RESENHA: Modos de homem e modas de mulher, de Gilberto Freyre


Esta resenha técnica científica sociológica propõe uma análise profunda da obra Modos de Homem & Modas de Mulher, de Gilberto Freyre, sob a ótica da sociologia da vida cotidiana e da antropologia cultural, focando na inter-relação entre o corpo, a indumentária e a formação da identidade nacional brasileira. Freyre, o "bruxo de Apipucos", estabelece nesta obra uma premissa fundamental: a de que a história e a sociologia não devem se restringir aos grandes eventos políticos ou econômicos, mas devem mergulhar na materialidade do dia a dia, onde as sensibilidades humanas são forjadas. O autor argumenta que "estudá-la permite dar conta de mudanças sociais, da transformação de códigos culturais, da rapidez e, por vezes, violência das trocas comerciais". Para Freyre, a moda não é uma futilidade, mas uma "fronteira íntima entre o indivíduo e o mundo", funcionando simultaneamente como um "escudo que preserva contra as agressões" e um "convite a violar limites". Ao analisar o Brasil do século XIX e XX, o sociólogo identifica como os "modos" — definidos como maneiras particulares de ser, jeitos e artes de comportamento — condicionam as "modas", que são os usos passageiros e estilos aceitos coletivamente.

A obra verticaliza preocupações seminais da trajetória freyriana, como o dimorfismo sexual e o vestuário feminino como indícios morfológicos de culturas misturadas. Freyre utiliza o que chama de "pluralismo metodológico" para atingir a história da privacidade e da intimidade, onde se capturam os modos e as modas de mulheres e homens. Ele observa que a cultura brasileira é sentida pelo indivíduo como algo que pertence "quase como se fosse parte do corpo e do ânimo de cada um". No entanto, essa cultura sofreu, durante o século XIX, um processo de "albinização" ou europeização passiva, onde o Brasil agiu como um "espaço social, ou sociocultural" que reagiu com "excessiva timidez e quase sem ânimo ecológico de resistência" à importação de artigos franceses. Freyre denuncia o "martírio da mulher brasileira" que, para seguir modelos de climas temperados, submeteu-se a trajes "terrivelmente anti-higiênicos, antiecológicos, antitropicais", como o uso de espartilhos e capas de peles em pleno verão do Rio de Janeiro.



O autor introduz o conceito de "morenidade" como uma resistência estética e antropológica a esse imperialismo cultural. Ele celebra a pigmentação tropical e o "amorenamento da gente brasileira", argumentando que as modas nacionais devem se ajustar ao tipo antropológico miscigenado e ao clima tropical. Para Freyre, a beleza brasileira é "crescentemente metarracial", sobrepondo-se a origens puramente raciais para criar modos nacionalmente brasileiros de "sorrir, de andar, de conviver". Ele cita o exemplo do andar da brasileira, descrito como "ondulante e sensual", denotando uma miscigenação vivida "como se dançasse". Esta valorização do corpo natural e da "morenidade" é vista como uma revolução nas sensibilidades, onde o "bronzear da pele" tornou-se um "quase rito religiosamente estético", superando preconceitos de classe e cor ao consagrar a "triunfante miscigenação brasileira".

A análise sociológica de Freyre estende-se à economia da moda, onde ele observa que, nas sociedades burguesas, a apresentação pública da mulher casada era um meio para o marido "se afirmar próspero ou socioeconomicamente bem situado". Assim, o traje feminino funcionava como um "sinônimo da prosperidade familiar". O autor também discute o papel dos designers, argumentando que o seu "arbítrio é insignificante", pois eles obedecem a "interesses econômicos ligados ao uso de materiais" e aos ritmos de vida modernizados que exigem "acelerações, velocidades, agilizações" no vestir. Freyre defende que a moda brasileira deve se fundamentar no uso de materiais ecologicamente próprios, como o algodão, "confortável, arejado, prático", que ele considera o "tecido ideal para climas como o nosso".

O livro também aborda a transição dos "sobrados e mucambos" para a modernidade, onde as mulheres, antes "esmagadas pelo patriarcalismo do século XIX", ressurgem no século XX com o "relógio no pulso marcando o tempo da modernidade". Freyre identifica o relógio como um objeto "com tendências a tirânico", que criou o hábito sociocultural da pontualidade, transformando-se em joia e complemento da personalidade da mulher moderna. Ao mesmo tempo, ele resgata elementos da vida íntima, como o cafuné e o uso da rede, descrevendo-os como "brasileirismos" que representam um "relacionamento interfamilial" profundo e uma sobrevivência de "primitividade" quase volutuosa em meio à civilidade. A obra conclui que a moda é uma manifestação de um "processo social e culturalmente revolucionário", capaz de combinar valores de origens diversas em uma expressão "plasticamente, dinamicamente, ativamente brasileira".

Gilberto Freyre aprofunda a dialética entre o individual e o coletivo, sustentando que a moda é um fenômeno social coercitivo que emana da necessidade de conquistar ou manter posições em determinadas estruturas de classe. A análise freyriana destaca que, para a mulher média, a aceitação das exigências da moda ocorre sem grandes resistências, resultando em uma capitulação da preferência individual perante o consenso coletivo. Estar "fora da moda" é interpretado pelo autor como uma situação de "heresia" sociocultural, comparável ao isolamento de indivíduos que divergem de comportamentos consagrados em esferas como a ética, a religião ou a política. Entretanto, Freyre identifica que personalidades de temperamento forte conseguem impor seus próprios "modos" de aparência, desafiando a ortodoxia estética e, por vezes, inaugurando novas tendências que equilibram a atração sexual com a dignidade pessoal.

A investigação foca no impacto da Primeira Guerra Mundial sobre a indumentária feminina, observando o surgimento da "flapper" como uma resposta de masculinização estética em um período de glorificação de heróis combatentes. Essa tendência unissexual, para o autor, não foi meramente visual, mas refletiu uma crise profunda na organização moral das sociedades ocidentais, marcada por uma maior independência da mulher e pelo enfraquecimento do controle clerical sobre as relações entre os sexos. Freyre argumenta que essa nova ética de relações bissexuais exigiu adaptações funcionais no vestuário, onde saias e sapatos precisaram se ajustar a ritmos de vida pautados pela aceleração, velocidade e agilização dos transportes e comunicações modernos. Nesse cenário, o criador de moda deixa de ser um inventor arbitrário para tornar-se um artista condicionado por transformações técnicas e econômicas globais.

No contexto específico da sociedade brasileira, o autor utiliza os anúncios de jornais do século XIX como uma ferramenta de "anunciologia" para mapear a transição da sensibilidade nacional. Ele observa que, enquanto a elite buscava desesperadamente a reeuropeização através de "gorgorões", "veludos" e "luvas francesas" inadequados ao calor, a gente do povo e os escravos mantinham vivas cores e texturas mais adaptadas ao meio. Freyre ressalta que essa subordinação aos padrões de Paris no século XIX foi uma forma de "martírio" físico, no qual a mulher brasileira se desbrasileirava para atender a um ideal de civilização que ignorava sua latitude. A análise sociológica revela que a importação de "bonecas francesas, louras e róseas" foi um dispositivo pedagógico que instilou nas meninas brasileiras a associação entre beleza e o tipo antropológico europeu, gerando um complexo de inferioridade em relação à própria morenidade.

A superação desse modelo colonial passa, segundo Freyre, pela afirmação de uma consciência ecológica que valoriza o "abrasileiramento" de modelos importados. Ele defende que a moda brasileira contemporânea deve ser uma expressão de "tropicologia", utilizando o conhecimento das ciências humanas para adaptar o calendário da moda à realidade do clima nacional. O autor enxerga no Brasil o potencial de liderar um sistema cultural "ibero-tropical", exportando criações que harmonizem arrojos modernos com a estética de tipos miscigenados. Para ele, a capacidade brasileira de combinar valores de origens diversas em uma "terceira expressão de cultura" é o que torna a produção nacional carismática e capaz de seduzir mercados estrangeiros pela autenticidade de seu exotismo cromático e antropológico.

Freyre também examina a arquitetura doméstica como uma extensão da moda, comparando a funcionalidade das antigas casas-grandes com a artificialidade dos chalés suíços que se tornaram voga no século XIX. Ele elogia a sensibilidade de arquitetos como Oscar Niemeyer, que, ao projetar sua residência em Brasília, teria buscado inspiração na "tradição honesta e ecológica" da casa patriarcal, preferindo a curva e a horizontalidade em detrimento das "caixas de vidro" verticalizadas do modernismo internacional. Essa preferência pela curva é analisada sociologicamente como uma projeção do gosto brasileiro pelas formas femininas, em oposição ao rigor geométrico anglo-saxão. Assim, a obra estabelece que o modo de morar, o modo de vestir e o modo de sentir formam um complexo indissociável que define a identidade de uma civilização euro-tropical em constante processo de integração.


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