice Ruiz, Rubi, Touché, João Sobral, Luz Marina, Zeca Alencar e os porteiros João Mantovani, Binho Siqueira e Arthur Lobo. Também faz parte como letrista do Margaridáridas, projeto de sua parceria com o músico paranaense, Eduardo Touché. Criou em 2019 o videocast de poesia Prosa com Poeta, no qual entrevistou diversos artistas como Alice Ruiz, Maria Vilani, Bob Baqq, Daniel Perroni Ratto, entre outros. É criador e organizador do Movimento Neomarginal, grupo artístico vivo que tenta vencer as amarras do mercado artístico misturando artistas de diferentes níveis (sociais) de público nos mesmos eventos.

CRÍTICA | Sem Saída (2011)

A crítica cinematográfica exige, por vezes, um olhar atento àquilo que o cinema de gênero oferece como entretenimento puro, e "Sem Saída" (Abduction, 2011), sob a batuta do diretor John Singleton, é um exemplo contundente de como o suspense adolescente pode ser bem executado quando alinhado a uma narrativa de ritmo acelerado e constante movimento. Protagonizado por Taylor Lautner, o filme não se propõe a revolucionar a sétima arte, mas cumpre com louvor a sua missão de entregar um thriller de perseguição que mantém a tensão em níveis elevados desde a primeira cena.

A premissa que ancora o filme é um clássico moderno da desconfiança: Nathan Harper, um estudante vivendo o tédio suburbano, descobre involuntariamente que toda a sua existência foi baseada em uma mentira. A partir do momento em que encontra sua foto em um banco de dados de crianças desaparecidas, a película abandona qualquer pretensão de drama cotidiano para mergulhar em uma espiral de espionagem, traições e segredos governamentais. A transição de Nathan, interpretado por Lautner, de um adolescente inadaptado e impulsivo para alguém que precisa utilizar técnicas de combate para sobreviver, é um arco que, embora previsível em seus moldes, é conduzido com uma fisicalidade que justifica a escolha do protagonista.

O cerne do sucesso deste projeto reside na química entre Lautner e Lily Collins, que dá vida à vizinha Karen. Enquanto a trama se expande para conspirações internacionais envolvendo figuras como Martin Price, a relação entre os dois jovens funciona como um contrapeso emocional necessário. Sem a interação deles, a história poderia facilmente descambar para um filme de ação estéril; entretanto, a veracidade do medo e da cumplicidade que compartilham sob a ameaça constante de assassinos profissionais confere ao longa uma humanidade que o espectador consegue absorver e validar. A direção de Singleton demonstra sua maturidade ao orquestrar sequências de ação em espaços confinados, como a icônica sequência da fuga no trem, onde a claustrofobia se alia ao ritmo frenético da montagem para criar momentos de genuina apreensão.

É importante notar como o filme utiliza a tecnologia a seu favor, transformando algo tão comum quanto um celular ou um site da internet em motores de perseguição. A lista encriptada que sustenta todo o conflito funciona como um "MacGuffin" eficiente, movendo a trama através de uma era onde a privacidade é uma ilusão e o rastreamento digital é uma ferramenta onipresente. O roteiro de "Sem Saída" não tenta ser um tratado geopolítico complexo, o que seria um erro para o público que busca um entretenimento direto, e sim um suspense autoconsciente que prioriza a fluidez dos fatos em detrimento de explicações técnicas exaustivas.

Visualmente, o filme mantém um tom sóbrio que valoriza as locações e a atmosfera de isolamento dos protagonistas enquanto eles atravessam o país tentando entender suas próprias origens. O elenco de apoio, que conta com nomes de peso como Sigourney Weaver e Alfred Molina, confere a "Sem Saída" uma camada de credibilidade que eleva o material original, equilibrando a energia da juventude de seus protagonistas com a experiência de veteranos do cinema que entendem perfeitamente o tom de urgência exigido pela narrativa.

Ao final, "Sem Saída" se consolida como uma obra de entretenimento de alta qualidade que entende o valor de manter o espectador engajado. É um filme que, ao encerrar suas contas pendentes e fechar o arco de busca por identidade de Nathan, deixa uma janela aberta para a complexidade das relações familiares, mostrando que, por trás da adrenalina das perseguições e dos combates, a essência humana da busca pela verdade é o que realmente importa. Para quem busca uma narrativa que não perde tempo com devaneios e se compromete integralmente com a ação e o suspense de ponta a ponta, esta obra de 2011 continua sendo um exemplar sólido e altamente recomendável.

Onde ler livros gratuitos na internet: 50 plataformas confiáveis reunidas

Em um cenário em que o acesso ao conhecimento ainda esbarra em barreiras econômicas e geográficas, cresce o número de iniciativas que disponibilizam livros digitais de forma gratuita e legal. Plataformas como o Portal Domínio Público, o Projeto Gutenberg e o Internet Archive consolidam um movimento que une universidades, fundações e organizações independentes em torno da democratização da leitura.

De acervos acadêmicos especializados a bibliotecas digitais de alcance global, esses repositórios oferecem desde clássicos da literatura até obras científicas contemporâneas em acesso aberto. A seguir, reunimos uma curadoria abrangente de sites confiáveis que permitem baixar ou ler livros gratuitamente em diferentes formatos, ampliando as possibilidades de estudo, pesquisa e formação de leitores em todo o mundo.

SiteLink + Descrição
Portal Domínio PúblicoAcessar site — Biblioteca do governo brasileiro
Projeto Gutenberghttps://www.gutenberg.org/ — Clássicos domínio público
Internet Archivehttps://archive.org/ — Biblioteca digital massiva (IRI-USP)
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Com adesão nacional, primeira Noite das Livrarias mobiliza mais de 80 espaços em 30 cidades brasileiras

Inspirada em tradicionais circuitos literários internacionais, a Noite das Livrarias chega à sua edição brasileira consolidando-se como um dos principais movimentos de valorização das livrarias de rua no país. Marcado para o dia 24 de abril, data em que se celebra o Dia Mundial do Livro, o evento reúne, nesta edição, 86 livrarias distribuídas por 30 cidades, alcançando nove estados e o Distrito Federal.

A iniciativa, que teve origem em São Paulo a partir de uma articulação entre livreiros ligados ao projeto Mapa das Livrarias de Rua, rapidamente ultrapassou os limites da capital paulista e ganhou projeção nacional. Embora São Paulo ainda concentre cerca de metade da programação, a expansão do circuito evidencia seu alcance: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pará, Santa Catarina, Rondônia e Paraná, além de Brasília, integram o calendário de atividades.

O engajamento do público acompanha o crescimento do evento. Nas redes sociais, a Noite das Livrarias tornou-se um fenômeno orgânico, impulsionado por vídeos virais no TikTok que acumulam milhares de visualizações e por leitores que organizam seus próprios roteiros para a noite literária.

Para João Varella, livreiro à frente da Banca Tatuí e da Livraria Gráfica e um dos organizadores da iniciativa, a capilaridade do evento revela uma demanda latente no país. Segundo ele, a adesão de estados como Rondônia e Pará reforça a importância da bibliodiversidade e do fortalecimento de espaços culturais dedicados ao livro em diferentes regiões do Brasil.


Dados do mais recente levantamento Panorama do Consumo de Livros, produzido pela consultoria Nielsen, ajudam a contextualizar esse interesse: 53% dos leitores consideram a livraria um ambiente propício ao relaxamento e à exploração sem pressa, enquanto 46% a associam diretamente à conexão com cultura e conhecimento.

A programação da Noite das Livrarias reflete essa diversidade de experiências. Estão previstos lançamentos de livros, encontros de leitura silenciosa, clubes de leitura, oficinas, mesas de debate, apresentações musicais e até propostas inusitadas, como festas do pijama e atividades de impressão ao vivo.

Gratuitas, as atividades têm programação completa disponível no site oficial do evento. A identidade visual desta edição leva a assinatura do artista e ilustrador Flavio Kauffmann, contribuindo para consolidar a proposta estética e cultural da iniciativa.

Os eventos são gratuitos. A programação completa está no site www.noitedaslivrarias.com.br.

A identidade gráfica do evento foi criada pelo artista e ilustrador Flavio Kauffmann.

Dahmer revisita o desamor em edição renovada de "A coragem do primeiro pássaro"

Imagem: Imprensa lote 42 / Divulgação

A nova edição de A Coragem do Primeiro Pássaro reafirma a potência de uma obra que, desde seu lançamento original em 2015, já se destacava como um dos trabalhos mais sensíveis e contundentes da trajetória de André Dahmer, agora revisitados em um projeto editorial que amplia suas camadas de leitura e aprofunda o diálogo entre palavra e imagem. Publicado em coedição pelas independentes Lote 42 e Impressões de Minas, o livro retorna às livrarias com ilustrações inéditas do próprio autor, prefácio assinado por Fabio Weintraub e um projeto gráfico inteiramente reformulado, consolidando-se como uma edição que não apenas recupera, mas ressignifica o impacto do texto original.

A obra se estrutura como um percurso emocional que investiga a experiência da separação conjugal sem recorrer a fórmulas previsíveis ou sentimentalismos fáceis, organizando-se em três atos — “Vocês não me conhecem”, “Agora é guerra” e “Era ela era para ser” — que delineiam uma trajetória marcada pelo choque inicial do rompimento, pelo conflito interno e externo que se segue, e pela lenta e imperfeita reconstrução subjetiva. Utilizando o verso livre como ferramenta expressiva, Dahmer constrói uma narrativa poética fragmentada e, ao mesmo tempo, profundamente coesa, na qual sua já conhecida ironia, presente em séries como “Malvados”, cede espaço a uma escrita mais vulnerável, ainda que nunca desprovida de lucidez crítica.

Ao revisitar o livro, o autor reconhece nele um ponto de inflexão em sua própria trajetória criativa, definindo-o como um “livro-ponte”, expressão que sintetiza o caráter transitório e transformador da obra, concebida como registro de uma travessia íntima e simbólica. Essa dimensão ganha ainda mais força na nova edição, na qual as ilustrações estabelecem um contraponto visual que não se limita a ilustrar os poemas, mas os tensiona e expande, criando uma experiência de leitura que articula texto e imagem de forma orgânica e indissociável.

Imagem: Imprensa lote 42 / Divulgação

O prefácio de Fabio Weintraub reforça essa leitura ao destacar a recusa de Dahmer em aderir aos clichês da lírica amorosa tradicional, apontando para uma escrita que preserva a complexidade do desejo e da perda sem recorrer a idealizações simplificadoras. Ao observar que a obra sustenta um “voo melancólico” no qual a libido não se esgota e o mundo não desaparece sob o peso da dor, Weintraub evidencia a capacidade do livro de manter-se ancorado na materialidade da experiência, mesmo quando atravessa territórios de intensa subjetividade.

A materialidade do livro, aliás, é um dos aspectos mais marcantes desta nova edição, resultado da colaboração entre duas editoras que compartilham um compromisso com o cuidado gráfico e editorial. O projeto assinado por Elza Silveira aposta no uso do roxo tanto no miolo quanto na capa, que conta ainda com acabamento em hotstamping produzido internamente pela Impressões de Minas, evidenciando um trabalho artesanal que dialoga diretamente com o conteúdo sensível da obra. Essa atenção ao objeto livro reforça a proposta das editoras, especialmente no caso da Lote 42, conhecida por seu catálogo criterioso e por iniciativas culturais como a Banca Tatuí e a Feira Miolo(s), e da Impressões de Minas, cuja atuação integra edição, impressão e distribuição em um mesmo espaço de criação.

Mais do que uma simples reedição, esta versão de A Coragem do Primeiro Pássaro se apresenta como uma reinterpretação que amplia o alcance do livro e o reposiciona dentro da produção contemporânea de poesia brasileira, reafirmando André Dahmer como um autor capaz de transitar entre diferentes linguagens sem perder a consistência estética e a força de sua voz autoral. Ao unir texto, imagem e projeto gráfico em um conjunto coeso, a obra se consolida como um testemunho potente sobre ruptura, transformação e permanência, convidando novos leitores a experimentar a densidade de um percurso emocional que, embora particular, ressoa de maneira profundamente universal.

SOBRE O AUTOR

CRÉDITOS: Chico Cerchiaro











André Dahmer nasceu em 1974 em Botafogo, Rio de Janeiro. Artista plástico, poeta e quadrinista, criou as séries de tirinhas Malvados, Quadrinhos dos anos 10, Vida e obra de Terêncio Horto, entre outras. Ganhador de cinco prêmios HQmix e um troféu Jabuti, Dahmer publica tiras diárias nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo.

Ficha catalográfica

Título: A Coragem do Primeiro Pássaro
Autor: André Dahmer
Prefácio: Fabio Weintraub
Editora: Lote 42 / Impressões de Minas
Edição: Nova edição revista e ampliada
Ano: 2026
Gênero: Poesia
Formato: Impresso
Projeto gráfico: Elza Silveira
Características: Ilustrações do autor, prefácio inédito, novo projeto gráfico com hotstamping

Tempos Modernos de Sophie, Aline e Robert Crumb


A consagração de Robert Crumb como uma das figuras mais influentes da história dos quadrinhos ganha um novo capítulo com a chegada ao Brasil de Tempos Modernos, uma antologia que reúne trabalhos inéditos do autor ao lado de Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb. O lançamento reforça não apenas a relevância contínua de Crumb no cenário artístico contemporâneo, mas também a potência de um olhar familiar que atravessa gerações para interpretar o caos do século XXI com humor ácido, crítica social e uma honestidade desconcertante.

A recepção crítica ao longo das décadas ajuda a dimensionar o peso do nome envolvido: de Art Spiegelman a Alan Moore, passando por Matt Groening e Chris Ware, há um consenso raro em torno da grandeza de Crumb, frequentemente descrito como um artista que redefiniu os limites do que os quadrinhos poderiam abordar em termos de linguagem, temática e liberdade criativa. Não se trata apenas de influência estética, mas de uma ruptura estrutural que abriu caminho para narrativas mais pessoais, experimentais e politicamente incisivas dentro da nona arte.

Em Tempos Modernos, essa tradição se atualiza ao mergulhar no turbilhão recente marcado pela pandemia de Covid-19, pela sobrecarga informacional e por um cenário político global cada vez mais polarizado, no qual figuras como Donald Trump surgem como personagens de um teatro absurdo que parece constantemente flertar com a caricatura. A obra transforma o cotidiano pandêmico, o isolamento e a paranoia coletiva em matéria-prima para histórias que oscilam entre o grotesco e o cômico, mantendo a marca registrada dos Crumb: uma franqueza brutal que recusa qualquer forma de idealização.

O caráter colaborativo do livro amplia ainda mais sua complexidade, já que coloca em diálogo três perspectivas distintas, embora conectadas por laços afetivos e artísticos. Aline Kominsky-Crumb, reconhecida como uma das pioneiras do quadrinho autobiográfico feminino, imprime à obra seu olhar confessional e provocador, abordando temas como corpo, sexualidade e neuroses com um traço deliberadamente imperfeito que desafia convenções estéticas e narrativas. Sua presença não apenas equilibra o universo de Crumb, mas também tensiona e expande suas abordagens, criando um espaço de confronto e complementaridade.

Sophie Crumb introduz uma dimensão mais introspectiva e poética, resultado de uma trajetória que, embora inevitavelmente influenciada pelo ambiente underground em que cresceu, busca caminhos próprios, explorando identidade, relações humanas e subjetividade com uma delicadeza que contrasta e, ao mesmo tempo, dialoga com a crueza dos pais. O resultado é uma obra que não se limita a documentar um período histórico, mas que o filtra através de sensibilidades distintas, oferecendo uma leitura multifacetada do presente.

A importância de Robert Crumb no panorama cultural não pode ser dissociada de sua atuação no movimento dos quadrinhos underground, especialmente com a criação da revista Zap Comix, que se tornou um marco fundador dessa vertente e influenciou gerações de artistas ao redor do mundo, incluindo nomes como Moebius. Seu trabalho extrapolou o universo das HQs, alcançando espaços institucionais como o Centro Pompidou e a Bienal de Veneza, além de conquistar reconhecimento no mercado de arte, onde suas obras atingiram valores recordes em leilões.

No Brasil, a publicação de Tempos Modernos dá continuidade ao esforço de tornar acessível ao público nacional uma produção que, durante muito tempo, circulou de forma limitada, reforçando o papel de editoras independentes na difusão de obras fundamentais para a compreensão da cultura contemporânea. Mais do que uma coletânea de histórias, o livro se apresenta como um documento sensível e incisivo de uma época marcada pela instabilidade, pelo excesso e pela necessidade urgente de interpretação crítica.


Ficha catalográfica

Título: Tempos Modernos
Autores: Robert Crumb, Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb
Tradução: Rogério de Campos; Cris Siqueira
Editora: Veneta
Formato: 21 x 28 cm
Número de páginas: 128 páginas
ISBN: 978-8595712300
Preço sugerido: R$ 99,99

Ruy Antônio Barata lança Esse Rio é Minha Rua em SP

Imagem: Divulgação


O lançamento de um livro pode, por vezes, representar apenas a chegada de uma nova obra ao mercado editorial; em outros casos, no entanto, torna-se um acontecimento cultural capaz de iluminar trajetórias individuais e coletivas, resgatando memórias que ajudam a compreender o país em suas múltiplas camadas históricas e sociais, como é o caso de Esse Rio é Minha Rua, estreia literária de Ruy Antônio Barata, que será apresentada ao público paulistano em um evento especial na Livraria da Vila, reunindo leitores, críticos e interessados em uma narrativa que atravessa quase um século da história brasileira a partir de uma perspectiva profundamente íntima e, ao mesmo tempo, amplamente política.

A obra, publicada pela Editora Paka-Tatu, não se limita a reconstruir a trajetória de uma família, mas propõe uma investigação sensível sobre a formação da identidade nacional, especialmente no que diz respeito à relação entre a Amazônia e os grandes movimentos políticos do Brasil e do mundo, articulando episódios que vão do tenentismo à ditadura civil-militar, passando por figuras históricas e intelectuais que orbitam a narrativa, como Mário de Andrade, Carlos Marighella e Jean-Paul Sartre, todos inseridos em um universo que mistura memória, literatura e reflexão histórica com notável densidade.

Ao longo de suas páginas, o livro constrói uma espécie de cartografia afetiva que se estende das margens do Rio Tapajós às paisagens urbanas de Rio de Janeiro, passando pelos cenários simbólicos e físicos do Rio Amazonas e do Rio Negro, compondo uma narrativa que alterna entre o épico e o cotidiano, entre o testemunho político e a delicadeza das lembranças familiares, sempre com uma linguagem que preserva a pulsação poética herdada de seu pai, Ruy Barata, figura central da Geração de 45 e referência na cultura paraense.

Mais do que um relato autobiográfico, Esse Rio é Minha Rua apresenta-se como um documento histórico que evidencia o impacto de eventos globais, como a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, sobre a formação social e cultural do Norte do Brasil, ao mesmo tempo em que expõe as contradições de um país que, nas palavras do autor, ainda trata regiões como o Pará como “filho órfão da Nação”, evidenciando desigualdades históricas e negligências estruturais que permanecem atuais.

A narrativa também se destaca pela capacidade de incorporar episódios que beiram o realismo fantástico, aproximando-se do imaginário literário de Gabriel García Márquez, seja ao relatar soluções improváveis como o uso de uma jiboia para conter morcegos em uma casa amazônica, seja ao reconstruir momentos de tensão política com uma dramaticidade quase ficcional, como a invasão de um aparelho comunista por militares em 1964, episódio que revela tanto a brutalidade do período quanto a coragem individual de personagens que resistiram à repressão.

Nesse contexto, a trajetória da família Barata surge como fio condutor de uma história maior, que envolve figuras como Alarico Barata, pioneiro na defesa de presos políticos, e conecta diferentes gerações marcadas por engajamento político, produção cultural e resistência intelectual, consolidando uma narrativa que se constrói em camadas, como pequenas histórias que se desdobram dentro de outras, ampliando constantemente o horizonte interpretativo do leitor.

O lançamento em São Paulo marca não apenas a chegada do livro ao público de uma das principais capitais culturais do país, mas também o reconhecimento de uma obra que, ao revisitar experiências pessoais, contribui para o entendimento de um Brasil menos visível, frequentemente ausente das narrativas oficiais, mas fundamental para a compreensão de nossa formação histórica e cultural.

SOBRE A OBRA

O médico Ruy Antônio Barata, filho do poeta Ruy Barata, estreia na literatura com o  livro “Esse rio é minha rua” (Editora Paka-Tatu), uma obra de memória e de pesquisa sobre a  história familiar que se entrelaça com acontecimentos da própria  História do Pará, do Século XX. O lançamento com sessão de autógrafos será na sexta-feira, 6 de março, às 18h, no Espaço da Livraria da Editora da UFPA, no Complexo dos Mercedários.

ADQUIRA A OBRA: https://www.editorapakatatu.com.br/product-page/esse-rio-%C3%A9-minha-rua-de-ruy-ant%C3%B4nio-barata

SOBRE O AUTOR

Nascido em Óbidos, no Baixo Amazonas, em 1944, Ruy Antônio Barata formou-se em Medicina e mudou-se para São Paulo, onde vive há 50 anos. Nefrologista pós-graduado e ex-presidente da Sociedade Paulista de Nefrologia, ele sempre se manteve conectado com o Pará e com as influências que fizeram dele um líder estudantil na juventude e, hoje, o tornaram escritor. Antes de “Esse rio é minha rua”, o autor participou da coletânea “Relatos Subversivos”, lançada em 2004, nos 40 anos do Golpe de 1964.


Ficha Catalográfica

Título: Esse Rio é Minha Rua
Autor: Ruy Antônio Barata
Editora: Editora Paka-Tatu
Ano: 2026
Gênero: Não ficção
ISBN: 978-85-7803-711-6
Número de páginas: 440
Preço: R$ 80,00

Poder e Socialismo no Século XXI: A Experiência Chinesa e a Reinvenção do Marxismo

JABBOUR, Elias; BOER, Roland. Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China. Apresentação de José Paulo Netto. São Paulo: Boitempo, 2026. ISBN 978-65-5717-548-4. Classificação: CDD 330.951; CDU 330.342.151(510).

Poder e socialismo se insere como uma obra de alta densidade teórica que pretende não apenas interpretar a experiência chinesa contemporânea, mas sobretudo reformular categorias fundamentais do marxismo à luz do século XXI, partindo do pressuposto de que o instrumental clássico, embora indispensável, tornou-se insuficiente diante das transformações históricas recentes. Logo na introdução, os autores deixam claro que conceitos como modo de produção, formação econômico-social e lei do valor exigem atualização, uma vez que foram elaborados em um contexto histórico distinto, afirmando que “é uma necessidade teórica urgente reinterpretar e reelaborar esses conceitos para torná-los mais adequados à compreensão do mundo no século XXI” (p. 27) . Essa proposição já define o eixo do livro: não se trata de uma leitura ortodoxa do marxismo, mas de uma tentativa deliberada de expansão categorial ancorada na experiência concreta chinesa.

Ao mesmo tempo, a introdução situa o leitor diante de uma transformação interna da própria China, marcada pela emergência de uma “nova gramática” do desenvolvimento, sintetizada em conceitos como “desenvolvimento de alta qualidade” e “desenvolvimento centrado no povo”, indicando uma transição de um crescimento quantitativo acelerado para um modelo orientado por equilíbrio social e sustentabilidade (p. 35) . Nesse ponto, já aparece o conceito-chave da obra, o “projetamento”, entendido como forma superior de planejamento econômico mediada por tecnologia e orientada por objetivos estratégicos de longo prazo.

O livro de Elias Jabbour e Roland Boer é, antes de tudo, uma tentativa ambiciosa de reconstrução do marxismo como ciência do poder político, deslocando o foco da crítica econômica clássica para uma abordagem mais ampla que integra governança, tecnologia, planejamento e estratégia estatal, tendo a China como laboratório histórico privilegiado. Ao longo de suas mais de trezentas páginas, a obra constrói a tese de que o país asiático não apenas desenvolveu um modelo socialista específico, mas inaugurou uma “nova classe de formações econômico-sociais”, exigindo a formulação de categorias inéditas, como o “metamodo de produção” e a “economia do projetamento”.

A força do argumento reside na articulação entre tradição e inovação, pois os autores partem da centralidade do pensamento de Marx, Engels e Lênin, mas recusam qualquer leitura dogmática, enfatizando a necessidade de “libertação do pensamento” como condição para o desenvolvimento do socialismo contemporâneo, evocando inclusive Deng Xiaoping ao afirmar que “se a economia permanece estagnada por um longo período de tempo, não se pode dizer que é socialismo” (p. 134) . Essa passagem é particularmente reveladora, pois evidencia que, para os autores, o critério de verdade do socialismo não é a fidelidade textual aos clássicos, mas sua capacidade de produzir desenvolvimento material e melhoria concreta das condições de vida.

Nesse sentido, o conceito de projetamento emerge como núcleo teórico do livro, definido como uma forma avançada de planejamento que supera tanto o espontaneísmo do mercado quanto os limites do planejamento tradicional, sendo caracterizado como um processo no qual o Estado utiliza tecnologia e inteligência estratégica para moldar a realidade econômica de forma consciente e orientada por objetivos coletivos. Os autores descrevem esse fenômeno como “forma superior de planificação econômica baseada na apreensão pelo corpo burocrático estatal de inovações tecnológicas disruptivas [...] e em sua inserção na criação de novas formas de moldar a realidade” (p. 35) . Trata-se, portanto, de uma redefinição radical da relação entre Estado, mercado e tecnologia, na qual o planejamento deixa de ser reativo e passa a ser propositivo e estruturante.

Essa concepção atinge seu ponto mais elaborado nas conclusões, quando o projetamento é descrito como uma “nova economia” com grau de racionalidade superior tanto ao capitalismo quanto às experiências socialistas anteriores, sendo apresentado como um movimento político e intelectual que visa superar a lógica restrita da relação custo-benefício e construir uma nova forma de organização social (p. 316-317) . Aqui, o livro assume claramente um tom normativo, defendendo a experiência chinesa não apenas como objeto de análise, mas como horizonte possível para o socialismo do século XXI.

Outro aspecto central da obra é a ênfase na categoria de contradição, retomada da tradição marxista, mas ampliada para incluir dimensões contemporâneas como tecnologia, geopolítica e subjetividade. Os autores argumentam que o Estado socialista se distingue precisamente por sua capacidade de “utilizar e introduzir conscientemente contradições no sistema para fazê-lo funcionar de acordo com o projeto” (p. 316) , o que representa uma inversão significativa da visão tradicional, na qual as contradições são vistas como problemas a serem superados, e não como instrumentos de gestão e transformação.

No plano internacional, o livro também oferece uma leitura crítica do imperialismo contemporâneo, descrito como mais sofisticado e abrangente do que suas formas clássicas, operando não apenas na esfera econômica, mas também no domínio das ideias e das emoções, ao ponto de os autores afirmarem que se trata de um sistema que busca “o monopólio da própria emoção humana” (p. 54) . Essa interpretação amplia o escopo da crítica marxista, incorporando elementos da guerra informacional e da disputa simbólica, o que dialoga diretamente com o contexto geopolítico atual.

A dimensão territorial também aparece como elemento relevante, ainda que secundário, indicando que o socialismo contemporâneo deve enfrentar não apenas questões econômicas, mas também os desafios da urbanização e da organização espacial, sendo necessário desenvolver uma teoria capaz de superar a “urbanização caótica” típica do capitalismo (p. 182) . Esse ponto reforça a ideia de que o projeto socialista, na visão dos autores, é totalizante, envolvendo todas as dimensões da vida social.

Entretanto, a obra não está isenta de tensões e possíveis críticas, especialmente no que diz respeito ao risco de sobrevalorização da experiência chinesa como modelo universal, bem como à tendência de transformar categorias analíticas em instrumentos normativos. Ao afirmar que o socialismo contemporâneo avança na direção de “mais acertos do que erros” (p. 319) , os autores adotam uma postura que pode ser vista como excessivamente otimista ou mesmo apologética, o que pode limitar a capacidade crítica do próprio modelo que defendem.

Ainda assim, o mérito do livro é inegável, sobretudo por sua ousadia teórica e pela tentativa de pensar o socialismo para além dos impasses do século XX, recuperando o marxismo como um sistema vivo, em constante transformação, e não como um conjunto fechado de dogmas. A obra se destaca por articular teoria e prática, tradição e inovação, análise e proposta, oferecendo ao leitor não apenas uma interpretação da China contemporânea, mas uma reflexão profunda sobre os caminhos possíveis do socialismo no mundo atual.

Em última instância, Poder e socialismo é menos um livro sobre a China e mais um esforço de reconstrução teórica que utiliza a experiência chinesa como evidência histórica de que o socialismo, longe de ser uma relíquia do passado, permanece como uma possibilidade concreta, desde que seja capaz de se reinventar diante das novas condições do século XXI.

Crítica | Pixels (2015)


O cinema de entretenimento contemporâneo tem na nostalgia um dos seus pilares mais lucrativos e, simultaneamente, mais controversos. Ao longo da última década, vimos a cultura pop ser revisitada, reembalada e vendida como um produto de consumo imediato para gerações que cresceram sob a influência de ícones específicos. O filme Pixels, dirigido por Chris Columbus, insere-se precisamente nessa dinâmica, utilizando a iconografia dos videogames clássicos dos anos 1980 como o núcleo de uma invasão alienígena que ameaça a existência da humanidade. A premissa, embora fantasiosa e inerentemente absurda, serve como uma lente através da qual o filme examina não apenas o valor cultural de uma era analógica prestes a ser engolida pela digitalização, mas também o arquétipo do indivíduo deslocado, o nerd que, através de uma guinada do destino, vê suas habilidades obsoletas serem ressignificadas como fundamentais para a sobrevivência global. A obra, estrelada por Adam Sandler, Kevin James, Peter Dinklage e Josh Gad, constrói sua base narrativa na ideia de que uma cápsula do tempo enviada ao espaço, contendo registros da cultura terrestre, foi mal interpretada por uma inteligência alienígena. O que nós enviamos como uma mensagem de paz e um compêndio do nosso entretenimento de fliperama foi lido por esses seres como uma declaração de guerra, levando-os a materializar os inimigos digitais de jogos como Pac-Man, Space Invaders e Donkey Kong em escala monumental para atacar o planeta. A partir dessa premissa, o longa-metragem se desenvolve como uma comédia de ação que busca equilibrar o espetáculo visual dos efeitos especiais com o humor característico do cinema de Sandler, criando um diálogo constante entre o passado glorificado dos consoles de 8 bits e a realidade tecnologicamente avançada do século 21.

A introdução ao universo do filme estabelece imediatamente a sua tese central: a valorização da competência técnica em sistemas que, para o mundo exterior, parecem inúteis. Sam Brenner, o protagonista, é apresentado como uma criança prodígio que, apesar de sua genialidade inata em dominar os padrões de movimento dos inimigos digitais, não encontra sucesso na vida adulta convencional. Essa trajetória é um tropos recorrente na filmografia de Sandler, mas aqui ganha uma camada extra de significado ao ser confrontada com a posição de poder exercida por seu amigo de infância, Will Cooper, que chegou à presidência dos Estados Unidos. Essa dualidade entre o homem que possui o conhecimento tático, mas carece de status social, e o homem que possui status, mas carece de competência prática, é o motor que movimenta a narrativa. A tensão entre o que é valorizado pelo sistema econômico vigente e o que é intrinsecamente habilidoso em campos marginais é o terreno onde Pixels constrói sua humanidade. O filme sugere que, embora a sociedade possa descartar o entusiasta de jogos como um indivíduo alienado, é justamente essa alienação que permite a compreensão das regras do jogo — tanto o videogame quanto o geopolítico — de uma maneira que os especialistas tradicionais não conseguem enxergar. Quando a crise eclode, a incapacidade do exército regular em lidar com ameaças que se comportam de maneira não linear, operando sob lógicas de programação e padrões de design dos anos 80, expõe a falência de uma abordagem puramente militarista diante do inusitado.

O aspecto visual de Pixels é, inegavelmente, um dos seus pontos mais fortes e, ao mesmo tempo, um dos mais desafiadores para o espectador. A transição dos sprites de baixa resolução para a tridimensionalidade destrutiva nas cidades humanas é realizada com um cuidado técnico que honra a estética original dos jogos. O Pac-Man, por exemplo, não é meramente uma bola amarela, mas uma força da natureza devoradora que transforma matéria em pixels ao tocá-la, criando uma ameaça surrealista que é, ao mesmo tempo, ameaçadora e esteticamente deslumbrante. Essa escolha criativa de design reforça a ideia de que a ameaça é uma extensão da nossa própria cultura. Não estamos enfrentando monstros desconhecidos das profundezas do cosmos, mas sim as representações físicas das nossas próprias criações, que retornam para nos confrontar. Existe um comentário implícito sobre a relação entre o criador e a criatura, onde o entretenimento que serviu como forma de escape torna-se, ironicamente, o instrumento da nossa ruína. A nostalgia, aqui, funciona como um elemento que une a audiência ao filme; para aqueles que jogaram esses títulos, cada sequência de ação ressoa como uma memória afetiva, enquanto para os mais jovens, a espetacularidade das cenas funciona como um atrativo visual. No entanto, o filme corre o risco de se tornar uma coleção de referências vazias, um perigo que ele contorna em parte através da dinâmica entre os personagens.

O elenco, encabeçado por Adam Sandler em um registro comedido para os seus padrões, atua como a âncora emocional. Peter Dinklage, interpretando o rival Eddie Plant, traz uma energia cômica e um carisma que roubam a cena, personificando o arquétipo do jogador competitivo cuja arrogância é a sua maior virtude e o seu maior defeito. A relação entre esses jogadores de elite, que não se veem há décadas, permite explorar temas de amizade, arrependimento e a busca por um propósito na vida adulta. O filme reflete sobre a ideia de que o tempo não perdoa, e que a transição para a maturidade muitas vezes exige o sacrifício de nossas paixões juvenis. Contudo, em Pixels, a oportunidade de redescobrir essas paixões sob um contexto de perigo extremo atua como uma catarse. A camaradagem entre os personagens principais, construída sobre os escombros da inércia de suas vidas cotidianas, é o que torna a jornada suportável. Eles não são heróis no sentido clássico, mas especialistas circunstanciais cujo momento de glória chegou muito depois do que eles imaginavam. Esse sentimento de "última oportunidade" confere à trama uma urgência que mantém o interesse do público, mesmo quando o roteiro se entrega a clichês de comédia pastelão ou soluções narrativas apressadas.

Contudo, uma análise rigorosa não pode ignorar os limites do filme em sua construção narrativa. Pixels sofre, ocasionalmente, de uma dificuldade em manter o ritmo quando não está focado na ação ou na dinâmica central dos personagens. Algumas subtramas, como o romance forçado ou as piadas sobre a vida conjugal, parecem desconectadas do cerne da proposta, servindo apenas para preencher o tempo de tela com um humor que, por vezes, se sente datado. A tentativa de equilibrar a escala épica da invasão alienígena com as questões triviais da vida dos personagens nem sempre é bem-sucedida, criando um descompasso tonal que pode alienar o espectador que busca uma coesão mais firme. Além disso, a premissa de que a humanidade é salva por um grupo de nerds estereotipados pode ser vista como uma repetição exaustiva de clichês da década de 80 e 90, onde a salvação do mundo sempre recai sobre aqueles que a sociedade despreza, uma inversão que, embora satisfatória, já se tornou um padrão tão comum quanto o herói de ação invencível que o filme tenta parodiar.

No que diz respeito à análise crítica do gênero de comédia de ficção científica, Pixels ocupa um lugar singular. Ele não busca a profundidade existencial de um Blade Runner ou a ironia ácida de Marte Ataca!, optando por um caminho que é mais direto em suas intenções de diversão familiar. O filme se contenta em ser um espetáculo de entretenimento, e, sob essa ótica, ele atinge seus objetivos com competência. O design de produção e a escolha dos jogos não são arbitrários; eles refletem um período em que a tecnologia de jogos de vídeo estava dando seus primeiros passos rumo à massificação cultural. O uso dos Ghostbusters (caça-fantasmas) como referência na tecnologia de combate é uma escolha astuta, conectando ainda mais a obra a esse panteão cultural da época. O longa reconhece que a cultura de fliperama era um espaço social, um local de encontro físico que hoje foi substituído pela rede, e há uma melancolia sutil no modo como os personagens lidam com a tecnologia moderna, sempre preferindo o tato, o joystick físico e a interface simples de outrora.

O clímax do filme, com a batalha contra os ícones de Donkey Kong e a resolução do conflito, é o ponto culminante do seu discurso sobre a superação. Ao derrotar as criações alienígenas seguindo estritamente as regras que eles mesmos programaram em seu software original, os protagonistas provam que a maestria sobre um sistema não se perde com a idade. A vitória não vem através da força bruta de armas nucleares ou tecnologias avançadas de extermínio, mas através da compreensão profunda do código, da repetição, do erro e do aprendizado — as ferramentas fundamentais do jogador. Este é um comentário, ainda que simples, sobre a importância da especialização e da dedicação. O filme argumenta que, não importa quão obscura ou irrelevante possa parecer a sua área de domínio, ela possui um valor intrínseco que, sob as circunstâncias certas, pode ser a diferença entre a ordem e o caos. Esse otimismo em relação à competência individual é o que confere a Pixels um coração, apesar de todas as suas falhas estruturais e momentos de humor questionável.

Refletindo sobre o impacto do filme, podemos concluir que ele funciona como um espelho da sociedade atual: estamos cercados por tecnologia, mas nossa conexão com a base, com a origem dessas tecnologias, torna-se cada vez mais tênue. O filme convida o espectador a olhar para trás, não com saudosismo paralisante, mas com a percepção de que as lições aprendidas em outros tempos ainda carregam validade. Ao fim, a narrativa de Pixels não é sobre tecnologia, mas sobre as pessoas que encontram significado no que amam. É sobre a validação daqueles que, por muito tempo, foram chamados de "perdedores" por dedicarem horas a fios a objetos que o mundo considerava inanimados. O filme oferece a esse público — o nerd, o jogador, o entusiasta — um momento de vingança doce e satisfatória, onde o mundo finalmente entende a linguagem que eles falam. Embora o longa possa não ter a sofisticação intelectual de outros grandes nomes da ficção científica, ele compensa essa lacuna com uma autenticidade em relação ao seu tema que é difícil de ignorar.]

É importante também considerar a direção de Chris Columbus, um cineasta com uma carreira notável em lidar com o fantástico e o cotidiano. Sua capacidade de orquestrar grandes elencos em situações de fantasia é evidente aqui, mesmo que o material base não ofereça a mesma riqueza emocional de clássicos como Esqueceram de Mim ou Harry Potter e a Pedra Filosofal. Columbus trata o material com um respeito quase infantil, mantendo o foco na maravilha e no entretenimento, sem se preocupar excessivamente com a verossimilhança científica ou a complexidade política. Essa abordagem serve bem ao propósito do filme, que é ser, antes de tudo, uma celebração. Onde outros diretores poderiam ter tentado subverter a nostalgia ou transformá-la em algo cínico, Columbus a abraça, tratando os jogos como peças de museu vivas que merecem ser celebradas. Esse tom positivo, quase nostálgico em si mesmo, é o que mantém o filme como um registro curioso de uma era específica do cinema americano, onde o blockbuster ainda buscava o apelo multigeracional puro, sem a necessidade de construir universos cinematográficos interconectados.

O roteiro, embora funcional, poderia ter se beneficiado de uma exploração mais profunda das consequências da invasão. O mundo, apesar de atacado por forças que transformam prédios em cubos de matéria inanimada, parece se recuperar com uma facilidade desconcertante, um traço comum em muitos filmes de desastre que buscam não pesar demais o clima. O filme prefere focar na jornada dos protagonistas do que no impacto sociopolítico global, uma escolha que, novamente, limita o alcance da narrativa, mas protege o seu caráter lúdico. O espectador deve, portanto, abraçar o absurdo para aproveitar a experiência. Pixels não pede ao seu público que questione a lógica da sua existência, mas que aceite o convite para jogar. E nesse sentido, o filme é um sucesso. Ele cumpre o que promete: uma aventura que utiliza elementos da nossa memória cultural recente para criar um espetáculo divertido, visualmente criativo e, no fim, profundamente ligado à ideia de que a nossa infância nos prepara, de maneiras imprevisíveis, para os desafios do futuro.

Em uma análise final, Pixels é um filme sobre a memória e a importância de não esquecer de onde viemos. A mensagem de que os "jogos de antigamente" não eram apenas perda de tempo, mas exercícios de raciocínio, paciência e reflexo, encontra eco na vitória dos personagens. É uma defesa apaixonada da cultura nerd, feita em uma escala de superprodução que raramente é concedida a temas tão específicos. O filme pode ter deslizes de tom e momentos de roteiro previsível, mas ele possui uma alma dedicada ao seu material de origem que ressoa com qualquer um que já tenha segurado um controle e sentido o mundo ao seu redor desaparecer, deixando apenas o desafio da tela à sua frente. Ao revisitar Pixels, percebe-se que, por trás da fachada de comédia de Adam Sandler, existe uma homenagem sincera a uma geração que viu o nascimento do mundo digital e que, desde então, tem tentado encontrar o seu lugar em um universo que não para de atualizar os seus gráficos e mudar as suas regras. E se o filme nos ensina algo, é que as habilidades que desenvolvemos ao longo da vida — não importa quão estranhas ou obsoletas possam parecer — são as que, eventualmente, nos salvarão quando o jogo ficar difícil de verdade.

Por fim, é impossível não notar como o filme se posiciona como um documento cultural de uma década específica do século XXI, onde a cultura da nostalgia começou a atingir o seu ápice. Ele não é apenas um filme sobre videogames; é um filme sobre o desejo de retorno, de restaurar uma ordem onde as regras eram claras, os inimigos tinham padrões previsíveis e o sucesso era uma recompensa direta da habilidade. Esse desejo, compartilhado por tantos, é o que sustenta o interesse pelo longa, mesmo anos após o seu lançamento. Pixels, apesar de suas imperfeições, permanece como um lembrete da persistência da infância na vida adulta e da importância de mantermos viva a capacidade de brincar, mesmo quando o destino do planeta parece estar em jogo. Ele é, no melhor sentido possível, um fliperama de duas horas, onde as fichas podem ser limitadas, mas a diversão — e a nostalgia — duram o quanto o espectador permitir.

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