Resenha: Sozinha, de Keka Reis



Em Sozinha, Keka Reis constrói uma narrativa sensível, intensa e profundamente humana sobre luto, adolescência e identidade. A história acompanha Rosa, uma jovem de quinze anos que vive em constante tensão com a mãe, Julieta — feminista, professora de História, militante apaixonada e presença esmagadora na vida da filha. A relação entre as duas é feita de embates, ironias, afeto contido e amor absoluto. Tudo muda quando, de maneira abrupta, Julieta morre durante o sono, vítima de um aneurisma cerebral. A partir daí, Rosa precisa reaprender a respirar em um mundo onde a voz da mãe continua ecoando, mesmo na ausência.

Logo no início, no Capítulo 1, somos apresentados à dinâmica ácida entre mãe e filha. Rosa narra com ironia e impaciência o olhar constante da mãe durante o jantar:

“Ela não para de me olhar. O barulho do relógio de parede me deixa nervosa.” (p. 10)

A cozinha desorganizada, as omeletes repetidas e a sensação de vigilância constante criam um ambiente claustrofóbico. Rosa quer distância. Quer autonomia. Quer que a mãe pare de interferir em seu namoro com Martim. No auge da raiva, explode:

“Como você mesma disse, é o meu namoro. MEU. Você não tem nada a ver com isso!” (p. 12)

Esse embate típico da adolescência é o último grande conflito entre as duas. A autora constrói com precisão essa tensão cotidiana para, em seguida, rasgá-la com brutalidade. No Capítulo 2, a narrativa desacelera em uma cena quase cinematográfica quando o pai de Rosa surge na porta da sala de aula, acompanhado da diretora. A percepção da tragédia vem antes das palavras:

“Ninguém precisa me dizer mais nada. Eu sei. Já entendi tudo.” (p. 19)

A morte de Julieta transforma a narrativa. O que antes era irritação vira ausência ensurdecedora. O título do livro ganha peso simbólico. Rosa repete mentalmente:

“Agora que ela foi embora e me deixou sozinha. Sozinha. Sozinha.” (p. 20)

A repetição não é mero recurso estilístico: é a materialização do vazio. A protagonista se fecha no quarto, recusa o namorado, afasta amigos e passa a viver num estado de suspensão emocional. No Capítulo 3, a notícia é dita de forma seca, quase clínica:

“Ela morreu enquanto dormia, teve um aneurisma cerebral rápido e fatal.” (p. 20)

A dor de Rosa não é explosiva; é contida, endurecida. Todos esperam que ela chore, que desmorone, mas ela não entrega o espetáculo do sofrimento. Essa recusa é poderosa. O luto aqui não é performático — é interno, desorganizador.

Um dos momentos mais fortes da narrativa ocorre quando Rosa confronta Martim e encerra o relacionamento com frieza cortante:

“E aí que eu quero terminar com você. Estamos em pleno século 21 e sou muito nova para namorar.” (p. 23)

O eco das palavras da mãe aparece nessa decisão. A protagonista oscila entre negar a influência de Julieta e perceber que carrega a mãe dentro de si. Essa ambivalência é central na obra.

Outro eixo importante do romance é a dimensão política herdada de Julieta. A mãe ensinava a filha a se posicionar, a questionar injustiças. Mesmo em meio ao luto, Rosa transforma indignação em ação. Revoltada porque a escola não oferece absorventes às alunas, ela realiza um protesto simbólico. No Capítulo 5, a diretora descreve o impacto:

“Um painel cheio de absorventes pintados de vermelho-sangue colado no muro da frente?” (p. 33)

O gesto é ao mesmo tempo impulsivo e coerente com o legado materno. A rebeldia de Rosa não é apenas dor — é continuidade.

Em meio ao caos, surgem memórias que aquecem e machucam. No Capítulo 5, a lembrança dos “sapatos em dobro” revela a cumplicidade entre mãe e filha:

“Vamos duplicar nosso número de sapatos, Rosinha.” (p. 32)

Essas recordações funcionam como contraponto à ausência física. A mãe, embora morta, permanece como consciência, memória, discurso. Rosa percebe isso quando pensa que Julieta está “na minha cabeça. No meu pescoço. Nos meus pulmões, na minha respiração...” (p. 13). O luto, aqui, é também incorporação.

A narrativa ganha outra camada quando o pai decide mudar-se para a casa da avó, por dificuldades financeiras. Rosa reage com pânico. A sensação de desestruturação aumenta. No Capítulo 5, ao ouvir a decisão, sua resposta é quase um sussurro desesperado:

“Não, pai. Você não vai fazer isso comigo agora. Não mesmo.” (p. 37)

A mudança simboliza a perda definitiva do antigo mundo. Não é só a mãe que se foi — é a casa, a rotina, a escola, o território emocional.

Ao longo do romance, Rosa enfrenta sintomas físicos da ansiedade e do luto. No Capítulo 6, ela descreve o próprio coração como algo fora de controle:

“Meu coração nunca mais bateu do mesmo jeito. Agora, ele tem pressa, muita pressa.” (p. 38)

O corpo sente aquilo que as lágrimas ainda não conseguem expressar. A autora trata esses episódios com delicadeza, sem dramatização excessiva, mas com realismo contundente.

Sozinha é uma obra sobre crescer à força. Sobre descobrir que a independência desejada pode vir carregada de dor. Rosa queria espaço; ganhou silêncio. Queria que a mãe parasse de interferir; perdeu a presença física dela. A ironia trágica do início ecoa por toda a narrativa.

Keka Reis constrói uma protagonista imperfeita, raivosa, inteligente e profundamente humana. O texto em primeira pessoa aproxima o leitor da turbulência emocional da adolescente, alternando sarcasmo, lembranças ternas e pensamentos fragmentados. O resultado é um retrato honesto do luto juvenil — aquele que não sabe exatamente como se comportar diante da perda.

No fim, o que permanece não é apenas a ausência, mas o legado. Julieta vive nas ideias, nas frases, na coragem da filha. A solidão do título não é absoluta: ela é atravessada pela memória, pela resistência e pela possibilidade de reconstrução.

Sozinha não oferece respostas fáceis nem consolos prontos. Oferece verdade. E essa verdade dói — mas também amadurece.

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