Continue Lendo

Menu


Institucional

Carregando Destaques...
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Emma Straub livros resenhas

Resenha: Somos todos adultos aqui, de Emma Straub

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
| |



Em Somos todos adultos aqui, Emma Straub constrói um romance que parte de um evento abrupto para reorganizar a vida de uma família inteira. Logo nas primeiras páginas, a autora apresenta Astrid Strick, matriarca prática e contida, cuja rotina é violentamente interrompida pela morte de uma conhecida atropelada no centro da pequena Clapham. O episódio não é apenas um choque urbano: é um gatilho moral, afetivo e existencial.

No início, lemos:

“Astrid Strick nunca tinha gostado de Barbara Baker, nem por um único dia dos quarenta anos de convivência, mas, quando Barbara foi atingida e morta pelo ônibus escolar vazio em alta velocidade (...), Astrid soube que sua vida havia mudado, não dava para distinguir o choque do alívio.” (p. 9)

A força dessa abertura reside na ambivalência: choque e alívio coexistem. Straub não romantiza relações longas nem idealiza os vínculos sociais de uma cidade pequena. A morte rápida — subtítulo do primeiro capítulo — revela mais sobre Astrid do que sobre a vítima. Ao testemunhar o atropelamento, a protagonista se vê diante da própria finitude, mas também diante da oportunidade de reorganizar desejos antigos e silêncios acumulados.

A narrativa se expande a partir dela. Astrid é viúva, mãe de três filhos adultos — Elliot, Porter e Nicky — e avó de Cecelia. A morte de Barbara funciona como lente que amplia tensões já existentes: maternidade imperfeita, decisões mal resolvidas, amores não declarados e ressentimentos silenciosos. Ao entrar no salão de beleza após o acidente, ainda aturdida, Astrid tenta nomear o que sente:

“Não consigo acreditar. Estou em choque, definitivamente estou em choque. Ouça o que estou dizendo! Meu cérebro não funciona...” (p. 13)

Esse momento sintetiza a virada interna. Astrid sempre foi organizada, prática, previsível. Agora, sua estabilidade vacila. A partir daí, as relações familiares começam a se rearranjar, especialmente com a chegada de Cecelia, a neta de 13 anos que vai morar com a avó depois de um escândalo na escola.

Cecelia representa outra camada do romance: a adolescência marcada por julgamento social e culpa difusa. Durante a viagem de trem, com a pulseira que a identifica como menor desacompanhada, a menina experimenta a sensação de abandono e exposição. A autora descreve o constrangimento com ironia e delicadeza:

“DESACOMPANHADA, mas podia muito bem ter dito MENOR ABANDONADA, POR FAVOR ME LEVE PARA CASA E ME FAÇA UM SANDUÍCHE.” (p. 26)

Através de Cecelia, Straub aborda o peso do erro juvenil em uma sociedade hipervigilante. A menina carrega não apenas malas, mas o julgamento dos colegas e a incapacidade dos pais de enfrentar o problema sem fuga. Ao reencontrar a avó, recebe uma frase inesperada:

“Vi alguém ser atropelado por um ônibus hoje.” (p. 28)

A crueza do comentário inaugura uma relação baseada menos em proteção idealizada e mais em franqueza. Astrid e Cecelia passam a compartilhar um território de vulnerabilidade: ambas estão em transição. A avó repensa a própria vida; a neta tenta reconstruir a própria identidade.

Paralelamente, acompanhamos Elliot, o filho mais velho, empresário local e pai de gêmeos pequenos. Ele vive o cansaço da meia-idade, a pressão de manter relevância numa cidade onde todos se conhecem e o desejo secreto de provar seu valor. Ao refletir sobre a possibilidade de perder a mãe, percebe que ainda se sente inacabado:

“A parte mais cruel de chegar na meia-idade era que aquilo vinha no encalço da própria juventude (...) e que era tarde demais para começar de novo.” (p. 36)

Essa consciência do tempo atravessa o romance. Cada personagem lida com a própria noção de atraso: Elliot teme não ter realizado o suficiente; Nicky vive entre deslocamentos geográficos e afetivos; Porter, por sua vez, toma a decisão radical de engravidar sozinha.

Porter é talvez a personagem mais emblemática do título. Ao decidir recorrer a um banco de esperma, questiona o modelo tradicional de família e desafia as expectativas maternas. Diante do espelho, grávida, declara:

“Você é gente grande (...). Você é uma adulta. É a sua vida.” (p. 25)

Essa afirmação ecoa o título da obra. Ser adulto, aqui, não é alcançar estabilidade ou sabedoria absoluta, mas assumir escolhas — mesmo imperfeitas — e aceitar as consequências. Porter não romantiza a maternidade solo; ela a encara como projeto consciente, ainda que marcado por inseguranças e saudades do pai falecido.

O romance é, portanto, menos sobre eventos dramáticos e mais sobre pequenos deslocamentos internos. Straub constrói Clapham como microcosmo onde tudo é observado, comentado e lembrado. A cidade reforça a ideia de que crescer não significa escapar do passado, mas reinterpretá-lo.

Há também um fio sutil de redescoberta amorosa na trajetória de Astrid. O choque inicial a leva a revisitar desejos antigos, incluindo relações que escapam às expectativas convencionais de sua geração. Ao longo da narrativa, percebe que o luto não é apenas perda, mas também reabertura.

O título — Somos todos adultos aqui — carrega ironia. Em vários momentos, os personagens agem com imaturidade, egoísmo ou fuga. No entanto, a maturidade surge não como estado permanente, mas como esforço constante de responsabilidade emocional. O livro sugere que crescer é reconhecer falhas passadas e, ainda assim, seguir adiante.

Straub escreve com humor contido e olhar generoso. Não há vilões absolutos, apenas pessoas tentando acertar. Mesmo quando há ressentimento, ele é temperado por afeto. A morte de Barbara, que inicia a narrativa, funciona como lembrete de que o tempo é finito e de que decisões adiadas podem nunca se concretizar.

Ao final, a família Strick não se transforma em modelo ideal, mas aprende a falar — ainda que de modo imperfeito. O romance reafirma que laços familiares são construções em permanente revisão, e que a adultez talvez consista justamente nisso: aceitar que nunca se está completamente pronto.

Somos todos adultos aqui é um retrato sensível de múltiplas gerações atravessadas por luto, desejo, vergonha e reinvenção. Emma Straub oferece um panorama íntimo de uma família que, diante da morte súbita de uma conhecida, descobre que amadurecer é menos um destino e mais um processo contínuo — às vezes desconfortável, quase sempre necessário.

SOBRE O SITE

O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

CURADORIA

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Encontre as melhores resenhas de livros, documentários e cinema no Post Literal. Explore análises aprofundadas e fique por dentro das novidades do mundo literário e cinematográfico.

Tecnologia do Blogger.

Political News

Sport

Pesquisar este blog

Archive

Follow by Email

If you like Articles on this blog, Please subscribe for free via email.

About

Your Ads Here
Your Ads Here
Your Ads Here

Economy

Recent in Sports

3/Sports/post-list

Random Posts

3/random/post-list

Business

Travel

Hot Widget

recent/hot-posts

Label

Colaboradores

Label

Formulir Kontak

Nome

E-mail *

Mensagem *

Resenha: Somos todos adultos aqui, de Emma Straub



Em Somos todos adultos aqui, Emma Straub constrói um romance que parte de um evento abrupto para reorganizar a vida de uma família inteira. Logo nas primeiras páginas, a autora apresenta Astrid Strick, matriarca prática e contida, cuja rotina é violentamente interrompida pela morte de uma conhecida atropelada no centro da pequena Clapham. O episódio não é apenas um choque urbano: é um gatilho moral, afetivo e existencial.

No início, lemos:

“Astrid Strick nunca tinha gostado de Barbara Baker, nem por um único dia dos quarenta anos de convivência, mas, quando Barbara foi atingida e morta pelo ônibus escolar vazio em alta velocidade (...), Astrid soube que sua vida havia mudado, não dava para distinguir o choque do alívio.” (p. 9)

A força dessa abertura reside na ambivalência: choque e alívio coexistem. Straub não romantiza relações longas nem idealiza os vínculos sociais de uma cidade pequena. A morte rápida — subtítulo do primeiro capítulo — revela mais sobre Astrid do que sobre a vítima. Ao testemunhar o atropelamento, a protagonista se vê diante da própria finitude, mas também diante da oportunidade de reorganizar desejos antigos e silêncios acumulados.

A narrativa se expande a partir dela. Astrid é viúva, mãe de três filhos adultos — Elliot, Porter e Nicky — e avó de Cecelia. A morte de Barbara funciona como lente que amplia tensões já existentes: maternidade imperfeita, decisões mal resolvidas, amores não declarados e ressentimentos silenciosos. Ao entrar no salão de beleza após o acidente, ainda aturdida, Astrid tenta nomear o que sente:

“Não consigo acreditar. Estou em choque, definitivamente estou em choque. Ouça o que estou dizendo! Meu cérebro não funciona...” (p. 13)

Esse momento sintetiza a virada interna. Astrid sempre foi organizada, prática, previsível. Agora, sua estabilidade vacila. A partir daí, as relações familiares começam a se rearranjar, especialmente com a chegada de Cecelia, a neta de 13 anos que vai morar com a avó depois de um escândalo na escola.

Cecelia representa outra camada do romance: a adolescência marcada por julgamento social e culpa difusa. Durante a viagem de trem, com a pulseira que a identifica como menor desacompanhada, a menina experimenta a sensação de abandono e exposição. A autora descreve o constrangimento com ironia e delicadeza:

“DESACOMPANHADA, mas podia muito bem ter dito MENOR ABANDONADA, POR FAVOR ME LEVE PARA CASA E ME FAÇA UM SANDUÍCHE.” (p. 26)

Através de Cecelia, Straub aborda o peso do erro juvenil em uma sociedade hipervigilante. A menina carrega não apenas malas, mas o julgamento dos colegas e a incapacidade dos pais de enfrentar o problema sem fuga. Ao reencontrar a avó, recebe uma frase inesperada:

“Vi alguém ser atropelado por um ônibus hoje.” (p. 28)

A crueza do comentário inaugura uma relação baseada menos em proteção idealizada e mais em franqueza. Astrid e Cecelia passam a compartilhar um território de vulnerabilidade: ambas estão em transição. A avó repensa a própria vida; a neta tenta reconstruir a própria identidade.

Paralelamente, acompanhamos Elliot, o filho mais velho, empresário local e pai de gêmeos pequenos. Ele vive o cansaço da meia-idade, a pressão de manter relevância numa cidade onde todos se conhecem e o desejo secreto de provar seu valor. Ao refletir sobre a possibilidade de perder a mãe, percebe que ainda se sente inacabado:

“A parte mais cruel de chegar na meia-idade era que aquilo vinha no encalço da própria juventude (...) e que era tarde demais para começar de novo.” (p. 36)

Essa consciência do tempo atravessa o romance. Cada personagem lida com a própria noção de atraso: Elliot teme não ter realizado o suficiente; Nicky vive entre deslocamentos geográficos e afetivos; Porter, por sua vez, toma a decisão radical de engravidar sozinha.

Porter é talvez a personagem mais emblemática do título. Ao decidir recorrer a um banco de esperma, questiona o modelo tradicional de família e desafia as expectativas maternas. Diante do espelho, grávida, declara:

“Você é gente grande (...). Você é uma adulta. É a sua vida.” (p. 25)

Essa afirmação ecoa o título da obra. Ser adulto, aqui, não é alcançar estabilidade ou sabedoria absoluta, mas assumir escolhas — mesmo imperfeitas — e aceitar as consequências. Porter não romantiza a maternidade solo; ela a encara como projeto consciente, ainda que marcado por inseguranças e saudades do pai falecido.

O romance é, portanto, menos sobre eventos dramáticos e mais sobre pequenos deslocamentos internos. Straub constrói Clapham como microcosmo onde tudo é observado, comentado e lembrado. A cidade reforça a ideia de que crescer não significa escapar do passado, mas reinterpretá-lo.

Há também um fio sutil de redescoberta amorosa na trajetória de Astrid. O choque inicial a leva a revisitar desejos antigos, incluindo relações que escapam às expectativas convencionais de sua geração. Ao longo da narrativa, percebe que o luto não é apenas perda, mas também reabertura.

O título — Somos todos adultos aqui — carrega ironia. Em vários momentos, os personagens agem com imaturidade, egoísmo ou fuga. No entanto, a maturidade surge não como estado permanente, mas como esforço constante de responsabilidade emocional. O livro sugere que crescer é reconhecer falhas passadas e, ainda assim, seguir adiante.

Straub escreve com humor contido e olhar generoso. Não há vilões absolutos, apenas pessoas tentando acertar. Mesmo quando há ressentimento, ele é temperado por afeto. A morte de Barbara, que inicia a narrativa, funciona como lembrete de que o tempo é finito e de que decisões adiadas podem nunca se concretizar.

Ao final, a família Strick não se transforma em modelo ideal, mas aprende a falar — ainda que de modo imperfeito. O romance reafirma que laços familiares são construções em permanente revisão, e que a adultez talvez consista justamente nisso: aceitar que nunca se está completamente pronto.

Somos todos adultos aqui é um retrato sensível de múltiplas gerações atravessadas por luto, desejo, vergonha e reinvenção. Emma Straub oferece um panorama íntimo de uma família que, diante da morte súbita de uma conhecida, descobre que amadurecer é menos um destino e mais um processo contínuo — às vezes desconfortável, quase sempre necessário.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Resenha: Somos todos adultos aqui, de Emma Straub



Em Somos todos adultos aqui, Emma Straub constrói um romance que parte de um evento abrupto para reorganizar a vida de uma família inteira. Logo nas primeiras páginas, a autora apresenta Astrid Strick, matriarca prática e contida, cuja rotina é violentamente interrompida pela morte de uma conhecida atropelada no centro da pequena Clapham. O episódio não é apenas um choque urbano: é um gatilho moral, afetivo e existencial.

No início, lemos:

“Astrid Strick nunca tinha gostado de Barbara Baker, nem por um único dia dos quarenta anos de convivência, mas, quando Barbara foi atingida e morta pelo ônibus escolar vazio em alta velocidade (...), Astrid soube que sua vida havia mudado, não dava para distinguir o choque do alívio.” (p. 9)

A força dessa abertura reside na ambivalência: choque e alívio coexistem. Straub não romantiza relações longas nem idealiza os vínculos sociais de uma cidade pequena. A morte rápida — subtítulo do primeiro capítulo — revela mais sobre Astrid do que sobre a vítima. Ao testemunhar o atropelamento, a protagonista se vê diante da própria finitude, mas também diante da oportunidade de reorganizar desejos antigos e silêncios acumulados.

A narrativa se expande a partir dela. Astrid é viúva, mãe de três filhos adultos — Elliot, Porter e Nicky — e avó de Cecelia. A morte de Barbara funciona como lente que amplia tensões já existentes: maternidade imperfeita, decisões mal resolvidas, amores não declarados e ressentimentos silenciosos. Ao entrar no salão de beleza após o acidente, ainda aturdida, Astrid tenta nomear o que sente:

“Não consigo acreditar. Estou em choque, definitivamente estou em choque. Ouça o que estou dizendo! Meu cérebro não funciona...” (p. 13)

Esse momento sintetiza a virada interna. Astrid sempre foi organizada, prática, previsível. Agora, sua estabilidade vacila. A partir daí, as relações familiares começam a se rearranjar, especialmente com a chegada de Cecelia, a neta de 13 anos que vai morar com a avó depois de um escândalo na escola.

Cecelia representa outra camada do romance: a adolescência marcada por julgamento social e culpa difusa. Durante a viagem de trem, com a pulseira que a identifica como menor desacompanhada, a menina experimenta a sensação de abandono e exposição. A autora descreve o constrangimento com ironia e delicadeza:

“DESACOMPANHADA, mas podia muito bem ter dito MENOR ABANDONADA, POR FAVOR ME LEVE PARA CASA E ME FAÇA UM SANDUÍCHE.” (p. 26)

Através de Cecelia, Straub aborda o peso do erro juvenil em uma sociedade hipervigilante. A menina carrega não apenas malas, mas o julgamento dos colegas e a incapacidade dos pais de enfrentar o problema sem fuga. Ao reencontrar a avó, recebe uma frase inesperada:

“Vi alguém ser atropelado por um ônibus hoje.” (p. 28)

A crueza do comentário inaugura uma relação baseada menos em proteção idealizada e mais em franqueza. Astrid e Cecelia passam a compartilhar um território de vulnerabilidade: ambas estão em transição. A avó repensa a própria vida; a neta tenta reconstruir a própria identidade.

Paralelamente, acompanhamos Elliot, o filho mais velho, empresário local e pai de gêmeos pequenos. Ele vive o cansaço da meia-idade, a pressão de manter relevância numa cidade onde todos se conhecem e o desejo secreto de provar seu valor. Ao refletir sobre a possibilidade de perder a mãe, percebe que ainda se sente inacabado:

“A parte mais cruel de chegar na meia-idade era que aquilo vinha no encalço da própria juventude (...) e que era tarde demais para começar de novo.” (p. 36)

Essa consciência do tempo atravessa o romance. Cada personagem lida com a própria noção de atraso: Elliot teme não ter realizado o suficiente; Nicky vive entre deslocamentos geográficos e afetivos; Porter, por sua vez, toma a decisão radical de engravidar sozinha.

Porter é talvez a personagem mais emblemática do título. Ao decidir recorrer a um banco de esperma, questiona o modelo tradicional de família e desafia as expectativas maternas. Diante do espelho, grávida, declara:

“Você é gente grande (...). Você é uma adulta. É a sua vida.” (p. 25)

Essa afirmação ecoa o título da obra. Ser adulto, aqui, não é alcançar estabilidade ou sabedoria absoluta, mas assumir escolhas — mesmo imperfeitas — e aceitar as consequências. Porter não romantiza a maternidade solo; ela a encara como projeto consciente, ainda que marcado por inseguranças e saudades do pai falecido.

O romance é, portanto, menos sobre eventos dramáticos e mais sobre pequenos deslocamentos internos. Straub constrói Clapham como microcosmo onde tudo é observado, comentado e lembrado. A cidade reforça a ideia de que crescer não significa escapar do passado, mas reinterpretá-lo.

Há também um fio sutil de redescoberta amorosa na trajetória de Astrid. O choque inicial a leva a revisitar desejos antigos, incluindo relações que escapam às expectativas convencionais de sua geração. Ao longo da narrativa, percebe que o luto não é apenas perda, mas também reabertura.

O título — Somos todos adultos aqui — carrega ironia. Em vários momentos, os personagens agem com imaturidade, egoísmo ou fuga. No entanto, a maturidade surge não como estado permanente, mas como esforço constante de responsabilidade emocional. O livro sugere que crescer é reconhecer falhas passadas e, ainda assim, seguir adiante.

Straub escreve com humor contido e olhar generoso. Não há vilões absolutos, apenas pessoas tentando acertar. Mesmo quando há ressentimento, ele é temperado por afeto. A morte de Barbara, que inicia a narrativa, funciona como lembrete de que o tempo é finito e de que decisões adiadas podem nunca se concretizar.

Ao final, a família Strick não se transforma em modelo ideal, mas aprende a falar — ainda que de modo imperfeito. O romance reafirma que laços familiares são construções em permanente revisão, e que a adultez talvez consista justamente nisso: aceitar que nunca se está completamente pronto.

Somos todos adultos aqui é um retrato sensível de múltiplas gerações atravessadas por luto, desejo, vergonha e reinvenção. Emma Straub oferece um panorama íntimo de uma família que, diante da morte súbita de uma conhecida, descobre que amadurecer é menos um destino e mais um processo contínuo — às vezes desconfortável, quase sempre necessário.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Mobile Logo Settings

Mobile Logo Settings
image

Labels

Ad Space

Responsive Advertisement

Upload Image

Upload Image
"Upload image from computer" > Save > Edit Again > Get URL

Fashion

Labels

Categories

Business

Recent Post

Ticker

6/recent/ticker-posts

Politic

Feature Label Area

Word

#Advertisement


300x250 AD TOP

Whats Hot This Week

Navigation Pages [Footer]

Blogroll


Navigation Pages [Vertical]

Blogger templates

Responsive Advertisement

Blogger news

Follow on FaceBook


Trending video


Popular Posts

Popular Posts

Icone Newsletter

Assine nossa newsletter

e receba conteúdo incrível