Resenha: Contos de aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade

Foto: Arte digital

APRESENTAÇÃO

Nascido em uma região rural, Drummond incorpora essa experiência em muitas dessas quinze histórias, a exemplo de “A salvação da alma”, em que a infância e a adolescência de cinco irmãos são atravessadas pelo clima bucólico e ingênuo do interior do país na primeira metade do século XX, e “O sorvete”, no qual dois meninos enfrentam o dilema de experimentar ou não pela primeira vez uma até então desconhecida iguaria.

Aos poucos, as histórias avançam em direção às grandes cidades, mostrando sua lenta transformação. O talento de Drummond para a clareza e a elegância narrativa colabora para a construção psicológica de seus personagens. Na longa narrativa tchekhoviana “O gerente”, o autor vai aos poucos construindo (e desconstruindo) o protagonista Samuel, um bancário que frequenta o jet set carioca e é acusado de um crime bizarro, sendo por isso apelidado pelos jornais de “o Vampiro dos Salões”. Drummond cadencia as revelações e deixa o leitor “espiar” os acontecimentos, ao mesmo tempo que mostra a complexidade de “pessoas comuns”.


RESENHA


O livro "Contos de Aprendiz" de Carlos Drummond de Andrade apresenta uma série de narrativas que exploram temas como a infância, a vida interiorana, as relações familiares e sociais, e o cotidiano de forma geral. Através de contos curtos e objetivos, o autor consegue capturar a essência das situações descritas, levando o leitor a refletir sobre questões profundas e muitas vezes perturbadoras. Em cada conto, Drummond apresenta personagens complexos, muitas vezes confrontados com dilemas morais, sociais e existenciais. A narrativa muitas vezes aborda temas como a solidão, o medo, a morte, a busca por aceitação, a relação com o outro e a própria identidade. Além disso, o autor utiliza uma linguagem simples e direta, mas carregada de significados e simbolismos, o que enriquece a leitura e convida à reflexão.


A variedade de temas abordados nos contos de Drummond mostra a versatilidade e a profundidade do autor, que consegue transitar com maestria por diferentes gêneros e estilos literários. Sua capacidade de criar personagens marcantes e situações impactantes é uma das marcas registradas de sua obra, e em "Contos de Aprendiz" isso não é diferente. 


A salvação da alma: A história narra a relação conturbada entre cinco irmãos em uma cidade onde as brigas eram comuns. Com a partida do irmão mais velho, Miguel, os outros irmãos se viram sozinhos e continuaram com os conflitos entre si. Ester, a única filha, era explorada pelos irmãos para conseguir dinheiro. Com a chegada dos padres, os meninos foram levados para se confessar e Tito, o penúltimo filho, pediu perdão ao irmão mais novo com quem brigava constantemente. No entanto, após um incidente durante a punição, os irmãos não puderam comungar no dia seguinte.


Sorvete: Joel e seu colega moravam em uma pequena cidade e ficaram impressionados ao ver um anúncio de sorvete de abacaxi em uma confeitaria. Eles inicialmente foram ao cinema, mas não conseguiram se concentrar pensando no sorvete. Abandonaram o filme e foram experimentar o sorvete, mesmo odiando. Joel comeu até o fim para não ferir a honra da família, e seu amigo foi obrigado a fazer o mesmo.


A doida: Um grupo de crianças na cidade tem medo de uma mulher considerada louca, que vive isolada em uma casa. Um dia, eles tentam assustá-la, mas um dos meninos acaba descobrindo que ela está muito doente e decide ficar com ela até o final de sua vida.


Presépio: Das Dores era uma jovem ocupada com tarefas dadas pelo pai para que ela não ficasse ociosa. Mesmo assim, ela tinha um namorado chamado Abelardo. Na véspera de Natal, Abelardo foi visitá-la, atrasando a finalização do presépio, tarefa que apenas Das Dores sabia fazer corretamente. Ela estava dividida entre terminar o presépio e ir à missa de galo para ver Abelardo. Enquanto montava o presépio, só pensava nele, mesmo com várias distrações e a pressão do tempo passando rápido.


Câmara e cadeia: Valdemar estava na Câmara Municipal onde todos os homens discutiam sobre impostos, mas apenas ele estava trabalhando. Enquanto o calor abafava a sala, Valdemar foi até a janela e lembrou-se da cadeia que ficava embaixo da câmara. De repente, um preso fugido entrou na sala dos homens, contando sobre a sua fuga e as condições horríveis da cadeia. Valdemar tentou prendê-lo novamente, mas o preso acabou fugindo enquanto os policiais tentavam capturá-lo.


Beira rio: As terras da companhia lideradas pelo capitão Bonerges proibiam bebidas alcoólicas, o que deixava os trabalhadores desanimados. Um negro que vendia bebidas clandestinamente trouxe animação e disposição para o trabalho, mas foi expulso por Bonerges com a ajuda da polícia. Mesmo após ter sua vendinha destruída, o negro partiu calmamente, apesar dos tiros.


Meu companheiro: O homem na estrada pagou mais do que o necessário por um cachorrinho que não passava de um vira-lata, mas tinha traços de cães de raça. Levou-o para casa e o nomeou Pirulito. Sua esposa não era muito fã de animais de estimação, mas o cachorro se aproximava mais do homem, que se tornou seu companheiro. Os dois conversavam e tinham uma conexão especial, apesar dos meninos implicarem que o cachorro gostava de gente "velha". Um dia, Pirulito desapareceu, deixando o homem triste e sem entender o motivo de seu amigo ter ido embora.


Flor, telefone e moça: Uma moça vivia ao lado de um cemitério e arrancou uma flor do chão, lançando-a fora sem pensar. Logo depois, começou a receber ligações de uma voz suplicante pedindo a flor de volta. Mesmo com a ajuda policial, a voz persistia, levando a família a buscar ajuda espiritual. A voz continuou até que a menina, perturbada, faleceu.


A baronesa: Luis vivia na casa da rica baronesa há muito tempo, mas só a viu algumas vezes. Quando ela morreu, correu para buscar Renato, o sobrinho-neto, e juntos foram até a casa da baronesa em busca de suas jóias. Renato pegou um colar que sobrara do corpo da baronesa, incomodando sua posição de morte, e depois eles fizeram a partilha justa das jóias no banheiro.


O gerente: Samuel, o gerente bem-sucedido do banco, vive uma série de incidentes estranhos que envolvem mulheres perdendo a ponta dos dedos após serem cumprimentadas por ele. Apesar de ser acusado, a polícia não encontra provas contra ele, e ele é afastado do banco e vai morar em São Paulo. Anos depois, encontra uma das vítimas que teve que amputar o braço devido a uma infecção. Eles se encontram novamente, mas apenas bebem muito e no dia seguinte Samuel volta a São Paulo sem concluir seus negócios no Rio.


Nossa amiga: Uma menina de três anos vivia entre duas casas e para evitar a mão bisbilhoteira foi criada a personagem Catarina, uma borboleta "bruxa" que quebrou um cachorrinho de vidro. Também havia o personagem Pepino, um velho bêbado que assustava as crianças. Mesmo com medo, a menina acabava indo de uma casa para outra, sendo enganada com a promessa de uma festa com Pepino. Por fim, ela brincava de mamãe, usando frases de adultos em suas brincadeiras.


Miguel e seu furto: Miguel era um homem simpático, mas sem ocupação na vida. Após perder seu sustento, ele dormia em jornais e teve a ideia de roubar o mar. Com as novas regras impostas, Miguel se tornou incrivelmente rico, queimava sua riqueza para ter onde guardar suas aquisições. Mas, um dia, crianças nadaram no mar e o povo retomou sua posse. Miguel depositou sua fortuna em bancos e passou a colecionar conchinhas para lembrar de sua ex-propriedade.


Conversa de velho com criança: Um homem idoso e uma menina chamada Maria de Lourdes conversam em um ônibus. O homem, chamado Ferreira, descobre o nome da menina sem precisar perguntar, e a menina descobre o nome dele da mesma maneira. A menina traz um pacote de balas que parece ser seu tesouro, enquanto o homem carrega sacolas de compras e está em pé. Quando o cobrador vem cobrar a passagem, o homem tem dificuldade em encontrar a moeda e acaba deixando-a cair na rua, mas não precisa pagar a passagem pois não encontraram a moeda. A menina oferece uma bala ao homem, indicando que são amigos próximos, e o homem percebe que ela fez isso para poder comer também. Ao descerem do ônibus, o homem se questiona se são realmente amigos próximos ou apenas avô e neta que se dão muito bem.


Extraordinária conversa com uma senhora de minhas relações: Um homem tem uma conversa com uma senhora conhecida em um ônibus, onde ele tenta lembrar quem ela é através de sua voz. Eles trocam cumprimentos e ele nota o vestido dela e suas curvas. Ela pergunta como ele está e ele responde com versos, mas depois corrigi para uma resposta mais educada. Ela fala sobre suas preocupações, mas ele está mais preocupado em ultrapassar limites. Quando ela desce do ônibus, ele reflete que foi a conversa mais extraordinária que teve com uma dama de sua relação.


Um escritor nasce e morre: Um escritor talentoso nasce em uma cidade pequena após ouvir sobre o Pólo Norte na escola. Se destaca na escrita desde jovem e é reconhecido pela sua professora. Ele cresce, escreve contos e poesias, sempre se mantendo humilde e criticando outros escritores. Uma voz em sua mente o chama de artista nato. Aos trinta anos, ele falece, deixando um legado de obras literárias.


O livro se chama "Contos de Aprendiz" porque cada uma das histórias apresentadas no livro mostra personagens em processos de aprendizagem e transformação. Os contos exploram as experiências dos personagens, suas relações e conflitos, levando-os a enfrentar dilemas morais, sociais e existenciais. Ao longo das narrativas, os personagens são confrontados com situações que os fazem refletir e crescer, aprendendo lições importantes sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo ao seu redor. Dessa forma, o título "Contos de Aprendiz" reflete a jornada de aprendizagem e amadurecimento dos personagens ao longo das narrativas apresentadas no livro.


Em resumo, o livro "Contos de Aprendiz" de Carlos Drummond de Andrade é uma obra que explora de forma criativa e profunda as nuances da vida, os dilemas da existência e as complexidades das relações humanas. Através de narrativas envolventes e personagens cativantes, o autor nos leva a refletir sobre questões essenciais do ser humano e do mundo que nos cerca. A leitura do livro é essencial para quem busca entender melhor a obra de Drummond e se aprofundar em sua visão de mundo e de literatura.

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