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[RESENHA #575] Entre cinzas e areia, de Laion Okuda



APRESENTAÇÃO

Como lidar com as culpas e traumas? O quão longe ir por redenção?  Em um momento de pesar e luto, Davi tem que enfrentar o seu passado para conseguir traçar algum caminho de esperança para o seu futuro. Num deserto de cinzas e areia, ao caminhar por entre suas memórias, ele tem que conviver com seus fantasmas e aceitar suas escolhas, mas em quais pontos a ilusão se encontra com a realidade? Seria Davi um homem delirando por conta de sua abstinência, louco por sua própria culpa ou forças maiores realmente o estariam acompanhando?

RESENHA

Entre cinzas e areia é um livro de drama escrito pelo autor Laion Okuda, a obra apresenta uma série de acontecimentos dramáticos mesclados entre passado, presente e várias doses de remorso. Davi, sente-se culpado pela morte de seu irmão Levi, que era casado com Sheila, seu último desejo era participar da caminhada até à meca [cidade sagrada dos muçulmanos], não tendo seu corpo cremado como todos os outros de sua família, porém, seu último desejo acabou sendo desrespeitado pelo seu irmão, que optou por cremá-lo, criando um clima tenso entre todos de sua família que acredita que ele desrespeitou completamente a última vontade de seu irmão, que agora, morrera pelo que acredita-se ser sua culpa.

Agora, Davi precisa viajar para concretizar a última vontade de seu irmão, levando suas cinzas até a grande pedra negra, uma vez que era necessário realizar todo caminho para formalizar uma promessa feita por Levi à esposa de seu irmão, Sheila. Porém, todo o caminho é marcado por monólogos advindos de um sentimento de culpa e pela vontade de reaver toda sua família reunida como antes, livre de toda dor e sofrimento causado pela partida precoce e recente de Levi, e para isso, contará com a ajuda do tio de Sheila, Yaroff para concretizar mais este ciclo em sua vida.

O que podemos notar é que esta obra é repleta de gatilhos emocionais, inclusive, na abertura do livro o autor nos atenta para qualquer gatilho que a obra possa proporcionar, afinal, ela fala de culpa, dores, sofrimento, estupro e outros sentimentos que podem causar desconforto em alguma leitura desatenta. Davi nunca se deu bem com o pai, todas as lembranças mencionadas são de puro desafeto ou episódios de dor e sofrimento, a todo momento suas reflexões abordam sua vontade íntima de que seu pai, falecido, deveria falecer de forma miserável diversas outras vezes, não seu irmão, ele não merecia morrer tão cedo.

O caminho até meca é marcado por um sol que que penetra a pele, rasga a garganta e superaquece o corpo, Davi sente-se durante todo o percurso inseguro, não somente pelo fato do calor tomar conta de todo ambiente, mas pelo ar ser irrespirável e completamente seco com zero vegetações, passando inclusive, por tempestades de areia tenebrosas e um caminho marcado por encontros nada amistosos por pessoas que habitam o deserto.

Em determinado momento, Davi vê-se separado do grupo responsável por guiá-lo até a meca, eles adormecem durante uma tempestade de areia, e ao acordar, o calor toma conta do lugar de forma avassaladora, ele nota que está sem transporte [camelo], sem água, e sem ninguém ao redor para ajudá-lo, todos sumiram, não há nada além do sol e areia no horizonte. Seu corpo dói, seus joelhos enfraquecem, sua cabeça superaquece e as cinzas de seu irmão desaparecem. O desespero toma conta de Davi, que não imagina uma saída plausível daquele ambiente, sem qualquer recurso, assim, ele é tomado por alucinações sobre o passado, e principalmente, alucinações sobre seu irmão. Levi, surge como um guia encorajador para Devi em meio ao calor, ajudando-o à se levantar e prosseguir, neste momento, Davi começa delirar e impor opções para todo aquele acontecimento: estaria ele morto, louco ou sofrendo de alucinações severas? qual era a real explicação para tudo aquilo? Ele se dá conta que, de fato, seu irmão não poderia estar ali, ainda que muito palpável e com uma imagem bastante real, ao caminhar, ele não deixava pegadas na areia.

Todo percurso elaborado a partir dai por Davi e Levi é repleto de histórias, encontros, desencontros, uma revisitação ao passado e aprendizados. O principal aprendizado no decorrer do encontro dos dois é o fato de que jamais devemos olhar para o passado, uma forma de dizer que não devemos nos condenar ou martirizar por acontecimentos passados, evitando assim, fadigas emocionais e problemas psicológicos, que era justamente o que Davi estava passando pela morte do irmão. Uma sequência de imagens se formam na areia, no fogo e em toda paisagem ao redor dos irmãos, cada história narrada por Levi transforma-se em uma verdadeira experiência de revisitação, reflexão e aprendizado.

A história é emocionante e prende o leitor do inicio ao fim, nota-se que o autor é especialista em desenvolver grandes enredos com uma narrativa impecável que prende o leitor do começo ao fim. O choque cultural, as narrativas, histórias e encontros e desencontros aqui elaborados são infinitamente bem desenvolvidos e repleto de simbolismo, o que torna ainda mais a experiência única. 

Um livro para se ler mais de uma vez, memorável e atemporal. 

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