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O Casamento, de Victor Bonini Renova o Whodunit Brasileiro com Cinismo e Precisão Cirúrgica

Existe uma regra não dita na literatura de suspense: quanto mais perfeita a fachada, mais podres são os alicerces. Em "O Casamento...

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Clube do livro e a biblioteca da meia noite #12

Estamos nos últimos dias de novembro e o clima nos grupos do Post Literal é de uma melancolia devastadora. Enquanto nos preparamos para o n...

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Flores para Algernon é o escolhido do clube do livro no mês 11

Limpem o glitter dos olhos e guardem os vestidos de seda verde. O Mês 10 do Clube do Livro Post Literal, onde vivemos a vida escandalosa de...

Redação

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

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O Casamento, de Victor Bonini Renova o Whodunit Brasileiro com Cinismo e Precisão Cirúrgica


Existe uma regra não dita na literatura de suspense: quanto mais perfeita a fachada, mais podres são os alicerces. Em "O Casamento", o jovem autor brasileiro Victor Bonini — que carrega a bagagem de jornalista investigativo — não apenas segue essa regra, como a dina
mita.
O cenário é idílico: o Hotel-Fazenda Cardeais, em Joanópolis, interior de São Paulo, reservado para quatro dias de celebração da união entre Diana Miglioni e Plínio Amaral. O que deveria ser um conto de fadas regado a espumante e fotos para o Instagram transforma-se, página a página, em um estudo de caso sobre a hipocrisia da classe média alta e a psicopatia escondida sob véus de noiva.

Esta análise mergulha nas entranhas de uma trama que, embora flerte com o clássico estilo de Agatha Christie (o crime em local isolado, o elenco de suspeitos confinados), respira a modernidade cínica do Brasil contemporâneo. Bonini constrói um thriller que funciona como um relógio suíço banhado em sangue, onde cada peça — da planta "babosa" no jardim à bombinha de asma do noivo  — tem uma função letal.

O Detetive que Não Queria Estar Lá

O condutor dessa jornada não é um policial heroico, mas Conrado Bardelli, apelidado de Lyra. Bardelli é um detetive particular de meia-idade, asmático, cético e, acima de tudo, humano. Ele não está no hotel a trabalho, mas como convidado e amigo de faculdade do pai da noiva, Oscar. Essa escolha narrativa é o primeiro grande acerto de Bonini. Ao colocar o investigador como parte do círculo social, o autor remove a barreira entre "a lei" e "os suspeitos". Bardelli está ali para comer bem, beber vinho e reencontrar velhos amigos, não para isolar cenas de crime.

Sua entrada na trama principal acontece de forma orgânica e relutante. Ele é arrastado para o submundo do evento por Ricardo Gurgel, um empresário rico, arrogante e tio do ex-namorado da noiva. Gurgel, o arquétipo do "homem de bem" com segredos inconfessáveis, contrata Bardelli informalmente no meio do feriado. O motivo? Ele está sendo chantageado por alguém que sabe de seu caso extraconjugal com Vanessa, a irmã do noivo.

A construção de Bardelli é refrescante. Ele falha. Ele é enganado por uma vigarista sensual chamada Carmen. Ele tem sua carteira roubada e seu quarto invadido. Diferente de um Sherlock Holmes onisciente, Bardelli descobre a verdade tropeçando nela, montando o quebra-cabeça com peças que lhe são atiradas na cara. Isso gera empatia imediata. O leitor não se sente inferior ao detetive; sente-se sentado ao lado dele, compartilhando a mesma perplexidade diante do caos.

A Chantagem como Motor da Tensão

Antes mesmo do primeiro cadáver cair, Bonini estabelece um clima de terror psicológico através da subtrama de Gurgel. As mensagens de texto que o empresário recebe são viscerais, vulgares e aterrorizantes: "Eu sei que você come a Vanessa. Filho da puta. Você vai pro inferno".

A habilidade do autor em criar suspense através da tecnologia é notável. O celular não é apenas um acessório; é uma arma. Gurgel é forçado a realizar missões noturnas humilhantes, deixando malas de dinheiro em estradas de terra escuras, sendo observado por uma sombra sem rosto.

Essa primeira metade do livro é uma aula de pacing (ritmo). Bonini intercala a frivolidade dos preparativos do casamento — a escolha dos guardanapos, o nervosismo da noiva, as brigas entre as famílias — com a descida de Gurgel ao inferno. O contraste é brutal. Enquanto os convidados discutem o buffet, Gurgel está sendo esfaqueado nas costas em uma casa abandonada durante uma entrega de resgate que dá errado. O cheiro de perfume de rosas que ele sente no agressor  torna-se um leitmotiv sensorial, uma pista olfativa que assombra o leitor tanto quanto o personagem.

O Elenco de Suspeitos: Uma Fogueira de Vaidades

Para que um mistério funcione, é preciso que todos tenham motivos para matar, ou pelo menos, segredos que valham a pena matar para esconder. O elenco de "O Casamento" é desenhado com precisão sociológica:

  1. A Família da Noiva (Miglioni): Oscar e Edna, pais separados que tentam manter as aparências, falidos, dependendo da generosidade alheia para manter o status.

  2. A Família do Noivo (Amaral): Liderada pelo Tenente-Coronel Demétrio, um militar linha-dura, abusivo e com um passado sombrio na Rota, que despreza o próprio filho, Plínio.

  3. O Triângulo Amoroso Oculto: Diana (a noiva), Plínio (o noivo submisso) e Enzo (o filho de Gurgel e ex-namorado de Diana). A tensão sexual e emocional entre eles é palpável. Enzo é o "genro perfeito" que não foi; Plínio é o "ogro" que a família tolera.

Bonini utiliza esses arquétipos para tecer uma crítica social mordaz. O casamento não é sobre amor; é sobre poder, dinheiro e aparências. Quando a tia rica de Gurgel, Hortência, é encontrada degolada na sala ao lado do altar minutos antes da cerimônia1 a estrutura social desmorona. A cena do crime é descrita com um realismo gráfico que choca: o sangue nas paredes, a cabeça pendendo de lado. Não há glamour na morte aqui. É suja, é rápida e interrompe a festa de forma definitiva.

A Atmosfera de Claustrofobia

Embora o Hotel-Fazenda seja um espaço aberto, Bonini cria uma "sala fechada" psicológica. Com a chegada da polícia e o isolamento dos hóspedes, a tensão explode. Ninguém pode sair. O assassino está entre eles.

A introdução da personagem Carmen — uma golpista que se infiltra na festa e cruza o caminho de Bardelli — adiciona uma camada de caos imprevisível. Ela é o elemento coringa, a "vigarista simpática" que rouba a cena (e o dinheiro de Bardelli), servindo tanto como alívio cômico quanto como catalisadora de pistas cruciais. A interação de gato e rato entre ela e o detetive é um dos pontos altos da narrativa, trazendo uma leveza necessária em meio à carnificina.

Se a primeira metade de "O Casamento" é sobre a construção da tensão, a segunda metade é sobre a demolição das expectativas. O livro sofre uma guinada vertiginosa quando o foco sai da investigação tradicional e mergulha na mente dos verdadeiros culpados. É aqui que Bonini mostra a que veio, subvertendo o tropo da "donzela em perigo".

O Plot Twist: A "Garota Exemplar" Brasileira

A revelação de que Diana, a noiva ansiosa e aparentemente frágil, é a mente mestra por trás da chantagem, dos assassinatos e da manipulação de todos ao seu redor é executada com maestria.

Bonini nos dá pistas desde o início, mas as camufla sob a névoa do preconceito. Vemos Diana chorando, Diana vomitando de nervosismo, Diana sendo a vítima. Mas, ao reavaliar a trama, percebemos a frieza de suas ações. A cena em que ela e Plínio se conhecem, dois anos antes, já prenunciava a dinâmica tóxica: ela manipula a narrativa desde o primeiro encontro na planta babosa.

A relação entre Diana e Plínio é fascinante em sua toxicidade. Plínio não é apenas o noivo bobo; ele é um cúmplice apaixonado e letal, disposto a matar para provar seu amor. A dinâmica deles lembra os grandes casais assassinos da ficção, mas com um toque brasileiro de improviso e desespero financeiro.

O plano era diabólico em sua simplicidade: chantagear Gurgel para conseguir dinheiro e, eventualmente, matá-lo para que a herança fosse para Enzo (o verdadeiro amor/obsessão de Diana). O casamento com Plínio era uma farsa, uma cortina de fumaça.

A Mecânica dos Crimes: O "De Trás pra Frente"

A solução do mistério gira em torno de uma frase enigmática dita pela segunda vítima, a dona do hotel Eunice: "As pessoas estão vendo tudo de trás pra frente".

Bardelli (e o leitor) assume que o assassino estava dentro do salão e saiu. A genialidade da dedução final reside em perceber que o assassino (Diana) estava fora, entrou pela janela (supostamente impossível de abrir, mas aberta por Plínio), cometeu o crime e saiu novamente.

O uso da asma de Plínio como álibi e ferramenta de distração é brilhante. Enquanto todos olhavam para o noivo sufocando no corredor, a noiva estava degolando a juíza de paz na sala ao lado. A imagem de Diana correndo com o vestido de noiva, cobrindo o sangue com a estola, é cinematográfica e perturbadora. É a imagem definitiva da profanação do sagrado: o vestido branco manchado de vermelho, a união selada pela morte.

A Queda de Gurgel e a Justiça Poética

A morte de Ricardo Gurgel, encontrado degolado em um motel barato na Marginal Tietê, fecha o ciclo da tragédia. Ele passou o livro todo tentando proteger sua reputação e seu dinheiro, apenas para morrer sozinho, sujo e falido emocionalmente.

Há uma ironia cruel no destino de Gurgel. Ele contratou detetives incompetentes, demitiu o único homem que poderia salvá-lo (Bardelli) e foi consumido pela própria paranoia. Sua morte não é apenas um ponto de enredo; é a conclusão moral da história. A ganância e a luxúria cobraram seu preço.

Pontos Fortes da Narrativa

  1. A Prosa Ágil: Bonini escreve com frases curtas, diálogos rápidos e ganchos no final de cada capítulo que tornam a leitura compulsiva. O livro tem mais de 500 páginas, mas lê-se como se tivesse 200.

  2. O Cenário Brasileiro: O livro não tenta imitar um thriller americano. Ele abraça o Brasil. Temos a "carteirada" do Tenente-Coronel , o jeitinho brasileiro de resolver problemas, a corrupção policial (o grupo de extermínio mencionado por Vanessa)  e a informalidade das relações.

  3. A Ambiguidade Moral: Quase ninguém é inocente. A madrinha Iara é controladora; Vanessa é amante e cúmplice moral; Enzo é passivo e aceita a traição. Bardelli é o único pilar de moralidade, mas mesmo ele opera nas sombras, usando métodos questionáveis (como subornar a garçonete da padaria).

Crítica: Onde o Livro Tropeça?

Se há um ponto de crítica, talvez seja a complexidade excessiva de alguns planos. A quantidade de coincidências necessárias para que o plano de Diana funcionasse perfeitamente (o timing da asma, ninguém olhar pela janela, a chave perdida) exige uma suspensão de descrença considerável.

Além disso, a subtrama do grupo de extermínio da PM, liderado pelo pai do noivo, embora adicione perigo e explique o medo de Vanessa, às vezes parece pertencer a outro livro, um thriller policial mais urbano, desviando um pouco o foco do mistério central de "quem matou". No entanto, serve para aumentar a aposta e colocar a vida de Bardelli em risco real.

Conclusão: Um Novo Marco no Suspense Nacional

"O Casamento" é, em última análise, uma vitória do gênero no Brasil. Victor Bonini entrega uma trama que não deve nada aos best-sellers internacionais de Harlan Coben ou Gillian Flynn.

A obra é positiva não porque tem um final feliz — longe disso, o final é agridoce, com Diana em um hospital psiquiátrico após tentar suicídio e Enzo tentando recomeçar a vida  —, mas porque é honesta sobre a natureza humana.

O livro nos diz que o mal não é um monstro debaixo da cama; o mal é a noiva sorridente no altar, o empresário de sucesso no jantar beneficente, o médico que largou a faculdade. O mal é, muitas vezes, a pessoa com quem escolhemos passar o resto da vida.

Para os fãs de mistério que buscam uma leitura que prenda a respiração e desafie o intelecto, aceitar o convite para este casamento é mandatório. Só não espere comer o bolo; o gosto metálico de sangue na boca é o único sabor que restará ao final.

Veredito: Uma leitura obrigatória, eletrizante e deliciosamente macabra. Victor Bonini consolida-se como uma voz potente, provando que o crime perfeito pode ter sotaque brasileiro e acontecer logo ali, na Rodovia Fernão Dias.

Clube do livro e a biblioteca da meia noite #12


Estamos nos últimos dias de novembro e o clima nos grupos do Post Literal é de uma melancolia devastadora. Enquanto nos preparamos para o nosso Encontro Final de "Flores para Algernon" (que acontecerá neste primeiro fim de semana de dezembro — preparem o vinho e os lenços, pois a pauta sobre "A Involução de Charlie" promete ser a mais difícil do ano), precisamos olhar para a frente. Dezembro chegou. E com ele, aquela inevitável reflexão de fim de ano: O que eu fiz da minha vida? Que escolhas eu deveria ter feito diferente?

Depois de meses a ler sobre orfanatos góticos, amizades tóxicas em Nápoles, escândalos de Hollywood e tragédias científicas, a comunidade pediu um livro que servisse como um abraço. Não um abraço fácil, mas aquele abraço que te diz: "Está tudo bem ter dúvidas". A votação para o Mês 12 foi temática: "Segundas Chances". Com uma vitória esmagadora, o livro escolhido para encerrar o nosso ano letivo é o bestseller mundial de conforto e filosofia pop:"A Biblioteca da Meia-Noite" (The Midnight Library), de Matt Haig.


A Logística: Uma Leitura para o Fim de Ano

Sabemos que dezembro é caótico. Festas, compras, encerramento de trabalho. Por isso, escolhemos um livro que flui como água. É uma leitura rápida, envolvente e capitular, perfeita para ler entre uma confraternização e outra.

Para este mês especial, os nossos grupos de WhatsApp transformar-se-ão em "Corredores de Possibilidades", batizados com elementos chave da trama:

  1. Grupo "O Livro dos Arrependimentos": Onde discutiremos o passado, o peso do "e se..." e as escolhas que nos assombram.

  2. Grupo "Sra. Elm": O grupo focado na figura do mentor, no jogo de xadrez e na sabedoria acolhedora.

  3. Grupo "A Vida da Glaciologista": Para quem gosta da parte da aventura e das vidas alternativas mais radicais da protagonista.

  4. Grupo "A Raiz": Focado na filosofia, na depressão, na saúde mental e na busca pelo sentido da vida (o grupo mais profundo).

O cronograma será relaxado. Não queremos stress em dezembro. A meta é terminar a leitura antes do Natal, para que o nosso Encontro Final do Ano seja uma celebração da vida (literalmente).

O Kit "Meia-Noite"

Para a última caixa do ano, os assinantes receberão um presente focado na introspeção e no planeamento para o próximo ano:

  • O "Mini Livro dos Arrependimentos": Um caderninho preto onde deverão escrever os arrependimentos que querem deixar em 2025, para (simbolicamente) queimarem ou apagarem na noite de Ano Novo.

  • Chá de Hortelã-Pimenta: O sabor favorito da protagonista, para beber enquanto leem as noites frias (ou quentes) de dezembro.

  • Um Peão de Xadrez: Uma peça simbólica de madeira, lembrando que o jogo só acaba quando o rei cai.

  • Marcador Estrelado: Um marcador magnético com a constelação da Ursa Menor.

Se "Flores para Algernon" nos partiu o coração com a inevitabilidade do destino, "A Biblioteca da Meia-Noite" chega para colar os pedaços com a teoria do multiverso quântico aplicada à alma.

Sinopse: O Limbo das Escolhas

Nora Seed está cansada. Aos 35 anos, ela sente que falhou em tudo. Falhou como nadadora olímpica, falhou na banda de rock com o irmão, falhou no casamento, falhou até como dona de gato. Demitida e solitária, ela decide tirar a própria vida. Mas, em vez de morrer, Nora acorda numa biblioteca infinita. Os ponteiros do relógio estão travados na meia-noite. A bibliotecária, uma figura conhecida da sua infância, explica a regra: cada livro nas estantes verdes infinitas é uma vida que Nora poderia ter vivido se tivesse feito uma escolha diferente. E se ela não tivesse desistido da natação? E se tivesse casado com o ex-noivo? E se tivesse ido para a Austrália? Nora ganha a oportunidade de "experimentar" essas vidas. Ela salta de livro em livro, tentando encontrar a vida perfeita onde não sinta dor. Mas, como logo descobrimos, a vida perfeita é um conceito traiçoeiro.

Por Que Ler em Dezembro?

Este é o livro definitivo para o Burnout moderno.

  1. O Peso do Arrependimento: Todos nós carregamos o nosso próprio "Livro dos Arrependimentos". Matt Haig (que escreve abertamente sobre a sua luta contra a depressão) ensina-nos a olhar para esse livro e perceber que a maioria dos nossos arrependimentos é baseada em mentiras que contamos a nós mesmos.

  2. A Pressão do Sucesso: Nora experimenta vidas de extremo sucesso (estrela do rock, medalhista olímpica) e descobre o vazio que existe no topo. É uma vacina necessária contra a cultura de comparação das redes sociais.

  3. A Esperança: Diferente do mês anterior, este livro não quer destruir-vos. Ele quer salvar-vos. É uma fábula moderna sobre aceitação radical.

O Convite: Vamos Escolher Viver

Enquanto ainda estamos a processar o destino de Charlie Gordon (e vamos chorar juntos no Zoom neste fim de semana, prometo), convido-vos a limpar as lágrimas e entrar na Biblioteca. O Mês 12 não é sobre crítica literária complexa ou prosa difícil. É sobre cura. É sobre terminar o ano e olhar para 2026 com uma perspectiva mais gentil sobre os nossos próprios fracassos.

As inscrições abrem na segunda-feira. O Grupo "O Livro dos Arrependimentos" será o primeiro a encher, pois, sejamos honestos, todos temos muito para partilhar lá. Venham descobrir qual é a vossa melhor vida.

A biblioteca está aberta.

Flores para Algernon é o escolhido do clube do livro no mês 11

Limpem o glitter dos olhos e guardem os vestidos de seda verde. O Mês 10 do Clube do Livro Post Literal, onde vivemos a vida escandalosa de "Os Sete Maridos de Evelyn Hugo", chegou ao fim. E que final. O debate sobre o plot twist envolvendo o pai da jornalista Monique Grant quase derrubou nossos servidores. A comunidade ficou dividida entre o fascínio pela força inabalável de Evelyn e o horror pelas suas escolhas morais. No nosso encontro de encerramento, o consenso foi agridoce: Evelyn Hugo nos ensinou que o carisma é uma arma, e que a verdade, muitas vezes, é o preço que pagamos para sermos lendas. Foi divertido, foi pop, foi intenso.

Mas, como acontece depois de toda grande festa regada a champanhe, veio a ressaca existencial. A comunidade do Post Literal acordou pedindo substância. Chega de fachadas bonitas. Queremos olhar para dentro. Queremos discutir o que significa ser humano quando despimos todas as máscaras sociais.

A Votação: O Triunfo da Emoção sobre a Máquina

A enquete para o Mês 11 foi uma batalha de gigantes da Ficção Científica. De um lado, óperas espaciais cheias de naves e lasers; do outro, a ficção especulativa focada na psicologia ("Soft Sci-Fi"). A comunidade escolheu a dor. Com 72% dos votos, vocês decidiram que é hora de ler o clássico que tem feito leitores soluçarem desde 1966.

Preparem os lenços (muitos lenços). O livro do Mês 11 é: "Flores para Algernon" (Flowers for Algernon), de Daniel Keyes.

A Logística: Bem-vindos ao Experimento Beekman

Para mergulhar na mente de Charlie Gordon, abandonamos a estrutura de "fofoca" do mês anterior e adotamos uma estética de Relatório Científico. Os grupos de WhatsApp foram renomeados para refletir as fases cognitivas do protagonista e o ambiente clínico do livro:

  1. Grupo "A Padaria Donner": Focado na inocência, na inteligência emocional e nas relações de trabalho antes da cirurgia.

  2. Grupo "O Labirinto de Algernon": Para discutir a ética da ciência, testes em animais e o paralelo entre o homem e o rato.

  3. Grupo "QI 185": O grupo dos teóricos, focado em filosofia, na arrogância intelectual e na solidão do gênio.

  4. Grupo "Relatório de Progresso": Focado exclusivamente na análise da evolução (e involução) da escrita e gramática do personagem ao longo do livro.

O ritmo de leitura será peculiar. O livro é escrito em formato de diário (Relatórios de Progresso). A leitura é fluida, mas o impacto emocional obriga a pausas frequentes para respirar. Nossa meta será acompanhar as datas dos relatórios de Charlie, criando uma sincronia temporal com a narrativa.

O Kit "Experimento Cognitivo"

Para os assinantes da caixa física, o glamour hollywoodiano dá lugar a uma estética minimalista e clínica:

  • Caneta Tinteiro "Rorschach": Uma caneta de ponta fina para vocês escreverem seus próprios relatórios, acompanhada de um cartão com uma mancha de tinta para interpretação.

  • Labirinto de Bolso: Um pequeno jogo físico de destreza, simbolizando a corrida de Algernon.

  • Flores Secas Prensadas: Um pequeno arranjo melancólico, protegido em plástico, para marcar as páginas mais tristes.

  • O "Teste de QI": Um livreto com quebra-cabeças lógicos para desafiar o cérebro antes da leitura.

Sinopse: Eu Quero Ser Inteligente

Charlie Gordon é um homem de 32 anos com uma deficiência intelectual grave (QI de 68). Ele trabalha numa padaria fazendo serviços de limpeza, onde acredita que seus colegas riem com ele, e não dele. Charlie tem um desejo puro e doloroso: ele quer ser inteligente. Ele quer ler e escrever como as outras pessoas para ter amigos de verdade. Ele é selecionado para um experimento cirúrgico revolucionário que já aumentou artificialmente a inteligência de um rato de laboratório chamado Algernon. A cirurgia é um sucesso. O livro é narrado inteiramente através dos "Relatórios de Progresso" escritos por Charlie. No início, o texto é cheio de erros ortográficos grosseiros, pontuação inexistente e pensamentos simples. À medida que a cirurgia faz efeito, a escrita de Charlie melhora. O vocabulário expande. Ele aprende línguas mortas, matemática avançada, compõe concertos. Ele se torna um gênio, ultrapassando até mesmo os médicos que o criaram. Mas a inteligência traz uma maldição: a consciência. Charlie percebe que as pessoas que ele amava eram cruéis. Ele entende a sua solidão. E, pior de tudo, ele começa a observar o comportamento errático do rato Algernon, percebendo que a ascensão meteórica pode ter uma queda igualmente vertiginosa.

A Técnica: A Escrita que Sangra

O motivo principal da escolha deste livro para o Post Literal é a forma. Daniel Keyes faz algo magistral: ele nos mostra a evolução do personagem apenas pela maneira como ele escreve. Vocês verão a sintaxe ficar complexa e arrogante, e sentirão na pele o medo quando os primeiros erros de ortografia começarem a reaparecer no final. É um dos usos mais brilhantes da narração em primeira pessoa na história da literatura.

Por Que Ler? O Dilema da Felicidade

O Mês 11 vai nos forçar a debater questões desconfortáveis:

  • A ignorância é uma bênção? Charlie era mais feliz quando não entendia a maldade do mundo?

  • Como tratamos as pessoas neurodivergentes na nossa sociedade?

  • A nossa identidade é definida pela nossa inteligência ou pelo nosso coração? A relação de Charlie com o rato Algernon é, surpreendentemente, o vínculo mais humano do livro. Eles são os únicos dois seres da sua espécie no mundo. Preparem-se para se importar profundamente com o destino de um roedor.

O Convite: Entre no Labirinto

Se você achou que O Pintassilgo foi pesado ou que Evelyn Hugo foi dramático, nada vai prepará-lo para a pureza devastadora de Charlie Gordon. Este é um livro que muda a química do cérebro do leitor. Você nunca mais olhará para a inteligência (e para a falta dela) da mesma forma.

As inscrições abrem sexta-feira. O Grupo "A Padaria Donner" é o lugar para quem quer focar na emoção; o Grupo "QI 185" é para quem quer debater a ciência. Escolham com sabedoria, mas saibam: no final, todos nos encontraremos na mesma página, provavelmente com a visão embaçada pelas lágrimas.

P.S.: Por favor, se tiverem oportunidade, coloquem flores no túmulo do Algernon no quintal.

O experimento começa agora.

O Casamento, de Victor Bonini Renova o Whodunit Brasileiro com Cinismo e Precisão Cirúrgica


Existe uma regra não dita na literatura de suspense: quanto mais perfeita a fachada, mais podres são os alicerces. Em "O Casamento", o jovem autor brasileiro Victor Bonini — que carrega a bagagem de jornalista investigativo — não apenas segue essa regra, como a dina
mita.
O cenário é idílico: o Hotel-Fazenda Cardeais, em Joanópolis, interior de São Paulo, reservado para quatro dias de celebração da união entre Diana Miglioni e Plínio Amaral. O que deveria ser um conto de fadas regado a espumante e fotos para o Instagram transforma-se, página a página, em um estudo de caso sobre a hipocrisia da classe média alta e a psicopatia escondida sob véus de noiva.

Esta análise mergulha nas entranhas de uma trama que, embora flerte com o clássico estilo de Agatha Christie (o crime em local isolado, o elenco de suspeitos confinados), respira a modernidade cínica do Brasil contemporâneo. Bonini constrói um thriller que funciona como um relógio suíço banhado em sangue, onde cada peça — da planta "babosa" no jardim à bombinha de asma do noivo  — tem uma função letal.

O Detetive que Não Queria Estar Lá

O condutor dessa jornada não é um policial heroico, mas Conrado Bardelli, apelidado de Lyra. Bardelli é um detetive particular de meia-idade, asmático, cético e, acima de tudo, humano. Ele não está no hotel a trabalho, mas como convidado e amigo de faculdade do pai da noiva, Oscar. Essa escolha narrativa é o primeiro grande acerto de Bonini. Ao colocar o investigador como parte do círculo social, o autor remove a barreira entre "a lei" e "os suspeitos". Bardelli está ali para comer bem, beber vinho e reencontrar velhos amigos, não para isolar cenas de crime.

Sua entrada na trama principal acontece de forma orgânica e relutante. Ele é arrastado para o submundo do evento por Ricardo Gurgel, um empresário rico, arrogante e tio do ex-namorado da noiva. Gurgel, o arquétipo do "homem de bem" com segredos inconfessáveis, contrata Bardelli informalmente no meio do feriado. O motivo? Ele está sendo chantageado por alguém que sabe de seu caso extraconjugal com Vanessa, a irmã do noivo.

A construção de Bardelli é refrescante. Ele falha. Ele é enganado por uma vigarista sensual chamada Carmen. Ele tem sua carteira roubada e seu quarto invadido. Diferente de um Sherlock Holmes onisciente, Bardelli descobre a verdade tropeçando nela, montando o quebra-cabeça com peças que lhe são atiradas na cara. Isso gera empatia imediata. O leitor não se sente inferior ao detetive; sente-se sentado ao lado dele, compartilhando a mesma perplexidade diante do caos.

A Chantagem como Motor da Tensão

Antes mesmo do primeiro cadáver cair, Bonini estabelece um clima de terror psicológico através da subtrama de Gurgel. As mensagens de texto que o empresário recebe são viscerais, vulgares e aterrorizantes: "Eu sei que você come a Vanessa. Filho da puta. Você vai pro inferno".

A habilidade do autor em criar suspense através da tecnologia é notável. O celular não é apenas um acessório; é uma arma. Gurgel é forçado a realizar missões noturnas humilhantes, deixando malas de dinheiro em estradas de terra escuras, sendo observado por uma sombra sem rosto.

Essa primeira metade do livro é uma aula de pacing (ritmo). Bonini intercala a frivolidade dos preparativos do casamento — a escolha dos guardanapos, o nervosismo da noiva, as brigas entre as famílias — com a descida de Gurgel ao inferno. O contraste é brutal. Enquanto os convidados discutem o buffet, Gurgel está sendo esfaqueado nas costas em uma casa abandonada durante uma entrega de resgate que dá errado. O cheiro de perfume de rosas que ele sente no agressor  torna-se um leitmotiv sensorial, uma pista olfativa que assombra o leitor tanto quanto o personagem.

O Elenco de Suspeitos: Uma Fogueira de Vaidades

Para que um mistério funcione, é preciso que todos tenham motivos para matar, ou pelo menos, segredos que valham a pena matar para esconder. O elenco de "O Casamento" é desenhado com precisão sociológica:

  1. A Família da Noiva (Miglioni): Oscar e Edna, pais separados que tentam manter as aparências, falidos, dependendo da generosidade alheia para manter o status.

  2. A Família do Noivo (Amaral): Liderada pelo Tenente-Coronel Demétrio, um militar linha-dura, abusivo e com um passado sombrio na Rota, que despreza o próprio filho, Plínio.

  3. O Triângulo Amoroso Oculto: Diana (a noiva), Plínio (o noivo submisso) e Enzo (o filho de Gurgel e ex-namorado de Diana). A tensão sexual e emocional entre eles é palpável. Enzo é o "genro perfeito" que não foi; Plínio é o "ogro" que a família tolera.

Bonini utiliza esses arquétipos para tecer uma crítica social mordaz. O casamento não é sobre amor; é sobre poder, dinheiro e aparências. Quando a tia rica de Gurgel, Hortência, é encontrada degolada na sala ao lado do altar minutos antes da cerimônia1 a estrutura social desmorona. A cena do crime é descrita com um realismo gráfico que choca: o sangue nas paredes, a cabeça pendendo de lado. Não há glamour na morte aqui. É suja, é rápida e interrompe a festa de forma definitiva.

A Atmosfera de Claustrofobia

Embora o Hotel-Fazenda seja um espaço aberto, Bonini cria uma "sala fechada" psicológica. Com a chegada da polícia e o isolamento dos hóspedes, a tensão explode. Ninguém pode sair. O assassino está entre eles.

A introdução da personagem Carmen — uma golpista que se infiltra na festa e cruza o caminho de Bardelli — adiciona uma camada de caos imprevisível. Ela é o elemento coringa, a "vigarista simpática" que rouba a cena (e o dinheiro de Bardelli), servindo tanto como alívio cômico quanto como catalisadora de pistas cruciais. A interação de gato e rato entre ela e o detetive é um dos pontos altos da narrativa, trazendo uma leveza necessária em meio à carnificina.

Se a primeira metade de "O Casamento" é sobre a construção da tensão, a segunda metade é sobre a demolição das expectativas. O livro sofre uma guinada vertiginosa quando o foco sai da investigação tradicional e mergulha na mente dos verdadeiros culpados. É aqui que Bonini mostra a que veio, subvertendo o tropo da "donzela em perigo".

O Plot Twist: A "Garota Exemplar" Brasileira

A revelação de que Diana, a noiva ansiosa e aparentemente frágil, é a mente mestra por trás da chantagem, dos assassinatos e da manipulação de todos ao seu redor é executada com maestria.

Bonini nos dá pistas desde o início, mas as camufla sob a névoa do preconceito. Vemos Diana chorando, Diana vomitando de nervosismo, Diana sendo a vítima. Mas, ao reavaliar a trama, percebemos a frieza de suas ações. A cena em que ela e Plínio se conhecem, dois anos antes, já prenunciava a dinâmica tóxica: ela manipula a narrativa desde o primeiro encontro na planta babosa.

A relação entre Diana e Plínio é fascinante em sua toxicidade. Plínio não é apenas o noivo bobo; ele é um cúmplice apaixonado e letal, disposto a matar para provar seu amor. A dinâmica deles lembra os grandes casais assassinos da ficção, mas com um toque brasileiro de improviso e desespero financeiro.

O plano era diabólico em sua simplicidade: chantagear Gurgel para conseguir dinheiro e, eventualmente, matá-lo para que a herança fosse para Enzo (o verdadeiro amor/obsessão de Diana). O casamento com Plínio era uma farsa, uma cortina de fumaça.

A Mecânica dos Crimes: O "De Trás pra Frente"

A solução do mistério gira em torno de uma frase enigmática dita pela segunda vítima, a dona do hotel Eunice: "As pessoas estão vendo tudo de trás pra frente".

Bardelli (e o leitor) assume que o assassino estava dentro do salão e saiu. A genialidade da dedução final reside em perceber que o assassino (Diana) estava fora, entrou pela janela (supostamente impossível de abrir, mas aberta por Plínio), cometeu o crime e saiu novamente.

O uso da asma de Plínio como álibi e ferramenta de distração é brilhante. Enquanto todos olhavam para o noivo sufocando no corredor, a noiva estava degolando a juíza de paz na sala ao lado. A imagem de Diana correndo com o vestido de noiva, cobrindo o sangue com a estola, é cinematográfica e perturbadora. É a imagem definitiva da profanação do sagrado: o vestido branco manchado de vermelho, a união selada pela morte.

A Queda de Gurgel e a Justiça Poética

A morte de Ricardo Gurgel, encontrado degolado em um motel barato na Marginal Tietê, fecha o ciclo da tragédia. Ele passou o livro todo tentando proteger sua reputação e seu dinheiro, apenas para morrer sozinho, sujo e falido emocionalmente.

Há uma ironia cruel no destino de Gurgel. Ele contratou detetives incompetentes, demitiu o único homem que poderia salvá-lo (Bardelli) e foi consumido pela própria paranoia. Sua morte não é apenas um ponto de enredo; é a conclusão moral da história. A ganância e a luxúria cobraram seu preço.

Pontos Fortes da Narrativa

  1. A Prosa Ágil: Bonini escreve com frases curtas, diálogos rápidos e ganchos no final de cada capítulo que tornam a leitura compulsiva. O livro tem mais de 500 páginas, mas lê-se como se tivesse 200.

  2. O Cenário Brasileiro: O livro não tenta imitar um thriller americano. Ele abraça o Brasil. Temos a "carteirada" do Tenente-Coronel , o jeitinho brasileiro de resolver problemas, a corrupção policial (o grupo de extermínio mencionado por Vanessa)  e a informalidade das relações.

  3. A Ambiguidade Moral: Quase ninguém é inocente. A madrinha Iara é controladora; Vanessa é amante e cúmplice moral; Enzo é passivo e aceita a traição. Bardelli é o único pilar de moralidade, mas mesmo ele opera nas sombras, usando métodos questionáveis (como subornar a garçonete da padaria).

Crítica: Onde o Livro Tropeça?

Se há um ponto de crítica, talvez seja a complexidade excessiva de alguns planos. A quantidade de coincidências necessárias para que o plano de Diana funcionasse perfeitamente (o timing da asma, ninguém olhar pela janela, a chave perdida) exige uma suspensão de descrença considerável.

Além disso, a subtrama do grupo de extermínio da PM, liderado pelo pai do noivo, embora adicione perigo e explique o medo de Vanessa, às vezes parece pertencer a outro livro, um thriller policial mais urbano, desviando um pouco o foco do mistério central de "quem matou". No entanto, serve para aumentar a aposta e colocar a vida de Bardelli em risco real.

Conclusão: Um Novo Marco no Suspense Nacional

"O Casamento" é, em última análise, uma vitória do gênero no Brasil. Victor Bonini entrega uma trama que não deve nada aos best-sellers internacionais de Harlan Coben ou Gillian Flynn.

A obra é positiva não porque tem um final feliz — longe disso, o final é agridoce, com Diana em um hospital psiquiátrico após tentar suicídio e Enzo tentando recomeçar a vida  —, mas porque é honesta sobre a natureza humana.

O livro nos diz que o mal não é um monstro debaixo da cama; o mal é a noiva sorridente no altar, o empresário de sucesso no jantar beneficente, o médico que largou a faculdade. O mal é, muitas vezes, a pessoa com quem escolhemos passar o resto da vida.

Para os fãs de mistério que buscam uma leitura que prenda a respiração e desafie o intelecto, aceitar o convite para este casamento é mandatório. Só não espere comer o bolo; o gosto metálico de sangue na boca é o único sabor que restará ao final.

Veredito: Uma leitura obrigatória, eletrizante e deliciosamente macabra. Victor Bonini consolida-se como uma voz potente, provando que o crime perfeito pode ter sotaque brasileiro e acontecer logo ali, na Rodovia Fernão Dias.

Clube do livro e a biblioteca da meia noite #12


Estamos nos últimos dias de novembro e o clima nos grupos do Post Literal é de uma melancolia devastadora. Enquanto nos preparamos para o nosso Encontro Final de "Flores para Algernon" (que acontecerá neste primeiro fim de semana de dezembro — preparem o vinho e os lenços, pois a pauta sobre "A Involução de Charlie" promete ser a mais difícil do ano), precisamos olhar para a frente. Dezembro chegou. E com ele, aquela inevitável reflexão de fim de ano: O que eu fiz da minha vida? Que escolhas eu deveria ter feito diferente?

Depois de meses a ler sobre orfanatos góticos, amizades tóxicas em Nápoles, escândalos de Hollywood e tragédias científicas, a comunidade pediu um livro que servisse como um abraço. Não um abraço fácil, mas aquele abraço que te diz: "Está tudo bem ter dúvidas". A votação para o Mês 12 foi temática: "Segundas Chances". Com uma vitória esmagadora, o livro escolhido para encerrar o nosso ano letivo é o bestseller mundial de conforto e filosofia pop:"A Biblioteca da Meia-Noite" (The Midnight Library), de Matt Haig.


A Logística: Uma Leitura para o Fim de Ano

Sabemos que dezembro é caótico. Festas, compras, encerramento de trabalho. Por isso, escolhemos um livro que flui como água. É uma leitura rápida, envolvente e capitular, perfeita para ler entre uma confraternização e outra.

Para este mês especial, os nossos grupos de WhatsApp transformar-se-ão em "Corredores de Possibilidades", batizados com elementos chave da trama:

  1. Grupo "O Livro dos Arrependimentos": Onde discutiremos o passado, o peso do "e se..." e as escolhas que nos assombram.

  2. Grupo "Sra. Elm": O grupo focado na figura do mentor, no jogo de xadrez e na sabedoria acolhedora.

  3. Grupo "A Vida da Glaciologista": Para quem gosta da parte da aventura e das vidas alternativas mais radicais da protagonista.

  4. Grupo "A Raiz": Focado na filosofia, na depressão, na saúde mental e na busca pelo sentido da vida (o grupo mais profundo).

O cronograma será relaxado. Não queremos stress em dezembro. A meta é terminar a leitura antes do Natal, para que o nosso Encontro Final do Ano seja uma celebração da vida (literalmente).

O Kit "Meia-Noite"

Para a última caixa do ano, os assinantes receberão um presente focado na introspeção e no planeamento para o próximo ano:

  • O "Mini Livro dos Arrependimentos": Um caderninho preto onde deverão escrever os arrependimentos que querem deixar em 2025, para (simbolicamente) queimarem ou apagarem na noite de Ano Novo.

  • Chá de Hortelã-Pimenta: O sabor favorito da protagonista, para beber enquanto leem as noites frias (ou quentes) de dezembro.

  • Um Peão de Xadrez: Uma peça simbólica de madeira, lembrando que o jogo só acaba quando o rei cai.

  • Marcador Estrelado: Um marcador magnético com a constelação da Ursa Menor.

Se "Flores para Algernon" nos partiu o coração com a inevitabilidade do destino, "A Biblioteca da Meia-Noite" chega para colar os pedaços com a teoria do multiverso quântico aplicada à alma.

Sinopse: O Limbo das Escolhas

Nora Seed está cansada. Aos 35 anos, ela sente que falhou em tudo. Falhou como nadadora olímpica, falhou na banda de rock com o irmão, falhou no casamento, falhou até como dona de gato. Demitida e solitária, ela decide tirar a própria vida. Mas, em vez de morrer, Nora acorda numa biblioteca infinita. Os ponteiros do relógio estão travados na meia-noite. A bibliotecária, uma figura conhecida da sua infância, explica a regra: cada livro nas estantes verdes infinitas é uma vida que Nora poderia ter vivido se tivesse feito uma escolha diferente. E se ela não tivesse desistido da natação? E se tivesse casado com o ex-noivo? E se tivesse ido para a Austrália? Nora ganha a oportunidade de "experimentar" essas vidas. Ela salta de livro em livro, tentando encontrar a vida perfeita onde não sinta dor. Mas, como logo descobrimos, a vida perfeita é um conceito traiçoeiro.

Por Que Ler em Dezembro?

Este é o livro definitivo para o Burnout moderno.

  1. O Peso do Arrependimento: Todos nós carregamos o nosso próprio "Livro dos Arrependimentos". Matt Haig (que escreve abertamente sobre a sua luta contra a depressão) ensina-nos a olhar para esse livro e perceber que a maioria dos nossos arrependimentos é baseada em mentiras que contamos a nós mesmos.

  2. A Pressão do Sucesso: Nora experimenta vidas de extremo sucesso (estrela do rock, medalhista olímpica) e descobre o vazio que existe no topo. É uma vacina necessária contra a cultura de comparação das redes sociais.

  3. A Esperança: Diferente do mês anterior, este livro não quer destruir-vos. Ele quer salvar-vos. É uma fábula moderna sobre aceitação radical.

O Convite: Vamos Escolher Viver

Enquanto ainda estamos a processar o destino de Charlie Gordon (e vamos chorar juntos no Zoom neste fim de semana, prometo), convido-vos a limpar as lágrimas e entrar na Biblioteca. O Mês 12 não é sobre crítica literária complexa ou prosa difícil. É sobre cura. É sobre terminar o ano e olhar para 2026 com uma perspectiva mais gentil sobre os nossos próprios fracassos.

As inscrições abrem na segunda-feira. O Grupo "O Livro dos Arrependimentos" será o primeiro a encher, pois, sejamos honestos, todos temos muito para partilhar lá. Venham descobrir qual é a vossa melhor vida.

A biblioteca está aberta.

Flores para Algernon é o escolhido do clube do livro no mês 11

Limpem o glitter dos olhos e guardem os vestidos de seda verde. O Mês 10 do Clube do Livro Post Literal, onde vivemos a vida escandalosa de "Os Sete Maridos de Evelyn Hugo", chegou ao fim. E que final. O debate sobre o plot twist envolvendo o pai da jornalista Monique Grant quase derrubou nossos servidores. A comunidade ficou dividida entre o fascínio pela força inabalável de Evelyn e o horror pelas suas escolhas morais. No nosso encontro de encerramento, o consenso foi agridoce: Evelyn Hugo nos ensinou que o carisma é uma arma, e que a verdade, muitas vezes, é o preço que pagamos para sermos lendas. Foi divertido, foi pop, foi intenso.

Mas, como acontece depois de toda grande festa regada a champanhe, veio a ressaca existencial. A comunidade do Post Literal acordou pedindo substância. Chega de fachadas bonitas. Queremos olhar para dentro. Queremos discutir o que significa ser humano quando despimos todas as máscaras sociais.

A Votação: O Triunfo da Emoção sobre a Máquina

A enquete para o Mês 11 foi uma batalha de gigantes da Ficção Científica. De um lado, óperas espaciais cheias de naves e lasers; do outro, a ficção especulativa focada na psicologia ("Soft Sci-Fi"). A comunidade escolheu a dor. Com 72% dos votos, vocês decidiram que é hora de ler o clássico que tem feito leitores soluçarem desde 1966.

Preparem os lenços (muitos lenços). O livro do Mês 11 é: "Flores para Algernon" (Flowers for Algernon), de Daniel Keyes.

A Logística: Bem-vindos ao Experimento Beekman

Para mergulhar na mente de Charlie Gordon, abandonamos a estrutura de "fofoca" do mês anterior e adotamos uma estética de Relatório Científico. Os grupos de WhatsApp foram renomeados para refletir as fases cognitivas do protagonista e o ambiente clínico do livro:

  1. Grupo "A Padaria Donner": Focado na inocência, na inteligência emocional e nas relações de trabalho antes da cirurgia.

  2. Grupo "O Labirinto de Algernon": Para discutir a ética da ciência, testes em animais e o paralelo entre o homem e o rato.

  3. Grupo "QI 185": O grupo dos teóricos, focado em filosofia, na arrogância intelectual e na solidão do gênio.

  4. Grupo "Relatório de Progresso": Focado exclusivamente na análise da evolução (e involução) da escrita e gramática do personagem ao longo do livro.

O ritmo de leitura será peculiar. O livro é escrito em formato de diário (Relatórios de Progresso). A leitura é fluida, mas o impacto emocional obriga a pausas frequentes para respirar. Nossa meta será acompanhar as datas dos relatórios de Charlie, criando uma sincronia temporal com a narrativa.

O Kit "Experimento Cognitivo"

Para os assinantes da caixa física, o glamour hollywoodiano dá lugar a uma estética minimalista e clínica:

  • Caneta Tinteiro "Rorschach": Uma caneta de ponta fina para vocês escreverem seus próprios relatórios, acompanhada de um cartão com uma mancha de tinta para interpretação.

  • Labirinto de Bolso: Um pequeno jogo físico de destreza, simbolizando a corrida de Algernon.

  • Flores Secas Prensadas: Um pequeno arranjo melancólico, protegido em plástico, para marcar as páginas mais tristes.

  • O "Teste de QI": Um livreto com quebra-cabeças lógicos para desafiar o cérebro antes da leitura.

Sinopse: Eu Quero Ser Inteligente

Charlie Gordon é um homem de 32 anos com uma deficiência intelectual grave (QI de 68). Ele trabalha numa padaria fazendo serviços de limpeza, onde acredita que seus colegas riem com ele, e não dele. Charlie tem um desejo puro e doloroso: ele quer ser inteligente. Ele quer ler e escrever como as outras pessoas para ter amigos de verdade. Ele é selecionado para um experimento cirúrgico revolucionário que já aumentou artificialmente a inteligência de um rato de laboratório chamado Algernon. A cirurgia é um sucesso. O livro é narrado inteiramente através dos "Relatórios de Progresso" escritos por Charlie. No início, o texto é cheio de erros ortográficos grosseiros, pontuação inexistente e pensamentos simples. À medida que a cirurgia faz efeito, a escrita de Charlie melhora. O vocabulário expande. Ele aprende línguas mortas, matemática avançada, compõe concertos. Ele se torna um gênio, ultrapassando até mesmo os médicos que o criaram. Mas a inteligência traz uma maldição: a consciência. Charlie percebe que as pessoas que ele amava eram cruéis. Ele entende a sua solidão. E, pior de tudo, ele começa a observar o comportamento errático do rato Algernon, percebendo que a ascensão meteórica pode ter uma queda igualmente vertiginosa.

A Técnica: A Escrita que Sangra

O motivo principal da escolha deste livro para o Post Literal é a forma. Daniel Keyes faz algo magistral: ele nos mostra a evolução do personagem apenas pela maneira como ele escreve. Vocês verão a sintaxe ficar complexa e arrogante, e sentirão na pele o medo quando os primeiros erros de ortografia começarem a reaparecer no final. É um dos usos mais brilhantes da narração em primeira pessoa na história da literatura.

Por Que Ler? O Dilema da Felicidade

O Mês 11 vai nos forçar a debater questões desconfortáveis:

  • A ignorância é uma bênção? Charlie era mais feliz quando não entendia a maldade do mundo?

  • Como tratamos as pessoas neurodivergentes na nossa sociedade?

  • A nossa identidade é definida pela nossa inteligência ou pelo nosso coração? A relação de Charlie com o rato Algernon é, surpreendentemente, o vínculo mais humano do livro. Eles são os únicos dois seres da sua espécie no mundo. Preparem-se para se importar profundamente com o destino de um roedor.

O Convite: Entre no Labirinto

Se você achou que O Pintassilgo foi pesado ou que Evelyn Hugo foi dramático, nada vai prepará-lo para a pureza devastadora de Charlie Gordon. Este é um livro que muda a química do cérebro do leitor. Você nunca mais olhará para a inteligência (e para a falta dela) da mesma forma.

As inscrições abrem sexta-feira. O Grupo "A Padaria Donner" é o lugar para quem quer focar na emoção; o Grupo "QI 185" é para quem quer debater a ciência. Escolham com sabedoria, mas saibam: no final, todos nos encontraremos na mesma página, provavelmente com a visão embaçada pelas lágrimas.

P.S.: Por favor, se tiverem oportunidade, coloquem flores no túmulo do Algernon no quintal.

O experimento começa agora.

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