Continue Lendo

Menu


Institucional

Carregando Destaques...
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
livros news resenhas

Resenha: Goiânia em Mosaico: visões sobre a capital do cerrado

A coletânea Goiânia em Mosaico: visões sobre a capital do cerrado , organizada por Ademir Luiz da Silva e Eliézer Cardoso de Oliveira, e pub...

Redação

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Tecnologia do Blogger.

Political News

Sport

Pesquisar este blog

Archive

Follow by Email

If you like Articles on this blog, Please subscribe for free via email.

About

Your Ads Here
Your Ads Here
Your Ads Here

Economy

Recent in Sports

3/Sports/post-list

Random Posts

3/random/post-list

Business

Travel

Hot Widget

recent/hot-posts

Label

Colaboradores

Label

Formulir Kontak

Nome

E-mail *

Mensagem *

Resenha: Goiânia em Mosaico: visões sobre a capital do cerrado


A coletânea Goiânia em Mosaico: visões sobre a capital do cerrado, organizada por Ademir Luiz da Silva e Eliézer Cardoso de Oliveira, e publicada pela Editora da PUC Goiás em 2015 , cumpre a ambiciosa proposta de desvendar a complexidade da capital goiana para além dos discursos hegemônicos de progresso e modernidade que marcaram sua fundação e desenvolvimento. A obra se estrutura em duas partes nucleares — "Política, Modernidade e Desenvolvimento Econômico" e "Cultura, Religiosidade e Imagens" — articulando-se como um estudo interdisciplinar que, ao re-humanizar os sujeitos e os processos históricos, constrói um mosaico exemplar das múltiplas faces da cidade. O esforço editorial e curatorial se concentra em iluminar as "curvas das margens" e recompor "personagens e eventos dantes marginalizados na versão historiográfica hegemônica" , oferecendo uma perspectiva crítica e multifacetada da metrópole fincada no Cerrado.

Na primeira parte, Nasr Nagib Fayad Chaul, em "Goiânia: A Capital do Sertão", estabelece o enquadramento fundacional da cidade como um "pedaço de modernidade, cravado no sertão goiano". O autor analisa o nascimento de Goiânia como uma estratégia política de Pedro Ludovico Teixeira para consolidar-se no poder após a Revolução de 1930, polarizando a disputa entre o "velho" e o "novo Goiás". A mudança da capital é interpretada como um símbolo de ascensão ao poder e progresso, legitimado pela desqualificação da Cidade de Goiás como centro "oligárquico, decadente e atrasado". Chaul evidencia a mescla contraditória entre o projeto modernista e a realidade da "Capital sertaneja" , notando que a cidade foi edificada sob o prisma da modernidade, mas "ligada à estrutura fundiária". A narrativa se aprofunda na crise da Legalidade de 1961, com Ademir Luiz da Silva e Júlio José da Guarda, em "Metralhadoras no Telhado", expondo a figura de Mauro Borges Teixeira e a encenação política da resistência legalista em Goiânia. Através de depoimentos de cidadãos comuns, os autores desmistificam a "mitologia política construída e divulgada sobre a participação efetiva dos goianos na campanha 'heroica'" , revelando que a maioria popular se posicionou contra a resistência por temer o "derramamento de sangue". Os relatos indicam que a "amplitude do significado político do Movimento da Legalidade ficou restrita às paredes verdes do Palácio das Esmeraldas" , com o povo mais preocupado com a vida cotidiana e menos engajado na narrativa épica. O estudo ressalta o uso da mídia-política por Mauro Borges para construir uma imagem de homem honrado, um "semideus da mitologia" em um "cenário de guerra" , o que contrasta com a visão da população que, por vezes, percebia os militares no telhado como "gárgulas de catedral". Dulce Portilho Maciel, em "Empresas de Goiânia: Contribuição ao Estudo da História Econômica da Cidade", contradiz a tese de que Goiânia seria apenas uma capital administrativa e um entreposto comercial. A análise minuciosa dos dados da Junta Comercial do Estado de Goiás entre 1935 e 1963 demonstra que o setor industrial, em termos de capital investido, sempre deteve o maior peso na economia intraurbana , especialmente a indústria de transformação e a da construção civil , esta última experimentando um "grande salto" entre 1955 e 1960. A pesquisa desvela a pujança econômica da cidade, marcada também pela ascensão do comércio misto e de imóveis , este último impulsionado pelo processo desordenado de loteamentos extraplano original a partir da década de 1950. O artigo de Eliézer Cardoso de Oliveira, "Uma Outra História de Goiânia: Crimes e Tragédias", oferece um contraponto necessário ao "progressismo ingênuo" , analisando a violência, o Césio 137 e a figura de Leonardo Pareja. O autor argumenta que Goiânia, embora pensada para ser o símbolo do progresso , se revelou uma "ilha de modernidade em um mar de tradição" e que o esforço de modernização desencadeou um "efeito paradoxal, gerando catástrofes". A repercussão nacional do assassinato do jornalista Haroldo Gurgel em 1953 e a chacina da Rua 74 em 1957 reforçaram a imagem da cidade como violenta e incivilizada. A rebelião liderada por Leonardo Pareja em 1996 expôs o amadorismo da Segurança Pública e o crime, tido como um "exemplo de quase perfeito aventureiro" , gerou grande repercussão midiática. O ápice da desconstrução do mito modernista é o acidente radiológico com o Césio 137 em 1987, que causou um "abalo na imagem de modernidade" , atrelando Goiânia à imagem de uma catástrofe e expondo a negligência das instituições. A contribuição da obra para a compreensão dos dilemas da modernidade periférica é ampliada por Jales Guedes Coelho Mendonça em "Goiânia: Belo Horizonte à Vista", que traça um paralelo entre as fundações de Belo Horizonte e Goiânia como projetos de substituição de capitais coloniais. O autor demonstra que a experiência mineira, com suas disputas e a resolução da escolha do local pelo Legislativo , serviu de "clara inspiração para o roteiro goiano, algumas vezes para repeti-lo, outras para evitá-lo". Pedro Ludovico Teixeira, agindo em um regime de exceção, consolidou rapidamente a escolha do sítio em Campinas, utilizando o empreendimento como "principal bandeira do PSR" e reduzindo a imprevisibilidade do jogo legislativo, garantindo a irreversibilidade do local.

Na segunda parte, a obra mergulha nas "rugosidades" culturais e religiosas que resistem e coexistem com o projeto modernista. Reijane Pinheiro da Silva, em "O 'Goiânia Capital Country': A Identidade em Disputa", analisa o projeto de 1995 que tentou transformar a cidade na "Capital Country do Brasil". A proposta desencadeou um debate que revelou a disputa pela identidade goiana, confrontando a faceta country com a alegação de raízes europeias e com a produção intelectual local. A autora destaca a rejeição de parte da intelectualidade, que ridicularizava a proposta, sugerindo que ela transformaria a cidade em uma "fazenda asfaltada" e a associando ao atraso e provincianismo. O artigo também aponta a visão do country como um "fruto dos interesses de uma classe rural privilegiada" e a negação de sua legitimidade cultural, apesar da adesão popular ao estilo, impulsionado pelo sucesso da música sertaneja. A resistência ao country é vista como uma tentativa de preservar a "riquíssima cultura regional" de ser "pisoteada" pela cultura estrangeira. Camila Gouveia e coautores, em "As Rugosidades de Campinas: Continuidades e Descontinuidades de uma Estrutura Urbana", utilizam o conceito de "rugosidade" de Milton Santos para mapear as permanências da Campininha das Flores, o núcleo urbano pré-existente à Goiânia planejada. O estudo, baseado em pesquisa de campo, revela a apropriação do antigo traçado viário e a persistência de edificações do século XIX , com suas técnicas construtivas em pau-a-pique e telhado de quatro águas , provando que a nova capital não brotou de uma tábula rasa, como alegado pelos discursos fundacionais. A análise ressalta que o amálgama entre o antigo e o novo é o que, de fato, "melhor qualifica a identidade urbanística de Campinha das Flores". Léo Carrer Nogueira, em "A Umbanda na Cidade de Goiânia – Antecedentes Históricos e Atualidade", e Clarissa Adjuto Ulhoa, em "Também Goiás é Terra de Orixás: O Sacerdote João de Abuque e o Candomblé na Cidade de Goiânia", documentam a história e a luta por legitimidade das religiões afro-brasileiras. Nogueira traça a chegada da Umbanda no final da década de 1940 , marcada pela forte influência do Kardecismo, com a fundação de centros como o "Tenda do Caminho" , e a subsequente criação da Federação Umbandista do Estado de Goiás (FUEGO) em 1969 , que nasceu com uma "incumbência fiscalizadora" para regular a conduta dos terreiros e obter aceitação social. Ulhoa foca na chegada do Candomblé, personificada em João de Abuque, considerado o sacerdote pioneiro. Abuque, migrante nordestino , desafia a narrativa cristã da cidade ao declarar que "Goiás é terra de três orixás: Oxum, Xangô e Oxóssi", fazendo uma apropriação simbólica do território goiano. A autora descreve a repressão policial e a luta pela autonomia, notando que o Candomblé, mesmo sem estar nos planos dos idealizadores da cidade , se estabeleceu e se disseminou, principalmente, a partir da casa de Sr. João. O artigo "O Canto, o Lugar da Congada: Uma Expressão Cultural Negra em Goiânia", de Adriane Damascena e Alex Ratts, registra a presença histórica e a persistência da congada como uma "expressão cultural negra e popular" e um "exercício de comunhão" , que sacraliza o tempo e o espaço cotidiano. A congada, atestada desde 1942 , manifesta-se nos bairros populares, como a Vila João Vaz , como uma forma de resistência cultural e um "reencontro entre os pares" , remetendo à ancestralidade e à identidade negra diaspórica. A manifestação, apesar de ser um movimento contrário ao ritmo acelerado da metrópole , acompanha o crescimento da capital, provando que "Goiânia também é negra e popular". Itelvides José de Morais, em "Goiânia: Protestantismo, Cultura e Cidadania", analisa o crescimento do Protestantismo, que em Goiânia se manteve acima da média nacional , aproveitando a condição da cidade como "local de fronteira". O fluxo migratório e a anomia gerada pelo encontro de culturas tornaram os imigrantes mais propensos a aceitar novas religiões , o que favoreceu o surgimento de grandes igrejas evangélicas de alcance nacional e internacional, que se tornaram um "dos principais produtos de exportação" da cidade. Contudo, o autor nota que essa ascensão também resultou em momentos de relativa intolerância, como na polêmica das estátuas de orixás no Parque Vaca Brava. O artigo de Aline Fernandes Carrijo, "Quando a Juventude Assume o Palco: A Cultura do Rock em Goiânia", demonstra a consolidação da cena rock goianiense como uma resposta da juventude que "não se identificava com esse imaginário coletivo rural" , impulsionado pelo projeto country. A autora descreve a formação da cena, marcada pela mistura de gêneros e pelo espírito Do It Yourself , que criou um mercado intermediário e um senso de comunidade. A juventude do rock contesta o sertanejo e o country e, ao mesmo tempo, luta para legitimar sua prática como "genuinamente goiana" , em um processo de disputa por espaço simbólico e físico na cidade. Allysson Fernandes Garcia, em "Dos Bailes ao Break: Uma História da Cultura Hip Hop em Goiânia 1984-1996", narra a chegada e a ressignificação da cultura hip hop na cidade através de jovens da periferia que encontraram, na música negra estadunidense, elementos para construir novas identidades. A difusão inicial deu-se pela televisão, cinema e rádio e se consolidou nos bailes de equipes de som como a Cash Box , que serviram como espaço de sociabilidade e afirmação da negritude. O autor descreve a atuação de b.boys e rappers em espaços públicos, como o calçadão da Avenida Anhanguera , em uma disputa com a ordem e o racismo dominante , que os via como "mal arrumados", "desocupados", e "negros". A cultura hip hop é vista como um caminho alternativo de inserção social , onde a dança no centro da cidade tem um "valor simbólico importante em uma cidade segregada". O debate sobre a modernidade e seus contrários é central no artigo de Clarismar Gomes de Abreu, "Chão Vermelho, de Eli Brasiliense: Moderno, Progresso e Seus Contrários na Cidade de Goiânia", que utiliza o romance de 1956 como um "guia de Goiânia daqueles tempos". O autor examina a convivência de elementos de modernização, como o automóvel e o cigarro industrializado , com as resistências e precariedades urbanas. O automóvel, símbolo de status , é condenado por Joviano como um elemento que "estragava tudo" , evidenciando o perigo para o pedestre e a segregação, já que as ruas dos bairros periféricos eram de "buraco e lama só". A falta de energia e água, contrastando com a imagem de uma cidade planejada , e a precariedade da assistência médica desvelam a heterogeneidade e a "ambivalência" da modernidade goiana. A última análise é de Marcela Aguiar Borela, "Goiânia e Modernismo de Fronteira: Surgimento de um Mundo Artístico em Goiás", que contextualiza a emergência da arte moderna em Goiás entre 1942 e 1962 a partir da condição de Goiânia como "cidade nova de fronteira". A autora argumenta que o modernismo goiano é tardio, heterogêneo e marcado pela "ambiguidade" do ambiente de fronteira , sendo um encontro de tradições e influências. A origem desse "mundo artístico" se delimita, principalmente, com a chegada dos artistas europeus Gustav Ritter e Nazareno Confaloni e seu encontro com o intelectual goiano Luiz Augusto do Carmo Curado , culminando na fundação da Escola Goiana de Belas Artes (EGBA) em 1952. A obra mural de Confaloni na Cidade de Goiás, "Os Mistérios do Rosário" , é apontada como a primeira obra modernista goiana, que desloca a narrativa religiosa para a ambientação local e reflete o "retorno à ordem" em diálogo com o expressionismo. A EGBA, por sua vez, funcionou como o "ambiente aglutinador de aprendizagens e de trocas" , marcando o início da estruturação da cena artística modernista em Goiânia.

Em suma, Goiânia em Mosaico é uma contribuição fundamental para os estudos urbanos e regionais, ao oferecer uma leitura técnica e complexa da cidade que transcende a historiografia fundacional. A sinergia entre as análises, que transitam da macroestrutura política e econômica às microexpressões culturais e religiosas, revela uma cidade marcada pela contradição inerente à modernidade periférica: uma metrópole que é simultaneamente capital do sertão, palco de disputas identitárias, refúgio de rugosidades ancestrais e berço de um rock contestatório. A obra se consolida, assim, como um referencial para a compreensão da dinâmica social e cultural de Goiânia e, por extensão, dos dilemas da identidade brasileira.

Resenha: Goiânia em Mosaico: visões sobre a capital do cerrado


A coletânea Goiânia em Mosaico: visões sobre a capital do cerrado, organizada por Ademir Luiz da Silva e Eliézer Cardoso de Oliveira, e publicada pela Editora da PUC Goiás em 2015 , cumpre a ambiciosa proposta de desvendar a complexidade da capital goiana para além dos discursos hegemônicos de progresso e modernidade que marcaram sua fundação e desenvolvimento. A obra se estrutura em duas partes nucleares — "Política, Modernidade e Desenvolvimento Econômico" e "Cultura, Religiosidade e Imagens" — articulando-se como um estudo interdisciplinar que, ao re-humanizar os sujeitos e os processos históricos, constrói um mosaico exemplar das múltiplas faces da cidade. O esforço editorial e curatorial se concentra em iluminar as "curvas das margens" e recompor "personagens e eventos dantes marginalizados na versão historiográfica hegemônica" , oferecendo uma perspectiva crítica e multifacetada da metrópole fincada no Cerrado.

Na primeira parte, Nasr Nagib Fayad Chaul, em "Goiânia: A Capital do Sertão", estabelece o enquadramento fundacional da cidade como um "pedaço de modernidade, cravado no sertão goiano". O autor analisa o nascimento de Goiânia como uma estratégia política de Pedro Ludovico Teixeira para consolidar-se no poder após a Revolução de 1930, polarizando a disputa entre o "velho" e o "novo Goiás". A mudança da capital é interpretada como um símbolo de ascensão ao poder e progresso, legitimado pela desqualificação da Cidade de Goiás como centro "oligárquico, decadente e atrasado". Chaul evidencia a mescla contraditória entre o projeto modernista e a realidade da "Capital sertaneja" , notando que a cidade foi edificada sob o prisma da modernidade, mas "ligada à estrutura fundiária". A narrativa se aprofunda na crise da Legalidade de 1961, com Ademir Luiz da Silva e Júlio José da Guarda, em "Metralhadoras no Telhado", expondo a figura de Mauro Borges Teixeira e a encenação política da resistência legalista em Goiânia. Através de depoimentos de cidadãos comuns, os autores desmistificam a "mitologia política construída e divulgada sobre a participação efetiva dos goianos na campanha 'heroica'" , revelando que a maioria popular se posicionou contra a resistência por temer o "derramamento de sangue". Os relatos indicam que a "amplitude do significado político do Movimento da Legalidade ficou restrita às paredes verdes do Palácio das Esmeraldas" , com o povo mais preocupado com a vida cotidiana e menos engajado na narrativa épica. O estudo ressalta o uso da mídia-política por Mauro Borges para construir uma imagem de homem honrado, um "semideus da mitologia" em um "cenário de guerra" , o que contrasta com a visão da população que, por vezes, percebia os militares no telhado como "gárgulas de catedral". Dulce Portilho Maciel, em "Empresas de Goiânia: Contribuição ao Estudo da História Econômica da Cidade", contradiz a tese de que Goiânia seria apenas uma capital administrativa e um entreposto comercial. A análise minuciosa dos dados da Junta Comercial do Estado de Goiás entre 1935 e 1963 demonstra que o setor industrial, em termos de capital investido, sempre deteve o maior peso na economia intraurbana , especialmente a indústria de transformação e a da construção civil , esta última experimentando um "grande salto" entre 1955 e 1960. A pesquisa desvela a pujança econômica da cidade, marcada também pela ascensão do comércio misto e de imóveis , este último impulsionado pelo processo desordenado de loteamentos extraplano original a partir da década de 1950. O artigo de Eliézer Cardoso de Oliveira, "Uma Outra História de Goiânia: Crimes e Tragédias", oferece um contraponto necessário ao "progressismo ingênuo" , analisando a violência, o Césio 137 e a figura de Leonardo Pareja. O autor argumenta que Goiânia, embora pensada para ser o símbolo do progresso , se revelou uma "ilha de modernidade em um mar de tradição" e que o esforço de modernização desencadeou um "efeito paradoxal, gerando catástrofes". A repercussão nacional do assassinato do jornalista Haroldo Gurgel em 1953 e a chacina da Rua 74 em 1957 reforçaram a imagem da cidade como violenta e incivilizada. A rebelião liderada por Leonardo Pareja em 1996 expôs o amadorismo da Segurança Pública e o crime, tido como um "exemplo de quase perfeito aventureiro" , gerou grande repercussão midiática. O ápice da desconstrução do mito modernista é o acidente radiológico com o Césio 137 em 1987, que causou um "abalo na imagem de modernidade" , atrelando Goiânia à imagem de uma catástrofe e expondo a negligência das instituições. A contribuição da obra para a compreensão dos dilemas da modernidade periférica é ampliada por Jales Guedes Coelho Mendonça em "Goiânia: Belo Horizonte à Vista", que traça um paralelo entre as fundações de Belo Horizonte e Goiânia como projetos de substituição de capitais coloniais. O autor demonstra que a experiência mineira, com suas disputas e a resolução da escolha do local pelo Legislativo , serviu de "clara inspiração para o roteiro goiano, algumas vezes para repeti-lo, outras para evitá-lo". Pedro Ludovico Teixeira, agindo em um regime de exceção, consolidou rapidamente a escolha do sítio em Campinas, utilizando o empreendimento como "principal bandeira do PSR" e reduzindo a imprevisibilidade do jogo legislativo, garantindo a irreversibilidade do local.

Na segunda parte, a obra mergulha nas "rugosidades" culturais e religiosas que resistem e coexistem com o projeto modernista. Reijane Pinheiro da Silva, em "O 'Goiânia Capital Country': A Identidade em Disputa", analisa o projeto de 1995 que tentou transformar a cidade na "Capital Country do Brasil". A proposta desencadeou um debate que revelou a disputa pela identidade goiana, confrontando a faceta country com a alegação de raízes europeias e com a produção intelectual local. A autora destaca a rejeição de parte da intelectualidade, que ridicularizava a proposta, sugerindo que ela transformaria a cidade em uma "fazenda asfaltada" e a associando ao atraso e provincianismo. O artigo também aponta a visão do country como um "fruto dos interesses de uma classe rural privilegiada" e a negação de sua legitimidade cultural, apesar da adesão popular ao estilo, impulsionado pelo sucesso da música sertaneja. A resistência ao country é vista como uma tentativa de preservar a "riquíssima cultura regional" de ser "pisoteada" pela cultura estrangeira. Camila Gouveia e coautores, em "As Rugosidades de Campinas: Continuidades e Descontinuidades de uma Estrutura Urbana", utilizam o conceito de "rugosidade" de Milton Santos para mapear as permanências da Campininha das Flores, o núcleo urbano pré-existente à Goiânia planejada. O estudo, baseado em pesquisa de campo, revela a apropriação do antigo traçado viário e a persistência de edificações do século XIX , com suas técnicas construtivas em pau-a-pique e telhado de quatro águas , provando que a nova capital não brotou de uma tábula rasa, como alegado pelos discursos fundacionais. A análise ressalta que o amálgama entre o antigo e o novo é o que, de fato, "melhor qualifica a identidade urbanística de Campinha das Flores". Léo Carrer Nogueira, em "A Umbanda na Cidade de Goiânia – Antecedentes Históricos e Atualidade", e Clarissa Adjuto Ulhoa, em "Também Goiás é Terra de Orixás: O Sacerdote João de Abuque e o Candomblé na Cidade de Goiânia", documentam a história e a luta por legitimidade das religiões afro-brasileiras. Nogueira traça a chegada da Umbanda no final da década de 1940 , marcada pela forte influência do Kardecismo, com a fundação de centros como o "Tenda do Caminho" , e a subsequente criação da Federação Umbandista do Estado de Goiás (FUEGO) em 1969 , que nasceu com uma "incumbência fiscalizadora" para regular a conduta dos terreiros e obter aceitação social. Ulhoa foca na chegada do Candomblé, personificada em João de Abuque, considerado o sacerdote pioneiro. Abuque, migrante nordestino , desafia a narrativa cristã da cidade ao declarar que "Goiás é terra de três orixás: Oxum, Xangô e Oxóssi", fazendo uma apropriação simbólica do território goiano. A autora descreve a repressão policial e a luta pela autonomia, notando que o Candomblé, mesmo sem estar nos planos dos idealizadores da cidade , se estabeleceu e se disseminou, principalmente, a partir da casa de Sr. João. O artigo "O Canto, o Lugar da Congada: Uma Expressão Cultural Negra em Goiânia", de Adriane Damascena e Alex Ratts, registra a presença histórica e a persistência da congada como uma "expressão cultural negra e popular" e um "exercício de comunhão" , que sacraliza o tempo e o espaço cotidiano. A congada, atestada desde 1942 , manifesta-se nos bairros populares, como a Vila João Vaz , como uma forma de resistência cultural e um "reencontro entre os pares" , remetendo à ancestralidade e à identidade negra diaspórica. A manifestação, apesar de ser um movimento contrário ao ritmo acelerado da metrópole , acompanha o crescimento da capital, provando que "Goiânia também é negra e popular". Itelvides José de Morais, em "Goiânia: Protestantismo, Cultura e Cidadania", analisa o crescimento do Protestantismo, que em Goiânia se manteve acima da média nacional , aproveitando a condição da cidade como "local de fronteira". O fluxo migratório e a anomia gerada pelo encontro de culturas tornaram os imigrantes mais propensos a aceitar novas religiões , o que favoreceu o surgimento de grandes igrejas evangélicas de alcance nacional e internacional, que se tornaram um "dos principais produtos de exportação" da cidade. Contudo, o autor nota que essa ascensão também resultou em momentos de relativa intolerância, como na polêmica das estátuas de orixás no Parque Vaca Brava. O artigo de Aline Fernandes Carrijo, "Quando a Juventude Assume o Palco: A Cultura do Rock em Goiânia", demonstra a consolidação da cena rock goianiense como uma resposta da juventude que "não se identificava com esse imaginário coletivo rural" , impulsionado pelo projeto country. A autora descreve a formação da cena, marcada pela mistura de gêneros e pelo espírito Do It Yourself , que criou um mercado intermediário e um senso de comunidade. A juventude do rock contesta o sertanejo e o country e, ao mesmo tempo, luta para legitimar sua prática como "genuinamente goiana" , em um processo de disputa por espaço simbólico e físico na cidade. Allysson Fernandes Garcia, em "Dos Bailes ao Break: Uma História da Cultura Hip Hop em Goiânia 1984-1996", narra a chegada e a ressignificação da cultura hip hop na cidade através de jovens da periferia que encontraram, na música negra estadunidense, elementos para construir novas identidades. A difusão inicial deu-se pela televisão, cinema e rádio e se consolidou nos bailes de equipes de som como a Cash Box , que serviram como espaço de sociabilidade e afirmação da negritude. O autor descreve a atuação de b.boys e rappers em espaços públicos, como o calçadão da Avenida Anhanguera , em uma disputa com a ordem e o racismo dominante , que os via como "mal arrumados", "desocupados", e "negros". A cultura hip hop é vista como um caminho alternativo de inserção social , onde a dança no centro da cidade tem um "valor simbólico importante em uma cidade segregada". O debate sobre a modernidade e seus contrários é central no artigo de Clarismar Gomes de Abreu, "Chão Vermelho, de Eli Brasiliense: Moderno, Progresso e Seus Contrários na Cidade de Goiânia", que utiliza o romance de 1956 como um "guia de Goiânia daqueles tempos". O autor examina a convivência de elementos de modernização, como o automóvel e o cigarro industrializado , com as resistências e precariedades urbanas. O automóvel, símbolo de status , é condenado por Joviano como um elemento que "estragava tudo" , evidenciando o perigo para o pedestre e a segregação, já que as ruas dos bairros periféricos eram de "buraco e lama só". A falta de energia e água, contrastando com a imagem de uma cidade planejada , e a precariedade da assistência médica desvelam a heterogeneidade e a "ambivalência" da modernidade goiana. A última análise é de Marcela Aguiar Borela, "Goiânia e Modernismo de Fronteira: Surgimento de um Mundo Artístico em Goiás", que contextualiza a emergência da arte moderna em Goiás entre 1942 e 1962 a partir da condição de Goiânia como "cidade nova de fronteira". A autora argumenta que o modernismo goiano é tardio, heterogêneo e marcado pela "ambiguidade" do ambiente de fronteira , sendo um encontro de tradições e influências. A origem desse "mundo artístico" se delimita, principalmente, com a chegada dos artistas europeus Gustav Ritter e Nazareno Confaloni e seu encontro com o intelectual goiano Luiz Augusto do Carmo Curado , culminando na fundação da Escola Goiana de Belas Artes (EGBA) em 1952. A obra mural de Confaloni na Cidade de Goiás, "Os Mistérios do Rosário" , é apontada como a primeira obra modernista goiana, que desloca a narrativa religiosa para a ambientação local e reflete o "retorno à ordem" em diálogo com o expressionismo. A EGBA, por sua vez, funcionou como o "ambiente aglutinador de aprendizagens e de trocas" , marcando o início da estruturação da cena artística modernista em Goiânia.

Em suma, Goiânia em Mosaico é uma contribuição fundamental para os estudos urbanos e regionais, ao oferecer uma leitura técnica e complexa da cidade que transcende a historiografia fundacional. A sinergia entre as análises, que transitam da macroestrutura política e econômica às microexpressões culturais e religiosas, revela uma cidade marcada pela contradição inerente à modernidade periférica: uma metrópole que é simultaneamente capital do sertão, palco de disputas identitárias, refúgio de rugosidades ancestrais e berço de um rock contestatório. A obra se consolida, assim, como um referencial para a compreensão da dinâmica social e cultural de Goiânia e, por extensão, dos dilemas da identidade brasileira.

Mobile Logo Settings

Mobile Logo Settings
image

Labels

Ad Space

Responsive Advertisement

Upload Image

Upload Image
"Upload image from computer" > Save > Edit Again > Get URL

Fashion

Labels

Categories

Business

Recent Post

Ticker

6/recent/ticker-posts

Politic

Feature Label Area

Word

#Advertisement


300x250 AD TOP

Whats Hot This Week

Navigation Pages [Footer]

Blogroll


Navigation Pages [Vertical]

Blogger templates

Responsive Advertisement

Blogger news

Follow on FaceBook


Trending video


Popular Posts

Popular Posts

Icone Newsletter

Assine nossa newsletter

e receba conteúdo incrível