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Torto Arado: Uma Arqueologia Literária da Subalternidade e do Trauma Colonial no Sertão Baiano

O romance Torto Arado , de Itamar Vieira Junior, estabelece-se como um marco incontornável na literatura brasileira contemporânea, operando uma síntese rigorosa entre a precisão antropológica e o lirismo narrativo. A obra não apenas resgata a tradição do regionalismo brasileiro, dialogando com precursores como Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa, mas a reconfigura sob a ótica da decolonialidade e da agência dos corpos subalternizados. O texto estrutura-se a partir de um evento traumático inaugural — o acidente com uma faca de prata que une e silencia as irmãs Bibiana e Belonísia — para, a partir dessa ferida física e simbólica, investigar as feridas históricas de um Brasil que jamais concluiu seu processo de abolição. A narrativa, ambientada na fazenda Água Negra, na Chapada Diamantina, revela a persistência de estruturas feudais e de relações de trabalho análogas à escravidão em pleno século XX, oferecendo um exame clínico de como o poder se manifesta sobre o territór...

Entre a paixão e o artifício: o novo “O Morro dos Ventos Uivantes” perde a força trágica do romance de Emily Brontë

Adaptar O Morro dos Ventos Uivantes para o cinema sempre foi um desafio delicado. O romance publicado por Emily Brontë em 1847 não é apenas uma história de amor intenso, mas um estudo psicológico profundo sobre obsessão, ressentimento, classe social e vingança. Ao longo das décadas, diferentes versões cinematográficas tentaram capturar a atmosfera sombria do livro, com resultados variados. A nova adaptação, dirigida por Emerald Fennell, surge com a promessa de modernizar o clássico e aproximá-lo de um público contemporâneo. O problema é que, ao tentar atualizar a obra, o filme acaba diluindo justamente o que tornava o romance tão perturbador e singular. O livro original se destaca por sua estrutura narrativa complexa. A história não é contada de forma linear, mas por meio de relatos dentro de relatos, principalmente pelas vozes de Mr. Lockwood e da governanta Nelly Dean. Essa construção cria uma sensação de distância, como se o leitor estivesse tentando reconstruir um drama passado a ...

Resenha do livro O Pacto da Branquitude, de Cida Bento

Imagem: Companhia das letras/ divulgação O livro O Pacto da Branquitude , de Cida Bento, estabelece um marco analítico fundamental para a compreensão das relações raciais no Brasil, deslocando o foco tradicional do "problema do negro" para a investigação das estruturas que sustentam o privilégio branco . A autora, doutora em psicologia e cofundadora do Ceert, utiliza sua vasta experiência em psicologia organizacional para deslindar como o racismo opera de forma estrutural e institucional, muitas vezes sob um manto de silêncio e naturalização . A obra é dividida em dez capítulos que exploram desde as raízes históricas da colonização até as manifestações contemporâneas do que ela define como "pacto narcísico da branquitude" . No cerne da tese de Bento está o "pacto narcísico", um acordo tácito e não verbalizado entre pessoas brancas para a preservação de privilégios . Diferente de uma conspiração explícita, esse fenômeno manifesta-se como uma aliança inconsc...