Resenha: Somos todos adultos aqui, de Emma Straub



Em Somos todos adultos aqui, Emma Straub constrói um romance que parte de um evento abrupto para reorganizar a vida de uma família inteira. Logo nas primeiras páginas, a autora apresenta Astrid Strick, matriarca prática e contida, cuja rotina é violentamente interrompida pela morte de uma conhecida atropelada no centro da pequena Clapham. O episódio não é apenas um choque urbano: é um gatilho moral, afetivo e existencial.

No início, lemos:

“Astrid Strick nunca tinha gostado de Barbara Baker, nem por um único dia dos quarenta anos de convivência, mas, quando Barbara foi atingida e morta pelo ônibus escolar vazio em alta velocidade (...), Astrid soube que sua vida havia mudado, não dava para distinguir o choque do alívio.” (p. 9)

A força dessa abertura reside na ambivalência: choque e alívio coexistem. Straub não romantiza relações longas nem idealiza os vínculos sociais de uma cidade pequena. A morte rápida — subtítulo do primeiro capítulo — revela mais sobre Astrid do que sobre a vítima. Ao testemunhar o atropelamento, a protagonista se vê diante da própria finitude, mas também diante da oportunidade de reorganizar desejos antigos e silêncios acumulados.

A narrativa se expande a partir dela. Astrid é viúva, mãe de três filhos adultos — Elliot, Porter e Nicky — e avó de Cecelia. A morte de Barbara funciona como lente que amplia tensões já existentes: maternidade imperfeita, decisões mal resolvidas, amores não declarados e ressentimentos silenciosos. Ao entrar no salão de beleza após o acidente, ainda aturdida, Astrid tenta nomear o que sente:

“Não consigo acreditar. Estou em choque, definitivamente estou em choque. Ouça o que estou dizendo! Meu cérebro não funciona...” (p. 13)

Esse momento sintetiza a virada interna. Astrid sempre foi organizada, prática, previsível. Agora, sua estabilidade vacila. A partir daí, as relações familiares começam a se rearranjar, especialmente com a chegada de Cecelia, a neta de 13 anos que vai morar com a avó depois de um escândalo na escola.

Cecelia representa outra camada do romance: a adolescência marcada por julgamento social e culpa difusa. Durante a viagem de trem, com a pulseira que a identifica como menor desacompanhada, a menina experimenta a sensação de abandono e exposição. A autora descreve o constrangimento com ironia e delicadeza:

“DESACOMPANHADA, mas podia muito bem ter dito MENOR ABANDONADA, POR FAVOR ME LEVE PARA CASA E ME FAÇA UM SANDUÍCHE.” (p. 26)

Através de Cecelia, Straub aborda o peso do erro juvenil em uma sociedade hipervigilante. A menina carrega não apenas malas, mas o julgamento dos colegas e a incapacidade dos pais de enfrentar o problema sem fuga. Ao reencontrar a avó, recebe uma frase inesperada:

“Vi alguém ser atropelado por um ônibus hoje.” (p. 28)

A crueza do comentário inaugura uma relação baseada menos em proteção idealizada e mais em franqueza. Astrid e Cecelia passam a compartilhar um território de vulnerabilidade: ambas estão em transição. A avó repensa a própria vida; a neta tenta reconstruir a própria identidade.

Paralelamente, acompanhamos Elliot, o filho mais velho, empresário local e pai de gêmeos pequenos. Ele vive o cansaço da meia-idade, a pressão de manter relevância numa cidade onde todos se conhecem e o desejo secreto de provar seu valor. Ao refletir sobre a possibilidade de perder a mãe, percebe que ainda se sente inacabado:

“A parte mais cruel de chegar na meia-idade era que aquilo vinha no encalço da própria juventude (...) e que era tarde demais para começar de novo.” (p. 36)

Essa consciência do tempo atravessa o romance. Cada personagem lida com a própria noção de atraso: Elliot teme não ter realizado o suficiente; Nicky vive entre deslocamentos geográficos e afetivos; Porter, por sua vez, toma a decisão radical de engravidar sozinha.

Porter é talvez a personagem mais emblemática do título. Ao decidir recorrer a um banco de esperma, questiona o modelo tradicional de família e desafia as expectativas maternas. Diante do espelho, grávida, declara:

“Você é gente grande (...). Você é uma adulta. É a sua vida.” (p. 25)

Essa afirmação ecoa o título da obra. Ser adulto, aqui, não é alcançar estabilidade ou sabedoria absoluta, mas assumir escolhas — mesmo imperfeitas — e aceitar as consequências. Porter não romantiza a maternidade solo; ela a encara como projeto consciente, ainda que marcado por inseguranças e saudades do pai falecido.

O romance é, portanto, menos sobre eventos dramáticos e mais sobre pequenos deslocamentos internos. Straub constrói Clapham como microcosmo onde tudo é observado, comentado e lembrado. A cidade reforça a ideia de que crescer não significa escapar do passado, mas reinterpretá-lo.

Há também um fio sutil de redescoberta amorosa na trajetória de Astrid. O choque inicial a leva a revisitar desejos antigos, incluindo relações que escapam às expectativas convencionais de sua geração. Ao longo da narrativa, percebe que o luto não é apenas perda, mas também reabertura.

O título — Somos todos adultos aqui — carrega ironia. Em vários momentos, os personagens agem com imaturidade, egoísmo ou fuga. No entanto, a maturidade surge não como estado permanente, mas como esforço constante de responsabilidade emocional. O livro sugere que crescer é reconhecer falhas passadas e, ainda assim, seguir adiante.

Straub escreve com humor contido e olhar generoso. Não há vilões absolutos, apenas pessoas tentando acertar. Mesmo quando há ressentimento, ele é temperado por afeto. A morte de Barbara, que inicia a narrativa, funciona como lembrete de que o tempo é finito e de que decisões adiadas podem nunca se concretizar.

Ao final, a família Strick não se transforma em modelo ideal, mas aprende a falar — ainda que de modo imperfeito. O romance reafirma que laços familiares são construções em permanente revisão, e que a adultez talvez consista justamente nisso: aceitar que nunca se está completamente pronto.

Somos todos adultos aqui é um retrato sensível de múltiplas gerações atravessadas por luto, desejo, vergonha e reinvenção. Emma Straub oferece um panorama íntimo de uma família que, diante da morte súbita de uma conhecida, descobre que amadurecer é menos um destino e mais um processo contínuo — às vezes desconfortável, quase sempre necessário.

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