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Entre a paixão e o artifício: o novo “O Morro dos Ventos Uivantes” perde a força trágica do romance de Emily Brontë

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: Divulgação

Adaptar O Morro dos Ventos Uivantes para o cinema sempre foi um desafio delicado. O romance publicado por Emily Brontë em 1847 não é apenas uma história de amor intenso, mas um estudo psicológico profundo sobre obsessão, ressentimento, classe social e vingança. Ao longo das décadas, diferentes versões cinematográficas tentaram capturar a atmosfera sombria do livro, com resultados variados. A nova adaptação, dirigida por Emerald Fennell, surge com a promessa de modernizar o clássico e aproximá-lo de um público contemporâneo. O problema é que, ao tentar atualizar a obra, o filme acaba diluindo justamente o que tornava o romance tão perturbador e singular.

O livro original se destaca por sua estrutura narrativa complexa. A história não é contada de forma linear, mas por meio de relatos dentro de relatos, principalmente pelas vozes de Mr. Lockwood e da governanta Nelly Dean. Essa construção cria uma sensação de distância, como se o leitor estivesse tentando reconstruir um drama passado a partir de memórias fragmentadas. O resultado é uma atmosfera de mistério, ambiguidade e tensão psicológica constante.

A nova versão cinematográfica abandona grande parte dessa estrutura. Em vez de explorar a narrativa em camadas, o filme opta por uma abordagem mais direta e emocional, focada no romance entre Catherine e Heathcliff. Essa escolha torna a história mais acessível, mas também simplifica o material original. O que no livro era um retrato complexo de relações tóxicas e ciclos de violência acaba se transformando, em muitos momentos, em um melodrama romântico de estética luxuosa.

No romance de Brontë, o relacionamento entre Catherine e Heathcliff está longe de ser idealizado. Os dois personagens são impulsivos, egoístas e frequentemente cruéis. O amor que compartilham é destrutivo, tanto para eles quanto para todos ao redor. Catherine escolhe se casar com Edgar Linton por motivos sociais, enquanto Heathcliff se dedica a uma vingança fria e calculada que atravessa gerações. Não há redenção fácil nem romantização da dor.

O filme, porém, suaviza esse aspecto. A relação entre os protagonistas ganha contornos mais passionais e menos violentos, como se a narrativa tentasse transformar o romance em uma história de amor impossível, e não em uma obsessão corrosiva. A química entre os atores funciona em certos momentos, mas a intensidade emocional raramente alcança a brutalidade psicológica do livro. Em vez de personagens moralmente ambíguos, a adaptação apresenta versões mais palatáveis, que parecem moldadas para conquistar a simpatia do público.

Outro ponto em que o filme se distancia do romance está no tratamento do tempo e das gerações. No livro, a história se estende por décadas e envolve a segunda geração de personagens, incluindo a jovem Cathy e Hareton Earnshaw. Essa parte final é essencial para a estrutura da obra, pois representa uma espécie de ciclo de redenção, em contraste com a destruição causada por Heathcliff. A narrativa sugere que, apesar de toda a dor, a vida continua e novos laços podem surgir.

Na adaptação, esse arco é reduzido ou tratado de forma superficial. O foco permanece quase exclusivamente no romance entre Catherine e Heathcliff, o que compromete a dimensão trágica e histórica da história. O livro não é apenas sobre o amor entre dois personagens, mas sobre as consequências desse amor ao longo do tempo. Ao ignorar ou encurtar essa parte, o filme perde uma de suas camadas mais importantes.

Visualmente, a produção aposta em uma estética sofisticada, com cenários elegantes, iluminação cuidadosamente planejada e figurinos que valorizam o glamour da época. A fotografia busca criar uma atmosfera romântica e sensual, com cores quentes e enquadramentos que privilegiam a beleza dos atores. O problema é que essa abordagem contrasta com o espírito do livro.

No romance, a paisagem dos pântanos de Yorkshire não é apenas um cenário, mas uma extensão emocional dos personagens. O ambiente é descrito como hostil, ventoso, isolado e selvagem. A natureza reflete o temperamento dos protagonistas e contribui para a sensação de claustrofobia emocional. No filme, porém, o ambiente muitas vezes parece domesticado, quase decorativo. A brutalidade da paisagem é substituída por imagens elegantes, que priorizam o apelo visual em detrimento da atmosfera opressiva.

Essa escolha estética revela uma das principais fragilidades da adaptação: a tentativa de tornar a história mais sedutora e acessível. O romance de Emily Brontë é desconfortável, áspero e, em muitos momentos, cruel. Ele não oferece consolo fácil nem personagens com os quais seja simples se identificar. O filme, por outro lado, parece interessado em tornar a narrativa mais palatável, apostando na sensualidade, na beleza dos protagonistas e em um tom mais romântico.

Isso não significa que a adaptação seja um fracasso completo. Há momentos em que o filme captura a intensidade emocional do livro, especialmente nas cenas de confronto entre Catherine e Heathcliff. Algumas sequências conseguem transmitir a sensação de desejo reprimido e de fúria acumulada que define o relacionamento dos dois. A trilha sonora, por sua vez, contribui para criar uma atmosfera melancólica, que reforça o tom trágico da história.

As atuações também merecem destaque. O elenco principal se entrega à proposta do filme, e há uma evidente tentativa de construir personagens complexos. No entanto, o roteiro nem sempre oferece material suficiente para explorar essas nuances. Em vários momentos, os personagens parecem presos a arquétipos românticos, em vez de se desenvolverem como figuras contraditórias e perturbadoras, como no livro.

A direção de Emerald Fennell carrega sua marca autoral, especialmente na forma como a sexualidade e a tensão emocional são exploradas. O filme aposta em uma atmosfera carregada de desejo e ressentimento, com cenas que enfatizam o contato físico, os olhares intensos e a proximidade entre os protagonistas. Essa abordagem funciona em alguns momentos, mas também contribui para a sensação de que a adaptação privilegia o romance em detrimento da tragédia.

No romance original, o amor entre Catherine e Heathcliff é inseparável da violência, da humilhação e da obsessão. Não há glamour nessa relação. O que existe é uma ligação profunda e destrutiva, que consome os dois personagens e arrasta todos ao redor. Ao suavizar esses aspectos, o filme transforma uma história de devastação emocional em um romance intenso, mas relativamente convencional.

Essa escolha pode agradar a espectadores que buscam uma narrativa mais acessível, mas provavelmente decepcionará leitores que esperavam uma adaptação mais fiel ao espírito do livro. O que se perde não é apenas a complexidade psicológica dos personagens, mas também a sensação de estranhamento que torna o romance tão único.

O Morro dos Ventos Uivantes nunca foi uma história de amor tradicional. É um retrato de obsessão, vingança e destruição, ambientado em um cenário tão selvagem quanto as emoções de seus personagens. Ao tentar transformar essa história em um romance mais sedutor e visualmente elegante, a nova adaptação acaba sacrificando parte de sua força trágica.

O resultado é um filme que funciona como drama romântico estilizado, mas que raramente alcança a intensidade brutal do romance de Emily Brontë. Para quem não conhece o livro, a experiência pode ser envolvente e emocionalmente eficaz. Para os leitores, porém, a sensação é de que algo essencial ficou pelo caminho — como se o vento frio e impiedoso dos pântanos tivesse sido substituído por uma brisa morna, bonita, mas muito menos inquietante.

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