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Rodrigo Cabral lança “refinaria”, livro que constrói geografia íntima a partir das transformações das paisagens do Rio de Janeiro

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM



“As imagens de Rodrigo não têm obrigação com nitidez, pois são elas, também, banhadas pelo líquido que as leva à vista. Vista essa que, marejada, antecede o processo de criação: o autor as vê banhadas e as conduz a um novo destino ondulado.” 

Trecho do prefácio da escritora Júlia Vita 


“Refinaria” (120 págs.), estreia literária do jornalista e editor fluminense Rodrigo Cabral (@rodrigocabral000), é composto por poemas que tentam apreender o processo de transformação da paisagem geográfica da Região dos Lagos (RJ) e da própria memória. Lançada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2024, a obra, publicada pela Sophia Editora (@sophiaeditora), conta com ilustrações do artista visual Rapha Ferreira.  A orelha foi assinada pelo escritor Thiago Freitas e o prefácio é da autoria da editora e escritora Júlia Vita, que também trabalhou na edição do livro.

Na obra, a poesia é utilizada como ferramenta para explorar cenários em constante mutação, retratando, a partir de uma linguagem poética original, a relação do autor com o espaço onde cresceu, no estado do Rio de Janeiro: Cabo Frio, uma das cidades banhadas pela Laguna de Araruama, a maior do mundo em hipersalinidade permanente. 

“Ouvi o que esses cenários diziam sobre minhas memórias, sempre borradas e fragmentadas”, comenta. “Refinaria” se trata dos processos contínuos de transformação e refino, tanto no território como na própria vida e no ato de escrever.  Segundo o autor, no poema isso se transforma em outro espaço, em outro tempo. E o texto é reescrito de acordo com as percepções de quem lê. Ele reflete: “O que me moveu, primeiro, foi me reconhecer como um poeta da restinga. Ou um poeta da orla, como escreve a Júlia Vita no prefácio.”

A figueira centenária da rua da infância de Rodrigo Cabral,, por exemplo, torna-se inspiração porque é um dos poucos elementos que permanecem em meio ao que se transforma. Os poemas se movem entre temas como a relação do autor com o pai, a paisagem local e as dinâmicas internas da memória. "O livro também trata da própria escrita, ao texto constantemente revisto, refeito e relido, em um processo contínuo de busca por significado", revela o escritor.

A tentativa de apreender o que está lá fora é um dos cernes da obra, mas isso não significa tentar captar a realidade exatamente como ela é. A proposta de Rodrigo é ir muito além disso. Sua intenção não é buscar compreender, tampouco simplesmente  decifrar, mas, sim, contemplar os processos de transformação de um território, de um indivíduo, de uma escrita. “Quero analisar com a ponta dos dedos aquilo que não evapora, aquilo que permanece”, reflete.

Os versos do livro equilibram a linguagem regional com uma universalidade poética, permitindo que os leitores encontrem pontos de conexão tanto com o cenário local quanto com as emoções e vivências humanas. Além disso, a obra faz referência à formação geológica da camada pré-sal e traça paralelos com a história da cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes, cidade natal do autor.


Rodrigo Cabral registra a refinaria

Rodrigo Cabral, 34 anos, nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) e cresceu em Cabo Frio (RJ), onde fundou a Sophia Editora. Sua escrita é fortemente influenciada pelas paisagens da Região dos Lagos e pelas memórias de infância, temas centrais de sua obra poética.

Em 2024, Rodrigo foi segundo colocado no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria Contos e finalista na categoria Poesia. No ano anterior, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa e, em 2022, foi também finalista do Prêmio Off Flip na categoria Poesia. Como editor, tem se dedicado a preservar e divulgar a história, a memória e o patrimônio cultural da região. “Refinaria” é seu primeiro livro publicado.

Sua principal referência para a escrita de sua obra de estreia foi  “Água-mãe”, livro do escritor paraibano José Lins do Rego, o primeiro romance do autor a ser ambientado fora da região Nordeste. “O escritor narra as paisagens daquela Cabo Frio com imagens arrebatadora, que envolvem as casuarinas, a figueira, a fantasmagórica casa azul, as barcaças de sal deslizando pela água e a Lagoa de Araruama, muitas vezes referenciada apenas como Araruama, espécie de entidade”, enumera. 

Além dele, destacam-se Olga Savary e Victorino Carriço, autores das duas epígrafes presentes no livro, e influência indireta de leituras de autores como Roberto Piva, Claudio Willer, Lawrence Ferlinghetti, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Ana Martins Marques, Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade. 

Perguntado sobre projetos futuros, Rodrigo disse que pretende continuar a atividade de refinaria que deu origem à sua primeira publicação: “ Meu desejo é escrever.”



Confira um trecho do livro:


a pulsação d’água 

contrai e expande 

o que a palavra refina

nos batimentos 

das remingtons 

debulhando botões

verdejando espasmos

na restinga das paráfrases

dos átrios e ventrículos 

para os vasos de alta salinidade 

onde ovos chocam

onde vogais e camarões 

ruborizam

onde aspas rebentam

no íntimo dos glóbulos 

n’aorta das sílabas 

enquanto o hífen-cateter 

da célula-mater

mantém o ritmo da criação

em gênese: arritmia” 


Adquira "refinaria" no site da Sophia Editora:

https://www.sophiaeditora.com.br/refinaria-de-rodrigo-cabral

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