JABBOUR, Elias; BOER, Roland. Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China. Apresentação de José Paulo Netto. São Paulo: Boitempo, 2026. ISBN 978-65-5717-548-4. Classificação: CDD 330.951; CDU 330.342.151(510).
Poder e socialismo se insere como uma obra de alta densidade teórica que pretende não apenas interpretar a experiência chinesa contemporânea, mas sobretudo reformular categorias fundamentais do marxismo à luz do século XXI, partindo do pressuposto de que o instrumental clássico, embora indispensável, tornou-se insuficiente diante das transformações históricas recentes. Logo na introdução, os autores deixam claro que conceitos como modo de produção, formação econômico-social e lei do valor exigem atualização, uma vez que foram elaborados em um contexto histórico distinto, afirmando que “é uma necessidade teórica urgente reinterpretar e reelaborar esses conceitos para torná-los mais adequados à compreensão do mundo no século XXI” (p. 27) . Essa proposição já define o eixo do livro: não se trata de uma leitura ortodoxa do marxismo, mas de uma tentativa deliberada de expansão categorial ancorada na experiência concreta chinesa.
Ao mesmo tempo, a introdução situa o leitor diante de uma transformação interna da própria China, marcada pela emergência de uma “nova gramática” do desenvolvimento, sintetizada em conceitos como “desenvolvimento de alta qualidade” e “desenvolvimento centrado no povo”, indicando uma transição de um crescimento quantitativo acelerado para um modelo orientado por equilíbrio social e sustentabilidade (p. 35) . Nesse ponto, já aparece o conceito-chave da obra, o “projetamento”, entendido como forma superior de planejamento econômico mediada por tecnologia e orientada por objetivos estratégicos de longo prazo.
O livro de Elias Jabbour e Roland Boer é, antes de tudo, uma tentativa ambiciosa de reconstrução do marxismo como ciência do poder político, deslocando o foco da crítica econômica clássica para uma abordagem mais ampla que integra governança, tecnologia, planejamento e estratégia estatal, tendo a China como laboratório histórico privilegiado. Ao longo de suas mais de trezentas páginas, a obra constrói a tese de que o país asiático não apenas desenvolveu um modelo socialista específico, mas inaugurou uma “nova classe de formações econômico-sociais”, exigindo a formulação de categorias inéditas, como o “metamodo de produção” e a “economia do projetamento”.
A força do argumento reside na articulação entre tradição e inovação, pois os autores partem da centralidade do pensamento de Marx, Engels e Lênin, mas recusam qualquer leitura dogmática, enfatizando a necessidade de “libertação do pensamento” como condição para o desenvolvimento do socialismo contemporâneo, evocando inclusive Deng Xiaoping ao afirmar que “se a economia permanece estagnada por um longo período de tempo, não se pode dizer que é socialismo” (p. 134) . Essa passagem é particularmente reveladora, pois evidencia que, para os autores, o critério de verdade do socialismo não é a fidelidade textual aos clássicos, mas sua capacidade de produzir desenvolvimento material e melhoria concreta das condições de vida.
Nesse sentido, o conceito de projetamento emerge como núcleo teórico do livro, definido como uma forma avançada de planejamento que supera tanto o espontaneísmo do mercado quanto os limites do planejamento tradicional, sendo caracterizado como um processo no qual o Estado utiliza tecnologia e inteligência estratégica para moldar a realidade econômica de forma consciente e orientada por objetivos coletivos. Os autores descrevem esse fenômeno como “forma superior de planificação econômica baseada na apreensão pelo corpo burocrático estatal de inovações tecnológicas disruptivas [...] e em sua inserção na criação de novas formas de moldar a realidade” (p. 35) . Trata-se, portanto, de uma redefinição radical da relação entre Estado, mercado e tecnologia, na qual o planejamento deixa de ser reativo e passa a ser propositivo e estruturante.
Essa concepção atinge seu ponto mais elaborado nas conclusões, quando o projetamento é descrito como uma “nova economia” com grau de racionalidade superior tanto ao capitalismo quanto às experiências socialistas anteriores, sendo apresentado como um movimento político e intelectual que visa superar a lógica restrita da relação custo-benefício e construir uma nova forma de organização social (p. 316-317) . Aqui, o livro assume claramente um tom normativo, defendendo a experiência chinesa não apenas como objeto de análise, mas como horizonte possível para o socialismo do século XXI.
Outro aspecto central da obra é a ênfase na categoria de contradição, retomada da tradição marxista, mas ampliada para incluir dimensões contemporâneas como tecnologia, geopolítica e subjetividade. Os autores argumentam que o Estado socialista se distingue precisamente por sua capacidade de “utilizar e introduzir conscientemente contradições no sistema para fazê-lo funcionar de acordo com o projeto” (p. 316) , o que representa uma inversão significativa da visão tradicional, na qual as contradições são vistas como problemas a serem superados, e não como instrumentos de gestão e transformação.
No plano internacional, o livro também oferece uma leitura crítica do imperialismo contemporâneo, descrito como mais sofisticado e abrangente do que suas formas clássicas, operando não apenas na esfera econômica, mas também no domínio das ideias e das emoções, ao ponto de os autores afirmarem que se trata de um sistema que busca “o monopólio da própria emoção humana” (p. 54) . Essa interpretação amplia o escopo da crítica marxista, incorporando elementos da guerra informacional e da disputa simbólica, o que dialoga diretamente com o contexto geopolítico atual.
A dimensão territorial também aparece como elemento relevante, ainda que secundário, indicando que o socialismo contemporâneo deve enfrentar não apenas questões econômicas, mas também os desafios da urbanização e da organização espacial, sendo necessário desenvolver uma teoria capaz de superar a “urbanização caótica” típica do capitalismo (p. 182) . Esse ponto reforça a ideia de que o projeto socialista, na visão dos autores, é totalizante, envolvendo todas as dimensões da vida social.
Entretanto, a obra não está isenta de tensões e possíveis críticas, especialmente no que diz respeito ao risco de sobrevalorização da experiência chinesa como modelo universal, bem como à tendência de transformar categorias analíticas em instrumentos normativos. Ao afirmar que o socialismo contemporâneo avança na direção de “mais acertos do que erros” (p. 319) , os autores adotam uma postura que pode ser vista como excessivamente otimista ou mesmo apologética, o que pode limitar a capacidade crítica do próprio modelo que defendem.
Ainda assim, o mérito do livro é inegável, sobretudo por sua ousadia teórica e pela tentativa de pensar o socialismo para além dos impasses do século XX, recuperando o marxismo como um sistema vivo, em constante transformação, e não como um conjunto fechado de dogmas. A obra se destaca por articular teoria e prática, tradição e inovação, análise e proposta, oferecendo ao leitor não apenas uma interpretação da China contemporânea, mas uma reflexão profunda sobre os caminhos possíveis do socialismo no mundo atual.
Em última instância, Poder e socialismo é menos um livro sobre a China e mais um esforço de reconstrução teórica que utiliza a experiência chinesa como evidência histórica de que o socialismo, longe de ser uma relíquia do passado, permanece como uma possibilidade concreta, desde que seja capaz de se reinventar diante das novas condições do século XXI.
JABBOUR, Elias; BOER, Roland. Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China. Apresentação de José Paulo Netto. São Paulo: Boitempo, 2026. ISBN 978-65-5717-548-4. Classificação: CDD 330.951; CDU 330.342.151(510).
Poder e socialismo se insere como uma obra de alta densidade teórica que pretende não apenas interpretar a experiência chinesa contemporânea, mas sobretudo reformular categorias fundamentais do marxismo à luz do século XXI, partindo do pressuposto de que o instrumental clássico, embora indispensável, tornou-se insuficiente diante das transformações históricas recentes. Logo na introdução, os autores deixam claro que conceitos como modo de produção, formação econômico-social e lei do valor exigem atualização, uma vez que foram elaborados em um contexto histórico distinto, afirmando que “é uma necessidade teórica urgente reinterpretar e reelaborar esses conceitos para torná-los mais adequados à compreensão do mundo no século XXI” (p. 27) . Essa proposição já define o eixo do livro: não se trata de uma leitura ortodoxa do marxismo, mas de uma tentativa deliberada de expansão categorial ancorada na experiência concreta chinesa.
Ao mesmo tempo, a introdução situa o leitor diante de uma transformação interna da própria China, marcada pela emergência de uma “nova gramática” do desenvolvimento, sintetizada em conceitos como “desenvolvimento de alta qualidade” e “desenvolvimento centrado no povo”, indicando uma transição de um crescimento quantitativo acelerado para um modelo orientado por equilíbrio social e sustentabilidade (p. 35) . Nesse ponto, já aparece o conceito-chave da obra, o “projetamento”, entendido como forma superior de planejamento econômico mediada por tecnologia e orientada por objetivos estratégicos de longo prazo.
O livro de Elias Jabbour e Roland Boer é, antes de tudo, uma tentativa ambiciosa de reconstrução do marxismo como ciência do poder político, deslocando o foco da crítica econômica clássica para uma abordagem mais ampla que integra governança, tecnologia, planejamento e estratégia estatal, tendo a China como laboratório histórico privilegiado. Ao longo de suas mais de trezentas páginas, a obra constrói a tese de que o país asiático não apenas desenvolveu um modelo socialista específico, mas inaugurou uma “nova classe de formações econômico-sociais”, exigindo a formulação de categorias inéditas, como o “metamodo de produção” e a “economia do projetamento”.
A força do argumento reside na articulação entre tradição e inovação, pois os autores partem da centralidade do pensamento de Marx, Engels e Lênin, mas recusam qualquer leitura dogmática, enfatizando a necessidade de “libertação do pensamento” como condição para o desenvolvimento do socialismo contemporâneo, evocando inclusive Deng Xiaoping ao afirmar que “se a economia permanece estagnada por um longo período de tempo, não se pode dizer que é socialismo” (p. 134) . Essa passagem é particularmente reveladora, pois evidencia que, para os autores, o critério de verdade do socialismo não é a fidelidade textual aos clássicos, mas sua capacidade de produzir desenvolvimento material e melhoria concreta das condições de vida.
Nesse sentido, o conceito de projetamento emerge como núcleo teórico do livro, definido como uma forma avançada de planejamento que supera tanto o espontaneísmo do mercado quanto os limites do planejamento tradicional, sendo caracterizado como um processo no qual o Estado utiliza tecnologia e inteligência estratégica para moldar a realidade econômica de forma consciente e orientada por objetivos coletivos. Os autores descrevem esse fenômeno como “forma superior de planificação econômica baseada na apreensão pelo corpo burocrático estatal de inovações tecnológicas disruptivas [...] e em sua inserção na criação de novas formas de moldar a realidade” (p. 35) . Trata-se, portanto, de uma redefinição radical da relação entre Estado, mercado e tecnologia, na qual o planejamento deixa de ser reativo e passa a ser propositivo e estruturante.
Essa concepção atinge seu ponto mais elaborado nas conclusões, quando o projetamento é descrito como uma “nova economia” com grau de racionalidade superior tanto ao capitalismo quanto às experiências socialistas anteriores, sendo apresentado como um movimento político e intelectual que visa superar a lógica restrita da relação custo-benefício e construir uma nova forma de organização social (p. 316-317) . Aqui, o livro assume claramente um tom normativo, defendendo a experiência chinesa não apenas como objeto de análise, mas como horizonte possível para o socialismo do século XXI.
Outro aspecto central da obra é a ênfase na categoria de contradição, retomada da tradição marxista, mas ampliada para incluir dimensões contemporâneas como tecnologia, geopolítica e subjetividade. Os autores argumentam que o Estado socialista se distingue precisamente por sua capacidade de “utilizar e introduzir conscientemente contradições no sistema para fazê-lo funcionar de acordo com o projeto” (p. 316) , o que representa uma inversão significativa da visão tradicional, na qual as contradições são vistas como problemas a serem superados, e não como instrumentos de gestão e transformação.
No plano internacional, o livro também oferece uma leitura crítica do imperialismo contemporâneo, descrito como mais sofisticado e abrangente do que suas formas clássicas, operando não apenas na esfera econômica, mas também no domínio das ideias e das emoções, ao ponto de os autores afirmarem que se trata de um sistema que busca “o monopólio da própria emoção humana” (p. 54) . Essa interpretação amplia o escopo da crítica marxista, incorporando elementos da guerra informacional e da disputa simbólica, o que dialoga diretamente com o contexto geopolítico atual.
A dimensão territorial também aparece como elemento relevante, ainda que secundário, indicando que o socialismo contemporâneo deve enfrentar não apenas questões econômicas, mas também os desafios da urbanização e da organização espacial, sendo necessário desenvolver uma teoria capaz de superar a “urbanização caótica” típica do capitalismo (p. 182) . Esse ponto reforça a ideia de que o projeto socialista, na visão dos autores, é totalizante, envolvendo todas as dimensões da vida social.
Entretanto, a obra não está isenta de tensões e possíveis críticas, especialmente no que diz respeito ao risco de sobrevalorização da experiência chinesa como modelo universal, bem como à tendência de transformar categorias analíticas em instrumentos normativos. Ao afirmar que o socialismo contemporâneo avança na direção de “mais acertos do que erros” (p. 319) , os autores adotam uma postura que pode ser vista como excessivamente otimista ou mesmo apologética, o que pode limitar a capacidade crítica do próprio modelo que defendem.
Ainda assim, o mérito do livro é inegável, sobretudo por sua ousadia teórica e pela tentativa de pensar o socialismo para além dos impasses do século XX, recuperando o marxismo como um sistema vivo, em constante transformação, e não como um conjunto fechado de dogmas. A obra se destaca por articular teoria e prática, tradição e inovação, análise e proposta, oferecendo ao leitor não apenas uma interpretação da China contemporânea, mas uma reflexão profunda sobre os caminhos possíveis do socialismo no mundo atual.
Em última instância, Poder e socialismo é menos um livro sobre a China e mais um esforço de reconstrução teórica que utiliza a experiência chinesa como evidência histórica de que o socialismo, longe de ser uma relíquia do passado, permanece como uma possibilidade concreta, desde que seja capaz de se reinventar diante das novas condições do século XXI.
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