Continue Lendo

Menu


Institucional

Carregando Destaques...
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
fosforo livros nacional resenhas

[RESENHA #532] Um pé na cozinha, de Taís de Sant’Anna Machado

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
| |


MACHADO, Taís de  Sant’Anna. Um pé na cozinha: um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil / Taís de Sant’Anna Machado. -- São Paulo: Fósforo, 2022.

Um Pé na Cozinha é uma exploração das contribuições feitas por mulheres negras para a culinária brasileira. Adaptado da tese de doutorado de Taís de SantAnna Machado, o livro analisa a forma como a profissionalização das mulheres negras na cozinha doméstica evoluiu desde o pós-abolição até a culinária contemporânea. O livro investiga os significados culturais da expressãoum pé na cozinha e o estereótipo da mãe preta. Ao mesmo tempo, destaca o papel fundamental das mulheres negras na criação de um dos principais elementos da identidade brasileira: o seu rico e diversificado patrimônio gastronômico.

Não existe nota de abertura melhor para explicar esta obra prima, do que as palavras da própria autora no prefácio da obra:

As mulheres negras alimentam o brasil do seio à mesa desde que aqui chegaram, forçadamente, pelos lancinantes processos de escravização empreendidos pelos europeus no continente africano. Esse abastecimento nutritivo continuou sendo de vital importância mesmo com o término formal da escravidão e segue como parte constitutiva da cozinha brasileira. Todavia, o apagamento da importância basilar que tais mulheres tiveram e ainda têm na formação nossa ou nossas culinárias, em âmbitos regionais ou nacional, é lugar-comum na maioria das narrativas gastronômicas do país. (pag. 11)

O subtítulo da obra é claro e preciso: um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil. É um olhar acerca do tratamento da sociedade ao longo do percurso histórico sobre a cozinha (e o preconceito). A obra é uma adaptação de uma tese de doutorado da autora, que desde sua publicação, 2022, tem aberto espaço para inúmeros debates no campo da alimentação e dos estudos sociais acerca da desvalorização da profissão, das mulheres, da figura negra na cozinha, do racismo, das estruturas de poder que se perpetuaram até os dias atuais e dos relatos carregados de resquícios de um Brasil empobrecido por suas raízes racistas e invisibilizadoras de mulheres negras na geografia histórica.

O livro fala-nos sobre a hierarquização de raça que se perpetuou do Brasil escravista até os dias atuais, tornando a cozinha um espaço violento para as mulheres. A autora investiga as complexas relações entre os movimentos sociais, a historiografia, os estudos críticos de alimentação e as experiências individuais de cozinheiras negras. Ao examinar as condições exaustivas e desumanas em que essas mulheres trabalham, ela também destaca o papel essencial que desempenham na articulação de comunidades. Ao costurar histórias individuais e coletivas, a doutora nos ajuda a entender a ambivalência destes fatores até os dias atuais.

O livro apresenta um trabalho profundo acerca da mulher negra na cozinha, pautando suas linhas gerais na estruturalização da hierarquia racial; racismo; antinegritude e as diversas formas de desvalorização que este percursos histórico tensiona.

A obra de Machado está dividida em duas partes distintas, a parte um desta obra chama-se cozinha não era lugar de gente, que analisa de forma sistemática o tratamento da intimidade adotada pelos patrões com mulheres negras na cozinha, narrando episódios de abusos sexuais e tensões causadas pela hierarquia de poder-raça estabelecida durante. o período escravista. As narrativas percorrem o período da escravidão até o século XX e seus resquícios na culinária profissional.

A segunda parte da obra intitulada a conversa sempre esteve na cozinha, a autora trabalha a história de Benê Ricardo, a vanguardista, que ficou conhecida por se tornar a primeira mulher negra à receber um diploma de chef de cozinha em 1981, no Brasil. A narrativa também aborda. as questões de julgamentos presentes na cozinha profissional e a pressão sofrida pelas mulheres negras pelo poder pre-estabelecido de raça presente nas cozinhas.

Em interlúdio III, uma subdivisão presente. na segunda parte da obra, a autora conta-nos sobre Cenira, que ao chegar no Rio de Janeiro para trabalhar em uma casa, assumiu a responsabilidade de preparar um prato jamais feito por ela: um peru de natal. A história serve para ilustrar que, Cenira, em meio àquele local violento de trabalho, encontrou conforto e ajuda em outras funcionárias negras que estavam na mesma posição. A história se perpetuou como sendo importante à ajuda de uma para com as outras durante este processo e trabalho. A narrativa que se segue é um estudo sobre como a cozinha tornou-se um espaço geográfico caraterístico das mulheres negras.

Taís mostra como, a partir dos anos 20 do pós-abolição, intelectuais predominantemente brancos criaram narrativas idílicas baseadas na estereotipadamãe preta para contar a história da formação do Brasil. Por meio de crítica feminista, Taís desafiará essas narrativas romantizadas, expondo os detalhes das relações desiguais entre patrões e trabalhadoras negras, e como essas relações contrastam com a história de harmonia racial geralmente contada sobre a formação da cozinha brasileira.

As mulheres negras estão assumindo um protagonismo inegável, mudando sua posição nas cozinhas dos restaurantes e residências. O trabalho que exercem torna-as importantes agentes de suas próprias histórias. Através de um estudo profundo da cozinha, é possível perceber a importância que elas têm na construção social do Brasil.

Leitura indicada para todo bom leitor fã de uma escrita impecável, bem como estudantes das áreas de história, geografia, psicologia e sociologia.

SOBRE O SITE

O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

CURADORIA

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Tecnologia do Blogger.

Political News

Sport

Pesquisar este blog

Archive

Follow by Email

If you like Articles on this blog, Please subscribe for free via email.

About

Your Ads Here
Your Ads Here
Your Ads Here

Economy

Recent in Sports

3/Sports/post-list

Random Posts

3/random/post-list

Business

Travel

Hot Widget

recent/hot-posts

Label

Colaboradores

Label

Formulir Kontak

Nome

E-mail *

Mensagem *

[RESENHA #532] Um pé na cozinha, de Taís de Sant’Anna Machado


MACHADO, Taís de  Sant’Anna. Um pé na cozinha: um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil / Taís de Sant’Anna Machado. -- São Paulo: Fósforo, 2022.

Um Pé na Cozinha é uma exploração das contribuições feitas por mulheres negras para a culinária brasileira. Adaptado da tese de doutorado de Taís de SantAnna Machado, o livro analisa a forma como a profissionalização das mulheres negras na cozinha doméstica evoluiu desde o pós-abolição até a culinária contemporânea. O livro investiga os significados culturais da expressãoum pé na cozinha e o estereótipo da mãe preta. Ao mesmo tempo, destaca o papel fundamental das mulheres negras na criação de um dos principais elementos da identidade brasileira: o seu rico e diversificado patrimônio gastronômico.

Não existe nota de abertura melhor para explicar esta obra prima, do que as palavras da própria autora no prefácio da obra:

As mulheres negras alimentam o brasil do seio à mesa desde que aqui chegaram, forçadamente, pelos lancinantes processos de escravização empreendidos pelos europeus no continente africano. Esse abastecimento nutritivo continuou sendo de vital importância mesmo com o término formal da escravidão e segue como parte constitutiva da cozinha brasileira. Todavia, o apagamento da importância basilar que tais mulheres tiveram e ainda têm na formação nossa ou nossas culinárias, em âmbitos regionais ou nacional, é lugar-comum na maioria das narrativas gastronômicas do país. (pag. 11)

O subtítulo da obra é claro e preciso: um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil. É um olhar acerca do tratamento da sociedade ao longo do percurso histórico sobre a cozinha (e o preconceito). A obra é uma adaptação de uma tese de doutorado da autora, que desde sua publicação, 2022, tem aberto espaço para inúmeros debates no campo da alimentação e dos estudos sociais acerca da desvalorização da profissão, das mulheres, da figura negra na cozinha, do racismo, das estruturas de poder que se perpetuaram até os dias atuais e dos relatos carregados de resquícios de um Brasil empobrecido por suas raízes racistas e invisibilizadoras de mulheres negras na geografia histórica.

O livro fala-nos sobre a hierarquização de raça que se perpetuou do Brasil escravista até os dias atuais, tornando a cozinha um espaço violento para as mulheres. A autora investiga as complexas relações entre os movimentos sociais, a historiografia, os estudos críticos de alimentação e as experiências individuais de cozinheiras negras. Ao examinar as condições exaustivas e desumanas em que essas mulheres trabalham, ela também destaca o papel essencial que desempenham na articulação de comunidades. Ao costurar histórias individuais e coletivas, a doutora nos ajuda a entender a ambivalência destes fatores até os dias atuais.

O livro apresenta um trabalho profundo acerca da mulher negra na cozinha, pautando suas linhas gerais na estruturalização da hierarquia racial; racismo; antinegritude e as diversas formas de desvalorização que este percursos histórico tensiona.

A obra de Machado está dividida em duas partes distintas, a parte um desta obra chama-se cozinha não era lugar de gente, que analisa de forma sistemática o tratamento da intimidade adotada pelos patrões com mulheres negras na cozinha, narrando episódios de abusos sexuais e tensões causadas pela hierarquia de poder-raça estabelecida durante. o período escravista. As narrativas percorrem o período da escravidão até o século XX e seus resquícios na culinária profissional.

A segunda parte da obra intitulada a conversa sempre esteve na cozinha, a autora trabalha a história de Benê Ricardo, a vanguardista, que ficou conhecida por se tornar a primeira mulher negra à receber um diploma de chef de cozinha em 1981, no Brasil. A narrativa também aborda. as questões de julgamentos presentes na cozinha profissional e a pressão sofrida pelas mulheres negras pelo poder pre-estabelecido de raça presente nas cozinhas.

Em interlúdio III, uma subdivisão presente. na segunda parte da obra, a autora conta-nos sobre Cenira, que ao chegar no Rio de Janeiro para trabalhar em uma casa, assumiu a responsabilidade de preparar um prato jamais feito por ela: um peru de natal. A história serve para ilustrar que, Cenira, em meio àquele local violento de trabalho, encontrou conforto e ajuda em outras funcionárias negras que estavam na mesma posição. A história se perpetuou como sendo importante à ajuda de uma para com as outras durante este processo e trabalho. A narrativa que se segue é um estudo sobre como a cozinha tornou-se um espaço geográfico caraterístico das mulheres negras.

Taís mostra como, a partir dos anos 20 do pós-abolição, intelectuais predominantemente brancos criaram narrativas idílicas baseadas na estereotipadamãe preta para contar a história da formação do Brasil. Por meio de crítica feminista, Taís desafiará essas narrativas romantizadas, expondo os detalhes das relações desiguais entre patrões e trabalhadoras negras, e como essas relações contrastam com a história de harmonia racial geralmente contada sobre a formação da cozinha brasileira.

As mulheres negras estão assumindo um protagonismo inegável, mudando sua posição nas cozinhas dos restaurantes e residências. O trabalho que exercem torna-as importantes agentes de suas próprias histórias. Através de um estudo profundo da cozinha, é possível perceber a importância que elas têm na construção social do Brasil.

Leitura indicada para todo bom leitor fã de uma escrita impecável, bem como estudantes das áreas de história, geografia, psicologia e sociologia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

[RESENHA #532] Um pé na cozinha, de Taís de Sant’Anna Machado


MACHADO, Taís de  Sant’Anna. Um pé na cozinha: um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil / Taís de Sant’Anna Machado. -- São Paulo: Fósforo, 2022.

Um Pé na Cozinha é uma exploração das contribuições feitas por mulheres negras para a culinária brasileira. Adaptado da tese de doutorado de Taís de SantAnna Machado, o livro analisa a forma como a profissionalização das mulheres negras na cozinha doméstica evoluiu desde o pós-abolição até a culinária contemporânea. O livro investiga os significados culturais da expressãoum pé na cozinha e o estereótipo da mãe preta. Ao mesmo tempo, destaca o papel fundamental das mulheres negras na criação de um dos principais elementos da identidade brasileira: o seu rico e diversificado patrimônio gastronômico.

Não existe nota de abertura melhor para explicar esta obra prima, do que as palavras da própria autora no prefácio da obra:

As mulheres negras alimentam o brasil do seio à mesa desde que aqui chegaram, forçadamente, pelos lancinantes processos de escravização empreendidos pelos europeus no continente africano. Esse abastecimento nutritivo continuou sendo de vital importância mesmo com o término formal da escravidão e segue como parte constitutiva da cozinha brasileira. Todavia, o apagamento da importância basilar que tais mulheres tiveram e ainda têm na formação nossa ou nossas culinárias, em âmbitos regionais ou nacional, é lugar-comum na maioria das narrativas gastronômicas do país. (pag. 11)

O subtítulo da obra é claro e preciso: um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil. É um olhar acerca do tratamento da sociedade ao longo do percurso histórico sobre a cozinha (e o preconceito). A obra é uma adaptação de uma tese de doutorado da autora, que desde sua publicação, 2022, tem aberto espaço para inúmeros debates no campo da alimentação e dos estudos sociais acerca da desvalorização da profissão, das mulheres, da figura negra na cozinha, do racismo, das estruturas de poder que se perpetuaram até os dias atuais e dos relatos carregados de resquícios de um Brasil empobrecido por suas raízes racistas e invisibilizadoras de mulheres negras na geografia histórica.

O livro fala-nos sobre a hierarquização de raça que se perpetuou do Brasil escravista até os dias atuais, tornando a cozinha um espaço violento para as mulheres. A autora investiga as complexas relações entre os movimentos sociais, a historiografia, os estudos críticos de alimentação e as experiências individuais de cozinheiras negras. Ao examinar as condições exaustivas e desumanas em que essas mulheres trabalham, ela também destaca o papel essencial que desempenham na articulação de comunidades. Ao costurar histórias individuais e coletivas, a doutora nos ajuda a entender a ambivalência destes fatores até os dias atuais.

O livro apresenta um trabalho profundo acerca da mulher negra na cozinha, pautando suas linhas gerais na estruturalização da hierarquia racial; racismo; antinegritude e as diversas formas de desvalorização que este percursos histórico tensiona.

A obra de Machado está dividida em duas partes distintas, a parte um desta obra chama-se cozinha não era lugar de gente, que analisa de forma sistemática o tratamento da intimidade adotada pelos patrões com mulheres negras na cozinha, narrando episódios de abusos sexuais e tensões causadas pela hierarquia de poder-raça estabelecida durante. o período escravista. As narrativas percorrem o período da escravidão até o século XX e seus resquícios na culinária profissional.

A segunda parte da obra intitulada a conversa sempre esteve na cozinha, a autora trabalha a história de Benê Ricardo, a vanguardista, que ficou conhecida por se tornar a primeira mulher negra à receber um diploma de chef de cozinha em 1981, no Brasil. A narrativa também aborda. as questões de julgamentos presentes na cozinha profissional e a pressão sofrida pelas mulheres negras pelo poder pre-estabelecido de raça presente nas cozinhas.

Em interlúdio III, uma subdivisão presente. na segunda parte da obra, a autora conta-nos sobre Cenira, que ao chegar no Rio de Janeiro para trabalhar em uma casa, assumiu a responsabilidade de preparar um prato jamais feito por ela: um peru de natal. A história serve para ilustrar que, Cenira, em meio àquele local violento de trabalho, encontrou conforto e ajuda em outras funcionárias negras que estavam na mesma posição. A história se perpetuou como sendo importante à ajuda de uma para com as outras durante este processo e trabalho. A narrativa que se segue é um estudo sobre como a cozinha tornou-se um espaço geográfico caraterístico das mulheres negras.

Taís mostra como, a partir dos anos 20 do pós-abolição, intelectuais predominantemente brancos criaram narrativas idílicas baseadas na estereotipadamãe preta para contar a história da formação do Brasil. Por meio de crítica feminista, Taís desafiará essas narrativas romantizadas, expondo os detalhes das relações desiguais entre patrões e trabalhadoras negras, e como essas relações contrastam com a história de harmonia racial geralmente contada sobre a formação da cozinha brasileira.

As mulheres negras estão assumindo um protagonismo inegável, mudando sua posição nas cozinhas dos restaurantes e residências. O trabalho que exercem torna-as importantes agentes de suas próprias histórias. Através de um estudo profundo da cozinha, é possível perceber a importância que elas têm na construção social do Brasil.

Leitura indicada para todo bom leitor fã de uma escrita impecável, bem como estudantes das áreas de história, geografia, psicologia e sociologia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Mobile Logo Settings

Mobile Logo Settings
image

Labels

Ad Space

Responsive Advertisement

Upload Image

Upload Image
"Upload image from computer" > Save > Edit Again > Get URL

Fashion

Labels

Categories

Business

Recent Post

Ticker

6/recent/ticker-posts

Politic

Feature Label Area

Word

#Advertisement


300x250 AD TOP

Whats Hot This Week

Navigation Pages [Footer]

Blogroll


Navigation Pages [Vertical]

Blogger templates

Responsive Advertisement

Blogger news

Follow on FaceBook


Trending video


Popular Posts

Popular Posts

Icone Newsletter

Assine nossa newsletter

e receba conteúdo incrível