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[RESENHA #569] Por um momento, um dia, uma vida ou sei lá o quê, de Hugo Bessa

APRESENTAÇÃO

Quando um advogado bem-sucedido, mas frustrado, e uma dona de casa infeliz se envolvem em um acidente de carro, não imaginam que aquele pequeno momento que os fez colidir é definitivo e, à sua maneira, fatal. Induzidos a manterem contato por situações nem sempre alheias às suas vontades, eles acabam se transformando, o que desperta sonhos antigos, novas possibilidades, mas também dores e segredos que preferiam deixar para trás.

Uma história sobre pequenos instantes que podem mudar um momento, um dia ou uma vida inteira.



RESENHA

Bessa, Hugo. Por um momento, um dia, uma vida ou sei lá o quê... / Hugo Bessa – Guaratinguetá, SP: Editora Penalux, 2023.

Roberto, 56, casado com Ivana, trabalha para uma construtora como gerente, na qual detesta, tudo o que ele mais gostaria era incendiar tudo e observar o caos e o desaparecimento de tudo aquilo enquanto aproveita uma deliciosa dose de cachaça, mas ele não pode. Tarde, rotina de trabalho, a tela de seu computador pisca - um novo e-mail. Era preciso enfrentar os feedbacks semestral sobre como precisava buscar uma tática de autodesenvolvimento e se relacionar com as outras áreas da empresa.

Aquele cargo servia para apenas uma coisa: invalidar os argumentos de seu chefe no feedback. Se galgar uma carreira de estagiário a gerente não era se desenvolver, o que poderia ser? (p.9)

Em contrapartida, conhecemos Joana, uma mulher de cinquenta anos casada com Raimundo, um homem dócil, meigo, amante da leitura e extremamente calmo, porém, calmo demais e isso à irritava. Junto com seu marido, Joana tem quatro filhos, que por um motivo ou outro, à irritam por igual. Ela estava irritada com a rotina, com o silêncio do marido, com o silêncio da casa, com tudo aquilo ao qual já estava cheia e habituada, ela queria mudanças e novos prazeres, até imaginou-se com outros homens, mesmo com seu marido no cômodo ao lado lendo, ela era a plena insatisfação em pessoa, sentia uma completa irritação com tudo e todos (p.17)

— Tá acabando aí, mamãe? 
Nenhum de seus filhos estava em casa. Seu marido tem mania de chamá-la daquela forma, e ela odeia. Já criou seus filhos, e não quer ser mãe de mais ninguém. Sempre que Edmundo faz isso, imagina-se amamentando o marido, colocando-o para arrotar e dormir. (p.16)

A história segue introduzindo novos personagens que acompanham e narram sua visão acerca dos encontros esporádicos entre os personagens, dentre eles, Berenice, uma mulher ávida de interesse pela vida alheia, uma fofoqueira humanizada, como costumam pensar a seu respeito. Era uma senhora aposentada que sabia a hora de falar e espalhar as novidades. O pontapé inicial mostra-nos a preocupação de Berenice em noticiar à irmã, uma curiosidade recém descoberta: sua sobrinha estava saindo com um novo rapaz, da qual claro, ela não gostava nenhum pouco da ideia, a partir dai, passou a ensaiar diversas formas de enfrentar a irmã e lhe contar, para que tudo fosse resolvido da melhor forma e não restassem mágoas, caso ela contasse algo errado ou pela metade.

Naquela manhã, Berenice retornava para casa quando presenciou um acidente entre dois carros, de um lado, estava Roberto, do outro, Joana. Roberto estava calmo, e apaziguou toda situação alegando pagar todo prejuízo derivado do ocorrido, já Joana estava aflita e desesperada, ela não sabia o que fazer ou como contar o marido o ocorrido. Naquele momento, algumas pessoas observavam o ocorrido e o diálogo dos dois, entre eles, Berenice.

Berenice logo tomou a frente e disse em alto e bom som que ‘sim, era testemunha’, fazendo todos olharem para ela. Aproximou-se da mulher, apresentou-se e passou o número do seu telefone, não sem antes lançar um olhar desafiador para o homem. Estava de olho nele! Viu a mulher digitar seu número com dificuldade, pois não parava de tremer. (p.25)
 
O encontro dos personagens marca o início de uma deliciosa série de acontecimentos dramáticos, ácidos e doçamente aflorados. De ambos os lados, podemos enxergar protagonistas da terceira idade com vidas e motivações distintas, mas iguais em insatisfação. Ele é completamente insatisfeito com seu trabalho, com seu patrão e com toda aquela rotina. Ela? mãe, casada e impaciente. A rotina havia transformado tudo em um grande mar de ódio e raiva, já não aguentava mais toda aquela rotina, todo aquele tempo perdido, precisa fazer algo a respeito. 

A narrativa tensiona os ocorridos em forma de relatos repleto de doses homeopáticas de humor, Bessa, conseguiu proeminentemente escrever e desenvolver uma escrita cativante, seu livro é facilmente devorado em poucas horas, haja vista que, toda sua trama e desenvolvimento possuem fortes traços de um grande escritor. A divisão escolhida pelo autor foi a de se desenvolver intercalações de acontecimentos por meio de narrativas curtas que abordam cada personagem de uma forma particular de forma à se conectar com maestria.

Um fato interessante à se mencionar, é que todos os envolvidos ligados nos acontecimentos dos protagonistas de forma direta ou indireta, travam suas próprias batalhas ligadas às suas famílias, enquanto observam os encontros acalorados entre Roberto e Joana, as personagens delineiam suas próprias visões sobre o pouco contato entre seus encontros esporádicos, tensionando entre entender a vida do outro e perder-se nos acontecimentos da sua.

Maurício, filho de Joana, era pintor e estava prestes à abrir uma galeria de exposição juntamente com um amigo e futuro sócio, porém, não enxergava nas rotinas estressantes da mãe um momento assertivo para falar sobre seus dias, sobretudo pelo fato de que andara ausente de casa por alguns dias, e nada de alguém perguntar sobre. Aquilo o entristeceu, que, não vendo a mãe oportunizar conversas saudáveis, passou à observa-la.

Assim que decidiu abrir a galeria, contou para a mãe, mas teve a impressão de nem ter sido escutado. E todas as vezes em que tocava no assunto, era respondido com acenos de cabeça e grunhidos desinteressados. (p.74)
A relação entre mãe e filho era extremamente  conturbada, sobretudo, pelo fato de Joana não ser uma mulher afetuosa, seu posicionamento perante a confissão do filho é de partir o coração:

— Eu não preciso saber dessas coisas. Você já arrumou a sua cama? Não quero nada bagunçado lá em cima. (p.75)


Podemos concluir que este é um livro de surpresas com um final inesperado, ou seja, uma obra deliciosamente enigmática, Bessa desenvolveu profundamente um enredo marcante e com reviravoltas que transformaram a leitura em uma aventura sem igual.

A obra em si é extremamente maravilhosa por diversos motivos, o principal, é, talvez, o fato de que ele fala sobre a vida, sobre as escolhas que fazemos e sobre as peças que a vida prega em nós, sobre caminhos tortuosos, sobre encontro e desencontros, sobre amores e sobre dores, a obra fala por si, ela apresenta-nos a possibilidade de entender mais a fundo a vida dos personagens que estão ao avesso com suas vidas, repleto de problemas e loucos para sairem da rotina, pessoas que assim como qualquer outra, realizam escolhas e precisam arcar com estas, a obra é o que é:uma primazia contemporânea da literatura brasileira.

Uma obra para ser lida por quem ama livros nacionais e instigantes.

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