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gilberto freyre livros resenhas sociologia

RESENHA: O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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A obra de Gilberto Freyre representa um marco no desenvolvimento do que ele próprio denomina "Anunciologia", uma metodologia que utiliza os anúncios de jornais do século XIX como fonte primária para a reconstrução da história social e antropologia cultural do Brasil. O autor argumenta que, enquanto a retórica política e editorial da época era frequentemente carregada de interesses e emoções de abolicionistas ou escravocratas, os anúncios possuíam um caráter "objetivo e frio", fornecendo retratos realistas dos escravos através da descrição de suas aparências físicas, temperamentos e habilidades. Esta abordagem permite ao pesquisador acessar a "história íntima" do país, revelando detalhes que muitas vezes escapam aos registros históricos oficiais ou às narrativas românticas. Freyre destaca o valor científico desses anúncios, afirmando que "o anúncio, desde o seu aparecimento em jornal, começou a ser história social e, até, antropologia cultural, da mais exata, da mais idônea, da mais confiável". A partir dessa premissa, o livro se debruça sobre uma massa documental de cerca de dez mil anúncios, especialmente aqueles referentes a escravos fugidos, para interpretar a formação social brasileira.

A análise sociológica de Freyre foca na figura do escravo como um "homem situado", inserido no sistema patriarcal e escravocrático que definiu a economia e a convivência no Brasil Império. Ao examinar os anúncios, o autor identifica uma diversidade de "nações" africanas, buscando esclarecer as origens tribais dos cativos trazidos para o Brasil, um tema até então pouco explorado pela historiografia brasileira. Essa identificação é feita através de marcas corporais, línguas tribais e estilos de trajes descritos pelos anunciantes. Freyre observa que os anúncios registram não apenas as origens étnicas, mas também as transformações causadas pela escravidão no território brasileiro, revelando as crueldades inerentes ao regime. O autor ressalta que "os escravos fugidos eram muitas vezes descritos pelos sinais dos maus-tratos e castigos que sofriam". Marcas de ferro em brasa, cicatrizes de chicotadas e sinais de tortura, como ferros nos pés e correntes no pescoço, eram utilizados pelos senhores como elementos de identificação de sua propriedade humana.

Sociologicamente, a obra desafia a própria tese gilbertiana de uma escravidão supostamente benigna no Brasil, ao evidenciar o sadismo e a violência sistêmica que impulsionavam as fugas. Embora Freyre mencione em outros trabalhos e no prefácio desta obra a existência de relações de brandura ou confiança mútua entre alguns senhores e escravos, ele admite que "benignidade nas relações dos senhores com escravos, no Brasil patriarcal, não é para ser admitida, é claro, senão em termos relativos", pois, fundamentalmente, "senhor é sempre senhor". O anúncio de fuga torna-se, assim, um documento de insubmissão e revolta, refletindo a tensão constante do sistema. Através da análise dessas peças publicitárias, Freyre consegue captar a complexidade da vida cotidiana nas senzalas e casas-grandes, onde o escravo atuava como o alicerce vivo da estrutura econômica, desempenhando funções que iam desde o trabalho bruto no eito até habilidades especializadas em ofícios urbanos.

Freyre também explora a dimensão linguística dos anúncios, vendo neles a expressão de uma "língua brasileira" em formação, mais espontânea e independente do que a literatura acadêmica ou a retórica política da época. Ele afirma que nos anúncios "já se escrevia como se falava: já se escrevia português brasileiramente", incorporando africanismos e brasileirismos que refletiam a oralidade do povo e a interpenetração de culturas. Essa língua dos anúncios, rica em expressões populares, é considerada pelo autor como um dos nossos primeiros "clássicos", por ser franca e cheia de vida. A obra, portanto, não se limita a uma catalogação de tipos físicos, mas busca compreender o processo de aculturação e abrasileiramento do africano sob a égide do patriarcalismo, utilizando o anúncio como um "espelho antropológico" que reflete as contradições e a dinâmica de uma sociedade em transição.

 A "anunciologia" freyriana permite observar como o corpo do escravizado era lido e interpretado pelo olhar do senhor e do mercado, transformando-se em um catálogo de sinais que iam além da mera identificação para se tornarem indícios de resistência ou de adaptação. Freyre argumenta que os anúncios de fuga, em particular, oferecem uma riqueza de detalhes sobre a fisionomia e o temperamento que os registros oficiais de batismo ou óbito jamais alcançariam. O autor nota que "o escravo, no anúncio, aparece como pessoa e não apenas como número ou como coisa", apesar de ser tratado como mercadoria. Essa "personificação" através da descrição detalhada era, ironicamente, necessária para que o sistema de controle e recaptura funcionasse com eficácia. O senhor precisava descrever o fugitivo com tal precisão — mencionando o modo de andar, o timbre da voz, a inclinação da cabeça ou a predileção por certos vícios — que o escravo acabava por emergir das páginas amareladas com uma humanidade vibrante, ainda que sitiada.

A sociologia de Freyre detém-se sobre a estética da escravidão, notando como o "bom aspecto" ou a "figura elegante" eram valorizados comercialmente, criando uma hierarquia baseada em padrões de beleza e saúde que interessavam à produtividade e ao status senhorial. Por outro lado, a descrição de defeitos físicos e doenças — muitas vezes decorrentes da desnutrição ou do esforço exaustivo — revela a face sombria do regime. Freyre destaca que "as moléstias dos escravos, as suas deformidades, as suas cicatrizes de castigos, as suas marcas de ferro" compõem um inventário da dor que desmente qualquer tentativa de idealização romântica do patriarcalismo brasileiro. O autor observa que muitos escravos fugidos levavam consigo as marcas da violência, como "sinais de relhadas nas costas" ou "falta de dentes na frente", elementos que serviam como impressões digitais da crueldade cotidiana. Essa análise técnica evidencia que a fuga não era apenas um ato de abandono de serviço, mas uma resposta física e psíquica a um ambiente de opressão constante.

Outro ponto fundamental tratado por Freyre neste estágio da obra é a especialização do trabalho. Os anúncios revelam uma diversidade de ofícios que demonstra a dependência absoluta da sociedade brasileira em relação à mão de obra escravizada, mesmo nos setores que exigiam alta perícia técnica. Havia carpinteiros, pedreiros, alfaiates, músicos e cozinheiros "de mão cheia", cujas competências eram descritas com orgulho pelos proprietários nos anúncios de venda ou aluguel. Essa sofisticação técnica do escravo urbano contrasta com a visão do cativo apenas como força bruta para o eito. Freyre pontua que "o escravo era o grande técnico do Brasil do século XIX", sendo responsável por manter a infraestrutura das cidades e o conforto das elites. A análise sociológica aqui aponta para uma curiosa contradição: o escravo, embora juridicamente uma coisa, era socialmente um agente técnico indispensável, cuja inteligência e habilidade manual moldaram a cultura material do país.

Freyre também explora a psicologia da fuga através dos anúncios que descrevem o comportamento dos fugitivos. Expressões como "anda sempre sorrindo", "fala muito e com muita desfaçatez" ou "é muito ladino e costuma mudar de nome" indicam estratégias de sobrevivência e simulação que o autor interpreta como formas de resistência cultural. O escravo aprendia a manipular a percepção do branco, utilizando a "máscara" da submissão ou da alegria para facilitar sua movimentação e eventual fuga. Segundo o autor, "a psicologia do escravo brasileiro, através dos anúncios, revela-se rica de matizes", mostrando indivíduos que não eram meros receptores passivos da vontade senhorial, mas agentes que calculavam riscos e exploravam as brechas do sistema urbano para buscar a liberdade. Essa capacidade de agência, documentada friamente nos anúncios de jornal, é um dos pilares da interpretação freyriana sobre a complexidade das relações raciais e sociais no Brasil Império.

 O autor analisa como certos grupos, como os Minas ou os Nagôs, eram tidos como mais inteligentes e propensos à rebeldia, enquanto outros eram vistos como mais dóceis. Essa classificação étnica, feita pelos senhores com base em observações empíricas colhidas no mercado e no dia a dia, alimentava um sistema de estereótipos que Freyre desconstrói ao mostrar como a própria experiência brasileira reformulava essas identidades. O escravo nos anúncios não é apenas um africano exilado, mas um indivíduo em processo de transformação em afro-brasileiro, carregando consigo os estigmas do passado tribal e as cicatrizes do presente colonial, em uma síntese biocultural que Freyre considera única.

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O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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