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Veronica Botelho lança “Inverno”, uma reflexão sobre os relacionamentos que moldam a personalidade a partir de uma família inter-racial

Acervo Pessoal / Divulgação / Comtato

Fruto de uma relação interracial, mas criada unicamente pela parte branca da família, Isabel é uma mulher em busca de sua própria identidade. A piauiense Veronica Botelho (@verobotelho) apresenta Inverno” (e-Galáxia, 178 págs.), seu novo livro de “As Estações”, série não sequencial que começou com o romance “Verão”, publicado em 2023. 


O racismo desde o ambiente familiar é o ponto de partida da história de Isabel. Longe de ser apenas um artifício ficcional, o preconceito em famílias inter-raciais é uma realidade presente em muitas casas brasileiras. A psicóloga social Lia Vainer Schucman, especialista em estudos de branquitude, investiga as tensões entre cor e amor a partir da ideologia do embranquecimento que aponta branco como “melhor” ou superior e determina também a hierarquia do indíviduo negro no ambiente familiar.


Em “Inverno”, Isabel sente na pele essas tensões. Na relação com avó branca, por exemplo, que condiciona o afeto que destina a garota ao “apesar” de sua cor. Mesmo na interação Madalena, mãe amorosa de Isabel, o racismo aparece em pequenos elementos do cotidiano, como a própria defesa da avó racista.


Apesar de ser uma história totalmente independente, “Inverno” se passa no mesmo universo de “Verão”. Rebecca, protagonista do primeiro livro, é personagem também na nova história — a amiga próxima de Isabel desempenha um papel central no processo de autodescoberta e os conflitos resultantes desse relacionamento. 



Comtato / Divulgação / Acervo Pessoal


Uma mulher a procura de si


Isabel cresceu com a família materna em Maceió (AL), em um lar marcado por tensões raciais e silêncios que desvalorizam seu esforço em se encaixar. Criada pela mãe Madalena, sem saber quase nada sobre a origem do pai, a única referência que tem do mesmo é o relato de um abandono paterno, enfatizado constantemente pelo racismo da própria avó.


A personagem inicia sua jornada de autodescoberta a partir da revelação de cartas escritas pelo pai que contradizem a narrativa de sua origem que a acompanha desde o nascimento. A jornada de se aproximar do pai Renato e, principalmente, da tia Clotilde, transforma-se em um mergulho em suas raízes e na descoberta de sua ancestralidade, que foi sempre negada ao viver em um lar predominantemente branco. 


Nesse processo, Isabel se muda para Aracaju (SE) e posteriormente para a Itália, onde, na companhia de Rebecca e outras amigas, busca entender quem realmente é, enquanto lida com a solidão, o peso da expectativa familiar e a descoberta de sua sexualidade. 


Por vezes a solidão é o principal antagonista de Isabel, uma personagem com dificuldade de expressar-se livremente e entender seus próprios sentimentos. Nesse contexto, a personagem se envolve com Regina, uma mulher tão fascinante quanto complicada que interfere diretamente no amadurecimento de Isabel e também nas relações que ela estabelece a partir disso. 


A tensão dos relacionamentos familiares, de amor e amizade estão no centro da história de “Inverno”. Passando por inúmeros episódios onde o afeto se torna uma ferramenta abusiva e limitadora, Isabel precisa entender qual é o seu próprio caminho independente das pessoas que a cercam.


Da psicologia à escrita: conheça Veronica Botelho


Natural de Floriano, no Piauí, Veronica Botelho é licenciada em Psicologia Social e das Organizações pela Universidade de Florença,  e atualmente cursa mestrado em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental no King’s College London. Seu primeiro livro de ensaios, “Meias Verdades”, foi publicado em 2016. A autora viveu no Brasil, Costa do Marfim, Inglaterra, Bolívia, Argentina, Espanha, Itália e Catalunha, onde teve experiência na atenção e inclusão de pessoas portadoras de diferentes transtornos mentais, e voluntariado com pessoas  refugiadas. 


Os estudos de Veronica sempre foram direcionados a entender as diferenças, inicialmente com foco no universo acadêmico. “O que escrevia, estudava, tinha um único intuito: como podemos conviver pacificamente aceitando as nossas diferenças”, explica. O primeiro livro da autora, “Meias Verdades” é um compilado de crônicas que refletem sobre o tempo, amor, racismo, xenofobia e ética política.


A autora lembra de sempre ter escrito muito para si mesma. “Minha avó dizia que eu escrevi a minha primeira poesia quando tinha 4 anos”, recorda-se. Ela passou por agendas e diários, chegou a escrever peças de teatro na escola, além de participar de um jornal escolar. Morando fora, o hábito de enviar cartas para família e amigos também compôs sua experiência na escrita.


Desde a escrita de “Verão”, sua primeira incursão pela ficção, Veronica já sabia que faria uma tetralogia. “As histórias se interconectam. São histórias que se encaixam, sem serem sequenciais”, explica, apontando que suas personagens também têm muito em comum com suas próprias experiências. Como Rebecca, protagonista de “Verão”, a autora perdeu o pai na infância. Aborda também sua experiência de imigração, “bilinguismo”, retratada em “Inverno”.


Do Inverno ao florescer de Isabel


Frisando a importância das amizades e das conexões, Veronica acredita que “Inverno” tem como mensagem os relacionamentos que nos moldam e como o passado faz parte da construção do presente. Com seu estilo de escrita intimista e reflexivo, a autora entrega uma narrativa fragmentada que se usa da não linearidade para transitar em diferentes tempos e espaços. 


Como primeiro romance,  a escrita de “Verão” começou quase como uma brincadeira, sugestão do parceiro da autora. “Escrevê-lo foi uma das experiências mais fascinantes da minha vida”, conta Veronica, que chegava a passar sete ou oito horas escrevendo sem parar. “Entrava em estado de flow. Aquele hic et nunc onde os insights surgem, se interconectam, e a arte nasce.”


A autora descreve esse estado como hipnótico e destaca a importância de respirar literatura nesse processo: “Quando não estava escrevendo o livro, estava lendo”. Veronica levou apenas dois meses e meio para escrever “Verão”, durante o inverno na cidade província de Girona na Espanha, parte da comunidade autônoma da Catalunha. A escrita de “Inverno” é uma curiosa resposta ao primeiro livro, que escreveu durante o verão na mesma cidade.


Veronica conta que suas influências são diversas, seja na arte ou nas conversas que escuta dentro de ônibus, bares, etc., em seu dia a dia. Na literatura, reconhece que sua iniciação foi marcada por homens brancos. “Luis Fernando Veríssimo por muitos anos foi o meu maior ídolo. Li praticamente tudo o que ele publicou”, comenta, citando outros nomes de referência, como Nelson Rodrigues e Caio Fernando de Abreu. Mas a autora também pontua a importância de escritoras como Clarice Lispector, Rosamunde Pilcher e Isabel Allende.


Atualmente consumindo bastante literatura contemporânea brasileira, a escritora destaca autores como Giovana Madalosso, Jeovanna Vieira, Carla Madeira, Julia Dantas, Tiago Ferro e Nara Vidal em sua prateleira. A experiência no exterior também marcou sua formação com a descoberta de autoras como Toni Morrison, Maya Angelou e Chimamanda Adichie.



Confira um trecho do livro:

“Naquele instante, Isabel se viu como o piso da sua avó, os tecidos da sua tia, e aquele vaso de Florença: pedaços de muitos lugares, algumas cicatrizes que eram apenas marcas que a tinham feito mais forte, e outras que se abriam em carne viva, como as goteiras do teto da casa de sua mãe.”


Adquira “Inverno ” pelo site da editora:

https://e-galaxia.com.br/produto/inverno/ 


Escritor mineiro Breno Ribeiro retrata em “thriller familiar” as dores da perda de um filho em meio à desigualdade social


Duas famílias distintas. Uma de classe média alta e outra de periferia. Em uma delas, um casal de elite com seus dois filhos, a típica família perfeita para os que veem de fora. Na outra, um casal de periferia que luta para conseguir pagar os medicamentos da mãe de um deles. Este é o ponto de partida do breve romance “cicatriz” (112 págs.), do escritor mineiro Breno Ribeiro, recém-lançado pela Caravana Editorial. 


Atualmente vivendo no Rio de Janeiro, o autor é formado em Letras e professor de Língua Inglesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado em Estudos da Linguagem na PUC-Rio e um curso livre de Formação em Roteiro pela Academia Internacional de Cinema do Rio. Breno traz em seu segundo romance uma história que reúne três dos mais imponentes sentimentos humanos: a justiça, a vingança e a culpa. Através da história de poucos mas inesquecíveis personagens, retrata um quadro não incomum em nossa sociedade. 


Estruturada em três partes,“cicatriz” acompanha duas histórias paralelas: de um lado, a família de Júlia e Humberto, com seus filhos Ana Lúcia e Pedro. De classe alta, a família passa por desentendimentos de ordem sociopolítica: o pai, de extrema-direita, não aceita a filha lésbica, enquanto o filho, recém admitido na universidade, passa a ser o foco de atenção do casal. Do outro lado, Pietro e Fabiana são um casal de periferia que esperam um filho enquanto precisam lidar com a doença da mãe de Pietro. Diante da gravidade do caso, Pietro se vê praticando pequenos crimes para conseguir pagar os remédios e a internação da mãe. 


Perante os dilemas éticos que vivem as personagens, “cicatriz” traça um panorama bastante complexo do sistema judiciário brasileiro, em que justiça nem sempre significa reparação dos danos causados e a prisão não é capaz sequer de aplacar os desejos de vingança das classes privilegiadas. Segundo Breno, o senso de justiça sempre esteve presente em sua vida. Certa vez, lendo uma notícia sobre um crime grave cometido contra uma família, o autor se deparou com uma advogada que havia trabalhado no caso se utilizando do conceito de justiça restaurativa. 


“Pensei muito sobre o conceito de justiça restaurativa e em como ele requer certa maturidade das partes envolvidas. Pensei também que, a depender do caso, isso não seria possível, esse perdão, essa quase elevação espiritual do absolver. Então me veio a vontade de escrever sobre isso, sobre essa impossibilidade do perdão e, por outro lado, a fervura da culpa”, completa.


Diante deste cenário que oscila entre sofrimentos, lágrimas, traumas e cicatrizes, Breno apresenta importantes reflexões, como na página 89: “Um mundo melhor não é um mundo sem crime, mãe, isso é uma utopia. Um mundo melhor é um mundo onde as pessoas cometam erros e possam ter a chance de crescer a partir deles. É nisso que eu acredito”.


Do thriller policial para um quase “thriller familiar”: as faces da escrita de Breno Ribeiro


Influenciado por autores clássicos como Machado de Assis, Mary Shelley e Gustave Flaubert, Breno nasceu em Juiz de Fora (MG), cresceu na cidade de Iguaba Grande, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Hoje, com 35 anos, mora no Rio, e leciona Língua Inglesa pela UFRJ. Em 2021, em plena pandemia, lançou seu primeiro romance em formato digital, o thriller policial “O Príncipe de Hugo Porto”.


Em seu segundo romance, “cicatriz”, o autor percebe os passos de amadurecimento em relação à sua carreira e vê a mudança de gênero literário como um motor para sua criatividade. “Esse livro representa um amadurecimento da minha escrita em relação ao meu primeiro romance, talvez pela mudança de gênero. A escrita desse livro me transformou. De certa forma, me permiti arriscar mais literariamente a tocar em pontos que não necessariamente fazem parte da minha experiência de vida”, analisa. A obra é fortemente influenciada pela literatura nacional contemporânea, por nomes como Andrea Del Fuego, Natalia Timerman e Jeferson Tenório, que trazem ambientes mais urbanos para o centro da narrativa.


Após “cicatriz”, o autor já pensa em escrever seu próximo livro, que vai se chamar “Limbo”, que conta a história de um casal que se separa, mas, por questões presentes no capitalismo tardio, são obrigados a morar juntos por um tempo até cada um ir para o seu canto. “O romance narrará os dois meses entre o término e a mudança de casas, quando cada um segue seu rumo”, revela. 



Confira alguns trechos de “Cicatriz”:

Talvez tenha sido na terceira via da favela que encontrou Fabiana – ela, assim, como ele, não se encaixava em nenhum dos estereótipos da comunidade.” (pág. 27)

“Não o abandonou porque sabia que ele era um homem bom: tudo aquilo que porventura a atingia eram os estilhaços do autoflagelo de Pietro.” (pág. 58)

Como no mito grego, Pietro estava eternamente condenado a empurrar sua culpa para o topo da absolvição apenas para vê-la rolar para baixo sempre que ele se distraía. (pág. 68)

“Um mundo melhor não é um mundo sem crime, mãe, isso é uma utopia. Um mundo melhor é um mundo onde as pessoas cometam erros e possam ter a chance de crescer a partir deles. É nisso que eu acredito. (pág. 89)


Compre o livro através do link:
https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cicatriz/ 

“Diário de Amélia”, livro fruto da Aldeia Literária, pretende ser um farol para adolescentes que cresceram em ambientes tóxicos

Foto: Comtato / Acervo Pessoal / Divulgação

A personagem-título de “O Diário de Amélia” (109 pág), mais recente livro da escritora e empreendedora paulista Camila Veloso, compartilha com outras jovens da mesma idade os dramas dessa fase da vida, como a escolha profissional, interesses amorosos e questões familiares. Antenada com o linguajar, as práticas e dilemas dos adolescentes dessa nova geração, a autora apresenta uma obra que funciona também como guia prático para problemas do mundo adulto e rota de fuga de ambientes tóxicos. 


A obra é fruto da Aldeia Literária, negócio idealizado pela autora, que fomenta a formação de uma nova geração de escritores, utilizando a Cohort Learning Method, uma metodologia a base de mentorias e jornadas coletivas de aprendizado. Os encontros online oferecem acompanhamento do processo criativo e conversas com especialistas na área literária. Já passaram pelo processo cerca de 400 pessoas de novembro de 2023 até agora. 



Por dentro do “Diário de Amélia”


Amélia é uma garota recém saída da adolescência que divide o dia a dia com amigos do cursinho pré-vestibular. O livro inicia com o relato da jovem sobre um crush, uma paixonite, por um dos rapazes desse grupo. Há, no entanto, uma série de barreiras que impedem o sonho de virar realidade. Entre elas a amiga da protagonista, que está de olho no mesmo carinha, as diferenças sociais entre ambos, Amélia é da classe média baixa, o rapaz é riquíssimo, e ainda, a prática religiosa dos pais de moça que a proíbe de namorar alguém de fora da comunidade a que pertencem. 


Movida pelo desejo juvenil de dar passos para fora dessa redoma em que era mantida, a protagonista coloca-se em uma série de situações às quais não tinha sido preparada para lidar e pouco a pouco vai descobrir, com auxílio de amigos que faz nessa jornada, como enfrentar os problemas do mundo real. “É por isso que a personagem principal ouve sobre como tomar vacina de HPV no SUS, como abrir um MEI, e como sair de casa através das universidades públicas”, explica a autora. 


Camila confessa que há muito da própria experiência no livro. “Nasci num lar ultraconservador e sendo artista e mulher sempre recebi uma dose extra de repressão, portanto era um instinto natural me rebelar, e trouxe muito disso para a minha arte”, revela. A escrita começou cedo, aos 11 anos, e com o intuito de transformar as dores do mundo exterior em prosa e poesia. “Escrever me dava privacidade porque as pessoas tinham preguiça de ler (descobri isso cedo) e eu podia colocar no papel o que quisesse”.


Antes de “O Diário de Amélia”, Camila publicou “Traumas de uma Grande Gostosa”, “Cartas ao Sol” e “Encontrei um Pote com Tempo Dentro”.  Todos voltados para o público juvenil,  publicados de forma independente e disponíveis para compra online no site Amazon. A obra mais recente conta com avaliações positivas e comentários elogiosos na loja virtual.  Um dos leitores escreveu: “Nesse mundo doido que vivemos, conhecer realidades que podem estar tão próximas da gente nos permite entender que precisamos estar prontos a nos ajudar”, e completa: “Esse livro nos ajuda a ter empatia, mas pode ser um refúgio e um pequeno guia para que as pessoas consigam ver uma luz numa situação difícil”. 


A autora conta que a obra demorou dois anos para ser finalizada pois era preciso encontrar o tom certo para o livro e ao mesmo cuidar dos próprios traumas relacionados às experiências vivenciadas numa educação extremamente rígida. Ainda assim, assume que escreveu uma história divertida, apesar do tema pesado. “Não queria que o livro fosse sobre ódio, mas sobre acolhimento”. 


Trecho da obra “O Diário de Amélia”: 


“Olho a rua, e todas aquelas pessoas andando, e vivendo seu próprio caos, e talvez a vida de todo mundo seja assim. Ou a de mais alguém, pois, se tenho o apoio de tantas mulheres, se todas elas estavam com as armaduras prontas quando precisei de ajuda, é porque não sou a única.”


Adquira o novo livro de Camila Veloso pelo site da Amazon:

“O Diário de Amélia”

Rodrigo Cabral lança “refinaria”, livro que constrói geografia íntima a partir das transformações das paisagens do Rio de Janeiro



“As imagens de Rodrigo não têm obrigação com nitidez, pois são elas, também, banhadas pelo líquido que as leva à vista. Vista essa que, marejada, antecede o processo de criação: o autor as vê banhadas e as conduz a um novo destino ondulado.” 

Trecho do prefácio da escritora Júlia Vita 


“Refinaria” (120 págs.), estreia literária do jornalista e editor fluminense Rodrigo Cabral (@rodrigocabral000), é composto por poemas que tentam apreender o processo de transformação da paisagem geográfica da Região dos Lagos (RJ) e da própria memória. Lançada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2024, a obra, publicada pela Sophia Editora (@sophiaeditora), conta com ilustrações do artista visual Rapha Ferreira.  A orelha foi assinada pelo escritor Thiago Freitas e o prefácio é da autoria da editora e escritora Júlia Vita, que também trabalhou na edição do livro.

Na obra, a poesia é utilizada como ferramenta para explorar cenários em constante mutação, retratando, a partir de uma linguagem poética original, a relação do autor com o espaço onde cresceu, no estado do Rio de Janeiro: Cabo Frio, uma das cidades banhadas pela Laguna de Araruama, a maior do mundo em hipersalinidade permanente. 

“Ouvi o que esses cenários diziam sobre minhas memórias, sempre borradas e fragmentadas”, comenta. “Refinaria” se trata dos processos contínuos de transformação e refino, tanto no território como na própria vida e no ato de escrever.  Segundo o autor, no poema isso se transforma em outro espaço, em outro tempo. E o texto é reescrito de acordo com as percepções de quem lê. Ele reflete: “O que me moveu, primeiro, foi me reconhecer como um poeta da restinga. Ou um poeta da orla, como escreve a Júlia Vita no prefácio.”

A figueira centenária da rua da infância de Rodrigo Cabral,, por exemplo, torna-se inspiração porque é um dos poucos elementos que permanecem em meio ao que se transforma. Os poemas se movem entre temas como a relação do autor com o pai, a paisagem local e as dinâmicas internas da memória. "O livro também trata da própria escrita, ao texto constantemente revisto, refeito e relido, em um processo contínuo de busca por significado", revela o escritor.

A tentativa de apreender o que está lá fora é um dos cernes da obra, mas isso não significa tentar captar a realidade exatamente como ela é. A proposta de Rodrigo é ir muito além disso. Sua intenção não é buscar compreender, tampouco simplesmente  decifrar, mas, sim, contemplar os processos de transformação de um território, de um indivíduo, de uma escrita. “Quero analisar com a ponta dos dedos aquilo que não evapora, aquilo que permanece”, reflete.

Os versos do livro equilibram a linguagem regional com uma universalidade poética, permitindo que os leitores encontrem pontos de conexão tanto com o cenário local quanto com as emoções e vivências humanas. Além disso, a obra faz referência à formação geológica da camada pré-sal e traça paralelos com a história da cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes, cidade natal do autor.


Rodrigo Cabral registra a refinaria

Rodrigo Cabral, 34 anos, nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) e cresceu em Cabo Frio (RJ), onde fundou a Sophia Editora. Sua escrita é fortemente influenciada pelas paisagens da Região dos Lagos e pelas memórias de infância, temas centrais de sua obra poética.

Em 2024, Rodrigo foi segundo colocado no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria Contos e finalista na categoria Poesia. No ano anterior, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa e, em 2022, foi também finalista do Prêmio Off Flip na categoria Poesia. Como editor, tem se dedicado a preservar e divulgar a história, a memória e o patrimônio cultural da região. “Refinaria” é seu primeiro livro publicado.

Sua principal referência para a escrita de sua obra de estreia foi  “Água-mãe”, livro do escritor paraibano José Lins do Rego, o primeiro romance do autor a ser ambientado fora da região Nordeste. “O escritor narra as paisagens daquela Cabo Frio com imagens arrebatadora, que envolvem as casuarinas, a figueira, a fantasmagórica casa azul, as barcaças de sal deslizando pela água e a Lagoa de Araruama, muitas vezes referenciada apenas como Araruama, espécie de entidade”, enumera. 

Além dele, destacam-se Olga Savary e Victorino Carriço, autores das duas epígrafes presentes no livro, e influência indireta de leituras de autores como Roberto Piva, Claudio Willer, Lawrence Ferlinghetti, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Ana Martins Marques, Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade. 

Perguntado sobre projetos futuros, Rodrigo disse que pretende continuar a atividade de refinaria que deu origem à sua primeira publicação: “ Meu desejo é escrever.”



Confira um trecho do livro:


a pulsação d’água 

contrai e expande 

o que a palavra refina

nos batimentos 

das remingtons 

debulhando botões

verdejando espasmos

na restinga das paráfrases

dos átrios e ventrículos 

para os vasos de alta salinidade 

onde ovos chocam

onde vogais e camarões 

ruborizam

onde aspas rebentam

no íntimo dos glóbulos 

n’aorta das sílabas 

enquanto o hífen-cateter 

da célula-mater

mantém o ritmo da criação

em gênese: arritmia” 


Adquira "refinaria" no site da Sophia Editora:

https://www.sophiaeditora.com.br/refinaria-de-rodrigo-cabral

Resenha: MST: A construção do comum, de Susana Bleil


APRESENTAÇÃO

Publicada originalmente em francês sob o título “Vie et luttes des Sans Terre au sud du Brésil”, a obra é o resultado da imersão que autora por quatro anos no assentamento Santa Maria (Copavi), em Paranacity, no noroeste do Paraná, fundado em 1993.Além de registrar a história de uma das mais bem sucedidas experiências do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Bleil usa a sociologia para analisar a complexidade e os desafios de convivência, produção e resistência na luta pela reforma agrária no Brasil. Com seu trabalho etnográfico a autora revela em detalhes o funcionamento da cooperativa e como são tomadas as decisões políticas e as dificuldades da construção coletiva.Trata-se de leitura fundamental para todas as pessoas que pretendem compreender melhor a história do MST e os valores que o presidem.

RESENHA

A obra "A Construção do Comum", da socióloga Susana Bleil, oferece uma análise profunda e intimista do assentamento Santa Maria, parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), localizado em Paranacity, Paraná. Publicada originalmente em francês, esta obra se destaca por seu enfoque etnográfico, resultado de anos de pesquisa e imersão no cotidiano da cooperativa, estabelecida em 1993. Bleil não apenas documenta a história da Copavi, mas também investiga os dilemas enfrentados por seus membros na busca pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

A autora começa descrevendo a natureza da comunidade, que antes era composta por laços de sangue e casamento, mas que, ao longo do tempo, se transforma. Ela argumenta que, apesar do desaparecimento da comunidade tradicional, a necessidade de recriar um espaço de convivência onde a cooperação e a solidariedade prevaleçam se faz cada vez mais urgente. A proposta central do livro se estrutura em torno da busca por um "comum" – um espaço onde as experiências compartilhadas e as relações humanas possam florescer e construir significados coletivos.

"A Construção do Comum", de Susana Bleil, não é apenas um relato sobre um assentamento rural, mas um convite à reflexão sobre a complexidade das relações humanas em um mundo que tende a fragmentar laços e a promover a individualidade em detrimento da coletividade. A partir da sua análise etnográfica, somos confrontados com a ideia de que o 'comum' é uma construção contínua, que requer esforço, cuidado e compromisso.

A obra ressalta que, ao contrário da visão simplificada de comunidades como meros aglomerados de indivíduos, as comunidades são organismos vivos, pulsantes, onde cada interação tem o potencial de reafirmar ou desmantelar laços de solidariedade. O assentamento Santa Maria mostra que a busca por uma vida coletiva não só é uma necessidade, mas um ato político vital em um cenário global que valoriza cada vez mais a concorrência e a exclusão. O desafio de transformar experiências pessoais em significados coletivos é um reflexo fiel das tensões enfrentadas por aqueles que buscam não apenas a sobrevivência, mas também uma vida digna.

Outro aspecto potente do trabalho de Bleil é a ideia de "família política". Nesse sentido, o assentamento Santa Maria se torna um microcosmo das lutas sociais mais amplas, onde a política se entrelaça com a vida cotidiana e as emoções. A solidariedade não é apenas uma estratégia de resistência, mas uma forma de afetividade que permeia todas as interações. Essa interconexão entre a política e a vida afetiva revela um aspecto crucial das lutas sociais: que as mudanças estruturais não podem ser efetivas sem uma base relacional sólida que una os militantes em torno de uma causa comum. A política, portanto, se transforma em um campo de batalha onde as experiências pessoais se tornam relevantes, e os vínculos formados no seio da comunidade se tornam a verdadeira força motriz de transformação.

Além disso, o livro nos força a reconsiderar o significado de ‘comunidade’ em um tempo de crescente desumanização e desassociação. A transformação narrativa de laços de sangue para laços de solidariedade nos lembra que, em uma sociedade que muitas vezes segmenta e aliena, é na criação de novos vínculos que reside a chave para um futuro mais equitativo. A obra de Bleil se posiciona como uma crítica contundente à desumanização que permeia muitos âmbitos da vida contemporânea, ao mesmo tempo que propõe uma alternativa: a construção de espaços coletivos que valorize a empatia, a compreensão e o apoio mútuo.

Os relatos dos sócios da Copavi revelam a complexidade da vida em comunidade. A obra questiona se os militantes têm espaço para expressar suas discordâncias e como as crises são geridas coletivamente. Nesse contexto, cada experiência pessoal é situada na trama maior da luta pela reforma agrária, destacando valores como fraternidade, inclusão e solidariedade. Bleil não hesita em mostrar os desafios e as tensões que surgem nesse ambiente, enfatizando que a sobrevivência do grupo depende da consciência coletiva de pertença e da confiança mútua entre seus membros.

A narrativa etnográfica de Bleil é enriquecida por seus encontros com os militantes, cujas histórias pessoais e visões de mundo acrescentam profundidade ao entendimento dos processos de construção da comunidade. Momentos de troca e riso, bem como as disputas e tensões, são analisados com rigor e sensibilidade, tornando visíveis as nuances da vida cotidiana no assentamento. Essa abordagem ajuda a moldar a ideia de que a construção do "nós" no coletivo é um trabalho contínuo, que se alimenta de práticas e rituais que promovem a união e o compromisso dos membros.

Bleil também evoca a ideia de uma "família política", onde os laços de solidariedade extrapolam o espaço familiar e se transformam em uma rede de apoio e luta common. O compromisso dos militantes com a causa do MST se entrelaça com suas vidas pessoais, demonstrando que a política e a afetividade não estão desconectadas, mas sim interligadas em múltiplas camadas de significado.

Ao longo da leitura, fica evidente que "A Construção do Comum" é mais do que uma simples crônica da vida em um assentamento: é uma reflexão profunda sobre a necessidade de valores éticos e comunitários numa sociedade que frequentemente ignora a força das relações humanas. A obra fornece uma base fundamental para quem deseja compreender não só a história do MST, mas também os princípios que fundamentam a luta por justiça social e a construção de novos modelos de convivência.

A obra de Susana Bleil é uma contribuição ímpar ao entendimento das dinâmicas sociais e políticas no Brasil contemporâneo, fazendo ecoar a importância do comum em um mundo que cada vez mais se distancia da convivência solidária. Seja para estudantes, militantes, ou qualquer pessoa interessada em questões sociais, "A Construção do Comum" é uma leitura indispensável, capaz de inspirar reflexões sobre a coletividade e a luta por um futuro mais justo.

Ademais, é crucial observar que os desafios enfrentados pela comunidade não são apenas obstáculos, mas oportunidades para crescimento e reconfiguração. A capacidade dos militantes de expressar suas discordâncias e lidar com crises coletivamente revela um dinamismo intrínseco à vida comunitária. Essa ideia de que as tensões não são sinônimos de fracasso, mas partes integrantes de um processo vital, sugere que a solidariedade é, na verdade, uma prática que se refina por meio de conflitos construtivos e diálogos honestos.

Em última análise, "A Construção do Comum" é uma obra que se desdobra em múltiplas camadas de significado. Ela nos desafia a pensar sobre o que realmente significa viver em sociedade e convida a uma reflexão profunda sobre a necessidade de encontrarmos nossos 'comuns' em tempos de crescente individualismo. O ensinamento mais importante que podemos extrair dessa obra é que a luta por um espaço coletivo não é apenas uma aspiracional, mas uma urgência. E, mais importante, que essa luta deve ser alimentada por uma percepção ética de comunidade, onde cada indivíduo, com suas particularidades e experiências, é respeitado, ouvido e integrado na construção de um futuro mais justo e solidário.

Resenha: A cabeça da medusa: e outras lendas gregas, de Orígenes Lessa



 APRESENTAÇÃO

A rica mitologia grega, com seus deuses e heróis, é referência até os dias atuais, em várias áreas de estudo. Em A cabeça de Medusa e outras lendas gregas, Orígenes Lessa, baseado na obra do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne, reconta seis narrativas maravilhosas.Nesta obra estão presentes algumas das mais famosas lendas gregas, como: A cabeça de Medusa, A caixa de Pandora, O toque de ouro, O cântaro milagroso, A quimera e As três maçãs de ouro. A linguagem ágil de Orígenes nos transporta à história da civilização da Grécia Antiga e à origem de mitos importantes e significativos presentes até hoje na cultura ocidental.O livro conta com as belíssimas ilustrações de Cláudia Scatamacchia. É leve, divertido e atual como todo clássico. Um livro para ser lido com a imaginação.

RESENHA

"A Cabeça da Medusa: E Outras Lendas Gregas" é uma antologia de histórias da mitologia grega adaptadas por Orígenes Lessa. Este fascinante compêndio nos oferece a oportunidade de mergulhar no rico universo das lendas, resgatando personagens icônicos como Perseu, Dânae e a temível Medusa, enquanto ficamos imersos em narrativas que abordam temas como coragem, traição e a busca pelo heroísmo.

A narrativa central, que dá nome ao livro, gira em torno de Perseu, um herói cuja vida é marcada por uma profecia que prevê a morte de seu avô, o rei Acrísio. O temor das consequências dessa profecia leva Acrísio a tomar uma decisão drástica — colocar Dânae e Perseu em um barco e abandoná-los ao mar. Essa abertura já estabelece um ambiente de tensão que ronda a história, refletindo o contraste entre as intenções humanas e o desígnio dos deuses.

À medida que crescem os desafios que Perseu enfrenta, o leitor é apresentado a uma rica tapeçaria de elementos mitológicos. A fúria de Medusa, uma das górgonas, simboliza tanto um desafio a ser superado quanto a luta interna do herói contra suas próprias limitações e medos. Lessa retrata Perseu como um jovem audacioso, mas também vulnerável, cativando os leitores com sua determinação em atender ao pedido traiçoeiro do rei Polidecto. A astúcia do vilão e a complexidade dos laços familiares são bem exploradas, conferindo profundidade ao enredo.

A prosa de Lessa é envolvente; sua narrativa é rica em descrições vívidas e diálogos que capturam a essência das interações humanas e divinas. Lessa não apenas reconta as lendas, mas também as recontextualiza, permitindo que novos leitores e aqueles familiarizados com a mitologia grega apreciem a experiência. Os trechos relacionados ao encontro de Perseu com Mercúrio, por exemplo, são particularmente mais intesos, pois destacam a importância da ajuda e da sabedoria adquirida através da experiência, elementos que ecoam profundamente na condição humana. Além disso, a obra ressalta temas universais, como a luta entre o bem e o mal, lealdade, e a inevitabilidade do destino, o que a torna não apenas um repositório de histórias antigas, mas uma fonte de reflexão sobre a natureza humana.

As adaptações de Lessa são acessíveis para leitores de todas as idades, tornando este livro uma excelente introdução à mitologia grega para jovens e adultos igualmente. Sua habilidade em contar histórias se combina perfeitamente com a herança cultural que as mitologias oferecem, celebrando-as de forma dinâmica e envolvente.

Em suma, "A Cabeça da Medusa: E Outras Lendas Gregas" é uma obra que não só narra aventuras e desafios épicos, mas que também nos convida a refletir sobre nossas propias histórias, medos e desejos. A leitura é uma viagem através do tempo que confronta as questões eternas da vida, fazendo deste livro uma verdadeira joia da literatura infanto-juvenil e um excelente recurso para aqueles que desejam explorar as raízes da mitologia grega de uma maneira acessível e cativante.

Resenha: O negro no Brasil hoje, de Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes

APRESENTAÇÃO

Para entender “nossa” história e “nossa” identidade é preciso começar pelo estudo de todas as suas matrizes culturais. Neste livro muito bem ilustrado, os autores tentam contar um pouco da história esquecida dos povos africanos que ajudaram a construir o país em que vivemos, um país que pertence a todos os brasileiros sem nenhuma distinção.

RESENHA

A obra "Negro no Brasil de Hoje", escrita por Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes, é um marco na literatura brasileira que investiga a identidade negra no contexto contemporâneo, compilando reflexões profundas sobre a história, cultura e desafios enfrentados pela população negra no Brasil. Munanga e Gomes não apenas respondem a questões cruciais sobre quem somos como povo, mas também nos levam a compreender a riqueza e a complexidade da formação da identidade brasileira, que é um verdadeiro mosaico cultural.

Aprender e conhecer sobre o Brasil e sobre o povo brasileiro é aprender a conhecer a história e a cultura de vários povos que aqui se encontraram e contribuíram com suas bagagens e memórias na construção deste país e na produção da identidade brasileira. Essa história, na versão de alguns, teve início com os aventureiros e navegadores portugueses que chegaram a uma terra da qual se consideraram descobridores. Embora essa terra já estivesse ocupada e tivesse seus donos, os portugueses anunciaram o seu descobrimento e dela tomaram posse, estendendo para além da Europa seus domínios.

O livro parte de uma análise histórica para desconstruir mitos recorrentes, como a visão de uma passividade dos africanos durante o período da escravidão. Os autores demonstram com contundência que, ao contrário do que muitos ainda pensam, os negros nas terras brasileiras lutaram e resistiram ativamente contra a opressão, participando de revoltas e movimentos que raramente são mencionados nos livros didáticos. Essa perspectiva é essencial para reverter narrativas que perpetuam estigmas e preconceitos, reforçando a importância de um reconhecimento histórico mais justo e equilibrado.

O livro se desdobra ao desvencilhar, de forma minuciosa e precisa, aspectos da história do negro na criação do Brasil atual. Ele aborda tópicos como o encontro de culturas devido à miscigenação dos povos originários em terras brasileiras, a origem e a contribuição dos negros, o histórico da escravidão de mão de obra cativa, descrições do regime escravista, um panorama geral sobre os quilombos, a Revolta dos Malês, a Revolta da Chibata, a redemocratização, e a copeira como uma expressão de arte. Também explora o surgimento e o desenvolvimento da cultura negra, além de fornecer descrições sobre termos como etnia, racismo, etnocentrismo e preconceito racial. Por fim, inclui uma série de citações de homens e mulheres negros que contribuíram para a formação do Brasil como o conhecemos atualmente.

Além disso, Munanga e Gomes exploram a imensidão das contribuições culturais dos negros ao Brasil, defendendo que a musicalidade, a religiosidade e as diversas manifestações artísticas são, sem dúvida, a espinha dorsal da cultura brasileira. A resistência política e cultural do povo negro, capaz de transformar trajetórias e diálogos sociais ao longo da história, é um dos pontos altos da obra. Os capítulos sobre a produção cultural negra e a religiosidade afro-brasileira são especialmente iluminadores, revelando a riqueza das tradições e a beleza dessa cultura que, muitas vezes, é deixada à margem das narrativas dominantes.

Os autores também abordam questões atuais, como o racismo estrutural que ainda permeia a sociedade brasileira, fornecendo dados e reflexões que nos instigam a pensar criticamente sobre o nosso papel na construção de um Brasil mais igualitário. A análise das políticas de ação afirmativa e a pertinência de discussões sobre raça mostram a urgência em se reconhecer as desigualdades persistentes e os direitos dos negros no Brasil.

Uma passagem marcante da obra - das diversas existentes - é o estudo e apresentação do contexto de revolta coletiva em relação a repulsa em desfavor da escravidão no Brasil. O que ocasionou em um movimento de luta do povo negro, tornando possível a criação de quilombos, redes de apoio, insurreições, guerrilhas, insurreições urbanas. Essa crescente onda de resistência ocasionou em diversas revoltas e batalhas, como: A revolta dos Alfaiates (1798); Cabanagem (1835-1840); Sabinada (1837-1838) e a Balaiada (1838-1841).

E uma citação marcante e atemporal:

No contexto de organização do movimento negro brasileiro não podemos nos esquecer do importante papel assumido pelas mulheres negras e suas organizações. Apesar das transformações nas condições de vida e papel das mulheres em todo o mundo, em especial a partir dos anos de 1960, a mulher negra continua vivendo uma situação marcada pela dupla discriminação: ser mulher em uma sociedade machista e ser negra numa sociedade racista.

Negro no Brasil de Hoje é um livro imprescindível não apenas para aqueles que buscam compreender a identidade negra, mas para todos que desejam aprofundar-se nas discussões sobre diversidade, resistência e os desafios sociais que ainda permeiam nossas vidas. A obra é uma leitura reveladora, apaixonada e necessária para quem deseja entender as complexas teias que constituem a sociedade brasileira contemporânea.

Por tudo isso, recomendo veementemente a leitura desta obra. Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes nos presenteiam com um estudo enriquecedor que não só educa, mas também promove a reflexão crítica sobre a identidade e a condição do negro no Brasil de hoje.

Você pode adquirir o livro na Amazon ou site Oficial da Global Editora.

Veronica Botelho lança “Inverno”, uma reflexão sobre os relacionamentos que moldam a personalidade a partir de uma família inter-racial

Acervo Pessoal / Divulgação / Comtato

Fruto de uma relação interracial, mas criada unicamente pela parte branca da família, Isabel é uma mulher em busca de sua própria identidade. A piauiense Veronica Botelho (@verobotelho) apresenta Inverno” (e-Galáxia, 178 págs.), seu novo livro de “As Estações”, série não sequencial que começou com o romance “Verão”, publicado em 2023. 


O racismo desde o ambiente familiar é o ponto de partida da história de Isabel. Longe de ser apenas um artifício ficcional, o preconceito em famílias inter-raciais é uma realidade presente em muitas casas brasileiras. A psicóloga social Lia Vainer Schucman, especialista em estudos de branquitude, investiga as tensões entre cor e amor a partir da ideologia do embranquecimento que aponta branco como “melhor” ou superior e determina também a hierarquia do indíviduo negro no ambiente familiar.


Em “Inverno”, Isabel sente na pele essas tensões. Na relação com avó branca, por exemplo, que condiciona o afeto que destina a garota ao “apesar” de sua cor. Mesmo na interação Madalena, mãe amorosa de Isabel, o racismo aparece em pequenos elementos do cotidiano, como a própria defesa da avó racista.


Apesar de ser uma história totalmente independente, “Inverno” se passa no mesmo universo de “Verão”. Rebecca, protagonista do primeiro livro, é personagem também na nova história — a amiga próxima de Isabel desempenha um papel central no processo de autodescoberta e os conflitos resultantes desse relacionamento. 



Comtato / Divulgação / Acervo Pessoal


Uma mulher a procura de si


Isabel cresceu com a família materna em Maceió (AL), em um lar marcado por tensões raciais e silêncios que desvalorizam seu esforço em se encaixar. Criada pela mãe Madalena, sem saber quase nada sobre a origem do pai, a única referência que tem do mesmo é o relato de um abandono paterno, enfatizado constantemente pelo racismo da própria avó.


A personagem inicia sua jornada de autodescoberta a partir da revelação de cartas escritas pelo pai que contradizem a narrativa de sua origem que a acompanha desde o nascimento. A jornada de se aproximar do pai Renato e, principalmente, da tia Clotilde, transforma-se em um mergulho em suas raízes e na descoberta de sua ancestralidade, que foi sempre negada ao viver em um lar predominantemente branco. 


Nesse processo, Isabel se muda para Aracaju (SE) e posteriormente para a Itália, onde, na companhia de Rebecca e outras amigas, busca entender quem realmente é, enquanto lida com a solidão, o peso da expectativa familiar e a descoberta de sua sexualidade. 


Por vezes a solidão é o principal antagonista de Isabel, uma personagem com dificuldade de expressar-se livremente e entender seus próprios sentimentos. Nesse contexto, a personagem se envolve com Regina, uma mulher tão fascinante quanto complicada que interfere diretamente no amadurecimento de Isabel e também nas relações que ela estabelece a partir disso. 


A tensão dos relacionamentos familiares, de amor e amizade estão no centro da história de “Inverno”. Passando por inúmeros episódios onde o afeto se torna uma ferramenta abusiva e limitadora, Isabel precisa entender qual é o seu próprio caminho independente das pessoas que a cercam.


Da psicologia à escrita: conheça Veronica Botelho


Natural de Floriano, no Piauí, Veronica Botelho é licenciada em Psicologia Social e das Organizações pela Universidade de Florença,  e atualmente cursa mestrado em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental no King’s College London. Seu primeiro livro de ensaios, “Meias Verdades”, foi publicado em 2016. A autora viveu no Brasil, Costa do Marfim, Inglaterra, Bolívia, Argentina, Espanha, Itália e Catalunha, onde teve experiência na atenção e inclusão de pessoas portadoras de diferentes transtornos mentais, e voluntariado com pessoas  refugiadas. 


Os estudos de Veronica sempre foram direcionados a entender as diferenças, inicialmente com foco no universo acadêmico. “O que escrevia, estudava, tinha um único intuito: como podemos conviver pacificamente aceitando as nossas diferenças”, explica. O primeiro livro da autora, “Meias Verdades” é um compilado de crônicas que refletem sobre o tempo, amor, racismo, xenofobia e ética política.


A autora lembra de sempre ter escrito muito para si mesma. “Minha avó dizia que eu escrevi a minha primeira poesia quando tinha 4 anos”, recorda-se. Ela passou por agendas e diários, chegou a escrever peças de teatro na escola, além de participar de um jornal escolar. Morando fora, o hábito de enviar cartas para família e amigos também compôs sua experiência na escrita.


Desde a escrita de “Verão”, sua primeira incursão pela ficção, Veronica já sabia que faria uma tetralogia. “As histórias se interconectam. São histórias que se encaixam, sem serem sequenciais”, explica, apontando que suas personagens também têm muito em comum com suas próprias experiências. Como Rebecca, protagonista de “Verão”, a autora perdeu o pai na infância. Aborda também sua experiência de imigração, “bilinguismo”, retratada em “Inverno”.


Do Inverno ao florescer de Isabel


Frisando a importância das amizades e das conexões, Veronica acredita que “Inverno” tem como mensagem os relacionamentos que nos moldam e como o passado faz parte da construção do presente. Com seu estilo de escrita intimista e reflexivo, a autora entrega uma narrativa fragmentada que se usa da não linearidade para transitar em diferentes tempos e espaços. 


Como primeiro romance,  a escrita de “Verão” começou quase como uma brincadeira, sugestão do parceiro da autora. “Escrevê-lo foi uma das experiências mais fascinantes da minha vida”, conta Veronica, que chegava a passar sete ou oito horas escrevendo sem parar. “Entrava em estado de flow. Aquele hic et nunc onde os insights surgem, se interconectam, e a arte nasce.”


A autora descreve esse estado como hipnótico e destaca a importância de respirar literatura nesse processo: “Quando não estava escrevendo o livro, estava lendo”. Veronica levou apenas dois meses e meio para escrever “Verão”, durante o inverno na cidade província de Girona na Espanha, parte da comunidade autônoma da Catalunha. A escrita de “Inverno” é uma curiosa resposta ao primeiro livro, que escreveu durante o verão na mesma cidade.


Veronica conta que suas influências são diversas, seja na arte ou nas conversas que escuta dentro de ônibus, bares, etc., em seu dia a dia. Na literatura, reconhece que sua iniciação foi marcada por homens brancos. “Luis Fernando Veríssimo por muitos anos foi o meu maior ídolo. Li praticamente tudo o que ele publicou”, comenta, citando outros nomes de referência, como Nelson Rodrigues e Caio Fernando de Abreu. Mas a autora também pontua a importância de escritoras como Clarice Lispector, Rosamunde Pilcher e Isabel Allende.


Atualmente consumindo bastante literatura contemporânea brasileira, a escritora destaca autores como Giovana Madalosso, Jeovanna Vieira, Carla Madeira, Julia Dantas, Tiago Ferro e Nara Vidal em sua prateleira. A experiência no exterior também marcou sua formação com a descoberta de autoras como Toni Morrison, Maya Angelou e Chimamanda Adichie.



Confira um trecho do livro:

“Naquele instante, Isabel se viu como o piso da sua avó, os tecidos da sua tia, e aquele vaso de Florença: pedaços de muitos lugares, algumas cicatrizes que eram apenas marcas que a tinham feito mais forte, e outras que se abriam em carne viva, como as goteiras do teto da casa de sua mãe.”


Adquira “Inverno ” pelo site da editora:

https://e-galaxia.com.br/produto/inverno/ 


Escritor mineiro Breno Ribeiro retrata em “thriller familiar” as dores da perda de um filho em meio à desigualdade social


Duas famílias distintas. Uma de classe média alta e outra de periferia. Em uma delas, um casal de elite com seus dois filhos, a típica família perfeita para os que veem de fora. Na outra, um casal de periferia que luta para conseguir pagar os medicamentos da mãe de um deles. Este é o ponto de partida do breve romance “cicatriz” (112 págs.), do escritor mineiro Breno Ribeiro, recém-lançado pela Caravana Editorial. 


Atualmente vivendo no Rio de Janeiro, o autor é formado em Letras e professor de Língua Inglesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado em Estudos da Linguagem na PUC-Rio e um curso livre de Formação em Roteiro pela Academia Internacional de Cinema do Rio. Breno traz em seu segundo romance uma história que reúne três dos mais imponentes sentimentos humanos: a justiça, a vingança e a culpa. Através da história de poucos mas inesquecíveis personagens, retrata um quadro não incomum em nossa sociedade. 


Estruturada em três partes,“cicatriz” acompanha duas histórias paralelas: de um lado, a família de Júlia e Humberto, com seus filhos Ana Lúcia e Pedro. De classe alta, a família passa por desentendimentos de ordem sociopolítica: o pai, de extrema-direita, não aceita a filha lésbica, enquanto o filho, recém admitido na universidade, passa a ser o foco de atenção do casal. Do outro lado, Pietro e Fabiana são um casal de periferia que esperam um filho enquanto precisam lidar com a doença da mãe de Pietro. Diante da gravidade do caso, Pietro se vê praticando pequenos crimes para conseguir pagar os remédios e a internação da mãe. 


Perante os dilemas éticos que vivem as personagens, “cicatriz” traça um panorama bastante complexo do sistema judiciário brasileiro, em que justiça nem sempre significa reparação dos danos causados e a prisão não é capaz sequer de aplacar os desejos de vingança das classes privilegiadas. Segundo Breno, o senso de justiça sempre esteve presente em sua vida. Certa vez, lendo uma notícia sobre um crime grave cometido contra uma família, o autor se deparou com uma advogada que havia trabalhado no caso se utilizando do conceito de justiça restaurativa. 


“Pensei muito sobre o conceito de justiça restaurativa e em como ele requer certa maturidade das partes envolvidas. Pensei também que, a depender do caso, isso não seria possível, esse perdão, essa quase elevação espiritual do absolver. Então me veio a vontade de escrever sobre isso, sobre essa impossibilidade do perdão e, por outro lado, a fervura da culpa”, completa.


Diante deste cenário que oscila entre sofrimentos, lágrimas, traumas e cicatrizes, Breno apresenta importantes reflexões, como na página 89: “Um mundo melhor não é um mundo sem crime, mãe, isso é uma utopia. Um mundo melhor é um mundo onde as pessoas cometam erros e possam ter a chance de crescer a partir deles. É nisso que eu acredito”.


Do thriller policial para um quase “thriller familiar”: as faces da escrita de Breno Ribeiro


Influenciado por autores clássicos como Machado de Assis, Mary Shelley e Gustave Flaubert, Breno nasceu em Juiz de Fora (MG), cresceu na cidade de Iguaba Grande, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Hoje, com 35 anos, mora no Rio, e leciona Língua Inglesa pela UFRJ. Em 2021, em plena pandemia, lançou seu primeiro romance em formato digital, o thriller policial “O Príncipe de Hugo Porto”.


Em seu segundo romance, “cicatriz”, o autor percebe os passos de amadurecimento em relação à sua carreira e vê a mudança de gênero literário como um motor para sua criatividade. “Esse livro representa um amadurecimento da minha escrita em relação ao meu primeiro romance, talvez pela mudança de gênero. A escrita desse livro me transformou. De certa forma, me permiti arriscar mais literariamente a tocar em pontos que não necessariamente fazem parte da minha experiência de vida”, analisa. A obra é fortemente influenciada pela literatura nacional contemporânea, por nomes como Andrea Del Fuego, Natalia Timerman e Jeferson Tenório, que trazem ambientes mais urbanos para o centro da narrativa.


Após “cicatriz”, o autor já pensa em escrever seu próximo livro, que vai se chamar “Limbo”, que conta a história de um casal que se separa, mas, por questões presentes no capitalismo tardio, são obrigados a morar juntos por um tempo até cada um ir para o seu canto. “O romance narrará os dois meses entre o término e a mudança de casas, quando cada um segue seu rumo”, revela. 



Confira alguns trechos de “Cicatriz”:

Talvez tenha sido na terceira via da favela que encontrou Fabiana – ela, assim, como ele, não se encaixava em nenhum dos estereótipos da comunidade.” (pág. 27)

“Não o abandonou porque sabia que ele era um homem bom: tudo aquilo que porventura a atingia eram os estilhaços do autoflagelo de Pietro.” (pág. 58)

Como no mito grego, Pietro estava eternamente condenado a empurrar sua culpa para o topo da absolvição apenas para vê-la rolar para baixo sempre que ele se distraía. (pág. 68)

“Um mundo melhor não é um mundo sem crime, mãe, isso é uma utopia. Um mundo melhor é um mundo onde as pessoas cometam erros e possam ter a chance de crescer a partir deles. É nisso que eu acredito. (pág. 89)


Compre o livro através do link:
https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cicatriz/ 

“Diário de Amélia”, livro fruto da Aldeia Literária, pretende ser um farol para adolescentes que cresceram em ambientes tóxicos

Foto: Comtato / Acervo Pessoal / Divulgação

A personagem-título de “O Diário de Amélia” (109 pág), mais recente livro da escritora e empreendedora paulista Camila Veloso, compartilha com outras jovens da mesma idade os dramas dessa fase da vida, como a escolha profissional, interesses amorosos e questões familiares. Antenada com o linguajar, as práticas e dilemas dos adolescentes dessa nova geração, a autora apresenta uma obra que funciona também como guia prático para problemas do mundo adulto e rota de fuga de ambientes tóxicos. 


A obra é fruto da Aldeia Literária, negócio idealizado pela autora, que fomenta a formação de uma nova geração de escritores, utilizando a Cohort Learning Method, uma metodologia a base de mentorias e jornadas coletivas de aprendizado. Os encontros online oferecem acompanhamento do processo criativo e conversas com especialistas na área literária. Já passaram pelo processo cerca de 400 pessoas de novembro de 2023 até agora. 



Por dentro do “Diário de Amélia”


Amélia é uma garota recém saída da adolescência que divide o dia a dia com amigos do cursinho pré-vestibular. O livro inicia com o relato da jovem sobre um crush, uma paixonite, por um dos rapazes desse grupo. Há, no entanto, uma série de barreiras que impedem o sonho de virar realidade. Entre elas a amiga da protagonista, que está de olho no mesmo carinha, as diferenças sociais entre ambos, Amélia é da classe média baixa, o rapaz é riquíssimo, e ainda, a prática religiosa dos pais de moça que a proíbe de namorar alguém de fora da comunidade a que pertencem. 


Movida pelo desejo juvenil de dar passos para fora dessa redoma em que era mantida, a protagonista coloca-se em uma série de situações às quais não tinha sido preparada para lidar e pouco a pouco vai descobrir, com auxílio de amigos que faz nessa jornada, como enfrentar os problemas do mundo real. “É por isso que a personagem principal ouve sobre como tomar vacina de HPV no SUS, como abrir um MEI, e como sair de casa através das universidades públicas”, explica a autora. 


Camila confessa que há muito da própria experiência no livro. “Nasci num lar ultraconservador e sendo artista e mulher sempre recebi uma dose extra de repressão, portanto era um instinto natural me rebelar, e trouxe muito disso para a minha arte”, revela. A escrita começou cedo, aos 11 anos, e com o intuito de transformar as dores do mundo exterior em prosa e poesia. “Escrever me dava privacidade porque as pessoas tinham preguiça de ler (descobri isso cedo) e eu podia colocar no papel o que quisesse”.


Antes de “O Diário de Amélia”, Camila publicou “Traumas de uma Grande Gostosa”, “Cartas ao Sol” e “Encontrei um Pote com Tempo Dentro”.  Todos voltados para o público juvenil,  publicados de forma independente e disponíveis para compra online no site Amazon. A obra mais recente conta com avaliações positivas e comentários elogiosos na loja virtual.  Um dos leitores escreveu: “Nesse mundo doido que vivemos, conhecer realidades que podem estar tão próximas da gente nos permite entender que precisamos estar prontos a nos ajudar”, e completa: “Esse livro nos ajuda a ter empatia, mas pode ser um refúgio e um pequeno guia para que as pessoas consigam ver uma luz numa situação difícil”. 


A autora conta que a obra demorou dois anos para ser finalizada pois era preciso encontrar o tom certo para o livro e ao mesmo cuidar dos próprios traumas relacionados às experiências vivenciadas numa educação extremamente rígida. Ainda assim, assume que escreveu uma história divertida, apesar do tema pesado. “Não queria que o livro fosse sobre ódio, mas sobre acolhimento”. 


Trecho da obra “O Diário de Amélia”: 


“Olho a rua, e todas aquelas pessoas andando, e vivendo seu próprio caos, e talvez a vida de todo mundo seja assim. Ou a de mais alguém, pois, se tenho o apoio de tantas mulheres, se todas elas estavam com as armaduras prontas quando precisei de ajuda, é porque não sou a única.”


Adquira o novo livro de Camila Veloso pelo site da Amazon:

“O Diário de Amélia”

Rodrigo Cabral lança “refinaria”, livro que constrói geografia íntima a partir das transformações das paisagens do Rio de Janeiro



“As imagens de Rodrigo não têm obrigação com nitidez, pois são elas, também, banhadas pelo líquido que as leva à vista. Vista essa que, marejada, antecede o processo de criação: o autor as vê banhadas e as conduz a um novo destino ondulado.” 

Trecho do prefácio da escritora Júlia Vita 


“Refinaria” (120 págs.), estreia literária do jornalista e editor fluminense Rodrigo Cabral (@rodrigocabral000), é composto por poemas que tentam apreender o processo de transformação da paisagem geográfica da Região dos Lagos (RJ) e da própria memória. Lançada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2024, a obra, publicada pela Sophia Editora (@sophiaeditora), conta com ilustrações do artista visual Rapha Ferreira.  A orelha foi assinada pelo escritor Thiago Freitas e o prefácio é da autoria da editora e escritora Júlia Vita, que também trabalhou na edição do livro.

Na obra, a poesia é utilizada como ferramenta para explorar cenários em constante mutação, retratando, a partir de uma linguagem poética original, a relação do autor com o espaço onde cresceu, no estado do Rio de Janeiro: Cabo Frio, uma das cidades banhadas pela Laguna de Araruama, a maior do mundo em hipersalinidade permanente. 

“Ouvi o que esses cenários diziam sobre minhas memórias, sempre borradas e fragmentadas”, comenta. “Refinaria” se trata dos processos contínuos de transformação e refino, tanto no território como na própria vida e no ato de escrever.  Segundo o autor, no poema isso se transforma em outro espaço, em outro tempo. E o texto é reescrito de acordo com as percepções de quem lê. Ele reflete: “O que me moveu, primeiro, foi me reconhecer como um poeta da restinga. Ou um poeta da orla, como escreve a Júlia Vita no prefácio.”

A figueira centenária da rua da infância de Rodrigo Cabral,, por exemplo, torna-se inspiração porque é um dos poucos elementos que permanecem em meio ao que se transforma. Os poemas se movem entre temas como a relação do autor com o pai, a paisagem local e as dinâmicas internas da memória. "O livro também trata da própria escrita, ao texto constantemente revisto, refeito e relido, em um processo contínuo de busca por significado", revela o escritor.

A tentativa de apreender o que está lá fora é um dos cernes da obra, mas isso não significa tentar captar a realidade exatamente como ela é. A proposta de Rodrigo é ir muito além disso. Sua intenção não é buscar compreender, tampouco simplesmente  decifrar, mas, sim, contemplar os processos de transformação de um território, de um indivíduo, de uma escrita. “Quero analisar com a ponta dos dedos aquilo que não evapora, aquilo que permanece”, reflete.

Os versos do livro equilibram a linguagem regional com uma universalidade poética, permitindo que os leitores encontrem pontos de conexão tanto com o cenário local quanto com as emoções e vivências humanas. Além disso, a obra faz referência à formação geológica da camada pré-sal e traça paralelos com a história da cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes, cidade natal do autor.


Rodrigo Cabral registra a refinaria

Rodrigo Cabral, 34 anos, nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) e cresceu em Cabo Frio (RJ), onde fundou a Sophia Editora. Sua escrita é fortemente influenciada pelas paisagens da Região dos Lagos e pelas memórias de infância, temas centrais de sua obra poética.

Em 2024, Rodrigo foi segundo colocado no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria Contos e finalista na categoria Poesia. No ano anterior, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa e, em 2022, foi também finalista do Prêmio Off Flip na categoria Poesia. Como editor, tem se dedicado a preservar e divulgar a história, a memória e o patrimônio cultural da região. “Refinaria” é seu primeiro livro publicado.

Sua principal referência para a escrita de sua obra de estreia foi  “Água-mãe”, livro do escritor paraibano José Lins do Rego, o primeiro romance do autor a ser ambientado fora da região Nordeste. “O escritor narra as paisagens daquela Cabo Frio com imagens arrebatadora, que envolvem as casuarinas, a figueira, a fantasmagórica casa azul, as barcaças de sal deslizando pela água e a Lagoa de Araruama, muitas vezes referenciada apenas como Araruama, espécie de entidade”, enumera. 

Além dele, destacam-se Olga Savary e Victorino Carriço, autores das duas epígrafes presentes no livro, e influência indireta de leituras de autores como Roberto Piva, Claudio Willer, Lawrence Ferlinghetti, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Ana Martins Marques, Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade. 

Perguntado sobre projetos futuros, Rodrigo disse que pretende continuar a atividade de refinaria que deu origem à sua primeira publicação: “ Meu desejo é escrever.”



Confira um trecho do livro:


a pulsação d’água 

contrai e expande 

o que a palavra refina

nos batimentos 

das remingtons 

debulhando botões

verdejando espasmos

na restinga das paráfrases

dos átrios e ventrículos 

para os vasos de alta salinidade 

onde ovos chocam

onde vogais e camarões 

ruborizam

onde aspas rebentam

no íntimo dos glóbulos 

n’aorta das sílabas 

enquanto o hífen-cateter 

da célula-mater

mantém o ritmo da criação

em gênese: arritmia” 


Adquira "refinaria" no site da Sophia Editora:

https://www.sophiaeditora.com.br/refinaria-de-rodrigo-cabral

Resenha: MST: A construção do comum, de Susana Bleil


APRESENTAÇÃO

Publicada originalmente em francês sob o título “Vie et luttes des Sans Terre au sud du Brésil”, a obra é o resultado da imersão que autora por quatro anos no assentamento Santa Maria (Copavi), em Paranacity, no noroeste do Paraná, fundado em 1993.Além de registrar a história de uma das mais bem sucedidas experiências do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Bleil usa a sociologia para analisar a complexidade e os desafios de convivência, produção e resistência na luta pela reforma agrária no Brasil. Com seu trabalho etnográfico a autora revela em detalhes o funcionamento da cooperativa e como são tomadas as decisões políticas e as dificuldades da construção coletiva.Trata-se de leitura fundamental para todas as pessoas que pretendem compreender melhor a história do MST e os valores que o presidem.

RESENHA

A obra "A Construção do Comum", da socióloga Susana Bleil, oferece uma análise profunda e intimista do assentamento Santa Maria, parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), localizado em Paranacity, Paraná. Publicada originalmente em francês, esta obra se destaca por seu enfoque etnográfico, resultado de anos de pesquisa e imersão no cotidiano da cooperativa, estabelecida em 1993. Bleil não apenas documenta a história da Copavi, mas também investiga os dilemas enfrentados por seus membros na busca pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

A autora começa descrevendo a natureza da comunidade, que antes era composta por laços de sangue e casamento, mas que, ao longo do tempo, se transforma. Ela argumenta que, apesar do desaparecimento da comunidade tradicional, a necessidade de recriar um espaço de convivência onde a cooperação e a solidariedade prevaleçam se faz cada vez mais urgente. A proposta central do livro se estrutura em torno da busca por um "comum" – um espaço onde as experiências compartilhadas e as relações humanas possam florescer e construir significados coletivos.

"A Construção do Comum", de Susana Bleil, não é apenas um relato sobre um assentamento rural, mas um convite à reflexão sobre a complexidade das relações humanas em um mundo que tende a fragmentar laços e a promover a individualidade em detrimento da coletividade. A partir da sua análise etnográfica, somos confrontados com a ideia de que o 'comum' é uma construção contínua, que requer esforço, cuidado e compromisso.

A obra ressalta que, ao contrário da visão simplificada de comunidades como meros aglomerados de indivíduos, as comunidades são organismos vivos, pulsantes, onde cada interação tem o potencial de reafirmar ou desmantelar laços de solidariedade. O assentamento Santa Maria mostra que a busca por uma vida coletiva não só é uma necessidade, mas um ato político vital em um cenário global que valoriza cada vez mais a concorrência e a exclusão. O desafio de transformar experiências pessoais em significados coletivos é um reflexo fiel das tensões enfrentadas por aqueles que buscam não apenas a sobrevivência, mas também uma vida digna.

Outro aspecto potente do trabalho de Bleil é a ideia de "família política". Nesse sentido, o assentamento Santa Maria se torna um microcosmo das lutas sociais mais amplas, onde a política se entrelaça com a vida cotidiana e as emoções. A solidariedade não é apenas uma estratégia de resistência, mas uma forma de afetividade que permeia todas as interações. Essa interconexão entre a política e a vida afetiva revela um aspecto crucial das lutas sociais: que as mudanças estruturais não podem ser efetivas sem uma base relacional sólida que una os militantes em torno de uma causa comum. A política, portanto, se transforma em um campo de batalha onde as experiências pessoais se tornam relevantes, e os vínculos formados no seio da comunidade se tornam a verdadeira força motriz de transformação.

Além disso, o livro nos força a reconsiderar o significado de ‘comunidade’ em um tempo de crescente desumanização e desassociação. A transformação narrativa de laços de sangue para laços de solidariedade nos lembra que, em uma sociedade que muitas vezes segmenta e aliena, é na criação de novos vínculos que reside a chave para um futuro mais equitativo. A obra de Bleil se posiciona como uma crítica contundente à desumanização que permeia muitos âmbitos da vida contemporânea, ao mesmo tempo que propõe uma alternativa: a construção de espaços coletivos que valorize a empatia, a compreensão e o apoio mútuo.

Os relatos dos sócios da Copavi revelam a complexidade da vida em comunidade. A obra questiona se os militantes têm espaço para expressar suas discordâncias e como as crises são geridas coletivamente. Nesse contexto, cada experiência pessoal é situada na trama maior da luta pela reforma agrária, destacando valores como fraternidade, inclusão e solidariedade. Bleil não hesita em mostrar os desafios e as tensões que surgem nesse ambiente, enfatizando que a sobrevivência do grupo depende da consciência coletiva de pertença e da confiança mútua entre seus membros.

A narrativa etnográfica de Bleil é enriquecida por seus encontros com os militantes, cujas histórias pessoais e visões de mundo acrescentam profundidade ao entendimento dos processos de construção da comunidade. Momentos de troca e riso, bem como as disputas e tensões, são analisados com rigor e sensibilidade, tornando visíveis as nuances da vida cotidiana no assentamento. Essa abordagem ajuda a moldar a ideia de que a construção do "nós" no coletivo é um trabalho contínuo, que se alimenta de práticas e rituais que promovem a união e o compromisso dos membros.

Bleil também evoca a ideia de uma "família política", onde os laços de solidariedade extrapolam o espaço familiar e se transformam em uma rede de apoio e luta common. O compromisso dos militantes com a causa do MST se entrelaça com suas vidas pessoais, demonstrando que a política e a afetividade não estão desconectadas, mas sim interligadas em múltiplas camadas de significado.

Ao longo da leitura, fica evidente que "A Construção do Comum" é mais do que uma simples crônica da vida em um assentamento: é uma reflexão profunda sobre a necessidade de valores éticos e comunitários numa sociedade que frequentemente ignora a força das relações humanas. A obra fornece uma base fundamental para quem deseja compreender não só a história do MST, mas também os princípios que fundamentam a luta por justiça social e a construção de novos modelos de convivência.

A obra de Susana Bleil é uma contribuição ímpar ao entendimento das dinâmicas sociais e políticas no Brasil contemporâneo, fazendo ecoar a importância do comum em um mundo que cada vez mais se distancia da convivência solidária. Seja para estudantes, militantes, ou qualquer pessoa interessada em questões sociais, "A Construção do Comum" é uma leitura indispensável, capaz de inspirar reflexões sobre a coletividade e a luta por um futuro mais justo.

Ademais, é crucial observar que os desafios enfrentados pela comunidade não são apenas obstáculos, mas oportunidades para crescimento e reconfiguração. A capacidade dos militantes de expressar suas discordâncias e lidar com crises coletivamente revela um dinamismo intrínseco à vida comunitária. Essa ideia de que as tensões não são sinônimos de fracasso, mas partes integrantes de um processo vital, sugere que a solidariedade é, na verdade, uma prática que se refina por meio de conflitos construtivos e diálogos honestos.

Em última análise, "A Construção do Comum" é uma obra que se desdobra em múltiplas camadas de significado. Ela nos desafia a pensar sobre o que realmente significa viver em sociedade e convida a uma reflexão profunda sobre a necessidade de encontrarmos nossos 'comuns' em tempos de crescente individualismo. O ensinamento mais importante que podemos extrair dessa obra é que a luta por um espaço coletivo não é apenas uma aspiracional, mas uma urgência. E, mais importante, que essa luta deve ser alimentada por uma percepção ética de comunidade, onde cada indivíduo, com suas particularidades e experiências, é respeitado, ouvido e integrado na construção de um futuro mais justo e solidário.

Resenha: A cabeça da medusa: e outras lendas gregas, de Orígenes Lessa



 APRESENTAÇÃO

A rica mitologia grega, com seus deuses e heróis, é referência até os dias atuais, em várias áreas de estudo. Em A cabeça de Medusa e outras lendas gregas, Orígenes Lessa, baseado na obra do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne, reconta seis narrativas maravilhosas.Nesta obra estão presentes algumas das mais famosas lendas gregas, como: A cabeça de Medusa, A caixa de Pandora, O toque de ouro, O cântaro milagroso, A quimera e As três maçãs de ouro. A linguagem ágil de Orígenes nos transporta à história da civilização da Grécia Antiga e à origem de mitos importantes e significativos presentes até hoje na cultura ocidental.O livro conta com as belíssimas ilustrações de Cláudia Scatamacchia. É leve, divertido e atual como todo clássico. Um livro para ser lido com a imaginação.

RESENHA

"A Cabeça da Medusa: E Outras Lendas Gregas" é uma antologia de histórias da mitologia grega adaptadas por Orígenes Lessa. Este fascinante compêndio nos oferece a oportunidade de mergulhar no rico universo das lendas, resgatando personagens icônicos como Perseu, Dânae e a temível Medusa, enquanto ficamos imersos em narrativas que abordam temas como coragem, traição e a busca pelo heroísmo.

A narrativa central, que dá nome ao livro, gira em torno de Perseu, um herói cuja vida é marcada por uma profecia que prevê a morte de seu avô, o rei Acrísio. O temor das consequências dessa profecia leva Acrísio a tomar uma decisão drástica — colocar Dânae e Perseu em um barco e abandoná-los ao mar. Essa abertura já estabelece um ambiente de tensão que ronda a história, refletindo o contraste entre as intenções humanas e o desígnio dos deuses.

À medida que crescem os desafios que Perseu enfrenta, o leitor é apresentado a uma rica tapeçaria de elementos mitológicos. A fúria de Medusa, uma das górgonas, simboliza tanto um desafio a ser superado quanto a luta interna do herói contra suas próprias limitações e medos. Lessa retrata Perseu como um jovem audacioso, mas também vulnerável, cativando os leitores com sua determinação em atender ao pedido traiçoeiro do rei Polidecto. A astúcia do vilão e a complexidade dos laços familiares são bem exploradas, conferindo profundidade ao enredo.

A prosa de Lessa é envolvente; sua narrativa é rica em descrições vívidas e diálogos que capturam a essência das interações humanas e divinas. Lessa não apenas reconta as lendas, mas também as recontextualiza, permitindo que novos leitores e aqueles familiarizados com a mitologia grega apreciem a experiência. Os trechos relacionados ao encontro de Perseu com Mercúrio, por exemplo, são particularmente mais intesos, pois destacam a importância da ajuda e da sabedoria adquirida através da experiência, elementos que ecoam profundamente na condição humana. Além disso, a obra ressalta temas universais, como a luta entre o bem e o mal, lealdade, e a inevitabilidade do destino, o que a torna não apenas um repositório de histórias antigas, mas uma fonte de reflexão sobre a natureza humana.

As adaptações de Lessa são acessíveis para leitores de todas as idades, tornando este livro uma excelente introdução à mitologia grega para jovens e adultos igualmente. Sua habilidade em contar histórias se combina perfeitamente com a herança cultural que as mitologias oferecem, celebrando-as de forma dinâmica e envolvente.

Em suma, "A Cabeça da Medusa: E Outras Lendas Gregas" é uma obra que não só narra aventuras e desafios épicos, mas que também nos convida a refletir sobre nossas propias histórias, medos e desejos. A leitura é uma viagem através do tempo que confronta as questões eternas da vida, fazendo deste livro uma verdadeira joia da literatura infanto-juvenil e um excelente recurso para aqueles que desejam explorar as raízes da mitologia grega de uma maneira acessível e cativante.

Resenha: O negro no Brasil hoje, de Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes

APRESENTAÇÃO

Para entender “nossa” história e “nossa” identidade é preciso começar pelo estudo de todas as suas matrizes culturais. Neste livro muito bem ilustrado, os autores tentam contar um pouco da história esquecida dos povos africanos que ajudaram a construir o país em que vivemos, um país que pertence a todos os brasileiros sem nenhuma distinção.

RESENHA

A obra "Negro no Brasil de Hoje", escrita por Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes, é um marco na literatura brasileira que investiga a identidade negra no contexto contemporâneo, compilando reflexões profundas sobre a história, cultura e desafios enfrentados pela população negra no Brasil. Munanga e Gomes não apenas respondem a questões cruciais sobre quem somos como povo, mas também nos levam a compreender a riqueza e a complexidade da formação da identidade brasileira, que é um verdadeiro mosaico cultural.

Aprender e conhecer sobre o Brasil e sobre o povo brasileiro é aprender a conhecer a história e a cultura de vários povos que aqui se encontraram e contribuíram com suas bagagens e memórias na construção deste país e na produção da identidade brasileira. Essa história, na versão de alguns, teve início com os aventureiros e navegadores portugueses que chegaram a uma terra da qual se consideraram descobridores. Embora essa terra já estivesse ocupada e tivesse seus donos, os portugueses anunciaram o seu descobrimento e dela tomaram posse, estendendo para além da Europa seus domínios.

O livro parte de uma análise histórica para desconstruir mitos recorrentes, como a visão de uma passividade dos africanos durante o período da escravidão. Os autores demonstram com contundência que, ao contrário do que muitos ainda pensam, os negros nas terras brasileiras lutaram e resistiram ativamente contra a opressão, participando de revoltas e movimentos que raramente são mencionados nos livros didáticos. Essa perspectiva é essencial para reverter narrativas que perpetuam estigmas e preconceitos, reforçando a importância de um reconhecimento histórico mais justo e equilibrado.

O livro se desdobra ao desvencilhar, de forma minuciosa e precisa, aspectos da história do negro na criação do Brasil atual. Ele aborda tópicos como o encontro de culturas devido à miscigenação dos povos originários em terras brasileiras, a origem e a contribuição dos negros, o histórico da escravidão de mão de obra cativa, descrições do regime escravista, um panorama geral sobre os quilombos, a Revolta dos Malês, a Revolta da Chibata, a redemocratização, e a copeira como uma expressão de arte. Também explora o surgimento e o desenvolvimento da cultura negra, além de fornecer descrições sobre termos como etnia, racismo, etnocentrismo e preconceito racial. Por fim, inclui uma série de citações de homens e mulheres negros que contribuíram para a formação do Brasil como o conhecemos atualmente.

Além disso, Munanga e Gomes exploram a imensidão das contribuições culturais dos negros ao Brasil, defendendo que a musicalidade, a religiosidade e as diversas manifestações artísticas são, sem dúvida, a espinha dorsal da cultura brasileira. A resistência política e cultural do povo negro, capaz de transformar trajetórias e diálogos sociais ao longo da história, é um dos pontos altos da obra. Os capítulos sobre a produção cultural negra e a religiosidade afro-brasileira são especialmente iluminadores, revelando a riqueza das tradições e a beleza dessa cultura que, muitas vezes, é deixada à margem das narrativas dominantes.

Os autores também abordam questões atuais, como o racismo estrutural que ainda permeia a sociedade brasileira, fornecendo dados e reflexões que nos instigam a pensar criticamente sobre o nosso papel na construção de um Brasil mais igualitário. A análise das políticas de ação afirmativa e a pertinência de discussões sobre raça mostram a urgência em se reconhecer as desigualdades persistentes e os direitos dos negros no Brasil.

Uma passagem marcante da obra - das diversas existentes - é o estudo e apresentação do contexto de revolta coletiva em relação a repulsa em desfavor da escravidão no Brasil. O que ocasionou em um movimento de luta do povo negro, tornando possível a criação de quilombos, redes de apoio, insurreições, guerrilhas, insurreições urbanas. Essa crescente onda de resistência ocasionou em diversas revoltas e batalhas, como: A revolta dos Alfaiates (1798); Cabanagem (1835-1840); Sabinada (1837-1838) e a Balaiada (1838-1841).

E uma citação marcante e atemporal:

No contexto de organização do movimento negro brasileiro não podemos nos esquecer do importante papel assumido pelas mulheres negras e suas organizações. Apesar das transformações nas condições de vida e papel das mulheres em todo o mundo, em especial a partir dos anos de 1960, a mulher negra continua vivendo uma situação marcada pela dupla discriminação: ser mulher em uma sociedade machista e ser negra numa sociedade racista.

Negro no Brasil de Hoje é um livro imprescindível não apenas para aqueles que buscam compreender a identidade negra, mas para todos que desejam aprofundar-se nas discussões sobre diversidade, resistência e os desafios sociais que ainda permeiam nossas vidas. A obra é uma leitura reveladora, apaixonada e necessária para quem deseja entender as complexas teias que constituem a sociedade brasileira contemporânea.

Por tudo isso, recomendo veementemente a leitura desta obra. Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes nos presenteiam com um estudo enriquecedor que não só educa, mas também promove a reflexão crítica sobre a identidade e a condição do negro no Brasil de hoje.

Você pode adquirir o livro na Amazon ou site Oficial da Global Editora.

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