Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão
preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram
a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à
morte e constitui como que um aprendizado em vista dela. Ou então é porque, de
toda sabedoria e inteligência, resulta finalmente que aprendemos a não ter
receio de morrer. Em verdade, ou nossa razão falha ou seu objetivo único deve ser a nossa própria satisfação, e seu trabalho
tender para que vivamos bem, e com alegria, como recomenda a Sagrada Escritura
[Eclesiastes 3,12:
“Então compreendi que não existe para o homem nada melhor do que se alegrar e agir bem
durante a vida”]. Todas as opiniões propõem que o prazer é a meta da vida, mas diferem
no que concerne aos meios
de atingir o alvo. E, se assim
não fosse, as repeliríamos de imediato,
pois quem daria ouvido a alguém que apontasse a pena e o sofrimento como os
objetivos da existência? A esse respeito, as dissensões entre seitas
filosóficas são puro palavrório: “deixemos de lado essas sutilezas” (Sêneca); em tais discussões entra mais obstinação e
picuinha do que convém à ciência tão respeitável. Mas em qualquer papel que se
proponha desempenhar põe o homem um pouco de si mesmo.
Digam o que disserem, na própria prática da
virtude o fim visado é a volúpia. E agrada-me repetir essa palavra que pronunciam constrangidos. E, se
significa prazer supremo e extremada satisfação, melhor se deva ela à virtude
do que a qualquer outra causa, pois volúpia, robusta
e viril, é a mais seriamente voluptuosa. E deveríamos chamá-la prazer, denominação mais feliz e mais
natural, do que a de vigor que lhe damos. Quanto à volúpia de ordem menos
elevada, se acreditam que mereça igual nome, que o mantenham, mas não com
exclusividade. Mais do que a virtude, tem ela seus inconvenientes e seus momentos
difíceis; além de serem
mais efêmeras as sensações que nos procura, e mais fluidas e fugidias, tem suas
vigílias, seus jejuns, suas penas, seu suor e sangue. Paixões
de toda sorte
influem nela, e redunda ela em tão pesada saciedade, que equivale a uma penitência. É erro nosso imaginar que tais inconvenientes a estimulam, e a condimentam, em razão dessa lei da natureza que afirma tudo se
fortalecer ante o obstáculo encontrado; e erro é também pensar que, quando se trata de volúpia proveniente da virtude,
semelhantes dificuldades a acabrunham e a tornam austera e inacessível.
Ao contrário do que se verifica com a volúpia, na prática da virtude tais dificuldades enobrecem, requintam e realçam o prazer divino e perfeito que ela nos procura. Bem indigno de senti-lo é, por certo, quem pesa o custo e o rendimento dela; não lhe conhece as belezas nem o uso. Os que nos afirmam que, embora sua posse seja agradável, penosa e laboriosa é a sua conquista, não nos estarão dizendo ser a virtude coisa sempre desagradável? Mesmo porque, quem a terá jamais atingido? Os mais perfeitos tiveram de se contentar com aspirar a ela, dela se aproximar sem nunca chegar a possuí-la. Enganam-se, porém, os que assim falam, pois não há prazer conhecido cuja procura em si já não constitua uma satisfação. Ela se liga ao objetivo visado e contribui muito para o resultado de que participa essencialmente. A felicidade e a bem-aventurança da virtude enchem-lhes as dependências e os caminhos, desde o portão de entrada até os muros que lhe cercam os domínios.
Um dos principais benefícios da virtude
está no desprezo
que nos inspira
pela morte, o que nos permite viver em doce quietude e faz que se
desenrole agradavelmente e sem preocupações nossa existência. E, sem esses
sentimentos, toda volúpia
é sem encanto. Eis porque
todos os sistemas
filosóficos concordam nesse
ponto e para ele convergem.
Embora todos se entendam igualmente em nos recomendar o desprezo à dor, à
pobreza e outros acidentes a que está sujeita a vida humana,
nem todos o fazem com igual cuidado,
ou porque tais acidentes não nos atingem forçosamente (em sua maioria, os homens vivem sua vida sem sofrer com a pobreza, e alguns, como o músico Xenófilo
[1] que morreu com cento e seis anos, vivem em perfeita saúde, sem conhecer nem a dor nem a doença),
ou porque, na pior das hipóteses, pode a morte,
quando menos esperamos, pôr fim aos nossos
males. E ela própria é inevitável: “Marchamos todos para a morte; nosso destino
agita-se na urna funerária; um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, o nome de
cada um dali sairá e a barca fatal nos levará a todos ao eterno exílio”
(Horácio). Portanto, se a receamos, temos nela um motivo permanente de
tormentos e andaremos como em país inimigo, a deitar os olhos para todos os
lados: “ela é sempre uma ameaça, como o rochedo de Tântalo” (Cícero).
Nossos tribunais ordenam, muitas vezes, que
se execute o criminoso no próprio local do crime. “Conduzam-no durante o
trajeto, entre belas residências, e deem-lhe as melhores refeições; as mais
deliciosas iguarias não poderão acariciar-lhe o paladar, nem o canto dos
pássaros, nem os acordes da lira lhe devolverão o sono” (Horácio). Pensais que
será sensível a nossos cuidados e que o fim último de sua viagem, sempre em
mente, não lhe alterará e tornará insosso qualquer possível prazer?
“Inquieta-se com o caminho, conta os dias, mede a vida pela extensão
da estrada, sem cessar atormentado pela ideia do suplício que o espera”
(Cláudio).
A meta de nossa existência é a morte; é este o
nosso objetivo fatal. Se nos apavora, como poderemos dar um passo à frente sem tremer?
O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez será precisa para uma tal cegueira? “Por que não coloca o freio no rabo do asno, já que meteu na
cabeça andar de costas?” (Lucrécio). Não há como estranhar que caia tantas
vezes na armadilha. As pessoas se apavoram simplesmente com lhe ouvir o nome: a
morte! E persignam-se como se ouvissem falar no diabo. E, como ela é mencionada nos testamentos, só resolvem fazer o seu quando o médico os condenou. E Deus sabe em
que estado de espírito se encontram então,
sob o impacto da dor e do pavor.
Como esta palavra ressoava demasiado forte a seus ouvidos, e lhes parecia de mau augúrio, tinham os romanos se habituado a adoçá-la ou a empregar perífrases. Em vez de dizer: “morreu”, diziam: “parou de viver, viveu”; bastava-lhes que se falasse em vida. Nós lhes tomamos de empréstimo esses eufemismos e dizemos: “Mestre João se foi”. [2] Se, porventura, se aplica o ditado “a palavra é de prata”, como nasci no último dia de fevereiro de 1533, faz exatamente quinze dias que completei meus trinta e nove anos. Posso, pois, esperar viver ainda tal período; e atormentar-me meditando sobre tão longínqua eventualidade, seria loucura. Mas jovens e velhos se vão da vida em condições idênticas. Partem todos como se acabassem de chegar, sem contar que não há homem tão decrépito ou velho ou alquebrado que não alimente a esperança da longevidade de Matusalém, e não tenha ainda vinte anos de vida diante de si. Direi mais: quem, pobre louco, fixou a duração de tua existência? Acreditas no que dizem os médicos, sem atentar para o que se verifica em torno de ti, e sem julgar pela experiência. Pelo andar das coisas, há muito já não vives, senão por excepcional favor. Já ultrapassaste a duração habitual da vida. Podes comprová-lo contando quantos entre os teus conhecidos morreram antes dessa idade, em bem maior número do que os que a alcançaram. Anota os nomes dos que, pelo brilho de sua existência, adquiriram certa fama; aposto encontrar, entre eles, mortos antes dos trinta e cinco, muito mais do que depois.
O razoável e o piedoso
está em tomar como exemplo
a humanidade de Jesus: ora, sua existência terrena findou-se aos trinta e três anos. O maior imperador do
mundo, Alexandre, morreu também com essa idade.
Quantas maneiras diversas tem a morte de nos
surpreender? “O homem nunca pode chegar a prever todos os perigos que o ameaçam
a cada instante” (Horácio). Deixo de lado as doenças, as febres, as pleurisias.
Quem poderia imaginar que um duque da Bretanha fosse morrer sufocado pela
multidão, como aconteceu a um deles, quando da entrada em Lyon do Papa
Clemente, meu compatriota? Não vimos um dos nossos reis morrer num folguedo? E
não faleceu outro, seu antepassado, da queda de um porco que montava? Ésquilo, advertido
de que morreria da queda de uma casa, embora dormisse num campo de trigo, foi esmagado por uma tartaruga
caída das garras de uma águia. Houve quem sucumbisse em consequência de
uma semente de uva engolida; outro, imperador, morreu de um arranhão feito com
o pente; Emílio Lépido em virtude de uma topada na porta de sua casa; Aufídio
por ter batido com a cabeça no batente da entrada da sala do Conselho. E entre
as coxas das mulheres: o pretor Cornélio Galo, Tigelino, comandante da guarda
de Roma, Ludovico, filho de Guy de Gonzaga, Marquês de Mântua, e, o que é péssimo
exemplo, Espêusipo, filósofo
platônico. E até um papa de nosso tempo.
O pobre Bebius, que era juiz, ao adiar o
julgamento de certa causa, morreu subitamente; chegara a sua hora. O médico
Caio Júlio, ao tratar dos olhos de um enfermo, teve os seus próprios fechados
para sempre. E, para misturar-me à enumeração: um dos meus irmãos, Capitão
Saint Martin, de vinte e quatro anos e que já dera provas sobejas de seu valor, foi atingido por uma bola logo
abaixo da orelha direita quando jogava queimada. Nem vestígio nem contusão, não se sentou sequer, não interrompeu
o jogo, e, no entanto, cinco ou seis horas depois, ei-lo atacado de apoplexia causada
pelo golpe recebido.
Tais exemplos são tão frequentes,
repetem-se tão comumente diante de nossos olhos, que não parece possível evitar
que nosso pensamento se oriente para a morte, nem negar que a cada instante ela
nos ameace. Que importa o que possa acontecer, direis,
se não nos preocupamos com isso? É também meu parecer, e se
houvesse meio de escapar ao golpe, ainda que fosse sob uma pele de vitela, não
seria homem se não o empregasse, pois
a mim me basta viver sossegado e pondo em prática tudo o que para isto venha
contribuir, embora pouco glorioso ou exemplar: “prefiro passar por louco ou
impertinente, se meu erro me agrada ou não o percebo, a ser sábio e sofrer”
(Horácio). É loucura, porém, querer se furtar assim a essa ideia. Vai-se,
volta-se, corre-se, dança-se: nenhuma notícia da morte, que beleza! Mas, quando
ela nos cai em cima, ou em cima de nossas
mulheres, nossos filhos, nossos amigos, que os surpreenda ou não, quantos
tormentos, gritos, imprecações,
desespero! Vistes alguém mais humilhado, transtornado, confundido? É preciso
preocupar-se com ela de antemão.
Pois esse descuido
animal, ainda que pudesse se alojar na mente de um homem
inteligente, o que acho
inteiramente impossível, nos faz pagar caro demais sua mercadoria. [3] Se a
morte fosse um inimigo suscetível de se evitar, aconselharia agir diante dela
como um covarde diante do perigo; mas, em não sendo isso verdade, e atingindo ela infalivelmente os fugitivos, covardes
ou valentes, “persegue o homem em sua fuga e
não poupa nem mesmo a tímida juventude
que tenta escapar-lhe” (Horácio); como nenhuma
couraça nos protege contra
ela, “cobri-vos de ferro e bronze, a morte vos atingirá sob a armadura” (idem), aprendamos a esperá-la de pé firme e a lutar. Para começar a despojá-la da vantagem maior de que dispõe contra nós,
tomemos o caminho inverso ao habitual. Tiremos dela o que tem de estranho;
habituemo-nos a ela, não pensemos
em outra coisa; tenhamo-la a todo instante presente em nosso pensamento e sob
todas as formas. Ao tropeço de um cavalo, à queda de uma telha, à menor picada de alfinete, digamos:
“se fosse a morte!”, e
esforcemo-nos em reagir contra a apreensão que uma
tal reflexão pode provocar. Em meio às festas e aos divertimentos, lembremo-nos
sem cessar de que somos mortais, e não nos entreguemos tão inteiramente ao
prazer que não nos sobre tempo para recordar que de mil maneiras nossa alegria pode acabar na morte, nem em quantas circunstâncias ela sobrevém inopinadamente. É o que faziam os egípcios quando,
em seus festivais e voltados aos prazeres da mesa, mandavam trazer um
esqueleto humano para rememorar aos convivas a fragilidade de sua vida: “Pensa
que cada dia é teu último dia, e aceitarás com gratidão aquele que não mais
esperavas” (idem).
Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la
em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu
a morrer desaprendeu a servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é
um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento. Paulo
Emílio, ao ir receber as honras do triunfo, respondia ao mensageiro enviado por
esse infeliz rei da Macedônia, seu prisioneiro, a fim de suplicar-lhe que não o incluísse em seu séquito:
“Que o solicite a si próprio”.
Em verdade, sem certo assentimento da
natureza é difícil que a arte e a indústria progridam nas obras que produzem.
Eu não sou melancólico, sou sonhador. Não há nada que minha imaginação vasculhe
mais do que a ideia da morte, e isso desde sempre, mesmo no período de minha
vida em que mais me dediquei aos prazeres: “estava então na flor da idade”
(Catulo). Entre senhoras e festas, imaginavam que eu andasse preocupado a remoer algum ciúme ou à espera inquieta de
qualquer acontecimento, enquanto, na realidade, meu pensamento se orientava para não sei quem que, dias antes, ao sair de festa semelhante, entregue
ao ócio, ao amor e às
doces recordações, fora tomado de febre e morrera. E considerava que coisa
análoga me aguardava de tocaia: “Em breve,
o tempo presente
já não será e não poderemos lembrá-lo” (Lucrécio). E não me franzia
a fronte, mais do que qualquer
outro, esse pensamento.
É impossível que, a princípio, essa ideia não nos
cause penosa impressão. Mas, voltando a ela, encarando-a de todos os ângulos,
aos poucos acabamos por nos acostumarmos a ela. De outro modo, teria eu andado
continuamente agitado e amedrontado, pois ninguém mais do que eu jamais
desconfiou tanto da vida e contou menos com a sua duração.
Minha saúde, até agora excelente, apenas perturbada por pequenas indisposições, não me dá maiores
esperanças de grande longevidade, como tampouco doenças me fazem temer um fim
prematuro. A cada instante tenho a impressão de haver chegado minha última
hora, e repito sem cessar: o que deverá ocorrer fatalmente um dia, pode acontecer hoje. Efetivamente, os acasos e perigos a que estamos expostos pouco ou nada nos aproximam do fim. E, se pensarmos em quantos acidentes podem ameaçar-nos,
além dos que imaginamos iminentes, deveremos reconhecer que, no mar como no lar, na guerra como no retiro, a
morte sempre se encontra perto de nós: “Nenhum homem é mais frágil do que outro, nenhum tem assegurado
o dia seguinte” (Sêneca).
Para fazer o que me cumpre fazer antes de morrer, todo tempo me parece curto, ainda que se trate de trabalho de uma hora. Alguém, folheando
meu caderno de notas, revelou algo que eu desejava que se fizesse depois de
minha morte; disse a essa pessoa a verdade, isto é, que, ao registrar essa nota, encontrava-me a uma légua apenas de casa, mas me apressara em
escrevê-la porque não estava certo de não morrer antes de entrar. A chegada da morte não me surpreenderá; acho-me sempre, e o quanto posso, preparado
para essa ocorrência. Ela se mistura sem cessar a meu pensamento, nele se grava. Na medida do possível,
andemos sempre de botas
e prontos para partir e, em particular, não tenhamos negócios
a tratar senão com nós mesmos: “por que, em tão
curta vida, fazer tantos projetos?” (Horácio).
Suficiente trabalho teremos com esses negócios próprios, para que nos embaracemos com outros. Mais do que da morte, queixam-se uns de que venha interromper uma bela vitória; lamentam-se outros de não terem podido casar a filha antes ou educarem as crianças;
um lastima deixar a mulher, outro, o filho, entes a
que mais se apegavam. Quanto a mim, graças a Deus, estou em estado de
desaparecer quando Lhe aprouver, sem nenhuma saudade senão da própria vida.
Estou em regra com tudo e como que já
disse adeus a todos, salvo a mim mesmo. Nunca homem se apresentou mais bem
preparado para deixar a vida no momento necessário e sem a menor dissimulação.
Ninguém se desprendeu melhor e mais completamente da vida do que eu. As mortes
mais mortais são as mais desejáveis. [4] “Oh desgraça
— dizem uns —, um só dia
nefasto basta para envenenar todas as alegrias da vida” (Lucrécio). “Não
terminarei nunca a minha obra — lamenta o arquiteto —, deixarei, pois,
imperfeitos esses soberbos baluartes” (Virgílio). Nada se empreenda, pois, em vista de tão remota conclusão, pelo menos não o faça com a apaixonada intenção
de chegar ao fim. Nascemos para agir: “quero que a morte me surpreenda em pleno trabalho”
(Ovídio).
Vamos agir, portanto,
e prolonguemos os trabalhos da existência o quanto pudermos,
e que a morte nos encontre a plantar as nossas couves,
mas indiferentes à sua chegada e mais ainda ante as nossas hortas inacabadas.
Conheço alguém que, na hora extrema, lastimava incessantemente lhe fosse
cortar, a morte, no décimo quinto ou no décimo sexto de nossos reis, o foi de uma história
em andamento. “Não pensem que a
morte nos rouba a saudade
das coisas mais queridas”.
Devemos nos desfazer dessas preocupações vulgares e
nocivas. Se se construíram cemitérios perto das igrejas e nos lugares
mais frequentados da cidade, foi, diz Licurgo,
para acostumar a plebe, as mulheres e as crianças
a não se assustarem à vista de um morto e a fim que o contínuo
espetáculo de ossadas,
túmulos, pompas funerárias,
advirta todos do que os espera: “Era outrora costume alegrar os festins com
execuções e com combates de gladiadores; estes caíam muitas vezes entre as taças e inundavam
de sangue as mesas do banquete” (Sílio Itálico).
Os egípcios, em seus festins,
faziam apresentar aos convivas uma imagem da morte, que lhes gritava:
“bebe, goza, pois serás assim depois de morto”.
Também se tornou em mim um hábito não somente
ter sempre presente a ideia da morte como também falar dela constantemente. E nada me interessa mais do que indagar
da morte das pessoas: que disseram, que atitude assumiram? Nas histórias que leio, os trechos referentes à morte são os que mais me prendem a atenção. Vê-se isso pela
escolha dos meus exemplos e pela afeição particular
que revelo pelo assunto. Se fosse escritor, anotaria as mortes que mais me
impressionaram e as comentaria, pois quem ensinasse os homens a morrer os
ensinaria a viver. Dicearco escreveu um livro com esse título, porém, diferente
e menos útil em seu objetivo.
Dirão que, em sua realidade, a morte ultrapassa nossa concepção; por mais que nos preparemos para enfrentá-la, quando ela chegar estaremos no mesmo ponto. Deixai-os falar. Sem dúvida, uma tal preparação comporta grandes vantagens, pois será pouco caminhar ao seu encontro sem apreensões? Tem mais: a própria natureza nos ajuda na ocorrência e nos dá a coragem que poderia nos faltar. Se nossa morte é súbita e violenta, não temos tempo de receá-la; se não, na medida em que a enfermidade nos domina, diminui naturalmente nosso apego à vida. Custa-me muito mais aceitar a ideia de morrer quando gozo saúde do que quando estou com febre. Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las, a morte se me afigura menos temível. Disso concluo que, quanto mais me desprender da vida e me aproximar da morte, mais facilmente me conformarei com a passagem de uma para outra. Como
diz César, e como verifiquei em mais de uma
circunstância, as coisas produzem maiores efeitos de longe que de perto. Assim
é que me atormentam mais as doenças se estou bem de saúde do que se as
enfrento. A alegria, o prazer e a força me induzem a uma ampliação
desproporcional do estado contrário, e os incômodos da enfermidade eu os concebo
mais pesados do que os sinto realmente
quando adoeço. E espero que o mesmo se
dê quanto à morte.
As flutuações a que se sujeita a nossa saúde, o enfraquecimento gradual que sofremos,
são meios que a
natureza emprega para nos dissimular a aproximação de nosso fim e de nossa decrepitude. Que resta a um
ancião do vigor de sua juventude e do seu passado? “Ah, como sobra pouco aos
velhos” (Pseudo-Galo). César, a quem um soldado alquebrado e decrépito viera
pedir em plena sua autorização para se matar, respondeu rindo: “Pensas então
que ainda estás vivo?”
Creio que não seríamos capazes
de suportar uma tal mudança
se a ela chegássemos repentinamente. Mas, em nos
conduzindo pela mão, devagar, quase insensivelmente, a natureza nos familiariza
com essa miserável condição. De tal modo que a mocidade se extingue em nós sem
que lhe percebamos o fim, em verdade mais penoso do que o de nosso ser inteiro
ao ter de deixar uma vida de achaques quando morremos de velhice. O salto que nos cabe dar para passar de
uma existência miserável ao fim dela não é tão sensível quanto o que separa uma vida tranquila e florescente de uma vida
difícil e dolorosa. O corpo curvado tem menos força para carregar um fardo; o mesmo ocorre com a alma, que é preciso
fortalecer e pôr em condição
de resistir à opressão causada pelo medo da morte.
Como é impossível que encontre a calma sob o peso desse temor, se o pudesse
dominar inteiramente — o que está acima das forças humanas — estaria a alma
assegurada contra a inquietação, a ansiedade, o medo e tudo o que nos aflige:
“nem o rosto cruel de um tirano, nem a tempestade furiosa que revolve o Adriático, nada lhe pode abalar o ânimo; nada,
nem Zeus lançando
seus raios” (Horácio). A alma se tornaria então
senhora de suas paixões e de seus mais ardentes desejos; nada a atingiria, nem
a indigência, nem a vergonha, nenhuma adversidade. Esforcemo-nos, pois, por
conseguir essa vantagem. Nisso consiste a verdadeira e soberana liberdade, a que nos permite desafiar
a violência e a injustiça, desprezar a prisão e os ferros
escravizadores: “Vou te sobrecarregar os pés e as mãos de cadeias
e te entregarei ao mais cruel dos carcereiros. ― Um Deus me libertará. Esse deus, penso
eu, é a morte, a morte, termo
de todas as coisas” (idem).
Nossa religião não teve alicerce humano mais sólido
que o do desprezo à vida. E não é somente a voz da razão que a isso nos conduz, pois por que temeríamos
perder uma coisa que, uma vez perdida, já não podemos lamentar? E, como a morte
nos ameaça sem cessar sob vários aspectos, não será mais desagradável ficarmos todos a receá-los de antemão, do que nos
resignarmos de uma vez por todas diante dela? Por que se preocupar com sua
vinda, se é inevitável? Alguém disse a Sócrates: “os Trinta Tiranos te
condenaram à morte”. Ao que o filósofo respondeu: “Eles
já foram condenados pela natureza”. Que tolice nos afligirmos no momento em que
nos vamos ver livres de nossos males!
Nossa vinda ao mundo foi para nós a vinda
de todas as coisas; nossa morte será a morte de tudo.
Lastimar não mais viver daqui a cem anos é tão absurdo quanto lamentar não ter
nascido um século antes. A morte é origem de outra vida. Nascemos entre lágrimas e muito nos custou entrar na vida atual; passando para uma
nova vida, despojamo-nos do que fomos na precedente. Não pode ser grave uma coisa que acontece uma só vez; será
razoável recear com tanta antecedência acidente de tão curta duração? Em
relação à morte, viver pouco ou muito é a mesma coisa, pois nada é longo ou
curto quando deixa de existir. Diz Aristóteles que há no rio Hipanis
insetos que vivem
somente um dia: os que morrem às oito da manhã
morrem jovens e os que morrem às cinco da tarde
morrem na decrepitude. Quem não acharia divertido que tão insignificante
diferença em existências tão efêmeras bastasse para tachá-las de felizes?
Semelhante apreciação acerca da duração da vida humana não é menos ridícula se
a comparamos com a eternidade, ou simplesmente
com a duração das montanhas, dos rios, das estrelas, das árvores e até de certos animais.
A natureza nos ensina: vós saís deste mundo como
nele entrastes. Passastes da morte à vida sem que fosse por efeito de vossa vontade
e sem temores; tratai de vos conduzirdes de igual maneira
aos passardes da vida à morte;
vossa morte entra na própria
organização do universo:
é um fato que tem seu lugar assinalado no decurso dos séculos: “Os mortais se emprestam mutuamente a vida… é a tocha
que se transmite de mão em
mão nas corridas sagradas” (Lucrécio). Mudarei para vós esse belo entrosamento das coisas? Morrer é a própria
condição de vossa criação; a morte é parte integrante de vós mesmos.
A existência de que gozais participa da vida e da morte ao mesmo tempo;
desde o dia de vosso nascimento
caminhais concomitantemente na
vida e para a morte: “a primeira hora de vossa vida é uma hora a menos que
tereis para viver” (Sêneca) — “nascer é começar
a morrer; o último instante
de vida é consequência do primeiro” (Manílio). O tempo que viveis, vós o roubais à vida e a restringis proporcionalmente. Vossa vida tem como efeito conduzir-vos à morte.
E enquanto viveis estais constantemente sob a ameaça de morte, e, mortos, já
não viveis mais; ou, se assim preferis, a morte sucede à vida, logo, durante a vida estais moribundos; e a morte atinge muito mais duramente e essencialmente o moribundo
do que o morto. Se soubestes usar a vida e gozá-la
quanto pudestes, ide-vos
e vos declareis satisfeitos: “por que não sair do banquete da vida como
um conviva saciado?” (Lucrécio). Se não a soubestes usar, se ela vos foi inútil, que vos importa
perdê-la? E, se ela continuasse, em que a empregaríeis?
“Para que prolongar dias de que não se saberá tirar melhor proveito do que no passado?” (idem). A vida em si
não é um bem nem um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis. E, se
vivestes um dia, já vistes tudo, pois um dia é igual a todos os outros. Uma é a
luz, uma é a noite. Esse sol, essa lua, essas estrelas, em sua disposição, são os mesmos que apreciaram vossos antepassados e que conhecerão vossos descendentes.
“Vossos sobrinhos não verão nada mais do que viram seus pais” (Manílio). E, em última análise, pode-se
dizer que a totalidade dos atos diversos que comporta a comédia a que
vos convidei se cumpre no decurso de um ano, cujas quatro estações, se o
observastes, abarcam a infância, a adolescência, a idade viril e a velhice do
mundo. Essa marcha é constante; não a
modifico nunca e sem cessar ela se repete, e assim será eternamente: “Giramos
sempre em torno do mesmo círculo” (Lucrécio); “o ano retoma sem descontinuar a estrada percorrida” (Virgílio). Não está em meus
projetos inovar para vós a ordem das coisas: “não posso nada imaginar, nada inventar
de novo para vos agradar;
é, e será sempre, a repetição das mesmas cenas” (Lucrécio). Daí vosso lugar a
outros como outros vos deram o seu. A igualdade
é a primeira condição da equidade. Quem se há de queixar de uma medida que atinge a todos?
Podeis prolongar vossa vida, o que quer que façais não diminuirá em nada o
tempo que tendes para serdes mortos. Por mais comprida que seja, vossa vida não
será nada, e esse estado que lhe
sucederá — e que pareceis tanto temer — terá a mesma duração que se houvésseis
morrido no berço: “Vivei quantos séculos quiserdes, nem por isso será menos
eterna a morte” (idem).
Nesse estado em que vos porei, não tereis motivo
para descontentamento: “Ignorais que não vos sobrevirá um outro vós mesmo, o
qual, vivo, vos possa chorar como morto e gemer sobre o vosso cadáver!”
(Lucrécio). E essa vida, que tanto lamentais perder, não mais a desejareis:
“Não teremos mais com que nos inquietarmos nem com nós mesmos, nem com a vida…
nenhuma saudade teremos da existência” (idem).
“A morte é menos temível do que nada,
se é que alguma coisa menos que nada é possível” (idem). Morto ou vivo, vós não lhe escapais: vivo, porque sois; morto, porque não sois mais. Por outro lado, ninguém morre antes da hora. O tempo que perdeis
não vos pertence
mais do que o que precedeu vosso
nascimento, e não vos interessa: “Considerai em verdade que os séculos inumeráveis, já passados, são para vós como se não tivessem
sido” (idem).
Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração, e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim? E se o fato de ter companheiros vos pode consolar, pensai que o mundo inteiro segue caminho idêntico: “As raças futuras vos seguirão por sua vez” (idem).
Tudo obedece ao mesmo impulso a que obedeceis.
Haverá algo que não envelheça como vós envelheceis? Milhares de homens, milhares de animais, milhares de outras
criaturas morrem no mesmo instante em que morreis: “não há uma só noite, nem um só dia, em que não se ouçam, misturados aos gemidos dos recém-nascidos, os gritos de dor em torno dos esquifes” (idem).
Por que tentar recuar se não vos é
permitido voltar atrás? Vistes mais de um indivíduo morrer que se satisfez com morrer, fugindo assim a grandes
misérias; já deparastes com alguém que se achou prejudicado? E não será tolice
condenar uma coisa que não conheceis nem pessoalmente nem através de outro? Por
que vos queixardes de mim e do
destino? Nós vos estaremos prejudicando? Cabe a vós nos governar ou, ao
contrário, dependeis de nós? Por mais moço que sejais, vossa vida chegou ao fim; um homem de pequena
estatura é tão completo
quanto outro muito grande. Nem a estatura
do homem nem a sua existência têm medidas determinadas.
Quíron recusou a imortalidade quando Cronos, seu pai, deus do tempo e da mortalidade, lhe revelou as condições dela. Imaginai a que ponto
uma vida sem fim seria menos tolerável e mais penosa para o homem do que a que lhe foi dada. Se não tivésseis
a morte, vós me amaldiçoaríeis sem cessar por vos haver privado dela. Foi propositalmente que a ela juntei
alguma amargura, a fim de impedir que, ante a comodidade dela, não a buscásseis com avidez. Para vos trazer a essa moderação que solicito de vós, de não abreviar
a vida e não tentar esquivar
a morte, temperei-as pelas sensações mais ou menos suaves, mais ou menos duras
que vos podem conceder. Ensinei
a Tales, o primeiro entre vossos sábios,
que viver e morrer são igualmente
indiferentes; o que o impeliu a responder, muito sabiamente, a alguém que lhe
perguntava por que então não se matava: porque é indiferente. A água, a terra,
o fogo, tudo o que constitui meu domínio e contribui para vossa vida, não contribuem
mais do que à morte. Por que temeis vosso último dia? Ele não vos entrega mais à morte
do que o faz cada um dos dias anteriores. Não é o último passo a causa de nossa
fadiga; ele apenas a determina. Todos os dias levam à morte, só o último a alcança.
Eis os sábios conselhos que vos dá a natureza,
nossa mãe.
Frequentemente indaguei de mim mesmo por que, na guerra, a perspectiva ou a presença da morte, nossa ou de outrem, nos impressiona muito menos do que em nossos lares. Se assim não fosse, um exército se comporia unicamente de médicos e de chorões. Estranho igualmente que a morte, em sendo a mesma para todos, a acolham com mais calma os camponeses e o povo miúdo que os outros. Creio, em verdade, que são esses semblantes de circunstância e esse aparato lúgubre com que a cercam, que nos impressionam mais do que ela própria. Quando ela se aproxima, há uma modificação total em nossa vida cotidiana: mães, mulheres e crianças gritam e se lamentam. Inúmeras pessoas nos visitam, consternadas; a gente da casa fica aí, pálida e desesperada; a obscuridade reina no quarto; acendem-se velas; à nossa cabeceira juntam-se padres e médicos; tudo, em suma, em volta de nós se dispõe como para inspirar horror; ainda não rendemos o último suspiro, e já
estamos amortalhados e enterrados. As crianças se
amedrontam quando as pessoas, mesmo suas conhecidas, se apresentam mascaradas;
pois é o que ocorre nesse momento. Arranquemos as máscaras das coisas como das
pessoas e, por baixo, veremos muito simplesmente a morte. A mesma com a qual
partiu ontem, sem maior pavor, tal ou qual criado ou camareira. Feliz é a morte
que nos surpreende sem que haja tempo para semelhantes preparativos!
Notas
[1] Filósofo que Montaigne qualifica como músico.
[2] “Maître Jean” é o apelido que se dava outrora aos pedantes, sábios ou doutores.
[3] Sa denreé — no caso, suas ilusões.
[4]
No texto, “les plus mortes morts”, isto é, as mortes em que tudo morre ao mesmo tempo, em oposição
às mortes em que o indivíduo
se extingue gradualmente, através de sucessivas perdas de faculdades.
