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Resenha do livro O Pacto da Branquitude, de Cida Bento

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: Companhia das letras/ divulgação


O livro O Pacto da Branquitude, de Cida Bento, estabelece um marco analítico fundamental para a compreensão das relações raciais no Brasil, deslocando o foco tradicional do "problema do negro" para a investigação das estruturas que sustentam o privilégio branco. A autora, doutora em psicologia e cofundadora do Ceert, utiliza sua vasta experiência em psicologia organizacional para deslindar como o racismo opera de forma estrutural e institucional, muitas vezes sob um manto de silêncio e naturalização. A obra é dividida em dez capítulos que exploram desde as raízes históricas da colonização até as manifestações contemporâneas do que ela define como "pacto narcísico da branquitude".

No cerne da tese de Bento está o "pacto narcísico", um acordo tácito e não verbalizado entre pessoas brancas para a preservação de privilégios. Diferente de uma conspiração explícita, esse fenômeno manifesta-se como uma aliança inconsciente que visa manter o "diferente" (o não branco) afastado de posições de poder, enquanto o grupo branco se reconhece como o padrão universal de humanidade e competência. Esse componente narcísico atua na autopreservação do grupo, onde qualquer alteração na demografia de liderança é percebida como uma ameaça ao "normal".

A autora observa que, em instituições brasileiras, existe frequentemente uma "cota não explicitada de 100% para brancos" nos postos de alta liderança. Esse cenário é sustentado por uma "cegueira conveniente" que ignora a herança escravocrata enquanto usufrui dos benefícios concretos e simbólicos acumulados ao longo de séculos. O pacto gera uma "amnésia coletiva", onde os atos anti-humanitários do passado são silenciados para que as novas gerações brancas possam tratar sua posição social como resultado exclusivo de mérito individual.

Cida Bento desafia diretamente o conceito de meritocracia no contexto brasileiro, classificando-o como uma ferramenta de legitimação das desigualdades. A racionalidade meritocrática ignora as disparidades históricas em investimentos educacionais, acesso a infraestrutura e capital social que favorecem o grupo branco desde o nascimento. Ao tratar habilidades como intrínsecas e desvinculadas da história social, a meritocracia permite que a elite se veja como "trabalhadora e virtuosa" enquanto exclui grupos que carregam uma herança de discriminaçãoEste sistema é indissociável do "capitalismo racial", termo que descreve como o capitalismo se utiliza de lógicas de raça e gênero para a expropriação e exploração. No Brasil, essa estrutura foi forjada por meio de legislações como a Lei de Terras de 1850, que dificultou o acesso à propriedade rural para os não brancos e consolidou latifúndios, e pelo estímulo estatal à imigração europeia subvencionada em detrimento da integração da população negra recém-liberta.

A obra detalha como o racismo institucional opera de forma rotineira e contínua, independentemente da intenção individual de discriminar. Nas organizações, isso se traduz em práticas informais que dificultam a ascensão de negros a cargos de comando, como a falta de acesso a mentorias ou treinamentos de qualidade. A autora relata experiências pessoais e de pesquisa onde a "competência" é frequentemente associada a códigos culturais e estéticos eurocêntricos.

Exemplos contundentes de racismo institucional citados incluem:

  • A vigilância e punição diferenciada, como o caso trágico de João Alberto Freitas em um supermercado Carrefour.

  • A seletividade do sistema judiciário, que é "manso com os ricos e duro com os pobres", resultando em uma população prisional majoritariamente negra.

  • A resistência ativa de lideranças corporativas à diversidade, utilizando argumentos como a necessidade de "não baixar a régua" ou a defesa de sistemas supostamente meritocráticos.

Imagem: Companhia das letras/ divulgação

Bento argumenta que o silêncio em torno da branquitude é o que permite sua hegemonia. Para transformar essa realidade, é necessário não apenas inserir pessoas negras nas instituições, mas desmantelar os sistemas que promovem o conforto de um grupo em detrimento de outro, o que exige um enfrentamento da "fragilidade branca" — a reação defensiva e irritadiça de pessoas brancas quando confrontadas com o debate racial.

A investigação de Cida Bento mergulha nas raízes da colonização europeia para explicar a gênese da branquitude como um sistema de dominação global. O discurso europeu estabeleceu o tom da pele como o critério primordial para distinguir status e valor, criando uma cosmologia que classificava o "outro" como bárbaro ou primitivo para justificar a expansão territorial. Esse processo não foi apenas uma extração de recursos, mas uma reversão deliberada da fortuna de regiões ricas como a África e a Ásia, cujas estruturas sociais foram destruídas para sustentar o enriquecimento da Europa. A autora ressalta que até as classes mais pobres na Europa se beneficiaram da transferência do trabalho pesado para as colônias, o que consolidou a aliança entre raça e classe.

No Brasil, essa herança se manifesta na negação sistemática da indenização à população escravizada após a abolição, enquanto o Estado se preocupava em prover reparação aos antigos proprietários. O "problema negro" no país é, na verdade, um problema nas relações entre negros e brancos, onde a supremacia branca está incrustada em todas as esferas sociais. A manutenção desse status quo é garantida por legislações históricas que moldaram a concentração de terras e o acesso ao poder, resultando em uma estrutura institucional onde o grupo branco acumula recursos políticos e econômicos para seus herdeiros.

No Brasil, essa herança se manifesta na negação sistemática da indenização à população escravizada após a abolição, enquanto o Estado se preocupava em prover reparação aos antigos proprietários. O "problema negro" no país é, na verdade, um problema nas relações entre negros e brancos, onde a supremacia branca está incrustada em todas as esferas sociais. A manutenção desse status quo é garantida por legislações históricas que moldaram a concentração de terras e o acesso ao poder, resultando em uma estrutura institucional onde o grupo branco acumula recursos políticos e econômicos para seus herdeiros.

Um dos pontos mais sensíveis da obra é a análise sobre a condição da mulher negra, que ocupa a base da pirâmide socioeconômica brasileira. Bento utiliza o termo "Resgatando a minha bisavó" para ilustrar como a violência do período escravocrata se perpetua na subjetividade e na vida concreta das gerações contemporâneas. O trabalho doméstico é apresentado como um espaço social que remonta diretamente à senzala, onde mulheres negras continuam responsáveis por cuidar, limpar e alimentar lares de terceiros em condições de precariedade. A autora destaca que 68% dos profissionais do serviço doméstico remunerado são mulheres negras, evidenciando uma continuidade histórica das atividades realizadas na cozinha da casa-grande.

Imagem: Companhia das letras/ divulgação

A resistência da elite e da classe média brasileira a medidas como a PEC das Domésticas é interpretada como uma manifestação do pacto narcísico, onde o reconhecimento de direitos trabalhistas básicos é visto como uma ameaça ao usufruto de privilégios. Lélia Gonzalez é citada para reforçar que a articulação entre racismo e sexismo produz efeitos violentos específicos sobre a mulher negra. Essa exclusão se reflete também no ambiente corporativo, onde mulheres negras representam apenas 0,4% dos cargos executivos nas grandes empresas, sofrendo com o julgamento estético e a desqualificação de seus perfis profissionais em favor de padrões europeus.

Bento aponta uma lacuna significativa na historiografia e na sociologia brasileira: a ausência de estudos sobre a deformação na personalidade do escravizador. Enquanto intelectuais como Florestan Fernandes focaram nas deformações que a escravidão provocou no negro, houve uma isenção tácita dos brancos quanto ao impacto moral de sua posição de dominadores. A autora argumenta que a branquitude gera uma "lacuna moral", um distanciamento psicológico que permite ao grupo dominante usufruir de privilégios sem sentir responsabilidade pela expropriação alheia. Esse embotamento cognitivo impede que o branco apreenda o outro como igual, autorizando, em última instância, o exercício da maldade humana e o racismo institucional.

A supremacia branca é descrita como uma relação de dominação que assegura bônus para uns e ônus para outros, manifestando-se no que a autora chama de "pacto denegativo" — uma aliança inconsciente para rejeitar ou esconder conteúdos negativos do passado coletivo. Desfazer esses sistemas exige que as pessoas brancas desaprendam as ideologias que as ensinaram a colocar o outro fora do território dos valores éticos. A obra conclui que a equidade não é apenas uma questão de diversidade visual, mas de justiça reparatória e de reconstrução de pactos civilizatórios que reconheçam a humanidade plena de todos os grupos.

A trajetória de Cida Bento confunde-se com a fundação e a consolidação do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) em 1990, uma iniciativa que surgiu da necessidade de autonomia frente às limitações dos órgãos públicos no tratamento das disparidades raciais. O CEERT estabeleceu-se como uma instituição de pesquisa e intervenção, focada em transformar o ambiente corporativo e educacional brasileiro através de diagnósticos precisos e planos de ação conjuntos. Um dos instrumentos fundamentais desenvolvidos pela organização foi o Censo da Diversidade, que permite analisar a demografia organizacional para localizar disparidades de cargos, salários e oportunidades de promoção.

O trabalho da organização ganhou escala significativa após a denúncia do Brasil em Genebra, em 1992, pelo descumprimento da Convenção 111 da OIT, que trata da equidade no emprego. Esse movimento deflagrou uma série de ações governamentais, como a inclusão do quesito raça e cor em sistemas de informações sociais como a RAIS e o CAGED, alterando a forma como o mercado de trabalho brasileiro era analisado estatisticamente. A atuação do CEERT também foi estratégica na preparação para a III Conferência Mundial contra o Racismo em Durban, onde o Estado brasileiro reconheceu formalmente a existência do racismo institucional e comprometeu-se com medidas de reparação e ações afirmativas.

Para Cida Bento, a implementação de políticas de diversidade nas instituições exige o reconhecimento de que o termo pode tornar-se uma armadilha se desarticulado da desigualdade social. A equidade deve ser tratada como um valor central na missão das organizações, exigindo a identificação de sinais de discriminação nas normas e ferramentas de seleção. A autora defende que as empresas devem estabelecer indicadores, metas e sistemas de monitoramento periódicos que observem não apenas o quadro de funcionários, mas também a rede de fornecedores e a relação com a comunidade.

A resistência a esses programas frequentemente se apoia no clichê de que a presença de pessoas negras diminuiria a excelência da instituição. Bento rebate essa visão citando estudos que demonstram que alunos cotistas mantêm desempenho equivalente aos não cotistas e que empresas com altos índices de diversidade têm maior probabilidade de obter resultados financeiros acima da média. O desafio, portanto, reside na superação da "fragilidade branca", um estado em que o estresse racial torna-se intolerável para as pessoas brancas, levando a reações defensivas de raiva ou culpa quando confrontadas com a necessidade de abrir mão de privilégios estruturais.

A mudança sistêmica proposta pela obra envolve a desconstrução do "sistema meritocrático" que gera preferência por perfis eurocêntricos, rotulando cabelos crespos ou vestimentas coloridas como inapropriados para cargos de liderança. Bento argumenta que a presença negra em espaços de poder provoca um "curto-circuito" na hierarquia tradicional do saber, desafiando a autoridade branca e desnudando os códigos de conduta que antes eram considerados universais. Essa transformação exige que as lideranças institucionais passem por processos de formação que discutam a história das desigualdades no Brasil, impedindo que a "caneta da decisão" continue a interditar o acesso de profissionais negros.

O CEERT também expandiu sua atuação para a educação básica com o projeto Prêmio para a Igualdade Racial e de Gênero, identificando e fortalecendo boas práticas pedagógicas em centenas de municípios. O objetivo é combater o impacto da discriminação racial que se manifesta precocemente na evasão escolar e no desempenho prejudicado de crianças negras. Ao incidir tanto no mundo do trabalho quanto na formação educacional, a obra propõe um redesenho das estruturas sociais que sustentam o privilégio, visando a construção de ambientes verdadeiramente democráticos onde a multiplicidade de visões de mundo seja valorizada.

A análise final de Cida Bento concentra-se no momento presente, caracterizado por uma forte polarização social impulsionada pela ampliação das desigualdades de raça e gênero sob a égide do neoliberalismo. A autora identifica esse modelo não apenas como uma mutação econômica, mas como uma forma de totalitarismo que promove a derrubada de direitos trabalhistas e o esvaziamento de órgãos públicos reguladores. Um exemplo emblemático dessa precarização é a "uberização" do trabalho, que atinge desproporcionalmente jovens negros, os quais veem nos aplicativos de entrega uma das poucas alternativas ao desemprego. Esse cenário é agravado por políticas de austeridade, como o congelamento de gastos públicos, que asfixiam os serviços dos quais a população negra é a principal usuária.

Nesse contexto, a "necropolítica" — termo de Achille Mbembe incorporado pela autora — manifesta-se com clareza quando o Estado e grandes corporações agem de forma a gerir quem deve viver e quem pode morrer. A gestão da pandemia de COVID-19 no Brasil é citada como um caso onde a falta de políticas públicas efetivas resultou em milhares de mortes evitáveis, afetando majoritariamente a população negra e pobre. Para Bento, essa política de morte é um ataque direto à democracia e ao Estado de Direito, sustentado por instituições saturadas de violência.

Recentemente, conceitos de governança ambiental, social e corporativa (ESG) ganharam força no mercado de capitais, impulsionados em parte pela pressão de movimentos como o Black Lives Matter. Investidores têm sido cobrados para focar em empresas que adotam medidas concretas contra a injustiça racial e fortalecem a equidade. No Brasil, o CEERT tem capitaneado iniciativas como a Aliança Jurídica e parcerias com o Pacto Global das Nações Unidas, visando transformar o setor privado de dentro para foraA autora ressalta que essas mudanças não ocorrem por benevolência, mas por uma combinação de pressão social, sindical e exigências de mercado que começam a reconhecer que instituições mais diversas são ambientes mais saudáveis e produtivos. Entretanto, ela alerta que muitas iniciativas ainda são pontuais e frequentemente surgem apenas como resposta a episódios públicos de racismo vivenciados dentro das próprias organizações. A verdadeira transformação exige um posicionamento sistêmico que enfrente o racismo entranhado em todas as instâncias sociais.

A obra encerra-se com uma convocação à autoconsciência e à responsabilidade social coletiva. O pacto narcísico da branquitude, por ser um acordo silencioso de cumplicidade, exige que os brancos, especialmente os que se consideram antirracistas, questionem seu lugar de privilégio e a herança de expropriação que os sustenta. Destruir esse sistema não é uma tarefa indolor, pois envolve desmantelar estruturas que promovem o conforto de um grupo em detrimento do outro.

Bento enfatiza que a equidade racial está no território da construção de um mundo melhor e mais justo para todos. Isso implica:

  • Reconhecer a branquitude como uma identidade racial que detém vantagens estruturais.

  • Identificar e recusar sistemas totalitários que se alimentam da exclusão do "outro".

  • Fortalecer a autonomia e resistir à desumanização das relações de dominação.

  • Apoiar a retomada de direitos constitucionais e o fortalecimento de redes de proteção para populações vulnerabilizadas.

CURADORIA

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