Continue Lendo

Menu


Institucional

Carregando Destaques...
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
alia trabucco zerán fosforo livros resenhas

[RESENHA #600] As homicidas, de Alia Trabucco Zerán

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
| |


SOBRE O LIVRO

“Assassinas, respondo eu, repetidas vezes, quando me perguntam sobre o assunto deste livro. Estou pesquisando casos de mulheres assassinas. E, diante de mim, como um roteiro teimoso, […] em vez de ouvir a palavra ‘assassinas’, um estranho lapso mental os leva a entender o oposto: ‘assassinadas’.” É deste modo que Alia Trabucco Zerán inicia As homicidas, livro em que se dedica a investigar quatro assassinatos que chocaram o Chile no século 20. Além de bárbaros, esses crimes também causaram comoção porque suas perpetradoras eram mulheres.

Mesclando pesquisa documental e impressões pessoais, a autora, que com este livro venceu o British Academy Booker Prize de 2022, faz uma apuração detalhada na busca por compreender as motivações, explicar o tratamento dispensado a essas mulheres pela justiça e mostrar como os assassinatos e suas executoras foram representados nas artes.

Mulheres jovens, trabalhadoras braçais ou intelectuais, ricas ou pobres, nenhuma dessas quatro personagens se viu livre de julgamentos tendenciosos e representações fantasiosas de suas personalidades pela imprensa sensacionalista. Por darem lugar ao ódio e à violência, incompatíveis com o que o patriarcado insiste em tratar unicamente como frágil e maternal, os crimes subverteram o que se esperava do comportamento feminino. Como diz a autora, “no corpo das mulheres, a raiva costuma ser adjetivada como desmedida, irracional ou de origem histérica, denominações que cumprem a função de deslegitimar as causas dessa raiva e de apagar seu responsável”.

Neste livro, que nada deve às melhores narrativas do gênero true crime, Alia Trabucco Zerán aborda de forma magistral e surpreendente um tema ao mesmo tempo incômodo e revelador, indo na contramão do imaginário coletivo ao colocar a mulher em uma posição de ataque.

RESENHA

“As homicidas fascina, ilumina e horroriza em igual medida […] É uma leitura sofisticada de como o assassinato revela verdades que a sociedade nunca quer confrontar.” — The Herald

As homicidas é um ensaio que explora quatro casos famosos de assassinatos cometidos por mulheres no Chile. Cada caso, separado no tempo e com características únicas, é minuciosamente analisado e contextualizado dentro de seu período. A autora Alia, aproveita essas histórias para apresentar uma série de ideias sobre o crime e as mulheres. Com uma ampla bibliografia e uma vasta quantidade de informações, o autor conduz uma investigação completa dos homicídios e suas consequências, acompanhando todo o processo até sua resolução judicial. Com sua formação como advogada e um claro espírito pedagógico, a autora revela ideias-chave sobre os homicídios praticados por mulheres. Ela argumenta que esses crimes são frequentemente tratados de forma superficial, com sensacionalismo notável, e que as ações das mulheres são muitas vezes justificadas pela paixão ou por serem consideradas alienadas.

A frase que sintetiza a obra está presente na abertura da obra:

É estranho, senhores juízes, é como se me houvésseis julgado outras vezes. -- Marguerite Yourcenar, Cltemnestra ou o crime.

A frase sintetiza o fardo carregado pelas mulheres em seus julgamentos diários por estarem inseridas em uma sociedade patriarcal, onde a verdade dos homens é a única lembrada, comemorada ou levada em consideração. A narrativa é uma forma prolífica de se explicitar que mulheres podem - e são - capazes de crimes hediondos, ainda que consideradas um sexo frágil. Os crimes cometidos por mulheres são, em sua maioria, considerados surtos de raiva e ódio ou acometidos por paixão, assim sendo, são considerados menos frequentes que as atrocidades cometidas por homens, o que as leva a um julgamento mais brando, como ocorreu no caso María Carolina Geel, que foi julgada, de certa forma, amena, tendo sua condenação apenas transitada em primeira instância, não chegando a concluir toda a sua pena.

A autora não busca inocentar os assassinos em momento algum, mas realiza uma investigação minuciosa e rigorosa, algo que nem sempre é feito, como no caso de María Teresa Alfaro, expondo ao leitor nuances e detalhes que passariam despercebidos em uma mera notícia sensacionalista. Sua análise questiona a versão oficial, buscando abordar de forma mais clara e documentada o que aconteceu e o que pode explicar os eventos. À medida que avançamos cronologicamente e conhecemos os casos mais recentes, o livro ganha força devido às informações disponíveis ao público contemporâneo. Do meu ponto de vista, o aspecto mais bem-sucedido e relevante do trabalho está nas questões que ele levanta e que se repetem em cada caso. O poder e a autoridade se sentem incomodados diante dessas manifestações de violência que surgem dentro de um grupo - o das mulheres - ao qual foi atribuído um espaço muito claro e limitado. Portanto, a transgressão é dupla: ao cometer o crime, essas mulheres também destroem o papel que lhes foi atribuído [ao de previsíveis, sexo frágil]. Os crimes são especialmente chocantes, uma vez que foram perpetrados por mulheres [julgados como raiva acumulada, culpa ou paixão]. Ao realizarem os assassinatos, essas mulheres estavam desafiando o monopólio da violência criminosa que historicamente pertencia aos homens. O valor da investigação está em restaurar a versão oficial para ajustar e explicar adequadamente os atos cometidos.

Ao longo das narrativas dos crimes, a autora, insere comentários acerca de um julgamento mais adequado levando em consideração os fatos descritos. A forma como a qual delineia o comportamento, a ação e o ambiente demonstram uma capacidade de pensamento além do ocorrido, sua escrita é uma forma clara de objetificar o ocorrido como algo, de fato, passível de punição, não mais sendo tratado de forma trivial, como foi feito:

A ré é consciente, lúcida, com controle volitivo adequado, juízo autocrítico e raciocínio dentro dos limites normais. -- p. 153

As análises seguem o roteiro dos fatos, descrevendo com clareza o comportamento e a lucidez das autoras no momento dos ocorridos.

Uma mulher de baixo nível socioeconômico, desenvolvimento vital dentro da normalidade, com bom índice de adaptação ao meio e às circunstâncias de sua vida. --p.152 

Em síntese, a obra da autora é um poderoso resumo dos ocorridos, percorridos de análises cuidadosas e minuciosas dos ocorridos, a autora descreve com clareza, em primeira pessoa, os acontecimentos que levaram as mulheres ao acometimento do crime. Analisa-se também, a partir deste ponto, o período histórico, o julgamento das mulheres perante os homens, a visão idealizada da participação feminina no campo social, e claro, os desdobramentos advindos de seus comportamentos. Uma obra de não-ficção de uma autora contemporânea de grande escalão, que analisa sem rodeios os acontecimentos. Uma obra primorosa e instigante, as nuances do crime somadas ao poder de descrição da autora, somam em uma narrativa impecável e lúdica, completamente viciante.

A AUTORA

Alia Trabucco Zerán nasceu no Chile, em 1983. Seu primeiro romance, La resta, venceu o prêmio de melhor obra literária concedido pelo Conselho de Artes do Chile em 2014 e foi eleito pelo El País como um dos dez melhores romances de estreia de 2015. Em 2019, La resta foi finalista do Internacional Man Booker Prize e traduzido para nove idiomas. A autora também publicou o romance Limpia. As homicidas venceu o British Academy Booker Prize de 2022.

SOBRE O SITE

O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

CURADORIA

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Tecnologia do Blogger.

Political News

Sport

Pesquisar este blog

Archive

Follow by Email

If you like Articles on this blog, Please subscribe for free via email.

About

Your Ads Here
Your Ads Here
Your Ads Here

Economy

Recent in Sports

3/Sports/post-list

Random Posts

3/random/post-list

Business

Travel

Hot Widget

recent/hot-posts

Label

Colaboradores

Label

Formulir Kontak

Nome

E-mail *

Mensagem *

[RESENHA #600] As homicidas, de Alia Trabucco Zerán


SOBRE O LIVRO

“Assassinas, respondo eu, repetidas vezes, quando me perguntam sobre o assunto deste livro. Estou pesquisando casos de mulheres assassinas. E, diante de mim, como um roteiro teimoso, […] em vez de ouvir a palavra ‘assassinas’, um estranho lapso mental os leva a entender o oposto: ‘assassinadas’.” É deste modo que Alia Trabucco Zerán inicia As homicidas, livro em que se dedica a investigar quatro assassinatos que chocaram o Chile no século 20. Além de bárbaros, esses crimes também causaram comoção porque suas perpetradoras eram mulheres.

Mesclando pesquisa documental e impressões pessoais, a autora, que com este livro venceu o British Academy Booker Prize de 2022, faz uma apuração detalhada na busca por compreender as motivações, explicar o tratamento dispensado a essas mulheres pela justiça e mostrar como os assassinatos e suas executoras foram representados nas artes.

Mulheres jovens, trabalhadoras braçais ou intelectuais, ricas ou pobres, nenhuma dessas quatro personagens se viu livre de julgamentos tendenciosos e representações fantasiosas de suas personalidades pela imprensa sensacionalista. Por darem lugar ao ódio e à violência, incompatíveis com o que o patriarcado insiste em tratar unicamente como frágil e maternal, os crimes subverteram o que se esperava do comportamento feminino. Como diz a autora, “no corpo das mulheres, a raiva costuma ser adjetivada como desmedida, irracional ou de origem histérica, denominações que cumprem a função de deslegitimar as causas dessa raiva e de apagar seu responsável”.

Neste livro, que nada deve às melhores narrativas do gênero true crime, Alia Trabucco Zerán aborda de forma magistral e surpreendente um tema ao mesmo tempo incômodo e revelador, indo na contramão do imaginário coletivo ao colocar a mulher em uma posição de ataque.

RESENHA

“As homicidas fascina, ilumina e horroriza em igual medida […] É uma leitura sofisticada de como o assassinato revela verdades que a sociedade nunca quer confrontar.” — The Herald

As homicidas é um ensaio que explora quatro casos famosos de assassinatos cometidos por mulheres no Chile. Cada caso, separado no tempo e com características únicas, é minuciosamente analisado e contextualizado dentro de seu período. A autora Alia, aproveita essas histórias para apresentar uma série de ideias sobre o crime e as mulheres. Com uma ampla bibliografia e uma vasta quantidade de informações, o autor conduz uma investigação completa dos homicídios e suas consequências, acompanhando todo o processo até sua resolução judicial. Com sua formação como advogada e um claro espírito pedagógico, a autora revela ideias-chave sobre os homicídios praticados por mulheres. Ela argumenta que esses crimes são frequentemente tratados de forma superficial, com sensacionalismo notável, e que as ações das mulheres são muitas vezes justificadas pela paixão ou por serem consideradas alienadas.

A frase que sintetiza a obra está presente na abertura da obra:

É estranho, senhores juízes, é como se me houvésseis julgado outras vezes. -- Marguerite Yourcenar, Cltemnestra ou o crime.

A frase sintetiza o fardo carregado pelas mulheres em seus julgamentos diários por estarem inseridas em uma sociedade patriarcal, onde a verdade dos homens é a única lembrada, comemorada ou levada em consideração. A narrativa é uma forma prolífica de se explicitar que mulheres podem - e são - capazes de crimes hediondos, ainda que consideradas um sexo frágil. Os crimes cometidos por mulheres são, em sua maioria, considerados surtos de raiva e ódio ou acometidos por paixão, assim sendo, são considerados menos frequentes que as atrocidades cometidas por homens, o que as leva a um julgamento mais brando, como ocorreu no caso María Carolina Geel, que foi julgada, de certa forma, amena, tendo sua condenação apenas transitada em primeira instância, não chegando a concluir toda a sua pena.

A autora não busca inocentar os assassinos em momento algum, mas realiza uma investigação minuciosa e rigorosa, algo que nem sempre é feito, como no caso de María Teresa Alfaro, expondo ao leitor nuances e detalhes que passariam despercebidos em uma mera notícia sensacionalista. Sua análise questiona a versão oficial, buscando abordar de forma mais clara e documentada o que aconteceu e o que pode explicar os eventos. À medida que avançamos cronologicamente e conhecemos os casos mais recentes, o livro ganha força devido às informações disponíveis ao público contemporâneo. Do meu ponto de vista, o aspecto mais bem-sucedido e relevante do trabalho está nas questões que ele levanta e que se repetem em cada caso. O poder e a autoridade se sentem incomodados diante dessas manifestações de violência que surgem dentro de um grupo - o das mulheres - ao qual foi atribuído um espaço muito claro e limitado. Portanto, a transgressão é dupla: ao cometer o crime, essas mulheres também destroem o papel que lhes foi atribuído [ao de previsíveis, sexo frágil]. Os crimes são especialmente chocantes, uma vez que foram perpetrados por mulheres [julgados como raiva acumulada, culpa ou paixão]. Ao realizarem os assassinatos, essas mulheres estavam desafiando o monopólio da violência criminosa que historicamente pertencia aos homens. O valor da investigação está em restaurar a versão oficial para ajustar e explicar adequadamente os atos cometidos.

Ao longo das narrativas dos crimes, a autora, insere comentários acerca de um julgamento mais adequado levando em consideração os fatos descritos. A forma como a qual delineia o comportamento, a ação e o ambiente demonstram uma capacidade de pensamento além do ocorrido, sua escrita é uma forma clara de objetificar o ocorrido como algo, de fato, passível de punição, não mais sendo tratado de forma trivial, como foi feito:

A ré é consciente, lúcida, com controle volitivo adequado, juízo autocrítico e raciocínio dentro dos limites normais. -- p. 153

As análises seguem o roteiro dos fatos, descrevendo com clareza o comportamento e a lucidez das autoras no momento dos ocorridos.

Uma mulher de baixo nível socioeconômico, desenvolvimento vital dentro da normalidade, com bom índice de adaptação ao meio e às circunstâncias de sua vida. --p.152 

Em síntese, a obra da autora é um poderoso resumo dos ocorridos, percorridos de análises cuidadosas e minuciosas dos ocorridos, a autora descreve com clareza, em primeira pessoa, os acontecimentos que levaram as mulheres ao acometimento do crime. Analisa-se também, a partir deste ponto, o período histórico, o julgamento das mulheres perante os homens, a visão idealizada da participação feminina no campo social, e claro, os desdobramentos advindos de seus comportamentos. Uma obra de não-ficção de uma autora contemporânea de grande escalão, que analisa sem rodeios os acontecimentos. Uma obra primorosa e instigante, as nuances do crime somadas ao poder de descrição da autora, somam em uma narrativa impecável e lúdica, completamente viciante.

A AUTORA

Alia Trabucco Zerán nasceu no Chile, em 1983. Seu primeiro romance, La resta, venceu o prêmio de melhor obra literária concedido pelo Conselho de Artes do Chile em 2014 e foi eleito pelo El País como um dos dez melhores romances de estreia de 2015. Em 2019, La resta foi finalista do Internacional Man Booker Prize e traduzido para nove idiomas. A autora também publicou o romance Limpia. As homicidas venceu o British Academy Booker Prize de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

[RESENHA #600] As homicidas, de Alia Trabucco Zerán


SOBRE O LIVRO

“Assassinas, respondo eu, repetidas vezes, quando me perguntam sobre o assunto deste livro. Estou pesquisando casos de mulheres assassinas. E, diante de mim, como um roteiro teimoso, […] em vez de ouvir a palavra ‘assassinas’, um estranho lapso mental os leva a entender o oposto: ‘assassinadas’.” É deste modo que Alia Trabucco Zerán inicia As homicidas, livro em que se dedica a investigar quatro assassinatos que chocaram o Chile no século 20. Além de bárbaros, esses crimes também causaram comoção porque suas perpetradoras eram mulheres.

Mesclando pesquisa documental e impressões pessoais, a autora, que com este livro venceu o British Academy Booker Prize de 2022, faz uma apuração detalhada na busca por compreender as motivações, explicar o tratamento dispensado a essas mulheres pela justiça e mostrar como os assassinatos e suas executoras foram representados nas artes.

Mulheres jovens, trabalhadoras braçais ou intelectuais, ricas ou pobres, nenhuma dessas quatro personagens se viu livre de julgamentos tendenciosos e representações fantasiosas de suas personalidades pela imprensa sensacionalista. Por darem lugar ao ódio e à violência, incompatíveis com o que o patriarcado insiste em tratar unicamente como frágil e maternal, os crimes subverteram o que se esperava do comportamento feminino. Como diz a autora, “no corpo das mulheres, a raiva costuma ser adjetivada como desmedida, irracional ou de origem histérica, denominações que cumprem a função de deslegitimar as causas dessa raiva e de apagar seu responsável”.

Neste livro, que nada deve às melhores narrativas do gênero true crime, Alia Trabucco Zerán aborda de forma magistral e surpreendente um tema ao mesmo tempo incômodo e revelador, indo na contramão do imaginário coletivo ao colocar a mulher em uma posição de ataque.

RESENHA

“As homicidas fascina, ilumina e horroriza em igual medida […] É uma leitura sofisticada de como o assassinato revela verdades que a sociedade nunca quer confrontar.” — The Herald

As homicidas é um ensaio que explora quatro casos famosos de assassinatos cometidos por mulheres no Chile. Cada caso, separado no tempo e com características únicas, é minuciosamente analisado e contextualizado dentro de seu período. A autora Alia, aproveita essas histórias para apresentar uma série de ideias sobre o crime e as mulheres. Com uma ampla bibliografia e uma vasta quantidade de informações, o autor conduz uma investigação completa dos homicídios e suas consequências, acompanhando todo o processo até sua resolução judicial. Com sua formação como advogada e um claro espírito pedagógico, a autora revela ideias-chave sobre os homicídios praticados por mulheres. Ela argumenta que esses crimes são frequentemente tratados de forma superficial, com sensacionalismo notável, e que as ações das mulheres são muitas vezes justificadas pela paixão ou por serem consideradas alienadas.

A frase que sintetiza a obra está presente na abertura da obra:

É estranho, senhores juízes, é como se me houvésseis julgado outras vezes. -- Marguerite Yourcenar, Cltemnestra ou o crime.

A frase sintetiza o fardo carregado pelas mulheres em seus julgamentos diários por estarem inseridas em uma sociedade patriarcal, onde a verdade dos homens é a única lembrada, comemorada ou levada em consideração. A narrativa é uma forma prolífica de se explicitar que mulheres podem - e são - capazes de crimes hediondos, ainda que consideradas um sexo frágil. Os crimes cometidos por mulheres são, em sua maioria, considerados surtos de raiva e ódio ou acometidos por paixão, assim sendo, são considerados menos frequentes que as atrocidades cometidas por homens, o que as leva a um julgamento mais brando, como ocorreu no caso María Carolina Geel, que foi julgada, de certa forma, amena, tendo sua condenação apenas transitada em primeira instância, não chegando a concluir toda a sua pena.

A autora não busca inocentar os assassinos em momento algum, mas realiza uma investigação minuciosa e rigorosa, algo que nem sempre é feito, como no caso de María Teresa Alfaro, expondo ao leitor nuances e detalhes que passariam despercebidos em uma mera notícia sensacionalista. Sua análise questiona a versão oficial, buscando abordar de forma mais clara e documentada o que aconteceu e o que pode explicar os eventos. À medida que avançamos cronologicamente e conhecemos os casos mais recentes, o livro ganha força devido às informações disponíveis ao público contemporâneo. Do meu ponto de vista, o aspecto mais bem-sucedido e relevante do trabalho está nas questões que ele levanta e que se repetem em cada caso. O poder e a autoridade se sentem incomodados diante dessas manifestações de violência que surgem dentro de um grupo - o das mulheres - ao qual foi atribuído um espaço muito claro e limitado. Portanto, a transgressão é dupla: ao cometer o crime, essas mulheres também destroem o papel que lhes foi atribuído [ao de previsíveis, sexo frágil]. Os crimes são especialmente chocantes, uma vez que foram perpetrados por mulheres [julgados como raiva acumulada, culpa ou paixão]. Ao realizarem os assassinatos, essas mulheres estavam desafiando o monopólio da violência criminosa que historicamente pertencia aos homens. O valor da investigação está em restaurar a versão oficial para ajustar e explicar adequadamente os atos cometidos.

Ao longo das narrativas dos crimes, a autora, insere comentários acerca de um julgamento mais adequado levando em consideração os fatos descritos. A forma como a qual delineia o comportamento, a ação e o ambiente demonstram uma capacidade de pensamento além do ocorrido, sua escrita é uma forma clara de objetificar o ocorrido como algo, de fato, passível de punição, não mais sendo tratado de forma trivial, como foi feito:

A ré é consciente, lúcida, com controle volitivo adequado, juízo autocrítico e raciocínio dentro dos limites normais. -- p. 153

As análises seguem o roteiro dos fatos, descrevendo com clareza o comportamento e a lucidez das autoras no momento dos ocorridos.

Uma mulher de baixo nível socioeconômico, desenvolvimento vital dentro da normalidade, com bom índice de adaptação ao meio e às circunstâncias de sua vida. --p.152 

Em síntese, a obra da autora é um poderoso resumo dos ocorridos, percorridos de análises cuidadosas e minuciosas dos ocorridos, a autora descreve com clareza, em primeira pessoa, os acontecimentos que levaram as mulheres ao acometimento do crime. Analisa-se também, a partir deste ponto, o período histórico, o julgamento das mulheres perante os homens, a visão idealizada da participação feminina no campo social, e claro, os desdobramentos advindos de seus comportamentos. Uma obra de não-ficção de uma autora contemporânea de grande escalão, que analisa sem rodeios os acontecimentos. Uma obra primorosa e instigante, as nuances do crime somadas ao poder de descrição da autora, somam em uma narrativa impecável e lúdica, completamente viciante.

A AUTORA

Alia Trabucco Zerán nasceu no Chile, em 1983. Seu primeiro romance, La resta, venceu o prêmio de melhor obra literária concedido pelo Conselho de Artes do Chile em 2014 e foi eleito pelo El País como um dos dez melhores romances de estreia de 2015. Em 2019, La resta foi finalista do Internacional Man Booker Prize e traduzido para nove idiomas. A autora também publicou o romance Limpia. As homicidas venceu o British Academy Booker Prize de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Mobile Logo Settings

Mobile Logo Settings
image

Labels

Ad Space

Responsive Advertisement

Upload Image

Upload Image
"Upload image from computer" > Save > Edit Again > Get URL

Fashion

Labels

Categories

Business

Recent Post

Ticker

6/recent/ticker-posts

Politic

Feature Label Area

Word

#Advertisement


300x250 AD TOP

Whats Hot This Week

Navigation Pages [Footer]

Blogroll


Navigation Pages [Vertical]

Blogger templates

Responsive Advertisement

Blogger news

Follow on FaceBook


Trending video


Popular Posts

Popular Posts

Icone Newsletter

Assine nossa newsletter

e receba conteúdo incrível