A obra de Gilberto Freyre representa um marco no desenvolvimento do que ele próprio denomina "Anunciologia", uma metodologia que utiliza os anúncios de jornais do século XIX como fonte primária para a reconstrução da história social e antropologia cultural do Brasil
A análise sociológica de Freyre foca na figura do escravo como um "homem situado", inserido no sistema patriarcal e escravocrático que definiu a economia e a convivência no Brasil Império
Sociologicamente, a obra desafia a própria tese gilbertiana de uma escravidão supostamente benigna no Brasil, ao evidenciar o sadismo e a violência sistêmica que impulsionavam as fugas
Freyre também explora a dimensão linguística dos anúncios, vendo neles a expressão de uma "língua brasileira" em formação, mais espontânea e independente do que a literatura acadêmica ou a retórica política da época
A "anunciologia" freyriana permite observar como o corpo do escravizado era lido e interpretado pelo olhar do senhor e do mercado, transformando-se em um catálogo de sinais que iam além da mera identificação para se tornarem indícios de resistência ou de adaptação. Freyre argumenta que os anúncios de fuga, em particular, oferecem uma riqueza de detalhes sobre a fisionomia e o temperamento que os registros oficiais de batismo ou óbito jamais alcançariam. O autor nota que "o escravo, no anúncio, aparece como pessoa e não apenas como número ou como coisa", apesar de ser tratado como mercadoria. Essa "personificação" através da descrição detalhada era, ironicamente, necessária para que o sistema de controle e recaptura funcionasse com eficácia. O senhor precisava descrever o fugitivo com tal precisão — mencionando o modo de andar, o timbre da voz, a inclinação da cabeça ou a predileção por certos vícios — que o escravo acabava por emergir das páginas amareladas com uma humanidade vibrante, ainda que sitiada.
A sociologia de Freyre detém-se sobre a estética da escravidão, notando como o "bom aspecto" ou a "figura elegante" eram valorizados comercialmente, criando uma hierarquia baseada em padrões de beleza e saúde que interessavam à produtividade e ao status senhorial. Por outro lado, a descrição de defeitos físicos e doenças — muitas vezes decorrentes da desnutrição ou do esforço exaustivo — revela a face sombria do regime. Freyre destaca que "as moléstias dos escravos, as suas deformidades, as suas cicatrizes de castigos, as suas marcas de ferro" compõem um inventário da dor que desmente qualquer tentativa de idealização romântica do patriarcalismo brasileiro. O autor observa que muitos escravos fugidos levavam consigo as marcas da violência, como "sinais de relhadas nas costas" ou "falta de dentes na frente", elementos que serviam como impressões digitais da crueldade cotidiana. Essa análise técnica evidencia que a fuga não era apenas um ato de abandono de serviço, mas uma resposta física e psíquica a um ambiente de opressão constante.
Outro ponto fundamental tratado por Freyre neste estágio da obra é a especialização do trabalho. Os anúncios revelam uma diversidade de ofícios que demonstra a dependência absoluta da sociedade brasileira em relação à mão de obra escravizada, mesmo nos setores que exigiam alta perícia técnica. Havia carpinteiros, pedreiros, alfaiates, músicos e cozinheiros "de mão cheia", cujas competências eram descritas com orgulho pelos proprietários nos anúncios de venda ou aluguel. Essa sofisticação técnica do escravo urbano contrasta com a visão do cativo apenas como força bruta para o eito. Freyre pontua que "o escravo era o grande técnico do Brasil do século XIX", sendo responsável por manter a infraestrutura das cidades e o conforto das elites. A análise sociológica aqui aponta para uma curiosa contradição: o escravo, embora juridicamente uma coisa, era socialmente um agente técnico indispensável, cuja inteligência e habilidade manual moldaram a cultura material do país.
Freyre também explora a psicologia da fuga através dos anúncios que descrevem o comportamento dos fugitivos. Expressões como "anda sempre sorrindo", "fala muito e com muita desfaçatez" ou "é muito ladino e costuma mudar de nome" indicam estratégias de sobrevivência e simulação que o autor interpreta como formas de resistência cultural. O escravo aprendia a manipular a percepção do branco, utilizando a "máscara" da submissão ou da alegria para facilitar sua movimentação e eventual fuga. Segundo o autor, "a psicologia do escravo brasileiro, através dos anúncios, revela-se rica de matizes", mostrando indivíduos que não eram meros receptores passivos da vontade senhorial, mas agentes que calculavam riscos e exploravam as brechas do sistema urbano para buscar a liberdade. Essa capacidade de agência, documentada friamente nos anúncios de jornal, é um dos pilares da interpretação freyriana sobre a complexidade das relações raciais e sociais no Brasil Império.
O autor analisa como certos grupos, como os Minas ou os Nagôs, eram tidos como mais inteligentes e propensos à rebeldia, enquanto outros eram vistos como mais dóceis. Essa classificação étnica, feita pelos senhores com base em observações empíricas colhidas no mercado e no dia a dia, alimentava um sistema de estereótipos que Freyre desconstrói ao mostrar como a própria experiência brasileira reformulava essas identidades. O escravo nos anúncios não é apenas um africano exilado, mas um indivíduo em processo de transformação em afro-brasileiro, carregando consigo os estigmas do passado tribal e as cicatrizes do presente colonial, em uma síntese biocultural que Freyre considera única.

