A obra de Gilberto Freyre representa um marco no desenvolvimento do que ele próprio denomina "Anunciologia", uma metodologia que utiliza os anúncios de jornais do século XIX como fonte primária para a reconstrução da história social e antropologia cultural do Brasil . O autor argumenta que, enquanto a retórica política e editorial da época era frequentemente carregada de interesses e emoções de abolicionistas ou escravocratas, os anúncios possuíam um caráter "objetivo e frio", fornecendo retratos realistas dos escravos através da descrição de suas aparências físicas, temperamentos e habilidades . Esta abordagem permite ao pesquisador acessar a "história íntima" do país, revelando detalhes que muitas vezes escapam aos registros históricos oficiais ou às narrativas românticas . Freyre destaca o valor científico desses anúncios, afirmando que "o anúncio, desde o seu aparecimento em jornal, começou a ser história social e, até, antropologia cultural, da m...
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Vitor Zindacta
Resenha: Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre
A obra Sobrados e Mucambos , de Gilberto Freyre, constitui o segundo tomo da trilogia fundamental sobre a formação da sociedade patriarcal brasileira, sucedendo o texto de tese Casa-Grande & Senzala . Se no primeiro volume Freyre estabelece a plataforma culturalista para romper com o racismo biológico e descreve a integração simbiótica entre senhores e escravos na unidade de produção rural, em Sobrados e Mucambos o foco desloca-se para a dinâmica das transformações e o declínio desse sistema tutelar. A desintegração do patriarcado rural brasileiro e o impacto de 1808 marcam o ponto de inflexão na paisagem social do país. A chegada da Família Real ao Rio de Janeiro em 1808 promoveu uma "radical e carnavalizadora troca de lugar", fazendo com que um Brasil marginal passasse a ser o centro do poder monárquico. A presença física do monarca e da corte alterou a fisionomia da sociedade colonial, centralizando o poder que antes emanava de forma autocrática das casas-g...
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Vitor Zindacta
Titanic não é sobre amor: Uma análise da estética burguesa aristocrata do século XX
Rose e Jack | Titanic | Reprodução Para compreender a trajetória de Rose, é necessário situá-la não apenas como uma indivíduo, mas como o sintoma de uma classe em declínio. No início do século XX, a aristocracia eduardiana enfrentava uma agonia existencial frente ao surgimento do novo capital industrial. O casamento de Rose com Cal Hockley não era uma união afetiva, mas uma transação de fusão de capitais : o prestígio nobiliárquico dos Bukater em troca da liquidez financeira dos Hockley. Sob a lente da sociologia clássica, Rose atua como um agente de sabotagem de classe. Sua "angústia" é, fenomenologicamente, uma recusa em cumprir sua função de mercadoria. No entanto, ao rebelar-se, ela não busca uma emancipação proletária real, mas sim uma apropriação do "exotismo" da pobreza, personificado em Jack Dawson. A Psicologia da Projeção e o Narcisismo Romântico A atração de Rose por Jack pode ser analisada através da teoria lacaniana do "estágio do espelho". Ja...
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