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Resenha: Introdução ao estudo do léxico: Brincando com as palavras, de Rodrigo llari

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Resenha: Introdução ao estudo do léxico: Brincando com as palavras, de Rodrigo llari

Foto: Arte digital / Divulgação

 

APRESENTAÇÃO

Em um livro lúdico - e valendo-se da experiência e da qualidade de trabalho desenvolvido como um dos maiores linguístas brasileiros da atualidade - Rodolfo Ilari apresenta-nos uma grande obra sobre as possibilidades de estudo das palavras no português do brasileiro. Mais do que isso: Ilari nos faz percorrer o caminho do jogo, perceber nas construções mais cotidianas (como a piada entre amigos ou o jogos de adivinha) os mecanismos de que o falante se utiliza na construção da linguagem. Homônimos, sinônimos, antônimos, ambiguidades e anglicismos são alguns dos assuntos abordados nesta obra fundamental para alunos de Letras, professores de Português e demais interessados em compreender nossa língua mais a fundo.


RESENHA


O livro "Introdução ao estudo do léxico - brincando com as palavras" de Rodolfo Ilari aborda a importância das palavras na construção de mensagens linguísticas com foco no significado. O autor, conhecido por sua expertise na linguagem, conduz os leitores a uma reflexão sobre a linguagem, visando preparar futuros professores para ensinarem de forma crítica e independente. Ilari destaca-se pela profundidade de seus conhecimentos, versatilidade na ciência da linguagem e preocupação com o ensino de língua e formação de professores. O livro é um guia essencial para quem busca compreender e ensinar a linguagem de forma eficaz.


Em 'ambiguidade', o autor aborda a ambiguidade na linguagem, que consiste na característica das sentenças que apresentam mais de um sentido. São mostrados diversos fatores linguísticos que podem gerar ambiguidades, como a possibilidade de uma sentença ter duas análises sintáticas diferentes, um pronome com dois antecedentes, uma palavra com dois sentidos diferentes, um mesmo operador aplicado de duas maneiras diferentes, entre outros. Além disso, a ambiguidade também pode decorrer da dificuldade em discernir se as palavras foram utilizadas de forma literal ou indireta. O texto propõe um teste para identificar a ambiguidade em sentenças e apresenta exemplos de manchetes de jornais ambíguas. A atividade proposta é relatar um caso de interpretação equivocada de uma informação ou ordem, e é sugerida uma série de exercícios para analisar a ambiguidade em manchetes de jornais.


Em 'anglicismo', aborda o fenômeno dos anglicismos no português do Brasil, que são palavras e construções gramaticais que foram incorporadas do inglês ao longo do tempo. Essa incorporação acompanha a assimilação de artefatos, tecnologias e hábitos que esses termos nomeiam. Muitas palavras foram recebidas do inglês nos séculos XIX e XX, especialmente ligadas ao vestuário, comércio, esporte, cinema e tecnologia. Um exemplo é a informática, que trouxe uma grande quantidade de anglicismos para o português do Brasil. O texto também apresenta exercícios para identificar e compreender o significado de anglicismos em diversas áreas, como política, esporte e produção. Além disso, explora a origem e curiosidades de palavras inglesas incorporadas à língua portuguesa.


No capítulo 'antonímia',  o autor explica que antonímia é a exploração de palavras e frases que podem ser colocadas em oposição, com o objetivo de enriquecer a reflexão e a expressão. Antônimos são palavras que se referem a realidades opostas, como ações, qualidades, relações, entre outros. Essas oposições podem ter fundamentos diferentes, como diferentes posições numa mesma escala, início e fim de um mesmo processo ou diferentes papéis numa mesma ação. A antonímia pode ser encontrada em substantivos, adjetivos, verbos, advérbios, preposições, entre outros. Além disso, textos podem construir oposições entre palavras e expressões que não consideramos como antônimas. Atividades e exercícios são propostos para explorar esse recurso na linguagem.


O capítulo 'arcaísmo', somos levados à compreensão de que são expressões que caíram em desuso na língua, refletindo um estado mais antigo. Podem ser encontrados em diversos domínios da língua, como no vocabulário, morfologia e sintaxe. O uso de arcaísmos é mais comum na literatura e em autores que fazem do arcaísmo um recurso de estilo. Palavras e construções se tornam arcaicas devido a objetos, técnicas e hábitos em desuso, ou pela perda de ligação com outras palavras de origem comum. Exemplos de arcaísmos incluem expressões como "senhor" em substituição a "senhora", ou a palavra "dulcidão" em vez de "doçura". Além disso, foi apresentado um trecho de uma carta do século XVIII como exemplo de arcaísmos e foram propostos exercícios para identificar e compreender o uso de arcaísmos.


Foto: Arte digital / Divulgação


No capítulo 'campos lexicais', o autor esclarece que campos lexicais são conjuntos de palavras que nomeiam experiências semelhantes, como cores ou animais. A organização desses campos pode ser feita por meio da análise componencial, que quebra a significação das palavras em unidades menores, ou pela análise por protótipos, identificando indivíduos representativos da categoria. Exercícios propostos envolvem a aplicação desses conceitos, como associar marcas a produtos, distinguir palavras com traços específicos, e criar gráficos ou diagramas com palavras relacionadas. Além disso, é discutida a relação entre antigos fabricantes e marcas após fusões de empresas.


Em '(In-) compatibilidades entre partes de uma sentença',  aborda as incompatibilidades entre as partes de uma sentença, tanto no aspecto linguístico quanto no prático. São apresentados exemplos de combinações de palavras que causam estranheza ou não fazem sentido, devido às restrições de seleção lingüística. Além disso, são propostos exercícios práticos para identificar e compreender essas incompatibilidades, como completar frases corretamente, identificar coletivos, interpretar anúncios imobiliários e analisar diálogos que apresentam equívocos de entendimento. Através dessas atividades, mostra-se a importância de compreender as restrições de seleção nas sentenças para uma comunicação eficaz.


Em  'definições',  aborda a importância de formular definições claras e corretas, destacando os defeitos mais comuns encontrados nesse tipo de texto. Ele mostra exemplos de definições bem formuladas e ressalta que uma boa definição ajuda a aumentar o vocabulário, eliminar ambiguidades e tornar preciso o uso de palavras vagas. São apresentadas características do que uma boa definição não deve ser, como uma simples enumeração de exemplos, definições circulares, obscuras, amplas, estreitas, figuradas, negativas e atividade de resolução de exercícios sobre definições.


Em 'Distribuição: os constituintes da oração',  aborda a distribuição dos constituintes da oração, destacando a importância da combinação de palavras de acordo com esquemas sintáticos conhecidos intuitivamente pelos falantes da língua. São apresentadas noções como oração bem formada, distribuição e constituinte, ilustradas com exemplos. São propostos exercícios para prática e análise da distribuição dos constituintes em frases, bem como sugestões de atividades e testes para aplicação prática dos conceitos apresentados.


Em 'estrangeirismos', explica que estrangeirismos são palavras ou expressões de outras línguas que são incorporadas ao português ao longo da sua história. Essa influência linguística enriquece a língua, mas também gera polêmicas e debates sobre a preservação do idioma. O uso de estrangeirismos é visto como uma forma de enriquecimento, mas também pode ser considerado um vício de linguagem. Além disso, existem projetos de lei, como o Projeto de Lei No 1676/99, que buscam regular o uso de palavras estrangeiras no Brasil. Argumentos contrários ao uso excessivo de estrangeirismos incluem a proteção da integridade da língua e a valorização do idioma nacional.


Em 'etimologia', o autor esclarece que etimologia é o estudo da origem das palavras e pode ser científica ou popular. A etimologia científica investiga a origem das palavras de forma histórica, mostrando a continuidade entre a forma e o sentido atual das palavras e suas formas mais antigas. Já a etimologia popular é uma prática não científica onde as pessoas modificam as palavras para explicar sua significação. A língua portuguesa no Brasil possui palavras de várias origens, como latina, grega, germânica, árabe, indígena e africana, além de palavras emprestadas de outras línguas ao longo dos séculos. A formação de novas palavras a partir de palavras pré-existentes na língua é um mecanismo importante na evolução da língua. Diversos exercícios são propostos para explorar a etimologia e a formação de palavras.


Em 'flexão nominal',  aborda a flexão nominal, que engloba variações de gênero, número e grau em substantivos e adjetivos. São apresentados exemplos de flexões e atividades para refletir sobre o tema, como a formação do feminino de palavras, o uso de adjetivos no comparativo e superlativo, e a intensificação de adjetivos. Também é discutida a diferença entre o uso genérico e específico do singular em manchetes de jornais.


Em 'Formação de palavras novas e sentidos novos na língua',  discute os principais processos de formação de palavras na língua portuguesa, como a sufixação, a prefixação e a composição. Ele também destaca a criação de novos sentidos para palavras já existentes. São apresentados exemplos de palavras formadas por esses processos, assim como atividades e exercícios para explorar a criação de novas palavras e significados na língua. Além disso, são mencionados neologismos que surgiram nos últimos anos.


Em 'Homonímia',  trata da homonímia, que são palavras que se pronunciam da mesma maneira, mas têm significados distintos. Exemplos dados incluem palavras que pertencem a classes gramaticais diferentes e palavras que se escrevem de maneiras diferentes. Apesar de causar ambiguidade, o contexto geralmente elimina as dúvidas causadas pela homonímia. O texto também apresenta atividades para identificar palavras de duplo sentido e explorar piadas e brincadeiras que utilizam a homonímia. Por fim, inclui um exercício que exemplifica como a interpretação de uma pergunta pode variar de acordo com o sentido de uma palavra.


Em 'Motivação icônica',  discute a motivação icônica na linguagem, que se baseia na relação entre forma e sentido. São apresentados exemplos de como essa motivação é utilizada na comunicação, como na onomatopeia, na ordem do texto e na proximidade das formas. Um experimento realizado por um psicolinguista é descrito para exemplificar como a linguagem pode ser intrinsecamente motivada. São propostos exercícios para explorar a motivação icônica na linguagem, como identificar nomes de pássaros que imitam a voz do próprio pássaro e analisar a representação de diferentes ruídos e sons na linguagem. O texto também discute a distinção entre onomatopeia primária e secundária, citando exemplos de como a linguagem pode ser icônica e simbólica em diferentes idiomas.


Em 'Nexos entre orações',  discute a possibilidade de estabelecer nexos entre orações para compreender melhor o papel das conjunções. Tradicionalmente, orações são descritas na sintaxe do período como coordenação e subordinação. São apresentados exemplos de conversão de orações em elementos substantivos, adjetivos e adjuntos. Além disso, são propostos exercícios práticos para identificar e analisar o uso de conjunções em diferentes contextos.


Em 'números',  aborda a importância dos números na nossa vida cotidiana, especialmente na linguagem. Os diferentes tipos de numerais são discutidos, assim como suas aplicações em diversas construções linguísticas. São propostos exercícios práticos para explorar a relação entre números e palavras, como analisar expressões que contêm numerais, realizar conversões de unidades de medida e refletir sobre o uso de numerais em diferentes contextos. O texto também destaca a presença de antigos numerais em formações linguísticas atuais e aborda a importância de interpretar corretamente informações numéricas em notícias e manchetes.


Em 'As palavras-pro', aborda o uso dos pronomes na língua portuguesa, questionando a ideia tradicional de que os pronomes "substituem" os nomes. Além disso, apresenta exemplos de diferentes usos dos pronomes, como identificar os participantes de um diálogo e funcionar como variáveis matemáticas. O texto também propõe atividades, como analisar diálogos e redigir regulamentos de jogos, que envolvem o uso correto dos pronomes na língua portuguesa.


Em 'Reconhecimento de formas de um mesmo paradigma flexional',  aborda a importância do reconhecimento de formas de um mesmo paradigma flexional, como verbos, substantivos e adjetivos, para fortalecer a noção de paradigma de conjugação. São apresentados exemplos de como identificar essas formas e exercícios para praticar esse reconhecimento, além de reflexões sobre a irregularidade da flexão, a utilização de adjetivos e verbos e a relação entre diferentes formas verbais. Diversos exemplos e atividades são propostos ao longo do texto para exemplificar e aprofundar o tema.


Em 'Polissemia',  aborda o conceito de polissemia, que se refere aos diferentes sentidos que uma mesma palavra pode assumir, tornando-a apta a ser utilizada em diferentes contextos. A polissemia é contrastada com a homonímia, pois para que haja polissemia é preciso que haja uma única palavra, enquanto a homonímia envolve mais de uma palavra. Além das palavras, a polissemia também afeta construções gramaticais. O texto apresenta exemplos de diferentes sentidos da palavra "velar" e propõe exercícios para explorar a diversidade de significados das palavras em diferentes contextos.


Em 'Predicados de predicados; predicados de eventos',  aborda a ideia de predicados de predicados e predicados de eventos, apresentando exemplos e diferentes formas de modificação dos predicados em uma frase. São discutidos também os diferentes tipos de advérbios, locuções adverbiais e verbos que podem ser utilizados para modificar predicados. Por fim, são propostos exercícios relacionados à aplicação dos conceitos discutidos no texto.


Em 'Sinonímia',  aborda a distinção entre substantivos contáveis e não-contáveis e explora o uso eficaz de ambos. Substantivos contáveis designam objetos discretos que podem ser contados no plural, enquanto os não-contáveis designam porções de substância que não são contáveis no plural. São fornecidos exercícios práticos para compreender essa distinção, como identificar palavras contáveis e não-contáveis em textos, completar frases com palavras adequadas do par, entre outros.


Em 'Sufixos', o autor esclarece que sufixos são unidades significativas adicionadas à direita de um radical para formar novas palavras. Existem diversos sufixos na língua portuguesa, como -ismo, -ista, -ando, -ento, -ável, -udo, entre outros. Eles podem ter mais de um sentido e são utilizados para formar palavras de classes específicas. Um exemplo é o sufixo -izar, que forma verbos transitivos a partir de substantivos e adjetivos. Alguns sufixos, como -ismo, -ista, -ável, podem indicar uma opinião negativa em certas palavras. Os sufixos não são aplicados aleatoriamente e cada um se aplica a palavras de uma classe determinada, criando palavras também de classes específicas.


Em 'termos genéricos e termos específicos',  discute a diferença entre termos genéricos e termos específicos, mostrando que os termos genéricos são mais abrangentes, enquanto os termos específicos são mais precisos. Ele exemplifica essa ideia com o uso de hipônimos e menciona a importância de usar termos específicos para fornecer mais informações sobre um objeto. Em seguida, propõe exercícios para praticar a distinção entre termos genéricos e específicos. Além disso, apresenta situações cotidianas em que o uso de termos genéricos pode gerar problemas de comunicação. Por fim, inclui uma anedota e uma questão de vestibular que abordam o tema.


Em 'Variação diastrática e de registro',  aborda a variação diastrática e de registro na linguagem, destacando a convivência de diferentes variedades linguísticas na sociedade brasileira e a influência de fatores como a educação formal e a informalidade da situação de fala. Apresenta características do português substandard, como a tendência a tornar paroxítonas as palavras proparoxítonas, redução de ditongos, trocas de letras e o uso de formas específicas. Além disso, discute a importância do registro na linguagem, que varia conforme a situação de comunicação, como o número de participantes, formalidade, assunto e veículo de comunicação. Também menciona as linguagens próprias de grupos sociais, como gírias e expressões técnicas, e propõe atividades e exercícios para reflexão sobre essas questões.


O livro "Introdução ao estudo do léxico - brincando com as palavras" de Rodolfo Ilari é uma obra completa e essencial para quem deseja compreender de forma profunda a linguagem e o significado das palavras. O autor, com sua vasta experiência na área, conduz os leitores em uma jornada reflexiva sobre diversos aspectos da linguagem, preparando futuros professores de forma crítica e independente. Os capítulos abordam temas como ambiguidade, anglicismos, antonímia, arcaísmo, campos lexicais, incompatibilidades entre partes da sentença, entre outros, proporcionando uma visão abrangente e enriquecedora sobre o léxico. Os exemplos e exercícios propostos ao longo do livro são um grande diferencial, permitindo aos leitores uma compreensão prática e aprofundada dos conceitos apresentados. Em suma, o livro é uma fonte de conhecimento indispensável para quem busca aprimorar sua compreensão e ensino da linguagem de forma eficaz.

Resenha: O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos, de Rodrigo llari e Renato Basso

Foto: Arte digital / Divulgação


APRESENTAÇÃO

O português do Brasil é falado por mais de 170 milhões de pessoas em um imenso território, mas muita gente teima em afirmar que ele não existe, ou, pior, não deveria existir. Ilari e Basso, seguindo uma tradição iniciada nos anos 20 por Mário de Andrade e Amadeu Amaral, oferecem-nos, em O português da gente, um estudo da língua que nós falamos e que pouco a pouco vai conquistando seus direitos. Este é um livro para ler, estudar e discutir, na sala de aula e fora dela.

RESENHA

ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato. O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 151-196.

O livro 'o português da gente' aborda a língua portuguesa falada no Brasil, com o objetivo de apresentar informações sobre sua história, variedades e desmistificar preconceitos. Os autores enfatizam a importância de entender a variabilidade linguística como um fato natural. O conteúdo inclui exposições temáticas, encartes sobre variedades do português e uma cronologia de eventos relevantes para o desenvolvimento da língua no Brasil. O livro não busca impor respostas, mas sim propor boas perguntas para que os leitores possam aprofundar seu conhecimento sobre o assunto. É destinado a estudantes, professores e a todos que se interessam pela língua portuguesa.

O português foi implantado no Brasil pela colonização portuguesa, que começou com o descobrimento da terra por Pedro Álvares Cabral em 1500. As origens da língua remontam ao ano 1000, com a formação da nação portuguesa e o desenvolvimento de uma língua própria. A língua portuguesa deriva do latim vulgar, que foi uma variedade falada do latim romano durante o Império Romano. Os movimentos de Reconquista na Península Ibérica também tiveram influência na diferenciação do português e na expansão da língua para o Brasil. A convivência entre árabes e cristãos também influenciou a língua, resultando em palavras de origem árabe presentes no português. Ao longo dos séculos, a língua portuguesa se desenvolveu e se diferenciou em relação às outras línguas românicas, mantendo sua identidade e riqueza linguística.


Foto: Arte digital / Divulgação



O português chegou ao Brasil no século XVI e se expandiu ao longo dos séculos através da ocupação territorial, incorporando novas regiões ao país. A formação do território nacional foi marcada por ciclos econômicos e movimentos de exploração e colonização. A expansão territorial do português resultou na formação do maior país de língua portuguesa em extensão territorial e número de falantes. O processo de ocupação foi feito por um português marcado por influências de línguas indígenas e africanas, resultando na difusão de línguas como o nheengatu. As disputas territoriais na região sul do Brasil e mudanças de mãos de cidades e regiões resultaram em situações linguísticas complexas. O Tratado de Madri dividiu a região dos rios Uruguai e Prata entre Portugal e Espanha, culminando nas Guerras Guaraníticas. Na Amazônia, a aquisição do Acre foi marcada pela construção da ferrovia Madeira-Mamoré, envolvendo trabalhadores de diversas origens linguísticas.

O autor também discute algumas características do português brasileiro, destacando diferenças em relação ao português europeu. Aponta que o português do Brasil é considerado uma "língua mais antiga" do que o português europeu, através de análises filológicas. O texto também aborda a influência de diferentes pronúncias e construções sintáticas, além de características fonéticas e fonológicas específicas do português brasileiro. Também explora as flexões dos verbos e dos nomes na língua, apontando diferenciações em relação às demais línguas românicas e a presença de algumas irregularidades linguísticas.

O capítulo que mais me chamou atenção foi Português do Brasil: a variação que vemos e a variação que esquecemos de ver,  abordando a variação linguística do português do Brasil, destacando a existência de nacionalismo na afirmação da uniformidade da língua, mas ressaltando que a variação é um fenômeno normal. São apresentadas as variações diacrônica, diatópica e diastrática da língua, enfatizando que o português brasileiro não é uniforme. São citados exemplos de variação diatópica do português brasileiro, mostrando a influência das migrações internas no país. Há também a análise de anúncios do século XIX, evidenciando as mudanças linguísticas ao longo do tempo.

Já em Linguística do português e ensino,  aborda a relação entre a linguística do português e o ensino da língua materna, destacando a importância da estandardização e da fixação de uma norma para a estabilidade da língua. Fala-se também sobre a ortografia do português ao longo da história, destacando os processos de evolução e as reformas ortográficas. Além disso, são abordados o papel dos lexicógrafos na fixação da língua, a importância dos dicionários na normatização do vocabulário e a história da lexicologia do português, com destaque para autores brasileiros. É destacada a importância da ortografia, do dicionário e do registro civil das palavras na normalização da língua portuguesa.

Em síntese, o livro aborda a evolução do português, desde sua origem em Portugal até sua chegada ao Brasil, destacando a influência de diferentes povos na formação do português brasileiro. Discute também a coexistência de duas normas linguísticas, a culta e a substandard, e questiona a abordagem da escola em relação a essa última. Destaca a importância de compreender e valorizar a diversidade linguística, além de combater o preconceito linguístico e promover a inclusão social. O livro enfatiza a importância de amar, conhecer e estudar o português brasileiro, buscando compreender sua história e sua diversidade, em vez de simplesmente impor regras e correções. O livro "O Português da Gente" é uma obra extremamente relevante e esclarecedora sobre a língua portuguesa falada no Brasil. Os autores conseguem apresentar de forma clara e acessível informações sobre a história e as variedades linguísticas do português brasileiro, desmistificando preconceitos e enfatizando a importância de compreender a variabilidade linguística como algo natural. Além disso, o livro propõe boas perguntas aos leitores, estimulando o aprofundamento do conhecimento sobre o assunto. Destinado a estudantes, professores e a todos que se interessam pela língua portuguesa, a obra é fundamental para ampliar a compreensão da riqueza linguística do país. Em suma, "O Português da Gente" é uma leitura enriquecedora e esclarecedora, que contribui significativamente para a valorização e o entendimento do português brasileiro.

Resenha: TOXIC: Mulheres, fama e a misoginia dos anos 2000, de Sarah Ditum

Foto: Arte digital


APRESENTAÇÃO


Britney, Paris, Lindsay, Aaliyah, Janet, Amy, Kim, Chyna, Jennifer. Em Toxic: Mulheres, fama e a misoginia dos anos 2000 , a jornalista Sarah Ditum descreve como cada uma delas sofreu por ser uma celebridade em uma das épocas mais hostis para ser mulher.

Considerando o período entre 1998 e 2013, o livro de Ditum mostra como a cultura de celebridades considerava aceitável difamar mulheres, revirando a vida delas de cabeça para baixo, porque, afinal, ser “famosa” significava não ter privacidade. Tudo era assunto para os tabloides, desde a virgindade de Britney Spears, o divórcio e a fertilidade de Jennifer Aniston, as consequências do vício de Amy Winehouse, ao fatídico show de Janet Jackson no Super Bowl... O limite do que temos como tolerável hoje em dia era constantemente ultrapassado em todos os casos discutidos.

Com escrita afiada, Toxic destrincha a misoginia que estampava as manchetes e impulsionava vendas e cliques. Ainda adolescente na época retratada neste livro, a autora levanta a questão: tivemos conquistas nos últimos vinte anos, como leis contra crimes virtuais e uma forma mais empática de ver o outro, mas talvez, com a cultura de cancelamento, será que as coisas mudaram tanto assim?


RESENHA


Toxic narra os problemas de gênero na sociedade e a forma com a qual os crimes sexuais ou de violação de espaço no universo das celebridades femininas nos anos 2000 foram crescendo em uma escala acelerada e jamais vista antes, sobretudo, pelo advento dos celulares com câmeras digitais, onde, de certa forma, todos estavam com seu espaço privado inundado pela ausência de responsabilidade jurídica, retirando assim, a culpa da invasão de privacidade dos homens, que eram, em sua maioria, os grandes responsáveis pelos atos. Para ilustrar a raiz do problema, a autora narra um episódio ocorrido em 2006, quando uma jovem anônima teve a parte debaixo de sua saia fotografada sem sua permissão, o que levou a prisão do indivíduo, que foi, posteriormente inocentado sobe a desculpa de que 'a pessoa fotografada não estava em local com expectativa razoável de privacidade', em outras palavras,  a privacidade não lhe assegurada em ambientes públicos, uma vez, que, não se espera este direito em um ambiente público de livre circulação, onde, claro, estamos aptos a nos deparar e até mesmo presenciar situações constrangedoras como esta. A nota do júri foi replicada em outros casos, o que deixou as mulheres em uma situação desfavorável e complicada em relação à sua privacidade.


Ela ainda explica que, o site, Fleshbot, responsável por replicar fotos debaixo das saias de mulheres famosas sempre se postulavam como 'inocentes', uma vez, que, as mulheres famosas sempre mostram 'sem querer' suas partes famosas para os paparazzis é, justamente, de forma proposital, afinal, que jeito melhor de chamar a atenção da mídia para se manter no estrelato? Após o ocorrido, sites que divulgam fotos de mulheres seu seu consentimento as levando ao constrangimento, perseguições de paparazzis e apoio da rede jurídica, este problema se tornou cada vez mais avassalador, uma vez, que, tornou-se demasiadamente complicado evitar que situações como essas ocorressem, uma vez, que, o tempo, normalizaria tudo. Emma Watson, atriz da série de filmes Harry Potter, comenta ao Daily Mail que em seu aniversário de 18 anos, na época, fora inundado por fotógrafos que empenhavam-se cada vez mais em tirar fotos de si com o semblante de bêbada, sobretudo, debaixo de suas saias, alguns, até deitando no chão. Ela comenta como isso se tornou um problema que a fez duvidar de sua privacidade e se sentir extremamente violentada.


Ditum explora como a cobertura negativa dessas mulheres afetou não apenas elas, mas também as mulheres que as consumiam. Com o advento das redes sociais, as celebridades ganharam mais controle sobre suas narrativas, mas ainda enfrentam desafios em relação à privacidade.


A jornalista britânica Ditum começa seu ensaio analisando o início da carreira de Britney Spears, cujo álbum de estreia “…Baby One More Time” foi lançado em 1998. Segundo a autora, o sucesso da estrela pop era baseado em sua capacidade de combinar sensualidade e inocência, especialmente por ter sido uma ex-membro do Mickey Mouse Club que usava um anel de pureza. A questão da virgindade de Spears era constantemente discutida, culminando em uma entrevista polêmica com Diane Sawyer, na qual a cantora foi levada às lágrimas ao falar sobre sua vida sexual. Ditum destaca que o tema do sexo foi tratado de forma séria e sombria, fazendo com que Spears se sentisse pressionada a se desculpar publicamente.


A autora também destaca a diferença entre celebridades como Spears e Lindsay Lohan, que se tornaram famosas antes da era digital; Paris Hilton, que se tornou uma estrela durante essa revolução; e Kim Kardashian, que se destacou depois que smartphones e a pornografia na internet se popularizaram. No segundo ensaio, Ditum se concentra em Hilton, a herdeira que ganhou destaque como socialite em 1999. A autora retrata Hilton como uma jovem empreendedora e adaptável, que entendia que seu papel na mídia era representar um estilo de vida privilegiado.


Sobre Kardashian, Ditum comenta que sua busca pela fama ocorreu no final da década, o que lhe permitiu utilizar a internet a seu favor, ao invés de ser prejudicada por ela. A autora destaca a habilidade de Ditum em trazer novos insights sobre figuras conhecidas, além de sua capacidade de argumentar sobre a importância de ídolos e bodes expiatórios na sociedade, como no caso da comunidade negra em resposta ao abuso de R. Kelly.


O livro Toxic: Mulheres, fama e a misoginia dos anos 2000, de Sarah Ditum, é uma leitura extremamente relevante e necessária para entendermos como a cultura de celebridades tratava as mulheres durante essa época. A autora apresenta uma análise afiada e perspicaz sobre os problemas de gênero na sociedade e como isso afetava as celebridades femininas, como Britney Spears, Paris Hilton, e Kim Kardashian. Ditum expõe de forma corajosa e incisiva a misoginia que permeava a cobertura midiática dessas mulheres, mostrando como a invasão de privacidade, o julgamento público e a objetificação eram constantes em suas vidas. Além disso, ela destaca o impacto que essa cobertura negativa tinha não só sobre as celebridades em si, mas também sobre as mulheres que consumiam essa mídia.


Com uma escrita envolvente e argumentos bem fundamentados, Ditum nos faz refletir sobre como a cultura de celebridades mudou ao longo dos anos e se as conquistas em termos de leis e empatia realmente foram suficientes para proteger as mulheres no mundo do entretenimento. Toxic é uma obra que nos faz questionar o papel da mídia e da sociedade na forma como tratamos as mulheres famosas e nos faz repensar nossos próprios preconceitos e julgamentos.

Três poemas de Rodrigo Cabral

Foto: Acervo pessoal // Divulgação

Rodrigo Cabral, nascido em Campos dos Goytacazes (RJ) no verão de 1990, fundou a editora Sophia em Cabo Frio (RJ). A editora tem como foco a publicação de autores da Região dos Lagos, com ênfase na história e memória locais. O espaço cultural da editora promove uma extensa programação literária, incluindo círculos de leitura, saraus, debates e lançamentos. Em 2024, Rodrigo conquistou o segundo lugar no Prêmio Off Flip na categoria Contos e foi destaque na categoria Poesia. No ano anterior, em 2023, ficou em terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa e em 2022 foi finalista do prêmio Off Flip na categoria Poesia. Atualmente, está se preparando para lançar seu primeiro livro de poemas em 2024.


Confira três poemas do autor.



monóculo fotográfico



atrás 

do vidrinho

a vida solta

sinais de fumaça

pelas montanhas


atrás

do vidrinho

pigmentos

descascam

fabricações

premonitórias


atrás

do vidrinho

remadores rumam

à boca da barra

pronunciando

caymmi


atrás

do vidrinho,

meu velho,

eu sou

hoje

o seu 

tórax





dobradura 


eu construo barcos

você me fornece o atlântico

eu transformo chapéu em proa

crio tormentas com mindinhos

meu barco é firme

está afundando

você sorri

orgulhosa







canção


a vibração das cordas

o aço das ondas

a bruma na boca


   : é o céu

   : é o corpo

   : é o súbito


Resenha: Em agosto nos vemos, de Gabriel García Márquez

Foto: Arte digital

 

APRESENTAÇÃO

Todo mês de agosto, Ana Magdalena Bach pega uma barca para uma ilha caribenha a fim de colocar um ramo de gladíolo no túmulo de sua mãe. Todos os anos, ela se hospeda em um hotel e, antes de dormir, desce para comer algo no bar. Para não ter erro, ela pede sempre o mesmo sanduíche de presunto e queijo e depois sobe para seus aposentos. Até que, certa vez, um homem a convida para uma bebida. E, depois do primeiro gole de seu gim com gelo e soda, sentindo-se atrevida, alegre, capaz de tudo ― inclusive de se despir de suas amarras conjugais, esquecendo momentaneamente marido e filhos ―, ela cede aos avanços do desconhecido e o leva para seu quarto.

Essa noite específica faz com que Ana Magdalena ― e sua vida ― mude para sempre. E, depois dessa experiência, ela passa a ansiar por cada mês de agosto, quando não apenas visita o túmulo de sua mãe como também tem a chance de escolher um amante diferente todos os anos.

Escrito no estilo fascinante e inconfundível de um dos maiores ícones da literatura latino-americana, Em agosto nos vemos pinta o retrato de uma mulher que descobre seus desejos e se aprofunda em seus medos. Uma preciosidade que vai encantar fãs do saudoso Gabo, assim como novos leitores desse grande escritor.


RESENHA


A narrativa nos apresenta a personagem principal, Ana Magdalena Bach, uma mulher de quarenta e seis anos que retorna à ilha onde sua mãe está enterrada. Através de uma descrição detalhada de suas ações e pensamentos, somos levados a conhecer um pouco mais sobre a vida e os sentimentos dessa mulher solitária e introspectiva.


Ana Magdalena Bach é retratada como uma mulher reservada, de poucas palavras, que mantém uma rotina anual de visitas à ilha para prestar homenagem à sua mãe falecida, onde se desnuda de seus compromissos, filhos, matrimônio - e de toda história deixada para trás. No entanto, nessa viagem em particular, ela se envolve em um encontro inesperado com um homem misterioso no hotel em que está hospedada.


Seu nome era Ana Magdalena Bach, tinha completado quarenta e seis anos de vida e vinte e sete de um matrimônio bem estabelecido com um homem que amava e que a amava, com quem se casou sem terminar o curso de Artes e Letras, ainda virgem e sem ter namorado antes. A mãe tinha sido uma célebre professora de escola primária montessoriana que, apesar de seus méritos, não quis ser outra coisa até o último suspiro. Ana Magdalena herdou dela o esplendor dos olhos dourados, a virtude das poucas palavras e a inteligência para controlar seu temperamento [...] (p.17).


O encontro entre Ana Magdalena e o homem desconhecido é descrito de forma sensual e delicada, mostrando a vulnerabilidade e a ousadia da personagem. A autora nos leva a acompanhar a intimidade revelada entre os dois, em meio a uma tempestade que ecoa as paixões e conflitos internos da personagem.


[...] só restavam três casais em mesas dispersas, e, bem na frente dela, um homem distinto que não tinha visto entrar. Usava linho branco, os cabelos metálicos. Tinha na mesa uma garrafa de brandy, uma taça pela metade e parecia estar sozinho no mundo. [...]  Achou que o homem da mesa da frente não a tinha visto, mas o surpreendeu observando-a quando o fitou pela segunda vez. Ele enrubesceu [...] Ela se apressou em atacá-lo com beijos suaves na orelha, no pescoço, ele a procurou com os lábios e os dois se beijaram na boca pela primeira vez.  (p.19 - 22).


Após a aventura, ela se depara com a partida repentina do homem e a solidão que se segue para Ana Magdalena, evidenciando a efemeridade dos momentos de prazer e a complexidade das relações humanas. - Só então se deu conta de que não sabia nada dele, nem mesmo o nome, e a única coisa que restava de sua noite louca era um triste cheiro de lavanda no ar purificado pela borrasca. Só quando apanhou o livro na mesinha de cabeceira para guardar na maleta foi que percebeu que ele havia deixado entre suas páginas de terror uma nota de vinte dólares. (p. 23)


Com uma prosa cuidadosamente construída e um olhar apurado para as emoções e desejos dos personagens, o livro nos envolve em uma história de encontros fugazes e descobertas pessoais. A personagem de Ana Magdalena Bach, com sua dualidade entre a responsabilidade cotidiana e a busca por conexões emocionais, se revela como um retrato fascinante da condição humana.


Magdalena sente durante o retorno à barca, que jamais voltaria a ser a mesma mulher após aquele encontro. Como lidar com um encontro efêmero que nos marca profundamente, e talvez, para sempre? Ao retornar para sua rotina em casa, ela percebe que tudo está diferente, e que algo havia mudado, o que a faz começar analisar sua casa e a rotina fio por fio, até entender, em certo ponto, que ela é quem havia mudado de dentro para fora.


Embora não estivesse ciente das razões de sua mudança, tinha algo a ver com a nota de vinte dólares que levava na página cento e dezesseis de seu livro. Ela tinha padecido com um sentimento insuportável de humilhação e sem um instante de sossego. (p.25)


Ela então sente-se, em partes, culpada por sua aventura, o que a faz confrontar seu marido sobre a noite anterior, o fazendo ficar sem entender nada. A conversa se extende até banheiro onde ambos se deliciam com a água correndo pelo corpo. Ele se chamava Doménico Amarís, um homem descrito como extremamente educado, bonito, fino e muito bem estruturado financeiramente. O relacionamento de ambos toma contornos de tensão e desconfiança, enquanto ela, Ana Magdalena, culpabiliza os recentes comportamentos de sua filha rebelde, Micaela, pelo ocorrido, o que claro, é rebatido pelo marido: você voltou assim.


— Fiz alguma coisa errada? — Não sei, porque nem eu mesma tinha percebido — respondeu ela, com o temperamento que tanto assombrava o esposo. — Mas talvez você tenha razão. Não será a impertinência de Micaela? — É anterior a isso — disse ele. E se atreveu a dar o passo final: — Você chegou da ilha assim.


Após este episódio, Ana Magdalena Bach, viaja novamente para ilha para visitar o túmulo de sua mãe, onde, por ironia do destino, é convidada por um homem jovial à dançar, ao qual ela, conhecedora da dança e suspeita da idade dele, o guia pelo salão. Eles tomam champanhe e ela o segue até o quarto em um encontro casual e quente descrito com o tecido mais leve e fino da sensualidade dos encontros casuais. Mais tarde, ela encontrou o homem do ano seguinte, na barca que a levava para a ilha. 


Ana Magdalena Bach encontra o advogado Aquiles Coronado no barca para a ilha, onde relembram sua longa amizade e flertam discretamente, tentando seduzir-la ao longo dos anos, mas ela mantém a amizade sem ceder às investidas amorosas.


Ela retornou para casa e confrontou o marido com inúmeras perguntas, tentando descobrir se ele encobriria, de alguma forma, um episódio de traição enquanto sentia um peso na consciência pelo acordo silencioso que nutririam à anos quando se casaram, tinha dito a ele que não se importaria se ele fosse para a cama com outra, com a condição de que não fosse sempre com a mesma, ou que fosse só uma vez. Após indagá-lo sobre como fora o procedimento dele em relação à aventura fora do casal, ambos acabaram em risos frenéticos, mas não sem antes, ela se esvair em fúria e ódio.


Ao regressar no ano seguinte à ilha, Ana se depara com a ajuda de um estranho para conseguir um novo quarto, desta vez, em um outro hotel. Eles se encontraram e ela se deleitou em como ele a tratou com tanto amor e suavidade, mas acabou rasgando seu cartão de visitas no final da noite para não sobrar rastros de suas aventurais anuais. Ela então regressa para casa, sente a indiferença da família devido aos inúmeros compromissos do marido com o trabalho, do filho com a música e da filha pela vida no convento. Ela então começa a refletir sobre como os encontros inundavam a forma com a qual ela enfrentava o relacionamento e enxergava a si própria, ela então retoma à ilha no ano seguinte decidida a acabar com as aventuras de uma noite só. O enredo se acaba com uma cena pouco provável ou imaginada pelos leitores, mas que evoca, em uma única linha, o âmago das decisões bem pensadas. 


Um enredo poderoso e poético que Garcia Márquez nos deixou de forma tão abrupta. Um enredo que desdobrou-se a explorar as relações e o âmago das nossas escolhas e a forma com a qual entendemos e compreendemos as nuances que a cobrança da culpa nos impõe no dia a dia. A prisão que cultivamos em nossas escolhas e nos pensamentos, a forma como dirigimos e digerimos nossa vida e a forma com a qual nos relacionamentos com nosso interior. Poderoso e implacável, certamente, um último livro incrivelmente arrebatador.

Resenha: Declaração de amor, de Carlos Drummond de Andrade

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APRESENTAÇÃO


Lançado pela Editora Record em 2005, Declaração de amor volta às livrarias nesta nova edição, revista e ampliada, com a seleção dos mais belos poemas de amor de Carlos Drummond de Andrade.


“Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”, pergunta Carlos Drummond de Andrade em um poema desta coletânea, organizada por dois de seus netos, Luis Mauricio Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, e pelo estudioso de sua obra Edmílson Caminha. Aqui, o amor não é tema abstrato, sonho, fantasia, mas atração plena de libido, de desejo, de pulsão de vida. Um dos maiores nomes da literatura mundial no século XX, o poeta não derrapa na pieguice, no melodrama, no apelo à emoção, mas cria versos que encantam o leitor pela riqueza humana, pela força dos sentimentos e pelo apuro da forma. Muitas vezes, também pela delicadeza e o senso de humor.


Lançado pela Editora Record em 2005, Declaração de amor volta às livrarias nesta nova edição, revista e ampliada, com capa dura, a que se acrescentam seis poemas do livro Poesia errante: “A essa altura da vida”, “Amor – eu digo”, “Canção de namorados”, “Nossa história de amor”, “Papinho lírico no Dia dos Namorados” e “Quero sentir”. Declarações amorosas que nos fazem concordar com Drummond, quando escreveu: “Amor é primo da morte, / e da morte vencedor, / por mais que o matem (e matam) / a cada instante de amor.”


Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902. Poeta, contista e cronista, considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira do século XX, foi autor, entre outros, de Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, Claro enigma, Fazendeiro do ar e Fala, amendoeira. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1987, aos 84 anos.


RESENHA


Declaração de Amor, relançado em edição revista e ampliada, reúne os mais belos poemas de amor de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores nomes da literatura mundial do século XX. Através da cuidadosa seleção de seus netos e do estudioso Edmílson Caminha, esta coletânea oferece um panorama comovente da visão única de Drummond sobre o amor.


Longe de ser um tema abstrato ou idealizado, o amor em Declaração de Amor é pulsante, carnal e cheio de vida. Drummond não se furta de explorar a paixão em toda sua intensidade, com versos que celebram a atração física, o desejo e a pulsão vital. Ao mesmo tempo, o poeta demonstra maestria na construção de poemas que encantam pela riqueza humana, pela força dos sentimentos e pelo apuro da forma. Em alguns momentos, encontramos delicadeza e humor, enquanto em outros, a paixão se manifesta com toda sua força e intensidade.


Em "Amar", Carlos Drummond de Andrade nos convida a uma profunda reflexão sobre a natureza complexa e multifacetada do amor. Através de versos densos e carregados de simbolismo, o poeta explora as diversas formas que o amor pode assumir, desde a sua expressão mais pura até a sua faceta mais obscura. O poema abre com uma pergunta contundente: "Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?". Essa indagação estabelece o amor como o elemento central da existência humana, algo que nos conecta uns aos outros e define a nossa essência.



Drummond não se limita a uma definição simplista do amor. Ele explora as suas diversas nuances, desde a entrega total ("amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar?") até a contemplação platônica ("amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante"). O poeta também reconhece a faceta dolorosa do amor, marcada pela perda e pela finitude. A imagem do mar que "traz à praia" e "sepulte" é uma metáfora poderosa para a efemeridade da vida e do amor. Essa dualidade se manifesta ainda na frase "Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas". O amor, em sua imensidão, pode ser direcionado tanto para objetos que o retribuem ("coisas pérfidas ou nulas") quanto para aqueles que o ignoram ou o rejeitam.


Apesar da dor e da ingratidão, o eu lírico reconhece a necessidade humana de amar, mesmo que isso signifique doar-se a algo que não nos retribui. A "procura medrosa, paciente, de mais e mais amor" revela a busca incessante por um amor que preencha o vazio existencial.


Em "Ausência", Carlos Drummond de Andrade nos convida a uma profunda reflexão sobre a natureza do amor e a ilusão da busca pela sua plenitude. Através de versos simples e carregados de simbolismo, o poeta explora a frustração e a solidão do eu lírico diante da ausência do amor. O poema se inicia com a imagem do eu lírico subindo ao "Pico do Amor", acreditando encontrar lá a presença do sentimento tão almejado. A expectativa de encontrar o amor no topo da montanha reflete a crença humana na existência de um lugar ideal onde a felicidade e a plenitude residem. No entanto, ao chegar ao topo, o eu lírico se depara com a "serenidade de nuvens sussurrando ao coração: Que importa?". Essa frase revela a decepção e o vazio diante da ausência do amor. O pico, símbolo da busca pelo ideal, se torna um lugar de questionamentos e dúvidas.


O eu lírico então especula sobre a possibilidade de encontrar o amor em outros lugares, como em uma "lagoa decerto" ou em uma "grota funda". Essa busca por lugares próximos, mas ainda inacessíveis, representa a esperança do eu lírico em encontrar o amor em lugares inesperados. No entanto, a última estrofe traz a negação final: "Ou? mais encoberto ainda, onde se refugiam coisas que não são, e tremem de vir a ser.". Essa frase sugere que o amor que o eu lírico busca pode ser algo ilusório, algo que não existe na realidade e que apenas "treme de vir a ser".O poema termina com uma sensação de incerteza e inconclusão. O eu lírico fica sem saber onde encontrar o amor, ou se ele realmente existe. Essa ausência de respostas pode ser interpretada como um convite à aceitação da realidade e à superação da busca incessante por um ideal inatingível.


Em "Toada do Amor", Carlos Drummond de Andrade tece uma canção poética sobre a natureza cíclica e passional do amor, utilizando uma linguagem simples e direta, marcada por expressões coloquiais e imagens vívidas. O poema nos convida a refletir sobre a complexa relação entre amor, briga, perdão e a própria essência da vida. Os versos iniciais estabelecem o tom do poema: "E o amor sempre nessa toada: briga perdoa perdoa briga." Essa repetição cria um ritmo musical e enfatiza a natureza cíclica do amor, marcado por momentos de conflito e reconciliação.




O eu lírico reconhece a inutilidade de "xingar a vida", pois, apesar das dificuldades, a vida segue seu curso e a gente "vive, depois esquece." No entanto, o amor se diferencia dessa fluidez natural, retornando constantemente para "brigar" e "perdoar", como um "cachorro bandido trem". A metáfora "amor cachorro bandido trem" evoca a imagem de um animal selvagem e imprevisível, simbolizando a paixão e a intensidade do amor. Essa paixão, por vezes turbulenta, leva à "briga", mas também abre espaço para o "perdão", demonstrando a capacidade do amor de superar conflitos e se renovar. O eu lírico questiona: "Mas, se não fosse ele, também que graça que a vida tinha?". Essa pergunta revela a importância do amor como elemento fundamental da existência humana. Mesmo com suas contradições e desafios, o amor é visto como algo que dá sentido à vida, que a torna mais rica e intensa.


Na última estrofe, o eu lírico se dirige à "Mariquita" e pede o seu "pito", afirmando que "no teu pito está o infinito." Essa imagem simbólica pode ser interpretada de diversas maneiras, desde uma referência à sexualidade até uma metáfora para a própria vida, com suas possibilidades infinitas.


Em "Receita para não engordar sem necessidade de ingerir arroz integral e chá de jasmim", Carlos Drummond de Andrade nos convida a um banquete poético, onde o amor se torna o ingrediente principal para uma vida plena e livre de preocupações com dietas restritivas. Através de versos singelos e carregados de humor, o poeta nos oferece uma receita inusitada e deliciosa para alcançar a felicidade. O poema se apresenta como uma "receita", subvertendo a expectativa do leitor e convidando-o a pensar de forma diferente sobre os conceitos de dieta e bem-estar. O "regime sensacional" proposto por Drummond não se baseia em restrições alimentares, mas sim em uma prática constante e integral do amor.



A metáfora do "amor integral" é central para a compreensão do poema. O amor, em sua forma mais completa e plena, é apresentado como o alimento essencial para a alma, nutrindo-a e proporcionando-lhe a energia necessária para viver com alegria e vitalidade. Drummond nos convida a "praticar o amor integral" desde a "aurora matinal até a hora em que o mocho espia", sugerindo que o amor deve permear cada momento da nossa existência. Essa prática constante nos permite aproveitar ao máximo a vida, abraçando-a em toda a sua plenitude e efemeridade. O poema nos convida a abandonarmos as preocupações com dietas e a buscarmos a felicidade em experiências autênticas e significativas. O "arroz integral" e o "chá de jasmim", símbolos de regimes alimentares restritivos, são deixados de lado em favor de um amor que nos liberta da obsessão com o corpo e nos permite viver com mais leveza e liberdade.


A frase "Pois a vida é um sonho e, se tudo é pó, que seja pó de amor integral" nos convida a refletir sobre a finitude da vida e a importância de aproveitarmos cada momento ao máximo. O amor, em sua forma mais pura, nos permite transcender a efemeridade da existência e deixar um rastro de beleza e significado no mundo.


Em "O Chão é Cama", Carlos Drummond de Andrade nos convida a mergulhar na intensidade de um amor arrebatador que transcende os limites do convencional. Através de versos curtos e linguagem direta, o poeta celebra a urgência da paixão e a busca por refúgio no corpo do outro. O poema abre com a contundente afirmação: "O chão é cama para o amor urgente". Essa frase estabelece o tom da obra, caracterizado pela urgência, pela pulsão e pela impossibilidade de adiamentos. O amor em questão não se contenta com a espera, ele exige expressão imediata, mesmo que isso signifique prescindir do conforto e da privacidade de um quarto.


Drummond não se furta de explorar a paixão em toda sua intensidade, com versos que celebram a atração física, o desejo e a pulsão vital.  Ao mesmo tempo, o poeta demonstra maestria na construção de poemas que encantam pela riqueza humana, pela força dos sentimentos e pelo apuro da forma. Em alguns momentos encontramos delicadeza e humor, enquanto em outros, a paixão se manifesta com toda sua força e intensidade. Em suma, "Declaração de Amor" é uma obra-prima da poesia brasileira, que nos convida a uma jornada profunda e emocionante pelo universo complexo e multifacetado do amor, em todas as suas manifestações.

Resenha: Contos de aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade

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APRESENTAÇÃO

Nascido em uma região rural, Drummond incorpora essa experiência em muitas dessas quinze histórias, a exemplo de “A salvação da alma”, em que a infância e a adolescência de cinco irmãos são atravessadas pelo clima bucólico e ingênuo do interior do país na primeira metade do século XX, e “O sorvete”, no qual dois meninos enfrentam o dilema de experimentar ou não pela primeira vez uma até então desconhecida iguaria.

Aos poucos, as histórias avançam em direção às grandes cidades, mostrando sua lenta transformação. O talento de Drummond para a clareza e a elegância narrativa colabora para a construção psicológica de seus personagens. Na longa narrativa tchekhoviana “O gerente”, o autor vai aos poucos construindo (e desconstruindo) o protagonista Samuel, um bancário que frequenta o jet set carioca e é acusado de um crime bizarro, sendo por isso apelidado pelos jornais de “o Vampiro dos Salões”. Drummond cadencia as revelações e deixa o leitor “espiar” os acontecimentos, ao mesmo tempo que mostra a complexidade de “pessoas comuns”.


RESENHA


O livro "Contos de Aprendiz" de Carlos Drummond de Andrade apresenta uma série de narrativas que exploram temas como a infância, a vida interiorana, as relações familiares e sociais, e o cotidiano de forma geral. Através de contos curtos e objetivos, o autor consegue capturar a essência das situações descritas, levando o leitor a refletir sobre questões profundas e muitas vezes perturbadoras. Em cada conto, Drummond apresenta personagens complexos, muitas vezes confrontados com dilemas morais, sociais e existenciais. A narrativa muitas vezes aborda temas como a solidão, o medo, a morte, a busca por aceitação, a relação com o outro e a própria identidade. Além disso, o autor utiliza uma linguagem simples e direta, mas carregada de significados e simbolismos, o que enriquece a leitura e convida à reflexão.


A variedade de temas abordados nos contos de Drummond mostra a versatilidade e a profundidade do autor, que consegue transitar com maestria por diferentes gêneros e estilos literários. Sua capacidade de criar personagens marcantes e situações impactantes é uma das marcas registradas de sua obra, e em "Contos de Aprendiz" isso não é diferente. 


A salvação da alma: A história narra a relação conturbada entre cinco irmãos em uma cidade onde as brigas eram comuns. Com a partida do irmão mais velho, Miguel, os outros irmãos se viram sozinhos e continuaram com os conflitos entre si. Ester, a única filha, era explorada pelos irmãos para conseguir dinheiro. Com a chegada dos padres, os meninos foram levados para se confessar e Tito, o penúltimo filho, pediu perdão ao irmão mais novo com quem brigava constantemente. No entanto, após um incidente durante a punição, os irmãos não puderam comungar no dia seguinte.


Sorvete: Joel e seu colega moravam em uma pequena cidade e ficaram impressionados ao ver um anúncio de sorvete de abacaxi em uma confeitaria. Eles inicialmente foram ao cinema, mas não conseguiram se concentrar pensando no sorvete. Abandonaram o filme e foram experimentar o sorvete, mesmo odiando. Joel comeu até o fim para não ferir a honra da família, e seu amigo foi obrigado a fazer o mesmo.


A doida: Um grupo de crianças na cidade tem medo de uma mulher considerada louca, que vive isolada em uma casa. Um dia, eles tentam assustá-la, mas um dos meninos acaba descobrindo que ela está muito doente e decide ficar com ela até o final de sua vida.


Presépio: Das Dores era uma jovem ocupada com tarefas dadas pelo pai para que ela não ficasse ociosa. Mesmo assim, ela tinha um namorado chamado Abelardo. Na véspera de Natal, Abelardo foi visitá-la, atrasando a finalização do presépio, tarefa que apenas Das Dores sabia fazer corretamente. Ela estava dividida entre terminar o presépio e ir à missa de galo para ver Abelardo. Enquanto montava o presépio, só pensava nele, mesmo com várias distrações e a pressão do tempo passando rápido.


Câmara e cadeia: Valdemar estava na Câmara Municipal onde todos os homens discutiam sobre impostos, mas apenas ele estava trabalhando. Enquanto o calor abafava a sala, Valdemar foi até a janela e lembrou-se da cadeia que ficava embaixo da câmara. De repente, um preso fugido entrou na sala dos homens, contando sobre a sua fuga e as condições horríveis da cadeia. Valdemar tentou prendê-lo novamente, mas o preso acabou fugindo enquanto os policiais tentavam capturá-lo.


Beira rio: As terras da companhia lideradas pelo capitão Bonerges proibiam bebidas alcoólicas, o que deixava os trabalhadores desanimados. Um negro que vendia bebidas clandestinamente trouxe animação e disposição para o trabalho, mas foi expulso por Bonerges com a ajuda da polícia. Mesmo após ter sua vendinha destruída, o negro partiu calmamente, apesar dos tiros.


Meu companheiro: O homem na estrada pagou mais do que o necessário por um cachorrinho que não passava de um vira-lata, mas tinha traços de cães de raça. Levou-o para casa e o nomeou Pirulito. Sua esposa não era muito fã de animais de estimação, mas o cachorro se aproximava mais do homem, que se tornou seu companheiro. Os dois conversavam e tinham uma conexão especial, apesar dos meninos implicarem que o cachorro gostava de gente "velha". Um dia, Pirulito desapareceu, deixando o homem triste e sem entender o motivo de seu amigo ter ido embora.


Flor, telefone e moça: Uma moça vivia ao lado de um cemitério e arrancou uma flor do chão, lançando-a fora sem pensar. Logo depois, começou a receber ligações de uma voz suplicante pedindo a flor de volta. Mesmo com a ajuda policial, a voz persistia, levando a família a buscar ajuda espiritual. A voz continuou até que a menina, perturbada, faleceu.


A baronesa: Luis vivia na casa da rica baronesa há muito tempo, mas só a viu algumas vezes. Quando ela morreu, correu para buscar Renato, o sobrinho-neto, e juntos foram até a casa da baronesa em busca de suas jóias. Renato pegou um colar que sobrara do corpo da baronesa, incomodando sua posição de morte, e depois eles fizeram a partilha justa das jóias no banheiro.


O gerente: Samuel, o gerente bem-sucedido do banco, vive uma série de incidentes estranhos que envolvem mulheres perdendo a ponta dos dedos após serem cumprimentadas por ele. Apesar de ser acusado, a polícia não encontra provas contra ele, e ele é afastado do banco e vai morar em São Paulo. Anos depois, encontra uma das vítimas que teve que amputar o braço devido a uma infecção. Eles se encontram novamente, mas apenas bebem muito e no dia seguinte Samuel volta a São Paulo sem concluir seus negócios no Rio.


Nossa amiga: Uma menina de três anos vivia entre duas casas e para evitar a mão bisbilhoteira foi criada a personagem Catarina, uma borboleta "bruxa" que quebrou um cachorrinho de vidro. Também havia o personagem Pepino, um velho bêbado que assustava as crianças. Mesmo com medo, a menina acabava indo de uma casa para outra, sendo enganada com a promessa de uma festa com Pepino. Por fim, ela brincava de mamãe, usando frases de adultos em suas brincadeiras.


Miguel e seu furto: Miguel era um homem simpático, mas sem ocupação na vida. Após perder seu sustento, ele dormia em jornais e teve a ideia de roubar o mar. Com as novas regras impostas, Miguel se tornou incrivelmente rico, queimava sua riqueza para ter onde guardar suas aquisições. Mas, um dia, crianças nadaram no mar e o povo retomou sua posse. Miguel depositou sua fortuna em bancos e passou a colecionar conchinhas para lembrar de sua ex-propriedade.


Conversa de velho com criança: Um homem idoso e uma menina chamada Maria de Lourdes conversam em um ônibus. O homem, chamado Ferreira, descobre o nome da menina sem precisar perguntar, e a menina descobre o nome dele da mesma maneira. A menina traz um pacote de balas que parece ser seu tesouro, enquanto o homem carrega sacolas de compras e está em pé. Quando o cobrador vem cobrar a passagem, o homem tem dificuldade em encontrar a moeda e acaba deixando-a cair na rua, mas não precisa pagar a passagem pois não encontraram a moeda. A menina oferece uma bala ao homem, indicando que são amigos próximos, e o homem percebe que ela fez isso para poder comer também. Ao descerem do ônibus, o homem se questiona se são realmente amigos próximos ou apenas avô e neta que se dão muito bem.


Extraordinária conversa com uma senhora de minhas relações: Um homem tem uma conversa com uma senhora conhecida em um ônibus, onde ele tenta lembrar quem ela é através de sua voz. Eles trocam cumprimentos e ele nota o vestido dela e suas curvas. Ela pergunta como ele está e ele responde com versos, mas depois corrigi para uma resposta mais educada. Ela fala sobre suas preocupações, mas ele está mais preocupado em ultrapassar limites. Quando ela desce do ônibus, ele reflete que foi a conversa mais extraordinária que teve com uma dama de sua relação.


Um escritor nasce e morre: Um escritor talentoso nasce em uma cidade pequena após ouvir sobre o Pólo Norte na escola. Se destaca na escrita desde jovem e é reconhecido pela sua professora. Ele cresce, escreve contos e poesias, sempre se mantendo humilde e criticando outros escritores. Uma voz em sua mente o chama de artista nato. Aos trinta anos, ele falece, deixando um legado de obras literárias.


O livro se chama "Contos de Aprendiz" porque cada uma das histórias apresentadas no livro mostra personagens em processos de aprendizagem e transformação. Os contos exploram as experiências dos personagens, suas relações e conflitos, levando-os a enfrentar dilemas morais, sociais e existenciais. Ao longo das narrativas, os personagens são confrontados com situações que os fazem refletir e crescer, aprendendo lições importantes sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo ao seu redor. Dessa forma, o título "Contos de Aprendiz" reflete a jornada de aprendizagem e amadurecimento dos personagens ao longo das narrativas apresentadas no livro.


Em resumo, o livro "Contos de Aprendiz" de Carlos Drummond de Andrade é uma obra que explora de forma criativa e profunda as nuances da vida, os dilemas da existência e as complexidades das relações humanas. Através de narrativas envolventes e personagens cativantes, o autor nos leva a refletir sobre questões essenciais do ser humano e do mundo que nos cerca. A leitura do livro é essencial para quem busca entender melhor a obra de Drummond e se aprofundar em sua visão de mundo e de literatura.

Resenha: Amar se aprende amando, de Carlos Drummond de Andrade

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APRESENTAÇÃO

“O mundo é grande e cabe / nesta janela sobre o mar. / O mar é grande e cabe / na cama e no colchão de amar. / O amor é grande e cabe / no breve espaço de beijar.” Com versos assim, que conciliam sofisticação e simplicidade, esta


coletânea exalta o mais nobre “sentimento do mundo”.

Publicado originalmente em 1985, apenas dois anos antes da morte de Drummond, Amar se aprende amando nos revela as diferentes facetas do amor. Para falar delas, o poeta sempre encontra um viés inusitado (como nos saborosos neologismos “sempreamar” e “pluriamar”), que evidencia sua aversão à retórica e evita a pieguice que ronda a poesia quando se fala das “coisas do coração”. Seus versos fazem aquilo que para muitos é impossível: traduzem sentimentos indescritíveis em palavras.

Se o amor romântico, aquele precedido pela paixão arrebatadora, tem destaque em poemas impactantes como “Amor” e “Lira do amor romântico”, Drummond também mostra que “O amor antigo tem raízes fundas, / feitas de sofrimento e de beleza”. Na segunda seção do livro, abre o leque para compor poemas magistrais sobre o amor fraterno, com destaque para o comovente “Companheiro”, feito para os 80 anos do amigo Pedro Nava. Na última parte, o poeta incorpora o cronista em versos tirados da realidade brasileira, que, àquela altura, caminhava para uma transição democrática depois dos amargos “anos de chumbo”.


RESENHA


Em Amar se aprende amando, Drummond fala sobre o amor na velhice e como ele muda com o passar dos anos. O poeta reflete sobre a importância de cultivar o amor e aprender com ele, mesmo diante de um mundo marcado pela brutalidade e pela indiferença. Ele aborda questões políticas e sociais, como a violência e a desigualdade, e como esses elementos afetam o amor e a esperança. Drummond mostra que, apesar das dificuldades, é preciso continuar cultivando o amor e mantendo a esperança viva, sem expectativas de uma felicidade universal.


Essas reflexões acerca do envelhecimento do corpo, que fazem alusão à capa da obra na qual se retrata o dorso de um corpo jovem, são destacadas por Drummond em suas reflexões do poema "Fazer 70 anos". Ele inclui a ideia de que atingir a idade de 70 anos não é uma tarefa simples, pois ao longo da vida somos confrontados com perdas e transformações no âmago de nosso ser. O poema fala sobre a necessidade de lidar com as memórias e ruínas do passado, bem como com a incerteza do futuro. Além disso, há uma reflexão sobre a dualidade de sentimentos que acompanha a chegada dos 70 anos, como a alegria misturada com a tristeza. Por fim, o poema destaca a importância da amizade e do apoio mútuo nessa fase da vida, ressaltando a estranha felicidade que pode surgir da velhice.


O poema "Reconhecimento do Amor" fala sobre a descoberta e aceitação do amor em uma amizade. O eu lírico descreve como inicialmente não entendia o verdadeiro significado do amor e como, aos poucos, foi se deixando envolver por ele de forma suave e doce. Através da amizade e da entrega mútua, o eu lírico percebe que o amor dissipa a individualidade e une os amantes em uma só essência, onde não há mais separação entre eles. O poema enfatiza a importância do amor como força transformadora e redentora, que transcende a razão e a própria existência individual para se integrar em um todo perfeito. No final, o eu lírico expressa a sua felicidade em estar completamente mergulhado no mar do amor, onde não há mais espaço para a superficialidade do mundo exterior. É um poema que celebra a beleza e a plenitude do amor verdadeiro.


O envelhecimento e as datas do calendário são vistos como mitos, enquanto o amor é descrito como algo atemporal, que nasce a cada momento. O poema destaca a ideia de que o amor é a conexão que une dois corações para a eternidade. O autor reflete sobre como o tempo não passa quando se trata do amor que sentimos no coração. Ele descreve o amor como algo eterno, que transcende qualquer medida de tempo. O autor enfatiza que o amor é a essência da vida e que, além do amor, não há nada.


O autor nos fala sobre a busca do ser humano por outro ser, que ao ser encontrado, gera um sentimento de estar completo e dividido ao mesmo tempo. O amor é descrito como um selo sublime que dá cor, graça e sentido à vida. No entanto, apesar da beleza e do perfume da rosa que simboliza o amor, o narrador não consegue senti-lo diretamente.


Em síntese, o livro 'Amar se aprende amando' é uma obra profunda e reflexiva que aborda questões universais como o amor, o envelhecimento e a busca pela felicidade. Drummond consegue conectar o leitor com suas palavras poéticas e sensíveis, levando-o a refletir sobre a importância do amor e da esperança mesmo em meio às adversidades da vida. O livro é uma verdadeira lição sobre como cultivar o amor e manter a fé nos dias difíceis, tornando-se uma leitura inspiradora.

Resenha: Introdução ao estudo do léxico: Brincando com as palavras, de Rodrigo llari

Foto: Arte digital / Divulgação

 

APRESENTAÇÃO

Em um livro lúdico - e valendo-se da experiência e da qualidade de trabalho desenvolvido como um dos maiores linguístas brasileiros da atualidade - Rodolfo Ilari apresenta-nos uma grande obra sobre as possibilidades de estudo das palavras no português do brasileiro. Mais do que isso: Ilari nos faz percorrer o caminho do jogo, perceber nas construções mais cotidianas (como a piada entre amigos ou o jogos de adivinha) os mecanismos de que o falante se utiliza na construção da linguagem. Homônimos, sinônimos, antônimos, ambiguidades e anglicismos são alguns dos assuntos abordados nesta obra fundamental para alunos de Letras, professores de Português e demais interessados em compreender nossa língua mais a fundo.


RESENHA


O livro "Introdução ao estudo do léxico - brincando com as palavras" de Rodolfo Ilari aborda a importância das palavras na construção de mensagens linguísticas com foco no significado. O autor, conhecido por sua expertise na linguagem, conduz os leitores a uma reflexão sobre a linguagem, visando preparar futuros professores para ensinarem de forma crítica e independente. Ilari destaca-se pela profundidade de seus conhecimentos, versatilidade na ciência da linguagem e preocupação com o ensino de língua e formação de professores. O livro é um guia essencial para quem busca compreender e ensinar a linguagem de forma eficaz.


Em 'ambiguidade', o autor aborda a ambiguidade na linguagem, que consiste na característica das sentenças que apresentam mais de um sentido. São mostrados diversos fatores linguísticos que podem gerar ambiguidades, como a possibilidade de uma sentença ter duas análises sintáticas diferentes, um pronome com dois antecedentes, uma palavra com dois sentidos diferentes, um mesmo operador aplicado de duas maneiras diferentes, entre outros. Além disso, a ambiguidade também pode decorrer da dificuldade em discernir se as palavras foram utilizadas de forma literal ou indireta. O texto propõe um teste para identificar a ambiguidade em sentenças e apresenta exemplos de manchetes de jornais ambíguas. A atividade proposta é relatar um caso de interpretação equivocada de uma informação ou ordem, e é sugerida uma série de exercícios para analisar a ambiguidade em manchetes de jornais.


Em 'anglicismo', aborda o fenômeno dos anglicismos no português do Brasil, que são palavras e construções gramaticais que foram incorporadas do inglês ao longo do tempo. Essa incorporação acompanha a assimilação de artefatos, tecnologias e hábitos que esses termos nomeiam. Muitas palavras foram recebidas do inglês nos séculos XIX e XX, especialmente ligadas ao vestuário, comércio, esporte, cinema e tecnologia. Um exemplo é a informática, que trouxe uma grande quantidade de anglicismos para o português do Brasil. O texto também apresenta exercícios para identificar e compreender o significado de anglicismos em diversas áreas, como política, esporte e produção. Além disso, explora a origem e curiosidades de palavras inglesas incorporadas à língua portuguesa.


No capítulo 'antonímia',  o autor explica que antonímia é a exploração de palavras e frases que podem ser colocadas em oposição, com o objetivo de enriquecer a reflexão e a expressão. Antônimos são palavras que se referem a realidades opostas, como ações, qualidades, relações, entre outros. Essas oposições podem ter fundamentos diferentes, como diferentes posições numa mesma escala, início e fim de um mesmo processo ou diferentes papéis numa mesma ação. A antonímia pode ser encontrada em substantivos, adjetivos, verbos, advérbios, preposições, entre outros. Além disso, textos podem construir oposições entre palavras e expressões que não consideramos como antônimas. Atividades e exercícios são propostos para explorar esse recurso na linguagem.


O capítulo 'arcaísmo', somos levados à compreensão de que são expressões que caíram em desuso na língua, refletindo um estado mais antigo. Podem ser encontrados em diversos domínios da língua, como no vocabulário, morfologia e sintaxe. O uso de arcaísmos é mais comum na literatura e em autores que fazem do arcaísmo um recurso de estilo. Palavras e construções se tornam arcaicas devido a objetos, técnicas e hábitos em desuso, ou pela perda de ligação com outras palavras de origem comum. Exemplos de arcaísmos incluem expressões como "senhor" em substituição a "senhora", ou a palavra "dulcidão" em vez de "doçura". Além disso, foi apresentado um trecho de uma carta do século XVIII como exemplo de arcaísmos e foram propostos exercícios para identificar e compreender o uso de arcaísmos.


Foto: Arte digital / Divulgação


No capítulo 'campos lexicais', o autor esclarece que campos lexicais são conjuntos de palavras que nomeiam experiências semelhantes, como cores ou animais. A organização desses campos pode ser feita por meio da análise componencial, que quebra a significação das palavras em unidades menores, ou pela análise por protótipos, identificando indivíduos representativos da categoria. Exercícios propostos envolvem a aplicação desses conceitos, como associar marcas a produtos, distinguir palavras com traços específicos, e criar gráficos ou diagramas com palavras relacionadas. Além disso, é discutida a relação entre antigos fabricantes e marcas após fusões de empresas.


Em '(In-) compatibilidades entre partes de uma sentença',  aborda as incompatibilidades entre as partes de uma sentença, tanto no aspecto linguístico quanto no prático. São apresentados exemplos de combinações de palavras que causam estranheza ou não fazem sentido, devido às restrições de seleção lingüística. Além disso, são propostos exercícios práticos para identificar e compreender essas incompatibilidades, como completar frases corretamente, identificar coletivos, interpretar anúncios imobiliários e analisar diálogos que apresentam equívocos de entendimento. Através dessas atividades, mostra-se a importância de compreender as restrições de seleção nas sentenças para uma comunicação eficaz.


Em  'definições',  aborda a importância de formular definições claras e corretas, destacando os defeitos mais comuns encontrados nesse tipo de texto. Ele mostra exemplos de definições bem formuladas e ressalta que uma boa definição ajuda a aumentar o vocabulário, eliminar ambiguidades e tornar preciso o uso de palavras vagas. São apresentadas características do que uma boa definição não deve ser, como uma simples enumeração de exemplos, definições circulares, obscuras, amplas, estreitas, figuradas, negativas e atividade de resolução de exercícios sobre definições.


Em 'Distribuição: os constituintes da oração',  aborda a distribuição dos constituintes da oração, destacando a importância da combinação de palavras de acordo com esquemas sintáticos conhecidos intuitivamente pelos falantes da língua. São apresentadas noções como oração bem formada, distribuição e constituinte, ilustradas com exemplos. São propostos exercícios para prática e análise da distribuição dos constituintes em frases, bem como sugestões de atividades e testes para aplicação prática dos conceitos apresentados.


Em 'estrangeirismos', explica que estrangeirismos são palavras ou expressões de outras línguas que são incorporadas ao português ao longo da sua história. Essa influência linguística enriquece a língua, mas também gera polêmicas e debates sobre a preservação do idioma. O uso de estrangeirismos é visto como uma forma de enriquecimento, mas também pode ser considerado um vício de linguagem. Além disso, existem projetos de lei, como o Projeto de Lei No 1676/99, que buscam regular o uso de palavras estrangeiras no Brasil. Argumentos contrários ao uso excessivo de estrangeirismos incluem a proteção da integridade da língua e a valorização do idioma nacional.


Em 'etimologia', o autor esclarece que etimologia é o estudo da origem das palavras e pode ser científica ou popular. A etimologia científica investiga a origem das palavras de forma histórica, mostrando a continuidade entre a forma e o sentido atual das palavras e suas formas mais antigas. Já a etimologia popular é uma prática não científica onde as pessoas modificam as palavras para explicar sua significação. A língua portuguesa no Brasil possui palavras de várias origens, como latina, grega, germânica, árabe, indígena e africana, além de palavras emprestadas de outras línguas ao longo dos séculos. A formação de novas palavras a partir de palavras pré-existentes na língua é um mecanismo importante na evolução da língua. Diversos exercícios são propostos para explorar a etimologia e a formação de palavras.


Em 'flexão nominal',  aborda a flexão nominal, que engloba variações de gênero, número e grau em substantivos e adjetivos. São apresentados exemplos de flexões e atividades para refletir sobre o tema, como a formação do feminino de palavras, o uso de adjetivos no comparativo e superlativo, e a intensificação de adjetivos. Também é discutida a diferença entre o uso genérico e específico do singular em manchetes de jornais.


Em 'Formação de palavras novas e sentidos novos na língua',  discute os principais processos de formação de palavras na língua portuguesa, como a sufixação, a prefixação e a composição. Ele também destaca a criação de novos sentidos para palavras já existentes. São apresentados exemplos de palavras formadas por esses processos, assim como atividades e exercícios para explorar a criação de novas palavras e significados na língua. Além disso, são mencionados neologismos que surgiram nos últimos anos.


Em 'Homonímia',  trata da homonímia, que são palavras que se pronunciam da mesma maneira, mas têm significados distintos. Exemplos dados incluem palavras que pertencem a classes gramaticais diferentes e palavras que se escrevem de maneiras diferentes. Apesar de causar ambiguidade, o contexto geralmente elimina as dúvidas causadas pela homonímia. O texto também apresenta atividades para identificar palavras de duplo sentido e explorar piadas e brincadeiras que utilizam a homonímia. Por fim, inclui um exercício que exemplifica como a interpretação de uma pergunta pode variar de acordo com o sentido de uma palavra.


Em 'Motivação icônica',  discute a motivação icônica na linguagem, que se baseia na relação entre forma e sentido. São apresentados exemplos de como essa motivação é utilizada na comunicação, como na onomatopeia, na ordem do texto e na proximidade das formas. Um experimento realizado por um psicolinguista é descrito para exemplificar como a linguagem pode ser intrinsecamente motivada. São propostos exercícios para explorar a motivação icônica na linguagem, como identificar nomes de pássaros que imitam a voz do próprio pássaro e analisar a representação de diferentes ruídos e sons na linguagem. O texto também discute a distinção entre onomatopeia primária e secundária, citando exemplos de como a linguagem pode ser icônica e simbólica em diferentes idiomas.


Em 'Nexos entre orações',  discute a possibilidade de estabelecer nexos entre orações para compreender melhor o papel das conjunções. Tradicionalmente, orações são descritas na sintaxe do período como coordenação e subordinação. São apresentados exemplos de conversão de orações em elementos substantivos, adjetivos e adjuntos. Além disso, são propostos exercícios práticos para identificar e analisar o uso de conjunções em diferentes contextos.


Em 'números',  aborda a importância dos números na nossa vida cotidiana, especialmente na linguagem. Os diferentes tipos de numerais são discutidos, assim como suas aplicações em diversas construções linguísticas. São propostos exercícios práticos para explorar a relação entre números e palavras, como analisar expressões que contêm numerais, realizar conversões de unidades de medida e refletir sobre o uso de numerais em diferentes contextos. O texto também destaca a presença de antigos numerais em formações linguísticas atuais e aborda a importância de interpretar corretamente informações numéricas em notícias e manchetes.


Em 'As palavras-pro', aborda o uso dos pronomes na língua portuguesa, questionando a ideia tradicional de que os pronomes "substituem" os nomes. Além disso, apresenta exemplos de diferentes usos dos pronomes, como identificar os participantes de um diálogo e funcionar como variáveis matemáticas. O texto também propõe atividades, como analisar diálogos e redigir regulamentos de jogos, que envolvem o uso correto dos pronomes na língua portuguesa.


Em 'Reconhecimento de formas de um mesmo paradigma flexional',  aborda a importância do reconhecimento de formas de um mesmo paradigma flexional, como verbos, substantivos e adjetivos, para fortalecer a noção de paradigma de conjugação. São apresentados exemplos de como identificar essas formas e exercícios para praticar esse reconhecimento, além de reflexões sobre a irregularidade da flexão, a utilização de adjetivos e verbos e a relação entre diferentes formas verbais. Diversos exemplos e atividades são propostos ao longo do texto para exemplificar e aprofundar o tema.


Em 'Polissemia',  aborda o conceito de polissemia, que se refere aos diferentes sentidos que uma mesma palavra pode assumir, tornando-a apta a ser utilizada em diferentes contextos. A polissemia é contrastada com a homonímia, pois para que haja polissemia é preciso que haja uma única palavra, enquanto a homonímia envolve mais de uma palavra. Além das palavras, a polissemia também afeta construções gramaticais. O texto apresenta exemplos de diferentes sentidos da palavra "velar" e propõe exercícios para explorar a diversidade de significados das palavras em diferentes contextos.


Em 'Predicados de predicados; predicados de eventos',  aborda a ideia de predicados de predicados e predicados de eventos, apresentando exemplos e diferentes formas de modificação dos predicados em uma frase. São discutidos também os diferentes tipos de advérbios, locuções adverbiais e verbos que podem ser utilizados para modificar predicados. Por fim, são propostos exercícios relacionados à aplicação dos conceitos discutidos no texto.


Em 'Sinonímia',  aborda a distinção entre substantivos contáveis e não-contáveis e explora o uso eficaz de ambos. Substantivos contáveis designam objetos discretos que podem ser contados no plural, enquanto os não-contáveis designam porções de substância que não são contáveis no plural. São fornecidos exercícios práticos para compreender essa distinção, como identificar palavras contáveis e não-contáveis em textos, completar frases com palavras adequadas do par, entre outros.


Em 'Sufixos', o autor esclarece que sufixos são unidades significativas adicionadas à direita de um radical para formar novas palavras. Existem diversos sufixos na língua portuguesa, como -ismo, -ista, -ando, -ento, -ável, -udo, entre outros. Eles podem ter mais de um sentido e são utilizados para formar palavras de classes específicas. Um exemplo é o sufixo -izar, que forma verbos transitivos a partir de substantivos e adjetivos. Alguns sufixos, como -ismo, -ista, -ável, podem indicar uma opinião negativa em certas palavras. Os sufixos não são aplicados aleatoriamente e cada um se aplica a palavras de uma classe determinada, criando palavras também de classes específicas.


Em 'termos genéricos e termos específicos',  discute a diferença entre termos genéricos e termos específicos, mostrando que os termos genéricos são mais abrangentes, enquanto os termos específicos são mais precisos. Ele exemplifica essa ideia com o uso de hipônimos e menciona a importância de usar termos específicos para fornecer mais informações sobre um objeto. Em seguida, propõe exercícios para praticar a distinção entre termos genéricos e específicos. Além disso, apresenta situações cotidianas em que o uso de termos genéricos pode gerar problemas de comunicação. Por fim, inclui uma anedota e uma questão de vestibular que abordam o tema.


Em 'Variação diastrática e de registro',  aborda a variação diastrática e de registro na linguagem, destacando a convivência de diferentes variedades linguísticas na sociedade brasileira e a influência de fatores como a educação formal e a informalidade da situação de fala. Apresenta características do português substandard, como a tendência a tornar paroxítonas as palavras proparoxítonas, redução de ditongos, trocas de letras e o uso de formas específicas. Além disso, discute a importância do registro na linguagem, que varia conforme a situação de comunicação, como o número de participantes, formalidade, assunto e veículo de comunicação. Também menciona as linguagens próprias de grupos sociais, como gírias e expressões técnicas, e propõe atividades e exercícios para reflexão sobre essas questões.


O livro "Introdução ao estudo do léxico - brincando com as palavras" de Rodolfo Ilari é uma obra completa e essencial para quem deseja compreender de forma profunda a linguagem e o significado das palavras. O autor, com sua vasta experiência na área, conduz os leitores em uma jornada reflexiva sobre diversos aspectos da linguagem, preparando futuros professores de forma crítica e independente. Os capítulos abordam temas como ambiguidade, anglicismos, antonímia, arcaísmo, campos lexicais, incompatibilidades entre partes da sentença, entre outros, proporcionando uma visão abrangente e enriquecedora sobre o léxico. Os exemplos e exercícios propostos ao longo do livro são um grande diferencial, permitindo aos leitores uma compreensão prática e aprofundada dos conceitos apresentados. Em suma, o livro é uma fonte de conhecimento indispensável para quem busca aprimorar sua compreensão e ensino da linguagem de forma eficaz.

Resenha: O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos, de Rodrigo llari e Renato Basso

Foto: Arte digital / Divulgação


APRESENTAÇÃO

O português do Brasil é falado por mais de 170 milhões de pessoas em um imenso território, mas muita gente teima em afirmar que ele não existe, ou, pior, não deveria existir. Ilari e Basso, seguindo uma tradição iniciada nos anos 20 por Mário de Andrade e Amadeu Amaral, oferecem-nos, em O português da gente, um estudo da língua que nós falamos e que pouco a pouco vai conquistando seus direitos. Este é um livro para ler, estudar e discutir, na sala de aula e fora dela.

RESENHA

ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato. O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 151-196.

O livro 'o português da gente' aborda a língua portuguesa falada no Brasil, com o objetivo de apresentar informações sobre sua história, variedades e desmistificar preconceitos. Os autores enfatizam a importância de entender a variabilidade linguística como um fato natural. O conteúdo inclui exposições temáticas, encartes sobre variedades do português e uma cronologia de eventos relevantes para o desenvolvimento da língua no Brasil. O livro não busca impor respostas, mas sim propor boas perguntas para que os leitores possam aprofundar seu conhecimento sobre o assunto. É destinado a estudantes, professores e a todos que se interessam pela língua portuguesa.

O português foi implantado no Brasil pela colonização portuguesa, que começou com o descobrimento da terra por Pedro Álvares Cabral em 1500. As origens da língua remontam ao ano 1000, com a formação da nação portuguesa e o desenvolvimento de uma língua própria. A língua portuguesa deriva do latim vulgar, que foi uma variedade falada do latim romano durante o Império Romano. Os movimentos de Reconquista na Península Ibérica também tiveram influência na diferenciação do português e na expansão da língua para o Brasil. A convivência entre árabes e cristãos também influenciou a língua, resultando em palavras de origem árabe presentes no português. Ao longo dos séculos, a língua portuguesa se desenvolveu e se diferenciou em relação às outras línguas românicas, mantendo sua identidade e riqueza linguística.


Foto: Arte digital / Divulgação



O português chegou ao Brasil no século XVI e se expandiu ao longo dos séculos através da ocupação territorial, incorporando novas regiões ao país. A formação do território nacional foi marcada por ciclos econômicos e movimentos de exploração e colonização. A expansão territorial do português resultou na formação do maior país de língua portuguesa em extensão territorial e número de falantes. O processo de ocupação foi feito por um português marcado por influências de línguas indígenas e africanas, resultando na difusão de línguas como o nheengatu. As disputas territoriais na região sul do Brasil e mudanças de mãos de cidades e regiões resultaram em situações linguísticas complexas. O Tratado de Madri dividiu a região dos rios Uruguai e Prata entre Portugal e Espanha, culminando nas Guerras Guaraníticas. Na Amazônia, a aquisição do Acre foi marcada pela construção da ferrovia Madeira-Mamoré, envolvendo trabalhadores de diversas origens linguísticas.

O autor também discute algumas características do português brasileiro, destacando diferenças em relação ao português europeu. Aponta que o português do Brasil é considerado uma "língua mais antiga" do que o português europeu, através de análises filológicas. O texto também aborda a influência de diferentes pronúncias e construções sintáticas, além de características fonéticas e fonológicas específicas do português brasileiro. Também explora as flexões dos verbos e dos nomes na língua, apontando diferenciações em relação às demais línguas românicas e a presença de algumas irregularidades linguísticas.

O capítulo que mais me chamou atenção foi Português do Brasil: a variação que vemos e a variação que esquecemos de ver,  abordando a variação linguística do português do Brasil, destacando a existência de nacionalismo na afirmação da uniformidade da língua, mas ressaltando que a variação é um fenômeno normal. São apresentadas as variações diacrônica, diatópica e diastrática da língua, enfatizando que o português brasileiro não é uniforme. São citados exemplos de variação diatópica do português brasileiro, mostrando a influência das migrações internas no país. Há também a análise de anúncios do século XIX, evidenciando as mudanças linguísticas ao longo do tempo.

Já em Linguística do português e ensino,  aborda a relação entre a linguística do português e o ensino da língua materna, destacando a importância da estandardização e da fixação de uma norma para a estabilidade da língua. Fala-se também sobre a ortografia do português ao longo da história, destacando os processos de evolução e as reformas ortográficas. Além disso, são abordados o papel dos lexicógrafos na fixação da língua, a importância dos dicionários na normatização do vocabulário e a história da lexicologia do português, com destaque para autores brasileiros. É destacada a importância da ortografia, do dicionário e do registro civil das palavras na normalização da língua portuguesa.

Em síntese, o livro aborda a evolução do português, desde sua origem em Portugal até sua chegada ao Brasil, destacando a influência de diferentes povos na formação do português brasileiro. Discute também a coexistência de duas normas linguísticas, a culta e a substandard, e questiona a abordagem da escola em relação a essa última. Destaca a importância de compreender e valorizar a diversidade linguística, além de combater o preconceito linguístico e promover a inclusão social. O livro enfatiza a importância de amar, conhecer e estudar o português brasileiro, buscando compreender sua história e sua diversidade, em vez de simplesmente impor regras e correções. O livro "O Português da Gente" é uma obra extremamente relevante e esclarecedora sobre a língua portuguesa falada no Brasil. Os autores conseguem apresentar de forma clara e acessível informações sobre a história e as variedades linguísticas do português brasileiro, desmistificando preconceitos e enfatizando a importância de compreender a variabilidade linguística como algo natural. Além disso, o livro propõe boas perguntas aos leitores, estimulando o aprofundamento do conhecimento sobre o assunto. Destinado a estudantes, professores e a todos que se interessam pela língua portuguesa, a obra é fundamental para ampliar a compreensão da riqueza linguística do país. Em suma, "O Português da Gente" é uma leitura enriquecedora e esclarecedora, que contribui significativamente para a valorização e o entendimento do português brasileiro.

Resenha: TOXIC: Mulheres, fama e a misoginia dos anos 2000, de Sarah Ditum

Foto: Arte digital


APRESENTAÇÃO


Britney, Paris, Lindsay, Aaliyah, Janet, Amy, Kim, Chyna, Jennifer. Em Toxic: Mulheres, fama e a misoginia dos anos 2000 , a jornalista Sarah Ditum descreve como cada uma delas sofreu por ser uma celebridade em uma das épocas mais hostis para ser mulher.

Considerando o período entre 1998 e 2013, o livro de Ditum mostra como a cultura de celebridades considerava aceitável difamar mulheres, revirando a vida delas de cabeça para baixo, porque, afinal, ser “famosa” significava não ter privacidade. Tudo era assunto para os tabloides, desde a virgindade de Britney Spears, o divórcio e a fertilidade de Jennifer Aniston, as consequências do vício de Amy Winehouse, ao fatídico show de Janet Jackson no Super Bowl... O limite do que temos como tolerável hoje em dia era constantemente ultrapassado em todos os casos discutidos.

Com escrita afiada, Toxic destrincha a misoginia que estampava as manchetes e impulsionava vendas e cliques. Ainda adolescente na época retratada neste livro, a autora levanta a questão: tivemos conquistas nos últimos vinte anos, como leis contra crimes virtuais e uma forma mais empática de ver o outro, mas talvez, com a cultura de cancelamento, será que as coisas mudaram tanto assim?


RESENHA


Toxic narra os problemas de gênero na sociedade e a forma com a qual os crimes sexuais ou de violação de espaço no universo das celebridades femininas nos anos 2000 foram crescendo em uma escala acelerada e jamais vista antes, sobretudo, pelo advento dos celulares com câmeras digitais, onde, de certa forma, todos estavam com seu espaço privado inundado pela ausência de responsabilidade jurídica, retirando assim, a culpa da invasão de privacidade dos homens, que eram, em sua maioria, os grandes responsáveis pelos atos. Para ilustrar a raiz do problema, a autora narra um episódio ocorrido em 2006, quando uma jovem anônima teve a parte debaixo de sua saia fotografada sem sua permissão, o que levou a prisão do indivíduo, que foi, posteriormente inocentado sobe a desculpa de que 'a pessoa fotografada não estava em local com expectativa razoável de privacidade', em outras palavras,  a privacidade não lhe assegurada em ambientes públicos, uma vez, que, não se espera este direito em um ambiente público de livre circulação, onde, claro, estamos aptos a nos deparar e até mesmo presenciar situações constrangedoras como esta. A nota do júri foi replicada em outros casos, o que deixou as mulheres em uma situação desfavorável e complicada em relação à sua privacidade.


Ela ainda explica que, o site, Fleshbot, responsável por replicar fotos debaixo das saias de mulheres famosas sempre se postulavam como 'inocentes', uma vez, que, as mulheres famosas sempre mostram 'sem querer' suas partes famosas para os paparazzis é, justamente, de forma proposital, afinal, que jeito melhor de chamar a atenção da mídia para se manter no estrelato? Após o ocorrido, sites que divulgam fotos de mulheres seu seu consentimento as levando ao constrangimento, perseguições de paparazzis e apoio da rede jurídica, este problema se tornou cada vez mais avassalador, uma vez, que, tornou-se demasiadamente complicado evitar que situações como essas ocorressem, uma vez, que, o tempo, normalizaria tudo. Emma Watson, atriz da série de filmes Harry Potter, comenta ao Daily Mail que em seu aniversário de 18 anos, na época, fora inundado por fotógrafos que empenhavam-se cada vez mais em tirar fotos de si com o semblante de bêbada, sobretudo, debaixo de suas saias, alguns, até deitando no chão. Ela comenta como isso se tornou um problema que a fez duvidar de sua privacidade e se sentir extremamente violentada.


Ditum explora como a cobertura negativa dessas mulheres afetou não apenas elas, mas também as mulheres que as consumiam. Com o advento das redes sociais, as celebridades ganharam mais controle sobre suas narrativas, mas ainda enfrentam desafios em relação à privacidade.


A jornalista britânica Ditum começa seu ensaio analisando o início da carreira de Britney Spears, cujo álbum de estreia “…Baby One More Time” foi lançado em 1998. Segundo a autora, o sucesso da estrela pop era baseado em sua capacidade de combinar sensualidade e inocência, especialmente por ter sido uma ex-membro do Mickey Mouse Club que usava um anel de pureza. A questão da virgindade de Spears era constantemente discutida, culminando em uma entrevista polêmica com Diane Sawyer, na qual a cantora foi levada às lágrimas ao falar sobre sua vida sexual. Ditum destaca que o tema do sexo foi tratado de forma séria e sombria, fazendo com que Spears se sentisse pressionada a se desculpar publicamente.


A autora também destaca a diferença entre celebridades como Spears e Lindsay Lohan, que se tornaram famosas antes da era digital; Paris Hilton, que se tornou uma estrela durante essa revolução; e Kim Kardashian, que se destacou depois que smartphones e a pornografia na internet se popularizaram. No segundo ensaio, Ditum se concentra em Hilton, a herdeira que ganhou destaque como socialite em 1999. A autora retrata Hilton como uma jovem empreendedora e adaptável, que entendia que seu papel na mídia era representar um estilo de vida privilegiado.


Sobre Kardashian, Ditum comenta que sua busca pela fama ocorreu no final da década, o que lhe permitiu utilizar a internet a seu favor, ao invés de ser prejudicada por ela. A autora destaca a habilidade de Ditum em trazer novos insights sobre figuras conhecidas, além de sua capacidade de argumentar sobre a importância de ídolos e bodes expiatórios na sociedade, como no caso da comunidade negra em resposta ao abuso de R. Kelly.


O livro Toxic: Mulheres, fama e a misoginia dos anos 2000, de Sarah Ditum, é uma leitura extremamente relevante e necessária para entendermos como a cultura de celebridades tratava as mulheres durante essa época. A autora apresenta uma análise afiada e perspicaz sobre os problemas de gênero na sociedade e como isso afetava as celebridades femininas, como Britney Spears, Paris Hilton, e Kim Kardashian. Ditum expõe de forma corajosa e incisiva a misoginia que permeava a cobertura midiática dessas mulheres, mostrando como a invasão de privacidade, o julgamento público e a objetificação eram constantes em suas vidas. Além disso, ela destaca o impacto que essa cobertura negativa tinha não só sobre as celebridades em si, mas também sobre as mulheres que consumiam essa mídia.


Com uma escrita envolvente e argumentos bem fundamentados, Ditum nos faz refletir sobre como a cultura de celebridades mudou ao longo dos anos e se as conquistas em termos de leis e empatia realmente foram suficientes para proteger as mulheres no mundo do entretenimento. Toxic é uma obra que nos faz questionar o papel da mídia e da sociedade na forma como tratamos as mulheres famosas e nos faz repensar nossos próprios preconceitos e julgamentos.

Três poemas de Rodrigo Cabral

Foto: Acervo pessoal // Divulgação

Rodrigo Cabral, nascido em Campos dos Goytacazes (RJ) no verão de 1990, fundou a editora Sophia em Cabo Frio (RJ). A editora tem como foco a publicação de autores da Região dos Lagos, com ênfase na história e memória locais. O espaço cultural da editora promove uma extensa programação literária, incluindo círculos de leitura, saraus, debates e lançamentos. Em 2024, Rodrigo conquistou o segundo lugar no Prêmio Off Flip na categoria Contos e foi destaque na categoria Poesia. No ano anterior, em 2023, ficou em terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa e em 2022 foi finalista do prêmio Off Flip na categoria Poesia. Atualmente, está se preparando para lançar seu primeiro livro de poemas em 2024.


Confira três poemas do autor.



monóculo fotográfico



atrás 

do vidrinho

a vida solta

sinais de fumaça

pelas montanhas


atrás

do vidrinho

pigmentos

descascam

fabricações

premonitórias


atrás

do vidrinho

remadores rumam

à boca da barra

pronunciando

caymmi


atrás

do vidrinho,

meu velho,

eu sou

hoje

o seu 

tórax





dobradura 


eu construo barcos

você me fornece o atlântico

eu transformo chapéu em proa

crio tormentas com mindinhos

meu barco é firme

está afundando

você sorri

orgulhosa







canção


a vibração das cordas

o aço das ondas

a bruma na boca


   : é o céu

   : é o corpo

   : é o súbito


Resenha: Em agosto nos vemos, de Gabriel García Márquez

Foto: Arte digital

 

APRESENTAÇÃO

Todo mês de agosto, Ana Magdalena Bach pega uma barca para uma ilha caribenha a fim de colocar um ramo de gladíolo no túmulo de sua mãe. Todos os anos, ela se hospeda em um hotel e, antes de dormir, desce para comer algo no bar. Para não ter erro, ela pede sempre o mesmo sanduíche de presunto e queijo e depois sobe para seus aposentos. Até que, certa vez, um homem a convida para uma bebida. E, depois do primeiro gole de seu gim com gelo e soda, sentindo-se atrevida, alegre, capaz de tudo ― inclusive de se despir de suas amarras conjugais, esquecendo momentaneamente marido e filhos ―, ela cede aos avanços do desconhecido e o leva para seu quarto.

Essa noite específica faz com que Ana Magdalena ― e sua vida ― mude para sempre. E, depois dessa experiência, ela passa a ansiar por cada mês de agosto, quando não apenas visita o túmulo de sua mãe como também tem a chance de escolher um amante diferente todos os anos.

Escrito no estilo fascinante e inconfundível de um dos maiores ícones da literatura latino-americana, Em agosto nos vemos pinta o retrato de uma mulher que descobre seus desejos e se aprofunda em seus medos. Uma preciosidade que vai encantar fãs do saudoso Gabo, assim como novos leitores desse grande escritor.


RESENHA


A narrativa nos apresenta a personagem principal, Ana Magdalena Bach, uma mulher de quarenta e seis anos que retorna à ilha onde sua mãe está enterrada. Através de uma descrição detalhada de suas ações e pensamentos, somos levados a conhecer um pouco mais sobre a vida e os sentimentos dessa mulher solitária e introspectiva.


Ana Magdalena Bach é retratada como uma mulher reservada, de poucas palavras, que mantém uma rotina anual de visitas à ilha para prestar homenagem à sua mãe falecida, onde se desnuda de seus compromissos, filhos, matrimônio - e de toda história deixada para trás. No entanto, nessa viagem em particular, ela se envolve em um encontro inesperado com um homem misterioso no hotel em que está hospedada.


Seu nome era Ana Magdalena Bach, tinha completado quarenta e seis anos de vida e vinte e sete de um matrimônio bem estabelecido com um homem que amava e que a amava, com quem se casou sem terminar o curso de Artes e Letras, ainda virgem e sem ter namorado antes. A mãe tinha sido uma célebre professora de escola primária montessoriana que, apesar de seus méritos, não quis ser outra coisa até o último suspiro. Ana Magdalena herdou dela o esplendor dos olhos dourados, a virtude das poucas palavras e a inteligência para controlar seu temperamento [...] (p.17).


O encontro entre Ana Magdalena e o homem desconhecido é descrito de forma sensual e delicada, mostrando a vulnerabilidade e a ousadia da personagem. A autora nos leva a acompanhar a intimidade revelada entre os dois, em meio a uma tempestade que ecoa as paixões e conflitos internos da personagem.


[...] só restavam três casais em mesas dispersas, e, bem na frente dela, um homem distinto que não tinha visto entrar. Usava linho branco, os cabelos metálicos. Tinha na mesa uma garrafa de brandy, uma taça pela metade e parecia estar sozinho no mundo. [...]  Achou que o homem da mesa da frente não a tinha visto, mas o surpreendeu observando-a quando o fitou pela segunda vez. Ele enrubesceu [...] Ela se apressou em atacá-lo com beijos suaves na orelha, no pescoço, ele a procurou com os lábios e os dois se beijaram na boca pela primeira vez.  (p.19 - 22).


Após a aventura, ela se depara com a partida repentina do homem e a solidão que se segue para Ana Magdalena, evidenciando a efemeridade dos momentos de prazer e a complexidade das relações humanas. - Só então se deu conta de que não sabia nada dele, nem mesmo o nome, e a única coisa que restava de sua noite louca era um triste cheiro de lavanda no ar purificado pela borrasca. Só quando apanhou o livro na mesinha de cabeceira para guardar na maleta foi que percebeu que ele havia deixado entre suas páginas de terror uma nota de vinte dólares. (p. 23)


Com uma prosa cuidadosamente construída e um olhar apurado para as emoções e desejos dos personagens, o livro nos envolve em uma história de encontros fugazes e descobertas pessoais. A personagem de Ana Magdalena Bach, com sua dualidade entre a responsabilidade cotidiana e a busca por conexões emocionais, se revela como um retrato fascinante da condição humana.


Magdalena sente durante o retorno à barca, que jamais voltaria a ser a mesma mulher após aquele encontro. Como lidar com um encontro efêmero que nos marca profundamente, e talvez, para sempre? Ao retornar para sua rotina em casa, ela percebe que tudo está diferente, e que algo havia mudado, o que a faz começar analisar sua casa e a rotina fio por fio, até entender, em certo ponto, que ela é quem havia mudado de dentro para fora.


Embora não estivesse ciente das razões de sua mudança, tinha algo a ver com a nota de vinte dólares que levava na página cento e dezesseis de seu livro. Ela tinha padecido com um sentimento insuportável de humilhação e sem um instante de sossego. (p.25)


Ela então sente-se, em partes, culpada por sua aventura, o que a faz confrontar seu marido sobre a noite anterior, o fazendo ficar sem entender nada. A conversa se extende até banheiro onde ambos se deliciam com a água correndo pelo corpo. Ele se chamava Doménico Amarís, um homem descrito como extremamente educado, bonito, fino e muito bem estruturado financeiramente. O relacionamento de ambos toma contornos de tensão e desconfiança, enquanto ela, Ana Magdalena, culpabiliza os recentes comportamentos de sua filha rebelde, Micaela, pelo ocorrido, o que claro, é rebatido pelo marido: você voltou assim.


— Fiz alguma coisa errada? — Não sei, porque nem eu mesma tinha percebido — respondeu ela, com o temperamento que tanto assombrava o esposo. — Mas talvez você tenha razão. Não será a impertinência de Micaela? — É anterior a isso — disse ele. E se atreveu a dar o passo final: — Você chegou da ilha assim.


Após este episódio, Ana Magdalena Bach, viaja novamente para ilha para visitar o túmulo de sua mãe, onde, por ironia do destino, é convidada por um homem jovial à dançar, ao qual ela, conhecedora da dança e suspeita da idade dele, o guia pelo salão. Eles tomam champanhe e ela o segue até o quarto em um encontro casual e quente descrito com o tecido mais leve e fino da sensualidade dos encontros casuais. Mais tarde, ela encontrou o homem do ano seguinte, na barca que a levava para a ilha. 


Ana Magdalena Bach encontra o advogado Aquiles Coronado no barca para a ilha, onde relembram sua longa amizade e flertam discretamente, tentando seduzir-la ao longo dos anos, mas ela mantém a amizade sem ceder às investidas amorosas.


Ela retornou para casa e confrontou o marido com inúmeras perguntas, tentando descobrir se ele encobriria, de alguma forma, um episódio de traição enquanto sentia um peso na consciência pelo acordo silencioso que nutririam à anos quando se casaram, tinha dito a ele que não se importaria se ele fosse para a cama com outra, com a condição de que não fosse sempre com a mesma, ou que fosse só uma vez. Após indagá-lo sobre como fora o procedimento dele em relação à aventura fora do casal, ambos acabaram em risos frenéticos, mas não sem antes, ela se esvair em fúria e ódio.


Ao regressar no ano seguinte à ilha, Ana se depara com a ajuda de um estranho para conseguir um novo quarto, desta vez, em um outro hotel. Eles se encontraram e ela se deleitou em como ele a tratou com tanto amor e suavidade, mas acabou rasgando seu cartão de visitas no final da noite para não sobrar rastros de suas aventurais anuais. Ela então regressa para casa, sente a indiferença da família devido aos inúmeros compromissos do marido com o trabalho, do filho com a música e da filha pela vida no convento. Ela então começa a refletir sobre como os encontros inundavam a forma com a qual ela enfrentava o relacionamento e enxergava a si própria, ela então retoma à ilha no ano seguinte decidida a acabar com as aventuras de uma noite só. O enredo se acaba com uma cena pouco provável ou imaginada pelos leitores, mas que evoca, em uma única linha, o âmago das decisões bem pensadas. 


Um enredo poderoso e poético que Garcia Márquez nos deixou de forma tão abrupta. Um enredo que desdobrou-se a explorar as relações e o âmago das nossas escolhas e a forma com a qual entendemos e compreendemos as nuances que a cobrança da culpa nos impõe no dia a dia. A prisão que cultivamos em nossas escolhas e nos pensamentos, a forma como dirigimos e digerimos nossa vida e a forma com a qual nos relacionamentos com nosso interior. Poderoso e implacável, certamente, um último livro incrivelmente arrebatador.

Resenha: Declaração de amor, de Carlos Drummond de Andrade

Foto: Arte digital

APRESENTAÇÃO


Lançado pela Editora Record em 2005, Declaração de amor volta às livrarias nesta nova edição, revista e ampliada, com a seleção dos mais belos poemas de amor de Carlos Drummond de Andrade.


“Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”, pergunta Carlos Drummond de Andrade em um poema desta coletânea, organizada por dois de seus netos, Luis Mauricio Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, e pelo estudioso de sua obra Edmílson Caminha. Aqui, o amor não é tema abstrato, sonho, fantasia, mas atração plena de libido, de desejo, de pulsão de vida. Um dos maiores nomes da literatura mundial no século XX, o poeta não derrapa na pieguice, no melodrama, no apelo à emoção, mas cria versos que encantam o leitor pela riqueza humana, pela força dos sentimentos e pelo apuro da forma. Muitas vezes, também pela delicadeza e o senso de humor.


Lançado pela Editora Record em 2005, Declaração de amor volta às livrarias nesta nova edição, revista e ampliada, com capa dura, a que se acrescentam seis poemas do livro Poesia errante: “A essa altura da vida”, “Amor – eu digo”, “Canção de namorados”, “Nossa história de amor”, “Papinho lírico no Dia dos Namorados” e “Quero sentir”. Declarações amorosas que nos fazem concordar com Drummond, quando escreveu: “Amor é primo da morte, / e da morte vencedor, / por mais que o matem (e matam) / a cada instante de amor.”


Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902. Poeta, contista e cronista, considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira do século XX, foi autor, entre outros, de Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, Claro enigma, Fazendeiro do ar e Fala, amendoeira. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1987, aos 84 anos.


RESENHA


Declaração de Amor, relançado em edição revista e ampliada, reúne os mais belos poemas de amor de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores nomes da literatura mundial do século XX. Através da cuidadosa seleção de seus netos e do estudioso Edmílson Caminha, esta coletânea oferece um panorama comovente da visão única de Drummond sobre o amor.


Longe de ser um tema abstrato ou idealizado, o amor em Declaração de Amor é pulsante, carnal e cheio de vida. Drummond não se furta de explorar a paixão em toda sua intensidade, com versos que celebram a atração física, o desejo e a pulsão vital. Ao mesmo tempo, o poeta demonstra maestria na construção de poemas que encantam pela riqueza humana, pela força dos sentimentos e pelo apuro da forma. Em alguns momentos, encontramos delicadeza e humor, enquanto em outros, a paixão se manifesta com toda sua força e intensidade.


Em "Amar", Carlos Drummond de Andrade nos convida a uma profunda reflexão sobre a natureza complexa e multifacetada do amor. Através de versos densos e carregados de simbolismo, o poeta explora as diversas formas que o amor pode assumir, desde a sua expressão mais pura até a sua faceta mais obscura. O poema abre com uma pergunta contundente: "Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?". Essa indagação estabelece o amor como o elemento central da existência humana, algo que nos conecta uns aos outros e define a nossa essência.



Drummond não se limita a uma definição simplista do amor. Ele explora as suas diversas nuances, desde a entrega total ("amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar?") até a contemplação platônica ("amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante"). O poeta também reconhece a faceta dolorosa do amor, marcada pela perda e pela finitude. A imagem do mar que "traz à praia" e "sepulte" é uma metáfora poderosa para a efemeridade da vida e do amor. Essa dualidade se manifesta ainda na frase "Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas". O amor, em sua imensidão, pode ser direcionado tanto para objetos que o retribuem ("coisas pérfidas ou nulas") quanto para aqueles que o ignoram ou o rejeitam.


Apesar da dor e da ingratidão, o eu lírico reconhece a necessidade humana de amar, mesmo que isso signifique doar-se a algo que não nos retribui. A "procura medrosa, paciente, de mais e mais amor" revela a busca incessante por um amor que preencha o vazio existencial.


Em "Ausência", Carlos Drummond de Andrade nos convida a uma profunda reflexão sobre a natureza do amor e a ilusão da busca pela sua plenitude. Através de versos simples e carregados de simbolismo, o poeta explora a frustração e a solidão do eu lírico diante da ausência do amor. O poema se inicia com a imagem do eu lírico subindo ao "Pico do Amor", acreditando encontrar lá a presença do sentimento tão almejado. A expectativa de encontrar o amor no topo da montanha reflete a crença humana na existência de um lugar ideal onde a felicidade e a plenitude residem. No entanto, ao chegar ao topo, o eu lírico se depara com a "serenidade de nuvens sussurrando ao coração: Que importa?". Essa frase revela a decepção e o vazio diante da ausência do amor. O pico, símbolo da busca pelo ideal, se torna um lugar de questionamentos e dúvidas.


O eu lírico então especula sobre a possibilidade de encontrar o amor em outros lugares, como em uma "lagoa decerto" ou em uma "grota funda". Essa busca por lugares próximos, mas ainda inacessíveis, representa a esperança do eu lírico em encontrar o amor em lugares inesperados. No entanto, a última estrofe traz a negação final: "Ou? mais encoberto ainda, onde se refugiam coisas que não são, e tremem de vir a ser.". Essa frase sugere que o amor que o eu lírico busca pode ser algo ilusório, algo que não existe na realidade e que apenas "treme de vir a ser".O poema termina com uma sensação de incerteza e inconclusão. O eu lírico fica sem saber onde encontrar o amor, ou se ele realmente existe. Essa ausência de respostas pode ser interpretada como um convite à aceitação da realidade e à superação da busca incessante por um ideal inatingível.


Em "Toada do Amor", Carlos Drummond de Andrade tece uma canção poética sobre a natureza cíclica e passional do amor, utilizando uma linguagem simples e direta, marcada por expressões coloquiais e imagens vívidas. O poema nos convida a refletir sobre a complexa relação entre amor, briga, perdão e a própria essência da vida. Os versos iniciais estabelecem o tom do poema: "E o amor sempre nessa toada: briga perdoa perdoa briga." Essa repetição cria um ritmo musical e enfatiza a natureza cíclica do amor, marcado por momentos de conflito e reconciliação.




O eu lírico reconhece a inutilidade de "xingar a vida", pois, apesar das dificuldades, a vida segue seu curso e a gente "vive, depois esquece." No entanto, o amor se diferencia dessa fluidez natural, retornando constantemente para "brigar" e "perdoar", como um "cachorro bandido trem". A metáfora "amor cachorro bandido trem" evoca a imagem de um animal selvagem e imprevisível, simbolizando a paixão e a intensidade do amor. Essa paixão, por vezes turbulenta, leva à "briga", mas também abre espaço para o "perdão", demonstrando a capacidade do amor de superar conflitos e se renovar. O eu lírico questiona: "Mas, se não fosse ele, também que graça que a vida tinha?". Essa pergunta revela a importância do amor como elemento fundamental da existência humana. Mesmo com suas contradições e desafios, o amor é visto como algo que dá sentido à vida, que a torna mais rica e intensa.


Na última estrofe, o eu lírico se dirige à "Mariquita" e pede o seu "pito", afirmando que "no teu pito está o infinito." Essa imagem simbólica pode ser interpretada de diversas maneiras, desde uma referência à sexualidade até uma metáfora para a própria vida, com suas possibilidades infinitas.


Em "Receita para não engordar sem necessidade de ingerir arroz integral e chá de jasmim", Carlos Drummond de Andrade nos convida a um banquete poético, onde o amor se torna o ingrediente principal para uma vida plena e livre de preocupações com dietas restritivas. Através de versos singelos e carregados de humor, o poeta nos oferece uma receita inusitada e deliciosa para alcançar a felicidade. O poema se apresenta como uma "receita", subvertendo a expectativa do leitor e convidando-o a pensar de forma diferente sobre os conceitos de dieta e bem-estar. O "regime sensacional" proposto por Drummond não se baseia em restrições alimentares, mas sim em uma prática constante e integral do amor.



A metáfora do "amor integral" é central para a compreensão do poema. O amor, em sua forma mais completa e plena, é apresentado como o alimento essencial para a alma, nutrindo-a e proporcionando-lhe a energia necessária para viver com alegria e vitalidade. Drummond nos convida a "praticar o amor integral" desde a "aurora matinal até a hora em que o mocho espia", sugerindo que o amor deve permear cada momento da nossa existência. Essa prática constante nos permite aproveitar ao máximo a vida, abraçando-a em toda a sua plenitude e efemeridade. O poema nos convida a abandonarmos as preocupações com dietas e a buscarmos a felicidade em experiências autênticas e significativas. O "arroz integral" e o "chá de jasmim", símbolos de regimes alimentares restritivos, são deixados de lado em favor de um amor que nos liberta da obsessão com o corpo e nos permite viver com mais leveza e liberdade.


A frase "Pois a vida é um sonho e, se tudo é pó, que seja pó de amor integral" nos convida a refletir sobre a finitude da vida e a importância de aproveitarmos cada momento ao máximo. O amor, em sua forma mais pura, nos permite transcender a efemeridade da existência e deixar um rastro de beleza e significado no mundo.


Em "O Chão é Cama", Carlos Drummond de Andrade nos convida a mergulhar na intensidade de um amor arrebatador que transcende os limites do convencional. Através de versos curtos e linguagem direta, o poeta celebra a urgência da paixão e a busca por refúgio no corpo do outro. O poema abre com a contundente afirmação: "O chão é cama para o amor urgente". Essa frase estabelece o tom da obra, caracterizado pela urgência, pela pulsão e pela impossibilidade de adiamentos. O amor em questão não se contenta com a espera, ele exige expressão imediata, mesmo que isso signifique prescindir do conforto e da privacidade de um quarto.


Drummond não se furta de explorar a paixão em toda sua intensidade, com versos que celebram a atração física, o desejo e a pulsão vital.  Ao mesmo tempo, o poeta demonstra maestria na construção de poemas que encantam pela riqueza humana, pela força dos sentimentos e pelo apuro da forma. Em alguns momentos encontramos delicadeza e humor, enquanto em outros, a paixão se manifesta com toda sua força e intensidade. Em suma, "Declaração de Amor" é uma obra-prima da poesia brasileira, que nos convida a uma jornada profunda e emocionante pelo universo complexo e multifacetado do amor, em todas as suas manifestações.

Resenha: Contos de aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade

Foto: Arte digital

APRESENTAÇÃO

Nascido em uma região rural, Drummond incorpora essa experiência em muitas dessas quinze histórias, a exemplo de “A salvação da alma”, em que a infância e a adolescência de cinco irmãos são atravessadas pelo clima bucólico e ingênuo do interior do país na primeira metade do século XX, e “O sorvete”, no qual dois meninos enfrentam o dilema de experimentar ou não pela primeira vez uma até então desconhecida iguaria.

Aos poucos, as histórias avançam em direção às grandes cidades, mostrando sua lenta transformação. O talento de Drummond para a clareza e a elegância narrativa colabora para a construção psicológica de seus personagens. Na longa narrativa tchekhoviana “O gerente”, o autor vai aos poucos construindo (e desconstruindo) o protagonista Samuel, um bancário que frequenta o jet set carioca e é acusado de um crime bizarro, sendo por isso apelidado pelos jornais de “o Vampiro dos Salões”. Drummond cadencia as revelações e deixa o leitor “espiar” os acontecimentos, ao mesmo tempo que mostra a complexidade de “pessoas comuns”.


RESENHA


O livro "Contos de Aprendiz" de Carlos Drummond de Andrade apresenta uma série de narrativas que exploram temas como a infância, a vida interiorana, as relações familiares e sociais, e o cotidiano de forma geral. Através de contos curtos e objetivos, o autor consegue capturar a essência das situações descritas, levando o leitor a refletir sobre questões profundas e muitas vezes perturbadoras. Em cada conto, Drummond apresenta personagens complexos, muitas vezes confrontados com dilemas morais, sociais e existenciais. A narrativa muitas vezes aborda temas como a solidão, o medo, a morte, a busca por aceitação, a relação com o outro e a própria identidade. Além disso, o autor utiliza uma linguagem simples e direta, mas carregada de significados e simbolismos, o que enriquece a leitura e convida à reflexão.


A variedade de temas abordados nos contos de Drummond mostra a versatilidade e a profundidade do autor, que consegue transitar com maestria por diferentes gêneros e estilos literários. Sua capacidade de criar personagens marcantes e situações impactantes é uma das marcas registradas de sua obra, e em "Contos de Aprendiz" isso não é diferente. 


A salvação da alma: A história narra a relação conturbada entre cinco irmãos em uma cidade onde as brigas eram comuns. Com a partida do irmão mais velho, Miguel, os outros irmãos se viram sozinhos e continuaram com os conflitos entre si. Ester, a única filha, era explorada pelos irmãos para conseguir dinheiro. Com a chegada dos padres, os meninos foram levados para se confessar e Tito, o penúltimo filho, pediu perdão ao irmão mais novo com quem brigava constantemente. No entanto, após um incidente durante a punição, os irmãos não puderam comungar no dia seguinte.


Sorvete: Joel e seu colega moravam em uma pequena cidade e ficaram impressionados ao ver um anúncio de sorvete de abacaxi em uma confeitaria. Eles inicialmente foram ao cinema, mas não conseguiram se concentrar pensando no sorvete. Abandonaram o filme e foram experimentar o sorvete, mesmo odiando. Joel comeu até o fim para não ferir a honra da família, e seu amigo foi obrigado a fazer o mesmo.


A doida: Um grupo de crianças na cidade tem medo de uma mulher considerada louca, que vive isolada em uma casa. Um dia, eles tentam assustá-la, mas um dos meninos acaba descobrindo que ela está muito doente e decide ficar com ela até o final de sua vida.


Presépio: Das Dores era uma jovem ocupada com tarefas dadas pelo pai para que ela não ficasse ociosa. Mesmo assim, ela tinha um namorado chamado Abelardo. Na véspera de Natal, Abelardo foi visitá-la, atrasando a finalização do presépio, tarefa que apenas Das Dores sabia fazer corretamente. Ela estava dividida entre terminar o presépio e ir à missa de galo para ver Abelardo. Enquanto montava o presépio, só pensava nele, mesmo com várias distrações e a pressão do tempo passando rápido.


Câmara e cadeia: Valdemar estava na Câmara Municipal onde todos os homens discutiam sobre impostos, mas apenas ele estava trabalhando. Enquanto o calor abafava a sala, Valdemar foi até a janela e lembrou-se da cadeia que ficava embaixo da câmara. De repente, um preso fugido entrou na sala dos homens, contando sobre a sua fuga e as condições horríveis da cadeia. Valdemar tentou prendê-lo novamente, mas o preso acabou fugindo enquanto os policiais tentavam capturá-lo.


Beira rio: As terras da companhia lideradas pelo capitão Bonerges proibiam bebidas alcoólicas, o que deixava os trabalhadores desanimados. Um negro que vendia bebidas clandestinamente trouxe animação e disposição para o trabalho, mas foi expulso por Bonerges com a ajuda da polícia. Mesmo após ter sua vendinha destruída, o negro partiu calmamente, apesar dos tiros.


Meu companheiro: O homem na estrada pagou mais do que o necessário por um cachorrinho que não passava de um vira-lata, mas tinha traços de cães de raça. Levou-o para casa e o nomeou Pirulito. Sua esposa não era muito fã de animais de estimação, mas o cachorro se aproximava mais do homem, que se tornou seu companheiro. Os dois conversavam e tinham uma conexão especial, apesar dos meninos implicarem que o cachorro gostava de gente "velha". Um dia, Pirulito desapareceu, deixando o homem triste e sem entender o motivo de seu amigo ter ido embora.


Flor, telefone e moça: Uma moça vivia ao lado de um cemitério e arrancou uma flor do chão, lançando-a fora sem pensar. Logo depois, começou a receber ligações de uma voz suplicante pedindo a flor de volta. Mesmo com a ajuda policial, a voz persistia, levando a família a buscar ajuda espiritual. A voz continuou até que a menina, perturbada, faleceu.


A baronesa: Luis vivia na casa da rica baronesa há muito tempo, mas só a viu algumas vezes. Quando ela morreu, correu para buscar Renato, o sobrinho-neto, e juntos foram até a casa da baronesa em busca de suas jóias. Renato pegou um colar que sobrara do corpo da baronesa, incomodando sua posição de morte, e depois eles fizeram a partilha justa das jóias no banheiro.


O gerente: Samuel, o gerente bem-sucedido do banco, vive uma série de incidentes estranhos que envolvem mulheres perdendo a ponta dos dedos após serem cumprimentadas por ele. Apesar de ser acusado, a polícia não encontra provas contra ele, e ele é afastado do banco e vai morar em São Paulo. Anos depois, encontra uma das vítimas que teve que amputar o braço devido a uma infecção. Eles se encontram novamente, mas apenas bebem muito e no dia seguinte Samuel volta a São Paulo sem concluir seus negócios no Rio.


Nossa amiga: Uma menina de três anos vivia entre duas casas e para evitar a mão bisbilhoteira foi criada a personagem Catarina, uma borboleta "bruxa" que quebrou um cachorrinho de vidro. Também havia o personagem Pepino, um velho bêbado que assustava as crianças. Mesmo com medo, a menina acabava indo de uma casa para outra, sendo enganada com a promessa de uma festa com Pepino. Por fim, ela brincava de mamãe, usando frases de adultos em suas brincadeiras.


Miguel e seu furto: Miguel era um homem simpático, mas sem ocupação na vida. Após perder seu sustento, ele dormia em jornais e teve a ideia de roubar o mar. Com as novas regras impostas, Miguel se tornou incrivelmente rico, queimava sua riqueza para ter onde guardar suas aquisições. Mas, um dia, crianças nadaram no mar e o povo retomou sua posse. Miguel depositou sua fortuna em bancos e passou a colecionar conchinhas para lembrar de sua ex-propriedade.


Conversa de velho com criança: Um homem idoso e uma menina chamada Maria de Lourdes conversam em um ônibus. O homem, chamado Ferreira, descobre o nome da menina sem precisar perguntar, e a menina descobre o nome dele da mesma maneira. A menina traz um pacote de balas que parece ser seu tesouro, enquanto o homem carrega sacolas de compras e está em pé. Quando o cobrador vem cobrar a passagem, o homem tem dificuldade em encontrar a moeda e acaba deixando-a cair na rua, mas não precisa pagar a passagem pois não encontraram a moeda. A menina oferece uma bala ao homem, indicando que são amigos próximos, e o homem percebe que ela fez isso para poder comer também. Ao descerem do ônibus, o homem se questiona se são realmente amigos próximos ou apenas avô e neta que se dão muito bem.


Extraordinária conversa com uma senhora de minhas relações: Um homem tem uma conversa com uma senhora conhecida em um ônibus, onde ele tenta lembrar quem ela é através de sua voz. Eles trocam cumprimentos e ele nota o vestido dela e suas curvas. Ela pergunta como ele está e ele responde com versos, mas depois corrigi para uma resposta mais educada. Ela fala sobre suas preocupações, mas ele está mais preocupado em ultrapassar limites. Quando ela desce do ônibus, ele reflete que foi a conversa mais extraordinária que teve com uma dama de sua relação.


Um escritor nasce e morre: Um escritor talentoso nasce em uma cidade pequena após ouvir sobre o Pólo Norte na escola. Se destaca na escrita desde jovem e é reconhecido pela sua professora. Ele cresce, escreve contos e poesias, sempre se mantendo humilde e criticando outros escritores. Uma voz em sua mente o chama de artista nato. Aos trinta anos, ele falece, deixando um legado de obras literárias.


O livro se chama "Contos de Aprendiz" porque cada uma das histórias apresentadas no livro mostra personagens em processos de aprendizagem e transformação. Os contos exploram as experiências dos personagens, suas relações e conflitos, levando-os a enfrentar dilemas morais, sociais e existenciais. Ao longo das narrativas, os personagens são confrontados com situações que os fazem refletir e crescer, aprendendo lições importantes sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo ao seu redor. Dessa forma, o título "Contos de Aprendiz" reflete a jornada de aprendizagem e amadurecimento dos personagens ao longo das narrativas apresentadas no livro.


Em resumo, o livro "Contos de Aprendiz" de Carlos Drummond de Andrade é uma obra que explora de forma criativa e profunda as nuances da vida, os dilemas da existência e as complexidades das relações humanas. Através de narrativas envolventes e personagens cativantes, o autor nos leva a refletir sobre questões essenciais do ser humano e do mundo que nos cerca. A leitura do livro é essencial para quem busca entender melhor a obra de Drummond e se aprofundar em sua visão de mundo e de literatura.

Resenha: Amar se aprende amando, de Carlos Drummond de Andrade

Foto: Arte digital

APRESENTAÇÃO

“O mundo é grande e cabe / nesta janela sobre o mar. / O mar é grande e cabe / na cama e no colchão de amar. / O amor é grande e cabe / no breve espaço de beijar.” Com versos assim, que conciliam sofisticação e simplicidade, esta


coletânea exalta o mais nobre “sentimento do mundo”.

Publicado originalmente em 1985, apenas dois anos antes da morte de Drummond, Amar se aprende amando nos revela as diferentes facetas do amor. Para falar delas, o poeta sempre encontra um viés inusitado (como nos saborosos neologismos “sempreamar” e “pluriamar”), que evidencia sua aversão à retórica e evita a pieguice que ronda a poesia quando se fala das “coisas do coração”. Seus versos fazem aquilo que para muitos é impossível: traduzem sentimentos indescritíveis em palavras.

Se o amor romântico, aquele precedido pela paixão arrebatadora, tem destaque em poemas impactantes como “Amor” e “Lira do amor romântico”, Drummond também mostra que “O amor antigo tem raízes fundas, / feitas de sofrimento e de beleza”. Na segunda seção do livro, abre o leque para compor poemas magistrais sobre o amor fraterno, com destaque para o comovente “Companheiro”, feito para os 80 anos do amigo Pedro Nava. Na última parte, o poeta incorpora o cronista em versos tirados da realidade brasileira, que, àquela altura, caminhava para uma transição democrática depois dos amargos “anos de chumbo”.


RESENHA


Em Amar se aprende amando, Drummond fala sobre o amor na velhice e como ele muda com o passar dos anos. O poeta reflete sobre a importância de cultivar o amor e aprender com ele, mesmo diante de um mundo marcado pela brutalidade e pela indiferença. Ele aborda questões políticas e sociais, como a violência e a desigualdade, e como esses elementos afetam o amor e a esperança. Drummond mostra que, apesar das dificuldades, é preciso continuar cultivando o amor e mantendo a esperança viva, sem expectativas de uma felicidade universal.


Essas reflexões acerca do envelhecimento do corpo, que fazem alusão à capa da obra na qual se retrata o dorso de um corpo jovem, são destacadas por Drummond em suas reflexões do poema "Fazer 70 anos". Ele inclui a ideia de que atingir a idade de 70 anos não é uma tarefa simples, pois ao longo da vida somos confrontados com perdas e transformações no âmago de nosso ser. O poema fala sobre a necessidade de lidar com as memórias e ruínas do passado, bem como com a incerteza do futuro. Além disso, há uma reflexão sobre a dualidade de sentimentos que acompanha a chegada dos 70 anos, como a alegria misturada com a tristeza. Por fim, o poema destaca a importância da amizade e do apoio mútuo nessa fase da vida, ressaltando a estranha felicidade que pode surgir da velhice.


O poema "Reconhecimento do Amor" fala sobre a descoberta e aceitação do amor em uma amizade. O eu lírico descreve como inicialmente não entendia o verdadeiro significado do amor e como, aos poucos, foi se deixando envolver por ele de forma suave e doce. Através da amizade e da entrega mútua, o eu lírico percebe que o amor dissipa a individualidade e une os amantes em uma só essência, onde não há mais separação entre eles. O poema enfatiza a importância do amor como força transformadora e redentora, que transcende a razão e a própria existência individual para se integrar em um todo perfeito. No final, o eu lírico expressa a sua felicidade em estar completamente mergulhado no mar do amor, onde não há mais espaço para a superficialidade do mundo exterior. É um poema que celebra a beleza e a plenitude do amor verdadeiro.


O envelhecimento e as datas do calendário são vistos como mitos, enquanto o amor é descrito como algo atemporal, que nasce a cada momento. O poema destaca a ideia de que o amor é a conexão que une dois corações para a eternidade. O autor reflete sobre como o tempo não passa quando se trata do amor que sentimos no coração. Ele descreve o amor como algo eterno, que transcende qualquer medida de tempo. O autor enfatiza que o amor é a essência da vida e que, além do amor, não há nada.


O autor nos fala sobre a busca do ser humano por outro ser, que ao ser encontrado, gera um sentimento de estar completo e dividido ao mesmo tempo. O amor é descrito como um selo sublime que dá cor, graça e sentido à vida. No entanto, apesar da beleza e do perfume da rosa que simboliza o amor, o narrador não consegue senti-lo diretamente.


Em síntese, o livro 'Amar se aprende amando' é uma obra profunda e reflexiva que aborda questões universais como o amor, o envelhecimento e a busca pela felicidade. Drummond consegue conectar o leitor com suas palavras poéticas e sensíveis, levando-o a refletir sobre a importância do amor e da esperança mesmo em meio às adversidades da vida. O livro é uma verdadeira lição sobre como cultivar o amor e manter a fé nos dias difíceis, tornando-se uma leitura inspiradora.

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