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| Imagem: Companhia das letras/ divulgação |
O livro O Pacto da Branquitude, de Cida Bento, estabelece um marco analítico fundamental para a compreensão das relações raciais no Brasil, deslocando o foco tradicional do "problema do negro" para a investigação das estruturas que sustentam o privilégio branco
No cerne da tese de Bento está o "pacto narcísico", um acordo tácito e não verbalizado entre pessoas brancas para a preservação de privilégios
A autora observa que, em instituições brasileiras, existe frequentemente uma "cota não explicitada de 100% para brancos" nos postos de alta liderança
Cida Bento desafia diretamente o conceito de meritocracia no contexto brasileiro, classificando-o como uma ferramenta de legitimação das desigualdades
Exemplos contundentes de racismo institucional citados incluem:
A vigilância e punição diferenciada, como o caso trágico de João Alberto Freitas em um supermercado Carrefour
. A seletividade do sistema judiciário, que é "manso com os ricos e duro com os pobres", resultando em uma população prisional majoritariamente negra
. A resistência ativa de lideranças corporativas à diversidade, utilizando argumentos como a necessidade de "não baixar a régua" ou a defesa de sistemas supostamente meritocráticos
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Imagem: Companhia das letras/ divulgação
Bento argumenta que o silêncio em torno da branquitude é o que permite sua hegemonia
A investigação de Cida Bento mergulha nas raízes da colonização europeia para explicar a gênese da branquitude como um sistema de dominação global. O discurso europeu estabeleceu o tom da pele como o critério primordial para distinguir status e valor, criando uma cosmologia que classificava o "outro" como bárbaro ou primitivo para justificar a expansão territorial. Esse processo não foi apenas uma extração de recursos, mas uma reversão deliberada da fortuna de regiões ricas como a África e a Ásia, cujas estruturas sociais foram destruídas para sustentar o enriquecimento da Europa. A autora ressalta que até as classes mais pobres na Europa se beneficiaram da transferência do trabalho pesado para as colônias, o que consolidou a aliança entre raça e classe.
No Brasil, essa herança se manifesta na negação sistemática da indenização à população escravizada após a abolição, enquanto o Estado se preocupava em prover reparação aos antigos proprietários. O "problema negro" no país é, na verdade, um problema nas relações entre negros e brancos, onde a supremacia branca está incrustada em todas as esferas sociais. A manutenção desse status quo é garantida por legislações históricas que moldaram a concentração de terras e o acesso ao poder, resultando em uma estrutura institucional onde o grupo branco acumula recursos políticos e econômicos para seus herdeiros.
No Brasil, essa herança se manifesta na negação sistemática da indenização à população escravizada após a abolição, enquanto o Estado se preocupava em prover reparação aos antigos proprietários. O "problema negro" no país é, na verdade, um problema nas relações entre negros e brancos, onde a supremacia branca está incrustada em todas as esferas sociais. A manutenção desse status quo é garantida por legislações históricas que moldaram a concentração de terras e o acesso ao poder, resultando em uma estrutura institucional onde o grupo branco acumula recursos políticos e econômicos para seus herdeiros.
Um dos pontos mais sensíveis da obra é a análise sobre a condição da mulher negra, que ocupa a base da pirâmide socioeconômica brasileira

Imagem: Companhia das letras/ divulgação
A resistência da elite e da classe média brasileira a medidas como a PEC das Domésticas é interpretada como uma manifestação do pacto narcísico, onde o reconhecimento de direitos trabalhistas básicos é visto como uma ameaça ao usufruto de privilégios
Bento aponta uma lacuna significativa na historiografia e na sociologia brasileira: a ausência de estudos sobre a deformação na personalidade do escravizador
A supremacia branca é descrita como uma relação de dominação que assegura bônus para uns e ônus para outros, manifestando-se no que a autora chama de "pacto denegativo" — uma aliança inconsciente para rejeitar ou esconder conteúdos negativos do passado coletivo
A trajetória de Cida Bento confunde-se com a fundação e a consolidação do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) em 1990, uma iniciativa que surgiu da necessidade de autonomia frente às limitações dos órgãos públicos no tratamento das disparidades raciais. O CEERT estabeleceu-se como uma instituição de pesquisa e intervenção, focada em transformar o ambiente corporativo e educacional brasileiro através de diagnósticos precisos e planos de ação conjuntos. Um dos instrumentos fundamentais desenvolvidos pela organização foi o Censo da Diversidade, que permite analisar a demografia organizacional para localizar disparidades de cargos, salários e oportunidades de promoção.
O trabalho da organização ganhou escala significativa após a denúncia do Brasil em Genebra, em 1992, pelo descumprimento da Convenção 111 da OIT, que trata da equidade no emprego. Esse movimento deflagrou uma série de ações governamentais, como a inclusão do quesito raça e cor em sistemas de informações sociais como a RAIS e o CAGED, alterando a forma como o mercado de trabalho brasileiro era analisado estatisticamente. A atuação do CEERT também foi estratégica na preparação para a III Conferência Mundial contra o Racismo em Durban, onde o Estado brasileiro reconheceu formalmente a existência do racismo institucional e comprometeu-se com medidas de reparação e ações afirmativas.
Para Cida Bento, a implementação de políticas de diversidade nas instituições exige o reconhecimento de que o termo pode tornar-se uma armadilha se desarticulado da desigualdade social
A resistência a esses programas frequentemente se apoia no clichê de que a presença de pessoas negras diminuiria a excelência da instituição
A mudança sistêmica proposta pela obra envolve a desconstrução do "sistema meritocrático" que gera preferência por perfis eurocêntricos, rotulando cabelos crespos ou vestimentas coloridas como inapropriados para cargos de liderança
O CEERT também expandiu sua atuação para a educação básica com o projeto Prêmio para a Igualdade Racial e de Gênero, identificando e fortalecendo boas práticas pedagógicas em centenas de municípios
A análise final de Cida Bento concentra-se no momento presente, caracterizado por uma forte polarização social impulsionada pela ampliação das desigualdades de raça e gênero sob a égide do neoliberalismo. A autora identifica esse modelo não apenas como uma mutação econômica, mas como uma forma de totalitarismo que promove a derrubada de direitos trabalhistas e o esvaziamento de órgãos públicos reguladores. Um exemplo emblemático dessa precarização é a "uberização" do trabalho, que atinge desproporcionalmente jovens negros, os quais veem nos aplicativos de entrega uma das poucas alternativas ao desemprego. Esse cenário é agravado por políticas de austeridade, como o congelamento de gastos públicos, que asfixiam os serviços dos quais a população negra é a principal usuária.
Nesse contexto, a "necropolítica" — termo de Achille Mbembe incorporado pela autora — manifesta-se com clareza quando o Estado e grandes corporações agem de forma a gerir quem deve viver e quem pode morrer
Recentemente, conceitos de governança ambiental, social e corporativa (ESG) ganharam força no mercado de capitais, impulsionados em parte pela pressão de movimentos como o Black Lives Matter
Bento enfatiza que a equidade racial está no território da construção de um mundo melhor e mais justo para todos
Reconhecer a branquitude como uma identidade racial que detém vantagens estruturais
. Identificar e recusar sistemas totalitários que se alimentam da exclusão do "outro"
. Fortalecer a autonomia e resistir à desumanização das relações de dominação
. Apoiar a retomada de direitos constitucionais e o fortalecimento de redes de proteção para populações vulnerabilizadas
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